Quem conta um ponto...

593 - Pérolas e Diamantes: Cretinos digitais
O neurocientista Michel Desmurget escreveu um livro cujo título diz tudo, ou quase tudo, sobre o seu conteúdo e ainda sobre estes novos tempos dos videojogos e das redes sociais. A Fábrica de Cretinos Digitais denúncia o óbvio: “Essas indústrias sabem que nos estão a vender merda.”
É um mito a ideia de que a tecnologia está a tornar os “nativos digitais” mais espertos e também é mentira que o digital seja, sequer, um progresso pedagógico.
A indústria dos videojogos e das redes sociais está a fazer uma operação de “descerebração” a uma escala nunca vista.
A verdade é que as nossas crianças não utilizam as novas tecnologias para ler uma página que seja de “Os Maias”. E muito menos do “Memorial do Convento”. E, ao que se sabe, nem sequer consultam tutoriais sobre a maneira como se resolvem equações de segundo grau.
Os estudos científicos revelam que há muita coisa que já se revelou ser prejudicial e negativa para o desenvolvimento das nossas crianças e jovens.
Não interessa o que elas poderiam fazer com o digital no mundo ideal. O que sabemos é que as crianças e os jovens utilizam os ecrãs para entretenimento.
Os números dizem-nos que as crianças com cinco anos passam cerca de três horas por dia à frente dos ecrãs, que as de oito anos passam cinco e os adolescentes sete. Somando essas horas todas até aos 18 anos dá-nos o equivalente a 32 anos letivos. É muito mais do que passam na escola. É uma loucura.
Tudo isto cria adição, que não será apenas a adição a ecrãs mas o desenvolvimento de uma maior suscetibilidade para a adição em geral. Há então um risco de menor desempenho cognitivo, de menor concentração e um maior risco de dependência.
Quando se repara no comportamento das crianças, o primeiro ecrã continua a ser a televisão: as séries, os filmes, o streaming, a Netflix.
O segundo ecrã são os jogos. Entre as crianças dos 2 aos 12 anos, representam mais de 90% do uso.
Em terceiro lugar surgem as redes sociais, especialmente entre os adolescentes.
Sabemos que a televisão na sala, os tablets e os smartphones não são a mesma coisa. Mas um smartphone é, ao mesmo tempo, uma televisão e uma consola de jogos. É assim que são usados pelas crianças.
Os estudos revelam que os bebés dos zero aos 2 anos passam cerca de 50 minutos em frente a um ecrã. Entre os 2 e os 4 anos chegam às duas horas e quarenta e cinco minutos por dia, que corresponde a um quinto do período normal de vigília da criança. São mais de mil horas por ano.
Michel Desmurget fez as contas e concluiu que, quando chegam ao 18 anos, o tempo de ecrã equivale aos tais 32 anos letivos ou a 15 anos num emprego normal. E a grande maioria do tempo foi gasto em entretenimento que não constrói o cérebro e, o que ainda é mais grave, torna mais difícil o seu desenvolvimento.
Há um estudo que revela que quando uma criança passa 50 minutos por dia em frente ao ecrã, equivale ao fim de dois anos a 600 horas, que é a duração de um ano letivo do pré-escolar, o que representa, em termos de aquisição de linguagem, a perda de 200 mil declarações , ou seja, a perto de 850 mil palavras não ouvidas.
Uma das primeiras vítimas do ecrã são as interações familiares. Numa criança de dois anos, por cada hora em frente ao ecrã, elimina-se 50 minutos de interação verbal.
Em França saiu um relatório, relativo ao confinamento, a dizer que o digital foi um desastre pedagógico. Um das razões é porque os miúdos não têm as competências básicas para usar e-mails, pdfs, etc.
Um relatório PISA, da OCDE, refere que eles são bons a resolver tarefas concretas, tais como: ligar um leitor de som, ligar o ar condicionado ou comprar um bilhete de comboio na internet. Ora isso é perturbador.
No livro “Admirável Mundo Novo”, fala-se em duas castas. Os alfas pensam, possuem informação contextualizada, vocabulário, conseguem concentrar-se e são intelectualmente saudáveis. E depois há os gamas, uma enorme população, que compra pão, vai ao restaurante, fazem tudo mas não possuem competências para pensar o mundo.
As crianças que estamos a criar conseguem carregar num botão para jogar ou descarregar uma app, mas falta-lhes o que faz de nós humanos: linguagem, conhecimento, cultura.
E é a cultura aquilo que nos permite pensar o mundo.
Sabem distinguir entre o Facebook e o Instagram, mas a capacidade para perceberem aquilo que leem é muito baixa.
Estudos revelam que os piores alunos na China são melhores que os alunos médios na OCDE.
Os estudos também dizem que o QI dos países da Europa está a descer. Esta é a primeira geração onde isto acontece.
Em Portugal também já vai sendo difícil encontrar professores. São tão mal pagos que já ninguém o quer ser.
Todas as investigações revelam que quanto mais se põe o digital nas escolas, menos as crianças aprendem.
João Madureira


