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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Jun21

Quem conta um ponto...

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545 - Pérolas e Diamantes: O desperdício

 

Incomoda-me o desperdício. O desperdício de tudo. Até da alma. Eu sou do tempo em que se comia caldo com pão. As entradas eram as ave-marias. E a sobremesa um padre-nosso. A comida trabalhava-se diretamente. Os homens estrumavam as terras com bosta. E com bosta se barrava a porta de ferro do forno onde se cozia o pão. E com ela se tapava a eira para secar o grão e malhar o centeio. Alguns animais tinham até um trato mais cuidado do que os seres humanos. Os bois, ou as vacas, faziam parte da família. Tinham cama limpa e a comida não lhes podia faltar. Podia chover na casa, mas a corte estava sempre abrigada. Os bois faziam os carretos, lavravam os campos e produziam o estrume. Eram animais majestosos, apesar de dóceis e pacientes. O seu olhar parecia sempre doce. Os alpendres das casas estavam remendados com tábuas velhas e a eira era de lajedo. E o caráter da gente estava cimentado pelos anos. Pelos séculos. Dentro das casas guardava-se o pão, a carne e as batatas. O vinho repousava na adega. Na cozinha, a lareira estava sempre acesa. As noites eram escuras e imensas. O inverno permanecia sempre atrás da porta. À noite cheirava-se o isolamento bravio. Nos dias em que cozia o forno, o cheiro do pão inundava os lugares. O bendito cheiro do pão. Por vezes escutava-se o canto dos pássaros e o assobio do vento nos salgueiros. Ainda me lembro das primeiras ervas tenras da primavera. Das mulheres a passarem em frente da casa da minha avó com as gabelas de lenha seca. E também me lembro do cheiro a terra aquecida e molhada. Ou das folhas a fermentarem no chão. Antes do inverno, era frequente os estorninhos puxarem as azeitonas das oliveiras. Depois os dias começavam a ficar mais parados e mornos, porque o sol nascia envergonhado. Os carros chiavam carregados de mato. O bom tempo começava a morrer. A luz tremia. O outono estava por um fio. Lá para dezembro estrumavam-se e lavravam-se as terras para o centeio. Eu olhava com espanto para o meu avô com os socos enterrados nos sulcos, a espicaçar os bois, enquanto, de lado, a minha avó os metia ao rego. O cheiro a esterco era enorme. Noutras leiras, os outros homens faziam o mesmo: deitavam a mão à rabiça e não a largavam. O arado abria o rego e deslocava para o lado a terra luzidia, enfiando no fundo o esterco. E os bois, vagarosos como sempre, puxavam pelo arado, indiferentes aos berros do meu avô. E o avô, curvo, teimava em abrir a terra para lhe enfiar dentro a semente. Lá para o meio da tarde é que se comia a merenda: pão, isco e vinho. Chegada a noite, homens, mulheres e bois recolhiam ao casebre e à corte, cheios de fome e canseiras. Toda a aldeia cheirava a terra e a esterco. Quando se ficava doente, matava-se uma pita e fazia-se um caldo suculento. Se o mal era de morrer, paciência. A avó andava sempre ela e a burra de um lado para o outro. Cheia de trabalho e canseiras. Escondia a sensibilidade. Os sentimentos tinham dificuldade em vir-lhe à superfície. O frio costumava ser mortal para os mais debilitados. Rezava-se entre paredes. Eu fixava-me no terço que corria pelo meio dos dedos magros da avó. No meio da escuridão, apenas reluzia a luz da candeia e o borralho da lareira. E ela sempre a dar-lhe na ave-maria. Por vezes mandava a minha mãe remexer o caldo, porque a avó tinha as mãos ocupadas. Ela nunca deixava cair nada das mãos. Muito menos o terço. Lá fora geava, ou chovia, ou nevava. Depois íamos dormir. Logo pela manhã, a avó acendia a fogueira e punha-se a cantar baixinho. O vento zunia nos beirais dos casas. Quando um aguaceiro passava, logo outro vinha. O pão sabia a dor. E a entrega. E a primavera. E a verão. Tudo corria bem quando as tulhas estavam cheias de centeio e as pipas cheias de vinho. Essa gente queria corresponder ao passado e erguer o futuro dos seus. Esse era o seu conceito de eternidade. O pão que se colhia tinha de chegar para todo o ano. Nós não queríamos encher a barriga. O que temíamos era que o bendito pão não desse para o ano todo. Havia mães que comiam a côdea para dar o miolo aos filhos. E os homens enterravam a mágoa em vinho. Agora o homem tornou-se quase inútil no seu egoísmo. Até simula necessidades que não tem. A terra foi, em tempos, uma coisa muito séria. Hoje é uma inutilidade. Vou acabar citando Raul Brandão: “Eu nunca pude pôr de acordo as minhas ideias com as minhas ações. Se pudesse, já há muito que estava na cadeia.”

 

João Madureira

 

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