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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

09
Mar19

São Vicente da Raia - Chaves - Portugal

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Diz-me a experiência que não é preciso ser conhecedor de nenhuma ciência para entrarmos por terras desconhecidas para as ficar a conhecer, mas nem sempre entramos nelas e as descobrimos. Se as queremos descobrir, temos de ir com esse propósito, demorar o tempo que for necessário, não deixar escapar nenhum pormenor, por mais simples que seja e, se realmente queremos descobrir as maravilhas deste reino, mas sobretudo, nunca esquecer as palavras sábias de Torga para ver este ou qualquer outro reino maravilhoso:  “ (…) O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. (…)”.

 

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De facto assim é. Fui pela primeira vez a terras de São Vicente da Raia há coisa de trinta e tal anos, em trabalho, num dia escuro de inverno e muita chuva, com os últimos quilómetros de estrada ainda em terra batida. No desespero de poder cumprir a minha missão fui galgando esses últimos quilómetros com a preocupação de conseguir chegar ao destino. Chuva, pavimento de terra, lama e piso escorregadio,  descidas bem inclinadas e curvas bem apertadas,  aumentavam a preocupação, que terras estas…

 

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À preocupação de lá chegar ia-me afrontando por antecipação, preocupação maior com o caminho de regresso. Se assim era a descer, a subir as coisas complicar-se-iam muito mais, mas como na altura o sangue na guelra ainda fervilhava por e numa boa aventura, que fosse o que Deus quisesse e se os outros desciam e subiam, eu também haveria de conseguir… sem mesmo reparar que ninguém tinha passado por mim, mas como bem podem reparar agora, fui e regressei, e dessa viagem apenas recordo aqueles últimos quilómetros de estrada.

 

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Durante uns anos fui por lá mais algumas vezes, não muitas, mas algumas, talvez 3, 4 vezes, sempre em trabalho, sempre à pressa, sempre com uma preocupação extra, ora do tempo dos relógios, ou falta dele, ora com a viatura que levava e que nunca era de confiança, ou outra coisa qualquer, ou seja, continuei a ir por lá com um olhar afetado, adulterado, infiel, traiçoeiro, em suma, cego, sem a tal virgindade original perante a realidade e o coração.

 

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Foram precisos passarem-se 20 anos para numa tarde de setembro,  abandonar o vale de Chaves, subir a montanha, alcançar o planalto, sem relógio, sem preocupações, apenas eu, a máquina fotográfica, um carro de confiança e a virgindade no olhar como se fosse a primeira vez, e lá fui. Primeiro desvio na estrada e passagem pela Bolideira, depois Travancas, mais um pouco e passei Argemil, terras já minhas conhecidas, e a partir de aí começo a surpreender-me, primeiro com o mar de montanhas com vistas lançadas, por um lado para terras de Vinhais e mais além, para o outro as terras da Galiza.

 

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Antes de começar a descer aquela que então era estrada de terra batidas, parei num alto, um autêntico miradouro natural. Pela primeira vez reparei como a partir de Argemil a terra era outra, mudava na cor, mudava nas formas, até o penedio era diferente, menos azul, mais sépia, era o granito a dar lugar ao xisto e tudo isto delimitado por uma muralha natural que sobe e desce encostas, mais percetível numas encostas, menos noutras, mas que o olhar virginal viam como se tivessem a grandeza das muralhas da China, e lá do alto, aos meus pés, desenhava-se uma linda estrada cheia de curvas e pequenas retas, que ora se viam ora desapareciam do olhar encobertas pelas encostas da montanha, como se de um rio se tratasse, desaguava lá ao fundo numa povoação, imediatamente antes de uma encosta descer de novo para o desconhecido, talvez, quem sabe, para outras povoações.

 

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Pasmei por ali não sei quanto tempo, deliciei-me, embriaguei-me de tanto olhar e descobrir e imaginar, mas também reflexionar em como este reino maravilhoso tão pequeno e tão igual, é tão grande e tão diferente dentro da sua identidade diferenciada. Tinha abandonado o Vale de Chaves há tão pouco tempo e estava perante outra realidade, mas, continuava eu reflexionando em como se desde o vale de Chaves tivesse tomado a direção oposta, mais ou menos à mesma distância, sentiria o mesmo, mas de uma forma distinta, porque a realidade seria outra, tão diferente do vale e tão diferente desta que tinha à minha frente, mas igualmente interessante, fascinante até, estaríamos em terras de Barroso e não aqui, perante terras de Vinhais, mas ainda com os pés assentes no concelho de Chaves.

 

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Mas vamos lá. Já sóbrios, deixemos o miradouro e desçamos a estrada até um pequeno rio que foi batizado como Rio Mousse e a partir deste, de novo começamos a subir para só parar lá no alto naquela que é a nossa aldeia de hoje, a última desta série de povoações com nome de santo, este, o São Vicente que dá nome à aldeia e sede de freguesia de São Vicente da Raia, cujo apelido bem poderia ser “das Raias”, porque são várias as raias desta freguesia, primeiro da raia com a Galiza, depois da raia com Vinhais, mas também da Raia com o Parque Natural de Montesinho e se levarmos em conta aquilo que pra trás deixei escrito, faz também raia com a tal muralha natural (que existe mesmo) a partir de onde tudo começa a ser diferente.

