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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Abr19

A Pertinácia da Informação

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Quando era criança houve um tempo em que tinha tempo para observar e aprender.

 

Sempre gostei de observar as formigas. A sua completa indiferença à minha presença não me impediam de imaginar vidas privadas intensas, lá dentro, no formigueiro. Pois, na verdade as formigas só não me ligavam nenhuma a mim como também não se importunavam umas às outras. Raras vezes me lembro de ver duas formigas juntas, de ferente uma para a outra, como quem parou para uma amena cavaqueira. Nunca as vi chocar de frente, nem nenhuma no caminho da outra. Nunca as vi aos pares, assim como quem de mãos dadas dá um passeio ou usufrui do seu tempo de ócio. 

 

Eu ficava ali… enternecida a ver as formigas.

 

Por mais que as observasse e por muito que delas viesse a entender, de nada me valeu. Nem as consegui salvar a elas nem ao homem que tentava vezes sem fim incendiar o formigueiro. As formigas jamais irão sair das suas definidas rotas, como subjugadas a um destino inalterável. O homem aguarda, teme ou anseia uma morte inadiável.

 

Medo.

 

O medo é uma coisa estupida que nos ensinaram para não perder a vida e que nos impede de viver. As formigas não têm medo mas também não percebem os perigos. Não têm se quer uma noção de valor próprio e vive agarradas aos seus cereais como umas fanáticas… um dia há-de chegar o apocalipse e elas nas tintas para isso.

 

“A senhora está muito metálica!” Foi a primeira vez que eu ouvi isto. Não se referia à roupa, era a voz. E por falar em voz, há vozes que são mesmo assim bonitas e roufenhas, eu já sabia disso, mas foi uma questão de amor e preocupação.

 

Acreditam que não acerto uma? Às vezes acho que era melhor continuar a observar as formigas…  é o que faço, uma vez que à semelhança do formigueiro aqui tudo está tão bem estruturado que qualquer intromissão será indiferente.

 

Ou talvez não.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

 

 

 

28
Mar19

A pertinácia da Informação

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Seca, uma grande seca

 

Não podermos crescer e alongar os braços como os ramos é mais que aborrecido, é uma terrível e enorme seca. Mas, de momento nem as arvores alongam os braços por causa da poda e por causa da seca.

 

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que monitoriza o clima de Portugal Continental e as situações de seca, refere que se verificou um aumento da área em seca em relação ao final de janeiro, indicando a seguinte distribuição percentual do índice de seca no território: 4.8 % na classe de seca severa, 57.1 % na classe de seca moderada e 38.1 % na classe de seca fraca. (IPMA, 2019).

 

Obviamente ler estes valores é duplamente uma enorme seca.

 

Quando falamos em alterações climáticas, os órgãos de decisão só lhe prestam alguma atenção se misturamos nesse discurso o impacto económico negativo que o fenómeno climático implica, bem como as perdas elevadas por riscos extremos que podem porém causar crescimento negativo do PIB Agrícola. Todo o discurso parece refletir uma incompatibilidade entre economia e ambiente e às vezes quando o bom senso parece não ter dúvidas sobre o facto de que a água, o ar, a biodiversidade… o planeta em geral é algo sagrado a ser conservado para as próximas gerações, ao nível dos órgãos de decisão ainda se discutem planos de ação de investimento que reconheçam que a reorientação dos fluxos de capitais para atividades mais sustentáveis, mas para isso ainda é preciso chegar a um entendimento comum sobre o significado de “sustentável”.

 

Ou seja, em suma para quem detém o poder económico o ambiente resume-se a uma enorme seca.

 

A ideia de que a responsabilidade do desastre ecológico é do comportamento individual, em relação à natureza, afasta-nos da causa principal do seu desequilíbrio e esconde a responsabilidade do sistema social ao qual estamos submetidos. A produção deveria funcionar para a satisfação das necessidades humanas, pois essa relação com a natureza é fundamental para a própria manutenção da vida. Porém, no capitalismo, que busca o lucro em tudo que produz, essa relação com a natureza sofre modificações profundas. Cada vez mais, a produção deixa de atender às necessidades humanas para manter ou aumentar os lucros dos empresários.

 

Se estivermos atentos percebemos que os desastres ambientais estão sempre ligados ao capitalismo nas causas ou nas consequências, pois mesmo tratando-se de fenómenos naturais, os efeitos mais terríveis ocorrem nas populações mais pobres. 

 

Podíamos dizer mais, muito mais… mas quem devia ler informação com pertinácia… acha tudo isso uma grande seca.

 

Vou buscar um pouco de água, que no escritório até é grátis! Em casa a que corre nas torneiras e a que vem no garrafão paga-se. Por enquanto, refletindo um pouco sobre este assunto, até tem pagamos um preço acessível, de tal modo que não nos questionamos porque temos que pagar um bem que provém da natureza e é essencial à vida. Não perdemos um segundo do nosso tempo para nos apercebermos que a nossa sobrevivência esta nas mãos de alguém e por isso não somos livres…

 

Mas isso ainda não vai ser no nosso tempo… por isso não vamos pensar muito nesta enorme seca.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

14
Mar19

A pertinácia da Informação

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Este sistema não presta!

