Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Set18

Discursos Sobre a Cidade


SOUZA

 

 

PALAVRAS SOLTAS

 

 

Aqui se deixam aos nossos leitores, um conjunto de palavras soltas, «desventradas» de textos que, ao longo de um ano, fomos escrevendo nas redes sociais onde escrevemos.

 

Todas elas, grosso modo, debruçam-se sobre temas que nos são caros, nomeadamente, o poder das novas tecnologias de informação e comunicação (TIC), o espaço público, o exercício da cidadania, o socialismo e a social-democracia.

 

Apresentamos, em tempo de férias, palavras ditas, de caráter genérico, mas, mutatis mutandis, perfeitamente válidas e atuais, como não podia deixar de ser, nos tempos por que passamos e para a comunidade em que nos inserimos.

 

O reino e as temáticas das TIC, do espaço público, do exercício da cidadania, da discussão à volta do liberalismo, o socialismo e a social democracia, jamais está concluída. Representam temas e consubstancia(m) projeto(s) de uma sociedade em construção. Em que a recriação dos espaços públicos e o exercício da cidadania impõem-se-nos, cada vez mais, com muita acuidade e urgência.

 

E não se iludam aqueles que, com a mudança de poder, tudo muda, ou pode mudar. Muito pelo contrário – é uma folha em branco que se nos apresenta à nossa frente para ser escrita.

 

O tempo, sempre demasiado célere, se encarregará de dizer em que moldes é que ela foi escrita…

 

E porque nós flavienses, vivendo numa sociedade globalizada, e não vivendo numa ilha isolada, imunes a quaisquer acontecimentos e influência, as palavras dispersas, abaixo reproduzidas, para nós fazem todo o sentido e têm toda a valia.

 

As últimas palavras soltas referem-se à Europa da qual fazemos parte. Nelas inculcávamos uma ideia de otimismo em relação ao futuro.

 

Citemos, então, algumas palavras soltas, de nossos textos dispersos:

 

***

 

Habermas, a propósito do espaço público, dizia, já lá vão umas boas dezenas de anos, mais ou menos, o seguinte:

 

"Onde essa despolitização e esse empobrecimento mais claramente se manifestam é no tipo de comunicação que atinge a opinião pública: uma comunicação trivializada e sem autênticos debates. Realiza-se nela um tipo de confrontação elementar em que o acontecimento está acima do argumento, o espetáculo acima do debate, a dramaturgia acima da comunicação, a imagem acima da palavra. A esfera pública fica reduzida a um conjunto de «espetáculos de aclamação»”.



Vem isto a propósito da Edição Especial que a RTP 1, há uns tempos, através da jornalista Fátima Campos Ferreira. Alguns dos entrevistados foram Sampaio Nóvoa, José Gil, Freitas do Amaral e Adriano Moreira. Não pomos em causa a valia dos entrevistados. Interrogamo-nos, na linha de Habermas, o que se pretende. Não desejamos «espetáculos de aclamação», necessitamos que a comunicação (e, neste caso, um meio de comunicação pública) saia dos seus moldes estereotipados do espetáculo televisivo e seja capaz de nos mobilizar para as tarefas da construção do nosso futuro coletivo, criando um efetivo ambiente de construção de uma verdadeira opinião pública. «Pareceres» ou conhecimentos de peritos, precisam-se. Mas, urge ir mais além, ou seja, termos uma televisão pública ao serviço da cidadania, ajudando a criar uma verdadeira opinião pública. Opinião pública de que tanto necessitamos.

 

***

 

Na era da informática, cujas benesses são inegáveis, sofremos com o crescimento do imediatismo em todos os setores da vida humana, na medida em que os homens passam a atuar no mundo de forma meramente utilitária (expressão aqui entendida como a aproximação entre bom e útil). Buscam prazeres efémeros e de fruição individual, sem se atentarem para a importância do convívio social e do bem coletivo.

 

É inegável a proliferação de uma conceção de vida que evitas o comprometimento em relação ao outro. A rápida absorção por toda a sociedade de valores estritamente económicos passou a fundamentar condutas que se regem pela ideia do que é mais «lucrativo». Não somos contrários à perceção de justa retribuição por trabalhos que os seres humanos exercem em cada área de suas vidas. Todavia, não podemos concordar com o facto de absolutamente todos os setores da vida humana se reduzirem a uma relação de «custo-benefício». Ainda acreditamos em valores essenciais que jamais poderiam ser reduzidos em fórmulas económicas.

 

***

 

Ainda é incerto o efeito que a internet virá a produzir no espaço público. Mas uma interrogação se impõe, de modo irrecusável: ela contribuirá para facilitar a aquisição de uma cultura cívica comum ou, como temem alguns, favorecerá a fragmentação e a polarização social? A influência dessas inovações técnicas nos sistemas democráticos é motivo, ao mesmo tempo, de entusiamo e medo.

 

***

 

Se o grande feito político do século XXI foi ter consolidado a democracia é também verdade que a legitimação do Estado, com base exclusiva na democracia representativa, se esvaziou, por via do crescente distanciamento da maioria absoluta da sociedade. A política subordinou-se à economia, dominada por um sector financeiro que procura riqueza sem produção. Nestas condições, o poder político do Estado não cessa de perder legitimidade. Na era da informática, cujas benesses são inegáveis, sofremos com o crescimento do imediatismo em todos os sectores da vida humana, na medida em que os homens passam a atuar no mundo de forma meramente utilitária (expressão aqui entendida como a aproximação entre bom e útil). Buscam prazeres efémeros e de fruição individual, sem se atentarem para a importância do convívio social e do bem coletivo. É inegável a proliferação de uma conceção de vida que evita o comprometimento em relação ao outro. A rápida absorção por toda a sociedade de valores estritamente económicos passou a fundamentar condutas que se regem pela ideia do que é mais “lucrativo”. Não somos contrários à perceção de justa retribuição por trabalhos que os seres humanos exercem em cada área de suas vidas. Todavia, não podemos concordar com o fato de absolutamente todos os sectores da vida humana se reduzirem a uma relação de “custo-benefício”. Ainda acreditamos em valores essenciais que jamais poderiam ser reduzidos em fórmulas económicas.

 

***

 

Apesar de ter passado à história com o rótulo de socialismo utópico, Proudhon não exigia aos trabalhadores que sonhassem com um ideal utópico de sociedade – no qual não acreditava – nem que confiassem cegamente numa casta dirigente que lhes prometesse exercer o poder do estado em benefício dos seus seguidores. O seu objetivo eras combater «a preguiça das massas», que está na origem de qualquer autoritarismo. Em vez de ceder à obsessão do poder, ensinava a fazer frente à tendência invasora da autoridade, confiando na sua própria capacidade.

 

Face ao presente, urge uma nova leitura, um novo enfoque quanto às obras legadas pelos dois grandes pensadores que estão na origem daquelas que foram designadas como as correntes do «socialismo» e da «social-democracia», de Marx e Proudhon, respetivamente.

 

 

***

 

 

Gostaria de partilhar o conteúdo da última página do livro "O novo espaço público", de Daniel Innerarity, dada a oportunidade, face aos tempos que correm, da sua reflexão:


"(...) o nosso principal desafio consiste em abandonar os conceitos centrados na ideia tradicional de estado e criar uma compreensão alternativa das relações entre estados, as nações e as sociedades. Para entender bem a Europa é preciso tomar distâncias em relação ao conceito de estado. A Europa não é um estado, mas uma nova forma de organização do poder político para a qual não é apropriado o conceito de estado. Ao mesmo tempo, o conceito de soberania terá de abrir-se para os espaços de poder da era global. O conceito de soberania de que nós dispomos não parece adaptado às exigências do projeto político da cidadania europeia. Postas as coisas neste pé, tem razão Ulrich Beck quando assegura que uma Europa cosmopolita é hoje a última utopia política efetiva. Devendo definir um novo bem comum europeu perante os interesses mais imediatos do capital e dos estados, nós, europeus, temos a oportunidade de descobrir os grandes fins da política (...)"

 

Mas o tempo, esse elemento tão devorador, soprando por todos os lados e quadrantes, trazem-nos surpresas, que vêm carregadas de presságios, não augurando grande futuro.

 

Vivemos, positivamente, tempos difíceis.

 

António de Souza e Silva

 

06
Jul18

Discursos Sobre a Cidade


SOUZA

 

 

PERDA DE MEMÓRIA OU FALTA DELA?

 

Não sabemos muito bem qual a razão que, todas as vezes que somos convidados por amigos, amantes da fotografia, para irmos para o Barroso, nos impulsiona sempre uma vontade de encontrarmos uma nesga de tempo, nos nossos afazeres quotidianos, para os acompanhar.

 

O mundo rural e o contacto com as suas gentes são mais a nossa «praia» do que o sofisticado, artificial e, tantas vezes, mesquinho meio urbano em que, hoje em dia, nos movimentamos e vivemos.

 

Percorrendo as aldeias, o casario tradicional, os campos e as serras do nosso mundo rural, sentimos, no contacto com as suas gentes, um halo muito maior de genuína autenticidade.

 

Aí há como que um voltar à nossa infância. Não uma infância de privações e misérias. Uma infância em que, independentemente das condições de vida, havia inocência, mais espírito de interajuda, solidariedade. Enfim, em que sentíamos um verdadeiro sentido de comunidade.

 

Infelizmente, hoje está tudo se desmoronando, tal como a nossa arquitetura rural tradicional, os nossos campos abandonados, à voragem das intempéries e do fogo. E, no meio destas ruínas ou escombros, apenas vamos encontrando alguns – muito poucos - «maiores», à espera da sua «chamada».

 

Olhemos para a nossa cidade e para as vilas próximas, que durante tantos séculos foram o suporte de um mundo rural ativo e dinâmico, e perguntemos-lhes: o que fizeram para que a matriz da nossa identidade, como transmontanos, durienses, altotameguenses e barrosões não definhasse?

 

Muito pouco. Ou quase nada. E nada digam que a responsabilidade foi dos sucessivos poderes centrais que deixaram o interior ao abandono! O que nós – os que cá ficaram e os da diáspora – fizemos? A culpa, aqui, não pode ficar solteira, ou apenas à responsabilidade de um só vilão!

 

Fomos na «onda» daquilo que interiorizámos como se fosse uma inevitabilidade dos tempos, assente na urbanização maciça e na globalização e homogeneização total das sociedades modernas. E esquecemo-nos de lutar e trabalhar para preservar as diferenças que nos distinguem e que, por isso mesmo, nos torna distintos.

 

Porque só lutando pela variedade das diferenças das diversas regiões que somos e temos em Portugal é que nos podemos impor como povo, sob pena de nos diluirmos na massa informe de simples e meros assalariados – por mais instrução e «canudos» que tenhamos – do capitalismo selvagem que hoje, por toda a parte, nos «vende», nos governa, impondo as suas normas.

 

E quanto admiramos um Homem, com letra grande, um grande transmontano que, durante uma vida inteira, outra coisa não fez  senão lutar, usando a sua pena, para que a nossa própria e genuína identidade, o sentido daquilo que nos faz(ia) um povo singular, não desaparecesse!

 

Era um duriense de gema, mas, acima de tudo, sentia-se um verdadeiro e autêntico transmontano.

 

E quanto ele gostava da cidade de Chaves quando, durante décadas, no período balnear, por aqui passava longas temporadas!

