Quem conta um ponto...

738 - Pérolas e Diamantes: Neste dito estado...
Neste dito estado democrático, não existe censura. Lá isso não, mas os níveis de autocensura, sobretudo na comunicação social, são inquietantes. Os ditos comentaristas, e até muitos dos jornalistas, têm como tarefa tentar adivinhar o que é preciso dizer e o que não deve ser referido para conseguirem manter o seu estatuto e, sobretudo, o seu emprego. A finalidade da autocensura é conseguir continuar agarrado a um bom salário. A escolha não é entre ter emprego ou estar no desemprego. Mas entre ganhar um modesto ordenado ou auferir uma pequena fortuna. Qualquer jornalista encartado tem a opção de passar para as publicações da internet, que são, dentro do limite, mais ou menos livres de ali dizerem o que querem. E também há um par de jornais onde ainda se goza de uma relativa liberdade. Só que onde existe essa liberdade, os salários são sempre baixos e pagos, muitos deles, irregularmente. A fartura vai toda para os meios de comunicação social que vão à bola, e também ao casino, com o poder. Com o poder estatal e o poder privado, sobretudo instalados em redor das empresas que deles dependem. Que ora são nacionalizadas, como logo de seguida voltam para as mãos dos privados por tuta e meia. Não nos podendo esquecer dos incríveis escritórios de advogados onde tudo se fabrica. Leis e pareceres. E todas as manigâncias possíveis e imaginárias. Os grandes criminosos não estão presos. Por alguma razão será. Os apresentadores de televisão leem as notícias quase sempre manipuladas que lhes põem à frente. Omitindo tudo aquilo que possa incomodar os seus patrões, públicos ou privados. Até porque, objetivamente, são iguais. Enfrentam a terrível escolha entre continuarem a vestir Gucci ou Versace ou a enfiarem-se em roupas compradas na Zara. Não se trata de empenho ideológico. Muitos nem sequer sabem o que isso é. O seu único compromisso é com o seu estatuto de figuras públicas e com o seu próprio bem-estar económico e financeiro. Muitos até publicam livros que dizem escrever. O resultado é que as estações de rádio e de televisão, e os ditos jornais de referência, difundem as notícias que interessam aos seus donos. Os ditos serviços de informação estão apenas interessados em fingir. O problema maior é que o povo povinho povo lê, ouve e cala. E a nossa elite política, tanto a que está no poder, como a que se encontra na oposição, prefere deixar que as coisas vão andando, ao passo lento das tartarugas. Esta nossa vida pacífica tem um preço. O da imobilidade. A mentalidade de servos da gleba ainda não abandonou este povo povinho povo que arrasta os pés e canta o hino que lhe ensinaram da prometida terra da fraternidade. Infelizmente, não há milagres. Uma coisa está provada, este projeto político central de na economia tender para o liberalismo e no que se refere às responsabilidades do Estado e às da sociedade tenderem para o socialismo, apenas serve os de sempre. As paixões partidárias baseiam-se, sobretudo, em quem vai ser o manda-chuva do partido e não em relação ao que se poderá fazer pelo eleitorado. Apesar dos bonitos discursos de circunstância, ninguém se interessa pelo Zé-ninguém. Apenas lhe cobiçam o voto. Esses tais que se designam como democratas. Os partidos não só distorcem a informação, como a própria realidade. Com tanto democrata corrupto, apenas rezo para que a palavra “democrata” não se transforme num palavrão ou num insulto. Estes democratas de pacotilha estão a transformar a democracia numa caricatura. E a última coisa a fazer é defender a ideia de que é razoável sacrificar a verdade para salvar a democracia. O povo é cada vez mais indiferente a tudo o que é político. Todos sabemos que não existe no mundo uma sociedade melhor do que a democrática. Mas. Mas este tipo de democracia que nos leva a becos sem saída tem de ser renovado. Reinventado. Esta democracia lusa até parece promover a boa-vontade. Mas quem é que controla a realidade? Não vale encolher os ombros. Uma democracia que dá coices não deixa que ninguém dela se aproxime. E ao longe todos os burros são pardos. Já chega de traficantes de compromissos.
João Madureira


