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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Dez22

Quem conta um ponto...

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615 - Pérolas e Diamantes: A Direita

 

Não há que enganar, nem deixar-nos enganar. A ambiguidade humana é eterna, sempre a oscilar entre a valentia e a cobardia, entre o egoísmo e a magnificência, entre a amabilidade e a crueldade. Entre a guerra e a paz. Entre a Direita e a Esquerda. A verdade é que a Direita portuguesa, a visível, por causa do seu complexo de inferioridade democrática, tenta imitar a esquerda em quase tudo. Por isso é que o povo português, no dia das eleições prefere o original à imitação. E a Esquerda, de uma forma quase inverosímil, tem tentado de várias formas organizar a irresponsabilidade, até porque a sua essência, e poder, é essencialmente político-cultural. A Esquerda pensa que é, e com alguma razão, diga-se de passagem, moralmente superior à Direita. O fascínio da Direita pelo reacionarismo impede-a de conquistar o centro. A Direita portuguesa vive, não da afirmação de uma ideologia política, filosófica ou social, mas da difusão da ideia de um espaço de “não socialismo”. A maior parte dos partidos de Direita tem uma espécie de vergonha em se afirmar como tal. Dizem apenas que não são de Esquerda. Que se posicionam ao Centro. Mas aí está o PS, um verdadeiro glutão, que se alimenta essencialmente desse espaço político para ganhar eleições e formar governos. E a Direita continuar a invocar o nome de Francisco Sá Carneiro em vão foi chão que já deu uvas. A invocação deliberada do Santo da Ladeira da Direita pode ajudar a limpar a alma dos pecados políticos cometidos, mas já não arregimenta vontades, nem dá votos. É bom para converter convertidos mas não conquista nada nem ninguém fora dessa bolha ideológica. O melhor mesmo é deixarem os santinhos, inclusive o beato Salazar, e dedicarem-se a redigir um novo missal ideológico. A Direita lusa, apesar de algumas experiências editoriais inovadoras, continua a ser conservadora, chata, beata e de fato às riscas. A Direita também tem direito à sua cultura de indignação. A Direita tem de se libertar da ideia feita da sua pretensa menoridade intelectual. A maré intelectual da Esquerda é mais um mito urbano. E também já foi chão que deu uvas. Mas o assédio cultural da Extrema-Esquerda no país, nomeadamente nas grandes cidades, continua a ser um facto. Continua a persistir no espaço não socialista a prudência em evitar o rótulo de Direita. A Direita continua a reagir contra a Esquerda, mas sem ter uma base ideológica estruturada por detrás. É muito mais de reagir do que de agir. A verdade, apesar de não parecer, é que a Direita tem bons intelectuais que deviam ser lidos e estudados por todos, até pela gente de Esquerda. Lembro, entre muitos outros: Michael Oakeshott, Roger Scruton, Isaiah Berlim, Raymond Aron, Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, Martin Heidegger, Carl Schmitt. Convém perceber que tanto a Esquerda como a Direita portuguesas gostam pouco de ler e ainda menos de estudar. Vivem de clichés, frases feitas e palavras de ordem. A Direita ainda é maioritariamente provinciana, paroquiana, autossatisfeita, autocomplacente, amorfa, hesitante, bloqueada e receosa. É demasiado reverente com a autoridade. Tem medo da sua própria sombra. Aposta quase todas as fichas na dimensão económica, desvalorizando sistematicamente a dimensão cultural, ideológica e política. É por isso que não cresce. Atualmente nem sequer empata com a Esquerda. Perde sempre. A sua obsessão pelo poder tem originado contorções ideológicas muitas vezes risíveis. A Direita ainda é muito de toiros, fado marialva, futebol e Fátima. Defender o aburguesamento do tecido social português não é propriamente a melhor maneira de conquistar o eleitorado numa sociedade pobre e pouco desenvolvida. Quando a esmola é grande o pobre desconfia. A Direita continua a ser pouco sensível ao cosmopolitismo. A Direita, para o bem e para o mal, se assim se pode dizer, é profundamente provinciana. Muito mais do que a Esquerda. Claro que a Esquerda lusa também é provinciana, mas disfarça muito melhor essa sua característica. A Direita ficou satisfeita com o sucesso da década cavaquista, com o seu economicismo, não investindo no combate das ideias, por o achar uma característica da Esquerda. E isso foi-lhe fatal. O estilo paternalista e da retórica da aproximação aos coitadinhos, típica da elite do Estado Novo, já não serve para nada.

 

João Madureira

 

 

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