 

Veio-nos, aqui há dias, ter à mão um livro de João Céu e Silva, com o título «Uma longa viagem com Miguel Torga», da Editorial Asa. O autor desta obra, a certa altura, nas entrevistas que faz a diversas personagens que, de alguma forma, privaram com Torga, dialogando com o padre Valentim, da Gráfica de Coimbra, face à pergunta se conhecia muito bem Miguel Torga, este responde-lhe: “Talvez como ninguém conheça, à excepção da família! É que para além desta vivência de Coimbra, todos os anos íamos os dois passar férias a Chaves, nas termas. Passávamos o tempo sempre juntos, dormíamos no mesmo quarto e comíamos à mesma mesa. Por essa razão, há uma intimidade que me causa algum pudor quando me pedem para falar desses tempos de uma forma livre (…) Andava sempre com um caderno de apontamentos na mão e depois, em Chaves, acabava por construir tudo aquilo que ao longo do ano tinha escrito. Eu vi nascer muitos poemas, observei como começavam (…)”.

 

E à pergunta porque é que Torga gostava tanto de Chaves, padre Valentim responde: “Era por causa daquele silêncio, daquela paisagem e das termas. Além disso, os arredores de Chaves são muito ricos em monumentos, principalmente românicos, e ele gostava de os ver. Todos os dias tínhamos de ir a um lugar qualquer, nem que fosse para Espanha. Chaves era o lugar onde se sentia melhor, uma espécie de céu para ele. Não o incomodavam muito (…) Quando saímos de lá, o homem quase chorava porque era ali que estava bem. Como disse, era ali que praticamente fazia o arranjo final das obras e depois, quando vínhamos para baixo, dava-me os originais para eu fazer o trabalho na tipografia”.

 

No Barroso, algumas terras, não esqueceram este empedernido transmontano, gravando ou esculpindo as suas palavras no material que ele mais adorava – a pedra.

 

Nós, em Chaves, onde temos a presença de um homem que, aqui, fez brotar grande parte da sua Obra?

 

Perdemos a «memória» deste nosso «Maior».

 

E, em Chaves, quantas «memórias» gravadas dos nossos antanhos, mais coevos, ou mais próximos, temos nos nossos espaços públicos?

 

Fora os Santos, poucos, como a «Mãe», no Jardim do Bacalhau, e o pequeno Santo Amaro, no largo com o mesmo nome, existem, em termos de estatuária, apenas 5 bustos: D. Afonso, 8º duque de Barcelos; padre Joaquim Marcolino Fontoura; Cândido Sotto Mayor, cujo busto o banditismo fez desaparecer do Jardim Público; António Granjo e Mário Gonçalves Carneiro…

 

Para uma cidade milenar, tão pouca ou falta de «memória» da nossa história, deveria deixar-nos envergonhados!

 

Olhemos, por exemplo, para a cidade de Bragança e para os seus espaços públicos. Quem Bragança faz perdurar nos seus espaços públicos? O seu povo, nas suas diferentes atividades, aquele que Torga, nas muitas deslocações que fazia pelo nosso Portugal, ia ao encontro!

 

Em Chaves, já há muitos anos, apenas um autor, natural de Murça – Fernão Magalhães Gonçalves – se debruçou sobre a obra deste nosso «Maior» em «Ser e Ler Torga».

 

O que faz em Chaves a maioria da nossa dita elite intelectual?

 

Empanturra-se – trazendo cá, de vez em quando, pressupostas vozes sonantes da literatura «nacional» - com obras que apenas evidenciam o tamanho do seu enorme umbigo e não procuram analisar testemunhos, ainda vivos, e os nossos genuínos autores, e, com as suas obras, irem à descoberta e ao encontro da «alma» do nosso povo. Este deve ser o papel fundamental não só de um intelectual como de um artista, digno desse nome.

 

Uma comunidade que não se identifique com a sua «intra-história» - e as mulheres e homens das artes são os elementos fundamentais, se não essências, para estabelecer este «religar» - não tem verdadeira autenticidade e, consequentemente, a sua memória porque ausente, desaparece, diluindo-se na amálgama de uma sociedade que tudo nivela e nada diferencia.

 

António de Souza e Silva

 

 

04
Mai18

Discursos Sobre a Cidade


SOUZA

 

«SOBRESSALTOS DE MEMÓRIAS»

 

 

Olhamos para trás. Parece-nos que ainda foi ontem.

 

Olhamos para o calendário. Ficamos sobressaltados – 44 anos passados!!!

 

De imediato nos vem à memória um camarada que, nas vésperas do 25 de Abril de 1974, foi connosco para Mafra!

 

E mais um outro sobressalto nos persegue – já não está entre nós. Partiu!...

 

Partiu cedo este homem íntegro. Um grande, enorme, amigo. Mais que um amigo – um irmão!

 

Um grande educador. Um enorme trabalhador, lutador por causas.

 

E ficaram connosco as suas memórias…

 

Memórias de dias a fio, preparando, conjuntamente, aulas para os educadores do futuro. Educadores de hoje.

 

Memórias de dias a fio, batendo-nos pelas causas que sempre defendemos. Sem qualquer desfalecimento.

 

Memórias de dias a fio, vestindo a camisola de um socialista convicto, sem nada pedir em troca!

 

Memórias de dias a fio, usando a pena, em prole da informação, do esclarecimento, da cultura.

 

Informação, esclarecimento e cultura das gentes da terra que adotou, de coração, como sua – Chaves.

 

Chaves, e a maioria dos seus camaradas, que tão depressa, e tão facilmente, o esqueceram.

 

Mas ele jamais se esqueceu da «sua» terra e das suas gentes quando, connosco, percorríamos as margens genebrinas do lago Leman, de uma cidade que lhe era tão querida.

 

Emigrante voluntário genebrino, nunca esqueceu os amigos – poucos infelizmente – que tinha deixado na terra que trazia sempre no coração.

 

Mesmo sabendo que o seu passamento estava para breve, não queria que os seus amigos o fossem ver, quando extremamente debilitado, numa cama de hospital. Nele raiava uma derradeira esperança de forças – ele próprio queria vir a Chaves dar um abraço aos amigos da terra onde se casou e lhe nasceram os filhos.

 

Suas forças, contudo, traíram-no.

 

E seus amigos – sobressaltados – quando lhe queriam dar um forte abraço de amizade, no preciso momento em que aterravam em solo suíço, partia…

 

Babela -  nossa familiar muito querida – que tinha por ele uma admiração profunda, de alma, bem nos dizia – apressem-se!...

 

Ela antecipou-se. Fez questão de vê-lo. De estar com ele.

 

Seus amigos mais íntimos não pressagiavam um final tão fulminante!

 

Um ano antes de ser hospitalizado, meu amigo, meu irmão, por ocasião dos 40 anos do 25 de Abril, escrevia o seguinte texto, na sua página do Facebook:

 

Lembro-me daquele mês de Janeiro de 1974, da agitação nas faculdades e da liderança ativa da faculdade de engenharia, com ponte-levadiça interdita a agentes do regime e ameias de informação sobre crimes da guerra colonial. Das correrias diante da polícia de choque, da entrada de militares na faculdade de letras, das esperas de horas refugiados em cafés ou na Igreja do Carmo aguardando que a polícia regressasse a quartéis!

 

Lembro-me daquele mês de março de 1974, das notícias da Emissora Nacional, dos olhares furtivos de cidadãos suspeitos, da chapa de silêncio dos estudantes da Universidade do Porto que estudavam revoltas e convertiam o medo em músicas de flauta, no café Piollho.

 

Lembro-me daquele longínquo amanhecer do dia 25 de abril de 1974. Do burburinho da caserna, em Mafra; da agitação dos mais velhos e experientes; do ruído dos motores dos Chaimites e dos Panhards; da chuva miudinha que atrapalhava soldados e máquinas; da incógnita que rodeava a noite e do silêncio pesado dos oficiais da Escola Prática de Infantaria.

 

Lembro-me das ameaças de incêndio da sede do partido comunista, em Braga, das campanhas de dinamização em Trás-os-Montes, de um verão quente nas ruas, nos quartéis, na cabeça de cada um, da esperança em auroras de uma nova luz.

 

Lembro-me da primeira vez que cidades inteiras esperaram horas para votar, que vilas e aldeias pareciam renascer, que cidadãos de um país moço tinham brilho nos olhos do futuro. Lembro-me que tão pouco se pedia (paz, pão, habitação, saúde, educação) e que tanto se esperava de cada um: novo compromisso cívico, respeito, colaboração, solidariedade, intervenção cívica, construção de um país mais justo e solidário.

 

Lembro-me do medo da traição, das armas na mão e pistolas à cinta, da desconfiança do camarada da cama ao lado, da tensão extrema em idos dias de Novembro de 1975. E no silêncio da noite, fazíamos juras de nunca apertar o gatilho contra homens do mesmo uniforme, da mesma família nacional, do mesmo sonho de um país a caminho de novos horizontes.

 

Lembro-me e sei que o país mudou, que houve receios e esperanças, que fizemos, juntos, muitas coisas lindas e que nunca imaginamos que, 40 anos depois, a vida, o país, a política fosse assim: que deputados tivessem a desvergonha de aumentarem os seus salários quando o povo perde euros de pão todos os dias; que os senhores dos palácios tenham reformas de crime quando homens e mulheres de bengala dobram a cerviz para receberem o pouco a que têm direito; que se estenda a mão para rezar pela consulta médica e pelo medicamento que prolonga a vida; que haja crianças que passam fome; que haja janotas que se governam à luz do dia; que haja noites de facas longas para se roubar a quem menos tem.

 

Não foi esse o país que sonhei; não foi esse o país no qual acendi uma simples vela de futuro, de armas na mão. Não; não foi esse. Não é esse.

Com 40 anos passados, aumentou a pobreza para muitos e a escandalosa riqueza para alguns; Com 40 anos de rugas, a alma ficou mais pequena e o sono se inquieta pelas noites de fantasmas. Com 40 anos de história, este país que é o meu, o teu e o nosso, merecia mais e melhor: na repartição da riqueza, na solidariedade das gerações, na justiça equitativa, na igualdade de tratamento e de respeito. Na altura, a guerra colonial justificava tudo. Hoje, a guerra social desespera de perdas todos os dias.

 

Já não é tempo de armas na mão; mas é tempo de consideração pelos mais pobres, pelos mais frágeis, pelos mais sujeitos aos imprevistos da vida, pelos mais sacudidos pelas infâmias de quem decide a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação.

 

Decidamos nós!

 

Benjamim Ferreira

Abril de 2014”.

 

Foi um homem de Abril. Íntegro. Impoluto. Especial. Sonhador…

 

Se nos perguntarem porque este  nosso «Discurso sobre a cidade» deste mês veio aqui ter, não saberemos responder. É como diz o velho ditado: “o coração tem razões que a razão desconhece”.

 

Porventura não é a nostalgia ou a saudade de alguém que se começa a sentir velho.

 

Talvez seja um grito de alma de alguém a sentir a necessidade de uma sociedade mais humana, solidária e fraterna, apesar de toda a panóplia de instrumentos que as Tecnologias da Informação e da Comunicação nos propiciam, mas que a todos, individualmente, nos remete para um mundo e para uma sociedade cada vez mais narcisista e solitária.

 

Uma sociedade líquida, a necessitar de autênticas e verdadeiras relações humanas; do face a face uns com os outros – o verdadeiro fermento que faz levedar o verdadeiro amor e as amizades autênticas.