 

Contava alguém, como quem diz: Era uma vez…

 

«O nosso avô gostava imenso de nós, como de resto a grande parte dos avós, fazia-nos sempre uma festa quando nos via – o que também era raro. Todos os avós, em geral, mimam os netos como se estes fossem umas criaturas fofas até qualquer idade. Mas, um dia, o meu falecido avô disse algo que me deixou, no mínimo, baralhada. Em conversa com o meu pai, acerca das tarefas agrícolas, mais concretamente sobre a falta de ajuda e como recorria a nós, as suas duas filhas, para colmatar essa falta, o meu avô disse: - As raparigas não prestam!

 

Naquele instante, julguei que o nosso amável avô estava apenas a tentar aliviar-nos da carga de tarefas que nos impediam de estudar e brincar como crianças. Enganava-me, pois na verdade o que o nosso amável e doce avô pretendia explanar era que do seu ponto de vista achava mesmo que “as raparigas não prestavam”, pois as raparigas tinham uma “utilidade limitada” a tarefas que não faziam a fortuna da casa, isto claro, se não dessem para o torto e “aparecessem em casa de barrigada[1]”! Pois, porque as raparigas eram isso mesmo, uma espécie de investimento de fundo perdido.

 

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Fotografia de Lúcia Pereira da Cunha

 

Obviamente, conservava a sua opinião em simultâneo com as “festas enormes” que nos fazia, como de resto qualquer avô que gosta das suas netas. Para que fique claro ao leitor: o avô gostava de nós, mesmo que fossemos raparigas.

 

- Até podem ser trabalhadoras, sim é verdade!- admitia ele. Mas nunca levariam para frente nem o nome nem a casa de família. Ele, ao menos tinha tido sorte, teve muitos rapazes, a não ser a minha mãe e minha tia.

 

Claro que o meu pai não concordou completamente com ele! Prova disso foi que continuou a levar-nos para fazer todas as inumeráveis tarefas no campo, na construção… contudo sempre a pedir-nos que escondêssemos a porcaria do cabelo dentro do boné e para assim termos um aspeto menos feminino.»

 

Ironia à mistura, este era um relato qualquer, em qualquer sítio.

 

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Fotografia de Lúcia Pereira da Cunha

 

Com estas e outras experiências aprende-se, mesmo que não se queira, aprende-se com a observação com a imitação, como explicam Brandura e posteriormente Miller & Dollard, todo o contexto e interação social determinam a aprendizagem.

 

“Uma vergonha!” - Dizia Bruno Vitorino acerca das sessões de esclarecimento para sensibilizar alunos de 11 anos sobre diferentes orientações sexuais. Dizia ele e diria o nosso avô! Claro que é uma vergonha e um perigo iminente, correndo-se o risco de se educar mesmo para a igualdade e para a não descriminação, ou ainda e muito pior: para uma vivência saudável da sexualidade!

 

Conseguimos construir a sociedade que queremos através da educação. Para educarmos precisamos saber que sociedade pretendemos construir. Nós sabemos que queremos uma sociedade em que se possa viver em liberdade, em paz, em solidariedade e unidos na diferença. Mas será que o regime patriarcal em que vivemos quer isso?

 

Quantas vezes ainda vamos ouvir: “As raparigas não prestam para isso.”, “Se fosses menina ias fazer ballet…”, “Aqui é melhor não contratarmos mulheres!”, “Para este posto de trabalho fica bem uma menina”… ? São estas coisas pequenas e sem importância e tantas outras que vamos repetindo todos os dias que vão construindo a sociedade.

 

Há cabeças que pensam de uma forma assustadora que sempre me faz duvidar se estão a falar a serio. Tenho sempre esta reação com racistas e o mesmo ar chocado com os e as machistas. Mas a sociedade continua a contribuir para essa reprodução de estereótipos através das escolas, através dos programas televisivos, através da própria justiça!

 

Este sistema não presta!

 

Lúcia Cunha Pereira

 

[1] Barrigada: Ficar gravida.

 

28
Fev19

A pertinácia da Informação

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Vejo-te no rosto alguma fadiga, embora não seja o corpo que esteja cansado, parece-me que seja qualquer coisa da alma, talvez.

 

São infinitas e diárias as constantes batalhas. Mas, era tão bom sentir esse aguilhão persistente que nos estimula a mente, bem como, experimentar o afago seguro da paixão que nos impulsiona a derrubar o muro, a insistir, a sobreviver e vencer… essa eterna luta em mudar o mundo e alcançar sempre algo que seja melhor.

 

Que seria melhor? Uma festa viva, daquelas de todos os dias, sem grandes exageros. A não ser que fosse essa a vontade!

 

Vêm-me à memória um brinquedo de infância de tons vermelhos, verdes, amarelos; a destoar entre a terra barrenta, uma pedra cinzenta, ervas e flores à mistura. Eram momentos furtivos de brincadeira. Nós não sabíamos, mas esses eram momentos perfeitos e quando tudo ainda podia acontecer. Revitalizemo-nos nas memórias de infância.