 

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E estamos, entramos, finalmente na aldeia de  São Vicente da Raia, que embora da raia, para além dela ainda há mais três povoações a compor a freguesia e que, igualmente fazem parte do concelho de Chaves. Refiro-me a Orjais, Aveleda e Segirei, sem esquecer o São Gonçalo,  todas elas aldeias e lugares de xisto, com ares de Vinhais e da Galiza, mas também bem próximas dos limites dos três reinos (Portugal-Galiza- Castela e Leão) a apenas 20 km, mas isto são estórias de outra História, pois hoje ficamo-nos por São Vicente da Raia, que por sinal, o santo, é mais um santo mártir e era do Sul de Espanha (Huesca).

 

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O Curioso é que nesta nova entrada na aldeia, que já aconteceu em 2006, foi mesmo como se fosse a primeira vez que ia por lá, pois a não ser o largo de entrada que também é o largo do cemitério, mais nada recordava. Foi assim uma verdadeira descoberta, iniciada pelo pequeno núcleo junto à igreja,  para depois descer e passar a estrada de acesso a Orjais, Aveleda e Segirei e entrar no outro núcleo da aldeiam que notoriamente é muito mais antigo.

 

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Diz-me também a experiência que numa primeira visita nunca vemos tudo e deixamos sempre escapar pormenores de interesse, além de haver sempre uma ou outra imagem que pede e merece um novo enquadramento, para além de outras que saem desfocadas, queimadas ou outro acidente qualquer. Assim,  só uma visita não basta para termos uma recolha de imagens que faça justiça ao todo da aldeia, daí já ter por lá passado mais vezes, não tão exaustivamente como da primeira vez, mas recolhendo sempre um ou outro pormenor, isto dentro da aldeia, pois ao nível geral, vista geral da aldeia e paisagens que a rodeiam, são sempre diferentes, conforme a época do ano, em que a luz e as cores da vegetação variam tanto, que às vezes quase parece que estamos perante paisagens completamente diferentes.

 

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Tenho alguns desses registos tomados em épocas diferentes do ano, penso que só me falta mesmo um com a paisagem vestida de branco e quase a consegui, mas dessa vez, com viatura imprópria para a neve,  sabia mesmo que se descesse, já não subiria. Deixei para outra oportunidade que espero vir a acontecer.

 

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E que dizer de São Vicente da Raia!? Pois é uma aldeia interessante em que o xisto utilizado nas construções faz a diferença em relação à maioria das aldeias do concelho de Chaves. Notoriamente construções muito antigas, hoje maioritariamente abandonadas e/ou em ruínas, algumas com inscrições curiosas,  possivelmente ligadas a uma comunidade judaica que viveu na freguesia.

 

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É uma aldeia que sofre também da maleita do despovoamento e do envelhecimento da sua população, embora exista por lá um caso de sucesso em que o processo foi invertido. Trata-se de um jovem casal em que um deles tinha origens na aldeia e que abandonou o trabalho e a sua vida do grande Porto para se fixar em São Vicente da Raia, primeiro explorando um bar da aldeia, onde serviam excelentes refeições com coisas boas da terra. Posteriormente montaram uma cozinha regional com fabrico de fumeiro,  cuja matéria prima, o porco bísaro, é de exploração própria. Sou testemunha que o que lá se fabrica é de primeira qualidade e nem vos quero descrever o requinte de um cozido à portuguesa com todos os ingredientes made in São Vicente da Raia, carnes, fumeiro, batatas, couves e vinho, penso que só mesmo o azeite é que não é de lá… ou seja, tudo do “bô e do milhor”.

 

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Aproxima-se a primavera e o verão e como o dinheiro ainda está caro para férias noutras paragens, se não conhece a freguesia de São Vicente da Raia, proponho-lhe que reserve 4 dias para conhecer a freguesia, que poderão e deverão ser alternados, pois de seguida vai ser muito cansativo. Tanto faz ser dia de semana como fim de semana, por lá não se nota muita diferença.

 

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Então os 4 dias seriam para:

 

1º dia – Conhecer as 4 aldeias da freguesia, primeiro São Vicente da Raia, depois Orjais, de seguida Aveleda e por fim Segirei. Só as aldeias, não se entusiasme com outros apelos.

2º dia – Fazer a rota do contrabando de Segirei. O trilho está indicado e inicia-se na parte galega com descida sempre junto ao riacho, com passagem pelas cascatas e a terminar ou com passagem por Segirei, pois pode continuar a caminhada até à Praia Fluvial de Segirei. Claro que este dia para andar a pé, mas se eu que não sou de caminhadas já fiz o percurso, qualquer um o faz.

3º dia – O dia completo para passar na praia fluvial de Segirei onde tem bar de apoio e grelhadores. As águas do rio junto à praia fluvial são pouco profundas e o espaço ótimo para crianças e também para pescadores.

4º dia – Descida ao São Gonçalo onde também existe um parque de lazer e pode ir a banhos, com águas também pouco profundas e ótimas para pescar.

 

Claro que para todos estes dias a máquina fotográfica é imprescindível.

 

 

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