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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Set18

A Pertinácia da Informação

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“El aprendiz de Jinete, 1978”.

 

 

Vai adiantada a noite. E eu tenho sede... esgotei todos os bons reserva, não me resta nada que me entusiasme verdadeiramente, para ler.

 

O meu estado de agitação é-me muito bem merecido. Quem me mandou a mim voltar a fazer asneira? Quem me mandou rebolar em estrume convencida que era um manto de flores?

 

Errei. Errei e ponto final. Que mal há no erro? Apenas a estupidez de o repetir. É certo que às vezes escutamos verdadeiros pensamentos filosóficos e profundos da boca de alguns pastores, mas isso não significa que todos eles sejam versejadores natos! Sinto-me estúpida, como uma citadina, de visita ao campo, vê e analisa, do seu ponto de vista citadino, anunciando sofisticação onde não há e obras primas onde só há a simplicidade natural da utilidade de cada coisa: “Que coisa fantástica este recipiente que quase se assemelha a uma chávena de chá gigante... consigo fabular uma cena de gigantes e anões em torno deste objeto...” “Isto? Isto é um penico!”

 

 

É fantástico conhecer pessoas e mobilizá-las para a sua emancipação! Mas que raio de palavreado, que soa quase um martelar vazio!? Quem me manda a mim procurar almas nas rochas e sentimentos profundos nos legumes? Um pepino, é apenas um pepino, que serve apenas para pepinar. Uma vez pepinado, acabado. Que há de vulgar em comer um pepino insípido? Nada, absolutamente nada. Faz parte da dieta de verão, comer de vez enquanto uma salada de pepino. Não se esteja à espera que o pepino se torne agora em algo mais gourmet!

 

 

Preciso, urgentemente, tomar um banho em algo sofisticado... não sei, algo que me retire do lodo e das areias movediças. Continuo a rebuscar nas prateleiras e parece-me tudo visto, gasto, desinteressante… olho e faço uma radiografia instantânea: está tudo percebido.

 

Num catálogo, sobre O surrealismo em Portugal, aparece escarrapachado o título: o tempo devolve-nos memórias. Penso e repenso. A expressão não significa que recuperamos memórias com o tempo, é bem mais que isso. Entendo que o tempo nos devolve as memórias que prendeu, mas nessa devolução possivelmente o objeto já perdeu características originais... o tempo devolve um objeto nosso de que ele se apropriou, mas ao devolve-lo percebemos que provavelmente o lesou, modificou ou alterou alguns pormenores. As memórias são sempre construções e são por vezes desencandadoras de uma espécie de serendipidy aquando do seu retorno.

 

Por isso, às vezes faz falta emprestar os nossos pensamentos ao tempo para que ele faça o seu trabalho sobre eles. O tempo transforma a nossa dor de luto, a nossa ânsia de luta, a nossa espera de amor. O tempo não só deteriora como uma criança descuidada a quem emprestamos um brinquedo, o tempo também repara e remenda como as avós ou mães que se munem de habilidades e paciência e arranjam o fecho estragado, pregam um botão que caiu, acrescentando uma reda ou um remendo... e acabam por recriar a nossa peça em algo que até acabamos por achar piada e voltamos a endossar. O tempo faz redescobertas de sentimentos e sabores.

 

Eu preciso que o tempo trabalhe em pouco tempo. Eu escravizo o meu tempo e ponho-o todo o tempo a trabalhar para mim. O meu tempo tem que ser um assessor infinitamente talentoso e que me tenha uma enorme devoção. Preciso de um tempo que reconheça em mim todo o valor que justifique o seu esforço e empenho em me apoiar. Qual coaching seria capaz?!

 

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 Eugenio Granell – El Aprendiz de jinete

 

Folheio o catálogo. Sempre gostei dos trabalhos inseridos no surrealismo. As formas das gravuras têm aquele traço especial que eu, cá para nós, que ninguém nos ouve, só pode ser do efeito do ópio... se não, como é que todos desenham aquelas formas moles que escorrem entre as telas e as folhas de papel?! Formas fundidas de um universo onírico... eu gosto, sim senhor, mas aquilo era do ópio, quase de certeza!

 

O que está no catálogo, também vi no museu... há uma de António Pedro, sem título de 1940 que me volta a causar a mesma tristeza que antes. Olho e vejo um não sei quê de decadência, brutalidade carnal, frieza... explicitamente parecem dois corpos nus com todas as suas franquezas a nu, possivelmente um feminino e um masculino. No feminino deixa-me desconfortável o peito descaído e a postura de uma coluna curvada, característica de quem tem já alguma idade... o prego na língua e a destreza com que parece movimentar as peças num tabuleiro de damas, alheia ao que se passa atrás de si, onde se encosta um corpo grande, masculino, que parece menos decadente. Tudo isto num cenário semelhante a uma margem de um rio, onde, me parece surgir também, um enigmático túnel ao fundo.

 

Fujo dessa gravura e de tudo o que me representa.

 

Prendeu-nos a atenção uma aguarela de Risques Pereira, sem data e sem título. Recordo-me que ela me disse que era sobre o Principezinho. Realmente, se reparar bem, posso ver a raposa e principezinho... até parece que esticam os braços para se conseguirem tocar, mas nunca se tocam... possivelmente.

 

Sigo, folheio o catálogo e recordo Pedro Omo. Tanto antes, como agora, parecem-me evidentes os falos e não sei bem... mas talvez sejam ânus e não vaginas...    Seria isso que via um pastor? E ali, no Eugénio Granel, veria um cavalo? Sentir-se-ia cheio de razão depois de ler o título “El aprendiz de Ginete, 1978”. Eu vejo o cavalo, mas imagino naquela sobra do dorso um aprendiz encolhido e receoso e há uma figura mais clara em que vejo um mestre pomposo, onde lhe distingo um enorme nariz empinado... o único que se safa mesmo é o suposto cavalo, cheio de formas elegantes e cores bem escolhidas. Tem um padrão bonito.

 

Ora se os autores das obras estavam cheios de ópio quando as elaboraram eu estou cheia de mim quando as observo.

