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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Mar19

Santa Cruz da Castanheira - Chaves - Portugal

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E cá estamos com mais uma aldeia do concelho de Chaves, ainda por terras santas, pelo menos no topónimo que foi adotado para a aldeia, e embora esta nem seja de santo ou santa em forma de gente, é-o em forma de cruz, ou seja, vamos até Santa Cruz, que por ser de terras da castanheira, leva ainda com o seu apelido – Santa Cruz da Castanheira, o que até dá jeito para a distinguir da outra localidade do concelho de Chaves com o mesmo topónimo – Santa Cruz, esta sem apelidos. Refiro-me a Santa Cruz da freguesia de Santa Cruz, Trindade e Sanjurge.

 

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Desta vez trocamos aqui as voltas. Hoje deveríamos ter aqui uma aldeia do Barroso, pois a de Chaves, deveria ter sido ontem, no entanto para este blog ter imagens, de vez em quando, temos que ir à caça delas, e como ontem foi dia de caça, não nos pudemos dedicar ao blog. Não pôde ser ontem, mas pode ser hoje. A aldeia do Barroso, fica para o próximo domingo.

 

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Vamos então até Santa Cruz da Castanheira que em imagem começámos com uma vista geral sobre a aldeia, tomada, se não me engano, desde a aldeia vizinha de Sanfins da Castanheira. Aldeia que tem uma igreja (ver primeira imagem) com uma torre sineira muito singular. Eu, em tom de brincadeira e sem qualquer ofensa, costumo dizer que é do estilo pombalino, mas não é bem o que Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), o Marques de Pombal, utilizou na reconstrução de Lisboa, não, não é esse, este é mesmo estilo de pombal de pombas, senão repare-se na imagem seguinte onde estão duas torres pombais, existentes e localizadas a 900 metros a poente da igreja.. Da duas uma, ou a torre da igreja foi beber inspiração aos pombais ou estes o foram beber à torre da igreja. Isto é apenas uma curiosidade, mas que a torre sineira é singular, lá isso é, o que até é bom, pois é diferente de todas as outras.

 

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Mas entremos em Santa Cruz da Castanheira, uma das aldeias que já conheço desde os anos setenta do século passado, tudo por causa da sua festa e de uma família amiga que temos nesta aldeia, pela qual fomos então convidados, mais precisamente uns colegas de liceu que simultaneamente também moravam no meu bairro.

 

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Mas dessa Santa Cruz da Castanheira pouco recordo, a não ser uma aldeia longe de Chaves, que afinal não é assim tão longe, mas os acessos da altura faziam-na mais longe. A verdadeira descoberta da aldeia já é mais tardia. A primeira vez que lá fui em recolha de imagens foi em 2007, depois em 2008 e as últimas lá recolhidas são de 2012, mas já passei por lá muitas mais vezes, por é de passagem obrigatória para ser ir a outra aldeia, Parada, ou mesmo pró São Gonçalo, embora este último tenha a alternativa voa Orjais. Curiosamente as imagens de hoje são todas de 2007 e 2008. Ou seja, todas com mais de 10 anos, o que faz com que os rapazes que aparecem na próxima imagem, hoje já tenham barba e já andem a rondar os vinte anos de idade.

 

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Rapazes que na altura não me ligaram puto, eles andava pra lá nas suas brincadeiras e isso é que interessava, e muito bem, embora se possa brincar toda a vida, em criança e jovem adolescente as brincadeiras têm outro sabor, então as brincadeiras de rua tem sabor reforçado e o mais engraçado é que na maioria das vezes se brinca ou brincava sem brinquedos, pelo menos com brinquedos convencionais, quando muito uma bola já chegava e qualquer cantinho da rua servia, de preferência se não houvesse envidraçados por perto, mas às vezes lá calhava e lá ia um ou outro vidro à vida. Os rapazes não me ligaram puto, mas fiquei agradado por ver que em Santa Cruz da Castanheira a rapaziada ainda brincava na rua.

 

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Mas não era só os rapazes que andavam na rua, as pitas pedreses também andava e igualmente, também não me ligaram puto, lá continuaram a esgaravatar o chão à procura de migalhas e bicharocos ou mesmo gãos de areia para o seu papo. Também são do meu tempo estas raparigas pedreses e estava-lhes sempre reservado um fim especial, penso que era para alheiras, mas sei que dava sempre uma boa canja.

 

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Já as vacas, o cavalo e os burros que também lá estavam mas não ficaram na imagem, embora vedados, gozavam toda a liberdade do lameiro e igualmente não me ligaram puto mas também não ligavam puto ao guardador, que nem era necessário, penso que estava lá mais numa de meditação do que de guardador, quando muito estava à espera que as reses enchessem o bandulho para as levar de volta à corte, mas não o sei, pois eu também andava na minha vida…

 

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Enfim, uma verdadeira aldeia que além disso tinha um café onde parávamos para uma mini fresquinha ou mesmo um simples café, mas era também pretexto para dar dois dedos de conversa com o seu proprietário que por sinal era primo dos meus amigos de liceu. Estou a conjugar os verbos no passado porque como já não vou por lá há mais de 10 anos não sei se o café ainda existe, suponho que sim, mas 10 anos numa aldeia de hoje é muito tempo, só mesmo os resistentes se conseguem manter por lá tanto tempo.

 

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E foi tudo por hoje, mas estou em crer que não será a última vez que Santa Cruz da Castanheira estará por aqui, aliás quando esta ronda por todas as aldeias do concelho terminar, já há projeto para outra ronda, remodelada e um pouco diferente, mas ainda só está em projeto. Garantia é que os fins-de-semana deste blog são do mundo rural, o nosso do concelho de Chaves, mas também um pouco mais distante, onde o da região e concelhos vizinhos também têm lugar. Andamos a tratar disso, assim tenhamos saúde e condições para o fazer, pois este blog veio para ficar.

 

 

02
Mar19

São Pedro de Agostém - Chaves - Portugal

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Como nesta nova ronda pelas nossas aldeias a metodologia adotada para as trazer aqui foi a ordem alfabética, depois de uma longa caminhada já vamos nos topónimos com início com a letra S, letra na qual aparecem os topónimos com nome de santos, que no concelho de Chaves são 10 os santos que dão nomes às aldeias e talvez 2 tenha nos santos a origem do seu topónimo. Depois da última aldeia que passou por aqui, São Lourenço, só já nos restam dois santos, o São Pedro de Agostém e o São Vicente, mas hoje ficamos apenas pelo São Pedro, São Vicente fica para o próximo sábado.

 

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Como se de um concerto se tratasse, hoje vamos fazer o post em três movimentos, com dois andamentos e um réquiem.

 

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Primeiro andamento - São Pedro de Agostém, a aldeia

 

Aldeia e sede de freguesia, uma das duas freguesias que mais aldeias tem, a par da freguesia vizinha de Nogueira da Montanha, ambas com 11 aldeias em que à de São Pedro de Agostem pertencem as aldeias de Agostém, Bóbeda, Escariz, Lagarelhos, Paradela de Veiga, Pereira de Veiga, São Pedro de Agostém, Sesmil, Ventozelos, Vila Nova de Veiga e Peto de Lagarelhos. Em termos de território ocupa 26,7 Km² que se estende desde a Veiga de Chaves até à Serra do Brunheiro, a Sul da Cidade de Chaves, que é ocupada por 1.419 habitantes.

 

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A aldeia de São Pedro de Agostém, a cerca de 6,5Km da cidade de Chaves (em linha reta) é constituída por um pequeno núcleo de aldeia concentrada mas ou menos à volta da igreja, o seu núcleo mais antigo, estendendo-se a partir deste por duas ruas, uma seguindo a direção do santuário da Nossa Senhora da Saúde e outra para sul, esta mais longa. Núcleo e rua rodeadas por terras de cultivo, pomares, olivais e vinhas, para depois dar lugar a algumas pequenas manchas de pinhais e/ou pastagens.

 

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A aldeia vai mantendo a sua integridade como aldeia típica transmontana, sem grandes atentados, mantendo assim o seu interesse no conjunto do casario. Destacam-se dentro da aldeia a sua Igreja e quase em frente a esta,  uma fonte do tempo da ditadura nacional com bebedouro e lavadouro, tendo nela inscrita as iniciais “CMC”, o ano de construção, “1932”, e “CONSTRUÍDO DURANTE A DITADURA NACIONAL”, e ainda, “BEBEDOURO” e “LAVADOURO” por cima dos respetivos tanques, estas últimas, suponho que para não haver enganos nos tanques. Um tipo de fonte com projeto tipo, pois repete-se noutras aldeias, sendo esta o modelo maior das que conheço, pois há alguns mais simples, apenas com a fonte e o bebedouro, ou mais simples ainda, sem lavadouro e bebedouro. Não deixa de ser curioso a inscrição de “DITADURA NACIONAL” nestas fontes públicas, ou seja, o Estado a assumir a ditadura que hoje a História classifica como a Segunda República, precisamente por ter tido um regime de ditatorial.

 

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E por se falar em projetos tipo da ditadura, a aldeia tem mais um, o da sua antiga escola primária, sendo também de projeto tipo, onde as mais simples tinham apenas uma sala de aulas que, conforme as necessidades da localidade, poderia ser de 2 ou mais salas, e ter um  ou dois pisos. Estas escolas foram construídas no Plano dos Centenários, a partir de 1940 até ao final da década de 1950, tendo sido projetadas por dois arquitetos, Raul Lino para as escolas da região Sul e Rogério Azevedo para as da região Norte. Dentro deste pano foram construídas mas de 7000 escolas. O Plano dos Centenários deve o seu nome às comemorações do 3º centenário da Restauração da Independência e o 8º da independência de Portugal, comemorados, respetivamente em 1940 e 1943.

 

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Segundo andamento - O Santuário de Nossa Senhora da Saúde

 

É um dos santuários marianos de Portugal, construído junto à aldeia de São Pedro de Agostém onde se realiza a maior festa mariana da região festas da região.

 

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Como a grande maioria das grandes festas do norte de Portugal, a festa de Nossa Senhora da Saúde de São Pedro de Agostém tem a parte religiosa muito concorrida, com missa e procissão, que apesar de geralmente ser em maio, junta muitas mais pessoas que os habitantes da freguesia.

 

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Para além das missas e procissão, é toda uma festa, com arraial e feira, comes e bebes, fogo de artifício, bandas filarmónicas e conjuntos musicais

 

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No recinto para além da capela e outras instalações de apoio há um coreto e uma construção envidraçada onde colocaram o altar para as celebrações festivas.
É uma das duas grandes festas do concelho de Chaves, distrito e diocese de Vila Real. A outra grande festa do concelho é a do santuário do São Caetano.

 

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A festa realiza-se sempre num domingo e segunda-feira e para acesso à festa, geralmente são garantidos autocarros a partir da cidade de Chaves, passando durante todo o dia a transportar pessoas nos dois sentidos, festa que é também conhecida pelas suas merendas.

 

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Terceiro andamento – Um réquiem

 

Em 3 de julho de 2010 associei-me à homenagem dos 50 anos de sacerdócio do Pároco Ladislau José de Sousa e Silva, então pároco do Santuário da Nossa Senhora da Saúde, mas também de muitas aldeias da freguesia. Hoje, ao trazer aqui São Pedro de Agostém, presto-lhe mais uma homenagem, trazendo aqui o post de 2010, ao qual apenas acrescento um parágrafo no final:  “ O pároco do Santuário da Nossa Senhora da Saúde, Ladislau José de Sousa e Silva, Nasceu em 03/07/1936; foi ordenado presbítero em 08/05/1960; faleceu em 04/02/2019."

 

 

Amanhã, dia 4 de Julho, a Junta de Freguesia de S.Pedro de Agostém, o Grupo Tradicional de Ventuzelos e a Comissão Fabriqueira vão homenagear no Santuário da Nossa Senhora da Saúde o Pároco Ladislau José de Sousa e Silva.

 

Uma homenagem à qual o autor deste blog não poderia ficar indiferente, não só por ser o Pároco de S.Pedro de Agostém e do Santuário da Nossa Senhora da Saúde, mas também pelos seus 50 anos de sacerdócio, pela sua dedicação às freguesias flavienses onde exerceu esse sacerdócio, como ainda pelo professor da Escola Secundária Fernão de Magalhães e da Escola Dr. Júlio Martins. Estas, seriam já razões de sobra para me associar a esta homenagem, mas pessoalmente, tenho muitas mais e bem valiosas razões. Como costumo dizer, o Padre Ladislau é o meu “Padre de Cerimónias”, pois em todas as cerimónias importantes em que estive envolvido, foi ele o Padre das celebrações, desde o meu casamento ao casamento de alguns familiares e casais amigos, desde o baptizado dos meus filhos aos baptizados dos meus afilhados e alguns sobrinhos, mas também em cerimónias de horas menos felizes de familiares meus. O Padre Ladislau já é como da família, mas acima de todas as razões atrás apontadas, ponho ao amizade e o amigo que o Padre Ladislau sempre foi desde que o conheço e, já lá vão longos anos.

 

Associo-me assim a esta homenagem dedicando-lhe o post de hoje, mas também deixando aqui um pouco da sua vida e algumas imagens que lhe são bem familiares por nas últimas dezenas de anos ter passado por esses locais em todo o tipo de celebrações religiosas.

 

 

Ladislau José de Sousa e Silva é filho de António Silva Júnior e de Elisa Teixeira de Sousa.

 

Do casal nasceram os seguintes irmãos: Maria Alice; Hélder, falecido recentemente; António e Angélica.

 

Ladislau nasceu a três de Julho de 1936, na freguesia de Oliveira, concelho de Mesão-Frio, distrito de Vila Real.

 

Aos 10 anos entra no Seminário Diocesano de Vila Real.

