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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

27
Jun22

Quem conta um ponto...

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595 - Pérolas e Diamantes: Depois de desligar o telefone...

 

Depois de desligar o telefone deu-me uma forte vontade de tomar uma aspirina efervescente e beber uma taça de silêncio. Estou mal disposto. Pode não parecer, mas vou para velho. Até já me chateio menos com os filmes chatos que os críticos de cinema dos jornais dizem apreciar. Ai Godard, Godard, que vontade de te apreciar. A gente de hoje gosta muito de passear de carro e de ir encalhar-se aos fins de semana em restaurantes barulhentos. Vivemos no tempo das paixões limitadas e dos costumes apriorísticos. É tudo tão politicamente correto que dá vontade de ser, pelo menos, xenófobo por uns minutos. Ler o Tio Patinhas e ouvir Júlio Iglésias são as referências culturais da nossa classe média. O Mandrake já ninguém conhece e a Chavela Vargas também não. Com crisálidas assim o eu tende a expandir-se quase até ao infinito. Ou ainda mais além. Então, o país progride ou quê? Agora é mais peixe e vegetais para combater o colesterol e melhorar os intestinos. O melhor é ir ver à Wikipédia o significado de celibato, epistemologia e transgénero, não vá o Diabo tecê-las. Toda a seriedade nos cabe dentro da fantasia. E o ventinho volta a soprar lá da serra. Um vento provisório e instável. Deu-nos agora para andarmos a reciclar Richelieus e a pô-los à frente de gabinetes. O nosso D’Artagnan não tem escapatória. Não encontra nem a história certa nem o caminho de saída. Ainda me lembro de ficar atrapalhado com a hóstia pegada ao céu da boca e eu a tentar mexe-la com a língua, dado ser pecado trincá-la, pois aquele bocadinho redondo de pão ázimo era, para todos os efeitos, o corpo de Cristo. Era no tempo em que as catequistas cheiravam a remédio e davam bofetadas por não sabermos o catecismo na ponta da língua. Era também o tempo em que nas festas recebíamos revólveres de fulminantes e corríamos pelas pradarias a dar tiros nos índios. E soprávamos gaitas de centeio. E partíamos vidros com as bolas de futebol. Mais tarde imaginávamos ser o Sandokan, o Tigre da Malásia, esse personagem lindo, moreno, de turbante, barba bem aparada, olhos verdes a combinar com o rubi no meio da testa. O nosso alimento intelectual era a leitura do Mundo de Aventuras, do Cuto, do Jacto e da revista Tintim, a cargo do Vasco Granja e do Dinis Machado. Depois meti o dente em Dostoievski e foi o cabo dos trabalhos. Mas ainda hoje me orgulho desse pequeno sacrifício. E também dos filmes que vi no cinema da minha aldeia, num pátio grande, projetados num lençol branco amarrado à parede. E nós sentados em bancos corridos de madeira. E nas nossas costas a lente do projetor que trepidava como a máquina de costura da mãe. Não era fácil aguentar duas horas de filme sentados em bancos sem costas. Por vezes a imagem desfocava, outras parava e víamos o fotograma a queimar-se com o calor da lâmpada, por entre os protestos dos adultos e os gritos das crianças. Era então quando os índios e os cobóis tinham de interromper a batalha por alguns minutos enquanto o senhor da máquina de projetar cortava e emendava o celuloide. Mas tudo acabava em bem. Depois muitas das viúvas choravam porque ninguém lhes conseguia curar a solidão. Já os homens casados bebiam na taberna vinho até não poderem mais. E assim fui crescendo, atravessando a adolescência sem dar por ela. Ou ela por mim. A mãe começou a galgar anos como se subisse escadas a custo. E o pai fumava e bebia cada vez mais. Passei a viver, no bairro, entre contrabandistas, guardas e artistas de circo. E também ao lado dos maníacos dos pombos-correios. E a mãe insistia sempre em me cortar as unhas, pois cresciam como se eu fosse um esfomeado. Ainda me lembro do poço e da capoeira e do automóvel em quarta mão do vizinho, que era o principal motivo de todas as discórdias e embirrações familiares. A verdade é que as pessoas se habituam a tudo. Até à pobreza. A seguir chegou a vida metódica, o levantar cedo para ir trabalhar, o pequeno-almoço temperado umas vezes com paciência e outras com mau-humor. E as rotinas. Emprego. Casa. Jantar. Filhos para criar. Otites. Amigdalites. Gripes. Antibióticos. E papas Cerelac. Mas não me lembro de gente desempregada. Só de donas de casa cansadas. E da tristeza das tardes de domingo. E da tristeza das segundas-feiras. E o D. Quixote sempre a acompanhar-me e a lutar contra os moinhos de vento, a lutar contra tudo isso e a perder constantemente. Os livros são um perigo.

 

João Madureira

 

 

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