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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Santiago do Monte e Companhia...

07.05.16 | Fer.Ribeiro

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Nem sei por onde começar. É sempre assim quando vou pelas aldeias e é sempre assim com as trago aqui ao blog, e o porquê é muito simples - é tudo uma questão de sentimentos.  Posto assim o problema pode parecer fácil de resolver, pois é só uma questão de dar liberdade a esses mesmos sentimentos e eles começariam a fluir em escrita. Pois, só que, quando os sentimentos são contraditórios, aí tudo se complica.

 

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Antes de começar a escrever este post trazia na algibeira meia dúzia de palavras que me poderiam servir de mote. Esbarrondar, amor, partir, abandonar, resistentes, saudade, tristeza, solidão, recordar, revolta, ingratidão… e até sei onde as usaria, mas com nenhuma conseguiria transmitir aquilo que verdadeiramente se sente, ou sinto, quando vou pelas aldeias e quando as trago aqui ao blog.

 

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 Imagem de arquivo do ano de 2008

Estive para começar pela palavra esbarrondar por ser o verbo que mais oiço conjugar pelos resistentes. O esbarrondar das casas e veio-me depois à lembrança o provérbio:  "A casa é a sepultura da vida". Um provérbio que dá para pensar e foi nesse mar de pensamentos que me perdi para arranjar as palavras deste post. Mas cheguei a algumas conclusões, e uma delas,  é o amor que as casas têm por nós, tanto quanto o amor que nós temos por elas, e quando esse amor deixa de ser correspondido, ou lhe retiram a vida que abrigavam, sente-se abandonadas, desamadas, entristecem, desleixam-se, deprimem-se e esbarrondam-se, que é como quem diz – morrem – e transformam-se na sua própria sepultura.

 

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 Imagem de arquivo de julho de 2015

Vem-me agora à lembrança um poema do nosso grande poeta na pessoa de Álvaro de Campos, precisamente um que se refere à vida e à morte, mas de gente,  e que a página tantas diz: “(…) Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!/Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…/ sem ti correrá tudo sem ti./”. Se com a gente assim é, com as casas não, e tudo será diferente sem as casas no sítio em que nasceram, sem as pessoas lá dentro, sem vida. Mas bem pior que a morte de uma casa, é a morte de outra casa, a sua vizinha, e depois outra e depois a seguinte, como um mal que se pega e que leva tudo a eito. E isto já não é ficção, começam a ser palavras de um mundo que acabou.

 

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Mas vamos então até à nossa aldeia de hoje, onde os sinais dos novos tempos cada vez se acentuam mais, onde as casas começaram a morrer, tal como na grande maioria das nossas aldeias, principalmente as de montanha e lá diz o povo “o mal de muitos consolo é” mas convém não esquecer que o mesmo povo também diz “Mal de muitos, triste consolo”.

 

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Penso que ficou bem explicada a tal contradição de sentimentos nesta coisa de ir pelas nossas aldeias e de as trazer aqui ao blog, e nem é tanto pela morte das casas, pois outras poderiam nascer no seu lugar, mas antes, e aí sim lamento e todos iremos lamentar, pela morte da cultura de um povo, das suas tradições, dos seus saberes, da sua genuinidade e singularidade.