Quem conta um ponto...

754 - Pérolas e Diamantes: Apesar de...
Apesar de se olhar para as coisas com olhos de ver é necessário ter o máximo de cuidado com o imprevisível. Depois do gesto magnânimo, devemos deixar transparecer um certo toque de ignorância. Quando se volta para a província é ajuizado cultivar o jardim e evitar olhar para a sebe dos outros. E ir por aí fora mirar as coisas, olhar para as pessoas, fazer pequenas viagens pelas aldeias, jornadas privadas de descoberta. De certeza que havemos de descobrir muitas mudanças, umas boas e outras más, e até encontrar lugares onde as mudanças nunca chegam. Também é avisado cada um livrar-se de convites indesejáveis. Por vezes mostram-nos fotografias a sépia de gente importante que já ninguém conhece. Todos estamos tão acostumados a distribuir amabilidade e benevolência que qualquer tipo de confronto de baixa intensidade nos perturba bastante. A boa vontade, na província, onde todos se conhecem, pode causar aversão. É frequente andarmos com o olhar para a frente e para trás a ver se o conseguimos pousar nalgum lado que não seja notado ou que não pretenda incomodar. Não vale a pena pensar no tempo que já passou. A saudade portuguesa está a perder a sua autenticidade. A província é um lugar, ou, pelo menos, parece. E quando encontramos os velhos amigos, depois de olharmos gravemente uns para os outros, todos bebemos fazendo floreados. Logo depois começa o relaxamento. E enquanto vem outro copo, começa-se a falar de política e, durante algum tempo, passam-se bons momentos a ver quem consegue falar o pior possível do partido que está no governo e na câmara municipal e na junta de freguesia. E também dos sindicatos, do sistema educativo, do serviço nacional de saúde, da justiça, da segurança social, da televisão, dos negros e dos árabes, dos jovens e dos idosos, dos homossexuais, etc. Claro que tudo isso pode parecer pouco decente, mas é agradável. Claro que todos se sentem uma pequena fraude, mas uma fraude que se denuncia a si própria é bastante mais credível do que uma fraude escondida. Falar contra si próprio é difícil, mas continua a ser muito admirado, mesmo na província. E, depois de ainda mais um copo, que eufemisticamente se chama digestivo, ou aperitivo, conforme estamos antes ou depois do repasto, os espíritos tendem a animar-se mais um pouco. Entretanto, alguém começa a sugerir distintos lugares para se visitar. E, indistintamente, o resto da rapaziada amiga volta a discutir e a trocar recordações, sobre eles e sobre alguns outros de que se lembram melhor. E agora algo de completamente diferente. As estradas portuguesas são coisas estranhas. Servem para trazer poucos até à província e para levarem quase todos até ao lado de lá. Onde quase todos vivem. Em territórios pequenos e bem delimitados, bem regados por dinheiros públicos que quase ninguém contesta. Entre as colinas e os rios, entre o bom-senso e a paródia, entre o deve e o haver, entre o nada e coisa nenhuma. Os bonzos da União Europeia tudo fizeram para uniformizarem as maçãs, a carne do bife de bovino, caprino, ovino, avícola e suíno, a dimensão das ereções e dos preservativos e das vaginações e dos pneus dos carros e da abertura das bocas perante o espanto e da lista de insetos raros e da extensão dos nomes. E para uniformizarem pobres e burgueses e capitalistas e homossexuais e negros e anões e marrecos e pedófilos e padres e freiras e corruptos e as garrafas de vinho e de cerveja e até o amarelo deslavado dos tremoços. E a velocidade das carripanas e a biqueira dos sapatos e o tamanho da gordura dos gatos e a intensidade máxima do ladrar dos caninos. Que saudades de ir mijar em urinóis que foram a principal inspiração de Duchamp. Tínhamos, sem nos apercebermos, a perceção da arte que era a base da confiança na democracia que estava para vir ou que se encontrava em construção. Agora, cada vez mais vezes nos passam pela cabeça os pensamentos mais banais e inesperados sobre a passagem do tempo. A verdade é que as coisas que se passaram há mais tempo ainda parecem as mesmas só que com mais peso e mais rugas e mais tédio. Mas as diferenças não são bastantes para que se faça disso um drama. É sempre melhor mudar de rumo enquanto descemos, pela simples razão de que é mais fácil e até mais rápido.
João Madureira