 

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Vejo-te. Interpretas na perfeição esse papel, mas eu já vi incontáveis vezes esse mesmo sorriso, o tique da mão ligeiramente erguida a uma distância razoável, sem impor e quase sem expressar nada. Até já sei que é contar uns breves 5 segundos e a seguir vais dizer aquela frase. Sei que é necessário o figurino mas se eu pudesse dizer o que penso agora mesmo diria sem grande enfado que podíamos ir todas e todos para casa e ler o teu discurso em folhas de papel. O efeito seria exatamente o mesmo. Não o digo em tom de reprova, mas antes de desolação.

 

 Falta-me ouvir alguém com alma, que diga toda ela, com a boca, com os olhos e do âmago das entranhas, que vamos trabalhar e aprender em conjunto para mudar o que faz falta mudar. Que o diga toda ela na sua expressão de rosto e no gesto das mãos e que ainda por cima acredite nisso!

 

Mas eu já não sou capaz de olhar para as coisas com o amor que sentia antes e se me ponho a sentir sinto-me triste com as árvores que florescem antes do tempo e as videiras nuas assemelham-se a desespero. Eu abomino o desespero!

 

Talvez seja a vez das heras e das trepadeiras em geral engolirem as casas e transformarem o território num imenso vazio verde azeitona.

 

Às tantas, perdi-me numa rua qualquer, que afinal também se chama Rua central – todas as terras têm uma rua central – esta desemboca no cemitério. Não é macabro, é apaziguador: o sol incide num angulo perfeito onde há uma oliveira, o cemitério e A Mãe. Não é macabro, é como um problema com o início do seu fim.

 

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  É só a vida em si mesma. De que vale a pena esta viagem se não for para nos erguer? O teu olhar não o diz, mas a falta de brilho na voz denuncia cansaço.

 

Anda, o início é agora e eu também estou aqui alinhada contigo.

Lúcia Pereira da Cunha

 

14
Fev19

A pertinácia da Informação

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Os velhos

 

Os velhos são os outros – dizemos nós.

 

Mas os velhos também somos nós, com as peles enrugadas, e nós, fugimos dos velhos e de sê-lo.

 

Os velhos não são velhinhos. São as Donas Maria, Ilda, Cândida… e os Srs. Ernesto, Luis, José… podem ter imensos nomes, tantos quantos os que existem, os de todas as pessoas do mundo quando chegam a uma certa idade. Porque os velhos não são uma espécie exclusiva, somos só nós com outra idade. Será da nossa exclusiva responsabilidade virmos a ser o que seremos.

 

Vejo-lhes rostos de gente, uns felizes, outros apáticos, um ou outro descontente… como noutro dia qualquer na vida de um homem ou de uma mulher. Não vale a pena romantizar que um velho é um tesouro e que todo o velho vale ouro. Cada um vale o que vale. Um velho é um sábio? Tudo depende do que estás disposto a aprender.

 

De uma coisa eu tenho a certeza as vidas velhas são livros maiores, mas tudo depende do que cada um conseguiu viver e do que cada outro nele consegue ler.

 

Não é justo enclausurar o outro ou todo aquele que tem vontades próprias. O pior de tudo é sermos aprisionados, seja em que idade for e em que circunstância.

 

Nunca gostei de mordaças nem de atilhos, desengane-se quem se leva pela aparente inocuidade – e na verdade também não há nocividade – mas a serenidade é apenas sensatez, há dentro uma opinião ponderada sobre cada coisa que me toca, que toco e que me diz respeito, como um mudo em geral sobre o qual respiro, não sozinha é verdade, mas também ocupo o meu q.b. de espaço. Digamos: penso, logo existo, se existo logo pondero. Assim, pergunto-me se será justo engolir mais colheres de sopa do que aquelas que consigo, mastigar os legumes de que não gosto, falar com quem não me interessa? 

 

“Mas eu estava a dormir!” disse o que dela restava ainda num subtil brilho do olhar ainda de um azul claro bonito. “ Se está a dormir acorda!” Qual o móbil de tal castigo designado, esse de não sermos donos de nós mesmos depois de termos conquistado a sabedoria à custa da dura experiência?

 

Se hoje tivermos que falar do amor, é aqui que faz sentido essa forma de gostar do outro que não pode ser se não altruísta porque se concretiza em felicidade por fazer bem ao outro. Como fazer bem ao outro se não respeitando-o e consequentemente a sua vontade? 

 

Ah, essa coisa do amor é como as plantas espontâneas que só nascem quando e como elas querem! Não é realmente uma coisa para todos…

 

O amor não ata, não dói, não obriga, não castiga, não abandona… e nunca desaparece se algum dia foi amor.