 

E, recordo, mais uma vez, uma frase: “Eu queria um livro que falasse sobre mim...”

 

Se esperamos encontrar ou estabelecer uma ligação com os outros através da descoberta de uma condição universal de consciência, estamos tramados. Temos que ir realmente devagar para ouvir, acompanhar e entender. Nem sempre as histórias falam de mim, nem contam aquilo que eu vejo nelas. Quanto menos cheia de mim mesma me dirijo às coisas, mais consigo ver nelas. Também tento ver através dos olhos dos outros, e por isso pergunto-me que veria o pastor? Mas, sem a presunção citadina que todo o pastor é um versejador e que em cada cavaleiro há um sussurrado de cavalos. Às vezes há mesmo só bosta e moscas.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

06
Set18

A Pertinácia da Informação

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Se fizeres algo, faz como deve ser. Coloca de imediato os pontos e as vírgulas no devido lugar. Faz tudo exatamente como deve ficar.

 

Quando sonhares, sonha o sonho todo. Se é para ser, seja, seja-se em grande e até ao infinito.

 

Passamos a vida – curta, por sinal – a amarrarmo-nos e a amarrar… às vezes também marramos e depois, ou até durante, dói.

 

Amarramos os outros com medo que nos fujam, com receio de ficarmos sós na penumbra da nossa ignóbil existenciazinha. Receamos crescer, prendemo-nos às nossas limitações, não procuramos caminhos, paralisamos e como se isso não fosse já suficientemente inútil obrigamos os outros a ficar atolados nas lamas das nossas dúvidas, dos nossos medos e cobardias. Infrutífero, extremamente infrutífero!

 

Nós viemos nascer tal como nascem as abóboras: germinou a pevide, fez-se plântula e depois planta; desabrochou generosamente a flor, com seus néctares viscosos e húmida; penetraram-lhe o pólen, no estigma e estilete; fez-se fruto, cresceu abóbora grossa e vigorosa… pena que não se lhe comam as carnes alaranjadas da abóbora menina, ora em compota, filhós ou cremosas sopas! A este destino esta reservada a vida de uma abóbora. Fantástico, não é?! O legume veio à Terra com o propósito de estimular as minhas papilas (ou as suas). Imagine-se a abóbora recusar-se a crescer e a ser abóbora menina em plenitude?!  Infrutífero, eximiamente infrutífero!

 

 

No nosso ciclo de vida, distinguem-nos das Cucurbitaceae, apenas os aspetos que naturalmente nos diferenciam, de resto, a necessidade de cumprirmos o que somos e vem dentro de nós, é exatamente a mesma. À semelhança do vegetal, que cresce e desenvolve as deliciosas “carnes” alaranjadas, também nós devemos crescer em todo ímpeto aquilo que somos e quem somos, na harmonia com o que nos rodeia, sem medos e sem queixumes.

 

Seres humanos, pássaros e nabos reunimo-nos todos na semelhança que nos irmana: viemos todos com o mesmo propósito de sermos, deixarmos ser e ajudarmos a ser.

 

Portanto, em cada ato do nosso propósito, em cada momento da nossa vida, seja-se.

 

Sejamos até à exaustão e o bouquet será do mais inimaginável de fermoso.

 

Mas, parece-me que há vidas paradas de propósito. Vidas que se obstinam na perseguição de muros. Ora, os muros nunca nos deixaram passar! Tomar caminhos murados e teimar em ir contra eles faz-nos parecer estólidas moscas que teimam em bater nos vidros, uma e outra… e outra vez, até que o tempo as pare, porque se lhes acabou o tempo.

 

Às vezes, há quem não entenda que por ali não é o caminho e teime em açambarcar para si a admiração, a afeição, a alma e o amor de alguém, que por sua vez, não tem em si mesmo nem o que ele procura, nem procura o que o outro tem. Infrutífero, absolutamente infrutífero!

 

Já se diz, em algum lado, que ninguém é de ninguém, e na verdade não somos de, mas sim, vivemos com, em proximidades reguladas pelas nossas próprias vontades.

 

Quanto tempo se perde ao teimarmos ter a vida que concebemos no nosso entendimento, mas sem criar as verdadeiras circunstâncias da sua existência!?

 

Mas, o pior de tudo, são aqueles seres que acham saber perfeitamente o que seria o ideal para os outros, melhor que eles mesmo. Assim, apresentam-se eles próprios como os extremosos cuidadores, legítimos vencedores de duelos e autoproclamados a própria verdade e salvação. Esses, são nada mais que moscas que embatem em vidraças. Mau para os outros, a quem soltam injúrias: “Hás de arrepender-te!”; “Vais descobrir que tiveste em tua presença o elixir da tua salvação e o recusaste! Depois, então será tarde!”

 

Ora um verdadeiro herói não precisa de chamar a si as suas glórias, nem um verdadeiro salvador se regozija com a vingança.

 

Mau para os outros, mas péssimo para si mesmo, pois se bem que atropela e prende o outro, também não aprende nem contorna o muro para seguir o seu caminho.

 

Infrutífero, definitivamente infrutífero.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

16
Ago18

A Pertinácia da Informação

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E, de repente parece que se fez uma brecha no tempo e o mundo parou, o que na verdade é ilusório.

 

Remexo prateleiras à procura de algo para beber nesta tarde de calor infernal: talvez algum livro por encetar. Eis que o vejo: quase escondido a escapar-se pela fenda, entre a prateleira e a parede do armário, como se quisesse esconder de mim, algo na sua expressão exterioriza culpa. Ás vezes a culpa que sentimos exterioriza-se involuntariamente e denuncia-nos, embora, nem sempre essa culpa seja culpa aos olhos da vida mundana e nem de um supremo juiz... às vezes é a uma espécie de culpa que nos impomos. Por isso, sou da opinião que nós mesmos somos a nossa maior fonte de poder e de debilidade.

