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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

12
Out20

Quem conta um ponto...

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511 - Pérolas e Diamantes: Humanidades e outras cantigas de embalar

 

No que se refere a matar e a contar os mortos, os seres humanos têm dado mostras de uma meticulosidade admirável. Sobretudo os ocidentais. Por essa Europa fora desfilam os automobilistas em viagem de férias, consultando os seus mapas de estradas tendo em vista encontrar lugares onde existem grandes extensões de cemitérios de soldados, situados em lugares encantadores, que agora fazem parte integrante da paisagem. As elegantes cruzes das sepulturas, distribuídas uniformemente pelos espaços, prestam testemunho acerca dos conturbados tempos da Primeira e da Segunda Guerra mundiais. Nos monumentos espalhados por aldeias, vilas e cidades, podem ler-se, entalhados no mármore, os nomes dos militares mortos em ambas as guerras.

 

Afinal, para que servem? Provavelmente alguém bem intencionado acalentou durante algum tempo a esperança de estar a construir uma alteração radical da forma de pensar o convívio humano, possibilitando uma grandiosa tomada de consciência.

 

Depois de 1945, a paz limitou o desenvolvimento dos conflitos ao abrigo de um protetor equilíbrio nuclear. As sorumbáticas grandes potências prometeram defender a limitação dos conflitos. A consequência de tão boas maneiras foi uma nova mortandade. Mas mais lá para o outro lado do planeta.

 

Contabilizaram-se outra vez milhões de mortos nas guerra da Coreia, do Vietname e do Biafra. Exterminaram-se os Curdos. Fomentaram-se as guerras no Próximo Oriente, a Guerra do Yom Kippur, as guerras indo-paquistanesas e também outras de proporções um pouco menores.

 

Afinal, quem é o responsável por esta loucura? O que leva os seres humanos a exterminarem-se mutuamente? Qual a razão que conduz a que uma grande parte do rendimento de todos nós seja investido em tecnologias de aniquilamento cada vez mais perfeitas e letais?

 

Mas nem só os denominados casos de guerra geraram a morte em massa. Também os processos revolucionários conhecidos de todos nós consistiram em orgásticos exorcismos de morte. Quando não era aquele, era um outro princípio de pureza ideológica que teve como consequência distintos processos de limpeza com desfechos mortíferos.

 

Foi a Inquisição quem aperfeiçoou com requintes de malvadez os métodos de interrogatório para ampliarem miraculosamente a glória de Deus. Sucedeu-lhe a guilhotina, celebrada como progresso do humanismo e do Iluminismo. Depois surgiram os processos purgativos estalinistas que se definiram como clisteres no corpo doentio dos trotsquistas, abençoados por todos aqueles revolucionários que sabiam e também pelos outros que não sabiam o que se estava a passar.

 

E os campos de concentração nazis foram implementados para reeducarem, pela morte, os judeus e outras minorias da mesma estirpe. Foi então que a morte passou a ser um ato administrativo, um mero ato burocrático. Uma estatística.

 

Foram os seres humanos – mais propriamente os do sexo masculino, que, com desapaixonada veemência, animados pelas suas científicas crenças de estarem do lado certo, fixados nos seus objetivos, quais anjos e arcanjos resolutos e totalitários –, anteciparam a morte de outros seres humanos.

 

Claro que também houve os apóstolos da paz, cantando os seus hinos religiosos ou escrevendo tratados filosóficos em sua defesa. De facto, a paz continua a ser uma alegoria virtuosamente interiorizada.

 

Sempre se justificou a guerra com a asseveração de intentos pacíficos, quando não com a sofística distinção entre guerras justas e injustas.

 

Mas isto já vem de longe. Foi em nome do amor ao próximo que se realizaram, e continuam a realizar, as cruzadas.

 

Mesmo as ditas guerras de libertação foram travadas sob coação e até por imposição ideológica externa.

 

O princípio da economia de livre mercado tem como consequência a subalimentação permanente de milhões de pessoas. E não há Guterres que lhes valha.

 

A fome também é uma guerra. E terrível.

 

A história é representada como uma inevitável sucessão de períodos de guerra e de paz, e de paz e de guerra. Como se fosse uma lei da natureza. Como se fosse um destino. Como sendo uma espécie de movimento perpétuo.

 

Por muito que nos custe, tudo tem origem na cabeça dos homens. A perversão é uma criação humana.

 

João Madureira

 

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