 

De resto, o primeiro verdadeiro amor deve ser por nós mesmos e sem este nunca seriamos capazes de amar mais ninguém, porque amar implica liberdade a nossa e a do outro. Amar-nos a nós mesmos não é incompatível com o amar o outro! Amar é um dar que nos aporta algo e nunca a falta. Se amamos não fazemos sacrifício, porque o que quer consigamos fazer aparta-nos felicidade. Se estivermos a dar e isso nos trouxer desconforto e infelicidade… isso não é amor. Ninguém que nos ame nos obriga ao que quer que seja e amar o outro não nos pode tirar dignidade…

Lúcia Pereira da Cunha

 

20
Set18

A Pertinácia da Informação

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Assim são os porcos, assim somos nós!

 

 

Os arbustos secaram e pressinto que o outono deve estar a chegar. Talvez.

 

Mas, a forma como o tempo e o movimento das coisas acontece mudou. Talvez seja outono, mas algumas árvores não deram fruto e não há uvas nas videiras.

 

Entendo que algumas coisas vão mudar, mas não compreendo a pressa. Posso ser eu que estou a entender mal. Estou fora do mundo ou o mundo fora de mim, ultimamente tenho essa sensação.

 

Era suposto o que está certo, o que é injusto tivesse voz… e que essa voz fosse a dos próprios injustiçados… Mas, possivelmente só sentirá o grito no dia do dilúvio, ou quando as margens se aproximarem até as águas desaparecerem, e então será tarde.

 

Coloquei-me solidaria com ele, admiti que não era justo ter tão pouco tempo para cada tarefa. Não deu tempo que me alongasse, respondeu: “Que havemos de fazer? Não somos nós que mandamos!”

 

Claro que não somos nós que mandamos, somos nós que obedecemos… e um dia podíamos não obedecer.

 

Os arbustos secaram e a desordem da natureza que não sabe se chegou ou outono ou se ainda vem a primavera, deixa-me angustiada.

 

A angústia é um sentimento estranho. Eu diria que é quase como um pedacinho de látex que ficou esquecido dentro de nós. Porquê esta comparação? Pois bem, é por causa de uma peripécia que uma amiga próxima me contou. A peripécia, aconteceu com uma amiga de outra amiga dela, que por sua vez lhe pediu encarecidamente segredo. O estranho caso trata-se de um fragmento de luva que ficou dentro do corpo dessa amiga da amiga, aquando de um exame médico íntimo, a partes íntimas da paciente, que era amiga da amiga. Não sei, mas imagino, que essa amiga da amiga da minha amiga, se tivesse sentido como o estranho local de trabalho onde alguém esqueceu a ferramenta. Imagino que se tenha sentido como o contentor amarelo… ou seja, qualquer coisa que não fosse ela mesma, para não sentir a estranheza de ter uma coisa estranha na sua entranha. A angústia é isso: uma sensação provocada por uma coisa fora do sítio, fazendo-nos sentir impróprios, apertados dentro de nós mesmos. Neste caso só se resolveria se passássemos a ser o contentor amarelo, ou nos adequássemos à condição própria de local de trabalho, ou ainda qualquer outra condição que nos seja imposta e nos seja estranha.

 

 

Que havemos de fazer? Ficou-me a fazer eco no cérebro, no momento em que mandei o cérebro embora porque o acontecimento poderia ser chocante para a sua compreensão. Estava ainda a ponderar os eu regresso e vejo de a notícia: “Trabalhadores da corticeira acusada de “castigar” funcionária estão solidários com a empresa.” Reli, de certeza que era um lapso do jornal, ultimamente há erros fortuitamente, em qualquer lado, até aqui! Será pela quantidade de textos que se produz, pela velocidade com que mudam os assuntos e pela necessidade de inundarmos o Mundo com tanta informação pertinente. Escrevesse como quem faz alheiras numa produção em serie… (Nem quero imaginar o que vai lá para dentro!).

 

Mas, não me enganei. O título, desta vez, não tinha gralhas, pelo menos de sentido, embora para mim não fizesse sentido nenhum!

 

No entanto, não era nada que eu não conhecesse. Esta perversão das situações é tão antiga como a caça às bruxas. “Que podemos fazer nós?” pois, nós obedecemos e somos uma corja fraca, escumalha de gente que adequa à condição de escravo. A nossa preguiça, desmazelo, lerdeza faz-nos ser ignóbeis, asquerosos porcos a chafurdar na lama porque não nos valemos nem para defecar fora da gamela onde comemos. Aos porcos não lhes interessa o que comem, onde comem, nem quem lhe dá de comer, vivem no estrume, chafurdam na lama…  é lhes indiferente a solidariedade ou dignidade. Assim, são os porcos. Assim somos nós, que quando uma colega, funcionário da mesma empresa, é reintegrada por ordem do tribunal, depois de ter sido despedida ilegalmente, acedemos em participar numa espécie mobbing, não lhe dirigindo a palavra, sendo coniventes com “castigos” que implicam usar espaços menos adequados como WC, ou ficar encarregada de carregar e descarregar a mesma palete várias vezes.