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

Tem capa crepe como eu gosto e estava completamente esquecido. Do interior das suas páginas cai, como cai de forma espontânea uma pétala de rosa, daquelas que ostentam fartas corolas de sumptuosas pétalas, porque as pétalas suaves das rosas caiem com facilidade, um pequeno cartão em forma de envelope. Tem na capa uma imagem com rosas vermelhas e um “amo-te” a vermelho. Instantaneamente pensei: “Que coisa pirosa, não me recordo disto! Nem, faz o meu género!” Mas, depois, olho melhor a imagem e realmente há um não sei o quê que toca a simplicidade e quase que acabo por achar que realmente podia ter sido uma boa escolha.

 

O autor do livro é Daniel Filipe. Não sei se veio junto com o cartão... ou se fui eu que o procurei… não me tenho qualquer memória sobre a sua proveniência, mas realmente eu já lhe percorri as páginas, sublinhei as estrofes e fiz apontamentos. Eu sou assim, há quem diga que os livros são sagrados e devem ser preservados intactos. Eu, porém, amo os livros e namoro com eles, envolvo-me com as suas páginas, roço-lhes as linhas, enrolo-me às suas capas, beijo-lhe as histórias e depois com a ponta da minha caneta de tinta negra e permanente atingimos o clímax com anotações que escrevinho nas margens.

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

Por duas vezes, folheio inadvertidamente e chego por coincidência à mesma página: 43.

 

“Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,

acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu amor.

Parto amanhã.

 

Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo

Doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.

 

Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exata nos contornos

a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o

caminho.

 

Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria

E apesar disso murmurar: somos dois e exigimos.

Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as

Etiquetas e afirmar: Procuro e esquecimento.

 

Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante,

Entre ruídos e interferências aladas.

 

Não basta ser feliz.

 

Não basta a Primavera.

 

Não basta a solidão.”

(a invenção do amor e outros poemas, de Daniel Filipe)

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

E chego à página 45 sem me aperceber que vamos reatar o nosso namoro, pois ele, o livro, cativou-me, isto só acontece porque algo nele faz uma conexão com algo dentro de mim, e isso só acontece porque acontece neste momento.

 

“É preciso cantar, é preciso sorrir,

encher a escuridão com árvores sem nome.

 

Estamos sós no mistério dos nossos quinze anos.

A tormenta passou. A comida arrefece.

 

A viagem sem história concede-nos a calma:

Serenos existimos, ocultos, dominados. 

(...)”

 

 

E na página 49: “(...)

Lutaremos meu Amor

 

 

Na aparência sozinhos   multidão na verdade

Lutaremos meu Amor

(...)”

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

A poesia é aquilo que quisermos, aliás a arte deixa de ser objeto vinculado e pertencente ao artista a partir do momento que é partilhada. Cada um vê nela o que procura, o que sente, o que quiser ver, no fundo! E no fundo nada disso é o que o artista sentiu ou projetou. Na minha adolescência, revoltava-me intensamente o facto de alguns colegas de turma papaguearem os comentários das sebentas, sobre os grandes escritores, estudados na aula de português. Eu, como se fosse uma voz ativa do próprio Pessoa ou de Florbela Espanca, reencarnados em mim, achava eu, que os estudos analíticos e as conclusões daí resultantes não faziam jus às pessoas.

 

De qualquer modo, a grandeza das pessoas está no seu desprendimento, na sua generosidade e simultânea discrição, mas, estas qualidades não acompanham os inseguros e invejosos. Assim, do mesmo modo o artista partilha na sua grandeza e no seu desprendimento e não se incomoda com a apropriação que os outros dão à sua obra porque a criação não se esgota na obra, nem num só objeto. Há não sei quê ligado ao infinito, à eternidade, algo de etéreo.

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

Abri o cartão que dizia, apenas: “BIS”. Então, recordei.

 

De acordo com o momento o mesmo objeto poder ter connosco uma conexão profunda ou então pode ser-nos completamente alheio à nossa realidade. Às vezes até os objetos que criamos são temporais para nós e simultaneamente intemporais para os outros.

 

Repentinamente, penso: “Não somos flores, nem somos membros quaisquer, somos troncos de onde saem ramos.”

 

Não podemos é prender as águas, as represas são prisões. Quem tem asas deve voar, não voar é antinatural.

 

A borboleta deve voar e ser a beleza a que está destinada ser, ainda que efémera e fugaz, há um dever profundo e fundamental que cada um de nós tem: ser-se.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

12
Jul18

A Pertinácia da Informação

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Uma questão de perceção

 

Os dias passam na expectativa que amanhã seja o dia para viver. É uma espera com ausência de paragem. Daqui, desta margem penso: “Só as trutas nadam contra a corrente e no final morrem… também.”

 

O que importa é manter o ritmo e seguir, manter a âncora firme pode ser que alguém venha depois e possa contruir.

 

O calor alterna-se com o frio – Estou cansada das tuas surpresas, ó tempo omnipresente!

 

Os dias de calor deixam-me exausta e o frio deixa-me lacerada… é a vida, já não me dói nem me custa quase nada.

 

Olho espantada o panorama: levou toda a gente uma paulada no cérebro e está tudo convencido que o que vê é normal, se era para ser zombie, mais valia não nascer!

 

No fundo acho que os meus dois neurónios – esquerdo e direito – fundiram num só, mas tenho a profunda esperança que a seguir haja partição como na ameba e se reproduzam e multipliquem a fim de povoarem todo o espaço vazio.

 

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 Fotografia de Lúcia Cunha

 

Uma manada é sempre uma manada, ao fim de algum tempo uma cabeça isolada fica assustada e uma manada às vezes é uma visão assustadora e demovedora.

 

Se olhares para algo que efetivamente é redondo, mas uma multidão disser que é quadrado, temos um grande problema… ou não!

 

Galileu debateu-se pelo que via. Eu digo que a cada um serve o que vê. É uma questão de perceção. Não vale a pena grande debate ou discussão.

 

Nem tudo tem que ser entendido, nem toda a gente é capaz de o entender, quando não se entende é melhor aprofundar, mas apenas se o assunto é relevante, se não for o suficientemente importante é melhor seguir adiante.

 

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 Fotografia de Lúcia Cunha

 

Do meu ponto de vista e do meu angulo de visão...