 

A 17 de Junho de 1959 termina o Curso de Humanidades, Filosofia e Teologia naquele Seminário.

 

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A 3 de Outubro de 1959 é chamado para a Diocese de Beja.

 

A 12 de Outubro de 1959 é nomeado, por sua Excelência Reverendíssima, D. José do Patrocínio Dias, Bispo de Beja, chanceler da Câmara Eclesiástica.

 

A 17 de Outubro de 1959 é nomeado professor de Português e História no Colégio Católico, Dr. Ramalho.

 

A 8 de Maio de 1960, é ordenado sacerdote no Seminário Diocesano de Vila Real.

 

Após uma preparação e adaptação à Escola do Movimento dos Cursos de Cristandade, em Espanha, regressa em 1960 a Beja e, nesse ano, é nomeado pároco da paróquia de São Matias e Director dos Cursos de Cristandade daquela Diocese.

 

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Em Outubro de 1960 é nomeado capelão das Carmelitas de Beja.

 

Acompanhou sempre, nas visitas pastorais e nas visitas de administração do Sacramento da Confirmação, o Bispo Auxiliar de Beja, D. António Cardoso Cunha.

 

Em 1962 regressa à sua Diocese de origem, Vila Real, onde foi nomeado Director dos Movimentos dos Cursos de Cristandade.

 

Em Julho de 1965 é nomeado pároco de São Pedro de Agostém, onde aqui permanece há 45 anos.

 

Em 1977 é também nomeado pároco de Vilela do Tâmega, onde permanece há 33 anos.

 

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Após a saída do Reverendo Dr. Curral da freguesia de Santa Maria Maior, ficou responsável pelos Cursos de Cristandade na área do arciprestado do Alto Tâmega.

 

Fez, com a ajuda do seu povo, uma residência paroquial em 11 meses; duas igrejas (de Vila Nova e Bóbeda) outras duas mais pequenas; três capelas novas e restaurou todas as capelas das povoações de São Pedro de Agostém, à excepção da de Paradela de Veiga.

 

Depois de ter tirado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra as disciplinas de História Universal, História de Portugal, Linguística I, II e III, Literatura Moderna e Literatura Contemporânea, é nomeado professor de Português no então Liceu Fernão de Magalhães, de Chaves.

 

Aí lecciona aquela disciplina durante 17 anos.

 

Após esse período, é nomeado professor da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica para a Escola Secundária Dr. Júlio Martins, em Chaves, onde aí permanece mais de 20 anos e até que se reforma da actividade docente.

 

 

Nos primórdios da sua actividade pastoral era frequente ver o Padre Ladislau a deslocar-se a pé a todas as aldeias da sua paróquia, onde abordava temas actuais para aquele tempo e para aquelas gentes.

 

O Padre Ladislau tem a consciência que muito mais podia fazer pelos povos que paroquiou e não dispensa o seu muito obrigado a todo o povo que o ajudou no seu múnus pastoral.

 

No início da sua actividade sacerdotal aprendeu com dois bispos, um deão e um arcediago a máxima de nunca passar pelas suas mãos um tostão que fosse do património das suas paróquias; por isso, procurou estar sempre rodeado de homens sérios e honestos, em concordância com o povo, que o auxiliassem nessa tarefa.

 

 

O Padre Ladislau foi e é um homem crente.

 

Colocou sempre a sua força e fé ao serviço de Deus, da família e do seu povo.

 

Teve e tem nos seus colegas padres a amizade, a estima, a consideração, o respeito e o afecto, sentimentos e atitudes imprescindíveis para se manter sempre firme na fé, ao serviço de Deus e do Seu Povo.

 

Ordenação Sacerdotal a 08/05/1960

 

Bodas de Ouro a 08/05/2010

 

04/07/2010, uma justa homenagem ao Padre Ladislau José de Sousa e Silva.

 

O pároco do Santuário da Nossa Senhora da Saúde, Ladislau José de Sousa e Silva, Nasceu em 03/07/1936; foi ordenado presbítero em 08/05/1960; faleceu em 04/02/2019.

 

 

 

 

 

 

16
Fev19

São Julião de Montenegro e 3+1 Kmºs Zero de Chaves

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Embora iniciemos o post com duas fotografias de neve, a verdade é que esta neve já não é de hoje e há muito que derreteu, aliás, depois desta nevada, já caíram outras. Para sermos precisos, esta nevada caiu em 25 de janeiro de 2009. Mas não ficamos só por aqui, pois se a foto com neve nos leva ao engano, a própria placa de entrada no concelho de Chaves também é enganadora, mas sem nos enganar. Na realidade esta placa está à entrada do concelho de Chaves, localizada  antes de chegarmos à aldeia de São Julião, deixando para trás o concelho de Valpaços, só que antes de aqui chegámos já tínhamos entrado no concelho de Chaves e passado por Limãos, deixado o concelho de Valpaços para trás, só que logo a seguir a Limãos, entramos novamente no concelho de Valpaços (Barracão), deixando o concelho de Chaves para trás, ainda antes de entrámos nele. Confuso, mas é assim mesmo, ou seja, saímos do concelho de Valpaços e entramos no concelho de Chaves, logo a seguir saímos deste e entramos novamente no de Valpaços para logo a seguir sair dele e entrar novamente no de Chaves… é melhor ficar por aqui, mas a realidade é mesmo assim.

 

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Quanto a esta segunda imagem, do mesmo dia da anterior, também é enganadora, mas só quanto à neve, pois quanto às placas, o STOP é mesmo para parar antes de entrar na estrada principal, placa que nos tapa um pouco a outra placa, tirando a santidade a São Julião de Montenegro, a nossa aldeia de hoje.

 

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A título de curiosidade, São Julião é um dos 10 santos (talvez 12) aos quais concelho de Chaves   recorre para ser topónimo das suas aldeias, a saber: Santiago do Monte; Santo Estêvão; São Caetano; São Cornélio; São Domingos; São Gonçalo da Ribeira; São Julião, São Lourenço; São Pedro de Agostém e São Vicente. Disse talvez 12 porque Sanjurge e Sanfins da Castanheira, também podem ter na sua origem um Santo, no primeiro caso o São Jurge, pois este topónimo existe por exemplo em Ranhados no concelho da Mêda, e no segundo caso o São Pedro Fins, este sim, é assumido com estando na origem de outras localidades portuguesas que hoje têm como topónimo Sanfins.

 

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Tal como tenho vindo a afirmar todos os sábados, esta nova abordagem às nossas aldeias do concelho de Chaves, tem sido feita por ordem alfabética, no entanto como no nosso arquivo em alguns casos abreviámos o Santo para Stº e o São para S. fomos levados ao engano, por exemplo na ordem em que Stº Estêvão apareceu e,  trouxemos primeiro os topónimos Santos quando deveriam ter trazido as Santas (Santa Bárbara, Santa Cruz, Santa Cruz da Castanheira,  Santa Leocádia, Santa Marinha e Santa Ovaia). As nossas desculpas às Santas, mas fica prometido que a seguir ao último Santo, o São Vicente, vamos às Santas, para continuar na santidade dos topónimos flavienses, que ao todo (Santas e Santos) são 18, talvez 20.

 

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Deixando as curiosidades de parte, entremos então na Aldeia de São Julião de Montenegro que até à última reforma administrativas das freguesias, foi também sede de Freguesia, hoje integradas na grande/extensa freguesia da União de Freguesias das Eiras, São Julião de Montenegro e Cela. Atrás disse grande/extensa porque agora o território desta freguesia estende-se desde o Concelho de Valpaços até ao Vale de Chaves (Eiras).

 

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Quanto à localização de São Julião de Montenegro, para trás, neste post, já fomos adiantando onde fica, mas para sermos mais precisos, a aldeia fica junta à EN 213 (Chaves-Vila Flor), no troço entre São Lourenço e o Barracão (Valpaços).

 

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Os 3+1 Kms Zero de Chaves

A título de curiosidade, pois hoje parece que além de ser um post dedicado a São Julião o é também às curiosidades. Então agora que o Km zero da EN2 está tão na moda, temos também que realçar que esta Estrada Nacional  que serve São Julião, tem também o seu Km Zero em Chaves, mais precisamente na Rotunda do Raio X. Trata-se da EN213 que tem início no Raio X em Chaves e termina em Vila Flor. Ora aqui surge outra curiosidade e outro Km zero, o da Antiga EN314, hoje R314 que também tem o seu KM zero em Chaves, naquela rotunda que não é rotunda (outra curiosidade flaviense) a apenas 200 do KM zero da EN213. Curiosamente esta R314 que tem o seu Km zero em Chaves a 200 metros do Km zero da EN213, termina precisamente em Vila Flor, no preciso cruzamento onde termina a EN213. Ainda outra curiosidade menos curiosa é a dos 3 Km’s zeros destas 3 estradas nacionais se encontrarem dentro de um circulo com 300 m de raio, quase juntos e a EN213 nasce na EN2 e a R314 nasce na EN213, ou seja, rodoviariamente falando, isto só prova que Portugal nasce em Chaves, estatuto que lhe é conferido pela EN2 que atravessa Portugal de Norte a Sul. Por último, referia no título o 3+1 Kms Zero de Chaves, pois além dos três já referido ainda temos outro, o Km zero da EN103-5, que começa no Lameirão e terminava na Fronteira de Vila Verde da Raia, hoje, outra curiosidade, termina na Galiza.

 

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Voltemos a São Julião a uma razão que seja para ser de visita obrigatória. Pois tem mais que uma razão para ser de visita obrigatória, mas há uma muito forte, a da sua Igreja, pois é uma que está nos roteiros obrigatórios das Igrejas Românicas.

 

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Num post anterior deste blog dedicado a São Julião dizia eu a respeito desta igreja:

“A igreja matriz de São Julião de Montenegro é um templo de traça românica onde ainda persistem muitos dos elementos arquitectónicos originais. Só a fachada principal, com uma orientação a Oeste, é que se encontra completamente descaracterizada por obras de restauro mais recentes, aliás obras a que tem estado mais ou menos sujeita ao longo dos tempos e ligadas a estragos causados por causas naturais, como o terramoto de 1755 (segundo alguns documentos) ou mais recentemente, atribuídas a um ciclone do início do século passado que muitas vezes é referido pela população mais idosa, ou mais recentes ainda, nos anos 80, por iniciativa do então padre da freguesia. Obras mais ou menos felizes que lá foram mantendo a cachorarrada  que testemunha a sua origem românica, bem como uma pequena porta que se rasga na parede norte do edifico e que curiosamente podemos ver repetida em desenho na Igreja de Moreiras, desenho onde se encontra reproduzida a famosa cruz usada pela Ordem dos Templários que neste caso seria já da Comenda da Ordem de Cristo, à qual pertenceu S.Julião.”

 

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A Igreja de São Julião de Montenegro está classificada como MIP - Monumento de Interesse Público pela Portaria n.º 740-EH/2012, DR, 2.ª série, n.º 252 (suplemento), de 31-12-2012.

Saliente-se que esta portaria veio repor o estatuto de interesse público que a Igreja de São Julião já tinha possuído e que indevidamente lhe tinha sido retirado em 2010.

 

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Na nota Histórico-Artística que consta na ficha da Direção-Geral do Património Cultural, a respeito da igreja de São Julião, pode ler-se o seguinte:

Povoado desde a Pré-história, como atestam as necrópoles, os testemunhos de arte rupestre, os povoados fortificados de altura (castros) da Idade do Ferro e as construções do período romano (calçada, ponte, barragem e villa) identificados até ao momento, numa comprovação da diversidade e da excelência dos recursos cinegéticos que dispunha às comunidades humanas que o percorriam e nele se fixavam, o território correspondente, na actualidade, ao concelho de Chaves confina, a Norte, com a Galiza, constituindo um dos seis municípios do 'Alto Tâmega'. 

 

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E continua:


De entre a multiplicidade de construções erguidas ao longo dos tempos faz parte a "Igreja Paroquial de São Julião de Montenegro", originalmente construída, ao que se supõe - pela análise da estrutura e das pinturas a fresco existentes na parede interior - , ainda no século XIII, inscrevendo-se, por conseguinte, na arquitectura românica da região, até que, em meados de oitocentos, a fachada principal adquiriu nova feição, destituindo-a da primitiva estrutura. 
Constituindo um dos templos melhor conservados de todo o termo administrativo de Chaves, a igreja preserva, no entanto, a maior parte do estaleiro românico. 

 

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E remata assim:


Composto de nave única (pavimentada com lajes graníticas), cabeceira e sacristia (adossada) de planta rectangular, o templo alberga capela-mor separada do restante corpo por arco quebrado com banda externa de enxaquetado apoiado em meias-colunas com capitéis decorados com motivos zoomórficos, ostentando pinturas a fresco nos dois lados da parede. A capela acolhe grande retábulo de talha dourada profusamente decorado - com tribuna escalonada e sacrário - contendo imagem de Sto. António, sendo, ainda, de destacar, a presença, no interior, de arcossólio na parede Sul com tampa sepulcral com cruz de Cristo. 
Acede-se à nave através de portal rectangular sobrepujado por óculo, ambos rasgados no alçado principal encimado por campanário de dupla ventana coroado com dois pináculos laterais e cruz central. No exterior, merecem especial destaque, a par de duas pias baptismais, talhadas em granito, as fachadas laterais Sul e Norte com cachorrada lavrada com elementos zoomórficos, antropomórficos ou com decoração em rolos e cornija em laços e/ou bolas. 
[AMartins]

 

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Penso que quanto à igreja, deixo documentação suficiente para justificar  a visita obrigatória a a São Julião de Montenegro, mas há mais, pois a aldeia, embora com algumas construções mais recentes que não se enquadram dentro do nosso gosto particular, mantém as suas características como aldeia típica transmontana, principalmente ao longo da rua principal que se inicia na rua da escola e termina no largo da Igreja, bem como ao redor desta, área hoje protegida que no entanto não corrige erros do passado.