 

Não vale a pena esperar que nos salvem, porque não vai chegar nenhum Messias! Se chegar, o Messias não é um ser magicamente poderoso que atira bolas de fogo pelas mãos aos maus. Não vale a pena falar de criminalização do assédio no local de trabalho, na verdade, o assédio moral em contexto laboral pode subsumir-se à aplicação do n.º 1 do artigo 154.º-A do Código Penal, aditado pela lei n.º 83/2015, de 05 de Agosto, que tipifica o crime de “Perseguição”, o qual, nos termos gerais, pode integrar condutas que enformam a definição de “assédio moral” contemplada no Código do Trabalho. Como diz Joana Neto, o assédio moral no local de trabalho já é crime.

 

As soluções, para estas práticas contra a dignidade da pessoa humana, não residem apenas na sua criminalização, mas antes na quebra do silêncio e na vontade de deixarmos de ser como os porcos.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

13
Set18

A Pertinácia da Informação

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“El aprendiz de Jinete, 1978”.

 

 

Vai adiantada a noite. E eu tenho sede... esgotei todos os bons reserva, não me resta nada que me entusiasme verdadeiramente, para ler.

 

O meu estado de agitação é-me muito bem merecido. Quem me mandou a mim voltar a fazer asneira? Quem me mandou rebolar em estrume convencida que era um manto de flores?

 

Errei. Errei e ponto final. Que mal há no erro? Apenas a estupidez de o repetir. É certo que às vezes escutamos verdadeiros pensamentos filosóficos e profundos da boca de alguns pastores, mas isso não significa que todos eles sejam versejadores natos! Sinto-me estúpida, como uma citadina, de visita ao campo, vê e analisa, do seu ponto de vista citadino, anunciando sofisticação onde não há e obras primas onde só há a simplicidade natural da utilidade de cada coisa: “Que coisa fantástica este recipiente que quase se assemelha a uma chávena de chá gigante... consigo fabular uma cena de gigantes e anões em torno deste objeto...” “Isto? Isto é um penico!”

 

 

É fantástico conhecer pessoas e mobilizá-las para a sua emancipação! Mas que raio de palavreado, que soa quase um martelar vazio!? Quem me manda a mim procurar almas nas rochas e sentimentos profundos nos legumes? Um pepino, é apenas um pepino, que serve apenas para pepinar. Uma vez pepinado, acabado. Que há de vulgar em comer um pepino insípido? Nada, absolutamente nada. Faz parte da dieta de verão, comer de vez enquanto uma salada de pepino. Não se esteja à espera que o pepino se torne agora em algo mais gourmet!

 

 

Preciso, urgentemente, tomar um banho em algo sofisticado... não sei, algo que me retire do lodo e das areias movediças. Continuo a rebuscar nas prateleiras e parece-me tudo visto, gasto, desinteressante… olho e faço uma radiografia instantânea: está tudo percebido.

 

Num catálogo, sobre O surrealismo em Portugal, aparece escarrapachado o título: o tempo devolve-nos memórias. Penso e repenso. A expressão não significa que recuperamos memórias com o tempo, é bem mais que isso. Entendo que o tempo nos devolve as memórias que prendeu, mas nessa devolução possivelmente o objeto já perdeu características originais... o tempo devolve um objeto nosso de que ele se apropriou, mas ao devolve-lo percebemos que provavelmente o lesou, modificou ou alterou alguns pormenores. As memórias são sempre construções e são por vezes desencandadoras de uma espécie de serendipidy aquando do seu retorno.

 

Por isso, às vezes faz falta emprestar os nossos pensamentos ao tempo para que ele faça o seu trabalho sobre eles. O tempo transforma a nossa dor de luto, a nossa ânsia de luta, a nossa espera de amor. O tempo não só deteriora como uma criança descuidada a quem emprestamos um brinquedo, o tempo também repara e remenda como as avós ou mães que se munem de habilidades e paciência e arranjam o fecho estragado, pregam um botão que caiu, acrescentando uma reda ou um remendo... e acabam por recriar a nossa peça em algo que até acabamos por achar piada e voltamos a endossar. O tempo faz redescobertas de sentimentos e sabores.

 

Eu preciso que o tempo trabalhe em pouco tempo. Eu escravizo o meu tempo e ponho-o todo o tempo a trabalhar para mim. O meu tempo tem que ser um assessor infinitamente talentoso e que me tenha uma enorme devoção. Preciso de um tempo que reconheça em mim todo o valor que justifique o seu esforço e empenho em me apoiar. Qual coaching seria capaz?!

 

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 Eugenio Granell – El Aprendiz de jinete

 

Folheio o catálogo. Sempre gostei dos trabalhos inseridos no surrealismo. As formas das gravuras têm aquele traço especial que eu, cá para nós, que ninguém nos ouve, só pode ser do efeito do ópio... se não, como é que todos desenham aquelas formas moles que escorrem entre as telas e as folhas de papel?! Formas fundidas de um universo onírico... eu gosto, sim senhor, mas aquilo era do ópio, quase de certeza!