O que lhe falta é amor

É tudo ao fim de contas uma questão

De te fazer passar a tua dor

 

E eu olho e vejo então:

O problema, meu pobre cão

É que eu não tenho a solução

Se no fundo essa fosse se não

A minha própria dissolução

 

Tenho acima de tudo compaixão

Do sofrimento do bicho

Procurando abrigo no lixo

Sofrendo do calor do verão

 

Que temos? que temo?

 

E se um dia vier o demo

Esmagamos-lhe a cabeça no chão

 

Nós não temos, nem temo

Medo quando não há razão

 

Nós não temos nem temo

Que ser dissolução

 

Apoia-te firme e navega na seara do pão.

Até Torga disse que era pacifica a revolução

 

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

05
Jul18

A Pertinácia da Informação

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Deixem-me pensar em gomas!

 

De repente parecia que o medo lhe tinha despertado uma força brutal, não estou certa, mas para além de mim e da enfermeira, havia mais um grupo de quatro pessoas, todos empenhados em furar-lhe a veia. Então, começou o reportório de desculpas que tentavam adiar sem sucesso o inevitável, para além do “Ainda não estou preparada!” desta vez saiu-se com:

 

- Espera! Deixa-me pensar em Gomas!

 

- Ora, tu pensa no que quiseres, mas o que tem que ser tem que ser!

 

E, a mim, doeu-me imenso.

 

Quando ficamos com a sensação que temos que ser um pouco carrascos, para levar a bom porto o que deve seguir bem. Talvez o amor nos faça ser, paradoxalmente, mais frios, para termos coragem.

 

De qualquer modo, o que me fez refletir foi a expressão: Deixa-me pensar.  Somos livres de pensar e apenas cada um de nós pode e deve controlar o que pensa.

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

Ao menos na tua mente que haja paz,

Ao menos na tua mente que haja um jardim

Ao menos na tua mente faz

Florir e colorir tudo o que possas imaginar sem fim

Na tua mente, que seja o que te apraz.

 

Portanto, hoje, deixem-se pensar em gomas ou no que quiserem.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

28
Jun18

A Pertinácia da Informação

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Dispensável, absolutamente dispensável!

 

Ao fim de algum tempo a atender telefones e a gente que fala ao telefone, apercebemo-nos que há alguns padrões, situações que se repetem.

 

Se me debruçasse bem sobre o tema podia discernir as diversas categorias, assim sendo, permita-se-me discorrer sobre alguns casos.

 

O caso da empresa que tem nome pomposo em inglês, muito interessante para uma maior abertura ao mercado global, mas os funcionários ou os gerentes não sabem pronunciar nenhum som corretamente! Dispensável.

 

Também há os que não vocalizam e parece que falam dentro de um garrafão, ou então cheiinhos de medo! Ó, minha senhora, eu não mordo, e ainda se mordesse, estamos a quilómetros de distância e nem se quer nos estamos a ver! Absolutamente dispensável!

 

A pessoa que liga do além. Há sempre aquelas situações em que as pessoas precisam resolver assuntos extremamente importantíssimos, urgentíssimos e que o fazem em qualquer lado do universo: no meio de uma viagem conturbada, de um local sem rede, no meio de uma imensa barulheira… e ouvimos fala da grxxxiiifu ligue-me com grafffxxxi ffu… Será que as pessoas estão à espera que comece a comunicar telepaticamente com elas? Dispensável.

 

Por falar em telepatia, também há os que ligam e nunca dizem quem são, é suposto que no meio de biliões de chamadas e vozes a voz deles seja inconfundivelmente única e que os números de onde ligam sejam efetivamente memorizados ou imediatamente descodificados!  Dispensável.  

 

Há quem ligue apenas para pedir um contacto. São pessoas que intencionalmente pegaram nos seus dispositivos telefónicos, tomaram conscientemente a decisão de telefonar para pedir um número de telefone ou um email. Ligam e dizem: “Por favor, precisava do contacto de fulaninho!” então respondo “sim, certamente, o contacto de fulaninho é…” É então que acontece o seguinte: “Só um minutinho, que não tenho com que anotar!”

 

Dá vontade de dizer: Eh pá! Não sabias que ias ter que escrever o número?! Pega na porcaria de uma caneta antes de ligares!?

 

Dispensável, extremamente dispensável.

 

“Mas eu precisava mesmo falar com ele!” esta é outra as situações frequentes: alguém liga para falar com A, B ou C. A, B ou C não podem ou não querem atender. Ora, se a situação assim o exigir e a chamada não for mesmo para passar a resposta é A, B ou C “estão agora mesmo com outra chamada, não lhe posso passar…”, ou então “fulaninho está a fazer algo e não pode realmente atender agora, liga-lhe depois” ou se não puder ser com mais ninguém “deixe recado”, por exemplo. Enfim, já lhe blindaste todas as alternativas, não dá mesmo para falar nesse instante com a pessoa! A coisa mais sensata a fazer, se fosse eu do outro lado era desligar o telefone, desimpedir o raio da linha (porque já estão duas ou três chamadas em espera) e voltar a insistir mais tarde ou usar outro meio de comunicação. Mas então, nesse momento a pessoa diz: “Mas eu queria mesmo falar com ele!” Numa fração de segundos passa pela minha mente uma lista de respostas que aliviariam em muito a tensão acumulada… encho os pulmões de ar e digo: “Só tem duas alternativas, fica em espera, e não sei quanto tempo, ou desliga e volta a ligar daqui a uns minutos.” Ouve-se um momento de pausa… e, entretanto, entra uma quarta chamada… A pessoa então diz, “Não sei que fazer.” Eu respondo “Vou dar recado… e se preferir ligue dentro de minutos, assim que estiver disponível, prometo que lhe passo a chamada.” Pois… mas é que eu preciso mesmo falar com ele!” Dispensável, extremamente dispensável!

 

É compreensível, às vezes as pessoas bloqueiam na impossibilidade de resolver um problema e quando estão constantemente a ser pressionados. Ás vezes “dou-lhes” uma protossolução.

 

Pergunto-me como será que as máquinas com IA (Inteligência artificial) vão lidar com estas situações?

