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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

08
Dez25

Quem conta um ponto...


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757 - Pérolas e Diamantes: Alguém brinca sempre connosco

 

Sim, a província também é o lugar das casas de campo e o cenário preferido dos escritores de livros infantis, com cavalos, burros,  bezerros, bois, cabras, ovelhas, coelhos, galinhas, porcos e pastores. E de velhos professores que dormem com vacas. E dos duendes. E das bruxas. As bruxas vivem na província, em cabanas com grandes lareiras e potes sempre cheios de mistelas a cozer ao lume. Já as fadas habitam nas mansões das cidades, protegidas por muros altos e vidros duplos, aquecidas por lindos aparelhos de ar condicionado. Os poderes sobrenaturais são agora movidos a tecnologia sofisticada. Antigamente exigiam anos de trabalho. Atualmente basta ir à internet e visualizar um tutorial. Passamos pela velha estação dos comboios que presentemente é um centro cultural para frequentadores da universidade sénior, filhos e netos. Bem, ouve lá, nada de gracejos ambíguos, observações sarcásticas, sugestões oblíquas ou piadas deliciosas. Ninguém te vai perceber. Podes até ser vago, mas nunca tímido. Ainda és temente a Deus? Vá lá, sê prático. Não há problema nenhum em resistir às tentações, às coisas novas da província, sempre iguais em todos os lados, restaurantes, centros comerciais, supermercados, lojas de pronto a vestir, pizarias, macdonalds, etc. A pobreza quase nos destruiu a identidade. Mas estou em crer que o que ela não conseguiu eliminar, a prosperidade acabará por atingir. As nossas euforias terminam no dia seguinte, quando chegam as depressões. Aos grandes períodos de tristeza e melancolia seguem-se estranhas erupções de alegria. E nós ficamos ali, no meio. No meio de tudo. No meio da ponte. No meio da estrada. No meio do progresso. No meio de um livro. No meio de um discurso, ou de um poema, ou de um livro de História, ou de um livro de histórias. Sempre partículas minúsculas, secundárias. Sempre partículas. Podemos divertir, instruir, nutrir, mas nunca podemos ser aceites. Quando muito tolerados. Estamos sempre imersos em desconfiança, intranquilidade, antagonismos. Cada vez é mais esgotante a tarefa de nos vestirmos, sobretudo o calçar as meias. E também o vestir as cuecas. Custa-nos levantar as pernas. As unhas são cortadas pelas mulheres, sentadas no chão. Eles deixam crescer a barba porque quando a cortam ficam com a pele cheia de borbulhas pequenas e de pequenos cortes. Olha-se lá para fora e veem-se os jardineiros a tratar das flores. Eles, os que observam, gostam de arrancar as plantas do jardim. E de mijar nos amores-perfeitos. Nunca apreciaram estas flores. Consideram que as suas cores garridas são uma mentira da natureza. Eles nunca gostaram de jardins, pois acham que têm tudo a ver com o poder. A sua magnificência ri-se da penúria. Pensam na comida com tristeza. A sua alimentação é um sacrifício diário, folhas de alface, sardinhas em lata, sementes e outras coisas pelo estilo. E as conversas também são dececionantes, tretas sobre casas, vizinhos, cães e gatos e filhos e sobrinhos e netos e carros. E também sobre restaurantes. E sobre pontos de vista. E sobre o melhor método para fazer comparações. Hoje compara-se tudo. Até aquilo que não tem comparação. Parece que as coisas estão infinitamente melhores do que antigamente. Mas parece que isso não chega. A província continua um sítio seguro. Mas as rotinas por aqui são tremendas. E não se pode passar sem elas. Só falta organizar danças africanas para provocar a chuva, dado que realizar procissões é tarefa impossível, pois já não há rapaziada suficiente para pegar nos andores. É tudo gente vulgar, mas já não há palonços como antigamente. Noutros tempos, a vida por cá era uma charada. Agora assemelha-se a uma anti-charada. Mas continua a ser um pouco perturbador tudo isto. E tanto faz que se olhe de modo cínico ou de forma séria. O valor é idêntico. Vai dar tudo ao mesmo. Aí estão os brinquedos, a voz baixa, os empregados, os cozinheiros a orientarem o processo, a prepararem as bebidas. A intriga. Há gente que tem sensibilidade até para preparar os cafés. Os impacientes estalam os dedos. Os outros analisam. A impaciência. A sua exatidão. A discrição dos empregados é muito importante. A discrição é o princípio fundamental dos empregados. Alguém brinca sempre. Sempre. Connosco.

João Madureira

 

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