Quem conta um ponto...

755 - Pérolas e Diamantes: A monotonia da província
A monotonia da província, à falta de melhor, acaba por ser terapêutica. É bom interromper o stresse a que estávamos habituados, mas a modinho, para não sofrermos um choque. Mudanças súbitas podem matar. É também agradável ver alguns semijovens elegantemente vestidos que encarnam perfeitamente o papel de presidentes de câmara ou de coisas afins, inaugurando coisas pretensamente esculpidas em metal na coroa dos plintos. Depois cai o pano e aparecem aquelas formas bizarras que espantam as forças vivas da cidade, que, mesmo assim, batem palmas de forma esfuziante, não vá o pobre escultor, centro das atenções durante alguns segundos, sentir-se menosprezado. Ele e a sua arte. Alguém discursa, sem saber bem o quê. E todos pensam, inclusive o palrante, que passariam bem sem ouvir boa parte de tudo aquilo. E dá um certo conforto verificar que em todas as cerimónias, por mais insignificantes ou importantes que sejam, encontramos sempre presidentes e comandantes dos bombeiros. E também o senhor abade, com olhos de goraz, e o comandante da tropa fandanga dos seguidores e discípulos de Baden Powell, com os seus ridículos calções, meias e chapéus. Sempre. Finalmente, acabamos todos por reconhecer que aquilo que puseram por cima do plinto, não sendo um grande exemplo de arte figurativa, é um excitante passo em frente para a nossa cidade. A arte é sempre bem-vinda. E digo isto sem qualquer tipo de ironia. Estes eventos fazem parte dos muitos dias mágicos que se passam na província. Por aqui, toda a gente tem uma ideia de quem são os outros, o que ajuda nos contactos, na conversa e na aversão surda e muda que partilham, enquanto se passeiam pelo meio dos salgadinhos, dos bolinhos, das miniaturas dos pastéis de Chaves e solicitam uma bebida ao barman. E não vale a pena evidenciar perplexidade, mesmo de forma ligeira e breve. Por aqui, até a hipocrisia é respeitada. Tudo o que é antigo parece sempre bom. E por aqui andamos de carros elétricos ou de bicicletas motorizadas a passear pelas ruínas dos castelos, pelas ruínas dos fortes, pelas ruínas dos moinhos, pelas ruínas dos castros, pelas ruínas das calçadas romanas, pelas ruínas das escolas primárias, pelas ruínas das igrejas, pelas ruínas das pontes, pelas ruínas dos mosteiros, pelas ruínas das fábricas, pelas ruínas das telheiras, pelas ruínas dos fornos do povo. E pelos outeiros cónicos cobertos de ervas e vigiados por árvores e arbustos amblíopes. E por tojos e urzes e giestas e carquejas. E por montes de escórias de minas e por estradas solitárias e por rios de águas vagarosas. E tudo isto feito em nome do progresso e da eficiência. O nosso futuro é coxo mas avança. Pode ser melancólico, mas avança. Dizem que agora tudo é discutível. Provavelmente sim, mas tudo o que é discutível não passa de uma treta, de um puro disparate. As dúvidas esclarecem tudo. O nosso subdesenvolvimento não é apenas culpa da província. Ainda está por descobrir quem foi o génio que teve a grande ideia de desmantelar as vias férreas do interior. A esse deviam levá-lo a respirar o ar puro do Larouco, em pleno inverno, e deixarem-no a viver numa caverna. Por aqui ainda andam os filhos dos povoadores. Os netos regressaram às urbes progressistas. Isto por cá até pode ser bom para escrever poesia campestre, mas não serve para mais nada. As vistas são nítidas, os pequenos vales sinuosos, os arbustos e as pequenas árvores robustas, as rochas cinzentas, os montes iluminados pela luz do sol e o verde denso, mas no território não vive quase ninguém. Agora está tudo na moda, até o passar fome. A fome era uma coisa de pobres. Agora os ricos passam fome porque querem e fazem-no com muito estilo e rigor. De forma científica e com a ajuda imprescindível da matemática. A obesidade é uma coisa de pobres. Inverteram-se os papéis. Deus já não pode valer aos pobres pois pesam demasiado. Até para o Serviço Nacional de Saúde. Somos vítimas de toda a espécie de ingratidão. Uns engordam como porcos e outros eliminam a gordura como se fosse uma coisa fascista, ou proletária ou marxista-leninista. Sim, a província também é o lugar onde é possível apresentar um livro de fotografias, numa cerimónia onde não há livros, pois estão nos calabouços camarários destinados a serem distribuídos aos distintos parranos que nos visitam, onde o senhor presidente da câmara fala com cara de entendido. E todos batem palmas. Até o artista. Dizem que a realidade supera a ficção. E é bem verdade. Até por cá. Sim, a província é isto mesmo. E muito mais.
João Madureira