 

Estas situações só tomam alguma relevância porque são imensas, imensas, imensas… e tudo precisa de acontecer veloz, e muito velozmente… porque estamos enfiados sem alternativa numa engrenagem e como ratinhos numa roda, não podes parar se não cais… e se caíres és DISPENSÁVEL, ABSOLUTAMENTE DISPENSÁVEL.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

21
Jun18

A Pertinácia da Informação

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A mosca de La Fontaine

 

Não sei que horas são, mas algo no meu corpo me diz que já é adiantada a hora. Entre as tarefas do costume feitas a correr e este preciso momento já passaram duas ou três horas. Afinal o texto levou mais tempo a aprimorar do que o que me pareceu. Estive embrenhada no exercício do lê, relê, corta e muda. Mas estou satisfeita, talvez como um ourives que lapida um diamante.   

Da rua vem um ruido há horas – há trabalhos de manutenção de pintura de sinalização na via pública. Todos os trabalhos são necessários como ingratos, sempre a roubar-nos tempo ao ócio -  momento de crescimento natural. Eu mesma me sinto dividida em várias sem nunca conseguir ser nenhuma. Tão atarefada ando em puxar dali e daqui… às vezes a esta hora da noite vem o desânimo a nu, ao mesmo tempo que me despojo para o habitual mergulho da ablução noturna.

 

“Às tantas sou a mosca da fábula A mosca e coche de La Fontaine!” - vem-me à mente este pensamento, enquanto faço o livro de capas coloridas retomar o seu lugar habitual na prateleira. As capas estão coloridas com uma panóplia de personagens: a sociedade. É desagradável ser a mosca, mas tocará a todos interpretar diversas personagens consoante o momento.

 

Há um espartilho que vai atuando no corpo e na mente, um espartilho que me dói… em quanto me dói é sinal que não me espartilho. Acho que continuo no caminho justo, acompanhada pelo bom senso, pela vontade de aprender e pela humildade. Não fujo de mim. Com isso tenho paz e serenidade.

 

Qualquer dia tiro o espartilho e as formas naturalmente definidas serão as que assumirei, quiçá mais bonitas e harmoniosas que as que o espartilho define. Formas que irão sendo trabalhadas com esforço, dedicação que não serão tanto dura obrigação, mas, antes algo como devoção.

 

A quem importa isso? A quem importa o meu banho na madrugada, as minhas reflexões e ponderações? O mundo avança de igual modo… ou será que não?

 

Fiquei com vontade de dizer que o homem não tinha culpa e saudar a sua atuação… mas não ia soar bem, não ia ser entendido. E o bom senso? Ora, mas não consigo ser insensata…

 

Faz de conta que era só uma mosca… Amanhã, pode ser que amanhã seja possível andar sem espartilho e molhar os pés no ribeiro.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

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14
Jun18

A Pertinácia da Informação

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A extinção e a Inteligência artificial

 

No outro dia fomos ver a exposição "EXTINÇÃO - O FIM OU O INÍCIO?", na Alfandega do Porto. Acabou por não ser tão impactante como estava à espera, talvez a culpa fosse minha por mor das minhas expectativas. Não sei explicar, talvez tenha adquirido a síndrome da oposição e desafio... Sim, quando ouvi, pela primeira vez, confesso que me deu uma certa vontade de rir, embora na verdade as circunstâncias fossem muito más – para mim pessoalmente. Então, entra-se numa espiral de desespero e precisamos ser muito hábeis e muito fortes para não nos deixarmos engolir por ela. Claro que batalhar é que nos põe em perigo, deixar-nos ir é sempre menos doloroso. Afinal, há disfunções para tudo? Então será que todos temos disfunções? Ou será que temos a necessidade de “empacotar” rotular, classificar tudo aquilo que se desvia do que convém? E o que é o que convém? Afinal o que convém é o conveniente para quem?

 

Fiquei a pensar que tal como o comentário “o senhor parece um atirador sniper” seria igualmente infeliz dizer “o senhor mais parece que padece de disfunção de oposição”.

 

Será que lutar contra a corrente é inglório? Estaremos predestinados a extinguirmo-nos ou a extinguirem-nos ou a extinção? Se à coisa que a exposição faz é provocar-nos que essa dúvida. Eu já tinha escutado há algum tempo a uma colega que tinha visitado o Museu de História Natural em Londres com os alunos precisamente isso, mas, entretanto, esqueci-me e confesso que me causou uma certa desilusão, angustia… esta reflexão numa perspetiva, digamos que pragmática, das coisas: “a extinção faz parte da evolução”, “Será que devemos evitar a extinção de todas espécies? E os Vírus?”

 

Eu não tenho dúvidas que devemos procurar viver em equilíbrio e que o respeito pelo espaço de cada espécie devia ser recíproco. Mas será que sim?

 

Cabem todos na Arca de Noé?

 

Quem decide quem se salva?

 

Os Jeovás dizem que eu não vou entrar lá na Plataforma que vem buscar os escolhidos… eh pá fico um bocadinho assim para o aborrecido, confesso que isto de não sermos “escolhidos”, deixa-nos sempre um niquinho para o chateado. Mas olha, sempre posso pensar que sou dos escolhidos para ficar! Mas é precisamente por isso que nunca gostei cá de grupos e elites. Eu tenho autoconhecimento, sei quem sou, sei o que valho e estou de bem. E às tantas “vou-me extinguir”.

 

Esta parte de quando nos toca a nós é sempre a pior e mais indigesto. Enquanto é longe quase parece ficção… Mas quando o fogo é à porta… ou há inundação… aí já é diferente: dói.

 

Eu salvaria os pandas? E os pombos que serviram de alimento aos colonos na América? E os seres humanos? E toda a humanidade?

 

Que irão pensar as Lolas do futuro, ou outros robôs com I.A. (inteligência artificial)?