 

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No largo da entrada da aldeia, onde se encontra a escola, existe o cruzeiro da aldeia com a sua escadaria elevada em relação ao pavimento do largo, o que lhe confere um ar mais interessante e alguma imponência.

 

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Existe também, numa rua transversal a rua da igreja que liga aos campos de cultivo da aldeia, uma fonte de mergulho que na altura do levantamento fotográfico me indicaram como sendo muito antiga. É notória uma intervenção mais recente em que o arco originalmente aberto e que dava acesso à fonte, foi tapado com blocos de cimento nos quais colocaram uma porta de ferro, retirando-lhe algum interesse. Penso que na altura me falaram também em certas estórias ou lendas ligadas à fonte, mas não o posso afirmar com certeza.

 

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Pela certa que haverá outros motivos de interesse que agora já não recordo, pois também São Julião foi uma das primeiras aldeias a fazer o levantamento fotográfico, isto já lá vão pelo menos 10 anos. Fui por lá mais recentemente mas com a missão mais nobre de acompanhar um amigo à sua última morada onde coincidiu despedir-me de outro pela última vez, um momento em nada apropriado quer para recolha de novas imagens ou para procurar motivos de interesse.

 

E é tudo!

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Consultas em: http://www.patrimoniocultural.gov.pt/en/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/71282 em 16-02-2019

 

 

13
Jan19

O Barroso aqui tão perto - Chã e São Vicente da Chã

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No “Barroso aqui tão perto” de hoje vamos até à Chã, ou melhor, até São Vicente da Chã, ou ambas, penso eu.

 

A passagem das aldeias do Barroso aqui pelo blog tem-se feito de maneira aleatória, isto porque alguma metodologia teria de seguir para as trazer aqui. Pensei inicialmente fazê-lo por ordem alfabética, mas para isso, na altura em que iniciámos esta rubrica, teríamos de ter o levantamento de todas as aldeias, o que não era o caso. Como sempre gostamos de ser surpreendidos, optámos por sortear a aldeia a estar aqui todos os domingos. Com alguma batota pelo meio, assim foi sendo. Acontece que a Chã calhou-nos em sorteio algumas vezes, mas tivemos de passar à frente e fazer novo sorteio, tudo isto porque desde início tive a dúvida de se a Chã e  São Vicente seriam duas aldeias, ou apena uma. Estudando a geografia do local e a proximidade daquilo que eu pensava ser São Vicente e a Chã, a distância entre ambas era tão pouca que me convenci ser apenas uma aldeia.

 

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Pois sendo então uma única aldeia, outra dúvida surgiu. Qual era afinal o topónimo da aldeia? Apenas Chã, apenas São Vicente ou São Vicente da Chã?  

 

Na verdade a Chã é toda uma pequena região que em termos toponímicos, vai aparecendo colada como apelido ao topónimo principal, tal como Travassos da Chã ou Castanheira da Chã, além de a Chã ser a freguesia de uma série de aldeia. Foi talvez por isso, o ser freguesia, que me induziu em erro ou dúvida, pois em princípio, sendo freguesia, seria também aldeia, mas não é obrigatório que assim seja. Aliás no concelho de Chaves acontecem alguns casos idênticos em que a freguesia não é aldeia, como é o caso da freguesia de Stº António de Monforte  à qual pertencem as aldeias de Curral de Vacas e Nogueirinhas.

 

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Assim, teremos mesmo de chegar à conclusão que aqui se passa o mesmo, ou seja, o topónimo da nossa aldeia de hoje será São Vicente da Chã, em que a Chã é também freguesia e região. Pois é por aí que vamos hoje, com fotografias de São Vicente da Chã mas aproveitando para falar um pouco de toda a freguesia e desta pequena região dentro do Barroso que dá pelo nome de Chã.

 

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São Vicente da Chã é uma velha conhecida minha que vem do tempo em que aí me apeava da carreira Chaves-Braga para apanhar a ligação para Montalegre. Se bem recordo penso que assim passou a ser a partir de meados dos anos 70, pois antes recordo também que o apeadeiro e ligação a Montalegre se fazia a partir do Barracão para depois seguir via Gralhós.

 

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Mas vamos então à Chã (região e freguesia) para depois ficarmos nos pormenores de São Vicente da Chã.

 

Ora a Chã, como o seu significado indica:

 

chã 
(latim plana, feminino de planus-a-um, plano, liso, uniforme, chato, fácil)

- Chão

 - plano ou extensão plana de terra.

- planície; planura; chapada; chada

- planalto

 

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E de facto assim é, todas as aldeias que pertencem à freguesia da Chã estão em terras pouco acidentadas, em planalto a rondar a cota dos 900 metros de altitude. Conhecendo a região, penso mesmo que a Chã (região) vai muito além dos limites da freguesia e bem se poderia estender para todo o planalto do Larouco e outras freguesias vizinhas que estão todas em terra de planalto na cota aproximada dos 900m de altitude

 

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Quanto à freguesia da Chã e segundo consta na página oficial do Município de Montalegre, temos o seguinte:

 

Ainda ostenta evidentes vestígios da sua importância constante nos tempos medievais e clássicos.

Cinco das suas doze povoações receberam a visita da estrada Romana – a XVII do Itinerário de Antonino: Penedones (Santo Aleixo), Travaços, São Vicente, Peireses e Gralhós. Pouco mais jovem que a via Romana é a ara que recentemente se achou em São Vicente – sinal inequívoco de que no outeiro (altarium) onde o cristianismo ergueu o templo românico, séculos antes, os povos que nos antecederam, aí adoravam o seu “Deus Óptimo Máximo”.

O mesmo lugar foi também do interesse dos reis de Portugal que o ofereceram como comenda às freiras de Santa Clara com mais duas freguesias anexas, num total de dezasseis povoações. O actual templo da freguesia é bem digno da mais atenta visita devido à obra patente dos Pintos de Donões, exímios artistas de Barroso.

 

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Outros dados da freguesia:

- Área: 51 km2

- Densidade Populacional: 14.7 hab/km2

- População Presente: 752

- Orago: S. Vicente

- Pontos Turísticos: Igreja Românica e Inscrição votiva a Júpiter (S.Vicente); Ponte Velha (Peireses); Sepulturas Antropomórficas e Ara (Penedones); Via Romana (Gralhós); Cascata de Fírvidasl; Parque de lazer de Penedones.

- Lugares da Freguesia (12): Aldeia Nova, Castanheira, Fírvidas, Gorda, Gralhós, Medeiros, Peireses, Penedones, São Mateus, São Vicente, Torgueda e Travaços da Chã.

 

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Pois aqui nos pontos turísticos, penso que são muito modestos e bem lhe poderiam acrescentar outros tantos, mas há pelo menos mais três pontos turísticos ou de interesse que seria obrigatório mencionar, deixando a paisagem natural de parte. Pois esses três pontos são: a Barragem dos Pisões; a gastronomia (restaurantes);  e as duas aldeias dos colonos (Aldeia Nova e S. Mateus), sem esquecer, claro, a arquitetura tradicional transmontana/barrosã das restantes aldeias.

 

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São Vicente da Chã

Ainda antes de entrarmos nos pormenores, fica um conselho ou alerta – Não se deixe levar a crer que São Vicente da Chã é aquilo que vê desde a Estrada Nacional 103 ou da estrada que liga esta a Montalegre, pois não é assim, aí apenas verá o que é mais recente. As suas preciosidades, estão mesmo na e à volta da sua Igreja Românica, mas para isso, terá de sair da estrada nacional, tomar a estrada secundária (M509-1) e 250m à frente, abandonar esta última, virando à esquerda até chegar à Igreja Românica a apenas 150m. Aí sim, temos tudo, a cereja e o bolo.

 

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Quanto à igreja Românica, para mim, é uma das mais interessantes que o Barroso tem, e nem sequer vimos o seu interior. Principalmente o enquadramento, mesmo com a torre sineira separada da igreja a esconder a sua fachada principal, ou será antes, com a torre sineira separada, mas a fazer parte da fachada principal da igreja.

 

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Como dissemos não é só a igreja Românica, mas também o seu enquadramento e casario à sua volta logo seguido da exuberância do verde barrosão, que quando é verde é mesmo verde, cheio de frescura que as terras com água lhe dão. Neste conjunto, mais uma pérola do Barroso, apenas um reparo. Tal como diz o povo, no melhor pano cai a nódoa, e esta lá está, em forma de telhado em fibrocimento na construção mesmo em frente à igreja (15m). Não é por nada, mas destoa do conjunto, no entanto é de fácil reparo e ouro sobre azul, no reparo, era o telhado retomar a sua cobertura original, o colmo, nem que fosse e só para memória futura ou para a história das coberturas de colmo. Claro, eu sei que se trata de uma construção particular e que (talvez) não se possa exigir tal ao seu proprietário, mas aqui, como o interesse até é público e turístico, as pessoas são sensíveis a alterações e o Município, através ou com a Junta de Freguesia, poderiam e deveriam contribuir para a substituição e preservação do espaço envolvente da igreja.   

 

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Depois deste pequeno conjunto que não é mais que o centro histórico de São Vicente da Chã, temos a paisagem, com muito verde, sobretudo de lameiros limitados por estremas de arvoredo autóctone, principalmente na baixa que liga à aldeia de Torgueda da Chã. Mais além, já na estrada que liga a Montalegre, outro tipo de cultivo, menos verde. Também nesse trajeto, um monumento religioso chama a atenção de quem passa.

 

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O tal monumento, de construção recente, de um lado, no canteiro relvado, numa placa tem inscrito “Grande Jubileu – Ano 2000” e do outro lado, noutra placa, uma mensagem religiosa: “Mistério da fé para a salvação do mundo! / Glória a vós que morrestes na cruz e agora viveis para sempre. Salvador do mundo, salvai-nos, vinde Senhor Jesus”

 

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Vamos agora ao itinerário para chegar até São Vicente da Chã, como sempre a partir da cidade de Chaves e que não tem nada que enganar, pois fica mesmo junto à Estrada Nacional 102 que liga Chaves a Braga. Por curiosidade o nosso itinerário de hoje é idêntico ao do último fim de semana onde mais uma vez optamos pelas estradas secundárias em vez da estrada nacional, ou seja, via São Caetano/Soutelinho da Raia, Meixide após a aldeia outra pela estrada da esquerda até Serraquinhos, passar ao lado de Viade tomar a direção do Barracão e estramos na EN103 em direção a Braga, logo a seguir temo a Aldeia Nova do Barroso e um pouco mais à frente São Vicente da Chã. Mas fica o nosso mapa para melhor orientação.

 

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Vamos agora ao que dizem os livros e documentos.  Iniciando pelo livro “Montalegre”:

 

“Sinais dos tempos”

Vários outros monumentos da romanização se descobriram e permanecem cá testemunhando a sua origem e finalidade: marcos miliários em (Padrões, Currais, Travaços e Arcos) aras romanas em (Vilar de Perdizes, Pitões e São Vicente da Chã) estelas funerárias (Vila da Ponte/ Friães), o célebre Penedo de Rameseiros (Vilar de Perdizes) e outros.

 

Padre José Adão dos Santos Álvares (séc. XIX) nasceu no Cortiço, filho do anterior, em 1814. Foi correspondente muito conceituado de vários jornais e revistas do Porto, Braga e Lisboa. Foi pároco de São Vicente da Chã, onde jaz, e arcipreste de Montalegre. Descreveu com realismo os últimos momentos de vida de José Fernandes, o Bagueiro, último condenado à morte em Barroso, que subiu ao cadafalso em 17 de Setembro de 1844.

 

O vale do Regavão, que bordeja a freguesia pelo sul e nascente, dá passagem à via prima, aqui assinalada por um miliário gigante que depois se transformou na cruz de Leiranque. Não longe desse local houve um pisão – que passou a topónimo da barragem e mais acima a antiquíssima Vila de Mel, provavelmente a primeira “statio” (São Vicente da Chã seria a segunda ) entre as cidades de “Praesidium” e “Caladunum” – “mansiones” da dita via imperial.

 

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Quanto à “Toponímia de Barroso” temos o seguinte:

 

CHÃ

É um corónimo: nome de uma região!

Chã, como já se disse (veja Cabril) vem do adjectivo latino PLANA > CHÃ, o que implica subentender  um substantivo terra ou seara: terra chã!

 

Quanto a S.Vicente na mesma obra temos:

 

SÃO VICENTE teve culto remoto. O célebre mártir de Saragoça já gozava honras de templo importante e antiquíssimo na própria cidade de Braga. Diz o ignorado mas interessante sabedor, Almeida Fernandes, em “Cadernos Vianenses” TV (1980) pp.285, que os cultos antigos (como S. Vicente) vieram substituir cultos pagãos.

-1258, «in collatione Sancti Vicencii de Chaa» INQ 1517.

Em S. Vicente da Chã foi encontrada uma ara dedicada ao deus olimpo Júptiter Óptimo Máximo, em 2004, o que vem confirmar o que Almeida Fernandes afirma. São Vicente é o orago da extensa freguesia da Chã que, com suas anexas de Morgade e Negrões, constitui Comenda das Clarissa de Vila do Conde. Também é orago de Contim e de Campos (esta, depois de desmembrada de São Martinho de Ruivães) e foi-o  da antiquíssima freguesia extinta que teve o nome de São Vicente d’ O Gêres, junto de Pitões e a que estupidamente vão chamado Juríz.

 

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Na “Toponímia Alegre” incluída na “Toponímia de Barroso”, temos o seguinte:

 

Chã – São Vicente

Ruim sítio, ruim gente,

Coelheiros de Medeiros,

Ciganos os de Peireses,

Pretinhos de Travaços de Chã,

Cruz-veigas de Gralhós,

Viajantes de Penedones,

Carvoeiros de Castanheira,

Torgueiros de Torgueda,

De Fírvidas são salta-pocinhas e

Arranca-torgos de Codessoso da Chã.