 

O que está no catálogo, também vi no museu... há uma de António Pedro, sem título de 1940 que me volta a causar a mesma tristeza que antes. Olho e vejo um não sei quê de decadência, brutalidade carnal, frieza... explicitamente parecem dois corpos nus com todas as suas franquezas a nu, possivelmente um feminino e um masculino. No feminino deixa-me desconfortável o peito descaído e a postura de uma coluna curvada, característica de quem tem já alguma idade... o prego na língua e a destreza com que parece movimentar as peças num tabuleiro de damas, alheia ao que se passa atrás de si, onde se encosta um corpo grande, masculino, que parece menos decadente. Tudo isto num cenário semelhante a uma margem de um rio, onde, me parece surgir também, um enigmático túnel ao fundo.

 

Fujo dessa gravura e de tudo o que me representa.

 

Prendeu-nos a atenção uma aguarela de Risques Pereira, sem data e sem título. Recordo-me que ela me disse que era sobre o Principezinho. Realmente, se reparar bem, posso ver a raposa e principezinho... até parece que esticam os braços para se conseguirem tocar, mas nunca se tocam... possivelmente.

 

Sigo, folheio o catálogo e recordo Pedro Omo. Tanto antes, como agora, parecem-me evidentes os falos e não sei bem... mas talvez sejam ânus e não vaginas...    Seria isso que via um pastor? E ali, no Eugénio Granel, veria um cavalo? Sentir-se-ia cheio de razão depois de ler o título “El aprendiz de Ginete, 1978”. Eu vejo o cavalo, mas imagino naquela sobra do dorso um aprendiz encolhido e receoso e há uma figura mais clara em que vejo um mestre pomposo, onde lhe distingo um enorme nariz empinado... o único que se safa mesmo é o suposto cavalo, cheio de formas elegantes e cores bem escolhidas. Tem um padrão bonito.

 

Ora se os autores das obras estavam cheios de ópio quando as elaboraram eu estou cheia de mim quando as observo.

 

E, recordo, mais uma vez, uma frase: “Eu queria um livro que falasse sobre mim...”

 

Se esperamos encontrar ou estabelecer uma ligação com os outros através da descoberta de uma condição universal de consciência, estamos tramados. Temos que ir realmente devagar para ouvir, acompanhar e entender. Nem sempre as histórias falam de mim, nem contam aquilo que eu vejo nelas. Quanto menos cheia de mim mesma me dirijo às coisas, mais consigo ver nelas. Também tento ver através dos olhos dos outros, e por isso pergunto-me que veria o pastor? Mas, sem a presunção citadina que todo o pastor é um versejador e que em cada cavaleiro há um sussurrado de cavalos. Às vezes há mesmo só bosta e moscas.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

06
Set18

A Pertinácia da Informação

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Se fizeres algo, faz como deve ser. Coloca de imediato os pontos e as vírgulas no devido lugar. Faz tudo exatamente como deve ficar.

 

Quando sonhares, sonha o sonho todo. Se é para ser, seja, seja-se em grande e até ao infinito.

 

Passamos a vida – curta, por sinal – a amarrarmo-nos e a amarrar… às vezes também marramos e depois, ou até durante, dói.

 

Amarramos os outros com medo que nos fujam, com receio de ficarmos sós na penumbra da nossa ignóbil existenciazinha. Receamos crescer, prendemo-nos às nossas limitações, não procuramos caminhos, paralisamos e como se isso não fosse já suficientemente inútil obrigamos os outros a ficar atolados nas lamas das nossas dúvidas, dos nossos medos e cobardias. Infrutífero, extremamente infrutífero!

 

Nós viemos nascer tal como nascem as abóboras: germinou a pevide, fez-se plântula e depois planta; desabrochou generosamente a flor, com seus néctares viscosos e húmida; penetraram-lhe o pólen, no estigma e estilete; fez-se fruto, cresceu abóbora grossa e vigorosa… pena que não se lhe comam as carnes alaranjadas da abóbora menina, ora em compota, filhós ou cremosas sopas! A este destino esta reservada a vida de uma abóbora. Fantástico, não é?! O legume veio à Terra com o propósito de estimular as minhas papilas (ou as suas). Imagine-se a abóbora recusar-se a crescer e a ser abóbora menina em plenitude?!  Infrutífero, eximiamente infrutífero!

 

 

No nosso ciclo de vida, distinguem-nos das Cucurbitaceae, apenas os aspetos que naturalmente nos diferenciam, de resto, a necessidade de cumprirmos o que somos e vem dentro de nós, é exatamente a mesma. À semelhança do vegetal, que cresce e desenvolve as deliciosas “carnes” alaranjadas, também nós devemos crescer em todo ímpeto aquilo que somos e quem somos, na harmonia com o que nos rodeia, sem medos e sem queixumes.

 

Seres humanos, pássaros e nabos reunimo-nos todos na semelhança que nos irmana: viemos todos com o mesmo propósito de sermos, deixarmos ser e ajudarmos a ser.

 

Portanto, em cada ato do nosso propósito, em cada momento da nossa vida, seja-se.

 

Sejamos até à exaustão e o bouquet será do mais inimaginável de fermoso.