 

Precisamos, cada vez mais, da palavra. Da poesia. Como a deste poema que o nosso amigo especial nos deixou na sua obra - «Corpo Quebrado»:

 

CÉU E TERRA

 

está um dia lindo

rasgaram terra fora os sulcos das videiras

na terra que nós temos pela aldeia

não viste o saltitar do cão fiel

e o assalto do sol nascente?

 

anda

vem comigo

contempla a maravilha do acordar da manhã

cada manhã

 

vejo nos teus olhos sol novo

manhã nova para os dois

 

destroça em mim o teu corpo insinuante

o frio que esta noite me embalou

 

vem

 

aproveitamos os sulcos do arado

fazendo deles calor morno

leito heroico e nobre dos antigos

mítico encontro de deuses e mortais

 

anda

 

está linda a manhã para o amor”.

 

António de Souza e Silva

26
Jun15

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva


SOUZA

 

ATÉ SEMPRE, CAMARADA IRMÃO!

 

Benjamim Ferreeira.jpgBenjamim Ferreira

 

Corria o dia 22 de abril de 1974 quando o conheci.

 

Vindos do Norte, tomámos o mesmo comboio que nos transportou até à Escola Prática de Infantaria de Mafra, onde entrámos como cadetes para, a maior parte deles, ir como milicianos «fazer a guerra» no Ultramar.

 

Na mesma carruagem destacava-se um jovem a aspirante a cadete. Irradiava um otimismo transbordante, que contagiava os futuros camaradas que o acompanhavam. Alguns, notava-se, olhavam para ele, antecipando um futuro líder; outros, vendo-lhe a sua frontalidade, verticalidade, ousadia de opiniões – embora circunspetas e cautelosas – e, simultaneamente, a sua afabilidade e emotividade, viram-no como um irmão, um deles.

 

Passados três dias acontece Abril. Nessa noite libertadora, nas nossas casernas, estávamos atentos, presos com os ouvidos na telefonia, para «ouvir o sinal». Também queríamos partir. Mas, estes cadetes de três dias, pouca serventia tinham no uso de armas que mal sabiam manejar. Seu papel foi o ficarem de «reféns» até que o «movimento» saísse vitorioso.

 

No dia 1 de maio saímos da caserna e fomos celebrar o Dia do Trabalhador, ouvindo, no Estádio 1º de Maio, os líderes exilados, entretanto regressados.

 

Eu e o meu camarada amigo continuámos a vida militar, cada um depois seguindo sua Arma. Até que, entre 1974 e 1975 nos encontrámos na mesma guarnição militar, em Chaves. Chaves foi a terra a que fui forçado a viver e que, mais tarde, acabei por adotar e amar. Para o meu camarada amigo, entretanto «preso pelo coração», depressa a adotou como sua.

 

Findas as nossas vidas militares, acabámos os dois por ficar por Chaves: ambos casados com duas flavienses, professores na mesma Escola do Magistério Primário e militantes do mesmo partido.

 

Durante cerca de uma dúzia de anos partilhámos e fomos cúmplices de projetos na área das Ciências da Educação, na Formação Inicial e Contínua dos Professores do Ensino Primário e na Experiência das Escolas P3, a par de uma militância política ativa na área do socialismo democrático.

 

Meu camarada amigo foi, por mérito próprio e liderança nata, Diretor da Escola do Magistério Primário de Chaves e, durante duas eleições autárquicas, candidato a Presidente da Câmara Municipal de Chaves, por falta de comparência de outros «notáveis» militantes do PS.

 

Se, como professor e Diretor da Escola do Magistério Primário de Chaves, meu camarada amigo se irmanava num lema, que o perseguiria a maior parte da sua vida, como vereador do PS, na Câmara de Chaves, cumpria um dever cívico e de militância socialista, empenhada em causas sociais, que nunca abandonou, mesmo quando, não raras vezes, estava em causa a sua vida pessoal e familiar, e, porque não dizê-lo, algumas «incompreensões» de certas «individualidades» partidárias locais da altura.

 

Para o meu camarada amigo não funcionava a doença da «partidarite», porque se tem de ser do contra. Enquanto vereador único, que ocupou grande parte do tempo, nunca abandonou o seu ideário político e social, mas jamais se esqueceu, como verdadeiro democrata que era, que estava ali para servir o povo que o elegeu (e não se servir), pondo os interesses da terra flaviense em primeiro lugar.

 

Mas, para além da sua verticalidade e honestidade como ser humano, houve um traço da personalidade deste meu amigo camarada que nele se distinguia dos demais e que me levou a admirá-lo – em tudo que fazia, não se entregava por metade, dava-se todo, sendo solidário quanto baste, até se esquecer, muitas vezes, de si próprio!

 

Nunca lhe perdi o rasto ao meu camarada amigo! Mesmo quando as vicissitudes da vida lhe despertaram a vertente «emigrante» que cada português traz no seu ADN, lançando-o na diáspora, «mourejando» por terras helvéticas.

 

Mas meu camarada amigo nunca se esqueceu da terra que adotou como sua, onde casou e lhe nasceram os filhos. Por isso, um dia regressou para chefiar a Comissão Regional de Turismo do Alto Tâmega e Barroso, onde pôs todo o seu saber e experiência feita noutras paragens ao serviço destas terras e destas gentes, na vertente do desenvolvimento turístico. Mas foi uma estadia curta, meteórica, pois outros interesses que ele não servia se impuseram, fazendo-o regressar à cidade que passou a amar.

 

Periodicamente nos visitávamos. Ora na cidade que passou a amar, ora em Chaves. Meu amigo camarada, paulatinamente se transformando num «irmão» quando o tema de conversa era Chaves, esta terra e as suas gentes, seus olhos tinham outro brilho, seu coração emocionava-se!

 

Meu irmão camarada nunca deixou de ser um sonhador inveterado. E um profundo defensor da dignidade do ser humano.

 

Inesperadamente, há cerca de dois meses, comunica-me: “Má notícia meu caro amigo: entro no hospital amanhã (…)” [28 de abril de 2015, 19 horas e 18 minutos].

 

Sabia que o meu irmão camarada estava doente e que o seu estado de saúde era extremamente grave.

 

Na passada quarta-feira (dia de S. João), juntamente com dois amigos, de Portugal, dirigimo-nos a Genève para o ver e estar com ele.

 

Tarde demais. Antes de aterrarmos em solo suíço, Domingos Benjamim Carneiro Ferreira, por volta das 8 horas da manhã, tendo a mãe de seus filhos a seu lado, «tinha já partido».

 

O meu irmão camarada morreu na cidade que amava para viver, levando Chaves, os seus entes queridos e amigos no coração.

 

Na próxima segunda-feira, por expressa vontade sua, irá partilhar o mesmo solo daqueles que lhe deram o ser – seus pais – em Campagne-sur-Seine (França).

 

Na hora da despedida, os amigos que iam para estar com ele, deixaram-lhe a seguinte mensagem:

 

“Benjamim, sabíamos que o teu estado de saúde era extremamente grave. Viemos a Genève para estarmos contigo e despedirmo-nos de ti. De um homem profundamente lutador. Que pugnou militantemente pelas causas sociais e que, em especial, fez da educação o lema da sua vida. Eras um sonhador. Um ser profundamente solidário, que tantas vezes se esquecia de si próprio para acudir ao seu semelhante e amigo. A tua valentia cívica foi pela dignidade do ser humano, no qual acreditaste, sempre! De um homem assim a gente não se despede. Nunca se esquece. Porque jamais se apaga das nossas vidas e sai de nossos corações.

 

Até sempre, Benjamim amigo!

Amélia Rosa

Américo Peres

António Silva”

 

Até sempre, camarada irmão!

António de Sousa e Silva

 

 

26
Dez13

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"


 

A desertificação do interior é uma coisa que põe certas pessoas malucas, doentes. Mas podemos olhar para este problema de outra maneira. Para isso, basta lembrar a lei das sesmarias. Essa lei, de 1375, foi feita para impedir que o pessoal bazasse do interior para as cidades, onde iam trabalhar como artesãos. Imagino que aquela frase que estou farto de ouvir, a agricultura já não dá nada, venha desse tempo. Já no ano de 1500 a população portuguesa era de 1,5 milhões. Como a actual população em Trás-os-Montes é de 350.000, em 1500 seria uns 60.000. A população aumentou durante muito tempo e actualmente é maior do que há 100 anos. Por isso, que se foda, temos tanta gente como tínhamos em mil novecentos e qualquer coisa, temos mais do que noutros tempos. Há aldeias que estão a ser abandonadas, que não têm mais do que 100 anos.

 

Já agora, que é que estes pacóvios estão a fazer atrás-do-torgo? Estão a apanhar altas secas em aldeias e aldeolas onde não se vê ninguém, em que o pessoal só tem 3 ou 4 vizinhas para quem olhar, onde não há um bar para beber um copo, etc. Seria fácil distribuir estes tristes por Lisboa e Porto. Não têm que sofrer pelas burrices dos antepassados. Que culpa temos nós que uns malucos, há 10.000 anos, se tenham lembrado de ir montar as tendas para os Cornos das Alturas, a 1200 m de altura? Não estariam bêbados? Vão montar uma aldeia num sítio onde não há nada, longe de tudo, obrigados a pastar uns porcos e umas cabras no meio de neve? Podiam ter escolhido o Algarve ou qualquer sítio entre Porto e Viana, onde há espaço suficiente para os 100 malucos que vivem nas Alturas. Temos nós que continuar a aturar esta merda? Que se foda, que se foda a etnografia! Vamos mas é bazar daqui, vamos desertificar esta merda. Eu só preciso de levar o banco de matar o porco e a caldeira para as chouriças. O concelho de Boticas só tem 4000 habitantes, por isso basta fazer um condomínio fechado com umas 4 torres, metemos umas cortes para os porcos e já está! E até poupávamos dinheiro ao país. Porque tem que vir pessoal fazer centenas de quilómetros para trazer duas cartas, montar quilómetros de fios eléctricos para aldeias de 20 pessoas, etc. Devia haver subsídios para o apoio à desertificação do interior, o país só ganhava com isso.

 

Vamos lá bazar daqui para fora, vamos deixar de ser burros, vamos para a praia, para o quente, e como há-de assim, as batatas já vêm de Espanha e já, que se foda. Viva a desertificação do interior! Desertificar, já!

 

António Chaves

 

 

TÃO PERTO E, CONTUDO, TÃO LONGE…

 

A vida é toda ela cheia de surpresas. E, não raras vezes, prega-nos muitas partidas. Adolescente deixámos a Fraga do Marão. Aquela serra, tão eloquentemente cantada por Teixeira de Pascoaes, e que tanto nos protege como nos oprime. Quando jovens, nossa maior tendência é o sentido da liberdade. Tal como proclama José Régio, no seu célebre poema, «amamos o Longe e a Miragem» …

 

Chaves, e a sua veiga, era o nosso «vem por aqui»! Campo aberto, farto. E o convívio com aqueles que, no antanho, constituíam a nossa mesma realidade, a mesma cultura, num território com que todos nos identificávamos e que, sem dúvida, muito antes dos romanos, que lhe chamaram Gallaecia, integrava já uma outra cultura, bem mais ancestral, toda nossa – a castreja. E a cultura celta com quem, ainda hoje, muitos de nós, mais nos identificamos.

