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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

04
Jan19

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

A PROPÓSITO DO ÚLTIMO POEMA DO DIÁRIO DE MIGUEL TORGA

 

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A 27 de agosto de 2012, dávamos início a um blogue da nossa autoria.

 

No texto de abertura, escrevíamos:

 

Este é o blog da minha dissidência.

Das minhas noites de insónia.

E também dos meus sonhos, utopias.

Das minhas vigílias e dos meus, muitos, ocasos.

Da minha revolta. Das minhas contestações.

Da minha raiva.

Mais das razões que brotam do coração que da razão.

Do desabafo. Tentando deitar cá para fora tudo quanto lhe vai na alma.

Irreverente.

Contestatário.

Transgressor.

Inconformado.

Falando desta vida estuporada e dos “estupores” que dela se aproveitam.

Enfim, de um desenraizado que, na procura das raízes que o prendem a este «terrunho», berra, ameaça, grita, gesticula.

Mas que, no fundo, não passa de um ser à procura de sentido para tudo isto.

Por isso, este é o blog dos meus confrontos”.

 

Foi, positivamente, uma noite de insónia que ditou a criação daquele blogue.

 

Pensando nas nossas utopias e, por via delas, nas nossas dissidências.

 

Nas nossas, muitas, revoltas, raivas, contestações e desabafos. Querendo ser irreverente, contestatário, inconformado, transgressor. Falando da vida estuporada e dos estupores – infelizmente tantos - que dela se aproveitam, em detrimento de todos nós - a imensa maioria.

 

E como tudo isto é tão verdade e está, todos os dias, tanto à nossa vista!...

 

Queríamos berrar, ameaçar, gesticular, gritar… para que uma nova alvorada para o terrunho que o acaso da vida destinou que aqui viéssemos a viver.

 

Contudo, cremos, o peso dos anos foi mais forte e traiu-nos.

 

Titubeámos quase sempre e, passados seis anos, outra coisa não fizemos senão o que sempre fomos – um cidadão atento ao uso da sua cidadania e um professor/docente-educador, preocupado com o destino das gerações vindouras.

 

Também a nossa participação nesta rubrica «Discursos sobre a cidade» seguiu os mesmos trilhos.

 

Inopinadamente, a 7 de janeiro de 2014, naquele blogue, damos connosco a transcrever os poemas de Miguel Torga, acompanhados, cada um, de uma foto, dos 16 volumes do seu «Diário».

 

Até hoje não entendemos porque enveredámos por esta via.

 

Talvez o coração tenha razões que a razão desconhece, tal como diz o ditado…

 

Adolfo Rocha, o nosso escritor maior, é um dos nossos. Transmontano. Do Douro. Das penedias do seu Reino Maravilhoso. Homem lúcido, crítico. Muito sofrido. Um pensador da Ibéria e sempre com o coração no seu Portugal.

 

A poesia de Adolfo Rocha, transubstanciado em Miguel Torga, é o traço de vida de um homem em luta consigo próprio e com a perenidade do ser humano.

 

Hoje, que deixámos há quatro dias o 2018 para trás, não resistimos a transcrever aqui o último poema do seu último «Diário».

 

Quanto a nós, e aos caminhos que nesta rubrica trilharemos, o futuro o dirá.

 

Não estamos, nestes dias iniciais de 2019, em nenhum ocaso, embora presenciemos a existência de muitos que todos os dias acontecem.

 

Talvez, por isso mesmo, este último poema do «Diário» de Torga, no qual o autor faz um sintético balanço da sua vida, seja um bom começo para refletirmos sobre os destinos que cada um quer dar a si próprio, à sua vida, à sua terra, a este país e a este Mundo, que caminha sem norte, lembrando-nos a imensidão dos sonhos que devemos ter, mas nunca esquecendo da enorme pequenez de que somos feitos.

 

A paz, a sã convivência, a justiça e a equidade da nossa vida em sociedade não pode estar dissociada da enorme pequenez que somos - uma pequena e minúscula gota de água na correnteza de um rio que se precipita no imenso mar da Humanidade de que todos nós fazemos parte.

 

REQUIEM POR MIM

 

Aproxima-se o fim.

E tenho pena de acabar assim,

Em vez de natureza consumada,

Ruína humana.

Inválido do corpo

E tolhido da alma.

Morto em todos os órgãos e sentidos.

Longo foi o caminho e desmedidos

Os sonhos que nele tive.

Mas ninguém vive

Contra as leis do destino.

E o destino não quis

Que eu me cumprisse como porfiei,

E caísse de pé, num desafio.

Rio feliz a ir de encontro ao mar

Desaguar,

E, em largo oceano, eternizar

O seu esplendor torrencial de rio.

 

Coimbra, 10 de Dezembro de 1993

 

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António de Souza e Silva

 

 

 

 

07
Dez18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

DA MISÉRIA DA FILOSOFIA À FILOSOFIA DA MISÉRIA

 

 

                         Se quiser voltar a ser reconhecida como uma

                                      força de transformação da sociedade,

a social democracia terá de se definir novamente.

   Terá de recuperar a sua capacidade subversiva, libertária.

E isso é precisamente o que ela não é quando se apresenta

       como obstinada defensora do domínio do estado sobre

                                                           a economia e a sociedade.

 

                  Daniel Innerarity – A transformação da política

 

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Só em circunstâncias pontuais – e verdadeiramente excecionais – é que, nesta rubrica que rabiscamos, entramos na contenda político-partidária.

 

Todos têm o seu tempo. E o nosso, há muito, já passou.

 

Mas jamais poderemos prescindir, por imperativo ético, da nossa intervenção cívica e cidadã em assuntos que reputamos da maior importância para o que consideramos ser o esclarecimento e um maior amadurecimento da (nossa) democracia.

 

Na verdade, e na essência, em toda a nossa vida, sempre nos consideramos como um formador/educador. E é nesta vertente que, fundamentalmente, nossas palavras devem ser lidas e entendidas.

 

Obviamente, sempre, sujeitas ao princípio do contraditório.

 

Há seis anos, num dos nossos blogues, refletíamos sobre este tema, objeto do título do nosso Discurso de hoje.

 

Seis anos volvidos, com ligeiras alterações, aqui o deixamos à reflexão atenta dos nossos(as) leitores(as).

 

Só quem é cego é que não vê que estamos a passar por tempos de profundas mudanças.

 

A crise, de que tanto falamos, é precisamente um dos seus prenúncios.

 

E confesso-vos, caros(as) leitores(as), que, à força de tanto nela se falar; de se dizer que andamos todos depressivos por causa dela, também começamos por ficar agastado, irritado.