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

WEBGRAFIA

- "chã", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/ch%C3%A3 [consultado em 13-01-2019].

-   https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/ch%C3%A3 (Consultado em 13-01-2019)

- https://www.cm-montalegre.pt/pages/451 (Consultado em 13-01-2019)

 

12
Jan19

São Cornélio - Chaves - Portugal

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Cá estamos em mais uma aldeia do concelho de Chaves, uma na qual tantas vezes passamos e tão raramente paramos e as desculpas, que não nos ilibam de culpas, são precisamente o ser uma aldeia de passagem,  e uma variante construída há uns anos que em vez de nos fazer passar pelo centro da aldeia, nos faz passar ao lado, mas isto, como se costuma dizer, são “desculpas de mau pagador”.

 

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Tinha de iniciar este post com a verdade e as desculpas, pois São Cornélio até é uma das aldeias que merecia mais paragens nossas, por várias razões. A primeira por termos lá, por terem passado por lá ou descenderem de lá pessoas nossas amigas (com as três afirmações verdadeiras), aliás já tivemos oportunidade de explicar isto mesmo em posts anteriores dedicados à aldeia. Uma outra razão é porque foi uma das aldeias onde melhor fomos recebidos aquando do levantamento fotográfico e por último, por ser uma aldeia interessante para fotografar e desde onde se podem lançar vistas de encanto sobre um mar de montanhas mais ou menos distantes, onde o Vale de Chaves se deixa ver em pequenino.

 

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Mas há ainda uma outra razão pela qual vale a pena ir até São Cornélio e que se prende com a importância que a sua localização teve em tempos idos.  Sabemo-lo por algumas estórias que tiveram São Cornélio como palco, isto se recuarmos ao tempo das feiras que se realizavam no Castelo de Monforte, em que, já então, São Cornélio era aldeia de passagem obrigatória para outras aldeias vizinhas e suponho que também para algumas aldeias galegas da raia. Algumas são estórias complicadas, estórias de sangue, estórias hoje adormecidas pelo tempo mas que ainda se sentem e que às vezes calham em conversas. Pelo meio também haverá pela certa outras estórias, algumas anedóticas,  quiçá algumas de amores, e muitas de amizades.

 

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Pena que muitas dessas estórias acabem por morrer com quem as sabe ou genuinamente sabia, pois hoje algumas delas chegam até nós já deturpadas e/ou com várias versões, dependendo do lado de quem as conta, ou seja, estórias que têm todas as características para poderem passar à História, que, esta última, mesmo que documentada, tem sempre interpretações diferentes, mas isto são contas de outro rosário, que até acabam por ser interessantes, principalmente quando as mentiras são tantas vezes defendidas e repetidas que acabam por ser verdades indiscutíveis, é um bocado com o que hoje em dia se passa na internet/redes sociais e um pouco pelos media (mass media)  em geral, principalmente nas televisões  com as “fake news” (notícias falsas) em que basta serem noticiadas para passarem a ser verdades que dificilmente se desmontarão, e mesmo que se prove o contrário, a dúvida ficará semeada para sempre. Pior ainda é que, com a desconfiança, começa-se a duvidar das noticias verdadeiras.

 

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Mas todo este assunto do parágrafo anterior, embora também possa afetar as nossas aldeias, fazem-lhe pouca mossa, pois a este respeito as notícias que a eles dizem respeito, facilmente são confirmadas, e por serem pequenas comunidades em que todos se conhecem, já sabem quando devem acrescentar ou tirar um ponto, dependendo de quem leva ou traz a noticia e depois, nestas pequenas comunidades, a grande maioria é gente de bem e de confiança, pelo menos para quem lhas merece.

 

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Ainda antes de mudar de assunto, um outro pedido de desculpas, este por aqui no blog às vezes se recorrer à língua inglesa,  da qual agora se usa e abusa,  fazendo com que às vezes apenas fiquemos a ver passar navios , e bem longe da costa, mas que, infelizmente, às vezes, a sua utilização é a única forma de nos fazermos entender, isto por não haver palavras em português para definirem a coisa corretamente. É o abuso do inglês e das siglas/abreviaturas. Num pequeno exercício propus-me fazer uma “fake news” sobre o frio e anunciado surto de gripe, com recurso às habituais siglas que nos atiram para cima sem nos explicarem de onde vêm ,notícia que bem poderia ser verdadeira, e que seria assim:

“Esta onda de frio levou que a CIMAT  e a CMC a acusar o CHTMAD EPE de não cumprir o estipulado para a RRHUC, não tendo o HC e os CSC 1 e 2, capacidade de resposta a um surto de  H3N2 e H1N1, H3N2, H7N1 entre outros, pondo em causa o SNS a prestar à população ao não se cumprir o PNS conforme defende a DGS e o próprio PM. A gravidade da situação já fez com que  o MAI, através do SEPC e a ANPC decretassem o alerta Laranja para TMAD e que as DNPEBRPCAF e o SINAE, acompanhem o evoluir da situação pelo que o MAI já convocou para os devidos efeitos as DAJDORICS da ANPC.” [i] (ver a tradução das siglas no final do post

 

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A notícia e uso de siglas até podem estar exageradas, mas a notícia até poderá vir a tornar-se real, contudo o que mais irrita, é que no meio de tanta informação, os media, raramente informam no que é essencial. Por exemplo, mal a Proteção Civil decreta um alerta, laranja, por exemplo, todos (os media) se apressam a dizer que os distritos tais vão estar sobre alerta laranja, mas raramente dizem o que se deve fazer ou como proceder neste tipo de situação.   Cá para nós que ninguém nos ouve, nesta coisa (que para nós é uma treta) dos alertas às cores, os de Lisboa para nos avisarem, mais valia dizerem: “Para Trás-os-Montes vai cair uma geada do caralho…” e toda a gente ficava a saber que durante a manhã tínhamos de sair de casa mais agasalhados que o costume e que nas sombras teríamos de estar atentos ao gelo.

 

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Às vezes um caralhinho na boca dos lisboetas até nem lhes ficava mal, pelo menos informavam devidamente o pessoal e muito mais que essa cena das cores verde, amarela, laranja e vermelha, que ninguém sabe o que fazer com elas. Ah! Ainda outra, e quando derem informações, que as deem entendíveis para todos os níveis de educação, pois ainda há por aí muita gentinha a não entender metade do que dizem, estou a ver,  por exemplo, num alerta VERMELHO os de Lisboa a dizerem: “ Atenção, todas as zonas em perigo são para evacuar” .  Cá pra mim, alguns dirão “Estes de Lisboa estão malucos” no entanto, estou a ver outros, uns poucos,  a pegar apressadamente num pedaço de papel que tenham à mão e aí vão eles a correr para evacuar na zona de perigo… mesmo sem saber porque! há pessoal que gosta de cumprir com o dever… Por isso, tento na língua naquilo que dizem.

 

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Acho que com esta, está na altura de me ir… Então assim sendo, bou-me!

Até amanhã e desculpas ao pessoal de São Cornélio por termos saído do carreiro e andar práqui com outras conversas, mas às vezes temos de aproveitar esta idas às aldeias para falar um bocadinho nos nossos problemas e preocupações que, afinal de contas, nas aldeias se sentem muito mais do que aqui na cidade. 

 

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[i]  “Esta onda de frio levou que a Comunidade Intermunicipal do Alto-Tâmega   e a Câmara Municipal de Chaves a acusar o Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro EPE de não cumprir o estipulado para a Rede de Referenciação Hospitalar de Urgência/Emergência, não tendo o Hospital de Chaves  e os Centros de Saúde de Chaves 1 e 2,  capacidade de resposta a um surto de  vírus da gripe, pondo em causa o Serviço Nacional de Saúde a prestar à população ao não se cumprir o Plano Nacional de Saúde conforme defende a Direção Geral de Saúde e o próprio Primeiro Ministro. A gravidade da situação já fez com que o Ministério da Administração Interna, através do Secretário de Estado da Proteção Civil e a Autoridade Nacional de Proteção Civil decretassem o alerta Laranja para Trás-os-Montes e Alto Douro e que as Direções Nacionais: de Planeamento de Emergência, de Bombeiros, de Recursos de Proteção Civil e de Auditoria e Fiscalização e o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica, acompanhem o evoluir da situação pelo que o Ministro da Administração Interna já convocou para os devidos efeitos as Divisões de Apoio Jurídico, de Desenvolvimento Organizacional e Relações Internacionais e de Comunicação e Sensibilização da Associação Nacional de Proteção Civil.”

 

 

06
Jan19

O Barroso aqui tão perto - Viade de Cima

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Em 10 de setembro passado (2018) iniciávamos esta rubrica assim: “Vamos lá a mais uma voltinha pelo Barroso, que fica aqui tão perto e que é sempre um encanto andar por ele em constante descoberta. Hoje vamos até uma das 3 aldeias que têm como topónimo Viade, neste caso, Viade de Baixo.”. Isto foi em 10/09/18, em 06/01/19, hoje, mantemos o texto, só trocamos a sua última palavra para “Cima”, ou seja, em vez de irmos até Viade de Baixo, vamos até Viade de Cima.

 

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É de prever que as três aldeias com o topónimo de Viade fiquem próximas umas das outras, e de facto assim é. Viade de Cima fica a apenas 300m de Viade de Baixo, só que um pouco mais acima, mais alta, poucos metros mais alta, talvez o “de cima” se deva ao ser “a seguir”, pois para se chegar até Viade de Baixo temos que passar obrigatoriamente por Viade de Baixo, isto por estrada normal, pois a monte, as coisas podem ser diferentes.

 

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Estou agora a iniciar a escrita deste post e parto sempre para este trabalho em branco, ou seja, inicio o post e depois é que vou à procura de informação sobre a aldeia. Não foi assim que aprendi que as coisa se deveria fazer, pois academicamente falando deveria previamente reunir toda a informação disponível, analisá-la, selecioná-la e depois sim, partir para o texto final, mas como este não é um trabalho académico, tenho alguma liberdade de escrita, e gosto de ir descobrindo as coisas, surpreender-me com elas e partilhar a emoção do momento, contudo, neste caso, prevejo que o discurso não será muito diferente daquele que tive com Viade de Baixo, à exceção de nesta última aldeia ter tido a ajuda preciosa de uma “filha” da terra.

 

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Voltando ao Viade, topónimo comum às três aldeias, suponho que aquele Viade que ainda nos falta abordar seja o mais antigo, aquele que dá pelo topónimo de Antigo de Viade, e que a seguir tivesse surgido ao lado, a pouco mais de 800 metros a aldeia de Viade de Baixo e depois a de Viade de Cima. Mas esta afirmação não tem qualquer base de apoio, sou apenas eu a supor. Dadas as distâncias que separam as três aldeias, bem poderia ser apenas Viade, com o bairro do lado e o bairro de cima, mas não é assim, e se elas estão separadas, por alguma razão será, ou seria, pois a coisa já não é de hoje.

 

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Mas tal como dizia no post de Viade de Baixo, isto de um topónimo principal se repetir em aldeias vizinhas é muito comum em Portugal, aliás no concelho de Montalegre não é caso único, pois nas Penedas (de baixo, do meio e de cima) repete-se o mesmo, também no concelho de Chaves acontece nas Assureiras (de baixo do meio ou de cima). E outras há que adotam o mesmo topónimo principal e acrescentam “Vila” a um deles, que pela lógica a “Vila” será acrescentada à mais recente. Em Chaves, por exemplo, acontece em Nantes e Vilar de Nantes ou Oura e Vila Verde de Oura, acrescentando aqui, que as três Assureiras atrás referidas (de baixo, do meio e de cima), em tempos idos, eram a Vila de Baixo, do meio e de Cima. Curiosidades que pretendem apenas ir ao encontro da origem dos lugares.



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Mas neste caso de Viade, embora exista o Viade de Baixo e o Viade de Cima, a outra aldeia dá pelo topónimo de Antigo de Viade. Quanto ao significado (origem) do topónimo principal “Viade”, é comum às três aldeias, daí repetirmos o texto que deixámos para Viade de Baixo e que rezava assim, conforme consta na “Toponímia de Barroso”  :

 

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VIADE

Desde 2013 – União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas

 

É o genitivo do nome pessoal Beatus; “villa” BEATI>BIADE>VIADE.

Podia ser escrito Biade pois o topónimo já em:

-1258 «Sancte Marie Biadi» INQ 1514 estava sedimentado. De igual modo a forma encontrada em

-1288 « de Sancta Maria de Biady» (Com o y dos ditos amigos sdo pedantesco arcaísmo) INQ N.A. – 492. Nas inquirições de

- 1282 «…isto he en termyo de Biadi». Aqui voltamos à forma final/inicial – onde apenas faltava o e mudo terminal cujo i já assim devia soar.

 

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Quanto a Viade de Cima, na “Toponímia de Barroso” , consta o seguinte:

 

Viade de Cima

A raiz é a mesma de Viade de Baixo, contudo esta localidade não está documentada a não ser no A.H.P. como “Byade de Cima”.

 

E perguntarão, o que é o A.H.P.? - Pois não sei, confesso a minha ignorância, mas como sou curioso fiz uma pesquisa rápida na NET e só me apareceram duas entidades com estas iniciais, o AHP de Associação Hoteleira de Portugal e o AHP de Analytic Hierarchy Process, contudo, puxando pela mioleira, penso que será o AHP do Arquivo Histórico Português, também poderá ser o AHP de Arquivo Histórico do Porto, com a certeza que não é do Arquivo Histórico de Vila Real, porque se assim fosse,  seria AHVR. Seja como for, no H.H.P. está lá “ Byade de Cima”...