 

Mas, volvidos tantos séculos, e após várias e profundas peripécias, embora herdeiros do cadinho de uma cultura comum, seremos os mesmos? Fazemos parte, é certo, da mesma Ibéria de que tanto fala Torga. Mas a diáspora e a epopeia dos Descobrimentos modificou-nos. Profundamente!

 

Hoje estamos mais de acordo com José Mattoso e Suzanne Daveau – não foram as pessoas, a cultura e a geografia que nos uniu. Somos, positivamente, uma manta de retalhos de tudo isso. O que nos uniu como povo foi o poder (político) que não a mesma realidade, vivida e partilhada.

 

Perdidos numa Europa sem pátrias, onde reina a ditadura dos monopólios e o poderio das multinacionais, após a epopeia das Descobertas, e habituados ao parasitismo daquilo que apenas se encontra sem esforço e trabalho, ainda não conseguimos encontrar um desígnio que a todos nos mobilize para a construção de uma nova gesta, que nos orgulhe, uma vez mais, de ser português. Reforçando ou criando hoje, a um outro nível, a nossa verdadeira identidade.

 

O Reino Maravilhoso, de que tanto Torga nos fala, é muito sui generis. Muito diverso. Da fronteira do então reino da Galiza até ao sul do Douro, todos nos apelidamos de transmontanos. Mas somos, de norte a sul, muito diferentes. Apenas nos identifica o amor profundo ao nosso berço. E a ele, invariavelmente, muitos de nós, exauridos pela labuta diária na diáspora que nos levou a criar riqueza noutros povos, e num rito de homenagem aos nossos antepassados, à boa maneira celta, regressamos na hora próxima do passamento.

 

Olhamos para o povo, que aqui vemos a nossos pés, integrando uma das aldeias da freguesia que nos acolheu, e à qual nos habituámos a estimar. E um sentimento profundo de nostalgia nos assalta. Porque, em frente, estão as serras que nos separam do berço onde nascemos!

 

Aprendemos a amar esta terra flaviense! Mas o coração e a alma estão para além daquelas serras envoltas em bruma de nuvens… Afinal de contas, apesar de tão perto, contudo, estamos tão longe!..

 

António de Sousa e Silva

 

 

13
Abr12

Discursos Sobre a Cidade - Por António de Souza e Silva


 

Face ao contexto que se avizinha no próximo ano - as eleições autárquicas -, os artigos que durante algum tempo publicarei aqui neste blog, que tem a simples e apelativa designação de “CHAVES”, visarão, melhor dizendo, pretendem, de uma forma modesta, (contribuir) para uma melhor compreensão e enquadramento do papel dos agentes políticos locais, como actores do desenvolvimento local.

 

O presente artigo foi “desentranhado” de um trabalho mais vasto, e em maior profundidade, elaborado, vai há poucos anos, para fins académicos, sob o título “O desenvolvimento local em Chaves”.

 

Eis, pois, o que reputo de essencial, para aquilo que aqui nos interessa abordar tendo em vista os artigos subsequentes:

 

O DESENVOLVIMENTO LOCAL

 

A crise económica de finais da década e 70 e o fenómeno da globalização, resultado dinâmico da revolução científica e tecnológica que possibilitou o desenvolvimento das tecnologias de informação numa velocidade jamais estimada, resultando numa profunda quebra de paradigmas nos conceitos de tempo e espaço, como também numa série de outros fenómenos associados, provocaram:

 

- mudança nos padrões de produção, com a flexibilização da produção (crise do modelo fordista, terciarizações, etc.);

 

- mudança nos mercados financeiros, que se tornaram efectivamente globais, possibilitando uma muito maior capacidade, flexibilidade e velocidade no fluxo dos capitais;

 

- mudança nos hábitos de consumo, com o surgimento de produtos efectivamente globais (ofertados em todos os mercados, supostamente com as mesmas características);

 

- mudanças culturais, pela possibilidade de troca de informação e conhecimento numa velocidade e escala jamais experimentada pela humanidade.

 

Hoje o conceito de desenvolvimento territorial local é frequentemente interpretado como o paradigma mais recente do desenvolvimento, segundo autores como Storper, Duez, Aghón, Llorens, Pecqueur, Veiga e Torre, entre outros. É também conhecido sob a designação de desenvolvimento endógeno, integrado, comunitário e sustentável.

 

Para enunciar as características comuns do desenvolvimento endógeno/local, é útil enunciarmos a síntese realizada por Aydolat, na sua obra de 1985, Economie Régionale e Urbaine:

 

      - Um desenvolvimento territorial – a empresa cede o lugar ao território como o agente de desenvolvimento;

 

- Uma referência às necessidades básicas – o desenvolvimento deixa de ser definido em termos quantitativos e passa a sê-lo em função do que é considerado necessidades da população – alimentação, habitação, educação, emprego. É o assumir dum padrão de qualidade de vida que deve ser a referência do modelo a seguir (e nele incorporado);

 

- Um desenvolvimento comunitário – o desenvolvimento passa a ser fruto da participação activa da população desse território, o que implica a existência duma estrutura democrática com mecanismos de escolha e decisão;

 

- A valorização dos recursos locais - quer sejam os recursos naturais ou as tradições industriais;

 

- Um desenvolvimento integrado - Pretende-se que todos os aspectos sociais, culturais, técnicos e económicos sejam englobados na lógica de desenvolvimento, no sentido em que se devolve ao local o controlo da vida económica;

 

- Uma autarcia selectiva – não se trata do isolamento auto-suficiente, mas sim da capacidade de localmente alargar a “cadeia de valor” do processo produtivo, expondo-se o território menos à divisão internacional do trabalho e à exportação de recursos naturais, que colocam nas mãos dos países importadores o “ritmo” da vida económica local;

 

- A pequena escala e as inovações de carácter local – é o retorno das Pequenas e Médias Empresas (PME), mais integradas no território, que simultaneamente permitem uma maior capacidade de adaptação às crises e um retorno do controlo da economia à comunidade. Mais do que a (grande) empresa, é o meio que promove a inovação (a informalidade, a pequena escala, a flexibilidade que permite sinergias). (Cerqueira, C. E. D. (2001), As Parcerias no Desenvolvimento Local: o papel dos agentes de mediação numa abordagem territorial do desenvolvimento).

 

Quais são hoje as competências que aparecem como indissociáveis da capacidade de um território gerar o bem-estar da sua população local?

 

A ênfase é cada vez mais colocada nos recursos "construídos" (tecnologia, know-how, qualificação dos recursos humanos e métodos de gestão) e menos nos recursos naturais. Vital para esta capacidade produtiva são os processos de aprendizagem que permitem criar e transmitir o conhecimento necessário para a evolução dessa região numa economia global, o que levou a que alguns economistas, como Bengt-Ake Lundvall, a considerar que entramos numa nova fase do desenvolvimento económico a que denominaram de learning economy.

 

Sendo a ênfase colocada no processo de aprendizagem dos elementos do sistema produtivo local, importa definir a estrutura desse processo.

 

Distinguem-se quatro tipos de aprendizagem, segundo Maillat e Kébir, em “Learnig Region e Sistemes Territoriaux de Production”, in Revue D'Economie Regionale et Urbaine, nº 3: 429-448:

 

- aprendizagem interactiva - resulta dos contactos estabelecidos nos processos produtivos, aqui entendidos como toda a actividade da empresa, pela partilha de experiências e a troca de informações;

 

- aprendizagem institucional - as instituições, quer as formais (associações, Estado, os regimes jurídicos, etc.) e as informais (valores, laços de confiança e códigos de conduta) têm um papel fundamental nestes processos, dado que fornecem a estabilidade necessária para adquirir e consolidar conhecimentos, quer na sua produção ou na sua transmissão;

 

- aprendizagem organizacional - o know-how de uma empresa, sobretudo as Pequenas e Médias Empresas (PME), é o know-how dos seus elementos. A importância de ser a organização a integrar o conhecimento (implica a transmissão do conhecimento tácito) tem vários benefícios, desde a inclusão de novos membros com menos custos até à produção e difusão de mais conhecimento, dentro e fora da empresa, com melhorias de produtividade e a construção duma capacidade de reacção às mudanças de tecnologias e do mercado;

 

- aprendizagem pela aprendizagem - os processos de aprendizagem do indivíduo caracterizam-se por uma "produtividade marginal" crescente, ou seja, quanto mais se aprende, mais se melhora a capacidade de aprender, o que faz com que a evolução das competências e produtividade que se incorpora seja também maior (Cerqueira, idem).

 

Os sistemas produtivos locais das "regiões que ganham" organizam-se em torno de dois eixos:

 

- a coesão interna: capacidade dos vários actores do sistema conceberem uma estratégia comum de desenvolvimento;

 

- a abertura ao exterior: a capacidade de o local estabelecer contactos externos e aceder às dinâmicas de desenvolvimento globais (Cerqueira, idem).

 

Na base deste dois eixos está o conceito de densidade institucional, essa característica que, assente nas relações de proximidade, assegura a coesão dos sistemas produtivos locais pela lógica de acção colectiva fundada nas convenções e instituições locais, e deste modo, funciona como o ponto de partida para os territórios construírem os seus processos de desenvolvimento (Cerqueira, ibidem).

 

Temos a base e os eixos em que se articula o desenvolvimento territorial. Mas como se criam as competências fundamentais para a competitividade desses sistemas produtivos?

 

Para a elaboração deste emergente paradigma do desenvolvimento local e a "explicação" da competitividade territorial surgem, conforme Figura 1 abaixo, quatro conceitos chave que estão obviamente interligados e se reforçam mutuamente (segundo Bramanti, em 1999, “De l'Espace au Territoire: développement relationnel et competitivité territoriale. L'aproche du GREMI dans le debat contemporain”, in Revue D'Economie Regionale et Urbaine, 3: 429-448): inovação; learning (aprendizagem); redes; governância.

 

 

 

 Fonte: Bramanti (1999, op. cit.)

 (Retirado de Cerqueira, 2001:52)

    Figura 1.– O emergente papel do território: uma visão diagramática dos quatro factores chave

 

Desde a nova teoria do crescimento endógeno até às abordagens evolucionistas, a inovação é hoje consensualmente vista como um motor de crescimento. O que as novas abordagens do desenvolvimento regional fizeram foi incorporar o espaço como um factor “interno” no processo de criação e difusão de inovação.

 

A importância dos processos de aprendizagem já foi salientada para a criação das "competências" necessárias aos sistemas produtivos locais (tecnologia, know-how, qualificação dos recursos humanos e métodos de gestão) para responder aos desafios da globalização e da learning economy. Globalização e  learning economy são dois conceitos intimamente ligados por um processo de causalidade cumulativa: o surgimento de uma economia mundial integrada permitiu uma aquisição de informação, competências e tecnologias mais rápida e com menos custos que no passado; por outro lado, a globalização tem sido impelida pelas novas tecnologias de informação, que tem funcionado um pouco como o seu "meio de transmissão" (Johnson e Lundvall, 2000, Promoting Inovation Systems as Response to the Globalising Learning Economy). Ou seja, quanto mais global é uma economia mais learning economy se torna, e vice-versa.

 

O impacto positivo das novas tecnologias de informação na produtividade só poderá ser aproveitado pelo local se as suas redes de cooperação forem capazes de integrar e difundir estes processos de inovação, tornando-se também redes de "conhecimento intensivo". E a competitividade territorial só será alcançada se essas redes, apoiadas na sua base local, ultrapassarem essa dimensão, conseguindo gerir as diferentes fases da actividade produtiva (financeira, I&D, marketing, distribuição) que hoje se realizam a uma escala global.