 

Nisto, como em muitas outras coisas, quando surge um problema, tendemos sempre a direcionar a «culpa» para ombros terceiros. Nós, cada um de nós, somos, não passamos de meras vítimas. Vitimas inocentes…

 

O bode expiatório aqui são os políticos. Desde que se trate da economia, da sociedade e da política mesmo.

 

Naturalmente que não queremos aqui desculpabilizar a classe política, tão falada nestes últimos tempos, pelos mais maus motivos. Muito pelo contrário. A classe política tem de se (re)formar e de procurar manter uma outra postura perante a vida e a coisa pública.

 

Mas, como vimos dizendo noutras ocasiões, e particularmente no nosso último «discurso», nós, cidadãos, simples cidadãos, não nos podemos puramente alhear, ao ponto de, só muito esporadicamente, quando a coisa calha a doer, é que nos manifestamos, lamentamos o estado de coisas a que chegámos, vociferando contra tudo e contra todos, e, natural e particularmente, contra a classe política.

 

É que, na verdade, nós fazemos parte dessa classe política que tanto anatemizamos. Pela decisões – nossas decisões – que, ao longo do tempo, e de décadas, tomámos, ao escolhermos este e não outro modelo de sociedade; este e não aqueloutro político. Este e não outro partido. Escolhemo-los e entrámos no jogo. Ou seja, outra coisa não fazemos que «jogar» o jogo deles.

 

Temos, por isso, de ter uma atitude mais séria e responsável quando protestamos.

 

Porventura não fomos todos nós que optámos pela criação deste Estado de Bem Estar Social para prover todas as nossas necessidades?

 

Porventura não fomos todos nós – ou, pelo menos, a maioria de nós – que optou por um Estado todo ele providência e autoritário, interventor em todos os extratos da sociedade?

 

Porventura não fomos todos nós – ou, pelo menos, a maioria de nós – que, ao criarmos um Estado tão mastodôntico, «mascarámos» as relações sociais e criámos um irresponsabilidade difusa e cega do indivíduo quanto às consequências sociais dos seus atos?

 

Porventura não fomos nós – ou, pelos menos, a maioria de nós – que criámos um «biombo», onde «acoitamos» e escondemos, muitas vezes, os interesses de grupos particulares, concorrenciais, e desleais, numa concentração de poder de grupos financeiros e de opinião, sem qualquer escrutínio?

 

Porventura não fomos todos nós – ou, pelo menos, a maioria de todos nós – que construímos a miragem de que o Estado construiria uma autêntica economia de mercado quando, como muito bem sabemos, muitas das grandes empresas não teriam alcançado as suas atuais dimensões sem a própria proteção estatal?

 

E não sabemos nós, porventura, que estes grandes consórcios são os menos interessados na existência de um mercado verdadeiramente livre?

 

Por acaso não sabemos, como diz Innerarity, citando Walter Oswalt, que «estamos a assistir a uma espécie de feudalização do capitalismo, a uma economia legal de pilhagem?»

 

 E de que os despojados dessa enorme massa de capital são os cidadãos?

 

Quando falamos de Estado, cidadãos e classe política, é efetivamente do conceito de polis, que a antiguidade clássica nos legou, e que queremos construir em função, e tendo em conta, os tempos modernos?

 

 Ou não será outra coisa?

 

Hoje somos todos clientes nesta sociedade do hiperconsumo desenfreado.

 

Pelo marketing – e pelos portentosos mecanismos e instrumentos que a internet propicia - somos todos analisados até aos mais ínfimos pormenores da nossa mente e intimidade!

 

 Somos, pura e simplesmente, todos clientes. Pior ainda – simples mercadoria! Mesmo as mais inocentes crianças!...

 

Foi, assim, no seguimento desta lógica mercantilista, que também criámos um Estado com uma administração cuja hidra não sabemos quantas cabeças tem!

 

Todos comem; todos sugam.

 

Porque essa é a verdadeira lógica da administração que temos. Sem clientes, não há partido; sem partido, não há poder; sem poder, não há repartição de proventos e prebendas!

 

É esta, infelizmente, a atual lógica da política. Comecemos pelas próprias freguesias. Na luta pelo poder destas pequenas unidades territoriais do Estado, cada candidato a presidente luta pela conquista do seu «freguês», do seu cliente. A quem, no final da contenda, a muitos ou à maioria deles, tem de lhes pagar o favor do voto que nele depositaram.

 

E, daqui para cima desta escala da administração do Estado, os métodos, embora mais sofisticados, são cada vez mais. Piores e muito maiores.

 

Um autêntico fartar vilanagem, um ver se te avias.

 

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Assim, caros(as) leitores(as), com uma lógica destas, com o passar dos tempos e com uma sociedade assente neste modelo e com estes procedimentos, como podemos ter solução e não irmos à falência?

 

Nos anos sessenta do século passado, enquanto preparávamos a nossa formação académica, defrontámo-nos com dois livros que muito nos impressionaram: um, de Marx – Da miséria da filosofia; o outro, de Proudhon – A filosofia da miséria.

 

 

Em traços gerais, na obra de Proudhon, aquele autor pretendia combater a «preguiça das massas», que está na origem de qualquer autoritarismo. E apregoava que o cidadão em vez de ceder à obsessão do poder deveria ser ensinado a fazer frente à tendência invasora da autoridade, confiando na sua própria capacidade.

Como muito bem diz Innerarity, se esta conceção libertária tivesse alcançado maior êxito e não fosse desacreditada por Karl Marx como utópica e pequeno-burguesa, a história dos direitos sociais e do movimento operário teria sido muito diferente.

 

Contudo, a disputa que pôs, frente a frente, estes dois livros – o mesmo que dizer, estes dois homens e estas duas correntes de pensamento - , saldou-se pela derrota do liberal perante o estatal, e o movimento operário propiciou a criação de uma maquinaria de redistribuição tendencialmente autoritária.

 

 Assim, desta forma, a sua consequência mais imediata foi conseguir para os trabalhadores bem-estar material, integração na sociedade, reconhecimento e direitos de cidadania.

 

Mas impediu a realização de projetos de auto-organização.

 

E foi aquele sistema vencedor que, durante mais de um século, marginalizou a conceição liberal ou libertária da social-democracia. E que hoje nos obriga a falar dela e ter de repensar numa nova conceção de social-democracia.

 

Esta nova conceção de social-democracia coincide com o neoliberalismo na recusa de dominar estatalmente a economia, a disciplina orçamental ou a independência do banco central; contudo, distingue-se dele por considerar o Estado como o quadro inevitável e regulador da vida social, o gerador dos elementos não contratuais do pacto social e o protetor do tecido social.

 

Esta social-democracia liberal previne-nos, não obstante, contra a ilusão de ver na justiça social a simples igualdade e não uma igualdade complexa, que nos põe a tónica não no nivelamento mas na igualdade de oportunidades.