 

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Falta a “Toponímia Alegre” da qual não vamos transcrever todo o texto, apenas referir as partes em que Viade é referida, exceto uma que fora do contexto é forte e injusta para a aldeia, tanto mais que não sabemos a que Viade de refere (antigo, de baixo ou de cima). Então diz assim:

 

Uma mulher de Viade:

Mandei fazer uma capa

Ao pisoeiro d’ Ablenda:

Ninguém se finte nos homes

Que os homes são má fazenda!

 

As outras referência, são alcunhas dos de Viade:

 

(…)

Esfola-cabras de Viade

Arribadas de Viade de Cima

(…)

Pica-sinos de Viade

 

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Como sabem fazemos estes posts/convites de visita ao Barroso a partir da cidade de Chaves, daí traçarmos sempre os nossos itinerários para chegar até ao nosso destino. Pois desta vez para o nosso itinerário de ida, vou recomendar-vos a estrada do S. Caetano, mas hoje recomendo que a primeira paragem se faça aqui, no Santuário deste Santo, para uns momentos de estar, de reflexão se quiser  ou nem que seja para encher uma garrafa de água fresca (ontem prometi parar no S.Caetano e a promessa está cumprida). Pois a seguir temos de Soutelinho da Raia, sem entrar na aldeia, imediatamente antes de aparecer a placa a anunciar o concelho de Montalegre, há um enorme rochedo junto à estrada, que é de paragem obrigatória, pois é desde aí que se vê todo o planalto do Larouco a rematar na serra. É desde este ponto que a Serra do Larouco mostra todo o seu endeusamento. Eu não fiz promessa de lá parar, mas a grande maioria das vezes paro por lá para tomar a minha dose de contemplação, mas desta vez como já parámos no S.Caetano, aqui seguimos em frente até Meixide.

 

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Em Meixide, no final da aldeia a estrada bifurca-se, com ambos os destinos dirigidos a Montalegre. Devemos optar pela estrada da esquerda em direção a Pedrário e Sarraquinhos, nesta, logo na entrada devemos entrar dentro da aldeia, atravessá-la e sair em direção a Zebral. Todas esta aldeias são interessantes, assim, se algum motivo o convidar a parar, pare, pois temos tempo para chegar a Viade de Baixo. Depois de deixarmos Zebral de lado sem entrar nela, seguimos em direção a Vidoeiro, uma das aldeias dos colonos de Salazar, deve ignorar as placas para o Cortiço, mas se passar por lá também fica a caminho, e a pouco mais de 1 km está na “estação de serviço” do Barracão, já na EN103 (estrada Chaves-Braga).    

 

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Aqui começa a segunda parte do nosso itinerário que servirá para ir e mais tarde regressar. Estando no Barracão é só seguir pela EN103 em direção a Braga. Vai passar pela Aldeia Nova do Barroso (outra das aldeias dos colonos de Salazar), por S. Vicente da Chã, por Travassos da Chã (ao lado), por Penedones e Parafita e logo a seguir aparecem as placas a indicar a entrada para Antigo de Viade, mas não é este o Viade do nosso destino de hoje, assim, continue pela EN103 e oitocentos metros mais à frente, aí sim, terá a indicação da entrada em Viade de Baixo e de Cima, à direita. Logo após Viade de Baixo já estamos no nosso destino. Mas fica o mapa por via das dúvidas.

 

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E agora as nossas impressões sobre Viade de Cima. Fomos lá pela primeira vez em 25 de maio de 2016, já a meio da tarde, num dia muito quente e já depois de termos feito uma paragem em Viade de Baixo. Sabíamos que das três aldeias de Viade esta era a mais pequena e que o levantamento fotográfico seria breve, e embora o levantamento até fosse breve, a nossa estadia prolongou-se mais que o previsto, tudo porque logo à entrada da aldeia o manejo de um fuso e uma roca nos fez parar, coisa que eu já não via desde puto, quando em casa da minha avó a via, pasmado, a manejar com mestria uma nuvem de lã a ser transformada num fio de lã.

 

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Parámos. Quem manejava, também com mestria, a roca e o fuso era a D. Maria Pires, então com 86 anos e que hoje, espero que continue com a sua simpatia e arte de bem receber à barrosã, terá 88 anos, vivia com o seu marido então com 93 anos. Ficámos encantados a ver o fio de lã a nascer e a enrolar-se no fuso, igualmente com o fio a formar-se a partir de uma nuvem de lã apegada à roca. Claro que entre a contemplação e apreciação a conversa ia rolando. Gente nova na aldeia , não havia, agora só velhos, os filhos todos para fora. Já não recordo quantos disse ter, mas recordo que um, tinha restaurante em Lisboa, lá onde param os artistas e o teatros, presumi ser o Parque Mayer, mas para o caso nem interessa.   Nem que fosse só por esta conversa e pela mestria do manejo da roca e o fuso a fazer fio de lã, a ida a Viade de Cima já tinha valido a pena.

 

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Mas tinha mais, primeiro a paisagem com vistas lançadas para a barragem dos Pisões e para a Serra do Barroso, com os cornos do Barroso quase no alinhamento da aldeia. Mas também a verdura dos seus campos chamavam a atenção da objetiva, idem para o casario tradicional de granito à vista, pena os abandonos e as ameaças ou mesmo ruinas, mas no geral, é mais uma aldeia barrosão que não deixa ficar mal o Barroso e que merece uma visita.

 

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Como aldeia pequena que é Viade de Cima, era de prever não haver muita literatura sobre a povoação e de facto assim é. Nos nossos locais habituais de pesquisa, nada consta, nem no livro “Montalegre”, ou aliás, aí consta a nome da aldeia mas apenas para mencionar que é um dos lugares da freguesia de Viade de Baixo. Informação que hoje em dia já não é correta, pois hoje, após a reforma administrativa das freguesias, passou a ser União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas. Fora esta referência, apenas encontrámos um texto do Padre Lourenço Fontes, intitulado “ O Reino das 7 maravilhas é Barroso” onde entre as mil e uma maravilhas do Barroso, apresenta os  “7 Canastros: Vila da Ponte, Outeiro, Cervos, Viade de Cima, Paredes do Rio, Mourilhe”

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas, hoje apenas uma,  e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

 

 

23
Dez18

O Barroso aqui tão perto - Cavalos, Chãos e Vila Boa

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Hoje no “Barroso aqui tão perto” não vamos para uma aldeia ou localidade, nem duas, mas para três que até poderiam ser mais ou apenas uma. Vai ser difícil de explicar e justificar em palavras esta decisão, e vai-me obrigar a uma introdução explicativa que talvez não explique nada em particular, mas um todo que é real, de um Barroso feito de Barrosos, aqui e hoje a uma escala mais pequena que se vai ficar pelas três localidades que hoje vamos aqui, e que são elas:  Vila Boa, Cavalos e Chãos.

 

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Umas palavras em jeito de introdução

Seguindo o terreno, sem olhar a estradas e caminhos, de Norte para Sul, temos Vilas Boas, a seguir Chãos e depois Cavalos, mas tudo isto, no terreno, é muito confuso. Se não fossem as placas indicativas da estrada e sabermos que estas três localidades existiam, eu diria que estava em Cabril, ou bairros de Cabril. Não é por nada, mas entre Vilas Boas e Cabril são apenas 800 metros e é entre estas duas localidades que se localizam Cavalos e Chãos.

 

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Já perceberam que estamos num outro Barroso dentro do Barroso, é o Barroso de um povoamento mais disperso que se vai desenvolvendo em linha, no caso, numa linha paralela ao Rio Cabril, em terras baixas com cotas entre os 250 m de altitude junto ao Rio Cabril, ou seja, e só para termos uma ideia e uma comparação, são 100m abaixo da cota do Vale de Chaves, mas como aqui não estamos a falar de vales mas de localidades adossadas à encosta da montanha com pendente para o Rio Cabril, Vila Boa (lá muito mais no alto) atinge a cota dos 390m  (idêntica à cota das terras mais baixas de Vilar de Nantes ou Samaiões, ainda do Vale de Chaves).

 

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Claro que o que deixo atrás em nada corresponde à realidade que se vive in loco, pois quem ler as palavras que deixei vai ficar com a ideia que andamos por outras paisagens, mas não é assim. Como disse estas aldeias ou localidades situam-se numa encosta de montanha com pendente para o Rio Cabril, na sua margem esquerda, mas mesmo em frente, a outra pendente da montanha na margem direita do rio, vai acima dos 1400m de altitude, é que mesmo em frente temos a grande muralha e imponência da Serra do Gerês. Isto é complicado de explicar e descrever em palavras, há mesmo que ir ao local para ver e sentir este ambiente e como o verde vivo da vegetação da margem direita do Rio Cabril se vai transformando numa paisagem sem vegetação onde os grandes rochedos são reis e senhores assumindo um colorido próprio com vários matizes ténues que terminam ou não a confundir-se com o próprio céu, dependendo da luz e da meteorologia do dia, havendo dias de chuva em que a grande serra nem se deixa ver. Há portanto que ir por lá várias vezes e em várias épocas do ano.

 

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É, o Barroso é assim, não lhe chegava pertencer ao Reino Maravilhoso que Torga tão bem descreve, como tem de ter todo um colar de pérolas matizado, isto quando à natureza não lhe dá para cobrir tudo com um manto branco, como se Deus fizesse um intervalo na vaidade destas pérolas coloridas para descansar a vista na pureza do branco. Da maneira como vou pintando esta tela do Barroso, quase parece que se vive no paraíso, mas não é bem assim, pois são terras de vida difícil que chegam a doer, onde sobretudo se sobrepõe um sentimento telúrico, com uma vida fortemente ligada ao chão, à terra que os viu nascer e os fez para a vida de viver o Barroso onde cada habitante é um Barrosão e não um Barrosinho,  ou como Torga diz no “Reino Maravilhoso”: “Homens de uma só peça, inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão.”

 

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Cavalos, Chãos e Vila Boa

Vamos então às nossas três localidades de hoje.

 

Esta descoberta do Barroso que há anos me propus fazer, foi feita em muitas etapas, com roteiros previamente definidos e mais ou menos pensados para um dia completo. Passei por estas localidades algumas vezes, ainda antes de fazerem parte do roteiro do dia. Numa dessas passagens, uma placa da estrada chamou-me a atenção, é que a mesma nunca me tinha aparecido nos meus mapas de estudo nem nos mapas turísticos de Montalegre. Cavalos, era o que estava escrito na placa e fui andando à espera que a aldeia surgisse mas quando dei conta estava em Cabril. Isto, segundo o registo da fotografia que então tirei à placa, aconteceu em julho de 2016.

 

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Passado 1 ano, mais precisamente em agosto de 2017, finalmente Vila Boa, Cavalos e Chãos, entre outras, calharam no roteiro do dia. Parámos em Vila Boa, coisa breve, pois a vila é boa mas pequena e de seguida tocámos o carro para Cavalos, mas a placa de Chãos fez-nos sair da estrada para fazermos primeiro o seu registo, e lá fomos até Chãos, igualmente pequena, a uns escassos 200 ou 300 metros abaixo de Vila Boa. Registámos algumas imagens e bota de novo para trás, para Cavalos. De regresso à estrada mais principal, fomos registando o que fomos vendo com interesse para a nossa objetiva. Passados uns escassos 200 a 300 metros estávamos em Cabril. Voltamos atrás, voltamos à frente e era mesmo assim. Cheguei à conclusão que Cavalos é assim como o efluente de um rio, desagua em Cabril.

 

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Assim, as nossas imagens de hoje são apenas destas três localidades correndo o rico de algumas delas já serem mesmo de Cabril, o que por aí nem há mal nenhum, pois todas estas localidades pertencem à freguesia de Cabril, mas paramos na sua entrada, pois Cabril irá ter aqui o seu próprio post, e para breve, pois já são poucas as aldeias do concelho de Montalegre que nos faltam abordar.

 

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Itinerário e localização

Quanto à localização o assunto já está mais ou menos abordado. Sabemos que as três aldeias ficam juntas a Cabril, já é uma boa referência, mas indo pela habitual referência dos rios e das barragens, as três aldeias ficam também próximas do Rio Cabril, na sua margem esquerda, imediatamente antes deste rio, teoricamente,  desaguar no Rio Cávado, pois na prática já desagua na barragem de Salamonde.

 

Quanto ao itinerário para chegarmos a esta três aldeias, como sempre a partir de Chaves, é via estrada de S. Caetano/Soutelinho da Raia, depois Montalegre, aqui desce-se ao campo de futebol e continua-se sempre por esta estrada até à aldeia e barragem de Padrela. Aqui atravessa-se o paredão da barragem para a outra margem e seguimos sempre por essa estrada, a única que existe até chegarmos As nossas aldeias de hoje, mas antes terá de passar (sempre ao lado) de Sirvozelo, Cela, Lapela, Azevedo, Xertelo, Chelo e Bosto Chão, logo a seguir será Vila Boa, uma das nossas aldeias de hoje, as outras duas, são logo a seguir. Mas fica o nosso habitual mapa.

 

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Quanto aos topónimos, vejamos o que nos diz a “Toponímia de Barroso”:

 

Cavalos

O topónimo chega-nos de “cavalo” (pelo latino popular caballu) mas com outros significados. Assim, pode o nome dever-se ao facto de se tratar de sítio de pedras cavaleiras ou penedos encavalados; Pode também referir-se a muitos animais dado que a categoria social dos habitantes o exigia. Com efeito,

- 1258 «se algum destes habitantes tiver cavalo, escudo e lança, defenda o seu tributo…» como como se afirma nas INQUIRIÇÕES de 1258. Tanto uma como outra explicação, ambas se ajustam ao topónimo e estão em consonância com os topónimos anteriores e seguintes. A zona cabrilense é cheia de penedos sob os quais os seus habitantes fazem ainda hoje as suas adegas de verdinho e aguardentes afins.