 

A governância é o conceito usado para descrever o processo organizativo, ou se preferirmos, político, que une conceitos (inovação, aprendizagem e redes) na elaboração duma estratégia de desenvolvimento, e que é dependente da capacidade dos actores e instituições duma região, ou seja, da sua densidade institucional.

 

De acordo com a Figura nº 2, seguimos os quatro pilares em que assenta uma estratégia de desenvolvimento local e a forma como eles se inter-relacionam. É duma combinação "correcta" desses factores que se explica as histórias de sucesso de certas regiões e o declínio de outras. E essa combinação deve ser vista em articulação com os dois eixos atrás definidos: o grau de coesão interna do sistema e a sua capacidade de abertura ao exterior (redes transnacionais ou o circuito global de produção), isto é, se o isolamento do exterior provoca uma "morte por entropia", o excesso de abertura anula os efeitos da proximidade e provoca a desintegração do sistema. É então no equilíbrio entre este dois eixos que a mencionada combinação correcta se estabelece.

 

 

Fonte:- BRAMANTI (1999, op. cit.)

 (Retirado de CERQUEIRA, 2001:52)

 Figura 2. O Os processos de desenvolvimento territorial -Da base ao ponto de chegada

 

As regiões mais desfavorecidas não possuem as pré-condições necessárias – uma densidade institucional que, articulada numa coesão interna e numa relação com o exterior, construa um processo de desenvolvimento baseado nos quatro factores chave atrás referidos - o que as remete para um círculo vicioso de pobreza e desfasamento (Cerqueira, ibidem).

 

O que aparece então como central numa política pública de desenvolvimento local para as regiões mais desfavorecidas é a inversão desse círculo vicioso. A estratégia para estas regiões deve ser a de estabelecer os meios com os quais se ultrapassem os limiares mínimos de densidade material e institucional que qualificam um determinado espaço (Reis, 1999, “O Rural e o Urbano: as Novas Soluções Institucionais e o Problema das Densidades dos Meios”, in Cavaco, C. (Org.). O desenvolvimento Rural: Desafio e Utopia). Ou seja, há um limiar mínimo de densidade que é necessário atingir, uma base que é necessário criar. Para este efeito, há necessidade de uma nova política de desenvolvimento local. Que se consubstancia numa nova postura perante o local e o seu desenvolvimento.

 

Segundo Pierre Veltz, na sua obra “Des Territoires pour Aprprendre et Innover 1995: 83-85): “a equação do êxito territorial, sobre o papel é simples. Ela escreve-se: competências, redes, projectos e instituições. As competências são doravante as matérias-primas, quase únicas, do desenvolvimento. É uma matéria-prima que se cria e que não se extrai como o carvão ou o peixe (...) A formação de tipo escolar é um ingrediente essencial [da competência]. Mas ela deve ser conectada com a prática (...) A competência não é somente um saber, mas um saber posto em prática (...) De resto, a competência desenvolve-se e valoriza-se através de redes (...) Construir as competências, desenvolver as redes, internas e externas, pressupõe uma visão, um projecto, redutores da incerteza e, sobretudo, catalisadores das energias. (sublinhado nosso). [Daí que] a capacidade de projecto e a existência de quadros colectivos de acção sólidos constituam elemento chave do êxito territorial (...) Sem instituições sólidas e sem visão do futuro, uma região não pode encontrar a mola da estabilidade e a confiança no futuro indispensáveis ao desenvolvimento (sublinhado nosso).

 

A promoção da competitividade e do desenvolvimento territorial não dispensa o contributo das autoridades centrais, mas a eficácia do seu papel remete-nos para um entendimento da política regional/local diferente do que tem prevalecido na orientação das intervenções públicas.

 

A implementação de uma política de desenvolvimento territorial deve visar a promoção de um processo de inovação permanente, o que, no dizer de Maillat, emTerritorial dynamic, innovatice milieus and regional policy”, in Entrepreneurship & Regional Development, 7, 1995, significa:

 

- O envolvimento dos actores locais e o desenvolvimento de recursos não físicos específicos ao território;

 

- A criação de sinergias (interacções, redes) e de efeitos de aprendizagem entre os actores do meio, bem como desenvolver as vantagens de proximidade e os recursos territoriais específicos;

 

- A ligação com o enquadramento tecnológico e de mercado (redes extra-territoriais).

 

Em conclusão, o que divide a(s) corrente(s) do desenvolvimento local  (e a da(s) teoria(s) da divergência dos espaços) das correntes clássicas e neo-clássicas do desenvolvimento (do desenvolvimento funcional e da convergência funcional) é a forma como encaram o papel atribuído ao território, ou seja, ao "local".

 

A visão neoclássica considera que o mercado corrigirá as divergências regionais, não sendo determinante as características (endógenas) do espaço para o desenvolvimento da região. As outras visões atribuem ao território um papel central no desenvolvimento, com as características dos territórios a ser entendidas como factores-chave.

 

As economias locais vêm-se confrontadas com novas “regras” que cada vez mais ditam os seus destinos: as decisões das grandes empresas do comércio mundial, quanto à localização das suas actividades, representam grandes fluxos de investimento e criação de emprego para as regiões ou países escolhidos, e são tomadas com cada vez maior autonomia face aos Estados nacionais.

 

Tal não significa que o “local” esteja automaticamente arredado do jogo, sem voz ou capacidade de participar. O que temos são novos desafios (ameaças e oportunidades), o que obriga a uma reinvenção do “local” enquanto espaço produtivo e relacional, no sentido em que este consiga colocar no circuito global de produção as suas vantagens competitivas (Cerqueira, ibidem).

 

A problemática da globalização remete a abordagem na busca pela afirmação de uma identidade, de elementos distintivos, de uma reputação própria, de características singulares que diferenciem o local dentro do universo da globalização. Enfim, um esforço que parte da descoberta, do reconhecimento e da valorização dos activos locais, quer dizer, das potencialidades, vocações, oportunidades, vantagens comparativas e competitivas de cada território.

 

É justamente, neste sentido, que um “outro olhar”, se desloca:

 

- do empreendedor para o ambiente;

 

- da empresa para o território;

 

- do global para o local,

 

que explica a emergência do território como uma unidade fundamental para o desenvolvimento.

 

António de Souza e Silva

06
Jan12

Discursos Sobre a Cidade - Por António de Sousa e Silva


 

ACORDAI!...


I


Deambulando pela casa, em plena fase de convalescença de uma doença esquisita, que me diagnosticaram, dou comigo pondo ordem nas estantes de livros que já há muito não lhes punha os “olhos em cima”. Por entre as obras dos sociólogos Anthony Giddens, Francesco Alberoni  e do filósofo Daniel Innerarity, caiu-me aos pés um pequeno opúsculo intitulado «O pessimismo nacional (ou de como os portugueses procuram soluções de esperança em tempo de crise social)».


Trata-se de uma publicação de 1908, reeditada em 2008, por ocasião dos cem anos da sua publicação e, sinceramente, não faço a mínima ideia de quando e porquê a comprei.


O que é certo é que o título, só por si, e agora, foi suficiente para o ler de uma assentada.


Manuel Laranjeira, o autor deste opúsculo, depois de fazer um diagnóstico do Portugal dos finais de novecentos, imprime a este escrito uma mensagem de confiança num Portugal que queria diferente.


Contudo, e o mais irónico, é que este autor, meses depois de escrever esta obra, em carta dirigida a Miguel Unamuno, a 28 de Outubro de 1908, confessava-lhe: “Há meses ainda, quando Portugal atravessava os dias terríveis da ditadura de Franco, eu cria que íamos ressurgir. Hoje, porém, há uma tranquilidade podre que me assusta deveras. Não falta mesmo por aí quem diga que isto não é já um povo, mas sim – o cadáver de um povo. Em Portugal chegou-se a este princípio de filosofia desesperada – o suicídio é um recurso nobre, é uma espécie de redenção moral. Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa”.



Manuel Laranjeira, tal como Antero, Camilo e Soares dos Reis acabou por resolver o “mal-estar colectivo” com a sua tragédia individual.

 

E porque falar deste texto neste escrito que agora vos dirijo?

 

Pelo valor do mesmo, pois, um século depois da sua publicação, a sua contemporaneidade continua actual e pertinente.

 

Os factos aí apontados prevalecem, com matizes embora diferentes e não tão carregados, no Portugal de hoje, ou seja: uma população deficientemente instruída e, por isso, passiva e pouco desperta para as questões da cidadania, incapaz de “resolver a questão social e interessar-se pelas ideias de justiça; uma minoria intelectual, num país “onde o pensamento representa um capital negativo” e “onde a inteligência é um capital inútil” – porque apenas reina a mentalidade do “chico espertismo” -  e que não consegue despertar o sentido colectivo do povo e da nação, educando e mobilizando o povo; uma classe dirigente que é uma “polilha parasitária”, que transforma a nossa vida política, económica e moral, numa série lastimosa de actos de egoísmo individual, impondo-se despoticamente ao egoísmo colectivo, ao interesse da nação, subjugando-o; dirigentes políticos que não conseguem interpretar os sinais da sociedade, verdadeiros “parasitas messiânicos” que rapidamente sucumbem e desfraldam as esperanças neles depositadas.

 

Uma sociedade tricéfala, em que “uns têm deficiência educativa; outros têm demasia educativa e outros têm corrupção educativa”.

 

Um Portugal sem sinergia, coesão cívica, com prevalência do interesse  individual ou de grupo sobre o nacional.

 

 Um Portugal em que vestimos à moderna, mas continuamos a pensar à antiga.

 

 

Por isso, não é de  admirar que, em tais circunstâncias, o pessimismo tome conta de todos nós. E, quando reagimos, apenas apontamos culpa à vida, ou então, esperamos que alguma intervenção divina nos salve.

 

Mas não. Só nós, como colectivo, é que nos podemos salvar. Não terceiros, quer venham de dentro ou de fora. Para isso, é preciso despertar, acordar. Desta letargia em que nos encontramos. Dando valor ao esforço e ao trabalho. Acabando com a disparidade entre o esforço despendido e a produtividade. Todos. Mesmo. Mesmo todos!

 

A inversão de tal estado de coisas é possível e obrigatória, ainda que tal seja necessário um forte espírito mobilizador, acompanhado de um profundo esforço e uma inabalável tenacidade. Os tempos de crise servem também para isso. Para nos por à prova. Exercitando verdadeiramente a cidadania, pondo à prova a nossa capacidade empreendedora e o verdadeiro sentido de justiça, pondo termo ao “triunfo da canalha”.

 

 

II

 

No último dia de 2011, dou comigo a passar os olhos por um artigo de opinião de São José Almeida, no Jornal «O Público». A páginas tantas a autora diz: “No plano da revolução, o ano de 2011 foi o ano 1. Está em marcha uma revolução imposta pelo poder político e accionada pelo Governo PSD em coligação com o CDS, um executivo de maioria absoluta, legitimado por eleições democráticas, em que estes dois partidos beneficiaram daquilo que se chama o voto de protesto, a única forma eleitoral que os cidadãos têm para mostrar o seu desagrado pelo desempenho do Governo anterior, liderado pelo PS de José Sócrates. E o paradoxo não deixa de se afirmar nesta solução. Os eleitores votam em protesto com um modelo de governação influenciada por opções neoliberais, que responsabilizamos pela perda da sua qualidade de vida, mas acabam a eleger uma maioria que assume frontalmente a sua orientação neoliberal”.