 

Não é o mercado que é o responsável pela crise em que hoje se vive no mundo e particularmente na Europa. O problema é que, na verdade, não há uma verdadeira economia de mercado.

 

Lutamos muito contra a globalização. Errado!

 

Uma verdadeira globalização, no sentido primordial do termo liberal, significa o fim dos consórcios dos meios de comunicação, da finança e da indústria. E o facto de assim não acontecer não resulta da «inamovível lógica do capital» mas do intervencionismo do Estado.

 

Porque estas verdades têm de ser ditas. Doam a quem doerem, caros(as) leitores(as)!

 

Porque a crise do Estado do Bem Estar Social corresponde a uma crise de solidariedade – como são disso exemplo o crescente corporativismo, a economia subterrânea, a resistência às quotizações sociais ou a generalização à queixa que não atende às consequências públicas das suas reivindicações.

 

Os indivíduos não dispõem de qualquer meio para conhecer as relações entre as contribuições individuais e a sua utilização coletiva.

 

O Estado é um intermediário que obscurece as relações sociais, recobrindo solidariedade real com mecanismos anónimos e impessoais de tal maneira que ela não deixa de ser percebida.

 

O resultado consubstancia-se em irresponsabilidade generalizada.

 

Há, desta feita, que pôr cobro a este estado de coisas. Que não está isento de risco, é certo. Que nos obriga a atender a todas as realidades que os usuais modelos macroeconómicos rejeitam ou ignoram: os pequenos privilégios, a extrema heterogeneidade da condição salarial, a falta de equidade no trato fiscal, entre tantos outros…

 

A transparência tem o seu custo. Pode gerar tensões e conflitos.

 

Mas a conflitualidade reconhecida está na origem da autogeração social.

 

O ideal democrático não consiste em negar ou ignorar os conflitos mas em torna-los produtivos.

 

Não mitigando ou negando a realidade. Com verdade. Sem subterfúgios e mentiras.

 

Porque refundar o Estado não é aniquilá-lo, tal como os novos arautos do atual neoliberalismo sub-repticiamente pretendem, não tendo coragem de o apregoar: a que cúmulo chegámos!

 

Refundar o Estado é construir um novo mundo onde Estado, Economia e Sociedade desempenhem, cada um especificadamente, o seu papel, nas suas respetivas áreas de atuação, precisamente bem definidas, e no respeito mútuo e solidário de cada um dos campos, em prol e benefício do homem, do cidadão. De todo o cidadão.

 

Há, pois, hoje, que voltar a ler Marx e Proudhon.

 

Criticamente. Sem militantismos cegos ou ferozes. Com serenidade…

 

Pela nossa parte, proudhoniano nos confessamos!

 

A História, que hoje vivemos, para aí nos aponta…

 

Porque acreditamos sinceramente que, mesmo, e principalmente, ao nível do poder autárquico, mutatis mutandis, a solução dos nossos problemas não está em nenhum líder ou doutrina providencial. Está em todos nós. Conscientes, organizados, cooperantes e solidários numa sociedade complexa e fortemente desequilibrada, no que toca às relações entre os indivíduos e destes com a Natureza ou meio ambiente, nosso nicho, em que vivemos.

 

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Fará, hoje em dia, algum sentido este diálogo de surdos que, há mais de um século, temos consentido?...

 

António de Souza e Silva

 

02
Nov18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

SONHAR BEM ACORDADOS

 

 

Por motivos de ordem pessoal e familiar vários, que aqui não vem ao caso, não nos foi possível acompanhar, como gostaríamos, a atividade autárquica do novo elenco camarário que, há um ano, tomou posse para conduzir os desígnios do desenvolvimento de Chaves e do seu concelho.

 

Estávamos para estar presente na sessão pública, levada a efeito, que fez o balanço de um ano de mandato de Nuno Vaz como presidente da nossa edilidade. Mas, também, infelizmente, não nos foi possível.

 

Procurámos, por outros meios, estar informados e saber o que, na primeira pessoa, Nuno Vaz disse, a propósito do primeiro ano de seu mandato.

 

Para o efeito, vimos e ouvimos a entrevista dada, no passado dia 23 de outubro, à Sinal TV.

 

Foi uma hora, dezasseis minutos e vinte e cinco segundos (1h16m25s) na qual pudemos, de uma forma atenta, compreender melhor o pensamento do nosso presidente de Câmara, quanto à «sua gestão», bem assim o balanço que faz da «sua governação» e do que se projeta para o futuro.

 

Temos, à cabeça, fazer uma «declaração de interesses». Ou seja, tudo quanto vamos expor parte de um militante socialista – que sempre o foi -, pese embora alguns «fervorosos», partidários «devotos» do PS de Chaves, que, em certas alturas, não nos tenha bem compreendido. Sempre vimos o exercício de cargos políticos, não como uma profissão, outrossim como um serviço à causa pública, que não a interesses particulares, pessoais ou partidários. Veja-se, nomeadamente, o que está acontecendo por esse mundo fora! Se é certo que a vida em sociedade não pode passar sem política e políticos, também é verdade que, nos respetivos cargos, não vale apenas  parecê-lo; é necessário sê-lo.

 

Feito este incisivo aparte, continuemos, pois.

 

Dizendo que, na apreciação que fazemos da entrevista, não temos em conta apenas a personalidade de um homem que é militante da mesma formação política a que pertencemos e que, em campanha, apoiámos. Mas temos demasiado amor à liberdade de pensamento e à democracia e aos Direitos Fundamentais do Homem, pela qual durante anos lutámos, para não nos deixarmos embotar. O nosso pensamento - nossos princípios e valores -, que sempre defendemos, ditam-nos que façamos uma apreciação desenfeudada e à revelia de qualquer proselitismo cego. Quando discordamos, fazemo-lo de uma forma frontal. Sem qualquer subserviência, porquanto este foi sempre o nosso timbre, o nosso lema.

 

Por isso, dizemos que, globalmente, gostámos e concordámos com o que Nuno Vaz disse naquela entrevista.

 

Há, contudo, aspetos de pormenor - que, bem vistas as coisas a fundo, não são tão assim -, com as quais não estamos totalmente de acordo.

 

Sabemos que Chaves se situa na área do interior e periférica do país, com problemas, sendo um dos maiores o de essencialmente de cariz demográfico, que faz com que o seu território, de baixa densidade populacional, em constante perda, tenha dificuldades em se regenerar e, assim, com sangue novo, poder catapultar-se para as tarefas do desenvolvimento de que tanto precisa.

