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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

09
Mai22

Quem conta um ponto...

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589 - Pérolas e Diamantes: Nas cidades medianas e etc...

 

 

Nas cidades medianas, as surpresas são sempre modestas, são como simples variações sobre um tema simples, acompanhadas de bonitas melodias entorpecentes e soporíferas. Quer chova, neve ou faça sol. Até os poucos turistas parecem cansados de tanta calma. A lisonja assemelha-se a uma picada de mosquito. Aqui todos os percursos são previsíveis e as pessoas pacientes. Por aqui, o saber baseia-se na intuição. Os dias passam uns a seguir aos outros e depois confundem-se e confundem-nos. Provavelmente, a monotonia é relaxante. Os dias equivalem-se e as insónias ora diminuem, ora aumentam. Os ontens luminosos onde sonhávamos com os amanhãs que cantavam apagaram-se como fogueiras à chuva. A imobilidade pode ser um incómodo. A cidade tem um acordar cada vez mais tardio. Cansaram-lhe o coração. Dominaram-lhe a alma. Enfraqueceram-lhe as pernas. Agora passeia de andarilho. Pode ser que a farpela que usa seja até de bom tecido. Mas o corpo está velho e gasto. A cidade sempre foi maior do que aqueles que a governaram. Mas as mazelas que lhe infligiram são hoje mais visíveis do que nunca. Os queques provincianos ou se fecharam nas suas casas para esconderem as maleitas ou emigraram para outras paragens. Alguns habitam nos seus apartamentos do litoral onde observam o mar até à exaustão. Por aqui, as hipóteses de progresso estagnaram. Os conhecidos de outras épocas, e os velhos amigos, vão caindo da árvore da vida como frutos demasiado maduros. A boémia é uma coisa antiquada. Todos passaram à reserva, tanto os progressistas como os reacionários. Agora viram à esquerda e à direita, à direita e à esquerda, conforme as ruas por onde passam. E outros ocupam o centro… de dia. Agora é mais tensões altas, diabetes, colesterol e triglicerídeos. Parecem pistoleiros de western sem esporas, coldre, revólver, cavalo, cabelo e dentes. Até as velhas teimosias se tornaram inábeis. Alguns assobiam canções nostálgicas como pássaros de inverno. Os sonhos de outrora são considerados insensatos. Os jovens políticos, honra lhes seja feita, proferem banalidades com elegância e apresentam-se deveras graciosos nos seus fatos-uniforme. O poder está sempre a uma genuflexão de distância. Sabem gerir, mas não governar. Estendem-se na retórica, mas desconhecem a natureza do poder. Sabem cobrar as quotas, preencher fichas de militante e administrar razoavelmente os gadgets de campanha. A administração política não se aprende no programa e nos estatutos dos partidos. Aprender línguas é fácil, o difícil é dizer algo de inteligente ou interessante com elas. À maioria deles sobra-lhes espírito provinciano, mas falta-lhes qualidade e mundividência. Aprendem o significado de um único ato político de cada vez, sem o relacionar com outros. Agarram-se ao trivial. Essa é a sua boia de salvação. Mas boiar não é o mesmo que nadar. Deixam escapar, quando interessa, meios sorrisos e muita vaidade. São bons em conjeturas e adivinhações. A sua expressão amistosa disfarça a incompetência, mas nem sempre o suficiente. A arte está em responder nem sim nem não. A suspensão da consciência, por vezes também pode ajudar a manter as coisas no seu lugar. Mentem de propósito para nos convencerem que estão a dizer verdades como punhos. A verdade e a mentira são entusiasmos. A arte da manutenção reside na repetição. Os propósitos não se julgam, mas os factos sim. O poder é como a cocaína, cria habituação. Por vezes é agradável ir à missa, participar naquilo que todos fazem e ser apenas mais um. E aquilo até dura pouco. E no fim até nos abraçamos uns aos outros como se fôssemos irmãos. O pecado da carne, atualmente já é visto como venial. Quase toda a gente pode comungar, mesmo sem se confessar. As pessoas pensam de uma maneira e exprimem-se doutra. A democracia é uma coisa boa, mas poucos percebem o seu alcance e as suas limitações. As pessoas votam de forma intuitiva, em quem lhes inspira confiança ou em quem lhes mete menos medo. E assim põem tudo nas mãos dos governantes. A verdade é que há demasiadas vozes e demasiada insatisfação. Quem lida com os políticos locais e com as denominadas forças vivas facilmente se apercebe de que a maioria se odeia e se dá muito mal entre si. Nas cidades medianas, as surpresas são sempre modestas, etc…   

 

João Madureira

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