 

As máquinas irão ter não só inteligência, como esta vai evoluir através da aprendizagem. Como vai evoluir e até onde?  Se evolui sem limites… que irão pensar da humanidade? Como será que esses “seres”, que irão ser inevitavelmente mais inteligentes que nós, vão reagir sob o nosso comando? Vamos criar algo que quase de certeza nos vai superar… Estamos a pensar em robôs para nos substituir em tarefas, que a meu ver devíamos ser nós a fazer: interagir com os outros seres humanos, educar e cuidar. Ás tantas vamos acabar por ser substituídos na integra e seria caso para dizer: Estamos a pedi-las.

 

E se as máquinas acharem a humanidade perigosa? Quem vai ensinar as máquinas a amar?

 

Volto aquele estado que procurei descrever no inicio. O estado em que nos deixa a Exposição do Museu de História Natural, ao nos convidar a refletir sobre o fenómeno da extinção numa outra perspetiva que está subjacente à frase: o fim ou o inicio? É uma perspetiva que de certa forma nos causa desconforto, nos choca e nos perturba. No fundo, atira-nos, não só com a habitual culpa de que consumindo destruímos o planeta e que o principal móbil é o capitalismo, mas ao mesmo tempo confronta-nos com uma culpa mais íntima, mais próxima: no nosso próprio jardim! Quem deve sobreviver nós e os nossos filhos ou as outras espécies? Porque devemos preservar as espécies? E os vírus, e os maus? Sob que autoridade decidimos quem fica ou quem vai? Faz sentido “salvar” todos?

 

Se pensarmos bem, saímos um pouco humilhados, envergonhados, embaraçados… no mínimo desconfortáveis, seria o termo.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

07
Jun18

A Pertinácia da Informação

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A vida possível

 

A vida possível é aquela que resulta do somatório de forças entre a pressão do que é a nossa vontade subjetiva, a dos que nos rodeiam e a do coletivo. A nossa própria vontade subjetiva resulta, ela mesma, de outro somatório e de um jogo de forças internas.

 

 

A vida possível acaba por ser a forma como passamos os segundos, os minutos, as horas que se vão acumulando em dias e anos e anos.

 

A vida possível... Nem sempre é a que realmente queremos viver e aquela para a qual viemos viver. Para a maioria das pessoas já existe uma vida formada e atribuída ao momento da sua nascença, ou até antes. Já toda uma enorme multidão, de entidades e pessoas decidiram que vai ser um determinado cidadão.

 

A mãe decidiu que vai nascer e já delineou todas as etapas da sua vida, com os mesmos pormenores com que prepara o enxoval de bebé. Dependendo da mãe que lhe foi destinada a sua vida irá ter contornos diferentes. Uma mãe conservadora e iria imaginar que, se for menina, irá usar fitas no cabelo e vestidos até, pelo menos, à adolescência, por ventura irá vangloriar-se da sua beleza e da sua excelente educação e comportamentos – o seu sucesso será o da própria mãe, ainda que para isso não tenha feito nada. Certamente fará a primeira comunhão, se depender dela não faltarão fitas e adornos. Já na adolescência, depois da menarca, será melhor aprisionar a menina, é preciso guarda a sua pureza: a sua vergonha será a própria vergonha da mãe, ainda que, para isso, não tenha feito absolutamente nada. Certamente é preciso repreender a livre expressão, tapar os cabelos e disfarçar toda a sua sensualidade feminina. Todo o projeto da sua pessoa terá que chegar aquilo que é melhor para ela, e o melhor para ela é o que seria ideal para a mãe e, possivelmente, para a mãe o ideal dela é aquilo que parece ser o ideal para a sociedade – pois para ela mesma e para a sua própria vida nem sabe muito bem o que a faria feliz.

 

O pai... Não sabe muito bem qual o seu papel, e só vai perceber que é realmente pai na medida em que a existência desse novo ser vai interferir com a sua própria existência, com a sua liberdade e com a sua comodidade. Normalmente será a mãe a recordar-lhe que está ali um ser e intermediar essa existência e essas interferências. Há um ser que tem necessidades de conforto e sobrevivência. Há um ser que precisa de cuidados e atenção. Há um ser que vai competir com ela a atenção do mundo. Normalmente a intermediação da mãe envenena na raiz esta relação – para o bem e para o mal.

 

Dentro desta complexidade de pressões tudo pode acontecer. Se a mãe fosse dotada de um espírito livre ou racional, ela podia até decidir, inclusive, que nem sequer estava na hora desse ser existir.

 

Os pais podem decidir que a ajudarão a crescer dentro daquilo que é a sua própria vontade, as suas motivações e os seus talentos. Mas tudo dependerá da capacidade de interpretação dos sonhos do outro e de relativização dos nossos, da capacidade de discernir o certo e o errado.

 

Depois há toda uma enorme quantidade de entidades que vão decidir quem somos. Cada vez com maior pressão há uma enorme mão que nos vai empurrando para um certo caminho. Uma mão omnipresente que nos empurra diretamente ou através dos outros. Uma mão que já manipula os nossos pais, os nossos educadores, os nossos professores, a sociedade em geral. As nossas entidades patronais, os media... Mas a nossa natureza revela-se em nós mesmos e essa é a nossa força a nossa pulsão... Só a devemos reprimir se ela causar dano ao outro. Mas também aí essa contestação pode ser relativizada. Às vezes o outro sofre com a nossa existência: por que nos quer possuir, porque nos tem inveja, porque era preferível para sua própria felicidade que não existíssemos.

 

 

Às vezes o equilíbrio é muito difícil. Há os que decidem desistir deles mesmos. E passam a viver uma vida que não é a deles. Ausentam-se do seu corpo e deixam-se ser possuídos. Há os que se deixam possuir por momentos, julgo que esses são a maioria. Normalmente deixamo-nos ser possuídos por razões de sobrevivência: para podermos subsistir, ter alimentos e abrigo precisamos fazer o que não queremos.

 

Acordamos cedo, empurramos as nossas crias para centros de concentração de crias onde são todas formatas em conjunto para, no futuro, ocuparem o nosso lugar. Ausentamo-nos do corpo durante o horário de trabalho: quase nunca fazemos algo que dignifique o ser humano, nem mesmo quando fazemos aquilo para que estamos vocacionados, pois fazemo-lo em condições ou sob preceitos que não vão de acordo com os nossos princípios ou valores... Como os professores que são obrigados a elaborar um rol de tarefas burocráticas e obrigados a seguir por caminhos que não primam pelo desenvolvimento e crescimento do ser humano. Bem como médicos, enfermeiros, técnicos auxiliares, que são obrigados a trabalhar até à exaustão, sem materiais básicos e incapazes de concretizar o seu propósito de preservar o supremo bem, o humano, a vida.