 

Abandonada a ideia da criação da rede de cidades médias no país, aparecida nos anos 90 do século passado, como polos de desenvolvimento ou eixos dinamizadores dos seus territórios de proximidade, apenas nos restaram, (porque mais fáceis de levar a cabo, em tempo de captação votos), os grandes canais rodoviários que tão rapidamente nos levaram para o litoral e para o exterior. Ninguém de fora subiu até nós. E nós ficámos cada vez com menos gente e, consequentemente, mais pobres e envelhecidos. Porque nós é que descemos. Os que cá vão restando ou são autênticos resistentes ou então, provavelmente a grande maioria, esperam pela «sua vez», pela hora da sua «última chamada».

 

Tenhamos a coragem de afirmar que o país, e os seus políticos – sublinhe-se, com a nossa pacata benevolência -, abandonaram a ideia do desenvolvimento harmónico de todo o território nacional, com as consequentes desgraças que nos aconteceram e, infelizmente, vão continuar a acontecer, porquanto, o que mais interessa é o número de votos ganhos para o exercício do poder e não o país. Isto tem de ser dito com toda a clareza. E dureza. E principalmente apontar o dedo acusador àqueles políticos que, oriundos do interior, uma vez na capital do reino, facilmente se esqueceram do berço e das berças, embalados pelo canto da sereia das promessas da boa vida na capital. E das benesses do poder…

 

Foram quarenta e tal longos anos depois do 25 de Abril a se esquecer completamente esta realidade. Ou seja, não fomos capazes não só de ordenar como também de desenvolver, como um todo, o nosso país. O Poder Local é seguro que fez obra. E muita, diga-se. Mas, o mesmo, só por si, é (foi) completamente incapaz de reverter esta situação - a de profunda depressão em que o interior do país ficou mergulhado.

 

Por isso, o nosso presidente Nuno Vaz não tenha ilusões! Não há desenvolvimento territorial  que se cumpra e, consequentemente, territórios desenvolvidos, sem a presença dos dois eixos  (abertura ao exterior e coesão interna) e de quatro pilares (inovação, redes, aprendizagem/learning e governância), conforme figura abaixo se apresenta.

 

Grafico.png

 

 

Os dois eixos convergem num vértice, para aquilo a que chamamos «Densidade Institucional», como a capacidade dos atores e agentes locais, individuais e coletivos, das mais diversas índoles, se articularem, harmoniosa e empenhadamente, para, em cada setor, desde o económico ao cultural, para as diferentes tarefas do desenvolvimento.

 

Este é o modelo que há anos vimos defendendo e que, particularmente, nesta rubrica, temos reiteradamente referido e enfatizado.

 

Podemos – o que duvidamos - ter tudo o que está representado no esquema acima. Mas, o que nos parece não ter, é um aspeto muito importante  – Densidade Institucional!

 

Onde param as gentes e particularmente as elites da nossa região?...

 

Quem e onde elas desenvolvem?...

 

Estranhamos na entrevista de Nuno Vaz que não tenha feito qualquer referência ao nosso mundo rural. Chaves, como centro de atração dos seus territórios de vizinhança foi historicamente grande, enquanto âncora, suporte  desse mundo. Quando esse mundo começou a desmoronar-se, Chaves também começou a soçobrar, a perder o seu protagonismo no contexto sub-regional em que se insere.

 

Sinceramente, não acreditamos que seja apenas a água, nas suas mais diferentes valências e vertentes, que nos fará mudar de situação, voltando a ser protagonistas no contexto de uma região deprimida e de uma sociedade global em que nos inserimos.

 

A atratividade de Chaves não está apenas neste recurso, obviamente muito importante, por mais polivalências que tenha. Está nas suas gentes. E gente, repete-se, é o que nos falta!

 

E como podemos concitar desenvolvimento se mesmo a própria cidade está perdendo – ou se esquecendo – dos elementos fundamentais da sua própria identidade. Elementos esses com os quais se identificava e deveria valorizar e aperfeiçoar no contexto da sociedade em que vivemos, porque verdadeiramente diferenciadores dos demais?

 

Temos uma cidade atrativa suscetível de fazer deslocar para o seu seio, para o seu interior, juventude e conhecimento suficiente para criar e desenvolver a economia digital que aí está?

 

Onde estão os espaços públicos que mostrem esses elementos diferenciadores da sociedade que somos no contexto da sub-região em que nos inserimos?  Não basta apenas a História e nos vangloriarmos dela. É fundamental lhe dar Vida!

 

Por exemplo, demos uma volta atenta à cidade de Bragança – a periferia das periferias do nosso interior. Talvez, uma avisada observação nos ensine alguma coisa. Nomeadamente,  como fazer, como cerzir e ordenar uma cidade com os elementos, verdadeiramente culturais e autenticamente identificadores, da região a que preside. Dá gosto ver, passear e apreciar os espaços públicos e a escultura urbana, por eles espalhada,  verdadeiros perfis definidores daquilo que os bragançanos (ou brigantinos) são; o orgulho que têm e donde provêm.

 

Onde estão, em Chaves, os serviços e atividades culturais que prendam os quadros das futuras(?) empresas e serviços de ponta, a instalar? Que educação fazemos, na população em geral, levando-a a esses novos espaços?

 

Não basta apenas construir infra-estrurras culturais. É necessários dinamizá-las com atividades sociais e culturais de ponta, em parceria, e em rede, com instituições de prestígio nacional e internacional, catapultando e exponenciando o capital, a valia e o potencial cultural que Chaves tem. Onde estão os homens – os verdadeiros homens – da cultura em Chaves? O que temos feito para Chaves ser uma cidade da cultura que, ao longo dos anos, tanto propagandeamos?

 

Onde estão os serviços de educação capazes de concitar a vinda de jovens para a nossa região e que os faça pensar que vale a pena viver aqui, pois temos serviços de educação condignos e que, no futuro, com seus filhos não terão gastos ou encargos insuportáveis para os por a estudar, como hoje acontece, quando os serviços de educação, fundamentalmente de cariz superior, estão maioritariamente instalados no litoral, com os preços de habitação e quartos verdadeiramente astronómicos para os seus orçamentos familiares?

 

Não nos venham falar nos protocolos com a Cruz Vermelha e com o Politécnico de Bragança. Por muito boa vontade que tenham, não têm, em si, sinergias suficientes de, em Chaves, criarem uma verdadeira Academia, um verdadeiro Polo de Formação Superior e um verdadeiro Centro de Investigação, de que tanto carecemos, para as tarefas específicas do nosso próprio desenvolvimento, dando também contributos para o país.

 

Quando uma Universidade, com vocação para servir uma vasta região, se transforma única e simplesmente numa universidade praticamente só de uma cidade, pela nossa parte, temos de olhar para o lado, sonharmos, arquitetarmos verdadeiros saltos que nos façam sentir que somos capazes. Que, como dizia um grande sonhador – que podemos!

