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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Jan26

Quem conta um ponto...


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760 - Pérolas e Diamantes: A fantasia da província

 

Todos os projetos ficam pendurados nas palavras com que foram construídos. E depois, os que fazem parte das forças vivas da cidade, aparecem nos eventos manhosos de sempre, nas galas beneficentes, todos com os habituais sorrisos forçados. Os pais a fazerem de filhos pródigos e os filhos a fazerem de pais empenhados. Tudo gente proficiente. Tudo histórias que não fazem sentido nenhum. Tudo contos e ditos circulares. Conversa de surdos. As histórias da província são monótonas e descomplicadas. Pequenas. Na província há sempre alguém a seguir-nos. E os provincianos a gastar os dias e a acender as lareiras. A observar as crianças nos parques. A mexer com pauzinhos nas estrelinhas da memória. Terraços. Telhados. E manhãs de névoa. Temperaturas a cair. O frio a invadir as ruas e as casas.  E o Natal. Se há coisa provinciana, é o Natal. As decorações. A religião de boca em boca. As tradições seculares. Todos sentados em bancos, a abrir e a fechar os olhos. A rezar. A comungar. A comer. A beber. Uns a fazer planos para ir e não voltar. E outros a fazer planos para voltar e não ir. Por aqui nunca se sabe se é o bonecreiro que faz mexer o fantoche ou o fantoche que faz mexer o bonecreiro. O tom é sempre contemplativo. Todos têm um mentor. Até os mentores. A província é como um riacho cheio de banalidades e conversas de circunstância. A política é vendida pelos que estão no poder, e os seus irmãos siameses que estão na oposição, ora a retalho, ora por atacado. Eles tem o monopólio até das pequenas coisas. Tudo devidamente controlado, as empreitadas, os transportes, as infraestruturas, as licenças, as empresas ganhadoras de concursos e as suas concorrentes, os testas de ferro, os administradores e as famílias influentes. Até compram críticas jornalísticas para servirem de desculpa,  ou de promoção. Feitas as contas, não interessa se é verdade ou não. O que importa é que as pessoas acreditem. Na província todos são derrotados. Mesmo os que triunfam. A província é a sombra da capital. E isso é sempre desagradável. E é ainda mais desagradável constatar que algumas sombras que aqui nasceram ficaram enormes e chegaram ao poder para servirem de sombras aos projetores de luz da capital. Esses cleptomaníacos que sorriem como as hienas com cio. Os mais avisados daqueles que regressam à província ficam satisfeitos ao conseguirem não pensar em nada. Por vezes entretêm-se a ver a dança das mariposas ou a caçar mosquitos com mata-insetos de plástico. Esses que regressam andam pelas suas casas atravancadas de móveis antiquados, tomam duches sob a luz branca que lhes entra pela janela da varanda, fumam, os que continuam a fumar, deitam-se de bruços na cama, andam descalços pelo chão das divisões, poupam a energia, resistem às novidades requentadas, procuram as ruas mal iluminadas onde se sente mais o silêncio e murmuram monólogos, muitas vezes inspirados no “Malhadinhas”. Esperam então que as manhãs cresçam no céu. E sorriem. A força e as suas fontes são ilusórias. Daqui vê-se tudo, até o vazio profundo e impenetrável do universo. A boa vida na província é uma fantasia. Provavelmente a província também é uma fantasia. Ai esta excitação da deslealdade! A província já ultrapassou o ponto mais alto da sua revolta, sem sair do lugar. Chega sempre o momento em que temos vontade de voltar para casa. Apesar de podermos estar a milhares de quilómetros de distância. A oportunidade, e o oportunismo, contrapõem-se às traições mais antigas. Ai esta excitação da traição! A apatia ataca a qualquer hora do dia. As coisas sem importância passam a ser bastante importantes, sem darmos conta. Alguns dos que dizem dedicar-se à escrita ainda costumam passar certos períodos de tempo num quase semi-isolamento, declarando que não são capazes de arranjar uma desculpa convincente para o evitar. Depois amenizam o sofrimento autoinfligido declarando que dessa forma conseguem abrandar o seu trabalho mais sério. Apesar de estarem reformados, afirmam que não conseguem fechar definitivamente a sua caixa criativa. Sentem ainda essa sua excitação obscura. Não conseguem controlar a sua irrupção ou inspiração literária. Continuam os lutadores de sempre, desafiando o tempo e o modo, no seu tom ameno. Voam a baixa altitude. Na província tem de ser assim. Nas aldeias, as estradas estão praticamente desertas, os habitantes parecem ter sido varridos por uma revolução fora de tempo ou mesmo por um acidente nuclear.

João Madureira

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