 

Às vezes, vivemos duas vidas, por momentos ou em simultâneo. Às vezes superamos, superamo-nos... Outras vezes rebentamos.

 

Nos últimos tempos somos assolapados por uma infinidade de questões e decisões que dizem respeito à nossa própria vida. Questões não de mor importância, mas que, devido à avidez dos políticos, que como vendedores de causas que têm que cumprir objetivos atiram-nos para lá e para cá considerações, argumentos, opiniões de coisas que nos dizem respeito. Os media, as redes de comunicação moldam as opiniões, geram confusão e ruido... E a revolução acaba por nem surgir e o impacto acaba por ser efémero.

 

A pressa requer pseudo certezas imediatas. 

 

A pressão é tão forte que a capacidade de lutar com essas forças acaba por ceder e ausentamo-nos dos corpos.

 

Não tenho dúvidas que essa seria a maneira de encarar a morte quando tivesse uma vida que já não era a minha. Deixaria a alma sair do corpo e que fizessem com ele o que quisessem, porque eu já não estaria ali. Teria que ausentar-me para continuar a preservar-me com dignidade.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

24
Mai18

A pertinácia da informação

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A quem damos o nosso tempo?

 

Já aprendi que as soluções não são fáceis. Mesmo vendo o caminho, sei que percorrê-lo não será imediato. Primeiro será preciso fazer ver a uns quantos que é por ali que se deve ir, quando na verdade a coisa é óbvia: só há um caminho, o resto é mato desbravado! Só há um sítio por onde ir, com pontes sobre os riachos, pequenos tuneis nas montanhas ou gargantas e desfiladeiros... Mas há os que racionalizam, ponderem e analisem... arranjam argumentos impossíveis! Oxalá usassem dessa imaginação para arranjarem soluções para o caminho ser mais rápido. Há os que querem aguardar que as condições mais propicias estejam reunidas... o que eu acho é que muitos têm medo. Onde está a atitude combativa?

 

 

            Quando o meu corpo está em paz e a mente também, então vejo claramente: o que é, é.

 

Há pessoas que se encontram e se veem mutuamente: eu vi-a. Mas ela viu-me primeiro: “Eu também quero responder a essas perguntas e vou contigo se me deres boleia!” disse-me prontamente.

 

Tinha uma força tremenda: usava bastão, mas reparei que nunca o via tocar o chão. Não precisava de se apoiar nele e andava mais rápido que eu.

 

 

Há sítios especiais. Até àquele dia, estava a ser difícil chegar à interação mais genuína com os idosos. Era preciso encontrar um que confiasse em mim e que depois me fosse facilitando o contacto com outros. O processo estava a ser difícil, mais difícil do que eu esperava: achava que do outro lado da fronteira haveria mais abertura, mas não.

 

“O che ti queiras miña reina!” – e ia aproveitando todos os momentos que requeriam alguma explicação mais profunda para me tocar na mão. Eles costumavam ser mais acessíveis que elas e talvez mais incautos, infelizmente. Menos mal que era eu, e era comigo que falavam. Ou seria a sua experiência que os fazia perceber quem sou e eles sabiam que eu, sou assim.

 

Mas ela era diferente.

 

Eu fui ali ter assim… como sempre, à procura do caminho e seguindo uma motivação intraduzível. Segui até à próxima aldeia, parei, desci o vidro do carro, e cumprimentei… Mas sem grandes esperanças, o mais certo era responder-me como há cinco minutos antes alguém me dissera: “Olha che xe digo, xá respondi antes a unha de Verin”.

 

Contudo esta senhora aproximou-se, com um à vontade descarado, quase que enfiando a cabeça pela janela e atirando-se para dentro do carro. Sim, podia responder, mas ia à missa e estava muito mal do coração... ia dizem quase ofegante. Eu disse que a podia levar à missa. Entrou de imediato no carro, tão à vontade que eu é que fiquei assustada. “Pous anda, vou dicirche o camiño.”

 

O marido estava acamado. Deixou-o em casa com a mentira que voltava já. Na igreja, enquanto estivéssemos à espera do “cura” ela ia responder às minhas perguntas. O “cura” tinha mais uma série de sítios onde dizer missa ao domingo, não tinha tempo de ir a todo o lado, por isso vinha hoje.  Depois, lá havia mais gente que ela me ia apresentar e que também podia responder às minhas perguntas, prometeu.

 

Perguntou-me se eu era crente? Ela era, e foi Deus que me levou ali para a ajudar: ela pensara: “Deus axudame che tou maliña” e eu dei-lhe boleia. Ora, fora um milagre recíproco. Eu pensara: Faltam nove e era preciso um milagre para terminar hoje.

 

Assisto à missa. O padre parece jovem. Tem qualquer coisa que me faz empatizar com ele. Não sei se é a descontração com que gesticula e atira para o ar uma espécie de “vamos lá a isto”, ou talvez seja a aparente facilidade para cantar e falar aos paroquianos.

 

“Vem espírito Santo, vem” – vai cantando.

 

“Vou esquecer-me das palavras e das expressões a que acho graça, para depois usar em algum relato.” – penso. Por isso, rebusco na carteira um esferográfica e registo expressões dissimuladamente na mão. A bofetada que levei da minha professora da 2.ª classe por escrever na mão, coisas que receava esquecer, não resultou como medida pedagógica para que eu aprendesse a não usar esse método. Por sua vez, a ideia das mnemónicas que uma boa professora, a de Química, sugeria, foram sempre as minhas companheiras de percurso.