 

Mais adiante esta autora afirma que 2011 foi, assim, “o ano em que o Governo lançou as bases da revolução que quer operar e de que a mensagem de Natal do Primeiro-Ministro foi mais um momento. O objectivo assumido é cristalino e passa pela desestruturação do que é a herança da Revolução do 25 de Abril e o modelo de organização social baseado no Estado-Providência que tem como paradigma a redistribuição da riqueza, orientada por critérios de política social e de igualdade de tratamento pelo Estado. Isto para construir uma sociedade baseada na utopia do fim do Estado e no regresso do Estado Assistencialista. E em que o centro da acção política deixa de ser o bem-estar de todas as pessoas, de acordo com princípios de igualdade de tratamento, passando a um novo paradigma em que a regra é a liberdade de mercado, a lógica da gestão privada e a defesa dos interesses privados dos detentores dos grandes grupos económicos multinacionais, da banca ao petróleo, da indústria de guerra à farmacêutica”.

 

 

Permitam-me um desabafo pessoal. O meu afastamento em relação ao PS, em termos de militância activa, teve a ver exactamente com duas questões. A primeira é que o PS deixou-se ir na deriva neoliberal, apostando, e muito mal, num homem (José Sócrates) que não só não era messiânico como tão pouco um verdadeiro líder político. José Sócrates foi um engodo que o PS engoliu. Qual canto de sereia. Um produto perfeito do nosso mundo globalizado e que os media (nas mãos dos grandes possidentes financeiros) projectaram enquanto lhes conveio. Foi, efectivamente, um actor diligente e aplicado. Com boa representação. Nada mais do que isso. A segunda questão tem a ver com a(s) esquerda(s), seu posicionamento na sociedade pós-moderna, globalizada e respectivo(s) projecto(s) de futuro. Quando apregoava, localmente, que o PS deveria ter uma outra postura na sociedade, aceitando, nomeadamente, e integrando (os seus militantes) movimentos sociais diversos, minha voz foi pouco ouvida. A democracia faz-se com os partidos. Mas não se esgota neles. Pelo contrário. A democracia constrói-se na medida em que os partidos dêem o palco ao cidadão. A todo o cidadão. Para que se manifeste. Para que participe. Para que use a sua cidadania. Viver-se apenas à sombra do militante é abrir caminho a processos de corrupção e ao “triunfo da canalha”. E, quando o militante, ou qualquer cidadão, exerce qualquer cargo, fá-lo, deve fazê-lo, com verdadeiro espírito de serviço público e não de seita.

 

A questão com que o cidadão português – e porventura todo o cidadão europeu – se depara, face a este galopar do capital financeiro internacional e do modelo neoliberal que este senhor dos Troca Passos nos está levando, é a seguinte: se as saídas da crise terão um sentido regressivo ou progressivo, contra ou a favor das pessoas e se evoluiremos por formas de organização social mais autoritárias ou mais democraticamente participadas.

 

Positivamente, estou pela segunda. Mas há, pois, que acordar.

 

 E, tal como Umberto Eco diz na sua obra Construir o inimigo (e outros escritos ocasionais), há que construir, e ver onde está o nosso inimigo como colectivo, povo, nação, para melhor definirmos a nossa identidade, o nosso sistema de valores, por forma a sabermos identifica-los e, no seu confronto, nos possamos mobilizar como povo que se orgulha da sua longa, vasta e rica história, e que jamais se deixa definhar. Mostrando à Europa que não somos “aqueles coitadinhos” que não sabem cuidar deles, mas um povo que contribuiu decisivamente para dar a esta (Europa) a identidade que esta mesma (Europa) se orgulha em apregoar. Tendo peito e força suficientes para dizer a quantas senhoras Merkel ou senhores Sarkozy, tal como Cícero dizia no seu discurso contra Catilina – as célebres Catilinárias -:

 

«quosque tandem, Catilina, abutere patienta nostra?»

(até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?).

 

Aqui a esquerda democrática, e o PS, em especial, tem uma palavra decisiva. Mas, para isso, tem de regressar ao verdadeiro espirito das suas origens.

 

 

III

 

2 de Janeiro de 2012. Dou comigo a ler um delicioso artigo, de João Madureira, sob o título «A memória e a mentira», publicado no seu blog TerçOLHO.

 

 Pois… diria também. A coerência… De que tanto falta na política. Como aliás na vida. Porque, numa sociedade que usa tão profusamente o registo, é mais fácil apanhar um mentiroso que um coxo.

 

Gostei particularmente de constatar dois aspectos.

 

O primeiro, que João Madureira, como cidadão livre, independentemente da sua filiação partidária, se assume como potencial candidato à próxima Câmara Municipal de Chaves. E não podia escolher palavras mais bonitas e apropriadas como aquelas que proferiu: “Chaves necessita muito mais do que quem ambicione geri-la como capataz. Chaves reclama quem a desenvolva, quem lhe restitua a alma. Chaves reclama quem a ame”.

 

O segundo, que mais do que fulanizar uma campanha, a atenção do cidadão e dos candidatos vai, deve ir para o projecto, para o futuro. Por isso, e muito bem, como intelectual e homem da cultura de que se reclama, apresenta já os tópicos que, na sua opinião, devem presidir ao debate, a saber: o definhamento e morte do coração da cidade nas Freiras; a descaracterização do Jardim Público; o abandono da terra por parte da nossa população jovem; o desaparecimento da agricultura; o definhamento das tradições; a actividade cultural; as estruturas de apoio à indústria; o ensino superior em Chaves; a agonia do comércio local.

 

 

É certo que se trata apenas de uma primeira elencagem. Mas, creio, suficiente para nos despertar, nos acordar e, consequentemente, mobilizar, a todos, para a pré-campanha que se avizinha, que está já aí no terreno, e para as tarefas do nosso quotidiano. Aqui, onde a vida nos acontece e que, por isso mesmo, o desenvolvimento deve ser feito.

 

Acta est fabula.

 

António de Souza e Silva

 

P(ost) S(criptum) – Queria deixar aqui uma questão ao presuntivo candidato João Madureira. Mas gostaria que não a entendesse como provocatória. Apenas uma simples pergunta. Durante esta quadra do Natal, Ano Novo e Reis, passei por diversas localidades. Em todas elas observei o ar austero, franciscano mesmo, como se apresentavam, nestes tempos de crise e austeridade, os seus respectivos centros e centros históricos. Chaves, em conversas com alguns amigos de cá e de fora, foi uma das cidades que mais caprichou no engalanar das suas ruas do centro histórico, nesta quadra. Face a este facto, e no contexto de crise em que vivemos, será apropriado referir que o comércio local de Chaves está em agonia?

 

PARA VER E OUVIR O VÍDEO, POR FAVOR DESLIGUE O RÁDIO NA BARRA LATERAL ESQUERDA DESTE BLOG.

 

 

 


 

 

Música – Fernando Lopes Graça;  Letra – José Gomes Ferreira

 

 

Acordai


Acordai,

Homens que dormis

A embalar a dor

dos silêncios vis!

Vinde, no clamor

Das almas viris,

Arrancar a flor

Que dorme na raiz!

Acordai,

Raios e tufões

Que dormis no ar

E nas multidões!

Vinde incendiar

De astros e canções

As pedras e o mar,

O mundo e os corações!

 

Acordai!

Acendei,

De almas e de sóis

Este mar sem cais,

Nem luz de faróis!

 

E acordai, depois

Das lutas finais,

Os nossos heróis

Que dormem nos covais

Acordai!

 

 

 

09
Set11

Discursos Sobre a Cidade - Por António de Sousa e Silva


 

ESTADO NEOLIBRAL (AUTORITÁRIO) VERSUS ESTADO COOPERATIVO


I


Nasci na década 50 do século passado.

 

A Europa estava a ressurgir do pesadelo da II Guerra Mundial, com o New Deal.

 

Portugal estava orgulhosamente só.

 

O mundo, a sociedade global, vivia naquilo a que se apelidou de “guerra fria”: por um lado, o mundo ocidental, dito democrático e de economia de mercado; por outro, o bloco de leste, da ditadura do proletariado, socialista. Quer um bloco quer outro, poderosos, querendo demonstrar que um era melhor que o outro. Temiam-se.

 

A paz que entretanto se viveu, apesar dos numerosos conflitos regionais, apoiados e/ou incentivados por cada um dos blocos, tinha a ver com este equilíbrio instável, proveniente destas duas forças que se temiam e, simultaneamente, se respeitavam.

 

Os 30 anos gloriosos, a seguir à II Guerra Mundial, principalmente na Europa, foram de paz, prosperidade e desenvolvimento.

 

E também do aparecimento do Estado de Bem Estar Social. Não só como aparecimento da garantia dos direitos individuais do cidadão mas também dos seus direitos sociais.

 

Entretanto, quer um bloco quer outro, no conserto dos média de altura procuravam demonstrar as suas virtualidades em detrimento do outro. Por isso, viveu-se muito à sombra da(s) propaganda(s). Para una, o marxismo e o socialismo eram uma aberração ultrapassada da história; para outros, o ocidente, capitalista, de uma forma mais subtil e sofisticada, continuava a exploração do homem pelo homem.

 

Em Portugal, durante os 30 gloriosos, para além de continuarmos a viver orgulhosamente sós, agarrados às possessões ultramarinas como se fossem a nossa última jóia da coroa, íamos, entretanto, exportando, os nossos miseráveis concidadãos, à procura de um sonho de vida melhor nos países europeus, que se estavam erguendo.

 

E corroborávamos a ladainha daqueles que anatemizavam o socialismo e o comunismo, com perseguições e caça às bruxas, de uma forma desenfreada. Católicos? De brandos costumes?...

 

Entretanto, neste ambiente, crescia e a minha conduta como homem e cidadão pautava-se pela defesa de um humanismo com rosto, com influência católica e uma leitura da história de cariz marxista. A minha juventude e consciência cidadã amadureceu na confluência destas duas correntes.

 

Até que surge a queda do Muro de Berlim. E, com ele, a teoria do Fim da História. A vitória do capitalismo e da democracia ocidental sobre o comunismo.

 

A minha formação humanista, cada vez mais, adocicava a minha leitura mais radical marxista. Sempre pressentia a enorme desumanidade dos gulags, ditos socialistas; sempre fui avesso a militâncias fundamentalistas. Por isso, nunca me entusiasmaram os comunistas e outros radicais com quem, ao longo da minha vida de estudante, principalmente na capital, me cruzei. Se bem que eles hoje estejam aí a mandar em altas esferas nacionais e internacionais. Mas… sinceramente nunca me seduziram. Pressentia que, para gente desta natureza, tão bem se está hoje na esquerda mais radical como amanhã na direita mais troglodita. Exemplos? Não faltam por aí… infelizmente!

 

Muro de Berlin - Fotografia de Juan Pablo Ortiz Arechiga

Muro de Berlin - Fotografia de Juan Pablo Ortiz Arechiga (Flickr)

II


Mas, no final de contas, a teoria do Fim da História e da dita vitória do capitalismo e da democracia ocidental não se nos afigurou como uma verdade tão incontestável quanto isso.

 

A seguir à queda do Muro de Berlim, ao desenvolvimento extraordinário das TIC, ao surgimento da proclamada globalização, o capitalismo, na sua forma mais pura e dura, sob a forma de capitalismo financeiro, foi o que se viu. E a economia e a política, sob a face neoliberal, veio a revelar uma sociedade cada vez mais desigual e injusta.