 

Onde estão os serviços de saúde capazes de praticarem a tempo e horas, e com qualidade, os cuidados primários e de especialidade que todo o ser humano, desde a nascença até ao seu ocaso, têm necessidade? Se os queremos, temos de constantemente descer a A24 e a A7. Pouco ou quase nada sobe até nós!

 

A atratividade faz-se com isto e não apenas com capacidade empresarial instalada. Ousaríamos dizer até que não haverá verdadeiramente capacidade económica e empresarial sem estes requisitos (ou melhor, estes pré-requisitos) instalados. De qualidade!

 

Tocámos apenas por alto nestes três ou quatro temas. Porque nos parecem serem, em termos de atratividade, aqueles que nas alturas das verdadeiras decisões levam os decisores económicos, empresas e indivíduos, a investirem e se instalarem num determinado território. Os quadros, porque também sonham por um outro estilo de vida, diferente do que se vive nas grandes cidades e áreas metropolitanas, quando apostam em nós, injetando-nos sangue novo, criativo e inovador, é cuidando em tudo quanto para cima ficou dito que estão a (irão) pensar.

 

Está bem o senhor presidente da Câmara de Chaves em ouvir as pessoas nas alturas das decisões que interessam à cidade e ao concelho.

 

Mas gostaríamos de aqui recordar: mais que dar conhecimento e aceitar contributos, é necessário que os cidadãos flavienses sejam partícipes da sua própria mudança!

 

Por isso, se é bem certo que é preciso estar bem acordado, também não é menos verdade que é do sonho, da utopia, que nasce a vontade de transformar as coisas e o mundo.

 

Na nossa modesta opinião, é este o pequeno/grande salto que falta dar em Chaves.

 

Seremos todos nós capazes de transformar o estado de coisas a que chegámos?...

 

Já várias vezes vimos afirmando que não acreditamos em homens providenciais. Tal postura pode até representar um perigo para a vivência democrática. Acreditamos, sim,  em líderes que, arregaçando as mangas, sejam capazes de, em conjunto, transformarem o mundo e a sociedade em que vivemos.

 

Sem uma sociedade e/ou comunidade verdadeiramente empenhada no trabalho da sua transformação, não há desenvolvimento que verdadeiramente apareça.

 

Não façamos simulacros de democracia. Tenhamos coragem, como representantes do povo que nos elegeu, de convidá-los à participação e construção do nosso futuro, acrescentando à democracia representativa aquela que, nos primórdios da Grécia Antiga, se viveu em Atenas – a participativa, verdadeiramente empenhada na construção da nossa polis.

 

António de Souza e Silva

 

03
Ago18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

 

DEMOCRACIA REPRESENTATIVA E PARTICIPATIVA NO QUADRO AUTÁRQUICO FLAVIENSE

 

Há democracia representativa que se consubstancia ou efetiva de uma forma ou autocrática ou participativa, tendo, entre uma e outra, vários estádios e nuances.

 

Tal circunstância deriva não só da personalidade dos eleitos e respetivas instituições pelas quais são propostos a sufrágio, como do grau de consciência cidadã e da dinâmica dos representados.

 

Ultimamente, no nosso município, temos vindo a assistir a um conjunto de iniciativas que nos questiona quanto à verdadeira postura deste novo executivo, liderado por Nuno Vaz.

 

Faz parte da cultura democrática deste novo executivo trazer os cidadãos à discussão e tomada de decisão das questões fundamentais no que concerne à construção e desenvolvimento da nossa cidade e do nosso concelho?

 

Esclarecemos.

 

Não temos suficiente vivência no concelho para, com efetiva verdade, opinarmos sobre esta questão importante.

 

Todavia, não é por não estarmos demasiado entranhados na vivência democrática da nossa terra que nos tira a capacidade de discernimento quanto à forma como levamos a cabo, democraticamente, as questões que afetam a vida dos flavienses.

 

Muitas vezes até um certo afastamento - um ver mais à distância -, torna a observação mais objetiva.

 

E, quanto àquilo que vimos ultimamente, temos razões bastantes para afirmarmos que há uma nova vontade de encarar a gestão da coisa pública flaviense de uma forma diferente.

 

Tivemos pena em não podermos assistir, no passado dia 25 de julho, no Auditório do Centro Cultural de Chaves, à Sessão de Esclarecimento – Museu das Termas Romanas – nem, no dia 30 do mesmo mês, na Junta de Freguesia da Madalena, à Apresentação Pública do Projeto «Conectividade entre as lagoas e o rio Tâmega e requalificação das suas margens».

 

Quanto à Sessão de Esclarecimento sobre o Museu das Termas Romanas, apesar de não estarmos presente, vimos e ouvimos com atenção toda a sessão que Afonso Freitas postou na sua página pessoal do Facebook.

 

E, a propósito do que vimos e ouvimos, sentimos necessidade de tecer algumas considerações sobre o que entendemos por desenvolvimento e arquitetura urbana em espaços públicos.

 

Considerações essas, aliás, que já vimos defendendo há muito tempo. Mas que nunca é demais frisar e/ou recordar:

 

As atuais estratégias de desenvolvimento compreendem a cidade como uma comunidade onde existe uma vida local e lugares requalificados. Infelizmente, o conceito utilizado tem sido o da requalificação através da arquitetura-espetáculo para ser exibida, gerando uma verdadeira teatralização do espaço público.

 

O que importa, nesta forma de «fazer cidade»,  é a diferenciação e a capacidade de «ilusão» que as «obras» provocam na sua passagem, desprendidas da  vivência e do quotidiana das pessoas que aí vivem, traduzindo-se, assim, num aniquilamento do lugar.

 

É certo, como dizem Borja & Forn, em “Políticas da Europa e dos Estados para as Cidades”, que o maior desafio do planeamento urbano contemporâneo é aumentar o potencial competitivo das cidades no sentido de responder às procuras globais e atrair recursos humanos e financeiros, quer nacionais, quer internacionais. Mas, de acordo com vários exemplos a que temos assistido, o planeamento tem sido feito à margem da cidade, com total esquecimento das pessoas que ocupam e vivem nesses espaços.

 

Na verdade, o que, infelizmente, se pretende é construir uma cidade cujos seus espaços «cativem o olhar» do turista ou que, em termos mais gerais, propicie uma atratividade em termos económicos, no conserto de uma sociedade totalmente rendida ao mercado.

 

Hoje em dia é frequente vermos uma cidade, e os seus espaços públicos, como se fossem uma simples mercadoria. Que é de todos, mas usufruído por muitos poucos. É uma lógica de produção e reprodução do sistema económico que aí está em vigor.