 

Não vou esquecer, de certeza, que sobre o Sacrário estava uma nossa senhora, e que na parede da igreja, do lado esquerdo um Cristo na Cruz. Ficará, também, marcado na memoria cada detalhe da madeira escura trabalhada do teto – oxalá o conservem bem – nem esquecerei, por fim, um porco cor-de-rosa que acompanhava um santo de barbas compridas grisalhas e de hábito castanho, olhava em direção à porta, e a mim parecia-me que franzia lá no alto do altar os olhos em direção ao sol, que dentro de horas estaria no crepúsculo.

 

Durante o sermão, o padre consegui que eu ficasse a saber que tinha 40 anos... Ah, já sei! Foi relativamente a algo que falou acerca de santos contemporâneos, dos que iam ser canonizados em breve, nomeadamente Oscar Romero, arcebispo salvadorenho assassinado em 1980.

 

Ela entrou pouco antes da missa começar e chamou-me a atenção algo na sua figura que não soube perceber o quê. Algo nela era exótico ou fora da caixa, sem, contudo, deixar de estar na normalidade. Usava umas calças de pano castanho escuro e um gorro de lã bordeaux simpático, de onde escapavam os caracóis que apesar das brancas, via-se nitidamente que eram loiros.

 

Havia cerca de trinta e tal pessoas pelo menos trinta e seis eram idosas.

 

Que boa amostra! De repente senti-me como quando o meu pai me mandava apanhar escaravelhos e me oferecia não sei quantos centavos por cada um. Comecei a sentir instantaneamente vergonha, a minha persistência transformara-se em obsessão e esta em avareza. Dei por mim envergonhada com este misto de pensamentos, ainda por cima na “casa de deus”!

 

A missa terminou.

 

Começaram a sair apressadamente, abordei algumas: “estou com pressa” – já tinha acontecido algo semelhante antes, noutro sítio. Era uma “misa de cabo d’año” e iam demorar pouco, ao sair falariam comigo. Mas, ao sair, já era tarde e não tinham tempo.

 

Lá estava eu perante uma bela maquia de idosos cheios de coisas para contar que fluíam como as águas de abril num regato de maio. Eram tantos, e escapavam-se-me. Lá se ia a minha abundante amostra – castigo de Deus!

 

Mas acompanhei a multidão que descia em direção a uma curva entre amieiros e onde se adivinhava um riacho.

 

Apanhei uma que me foi falando e respondendo, chegamos a uma praça e indicou-me o resto das idosas, que por sua vez me indicaram outras e por fim chegou ela.

 

Não me quis dizer a idade.

 

- Que idade tinhas quando o homem foi à lua? – disse-lhe eu armada em esperta.

 

- Quem? O meu home? – claro que me ia zombetear quanto pudesse.

 

Demonstrei-lhe alguma preocupação queria conversasr com ela, por causa do estudo, mas não a queria demorar. Ela tinha gente à espera dela em casa? Tinha que estar em casa cedo, certo? Podiam-se preocupar com ela… Então disse-me que no seu tempo dizia-se que “A muller e a ovella consola a cortella”.

 

- Que che parece? – interpelou-me. Aliás esta era uma expressão de que fazia bastante uso.

 

Eu não tinha a certeza se tinha entendido. Quando não entendo admito honestamente que não entendi e pergunto.

 

- Ao pór do sol a muller debe estar na casa. Que che parece?

 

- Se assim é, nós já devíamos estar em casa. -  respondi-lhe.

 

Ela contou-me coisas dela. Das suas filhas, dos filhos… O marido fora da Guardia Civil. Mas era mui boiño, deixava passar o café que escondiam debaixo dos asentos dos carros!

 

Falei-lhe, em tom de ironia, que era preciso o espírito santo descer... e ela anuiu, com convicção e segurança. Pois sem Espírito Santo nada feito, era o Espírito Santo que dava inteligência aos homens. Perguntou se eu tinha fé. Percebi que ela tinha, mas que não ficar ofendida com a minha ironia. Era uma pessoa grande, autêntica e completa.

 

Dirigimo-nos para o carro. Eu ia dar-lhe boleia e ela ia indicar-me outra amiga que estava em casa. A desenvoltura e o à-vontade eram tantos que voltei a sentir-me quase que assustada. O caminho era de terra batida e adentrado num bosque de carvalhos. Perguntei:

 

- Para onde me levas? Tu não me irás fazer mal!? - disse-lhe a rir.

 

Ela gostou do meu carro, disse-me que eu tinha um carro bonito.

 

Falamos de coisas e ela fez com que eu falasse de mim e lhe dissesse com muita naturalidade algo que guardo sempre.

 

Tive vontade de conversar muito com ela, de ouvir as histórias.

 

Fomos a casa da tal amiga, que depois de me responder às perguntas revelou-me que ela teria 89 anos.

 

Nada me faria acreditar em tal.

 

Depois descemos novamente, de carro, por outro caminho menos perturbador.

 

Deu-me indicações para chegar à estrada principal e não quis que a levasse a casa. Quando a deixei fiquei preocupada, mas percebi em simultâneo que ela não queria que eu soubesse a morada, nem me quis dar o número de telefone para um contacto posterior. Disse tudo de uma forma bem-disposta, alegre e positiva. Toda ela emanava uma desenvoltura, uma segurança natural das pessoas sábias.

 

Só vale a pena ser velha, se for como ela.

 

            Agora penso no sentido de uma frase que ouvi há dias: “A quem damos o nosso tempo?” A vida é o tempo que passamos. Como é que estamos a gastar esse breve tempo? A atender telefones stressados, há procura de coisas urgentes que urgem… e tantas outras, importantes, que surgem, embrenhados no barulho, no ruido da vida… no lixo. Assim andamos perdendo o nosso tempo.

 

Naquela tarde as nuvens já tinham beijado a terra e o sol tinha amado os prados. Havia flores molhadas pela chuva que brilhavam. As cores eram mais nítidas.  

 

Desceu do carro.

 

Mas como a ia voltar a encontrar, assim sem contactos? Se tivermos que nos voltar a encontrar encontraremos.

 

Olhei pelo retrovisor com esperança de ver onde entrava, mas ela estava parada como que a velar para que eu não me perdesse. E num ápice desapareceu-me.

 

Ás tantas era uma deidade galega.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

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