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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

23
Jun25

Quem conta um ponto...


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735 - Pérolas e Diamantes: É tão bom ter saudades!

 

E por aqui andamos a esgrimir argumentos contra o vento, contra as muralhas de granito, contra as pedras da calçada. Sempre com um descuido infantil que nos leva a ser detestados por uns e mal-amados por outros. E por aqui continua pasmada e blandiciosa a nossa urbe. Todos nós sofremos, sem quebra de vontade, as admiráveis qualidades de quem nos governa. Com candura. Com um certo alheamento real que faz de nós aquilo que somos. Mantendo-nos como reclusos voluntários neste imenso e frondoso jardim, onde corre um perfume almiscarado, auxiliado pelas brisas da montanha. Dando, os mais devotos, graxa aos santinhos, alimentando os brandos costumes, colorindo a mística, praticando os sagrados mandamentos da lei e da grei, submissos uns, insubmissos outros, mas estes últimos já sem o militante ardor fanático. Nisso fomos progredindo razoavelmente por obra e graça do Divino Espírito Santo. Amém. Nos dias de primavera, levitamos como flores nesta prosaica urbe. Uns continuam a professar a sua fé católica e outros a praticar o seu dom, quer ele seja literário, plástico ou musical. Cada um com a sua mania, a que associam o respetivo engenho e arte. Subversão e consciência fazem parte do foro íntimo de cada artista. Por vezes há festa na paróquia, muita dela santa, mas também existe a outra quota parte de pândega profana, altamente subsidiada pelos ilustres autarcas, que não se cansam de esbanjar dinheiro em música pimba, com uma ou outra exceção, e  foguetório preso e solto, tão ao gosto do nosso querido povo povinho povo. Todos entre a dança e a contradança. Todos entre a hóstia e o folar, entre a água benta e o vinho tinto de garrafão. Tudo na boa paz do Senhor. Já não é o bodo aos pobres, mas foi lá que se foi inspirar. Os bons hábitos e os singelos costumes fazem parte da nossa herança cultural. Pai nosso. Caldo grosso. Chicha gorda. Não tem osso. Come tu. Que eu já não posso. Pai nosso. Rilha o osso. Rilha tu. Que eu já não posso. Avé ... Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!!! Pronto. Basta. Chega. De inspiração. As boas práticas e primícias continuam nos Paços do Concelho. E a igreja da diocese continua limpa e bem iluminada, à semelhança e imagem de quem a administra e utiliza. Até já há muito bom jacobino que a frequenta sem que ela lhe caia em cima. Os cérebros dos homens pós-modernos são cada vez mais monomaníacos. Tem dias em que a nossa cidadezinha fica alegre e buliçosa, onde alguns turistas andam à procura de pedregulhos afonsinos embutidos, dos negros brasões e de outras coisas típicas e classificadas. Pelos arredores passeiam os admiradores de pedras, pedrinhas e calhaus, no rasto de dólmenes, castros, torres, calvários e outras pitorescas e respeitáveis ruínas. No burgo, ao entardecer, uns bebem o chá das cinco nas pastelarias e outros o fino das seis nos bares da praça. Nasce e põe-se o sol sempre a iluminar o cinzento das muralhas e as ameias da torre do castelo, onde as andorinhas lançam guinchos enquanto sulcam o céu azul. Só falta pôr cá um discípulo de José de Arimateia especializado em pregar cruzes e esculpir túmulos para que a nossa santa terrinha se torne num lugar de peregrinação. Mas, por muito que nos custe, já não bate por cá o coração de outras eras. Antigamente havia calúnias e desonras. Agora é mais vícios. Tudo ao molho e fé na ciência. Antigamente, até as sinetas das capelas emitiam um som lânguido e feminino. Agora já ninguém distingue o trigo do joio. O feminino do masculino. Perdeu-se o timbre da blandícia. O temente e delicioso sobressalto do amor. Agora é mais sexo e força. As lindas cachopas já não usam minissaias. Já ninguém vive na cidade, mas em vivendas espalhadas pela veiga. Do esplendor antigo não restam mais que sombras. Enegrecem as escadarias dos solares, ninguém as sobe e as desce. Esfarelam os azulejos ao longo dos muros dos jardins. Por todo o lado alastra o musgo aloirado, paradoxalmente muito vivo e viçoso. Lucilante, como diria o mestre Aquilino Ribeiro. Por entre as ruínas, por vezes, ainda é possível ver as glicínias dos tempos da magnificência a serpentear. Mete dó observarmos as ruínas a arruinarem-se sem que alguém de posses, ou bom gosto, lhes deite a mão. E algumas lágrimas nos vêm aos olhos quando vemos, ouvimos e cheiramos um carro de bois a conduzir o estrume à horta. É tão bom ter saudades.  Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!!!

João Madureira

 

 

 

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