 

Contudo, o projeto de arquitetura urbana deve dirigir-se aos anseios e aspirações da população que dele vai usufruir, otimizando características fundamentais à sua apropriação. Estes devem possuir características próprias e identitárias que mantenham relações de proximidade e até mesmo de afeto como os mesmos.

 

Os espaços públicos, que antes eram destinados à sociabilização - o verdadeiro espaço vivenciado -, como define Henri Lefebvre, convertem-se na representação de um espaço artificial, desligado dos residentes e usuários, onde não se considera as tradições e as identidades locais, onde a escala do projeto não corresponde à escala do ser humano.

 

E, nesta lógica, muitos políticos e técnicos se esquecem que o espaço público tem como objetivo principal -  a apropriação pelo ser humano!

 

Por isso, temos de debater e por em causa a visão que o poder político tem sobre o território sobre o qual exerce poder. O poder municipal é o principal impulsionador do espaço público e, em particular, ao nível das cidades pequenas e médias [pela “forte concentração do poder e/ou pela maior visibilidade que ele pode ter”], o resultado destas intervenções pode induzir a persuasão do voto.

 

Basta considerarmos as sucessivas inaugurações de parques, praças e jardins em plena época eleitoral. O espaço público reflete, desta forma, a corporificação da preocupação e da capacidade especial da autoridade e, deste ponto de vista, surge como um produto personalizado que compromete o voto. A pressão ao nível dos técnicos é claramente elevada ao conceito de arranjo e assim destitui o espaço de uma forma que o deve caracterizar e individualizar, quando o essencial é entendermos a dinâmica das cidades e dos seus ocupantes e de refletir sobre a(s) nossa(s) identidade(s) e apropriação (ões) como cidadãos pertencentes a uma determinada comunidade.

 

As cidades não são estáticas. Têm espaços que desempenham funções. Funções que servem os seus habitantes e os quais delas se apropriam. A forma como as vivem, e delas se apropriam, distingue-as dos demais. E tornam-se, assim, elementos identificadores específicos de uma determinada comunidade.

 

Que querem preservar, pois são o seu selo, a sua marca distintiva.

 

Naquela Sessão de Esclarecimento do dia 25 de julho passado, não se assistiu a uma audição dos flavienses para uma tomada efetiva de decisão. Apenas a um «esclarecimento» sobre questões técnicas e financeiras, relacionadas com os problemas da ventilação do edifício do Museu das Termas Romanas, às quais a grande maioria dos flavienses está alheia, por serem questões de natureza técnica muito específica.

 

Mas, nas intervenções do público que acorreu ao Auditório, para além de se frisar essa circunstância, viu-se e sentiu-se, por parte do mesmo, uma verdadeira vontade dos flavienses quererem uma autêntica participação no modo como «construímos» a nossa cidade.

 

O que o presidente do executivo flaviense, cremos, devia ter sentido foi uma vontade firme dos flavienses quererem ser chamados à co-tomada de decisões que a todos nós nos diz respeito.

 

Não basta esclarecer. Não basta apresentar projetos. É fundamental que os flavienses tomem parte na forma como os «seus» espaços e equipamentos públicos são criados, modificados ou requalificados. Porque são seus. São de todos nós!

 

Sinceramente esperamos que o chefe do executivo municipal flaviense tenha entendido, naquela sessão, o «sinal» que os flavienses lhe deram, lhe transmitiram.

 

Não está, obviamente, em causa, a legitimidade de quem deva tomar as decisões em nome do Município. O que está em causa é que os flavienses, repete-se, querem ser partícipes ativos – e porque não dizê-lo – coautores das decisões que o município, nos seus órgãos próprios, devem tomar.

 

Porque só assim, os espaços e equipamentos públicos reconstruídos, requalificados ou novos poderão contar com os seus diretos beneficiários para, de acordo com as suas diferentes funções, serem por eles animados, dinamizados. Porque a eles lhes dizem respeito!

 

Porque só assim é que uma comunidade se sente viva, útil, identificada com o seu património, amiga do seu «locus», continuadora histórica da sua própria identidade e conciliada com os diferentes tempos que a compõem.

 

Em vez de encenação, urje criar-se uma efetiva dinâmica de participação cidadã e de animação, por estes, dos diferentes espaços e equipamentos públicos, que devem espelhar a alma e a dinâmica do povo flaviense.

 

E temos espaços suficientes para fazermos a diferença. Desde a reativação da ideia de bairro(s) no território citadino; da animação dos tradicionais e emblemáticos espaços públicos (praças e ruas); dos espaços e corredores verdes; dos equipamentos coletivos, como auditórios e museus, particularmente o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, o Museu da Região Flaviense e, quando abrir, o das Termas Romanas, entre outros.

 

São dos flavienses e para os flavienses que eles foram criados.

 

Quem, de fora, os visitar farão parte da «nossa festa»!

 

Nas discussões, e em particular quando está em causa o bem público, não podemos ser redutores: temos de abrir o enfoque da nossa visão para ver as coisas. Não há apenas o eu e os outros. Há que assumir mais propriamente o nós.

 

É aqui que as discussões públicas, pelos cidadãos, entram, representando um elemento fundamental de uma democracia que, para além de ser representativa, deve, fundamentalmente, ser participativa.

 

É assim que entendemos a ação e dinâmica do poder político autárquico.

 

 

António de Souza e Silva

01
Jun18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

SER OU TER?: – EIS A QUESTÃO

 

Tínhamos, nas nossas agendas, uma vez munidos de uma Carinha Todo Terreno emprestada, guardado dois dias para no Gerês barrosão, irmos à procura das cascatas.

 

No segundo dia, a certa altura, os amigos Pluto e Berto dão uma guinada e viram para a serra de Alturas.

 

Descendo do parque eólico ali instalado, fomos ter a um pequeno vale, um enclave, onde encontrámos uma aldeia, completamente em ruínas, verdadeiramente fantasma.

 

Covelo do Monte (01).jpg

 

Duas cadeias de televisão, a 27 de outubro de 2013, e a 18 de novembro de 2013, depois de apresentarem a reportagem «Aldeia à venda em Boticas» e «Aldeia à venda», respetivamente, (http://videos.sapo.pt/e10Z5ffed8DZB1GUNwf1); (http://portocanal.sapo.pt/noticia/11187/comentam, da mesma forma, sobre este assunto: “O despovoamento do interior está a abrir as portas a uma nova área de negócios: a venda de aldeias. A ideia é atrair investidores para projetos turísticos. É o caso de Covelo do Monte, em Boticas. Uma localidade que perdeu os últimos habitantes há cerca de 50 anos e que agora está à venda por 4 milhões de euros”.

 

Chegámos ao local e, máquinas em punho, não parámos de fotografar. Um autêntico cenário de abandono e desolação.