 

Mas, parece-me que há vidas paradas de propósito. Vidas que se obstinam na perseguição de muros. Ora, os muros nunca nos deixaram passar! Tomar caminhos murados e teimar em ir contra eles faz-nos parecer estólidas moscas que teimam em bater nos vidros, uma e outra… e outra vez, até que o tempo as pare, porque se lhes acabou o tempo.

 

Às vezes, há quem não entenda que por ali não é o caminho e teime em açambarcar para si a admiração, a afeição, a alma e o amor de alguém, que por sua vez, não tem em si mesmo nem o que ele procura, nem procura o que o outro tem. Infrutífero, absolutamente infrutífero!

 

Já se diz, em algum lado, que ninguém é de ninguém, e na verdade não somos de, mas sim, vivemos com, em proximidades reguladas pelas nossas próprias vontades.

 

Quanto tempo se perde ao teimarmos ter a vida que concebemos no nosso entendimento, mas sem criar as verdadeiras circunstâncias da sua existência!?

 

Mas, o pior de tudo, são aqueles seres que acham saber perfeitamente o que seria o ideal para os outros, melhor que eles mesmo. Assim, apresentam-se eles próprios como os extremosos cuidadores, legítimos vencedores de duelos e autoproclamados a própria verdade e salvação. Esses, são nada mais que moscas que embatem em vidraças. Mau para os outros, a quem soltam injúrias: “Hás de arrepender-te!”; “Vais descobrir que tiveste em tua presença o elixir da tua salvação e o recusaste! Depois, então será tarde!”

 

Ora um verdadeiro herói não precisa de chamar a si as suas glórias, nem um verdadeiro salvador se regozija com a vingança.

 

Mau para os outros, mas péssimo para si mesmo, pois se bem que atropela e prende o outro, também não aprende nem contorna o muro para seguir o seu caminho.

 

Infrutífero, definitivamente infrutífero.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

16
Ago18

A Pertinácia da Informação

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E, de repente parece que se fez uma brecha no tempo e o mundo parou, o que na verdade é ilusório.

 

Remexo prateleiras à procura de algo para beber nesta tarde de calor infernal: talvez algum livro por encetar. Eis que o vejo: quase escondido a escapar-se pela fenda, entre a prateleira e a parede do armário, como se quisesse esconder de mim, algo na sua expressão exterioriza culpa. Ás vezes a culpa que sentimos exterioriza-se involuntariamente e denuncia-nos, embora, nem sempre essa culpa seja culpa aos olhos da vida mundana e nem de um supremo juiz... às vezes é a uma espécie de culpa que nos impomos. Por isso, sou da opinião que nós mesmos somos a nossa maior fonte de poder e de debilidade.

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

Tem capa crepe como eu gosto e estava completamente esquecido. Do interior das suas páginas cai, como cai de forma espontânea uma pétala de rosa, daquelas que ostentam fartas corolas de sumptuosas pétalas, porque as pétalas suaves das rosas caiem com facilidade, um pequeno cartão em forma de envelope. Tem na capa uma imagem com rosas vermelhas e um “amo-te” a vermelho. Instantaneamente pensei: “Que coisa pirosa, não me recordo disto! Nem, faz o meu género!” Mas, depois, olho melhor a imagem e realmente há um não sei o quê que toca a simplicidade e quase que acabo por achar que realmente podia ter sido uma boa escolha.

 

O autor do livro é Daniel Filipe. Não sei se veio junto com o cartão... ou se fui eu que o procurei… não me tenho qualquer memória sobre a sua proveniência, mas realmente eu já lhe percorri as páginas, sublinhei as estrofes e fiz apontamentos. Eu sou assim, há quem diga que os livros são sagrados e devem ser preservados intactos. Eu, porém, amo os livros e namoro com eles, envolvo-me com as suas páginas, roço-lhes as linhas, enrolo-me às suas capas, beijo-lhe as histórias e depois com a ponta da minha caneta de tinta negra e permanente atingimos o clímax com anotações que escrevinho nas margens.

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

Por duas vezes, folheio inadvertidamente e chego por coincidência à mesma página: 43.

 

“Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,

acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu amor.

Parto amanhã.

 

Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo

Doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.

 

Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exata nos contornos

a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o

caminho.

 

Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria

E apesar disso murmurar: somos dois e exigimos.

Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as

Etiquetas e afirmar: Procuro e esquecimento.

 

Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante,

Entre ruídos e interferências aladas.

 

Não basta ser feliz.

 

Não basta a Primavera.

 

Não basta a solidão.”

(a invenção do amor e outros poemas, de Daniel Filipe)

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

E chego à página 45 sem me aperceber que vamos reatar o nosso namoro, pois ele, o livro, cativou-me, isto só acontece porque algo nele faz uma conexão com algo dentro de mim, e isso só acontece porque acontece neste momento.

 

“É preciso cantar, é preciso sorrir,

encher a escuridão com árvores sem nome.

 

Estamos sós no mistério dos nossos quinze anos.

A tormenta passou. A comida arrefece.