 

É certo que, no caso concreto português, nos pusemos à feição para outros deitarem sobre nós a pata. Sempre vivemos de expedientes. E acreditamos, ingenuamente, que os euros que a Europa nos dava eram da mesma natureza do cravo e da canela da Índia e o ouro e os escravos do Brasil e da África. Ninguém dá nada de graça. A conta está aí…

 

A sociedade em que hoje em dia nos é dado viver mudou muito. É uma sociedade cada vez mais secularizada e pluralista, vivendo em contextos muito heterogéneos.  Uma sociedade que se caracteriza por uma série de dinâmicas que nem são acessíveis nem dirigíveis e que obedecem a uma lógica própria.

 

Hoje, os processos sociais não se deixam regular de uma maneira centralizada, e as instituições estatais encontram uma série de limites para regular os âmbitos funcionais, que se organizam de acordo com os seus próprios programas e objectivos.

 

As modificações do clima e as crises financeiras são exemplo da dificuldade de remeter os danos colectivos para causas e causantes identificáveis, ou de actuar com critérios morais, no meio de processos económicos.

 

Ao mesmo tempo, num mundo de crescente interdependências, aumenta também o número de consequências das acções que não são facilmente imputáveis.

 

Por isso se exige uma nova noção de responsabilidade.

 

Responsabilidade como princípio que promete unificar as diferenças, dissolver as fusões e suprimir as contradições num equilíbrio que não elimina a diferenciação funcional da sociedade moderna mas que a despoja da sua aspereza estrutural.

 

Porque sabemos que a coordenação dos diversos actores, instituições, sistemas e grupos de interesses só pode ser efectuada no meio de crescentes divergências. [Porque já não estamos perante a teoria pura marxista da luta e classe mas sim perante sistemas, actores e agentes diversificados com suas próprias lógicas e interesses legítimos].

 

A organização da sociedade exige um quadro democrático de responsabilidade que não pode ser assegurado nem por uma instância autoritária central nem pela auto-regulação dos sistemas particulares. Exige-se uma nova pedagogia para lidar com os diferentes sistemas e actores sociais.

Onde as intervenções centralizadas falham pode mostrar-se valiosa uma responsabilidade cooperativa de actores definida e organizada de uma maneira plural, na partilha de idênticos direitos e igual deveres.

 

Vivemos numa época em que o poder político – os estados e os governos – se vêm em apuros perante dificuldades não menos graves que as que nas origens da era moderna acompanharam o seu processo constitutivo.

 

A política é fraca perante a poderosa competição de fluxos financeiros e dos poderes da comunicação social; o seu espaço próprio perde-se nos formatos inéditos da globalização e perante particulares exigências de processos de individualização. Ao mesmo tempo, boa parte dos problemas que se apresentam aos estados contemporâneos relaciona-se com o facto de que nós não esperamos deles tanto a garantia de direitos como a concretização de determinadas prestações.

 

Numa sociedade em que aumentam as interdependências entre territórios e níveis cresce também a necessidade de coordenação. O poder tem, assim, que se tornar cooperativo, transformando a política de maneira que possa, deste modo, exercer as funções que lhe atribuímos. Como sejam, formas de cooperação entre diferentes actores, de integração, confiança e legitimação, que surgem como uma oportunidade de conquistar novos espaços de jogo para a configuração política, onde anteriormente apenas havia obstáculos para realizar uma política orientada para o interesse geral, por defesa intransigente  dos interesses particulares.

 

Os actuais conceitos de governação, estado activador, sociedade civil e capital social são introduzidos como resposta à desestatização neoliberal.

Uma coisa é o estado ter encontrado dificuldades que não o deixam continuar a actuar da mesma maneira; outra, é ser necessário que renunciemos à ideia da política como actividade relacionada com a configuração de um espaço público.

 

O culpado da ingovernabilidade não é o estado como tal, mas uma forma concreta de política que trabalha com o modelo imperativo de comandos, proibições e ameaças. E este tipo de autoridade, na sociedade em que vivemos, não pode, em princípio, motivar nenhum comportamento quando se fala de iniciativa, inovação ou compromisso dos cidadãos, e esbarra na resistência dos seus destinatários numa época de crescente desejo de autogoverno.

 

A ideia de um estado cooperativo indica o facto de nas sociedades actuais não ser possível cumprir tarefas públicas por decisão unilateral das instituições estatais. Porque o cidadão mais cauto desconfia que ele se pôs ao serviço de outros interesse que não o da sociedade no seu todo, repito, com idênticos direitos, oportunidades e deveres, sem exclusão.

 

A cooperação não é a renúncia do estatal a favor da auto-regulação da sociedade nem a instrumentalização privada do estatal, é uma «terceira via» entre estatismo e privatização. Por um lado, é uma acção estatal efectiva; por outro, também implica uma redução do exercício unilateral do poder em benefício de uma política com disposição para aprender.

 

Numa sociedade caracterizada por uma grande heterogeneidade interna e por uma diversidade de remissas para o exterior, o governo político já não pode ser exercido directamente a partir de um único centro.

 

Os problemas políticos que se nos deparam tem carácter transversal, o que faz aumentar a necessidade de coordenação.

 

O estado cooperativo não é um estado tradicional que, obrigado pelas circunstâncias, modificou o seu modo ou estilo de trabalhar: implica, pelo contrário, uma transformação radical da sua natureza, do que significa governar, de como se constitui o espaço público.

 

Em suma, governar deve ser entendido como uma combinação de menos estado e mais política. A novidade desta combinação consiste em ser uma verdadeira alternativa para as conhecidas concepções do estado mínimo (menos estado e menos política) e do estado social tecnocrático e autoritário (mais estado e menos política).

 

Deste modo, o poder cooperativo aparece hoje como a possibilidade de salvar o estado da sua ineficácia e insignificância e de recuperar a política transformando-a, ao mesmo tempo em profundidade.

 

O que hoje em dia se esgotou não foi a política, mas uma determinada forma da política: em concreto, aquela que corresponde à era da sociedade territorialmente delimitada e politicamente integrada.

 

As modificações da política são exigidas por profundas transformações da sociedade, que, segundo Polanyi, se caracteriza por uma arquitectura policêntrica. A política deve passar da hierarquia para a heterarquia, da autoridade directa para a conexão comunicativa, da posição central para a composição policêntrica, da heteronomia para a autonomia, do comando unilateral para a implicação policontextual.

 

Para mim era inequívoco que o actual governo outra coisa não iria fazer senão cumprir, religiosamente, como bom aluno, o que se manda a cartilha dos senhores neoliberais que mandam na Europa. Mas o que me espanta mais é que o novo PS não tenha aprendido nada com a lição que retiramos de Sócrates e continue a pensar na política como há anos a praticávamos e a defender o estado tentacular e corporativo que o centrão criou.

 

Pena que pouco se aprenda com a história e que não passemos de alunos pouco aplicados. Cábulas!...

 

António de Sousa e Silva


29
Jul11

Discursos Sobre a Cidade - Por António Sousa e Silva


 

O MAIS DO MESMO

 

I


Nunca fui apoiante indefectível de José Sócrates, como socialista. Aprecio-lhe algumas qualidades. Não votei nele para secretário-geral do PS e não o considerava o primeiro-ministro para o meu país.


Por isso, após a sua eleição, fiquei afastado da vida política activa nas estruturas de base onde milito.


Tenho por norma ser frontal e não carreirista. O PS engalanou no canto da sereia do ator. Os mais competentes, infelizmente revelando-se verdadeiros oportunistas, viveram à sombra do “trabalho sujo” dos outros, recebendo “encomendas” e “prebendas”.


Não foi para mim grande deceção a derrocada do dia 5 de Junho. Não foi só a derrota de José Sócrates, foi a de um certo PS, que se consolidou nestes últimos anos. Que se revelou igual ao PPD/PSD. Em muitos aspetos, retintamente iguais.


O que assistimos no dia 5 de Junho foi à derrota de um partido que deixou na gaveta da história os pergaminhos dos valores que o consolidaram como um grande partido da esquerda portuguesa e europeia; que não acompanhou a mudança radical em que a sociedade atual  está transformando a vida de todos nós, e incapaz de apresentar e construir um projecto de futuro que galvanize os portugueses para uma nova gesta, face a uma nova sociedade, totalmente transformada.


O PS de José Sócrates geriu mal o presente e não apresentou nenhuma visão de e para o futuro. Ficou-se somente nas mundividências problemáticas do curto prazo.


Diz a comunicação social que José Sócrates meteu “licença sabática” e vai para Paris frequentar aulas de filosofia política. Um dos professores é o seu amigo Daniel Innerarity. Pena é que não o tivesse lido e assimilado antes. Talvez alguns amargos de boca teria evitado, poupando-nos de vivermos, cada vez mais, numa sociedade bloqueada, como a em que vivemos. Enfim, mas tudo tem o seu tempo, não é?


E o que temos pela frente?


Inquestionavelmente, austeridade. E mais austeridade… não se sabe até quando. Paga pelos sempre mesmos! Imposta por um governo de direita. Que nos diz vir-nos salvar dos desvarios da esquerda. Com o beneplácito de uma esquerda radical, troglodita, bloqueadora, e não raras vezes assassina, incapaz de contribuir para a construção de uma esquerda moderna. Esquerda esta, assistente pacífica de um certo neoliberalismo que nos governa, vivendo de quezílias internas e apegada a valores velhos de um passado sem retorno e pouco à-vontade com as mudanças essenciais de uma sociedade hipercomplexa.


E que PS temos?


O mesmo de sempre, nestes últimos anos. Muito provavelmente para pior.


No poder e na oposição temos dois amigos: Passos Coelho e António Seguro. Nados e criados nas hostes dos aparelhos dos dois maiores partidos portugueses. Partidos estes que têm vivido à sombra do aparelho do estado, entendido quer como administração central, quer como autarquias, quer como empresas públicas, quer como institutos, quer como fundações e quejandos. instituições sustentadas, pacificamente, por todos nós, convencidos que desta total chinfrineira, a que globalmente chamamos estado que nos governa, que, individualmente, algum proveito retiramos. Esquecendo-nos que quem paga são sempre os mesmos, como está à vista!


Porque quer Passos Coelho quer José Seguro são iguais, retintamente idênticos. O que os diferencia é a retórica, o discurso. A praxis é a mesma.


O estado é um imenso polvo, com enormes ramificações nas empresas monopolistas que nos exploram, comandado pela partidocracia do bloco central. Que envolve e comprime a sociedade civil, retirando-lhe o seu normal e adequado protagonismo. Que asfixia o indivíduo. Um estado castrador da autonomia e obstaculizador da emergência de um verdadeiro espaço público, onde se possa exercitar a cidadania.


A eleição do secretário-geral do PS  foi um momento perdido na discussão e procura do que seja hoje uma verdadeira esquerda, face a uma sociedade cada vez mais complexa, exigindo um novo modelo de ação e de participação política.


Francisco Assis, no início da campanha, prometia algum dinamismo. Cedo, porém, ficou refém da história, do seu passado recente, não encontrando forças para o saber gerir e melhor explicar as suas ideias.


Aquilo que os militantes socialistas votaram nos dias 22 e 23 de Julho passado foi num novo impasse.

 

II

 

O PS de Chaves votou maioritariamente Francisco Assis.