 

Chãos

Plural de chão – por planu. É adjectivo e pressupões o substantivo campos, prados.

 

Vila Boa

Villa < Vila e Bona < Boa. Não aparece nas inquirições nem no Arquivo Histórico Português (1531). Esta Vila Boa pertence a Cabril.

 

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Quanto à “Toponímia Alegre”, temos:

 

“Apelidos” de Cabril

 

Moeda falsa de Lapela,

Vinho-azedo de Azevedo,

Cava-touças de Sertelo,

Escorricha-picheis de S. Lourenço,

Rabões de Chelo,

Bufos de Vila Boa,

Lagartos de Fontaínho,

Cinzentos de Chãos,

Carrapatos de Cavalos,

Paparoteiros da Vila

Dente-Grande da Ponte,

Pousa-fois na Chã de Moinho,

Raposos de Busto-Chão,

Esfola-vacas de São Ane,

Ferra-bestas de Pincães,

Putaria de Fafião.

 

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 Na Etnografia Transmontana I, de Lourenço Fontes,  aparecem os “apelidos de Cabril”, lá intitulados como “Alcunhas da Freguesia de Cabril” e com algumas variantes, uma delas diz respeito a Chãos e Cavalos não aparece:

 

Alcunhas da Freguesia de Cabril

 

Moeda falsa de Lapela,

Vinho-azedo de Azevedo,

Cava touça de Xertelo,

Escorricha capichés de S. Lourenço,

Rabões de Chelo,

Lagartos de Fontaínho,

Bufos de Vila Boa,

Cinzeiros de Chãos,

Dente grande da Ponte,

Esfola vacas em Soane,

Pousa fois em Chão de Moinho

Ferra bestas em Pincães,

Putaria de Fafião.

 

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E o livro “Montalegre” o que nos diz sobre as nossas aldeias de hoje!?

 

Em relação a Vila Boa e Cavalos,  apenas a referência de pertencerem à freguesia de Cabril e à sua altitude, mas isso já nós o dissemos atrás.

 

Quanto a Chãos, temos uma referência ao Penedo do Touro, mas como são abordados outros penedos na região, transcrevemos todo o parágrafo:

 

São igualmente célebres por serem incomuns: o penedo do Esporão (S. Lourenço Cabril), a Laje dos Bois (Lapela-Cabril) o Penedo da Pala (Cela-Outeiro) o Penedo da Caçoila (Pedrário-Sarraquinhos) A Casa dos Mouros ( Morgade), o Penedo Sagrado (Salto) A Mesa do Galo (Borralha-Salto), o Penedo da Caldeira (Vila da Ponte), o Castelo (Fervidelas), A Fraga, os Cornos da Fonte Fria, Altar de Cabrões (Pitões), o Altar da Moura (Frades-Cambezes) A Pedra Bolideira (Ponteira – Paradela), o Penedo do Touro (Chãos-Cabril) “ ao abrigo dele se podem defender das inclemências do tempo mais de duzentas cabras”, os Pedralhos (Vila da Ponte) onde escreviam o nome os emigrantes para o Brasil, alguns dos quais nunca regressaram à terra, a Pedra da Gola Furada e a Pedra que Tine (Seselhe), o Penedo Buraco da Serpe (São Ane - Cabril) e uma infinidade de outros mais ao longo do concelho de Montalegre.

 

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Ficamos por aqui, mas antes ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1974.

 

 

22
Dez18

Sanjurge - Chaves - Portugal

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Como vem acontecendo há anos neste blog, os sábados são para as nossas aldeias, as do concelho de Chaves. Hoje vamos até Sanjurge, ou melhor, vamos mais uma vez até Sanjurge, pois esta aldeia é uma das que já passou por este blog várias vezes, e continuará a passar, pois é uma das aldeias que nos caiu em graça, que tem sempre vida dentro dela, mesmo que… ou com alguns mas… pois poderia ser bem diferente, com muita mais vida e mais interessante, tem todas as condições para ser uma aldeia modelo com a vantagem de ser à beirinha da cidade.

 

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Aliás Sanjurge, atualmente, é uma das aldeias que integra uma das freguesias urbanas da cidade, foi apanhada pela última reorganização das freguesias e anexada À freguesia de Santa Cruz/Trindade, a freguesia das grandes superfícies comerciais, do loteamento industrial e que acolheu o grande crescimento da cidade de Chaves nos anos 80/90 do século passado, mas desta freguesia até Sanjurge ainda há uma passo a percorrer, ou seja, foi anexada à grande freguesia da cidade, mas manteve-se e mantém-se lá no seu cantinho com o seu espirito de aldeia rural e a meu ver, muito bem, mesmo porque há uma barreira física entre Sanjurge e o resto da freguesia, uma barreira chamada autoestrada.

 

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Dava uma excelente aldeia dormitório da cidade, que penso já o seja um pouco, embora não se note, pois quem entra na sua intimidade, nem sequer notamos que a cidade está mesmo ao lado. São as tais condições excelentes que tem, mas como se nota, a proximidade da cidade não é tudo, e acaba também por ser mais uma aldeia (no  seu centro histórico) com os mesmos problemas das aldeias mais distantes da cidade.

 

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Quanto às imagens que hoje deixo da aldeia, não são as mais representativas daquilo que Sanjurge tem. Falta-lhe o grande largo atravessado pelo Rivelas  (suponho que o seja, e se não for é um dos seus efluentes), falta a igreja, falta o santuário paredes meias com a autoestrada, faltam algumas ruas da aldeia e até algum do seu casario mais marcante, mas tal como disse no início, Sanjurge é uma das aldeias que tem passado por aqui com alguma frequência, e imagens desses locais já as fui deixando aqui nos posts anteriores.

 

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Hoje ficam algumas imagens que escaparam à seleção anterior e uma que até já é repetente, embora de ângulo diferente. Refiro-me à capela particular que abre hoje o post, que é lindíssima e que apenas lamento ser uma capela fechada, desconhecendo mesmo como é o seu interior e se o mesmo ainda existe como capela.

 

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Por último fica uma composição, tipo uma história, tipo um filme, tipo qualquer coisa que nem eu sei o que pretende ser, dada em duas tranches, tudo porque após a conclusão da primeira (tranche), apercebi-me que faltava uma passagem da história, filme ou seja lá o que é, e vai daí completá-la, mas como a outra já estava feita, para não se estragar, também aqui fica.

 

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Então, suponhamos que é uma história, daquelas que começa por:

 

Era uma vez uma rua de uma aldeia, chamava-se Rua das Cerdeiras, sem cerdeiras, nela apenas a paz santa do silêncio de naquele momento nada acontecer, na rua e nesta aldeia com nome também santo -  São Jurge. Mas eis que num sussurrar, parecendo aparecer do nada, um homem surge, com uma corda numa das mãos, parecendo com ela guiar qualquer coisa, é então que surge um burro, parecendo que vai atrás do homem, ainda sem percebermos que logo a seguir surge uma carroça, também ela parecendo silenciosa com os seus pneus de borracha para não quebrar o silêncio que após a sua passagem, surge por inteiro, caindo a tela, com o habitual FIM (The End).

Moral da história ou filme!?, pois não há, porque a história não está completa, falta-lhe uma imagem.

 

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Agora sim, com a imagem em falta, a composição, tipo história, tipo filme, fica assim:

 

Era uma vez uma rua de uma aldeia, chamava-se Rua das Cerdeiras, sem cerdeiras, nela apenas a paz santa do silêncio de naquele momento nada acontecer, na rua e nesta aldeia com nome também santo -  São Jurge. Mas eis que num sussurrar, parecendo aparecer do nada, um homem surge, com uma corda numa das mãos, parecendo com ela guiar qualquer coisa, é então que surge, preso à corda do homem, a cabeça de um burro que acaba por se revelar ter corpo também,  um burro inteiro, parecendo que vai atrás do homem, mas ao mesmo tempo, parecendo que traz alguma coisa atrás de sí, e eis que surge uma carroça, também ela parecendo silenciosa com os seus pneus de borracha para não quebrar o silêncio que após a sua passagem, surge por inteiro, o silêncio, caindo a tela, com o habitual FIM (The End).

 

O Título da história ou do filme é: “Parecendo surge em São Jurge” e continua sem ter moral…

 

Estava o post a correr tão bem para descambar assim! Talvez o filme se devesse chamar “Efeitos Secundários” da medicação que ando a tomar para a constipação que nem sei se é gripe, mas seja como for, e para rematar, gostei da sequência de imagens, daí a composição, apenas, sem história e sem filme, esqueçam os últimos parágrafos.

 

Até amanhã e Boas Festas!

 

18
Dez18

O Barroso aqui tão perto - Travassos do Rio

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Ontem deixámos uma amostra no blog da nossa aldeia convidada de hoje para esta rubrica de “O Barroso aqui tão perto”. Uma amostra e simultaneamente um desafio. Tratava-se da primeira imagem que abre o presente post e o desafio era descobrir de que aldeia se tratava. Ninguém respondeu, mas o mais certo é que ninguém a tivesse reconhecido, mesmo tratando-se de uma aldeia bem conhecida.

 

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Estas aldeias do Barroso, dependendo de onde se veem, mudam de feições. Têm este dom de se travestir, mais para encantar do que para baralhar. Têm também o dom de ao longe nos provocarem e despertar em nós a vontade de as visitar e de conhecer a sua intimidade. Entendamos a coisa como um convite, e o primeiro que dela recebi, já foi há muitos anos, inícios dos anos setenta do século passado, ainda eu era um puto, mas já olhava para as pequenas manchas de casario que floriam no meio das montanhas verdes. Aconteceu na primeira vez que fui a Tourém, não à ida, mas no regresso, quando ela se dá a conhecer na descida para Covelães.  

 

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Revelado o segredo, hoje logo no título do post, entremos então na nossa aldeia de hoje, que dá pelo nome de “Travassos” e pelo apelido de “do Rio”, ou seja,  Travassos do Rio, e é do Rio porque pertence ao conjunto de aldeias que adotam este apelido por se localizarem junto ao pequeno vale que se desenvolve ao longo do Rio Cávado a jusante da Vila de Montalegre, mas também para se distinguir da outra aldeia que é também Travassos, mas no caso Travassos da Chã, esta última juntinha à Barragem dos Pisões.

 

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Continuemos então com o nosso itinerário para chegar até lá e com a sua localização, agora mais precisa,  onde não há nada que enganar, pois fica junto a um dos principais trajetos pelo interior do concelho de Montalegre, na margem direita do Rio Cávado, já dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês e imediatamente a seguir a aldeia de Sezelhe. Assim, o nosso itinerário a partir de Chaves é feito via estrada de S. Caetano/Soutelinho da Raia até Montalegre. A partir da Vila desce-se até ao campo de futebol e depois vamos passar ao lado de Donões (à direita) ao lado de Cambeses do Rio (à esquerda), ao lado de Mourilhe, Frades e Sezelhe (todas à direita). Curiosamente a estrada não atravessa nenhuma destas aldeias, passa-lhes sempre ao lado. Em Sezelhe, atenção às placas no cruzamento, dever-se-á seguir em frente e logo a seguir (a 1Km), estamos no nosso destino.  Mas fica o nosso mapa e itinerário para melhor localização.

 

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Se formos daqueles que antes de parar para os pormenores, gosta de dar uma volta geral à aldeia, pela certa que a sua atenção recairá sobre uma torre sineira que existe no meio de um largo, muito peculiar, pois trata-se de uma torre sineira sem igreja ou capela por perto e foi erguida em honra/homenagem, uma torre de culto ao boi do povo, tendo mesmo esculpida numa das suas fachadas a cabeça de um touro, mas também (li algures mas hoje não encontrei a referência) por não existir outro sino na aldeia, sino que nas aldeias sempre teve as suas funções de convocar o povo para vários fins, ou lançar avisos em caso de necessidade, como os sinais em caso de morte de um seu habitante, mas também, e no caso reforçado, para convocar o povo quando o boi partia para as chegas em terras vizinhas.

 

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Todos os barrosões conhecem a importância que tinha o boi do povo e quais as tradições, festa e outros que estavam a ele ligadas, mas para quem não sabe, recordemos aquilo que se diz ao respeito do boi do povo e do comunitarismo destas aldeias barrosãs na Etnografia Transmontana I, do Padre Lourenço Fontes para melhor se entender a sua importância:

 

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O BOI DO POVO

 

Dentro do culto dos animais, o que mais sobressai em Barroso é o Boi do Povo. Diz Miguel Torga em Diário X, localizando Serraquinhos:

«Atrai-me esta amplidão pagã, sinto-me bem a pisar um chão em que deus vivo, de rico e pobres, de alfabetos e analfabetos é o toiro do povo. Um deus de cornos e testículos, que depois de cada chega e de cada vitória, a gratidão dos fiéis, cobre de palmas, de flores, de cordões de oiro e de ternura. Um deus que a devoção adora, sem lhe pedir outros milagres, que não sejam os da força e da fecundidade… Um deus a quem se dão gemadas de cerveja, para que possa inundar as vacas de sémen, as moças de esperança, os moços de certeza e a senilidade de gratas recordações. Um deus eternamente viril, num paraíso sem pecado original.»

O boi do povo é a amostra mais válida do comunitarismo barrosão.

Tem boas cortes, bons palheiros e celeiros, pastos, lameiros de feno, lamas, terras de centeio, milho, poulas, etc.. Todas estas propriedades são do boi do povo, grande senhor feudal, mais rico que muitos dos habitantes da aldeia. O boi é propriedade do povo. Cada aldeia, segundo as posses, os caprichos, e o número de vacas, tem um, dois, três e quatro bois comuns. São comprados pelo povo ou seus representantes, com o dinheiro de todos. Vendem um que dá para comprar outro mais novo e sobra dinheiro, que entra para comprar alimentos ao boi ou, despesas comuns.