 

A viagem sem história concede-nos a calma:

Serenos existimos, ocultos, dominados. 

(...)”

 

 

E na página 49: “(...)

Lutaremos meu Amor

 

 

Na aparência sozinhos   multidão na verdade

Lutaremos meu Amor

(...)”

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

A poesia é aquilo que quisermos, aliás a arte deixa de ser objeto vinculado e pertencente ao artista a partir do momento que é partilhada. Cada um vê nela o que procura, o que sente, o que quiser ver, no fundo! E no fundo nada disso é o que o artista sentiu ou projetou. Na minha adolescência, revoltava-me intensamente o facto de alguns colegas de turma papaguearem os comentários das sebentas, sobre os grandes escritores, estudados na aula de português. Eu, como se fosse uma voz ativa do próprio Pessoa ou de Florbela Espanca, reencarnados em mim, achava eu, que os estudos analíticos e as conclusões daí resultantes não faziam jus às pessoas.

 

De qualquer modo, a grandeza das pessoas está no seu desprendimento, na sua generosidade e simultânea discrição, mas, estas qualidades não acompanham os inseguros e invejosos. Assim, do mesmo modo o artista partilha na sua grandeza e no seu desprendimento e não se incomoda com a apropriação que os outros dão à sua obra porque a criação não se esgota na obra, nem num só objeto. Há não sei quê ligado ao infinito, à eternidade, algo de etéreo.

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

Abri o cartão que dizia, apenas: “BIS”. Então, recordei.

 

De acordo com o momento o mesmo objeto poder ter connosco uma conexão profunda ou então pode ser-nos completamente alheio à nossa realidade. Às vezes até os objetos que criamos são temporais para nós e simultaneamente intemporais para os outros.

 

Repentinamente, penso: “Não somos flores, nem somos membros quaisquer, somos troncos de onde saem ramos.”

 

Não podemos é prender as águas, as represas são prisões. Quem tem asas deve voar, não voar é antinatural.

 

A borboleta deve voar e ser a beleza a que está destinada ser, ainda que efémera e fugaz, há um dever profundo e fundamental que cada um de nós tem: ser-se.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

12
Jul18

A Pertinácia da Informação

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Uma questão de perceção

 

Os dias passam na expectativa que amanhã seja o dia para viver. É uma espera com ausência de paragem. Daqui, desta margem penso: “Só as trutas nadam contra a corrente e no final morrem… também.”

 

O que importa é manter o ritmo e seguir, manter a âncora firme pode ser que alguém venha depois e possa contruir.

 

O calor alterna-se com o frio – Estou cansada das tuas surpresas, ó tempo omnipresente!

 

Os dias de calor deixam-me exausta e o frio deixa-me lacerada… é a vida, já não me dói nem me custa quase nada.

 

Olho espantada o panorama: levou toda a gente uma paulada no cérebro e está tudo convencido que o que vê é normal, se era para ser zombie, mais valia não nascer!

 

No fundo acho que os meus dois neurónios – esquerdo e direito – fundiram num só, mas tenho a profunda esperança que a seguir haja partição como na ameba e se reproduzam e multipliquem a fim de povoarem todo o espaço vazio.

 

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 Fotografia de Lúcia Cunha

 

Uma manada é sempre uma manada, ao fim de algum tempo uma cabeça isolada fica assustada e uma manada às vezes é uma visão assustadora e demovedora.

 

Se olhares para algo que efetivamente é redondo, mas uma multidão disser que é quadrado, temos um grande problema… ou não!

 

Galileu debateu-se pelo que via. Eu digo que a cada um serve o que vê. É uma questão de perceção. Não vale a pena grande debate ou discussão.

 

Nem tudo tem que ser entendido, nem toda a gente é capaz de o entender, quando não se entende é melhor aprofundar, mas apenas se o assunto é relevante, se não for o suficientemente importante é melhor seguir adiante.

 

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 Fotografia de Lúcia Cunha

 

Do meu ponto de vista e do meu angulo de visão...

O que lhe falta é amor

É tudo ao fim de contas uma questão

De te fazer passar a tua dor

 

E eu olho e vejo então:

O problema, meu pobre cão

É que eu não tenho a solução

Se no fundo essa fosse se não

A minha própria dissolução

 

Tenho acima de tudo compaixão

Do sofrimento do bicho

Procurando abrigo no lixo

Sofrendo do calor do verão

 

Que temos? que temo?

 

E se um dia vier o demo

Esmagamos-lhe a cabeça no chão

 

Nós não temos, nem temo

Medo quando não há razão

 

Nós não temos nem temo

Que ser dissolução

 

Apoia-te firme e navega na seara do pão.

Até Torga disse que era pacifica a revolução

 

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

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    • P. P.

      Maravilhosos olhares.

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      Obrigado Pedro. Um forte abraço desde este Reino M...

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      Pois os gatinhos acham que tudo aquilo em que põem...

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      Belíssimas fotos!

    • Fer.Ribeiro

      Obrigado pela retificação, eu sabia que era grémio...