Era espectável que assim fosse. Não fosse a presidente da estrutura da concelhia uma amiga do peito de Assis. E os anos que teve de Assembleia, no convívio com os seus pares, já lhe ensinaram o suficiente em termos de como controlar o aparelho.


Gostaria, porém, de ter visto uma eleição mais participada, e não um clima amorfo, sem esperança e com pouca alegria. Nestas eleições faltou futuro, uma certa visão do futuro. Que é suposto os partidos terem e incentivarem nos seus militantes, galvanizando-os para o trabalho político que há pela frente. Porque nunca, como nos tempos que correm, precisamos da política. Também da política. Porque é ela que dá sentido e vida às sociedades em que vivemos.


É por isso que sou muito cético em relação ao nosso próximo futuro, em termos de poder autárquico.


E não é só pelos constrangimentos de ordem financeira que, é bem certo, nos condiciona enormemente. Mais por três ordens de razões.


A primeira, é que o atual modelo de gestão autárquica se esgotou. E não se teve coragem de, há mais tempo, o alterar. A gestão territorial tendo como base apenas os municípios e a administração central não se coaduna com a sociedade em que hoje em dia vivemos. Porque demasiada centralizadora e hierárquica, por um lado; e excessivamente caciquista e despesista, por outro. Que nos levou à desertificação do interior e a um excessivo e desordenado povoamento do litoral, exibindo assimetrias demasiado flagrantes para um país tão pequeno como o nosso.


A segunda, decorrendo da primeira, e depois de mais de três décadas deste poder autárquico, urgia que se tivesse repensado num novo modelo de gestão territorial, mais consentâneo com a realidade que hoje temos. Nada disso foi feito! Perdemos, infelizmente, a oportunidade da regionalização. Porque os intelectuais do poder central lisboeta e alguns renegados de última hora do PS, aproveitando o exacerbamento dos bairrismos locais, achavam, propagandeando, que era excessivamente dispendiosa; que iríamos engordar mais o estado com despesas. Enquanto aqueles “pseudogurus” enchiam, e continuam a encher, seus bolsos, escandalosamente, como presidentes e administradores, de empresas públicas, institutos, fundações, e que mais alcavalas. Não houve coragem de reestruturar a administração pública, acabando com a lógica do funcionamento político partidário assente nos municípios e nos círculos distritais para as campanhas e atos eleitorais. E vêem-me agora com a não nomeação de governadores civis! Estes novos senhores insultam a nossa inteligência, bolas!...


A terceira ordem de razões tem a ver com o perfil dos candidatos que se perfilam para a próxima Câmara de Chaves. Urge que quer Paula Barros, pelo PS, quer Cabeleira, pelo PPD/PSD, se mostrem. Que nos apresentem as equipas com quem pretendem trabalhar. Que visão têm para o futuro da nossa terra. Que programa e projetos para o efetivo desenvolvimento do município. Que digam qual o papel de Chaves no contexto territorial onde se insere e como trabalhá-lo. Urge que quer uma quer outro mostrem, apesar da mesma idade, de pertencerem à mesma geração e da idêntica experiência política, onde são diferentes (para além de uma ser mulher e outro homem). Que o munícipe eleitor sinta onde está o candidato da direita e a candidata da esquerda. Que o eleitor munícipe veja onde estão as verdadeiras opções. Opções que façam sentido. Enfim, que façam vir ao de cima verdadeiras escolhas e não tão só a pose do ator ou atriz. Ou seja, em que somente valha o valor do fulanismo…

 

 

António de Sousa e Silva

12
Nov10

Crónicas Ocasionais - Património e Tradição versus Desenvolvimento Local


 

.

 

Património e Tradição versus Desenvolvimento Local

 


Segundo a sua acepção clássica, o conceito de património refere-se ao legado que herdamos do passado e que transmitimos a gerações futuras. Todas as manifestações materiais de cultura criadas pelo Homem têm uma existência física num espaço e num determinado período de tempo.


Algumas destas manifestações destroem-se e desaparecem, esgotadas na sua funcionalidade e significado. Outras sobrevivem aos seus criadores, acumulando-se a outras expressões materiais.


E, através da própria dinâmica da existência, estes objectos do passado alimentam, pela sua permanência no tempo, a criatividade de novas gerações de produtores de objectos, que acrescentam elementos às gerações anteriores. E assim a cultura flui.


No entanto, nem todos os vestígios do passado podem ser considerados património. O património não é só o legado que é herdado, mas o legado que, através de uma selecção consciente, um grupo significativo da população deseja legar ao futuro. Ou seja, existe uma escolha cultural subjacente à vontade de legar o património cultural a gerações futuras.


E existe também uma noção de posse por parte de um determinado grupo relativamente ao legado que é colectivamente herdado. Como afirma Ballart na sua obra “O Património Histórico e Arqueológico – Valor e Uso”, a noção de património surge “quando um indivíduo ou um grupo de indivíduos identifica como seus um objecto ou um conjunto de objectos”.


Esta noção de património, com a ideia de posse que lhe é implícita, sugere-nos imediatamente que estamos na presença de algo de valor. Valor que os seres humanos, tanto individual como socialmente, atribuem ao legado material do passado, valor no sentido do apreço individual ou social atribuído aos bens patrimoniais numa dada circunstância histórica e conforme o quadro de referências de então.


Neste sentido o património é, e a este respeito existe hoje um consenso generalizado, “uma construção social”, da forma como o define Llorenç Prats em Antropologia e Património. Construção social, ou se se quiser cultural, porque é uma idealização construída.


Aquilo que é ou não é património, depende do que, para um determinado colectivo humano e num determinado lapso de tempo, se considera socialmente digno de ser legado a gerações futuras.


Toda a construção patrimonial é uma representação simbólica de uma dada versão da identidade, de uma identidade “manufacturada” pelo presente que a idealiza.


Assim sendo, o património cultural compreenderá então todos aqueles elementos que fundam a identidade de um grupo e que o diferenciam dos demais.


Neste sentido, o elemento determinante que define o conceito de património é a sua capacidade de representar simbolicamente uma identidade. E, sendo os símbolos um veículo privilegiado de transmissão cultural, os seres humanos mantêm, através destes, estreitos vínculos com o passado.


É através desta identidade passado-presente que nos reconhecemos colectivamente como iguais, que nos identificamos com os restantes elementos do nosso grupo e que nos diferenciamos dos demais.


O passado, dá-nos um sentido de identidade, de pertença e faz-nos conscientes da nossa continuidade como pessoas através do tempo.

A nossa memória colectiva modelada pelo passar do tempo não é mais de que uma viagem através da história, revisitada e materializada no presente pelo legado material, símbolos particulares que reforçam o sentimento colectivo de identidade e que alimentam no ser humano a reconfortante sensação de permanência no tempo.

 

.

 

 

 

.


Hoje, porém, a forma como a sociedade actual se relaciona com o passado é profundamente influenciada pelo extremo dinamismo que a caracteriza e pela tremenda aceleração da velocidade da mudança social no período moderno.


Por esta razão, os modelos de identificação outrora estabelecidos com o passado, sob a forma de tradição, perdem continuidade. Mas, por outro lado, a história e os seus objectos ganham um valor e um interesse sem precedentes.


Face ao fantasma da ruptura e da desordem provocado pela ausência de valores simbólicos e de identificação, a sociedade reclama, numa explosão de nostalgia, a recuperação do passado.


E no contexto desta corrente social nostálgica, o património surge como uma forma de recuperação especialmente eficaz.


Através do património o indivíduo sequestra um pedaço de passado, sob a forma de totens pessoais, em relação aos quais percebe uma vinculação directa.


Apesar da manifesta homogeneização de diversos aspectos do quotidiano, verifica-se hoje uma reafirmação das identidades colectivas face às tendências da uniformização individual.


Estas preocupações traduzem-se num aumento da importância atribuída à preservação do património, como elemento de afirmação das singularidades locais.


O desafio que se nos coloca é o de utilizar os recursos patrimoniais numa perspectiva de desenvolvimento durável, assente em critérios de qualidade, para que os seus benefícios resultem numa efectiva melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.


O património constrói-se, “activa-se”, significando que toda a operação de construção ou de activação patrimonial comporta em si mesma um propósito ou finalidade, uma idealização construída por uma sociedade determinada.


Devemos, por último, ter em devida conta Augusto Santos Silva quando nos alerta para o carácter dinâmico do património ao nos alertar que “o que definimos hoje como valor patrimonial não é o mesmo que definíamos noutras épocas. E o que valorizamos hoje como referência patrimonial – por exemplo um sítio monumental – é o resultado de múltiplas e, muitas vezes, contrárias intervenções humanas.


Em suma, conceitos como inovação e tradição, num contexto de sustentabilidade, pressupõem em primeiro lugar, espaços vividos, habitados, com estratégias realistas de desenvolvimento sócioecómico, onde a fixação de populações é o factor determinante.


Entre o liberalismo selvagem, que não reconhece valores ecológicos e culturais, e o ambientalismo radical que só reconhece florzinhas e passarinhos, o desafio para as comunidades locais que queiram apostar no seu desenvolvimento é o de abrirem-se ao exterior.


Abrirem-se modernizando-se e implicando-se num reinvestimento do seu passado, reestruturação do seu património, na manutenção e revitalização das suas tradições. Realçando a topofilia, o elo emocional entre uma pessoa e um lugar ou envolvente física, o mesmo que dizer, o sentimento de pertença a um lugar ou região de origem, de residência, de trabalho ou de lazer.


Como afirmam Roca e Oliveira, na obra A paisagem como elemento da identidade e recurso para o desenvolvimento, temos todas as razões para acreditar que para além dos efeitos benéficos derivados da coesão entre as «forças» locais e regionais, um forte sentido de topofilia entre os actores e agentes de desenvolvimento, individuais e institucionais, poderão favorecer a compatibilização com as «forças» globalizadas no processo de (re)valorização das identidades territoriais.


Dado que a topofilia reflecte bem o nível de satisfação das pessoas com os vários parâmetros da qualidade de vida sobre um dado território (de carácter ambiental, económico, cultural e político, entre outros), então será de esperar que um mais forte sentido de pertença territorial poderá ser complementar ao fortalecimento do poder de atracção dos lugares e das regiões.


Em síntese, nestas questões do património, tradição e inovação, com vista ao desenvolvimento local, que é o mesmo que dizer, das comunidades e populações locais, em ordem à modernidade, que não é mais que pugnar pela qualidade de vida, numa perspectiva sustentável, de respeito pela manutenção e preservação de todos os recursos por forma a que as gerações vindouras os também possam usar, todos somos operários humildes desta construção ciclópica do futuro.


Não há patrões nem caciques – todos somos primus inter pares.


Enfim, oxalá tenha contribuído para aclarar e nos recentrar quanto ao que nos leva a estar aqui neste blogue a falar de uma cidade e de um concelho que tanto amamos e que tanto espera de todos os flavienses, ou seja, encontrarmos novas metas e construirmos novos desafios em ordem a um melhor futuro das comunidades que integram as nossas aldeias.

 

(António de Sousa e Silva)

 


Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

1600-(61066)-21-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Caríssimo, sou seu seguidor desde há muito muito t...

    • cid simoes

      Caro Fernando, é uma notícia triste, criei uma afe...

    • Anónimo

      É pena que assim aconteça! Este Blogue, quanto a m...

    • Anónimo

      Que pena!Mesmo assim, como se diz em inglês, "You ...

    • FJR

      Só me resta agradecer tudo o que fizeste e não foi...

    FB