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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Dez21

Quem conta um ponto...

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569 - Pérolas e Diamantes: Os círculos intermináveis

 

Atticus, o pai de Jem, aquele senhor que nunca tinha dito que era pecado fazer alguma coisa, avisa o filho de que se vai andar atrás dos pássaros com a sua espingarda de pressão, até pode matar todos os gaios-azuis que encontrar, se lhes conseguir acertar, mas que é pecado matar uma cotovia. Miss Maudie explica mais tarde à irmã de Jem, Scout, que as cotovias não fazem nada a não ser cantar belas melodias. Não estragam os jardins das pessoas, não fazem ninhos nos espigueiros, só sabem cantar com todo o sentimento, para nós. É por isso que é pecado matar uma cotovia. Atticus era, de facto, um ser civilizado do fundo do coração, sabedor de que os cães velhos raivosos tinham de ser abatidos. Na sua juventude tinha sido o melhor atirador da sua cidade. E também era um mestre a tocar berimbau. Como advogado, defendia pretos e por isso era odiado pela maioria da vizinhança, em Maycomb, Alabama. Todos lá no bairro sabiam que as pessoas que estão no seu perfeito juízo nunca se orgulham dos seus talentos. Jem aprendeu, mesmo contrariado, uma coisa com Mrs. Dubose: a verdadeira coragem não está em quem é capaz de empunhar uma arma, coragem é sabermos que estamos vencidos à partida, mas recomeçar na mesma e avançar incondicionalmente até ao fim. Raramente se ganha, mas às vezes conseguimos. No entanto há gente que não deixa escapar uma oportunidade para destacar os defeitos de outros grupos tribais e, ao mesmo tempo, exortar a glória da sua raça. Há raças e racistas para todos os gostos e feitios. Eu não sei se as suas almas florescem. Se assim for, essas são as flores do mal. Por vezes é difícil encontrar a diferença entre o ser humano e o animal. Parece que a estupidez não dorme. E quando ataca deixa marcas profundas. O ódio costuma aprisionar quem o sente. Não existe sabedoria no ódio. Nem nas armas. A tolerância e a não-violência têm de ter paciência de Jó. A ignorância é o pior dos conselheiros. Um inimigo vai para Jerusalém e o outro para Jericó. Ambos avançam para a escuridão. Divide-os um fio de água. Apesar de não parecer, a água dissolve mais substâncias do que qualquer outro líquido, incluindo o ácido. E tudo isso consegue porque, com a sua persistência, quebra as forças de atração que mantêm as moléculas juntas. Ben-Yehuda e Einstein afirmaram que judeus e árabes eram da mesma família e que por isso deviam partilhar a terra e viver juntos. Muitas das palavras hebraicas que Ben ajudou a criar tinham raízes árabes. No fundo, eram línguas irmãs. Por isso as pessoas podiam viver lado a lado. Cristo, que era uma coisa e outra, tentou ensinar-lhes a ética da reciprocidade: Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti. A guerra é uma coisa contraditória: ao mesmo tempo simples e absurda. Há soldados que morrem porque se atrasam a fazer festas a um cão vadio. Ou se intrigam com as nuvens no céu. Ou se demoram a atravessar uma estrada monitorizada pelo suposto inimigo. Alguns rezam as orações com a entoação das tabuadas da multiplicação. No aniversário de uma guerra, o bolo tem de ficar intacto como se fosse um presente para o silêncio. Os bandos de aves da guerra ensombram sempre todas as áreas em disputa. O pai de Bassam manobrava uma azenha no celeiro de uma aldeia chamada Sa’ir. Lá dentro, um cavalo branco andava em círculos à luz de uma candeia de azeite. O cavalo estava vendado para não ficar tonto. Entretanto rodava a trave de madeira que fazia girar uma pedra circular sobre uma fixa, esmagando as azeitonas que libertavam o azeite. O pequeno Bassam não conseguia entender por que razão o cavalo conseguia passar o dia inteiro a andar em círculos e não cair de exaustão. Só um pouco mais tarde é que se apercebeu que eram três os cavalos brancos que se iam alternando. Dois anos depois dessa descoberta, foi introduzido no moinho de azeitona uma prensa elétrica e o trio de cavalos foi levado para um campo pedregoso onde passaram o resto dos seus dias a mover-se ainda em intermináveis círculos.

 

João Madureira

 

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