 

Covelo do Monte (02).jpg

 

Que agora é apenas pasto e guarida para o gado. Um belo horrível, que, verdadeira e profundamente, nos deixou pensativo: a que ponto chegou o estado do nosso interior, da nossa matriz rural!

 

Covelo do Monte (03).jpg

 

Feita a nossa reportagem fotográfica, no regresso, lembrávamo-nos de um escrito por nós publicado, a 4 de fevereiro de 2013, sob a epígrafe «Poemas Ibéricos versus Mensagem». (https://zassu.blogs.sapo.pt/2521.html).

 

Nesse texto, a propósito de uma intervenção de Teresa Rita Lopes, da Universidade Nova de Lisboa, com o título «A Ibéria, de Torga e Nós, Portugal e poder, de Pessoa», proferida por ocasião do centenário do nascimento de Miguel Torga, no Centro Cultural Calouste Gulbenkian, em Paris, na qual a autora procurava dar uma visão que estes dois autores tinham sobre Portugal, dizíamos que, para Torga, a Ibéria é um corpo magro, pobre, «saibroso e franciscano», mas materno, à qual seus filhos, que mamaram nas suas tetas de pedra, devem fidelidade eterna. Na obra de Torga há a permanente oposição corpo-alma, optando sempre este autor pelo corpo.

 

Pelo contrário, para Pessoa, o país não é um corpo, mas sim uma alma.

Não é por acaso que os «Poemas Ibéricos», de Torga, acabam assim:

Venha o Sancho da lança e do arado,

E a Dulcineia terá, vivo a seu lado,

O senhor D. Quixote verdadeiro!

 

Pessoa, sendo sempre pelo barco, contra a raiz, num poema da sua «Mensagem», «O Quinto Império», escreve:

Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

Mais que a lição da raiz –

Ter por vida a sepultura”.

 

Para Torga, somos humildes filhos de uma mãe rude e pobre, (a Ibéria), mas dotada de uma grandeza de que nos devemos orgulhar. É ao seu apelo que devemos acudir, não ao do mar, a sereia traiçoeira. Por isso, exorta Sancho a que regresse ao seu arado.

 

Para Pessoa, no período áureo em que nos revelámos aos nossos próprios olhos, fomos «navegadores e criadores de impérios». Por isso, a mensagem da «Mensagem» é o contrário da dos «Poemas Ibéricos».

 

Torga, premonitoriamente, insistia: “Olha esta Ibéria que te foi roubada e que só terá paz quando for tua». Porque é preciso que Sancho a recupere, de arado em punho, rejeitando traiçoeiros sonhos de grandeza e volte a cultivar os seus campos e a travar a tal quotidiana «batalha de ser fiel à vida».

 

Estaremos perante dois autores com visões opostas quanto ao Portugal que desejavam?

 

Cremos que não. Pessoa, mais tarde em prosa, explicava que na sua «Mensagem» o que pretendia era fazer passar a ideia de que os portugueses, no presente, agissem de uma forma idêntica ou equivalente à época das Descobertas do passado, mas apenas no domínio do ser, não do ter, como então. Por isso incita os seus concidadãos a reencontrarem-se em «Nós, Portugal, o poder ser».

 

Debalde o incitamento destes dois vultos da nossa portugalidade!

 

Ao longo do tempo, fomo-nos esquecendo da lição destes dois grandes mestres - o de ser português: sonhar com os pés bem assentes na terra, no nosso terrunho, recuperando, «com o arado em punho» a terra que, pelo nosso descuido, incúria e negligência, «nos está sendo pilhada» e, numa nova gesta de descoberta, desenvolvermos, todos, toda a nossa terra – do mar à planície, da planície ao planalto, do planalto à montanha, do norte a sul, do litoral para o interior – fazendo-nos, de novo, dignos do nobre nome que, ao longo dos tempos, nossos antepassados tão bem souberem erguer e preservar – Portugal.

 

E como nos faz tanta pena, sempre que percorremos o terrunho sagrado do nosso Trás-os-Montes, como o nosso Alto Tâmega e Barroso, o constatarmos quão certeiras eram as palavras do nosso «maior», Miguel Torga, quando, do Gerês, a 7 de agosto de 1953, vertia para o seu Diário as seguintes palavras:

 

Em Portugal, decentemente, só se pode ser cavador. Apenas a manter terra um homem atinge nesta pátria a perfeita dignidade da espécie. Fora disso, é uma limitação irremediável que cinge cada um e o não deixa ultrapassar a crosta defensiva que o reveste. Mal largamos o enxadão e subimos um grau na escala social, corrompe-nos não sei que lepra, que já não há simplicidade possível, nem grandeza correspondente. Tornamo-nos furtivos, inconvenientes, desconfiados, incapazes de qualquer harmonia social baseada na articulação voluntária do que somos com o que não somos. O diálogo cessa, para dar lugar a um monólogo de pragas e vociferações. Espreitamo-nos uns aos outros por detrás das cortinas dum mundo interior de enconchado egoísmo, e nada nos dá mais alegria do que as falências alheias, assim contempladas a respeito de qualquer responsabilidade cívica. Colaborar nas alegrias e tristezas do semelhante, trocar palavras, ideias e sentimentos, só os componentes de uma roga, os companheiros de uma vessada, os que a fraternidade do suor amalgama na sinceridade e honradez natural. Os civilizados, aqui são os analfabetos”. (Sublinhado nosso).

 

A entrada acima citada dava para, sobre ela, fazermos uma profunda meditação e uma acalorada discussão. Fiquemo-nos apenas no tema que aqui hoje nos trouxe.

 

A essência do ser português deve ser cuidar do que é seu, não o deixar morrer; descobrir «novos mundos», novas formas de nos desenvolvermos; e não o fazer tudo a todo o custo, reduzindo tudo quanto temos a pura mercadoria, particularmente quando se trata do mais rico e mais querido legado histórico e cultural das nossas comunidades. Nas as deixando morrer…

 

Pensarmos apenas no ter – a qualquer preço – é deixarmos alienar tudo aquilo que, na essência, somos, esquecendo-nos verdadeiramente do que é ser transmontano, altotameguense ou barrosão, entre outras regiões que constituem o Portugal que hoje somos.

 

Nas nossas constantes incursões pelo nosso mundo rural, outra coisa, no fundo, não pretendemos do que captar – e não deixar morrer em nós – tudo aquilo que nos identifica verdadeiramente como portugueses. É esse, pelo menos, o nosso desiderato.

 

Mas, infelizmente, casos como o Covelo do Monte, começam a aparecer a cada dia, cada vez mais!

 

E nós, aqui por Chaves e pelo Alto Tâmega e Barroso, o que estamos a fazer para não nos transformarmos num território de aldeias fantasmas, como a reportagem fotográfica que a seguir se mostra?