 

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PASTOR DO BOI

O boi tem um pastor do povo. É pago pelo povo, em alqueires de centeio, segundo o número de cabeças de gado, de cada lavrador. A vida subiu e hoje os pastores nem por um alqueire, por cabeça, querem guardar o boi. Quando uma terra tem muitas vacas ainda vale, mas com os tractores e florestas reduziu esse número e o pastor ganha menos. Há terras que além do pastor pagam ao tractor, especialmente por ocasião de chegas. O pastor ou sua mulher ou filhos pastoreiam  todo o dia o boi. Em Cambezes quando é o tempo das ferranhas de centeio, o boi anda à roda do povo e vai pastar, hoje, na ferranha de um lavrador, amanhã na de outro, até dar a volta e completar as rodas de cada lavrador, que variam segundo o número de vacas. Quanto mais vacas, mais pasto têm de dar ao boi. O pastor é o que tem a chave da corte do boi e é ele que abre a porta quando a vaca vai ao boi, ou nega a chave e o boi, quando a vaca anda estragada. A cobrição faz-se na rua pública, ao anoitecer.

 

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CHEGAS

São as chegas o verdadeiro desporto, se assim se pode chamar, que o Barrosão adora. Deixa tudo, percorre, a pé, as maiores distâncias, para ver uma chega de bois, que não conhece. Uma chega consiste (…) na luta entre dois bois do povo, de terras diferentes, ou da mesma terra.

Antes da chega o tratador aumenta a ração diária do boi. A juventude e outros  pedem grão, milho, farinha, farelo, batatas, feno para tratar o boi para a chega. Por vezes roubam as espigas de milho, as caixas de centeio das suas famílias ou de estranhos ou de terras vizinhas, para dar ao boi. Chegam a tirar da boca para não faltar ao boi, que é preciso engordar para ganhar. A emulação e rivalidade aparece quando um boi ganhou a outro na chega, ou quando os bois são do mesmo peso, ou têm de lidar, ou qualquer razão válida para poder desafiar o de outra terra. Começa a pensar-se na chega e a fogueira ateia-se. A mocidade, que tem certo direito no boi, pois é ela que o trata, pensa em ir contratar um adversário. Este concorda ou não, e pede prazo, para tratar o seu boi. Por fim, pede-se o placet à Junta ou regedor da freguesia de cada boi contendente, que nem sempre o dão, mas a chega faz-se. Combina-se o local, que tem de ser descampado, a meio das duas aldeias digladiantes. O boi que vai turrar convém estar totalmente fechado na corte oito dias, para no dia da chega sair mais bravo.

 

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E sobre as chegas, continua:

A chega é habitualmente a um Domingo ou dia santo, de tarde pelas 3 horas. De manhã na corte ou fora preso a uma árvore, afiam-lhe as pontas nos cornos, primeiro com navalha afiada, depois com grosa de vidro, a raspar. Alguns para que fira e faça fugir o adversário aplicam-lhe pontas de aço, nas extremidades. Alguns ainda dão vinho e cerveja ao animal, para que vá mais furioso. Durante a noite azougam-no, ou colocam-lhe a pele de uma vaca ou vitela no lombo, para que ai cheirar o inimigo, este fuja de pasmo e medo. Entretanto na missa, lembra-se aos santos o pedido de vitória para o boi da nossa terra. Fazem-lhe promessas, orações, responsos e votos de ansiedade, para que toda a corte do céu esteja do lado do nosso boi. Diziam na última chega em 3 de Fevereiro de 1974, entre Vilar e a Vila: Nossa Senhora da Saúde se ponha do lado do nosso boi, e respondiam outros, no meio das refregas da chega: Senhor da Piedade esteja pelo nosso. Fazem apostas de 100$00 ou mais.

E chega a hora da partida. Toca o sino da aldeia ou o do boi para juntar o povo e tocam o boi ao local previsto e marcado, de comum acordo.

 

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Ainda as chegas de bois:

À saída da corte pode sair um pouco bravo, então tocam outro companheiro para que não fuja. E toda a gente de pau na mão, rodeia o ídolo, fazem prognósticos de vitória ou derrota, e uns atrás, outros adiante, homens e mulheres, pequenos e grandes, velhos e velhas aí vai tudo, caras alegres, desafiando um e estimulando outro para animar e lhe dar peito para ganhar.

Se passam em frente a alguma capela, igreja, ou nicho das almas, não deixam de fazer a sua petição esperançada, ou dar a sua esmolinha aos santos ou às benditas almas que obtenham a vitória. Transitando por alguma aldeia, deitam sal e, cruz nas ruas por causa da bruxaria ou mau olhado, à ida e à vinda. Não podem passar por algum rio se não perde o azougue e a força.

Chegam os animais ao campo, já repleto de gente em círculo largo. Entra um, de cada extremo do campo e ao mesmo tempo. É a entrada triunfal onde ambos e dois esperam os louros. Cada boi é acompanhado do pastor, que empunha o seu pau de lodo, para apoiar e animar o boi, apesar de serem muitos os que nessa hora, desejariam estar ao lado do seu preferido, para lhe dar força e o ir enfurecendo: é boi, é boizinho!

 

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Continuamos com as chegas:

Fazem ou não, uns momentos de carranca, com as caras, viradas, e pouco a pouco ou de repente conforme a inspiração de momento, pegam-se de frente, com a maior violência possível, procurando ferir e rasgar o companheiro, com as hastes, bem aguçadas. É o momento de mais atenção dos milhares de espectadores, que de todas as aldeias mais afastadas vieram assistir. Se não fora a Guarda Republicana, o povo crescia e rodeava os bois, como acontece nas chegas que se fazem de noite, em que há poucos espectadores. 5, 10, 15, 30 minutos é o geral de tempo que os gladiadores se entretêm a disputar a força. Houve um ou dois casos em que um matou o adversário, que era de Parafita.

 

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E continua:

No geral apenas há a lamentar uns ferimentos mais ou menos graves, na superfície da pele. Quando as forças já estão bem medidas e houve sobreposição de um boi, o outro começa a olhar para o lugar por onde entrou, se tem tempo, e vai recuando, até que foge. O vencedor corre furioso a ver se o apanha. Intervêm logo os pastores e conterrâneos, com paus no ar, para os apartarem. E os da terra vencedora rodeiam o seu boi, sem medo. É o maior frenesi o da vitória. As raparigas e rapazes dão vivas: viva o nosso boi, viva! E depois de lhe verem as feridas, tocam cada qual o seu boi para a sua terra. Os vencidos, com a «beiça» e os vencedores cantando, uns diante, outros atrás do boi. Se podem, enfeitam-no com fitas, ramos, flores, bandeiras vermelhas, cordões de ouro, notas de conto, etc.. Chegando ao povoado, o boi vai, em procissão, dar a volta às ruas da aldeia, ovacionado por todos que dizem: abençoado boi e grão que comestes! Há festa com baile para todos e vinho à discrição pago pelos entusiastas e apostantes.

 

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Por fim, ainda sobre as chegas:

Ganha uma vitória, logo outros, que têm na aldeia um boi do povo, que foi já vencedor, pensam em desafiar aquele para outra chega a ver qual é o campeão.

Antigamente no fim das chegas havia barulho. Ao fim das chegas dos bois, chegavam-se os homens. Todos levavam paus e discutia-se a força, o direito de ganhar, qualquer ilegalidade e toca a dar paulada à direita e à esquerda. Hoje a Guarda tira paus a quem os leva e já não há perigo de se pegarem os homens, por causa dos bois.

 

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Assim, tal e qual como atrás descrito, recordo as chegas do Sr. da Piedade entre os bois da Portela e da Vila, ou da Portela ou da Vila com outras aldeias, a festa à volta do vencedor e as «beiças» dos perdedores, mas recordemos que a Etnografia Transmontana – I,  foi publicada em 1974, isto para vos dizer que a tradição da chega dos bois, hoje,  já não é aquilo que então era.  As chegas ainda existem no Barroso, agora disputa-se um campeonato, mas os bois já não são comunitários, já não são do povo, já não representam as suas aldeias. Hoje são de proprietários particulares, alguns até nem são barrosões.  Mantêm-se as chegas, mas perdeu-se toda a tradição e festa comunitária que a elas estavam ligadas. Coisas dos novos tempos, mas também ela uma consequência do despovoamento das aldeias.

 

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Mas isto já não são coisas de hoje, Miguel Torga, no seu diário, em 29 de agosto de 1991, registava o seu lamento num escrito que hoje também ele repousa transcrito em placa colocada na base da torre do boi e onde se pode ler:

 

Travassos do Rio, Montalegre, 29 de Agosto de 1991

 

Notabiliza este lugar um baixo-relevo na torre sineira a figurar a cabeça de um toiro, que foi campeão invencível nas turras do seu tempo e os habitantes, ufanos de tanta valentia, quiseram perpetuar.

Vou rememorando: Cornos das Alturas, Cornos da Fonte Fria, Tourém, Toural, Pitões.

Era assim antanho. Por todo o lado a mesma obsessão a tutelar as consciências. O mal é que o povo, em meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala francês, bebe coca-cola, deixo de comer o pão e centeio do forno comunitário, assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais alugados. É um nédio boi capado.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

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E sem mais demora que esta coisa começa a alongar-se e se nos entusiasmamos temos aqui latim para uma semana, passemos às nossas habituais abordagens que repetimos em cada aldeia, como por exemplo saber o que nos diz a “Toponímia de Barroso” ao respeito da nossa aldeia convidada:

 

Travaços do Rio

 

A grafia com ss é ridiculamente errónea visto que toponimicamente não fica abonada por qualquer forma escrita antiga.

A raíz latina trabe é evidente, significando trave, com sufixo aço; trata-se, por conseguinte, de local onde abundam árvores para construção, elegantes e de boa madeira com as quais os povos primitivos, à falta de pedra próxima em quantidade, faziam muitas vezes resistentes paliçadas defensivas à roda das casas do castro.

Alguns dos mais antigos documentos concernentes ao território Barrosão dizem respeito ao termo desta localidade como já afirmei noutros trabalhos e de que destaco a célebre doação feita por Aloito e sua mulher Bonela a São Rosendo em

- 953 «ipsa villa qui vocitant Travazos…prope rivulo Catavello» T.de C., I, de Andrade Cernada, Santiago de Compostela, 1995. Pág. 7/12.

Como o rio desse nome entre Larouco e a foz do Regavão era o Catavelo não restam dúvidas quanto ao Travaços de que se fala!

 

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E como sobre Travassos nada consta na “Toponímia Alegre”, faço eu um apontamento.

Mais uma vez a Toponímia de Barroso vem “contrariar” aquilo que é oficial e popularmente aceite e em vigor, refiro-me ao topónimo da nossa aldeia de hoje que em todo o lado o vejo escrito (página oficial da Câmara Municipal, CENSOS, e outra literatura e documentos) com sendo Travassos (com ss) e não Travaços  (com ç). A título de curiosidade para nós flavienses, na direção oposta a este Travassos-Travaços encontramos um caso idêntico, mas ao contrário, ou seja Valpassos como antigamente se escrevia, hoje escreve-se Valpaços. E afirmei “idêntico” sem ter bem a certeza de se o é, pois como cidadão comum falham-me estas preciosidades eruditas da evolução da nossa língua, coisa que nem quero aprofundar, pois para confusão já me chega ser obrigado a escrever segundo o novo acordo ortográfico, daí, aceito as coisas como elas hoje são, e neste post, o Travassos com que iniciei vai continuar a ser Travassos até ao fim.

 

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Passemos ao livro “Montalegre” aqui também Travassos grafado como Travaços, mas embora seja uma exceção aos escritos comuns, não é exceção nenhuma, pois o autor da “Toponímia de Barroso” é o mesmo do livro “Montalegre”, é portanto uma questão de coerência. Mas diz então o livro “Montalegre” a respeito de Travassos do Rio:

 

O boi do povo em Barroso é o símbolo máximo da vida comunitária, da virilidade, da fecundidade, da força e da honra da freguesia. No castelo de São Romão gravaram uma cabeça de boi, há milhares de anos, em sinal do culto que lhe devotavam; no século passado, os de Travaços do Rio, terra de memórias firmes e longas, gravaram a cabeça do boi campeão numa torre que lhe dedicaram. Não há muitas décadas, dezenas e dezenas de bovinos faziam novenas à roda da Capelinha do Santo António de Viade que os protegera de doenças e desastres. As inseminações artificiais retiraram à “divindade de cornos” o poder dos testículos mas não impediram que os barrosões continuem a praticar o seu desporto favorito que são as chegas. Até estão organizadas num campeonato ao longo do ano! Se os leitores forem ao futebol, em Montalegre, verão a assistir umas cem ou duzentas pessoas; se esperarem para ver uma chega de campeões, tenham cuidado!...não sejam atropelados por alguma multidão de cinco ou seis mil pessoas cheias de emoção!

 

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Uma outra referência à aldeia, ainda no livro “Montalegre” é a respeito de um seu ilustre:

Filipe José Gonçalves Andrade (séc. XVIII) nasceu em Travaços do Rio, em 173. Foi médico e cirurgião – mor do Reino do Algarve. Traduziu do francês a “Memória a respeito da peste” e faleceu, com oitenta anos, em Cabril, Montalegre. Foi agraciado com o hábito da Ordem de S. Tiago em 1791.

 

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E ainda mais uma referência no livro “Montalegre”

 

A criação de gado foi tão importante que os de Travaços do Rio ergueram a meio do povo uma torre ao boi campeão. Os seus habitantes devem sentir-se orgulhosos também porque Travaços é, depois de Salto, a terra barrosã referida em documentos autênticos e mais antigos: trata-se de dois documentos do Tombo de Celanova, na Galiza, referentes a doações destinadas ao Mosteiro e ambas no termo de Travaços, datadas, respectivamente, dos anos 93 e 976, sendo que numa delas é doadora a própria mãe do bispo São Rosendo! Há 103 anos!

