Quem conta um ponto...

739 - Pérolas e Diamantes: O unicórnio em terra de burros
Depois da desvalorização da moeda democrática portuguesa, continuamos a declinar do absoluto para o obsoleto. É triste, mas é verdade. E olhem que não vale a pena ter razão. Isso é o que menos interessa às pessoas. E, sobretudo, aos seus líderes. José Estaline disse que na guerra ter mais soldados, mais armas, mais munições, mais aviões ou tanques é determinante. E olhem que ele sabia muito bem daquilo que falava. A quantidade tem uma qualidade muito própria. Quem tem mais armas e pessoas, aguenta mais tempo e desgasta o inimigo. Acabando por vencer pela persistência e reposição. A razão e a verdade são pormenores sem importância. Ninguém lhes liga. Falando agora a sério, tudo isto é verdade. Falando agora a brincar, tudo isto é verdade. A realidade é uma faca de dois gumes. De um lado corta. E do outro também. Tentar dizer a verdade no meio de mentirosos cria a sensação de que aquele que a diz é que está a mentir. Quem diz a verdade, ou a tenta dizer, até no nosso burgo, é perseguida, coagida e boicotada. Por isso é que a grande maioria dos escrevinhadores se limitam a fazer autocensura e a louvaminhar as pífias e desinteressantes atividades culturais e afins. Fazem propaganda disfarçada de opinião ou notícia a troco de uns trocados. Não há almoços grátis. O poder parece sempre destinado ao mesmo tipo de pessoas. Os outros não têm lugar no jogo das cadeirinhas. A sensação de risco é cada vez maior. Do lado do poder executivo o descaramento e o desassossego são tantos que um dos nossos governantes, também ele a contas com processos judiciais, considerou que a Entidade para a Transparência está a extravasar as suas competências e que tem de acabar o tempo das demissões por questões de justiça. Qualquer dia nem vai ser preciso ir a votos. E os tribunais passarão a ser redundantes. Um político que está a contas com a Justiça, José Sócrates, independentemente da matéria de facto em julgamento, tem exibido um comportamento execrável na sala de audiências, desrespeitando de forma flagrante o tribunal, utilizando atoardas e atritos dignos de uma pessoa mal-educada, demonstrando que não passa de um arruaceiro que apenas pretende sabotar uma das poucas instituições credíveis e nucleares do Estado de direito democrático. Na saloia tentativa de a fragilizar ainda mais. A sua atuação não é apenas um pormenor irrelevante, como argumentam alguns dos que o defendem, é uma indecência. E pensar que José Sócrates foi secretário de Estado, ministro e primeiro-ministro, apenas nos pode levar ao ceticismo mais absoluto na política e nos políticos. Nós apenas queríamos que um nosso ex-governante nos explicasse como conseguiu acumular os milhões de euros que estão envolvidos no processo. Como conseguiu viver luxuosamente em Paris. Qual a origem do dinheiro, pois agora já sabemos que o argumento da fortuna familiar é uma mentira e que os ditos empréstimos bancários não davam nem para pagar aos empregados. É fácil concluir que durante anos tivemos um primeiro-ministro com comportamentos éticos gravíssimos. É triste e penoso ver um ex-primeiro-ministro a fazer comícios à porta do tribunal. E até lá dentro. Ataca e ofende toda a gente, juízes, magistrados, políticos adversários e, sobretudo, jornalistas. Quer dar-se ares de um unicórnio em terra de burros. O que ele se recusa a fazer é aquilo que verdadeiramente interessa, explicar ao povo, sobretudo aquele que o elegeu, a origem e os motivos que levaram um seu amigo a entregar-lhe pipas de dinheiro, sob a forma de “fotocópias”, “dossiers”, “documentos”, “livros do Duda”, ou “bocadinhos daquela coisa que gosto muito”. Ou a fonte de financiamento que lhe permitia pagar férias principescas, viagens e obras em casas luxuosas em Paris, dispondo a seu bel-prazer de volumosas quantias, como se fossem suas. Acaba por ser assustador pensar que este homem comandou os destinos do nosso país como se fosse uma coutada sua. Este é, com toda a probabilidade, o julgamento do regime. E, como não podia deixar de ser, está a revelar-se um espetáculo deprimente. Quanto mais se investiga, mais nos convencemos de que toda a vida de José Sócrates, antes e depois de chefiar o governo, é uma sucessão de mentiras e trapalhadas. Tudo feito à imagem e semelhança da sua licenciatura domingueira. Os mitómanos são assim.
João Madureira