 

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E o nosso entusiasmo vai ficar por aqui, mas antes ainda uma referência a mais duas preciosidades que encontrámos em Travassos do Rio e que ficam nesta duas últimas imagens, a primeira uma senhora com a capa de burel vestida, um abrigo para o frio e para a chuva, como era o caso no momento em que tomámos a foto, capa que embora ainda se vá vendo ao longo do Barroso, já começa a rarear. A outra preciosidade, por sorte de uma porta aberta que nos facilitou a imagem, é a de uma malhadeira, que também já é rara e cuja invenção é atribuída a Júlio dos Santos Pereira, que embora natural de Valpaços, fez de Chaves a sua terra de residência (sobre a invenção da malhadeira, notícia aqui: https://www.jn.pt/arquivo/2005/interior/flavia-criativa-de-volta-13-anos-depois-494764.html

 

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E ficamos por aqui sem uma referência ou imagem das cascatas Barrondas, tudo porque não fomos lá e não temos imagens, mas ficam para um post futuro. Fica prometido. Ficam também as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, José Dias, (2006), Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre.

BAPTISTA, José Dias, (2014), Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1974.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana II - Comunitarismo do Barroso, edição do autor, Montalegre, 1977.

 

 

10
Dez18

O Barroso aqui tão perto - São Lourenço

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No último fim-de-semana, em “O Barroso aqui tão perto”, fomos até Vila Nova, Sidrós e Ponte da Misarela, ali mesmo onde começa a barragem de Salamonde, precisamente onde o Rio Rabagão se encontra com o Rio Cávado. Na altura não referimos este pormenor, mas hoje, dá-nos jeito esta referência, pois o nosso destino fica precisamente em frente a Sidrós, mas na margem direita do Rio Cávado, igualmente entre dois rios, mas desta vez o Rio Cabril ocupa o lugar do Rio Rabagão.

 

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Confesso que inicialmente este pequeno território barrosão entre estes três rios, se me apresentava um pouco confuso, muita curva, muita estrada, muita montanha e embora os três rios existam nas cartas, no terreno quase não se dá por eles, pois todos eles deram origem a barragens. Só quando comecei a ter as barragens como uma das referências é que me comecei a entender com este pequeno território do Barroso. Com isto, vou deixando esquecido o nosso destino de hoje, que é a aldeia de São Lourenço da freguesia de Cabril.

 

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Mas voltemos à questão dos rios e das barragens. O concelho de Montalegre tem 6 barragens, mas uma podemos deixá-la já de parte, pois no concelho de Montalegre só tem um nico, a barragem propriamente dita acaba por se desenvolver em terras Galegas. Refiro-me à barragem de Tourém.

 

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Mas como dizia, e com referência aos três rios mais importantes do concelho, as barragens obrigou-os por um lado a sair dos seus leitos originais, e por outro, entre barragens, fazendo-os quase desaparecer como rios. Iniciemos pelo Rio Cávado que em Sezelhe tem a sua primeira barragem, de pequenas dimensões, mas onde já há retenção de água. Logo a seguir, o mesmo rio dá origem à barragem de Paradela. Passemos agora para o Rio Rabagão que logo no início do seu percurso dá origem à barragem dos Pisões ou Alto-Rabagão,  para 6Km mais à frente dar início à barragem da Venda Nova. Neste momento da nossa descrição o Cávado está na barragem de Paradela e o Rio Rabagão está na Barragem da Venda Nova. Pois a partir de aqui os dois rios (Cávado e Rabagão) convergem e há um terceiro que se junta à convergência, o Rio Cabril. É precisamente na convergência dos três rios que começa a barragem de Salamonde, esta, marca também o fim  (limite) do concelho de Montalegre e o fim dos rios Cabril e Rabagão, passando a partir de aí o Rio Cávado entra em terras do Minho,  que depois de dar ainda origem a outras barragens e de passar próximo de Braga e por Barcelos, acaba por desaguar no mar em Esposende.

 

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Mas entremos em S. Lourenço. Deixei propositadamente o espaço da Sr.ª das Neves como primeira imagem deste post, precisamente porque foi a primeira imagem que tomei de S. Lourenço,  no dia 15 de julho de 2016, recordo ter sido um dia muito, mas mesmo muito quente. Chegámos lá, logo após termos almoçado em Sidrós. O dia recomendava uma sesta ou assossega para o almoço. Tomámos meia-dúzia de imagens e aproveitámos as convidativas sombras à volta da igreja para repousar um pouco, mas mesmo assim o calor era insuportável. Tínhamos na agenda fotografar S. Lourenço, mas apenas parámos no bar para hidratar. O calor quando aquece estupidamente com sabores de inferno, quando mais avança a tarde mais insuportável se torna, razão pela qual após a hidratação, regressámos a casa, sem uma única foto de S. Lourenço. Ficaria para mais tarde, com melhor calor, ou até frio, que este é questão de mais ou menos abrigos em cima do corpo.

 

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Voltámos a S. Lourenço em abril deste ano (2018). Tínhamos reservado o dia para as cascatas, um dia ótimo de sol, com calor acima do normal para a época, mas perfeitamente suportável, agradável até. A seguir à cascata de Pincães vimos ainda haver tempo para uma visita rápida a S. Lourenço para recolha de imagens, as suficientes para dar a conhecer a aldeia num dos nossos post´s. E para lá fomos, mas antes de começar a recolha fotográfica, fomos de novo hidratar ao bar que já era nosso conhecido e só depois avançámos para o coração da aldeia, não sem antes termos dado dois dedos de conversa com algumas pessoas da aldeia que estavam a aproveitar os preciosos raios de sol. Apenas interrompemos as suas conversas por uns curtos minutos, pois a tarde avançava e ainda tínhamos na agenda outra cascata.

 

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E lá fomos adentrando a aldeia até que numa das casas mais curiosas que encontrámos, nos saiu de lá uma senhora, com simpatia de sobra para que a conversa se fosse prolongando, mas infelizmente, desprevenido para tomar apontamentos para memória futura a utilizar neste post, apenas retive que a senhora tinha partido muito nova para Lisboa onde trabalhou toda a sua vida, e agora, já reformada, voltou à sua aldeia, que sempre teve no coração, para passar o resto dos seus dias.

 

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Fomos dando a conversa por terminada quando o céu se começou a encher de nuvens ameaçadoras de trovoada, coisa provável pois aquele calor fora de época, terras húmidas e altas, não de S. Lourenço, pois fica-se pelos 500m de altitude, mas mesmo ao lado as altitudes sobem acima dos 1300 metros na Serra do Gerês. E nós nem a meio estávamos da aldeia. Fizemos as despedidas, agradecemos a simpatia e alá pra frente, que é por aí que se faz caminho.

 

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Tivemos ainda tempo de conhecer, por mero acaso, um daqueles que deverá ser um dos maiores carvalhos (urbanos) do Barroso. Urbano por ficar no meio de um largo da aldeia, e tão grande que tivemos de nos afastar em bem dele para conseguirmos registá-lo no seu todo, mesmo assim, a imagem que fica é composta por uma montagem de três fotografias.

 

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Mesmo ao lado do grande carvalho fomos testemunhas de que é verdade que as árvores morrem de pé, não o grande carvalho que esse parecia estar de boa saúde, mas uma outra árvore que não cheguei ou lembrei de apurar qual era a espécie, mas pela silhueta pare ser igualmente um carvalho. No entretanto reparei, como por simpatia, que mesmo ao lado do carvalho morto jaz também um canastro (espigueiro) e achei curioso, pois é uma imagem que se vai repetindo nos canastros abandonados, afinal eles, os canastros também morrem de pé.

 

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Penso que quanto à localização de S. Lourenço já atrás ficou mais ou menos esclarecida. Indo pelos rios, fica na margem esquerda do Rio Cabril (acerca de 1000m) e na margem direita do Rio Cávado e Rabagão (a cerca de 800m) ali mesmo onde o Cávado recebe o Rabagão e começa a barragem de Salamonde. As distâncias indicadas são em linha reta, pois por estrada é um pouco mais. A última referência pode ser mesmo a sede de freguesia de Cabril que fica a apenas 1000m (onde o Cávado recebe o Rio Cabril, já em plena barragem de Salamonde).

 

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Mas fica a seguir o nosso mapa com a localização e também o itinerário para lá chegar, como sempre a partir da cidade de Chaves. Desta vez, ou mais uma vez, indicamos o trajeto via estradas municipais (sempre as mais interessantes), com o primeiro troço via S. Caetano/Soutelinho da Raia até à Vila de Montalegre e depois via campo de futebol onde o Benfica vai jogar com o Montalegre para a taça de Portugal (e viva a festa do futebol, Montalegre merecia um jogo com um dos grandes do futebol português e embora também torça para que o Montalegre ganhe, se perder, sai do campo como ganhador. Força!). Depois é só seguir em direção a Paradela (barragem) e depois via Ponteira e Ferral. Basta seguir a indicação das placas que a estrada está bem sinalizada.

 

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Em alternativa poderá utilizar as outras duas estradas por onde se chega a todo o Barroso, ou seja pela EN103 que atravessa o Barroso pelo meio, ou EN103 - Boticas e Salto - EN103. As distâncias são mais ou menos semelhantes, entre os 76 e os 84km conforme o itinerário. O que nós indicamos é o mais curto.

 

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E agora vamos às nossas pesquisas, que tratando-se de uma aldeia não muito grande, na média, não haverá muitas referências, mas algumas encontraremos. Vamos lá, talvez começando pelo livro “Montalegre” que deveria ser uma bíblia de todas as localidades do concelho, mas nem sempre é.

 

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Pois no livro Montalegre encontrámos (o negrito e sublinhado são nossos):

 

Das ermidinhas, que o estro de Junqueiro abençoa, destacamos quer pela beleza paisagística do local, quer pelo encanto do conjunto “Construção humana e Natureza envolvente”: Nossa Senhora das Neves (São Lourenço) e São Tiago (Fafião), na freguesia de Cabril; Senhor do Alívio, em Salto; Senhora do Monte (Serra do Barroso); São Frutuoso (Montalegre); Santo Amaro (Donões); Santa Marinha, em Vilar de Perdizes; S. Domingos, em Morgade; Nossa Senhora de Galegos, no Cortiço (Cervos); São João da Fraga, em Pitões; São Lourenço, em Tourém, e Nossa Senhora da Vila de Abril, em São Pedro (Contim).

 

A nossa opinião: Concordamos!

 

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Uma referência também a um dos seus ilustres, embora aqui se refira à antiga freguesia de São Lourenço de Cabril:

 

  1. Padre Diogo Martins Pereira (séc. XVII) nasceu em de Julho de 1681 no lugar de Pincães, freguesia de São Lourenço de Cabril. Deixou um manuscrito, datado de 1744, sobre a sua freguesia a que deu o nome de “Epítome Familiar e Árvore de Gerações de algumas casas da freguesia de São Lourenço de Cabril” que é um excelente relatório de muitas famílias do Baixo Barroso, seus costumes, suas vidas e seus feitos – a história e a lenda locais, no século dezassete, escritas com muito saber e gosto

 

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Passemos para a “Toponímia de Barroso”:

 

São Lourenço (Cabril)

 

Remota devoção pelo que se presume muito antiga a criação da Igreja e do próprio lugar desse nome. Contudo, não temos documento que o ateste. A tradição, ao contrário, diz da capela de invocação à Senhora das Neves, situada em lugar paradisíaco, perto de São Lourenço, que é o que resta do imemorial Mosteiros de pondras, origem primeiríssima do celebrado Mosteiro de Pitões!

-1258 « Sancti Laurentii de Cabril» INQ 1513

O hagiotopónimo tão afastado da Igreja deixa supor que a construção desta ocorreu mais tarde e em sítio mais central e assim aglutinou dois importantes polos religiosos da Idade Média: a Freiria de Pincães e o Mosteiro de Nossa Senhora das Neves! Acresce a força do orago que teve remotíssimo culto. Diz o Dr Avelino Costa que “foi o mártir romano que mais culto teve entre nós”

 

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Quanto à “Toponímia Alegre”

 

“Apelidos” de Cabril

 

Moeda-falsa de Lapela,

Vinho-azedo de Azevedo,

Cava-touças de Xertelo,

Escorricha-picheis de S.Lourenço

Rabões de Chelo,

(…)

Na Etnografia Transmontana do Padre Lourenço Fontes, o texto na referência a S. Lourenço aparece ligeiramente diferente: “Escorricha capichés de S. Lourenço” 

 

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E ainda na “Toponímia Alegre”

 

Nossa senhora das Neves

Do lugar de São Lourenço,

Todo o caminho fui bem

Só na barca tive medo

 

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Já adivinhávamos que pouca literatura haveria sobre São Lourenço, mesmo assim alguma coisa encontrámos, mas na ausência de mais, somos obrigados a encerrar este post.

Contudo é mais uma aldeia do Barroso, com características um pouco diferentes das aldeias do Alto Barroso, deste Barroso multifacetado e único. Tal como todas as aldeias do Barroso, esta também é de visita obrigatória, primeiro pela Senhora das Neves, não só pelo templo, mas também pela beleza do local, pelo aconchego e paz que por lá se vive. O carvalho da aldeia fica na memória a que o vê, pela sua imponência e beleza. O bar da hidratação, também é de paragem recomendável, principalmente de Verão quando se exige andarmos bem hidratados, mas pela certa que de Inverno também por lá poderemos aquecer um poucos os corpos.

 

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Ficamos então por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1974.

 

 

 

 

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    • P. P.

      Maravilhosos olhares.

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