 

Urje que tenhamos uma visão de futuro para o mundo rural do qual fazemos parte. Uma visão do nosso futuro comum, sob pena de, a breve trecho, todo o nosso rico legado histórico e cultural se esvair neste mundo e nesta sociedade globalizante, rejeitadora das particularidades e das diferenças, transformando o nosso património (material e imaterial), já não em simples mercadoria, mas em pura e simples ruínas, como alguns «Covelos do Monte» que vão aparecendo por este nosso Portugal interior, tão incuriamente, por todos nós, esquecido.

 

COVELO DO MONTE – ALDEIA FANTASMA

(https://www.youtube.com/watch?v=A6_sbMNBiNA)

 

António de Souza e Silva

 

06
Abr18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

LEMBRANDO A BATALHA DE LA LYS, 100 ANOS DEPOIS

 

Comemora-se na próxima segunda-feira, dia 9 de abril, 100 anos sobre a Batalha de La Lys.

 

Façamos uma breve síntese e um balanço final da mesma.

 

Breve síntese


Nem todos os autores coincidem quanto à hora exata do começo da batalha. Jaime Cortesão, Pina de Morais e o major Godinho apontam as 4 horas da manhã (como é, aliás, a informação que vem nos relatos dos comandantes dos batalhões dos RI 2 e RI 11, da 6ª brigada, e do batalhão do RI 2, da 6ª brigada). A maioria indica as 4 horas e 15 minutos.


Começou primeiro com um brutal e maciço bombardeamento, que mais parecia um terramoto, atingindo os postos ou sedes de comando mais recuados, como a sede do CEP, em Saint Venant, Quartéis-generais, da 2ª divisão, em Lestrem, e das brigadas, e todos os comandos dos Grupos de Baterias de Artilharia e respetivas baterias, deixando incólumes as tropas em primeiras linhas. Logo de seguida, diminuindo a distância, incidiu, como se fosse um cilindro rolante, sobre os comandos dos batalhões e todas as primeiras e segundas linhas de Infantaria.


Após um ligeiro intervalo, de novo se alargou o tiro, cobrindo-se e mantendo-se toda a área de combate, impossibilitando qualquer ligação ou contacto com as unidades. Parecia um verdadeiro inferno de metralha, uma enorme e contínua girandola de fogo atravessando os céus.


Aquilo que, num primeiro momento, pareceria um raid, de retaliação a um bombardeamento da véspera, idêntico a muitos outros que durante o mês de março se tinha sofrido, depressa o comando se apercebe de que se tratava de coisa bem mais séria, com uma outra envergadura.


Pelas 4 horas e 30 minutos, a grande maioria das comunicações ou ligações, quer telefónicas quer telegráficas, ficaram cortadas, ou por efeito do bombardeamento ou, na convicção da maioria dos relatórios dos diferentes comandos das brigadas, devido a sabotagem, com o argumento de os fios estarem enterrados a boa profundidade.


O comandante da 5ª brigada, coronel Docleciano Martins, no seu relato diz que, logo após o início do bombardeamento, ficou sem comunicações, quer para a frente, quer para trás. Apenas os comandantes do batalhão do RI 10 e do RI 17 mantinham comunicações com as suas companhias, mas às 6 e às 8 horas, respetivamente, ficaram sem elas. O comandante do batalhão do RI 4, em apoio, ficou sem ligações logo que o bombardeamento começou.


O comandante da 6ª brigada, também no seu relato, afirma que ficou sem comunicações para a retaguarda e para a frente e que apenas uma companhia da esquerda conseguiu manter comunicações por algum tempo.


O comandante interino da 4ª brigada, tenente-coronel Carlos Mardel, diz que ficou quase imediatamente sem ligações telefónicas com as unidades da frente, montando logo um serviço de ordenanças para manter os contactos com as primeiras linhas. Apenas o batalhão do RI 8 é que, até às 10 horas e 15 minutos, ainda conseguia contacto com o comando da brigada.


Simultaneamente, as estradas eram também atingidas, tornando-se intransitáveis por via das enormes crateras que os bombardeamentos provocavam.


Sem ligações telefónicas e telegráficas, e com as estradas intransitáveis ou cortadas, os serviços de estafetas, ciclistas e motociclistas, para além de muitos arriscados ou perigosos sob bombardeamento, tornavam-se muito mais demorados. Muitos deles foram atingidos por granadas, ficando mortos ou feridos.


O nevoeiro era tal que só havia visibilidade entre 30 a 50 metros, impedindo os infantes de ver donde vinha o inimigo, para contra-atacar, e a aviação de operar.


Os pombos-correio, dado o imenso nevoeiro, pouco eficazes foram; assim como os sinais óticos.


O modo certeiro como foram atingidos certos alvos, como os postos das diferentes baterias de artilharia, logo após o início do bombardeamento, não deixou dúvidas que os mesmos haviam sido referenciados.


A barragem de artilharia alemão, para além de destruir os postos de artilharia, dificultava, por outro lado, as baterias que ainda podiam fazer fogo, por dificuldade de remuniciamento, e, assim, gradualmente, foram reduzidas ao silêncio, apenas se ouvindo o troar da artilharia inimiga.


Com duas horas de bombardeamento forte pela artilharia alemã, sem ligações com os comandos e com os postos de artilharia, e com as primeiras linhas e fortificações de defesa a serem completamente varridas e destroçadas, desde muito cedo, cada unidade ficou entregue a si própria, sem qualquer direção do comando. A batalha transformou-se numa série de combates locais de iniciativa dos oficiais subalternos.


Às 7 horas, segundo Guilhermina Mota, citando Gomes da Costa, “as primeiras linhas de infantaria portuguesa eram «uma massa de escombros, de terra, de revestimentos despedaçados, amalgamados com os cadáveres das guarnições!»".


Entre as 7 horas e 50 minutos e as oito, os soldados alemães, a coberto da sua barragem de artilharia e com a ajuda do nevoeiro, saltam os parapeitos das suas trincheiras, atravessam a terra-de-ninguém, e começam a atacar os poucos homens que sobram, defendendo as posições dos restos dos batalhões de Infantaria 8, 20, 2, 1, 17 e 10.


No setor mais vulnerável, Fauquissart, a 40ª divisão britânica, às 8 horas, informa que o inimigo tinha entrado na sua primeira linha. Passado uma hora, retira do setor e deixa o flanco português, do lado esquerdo, a norte, completamente desprotegido.


Às 9 horas e 30 minutos, as forças alemãs atacam as linhas de separação entre as congéneres portuguesas e inglesas em ambos os lados - Fauquissart e Ferme-du-Bois.


Os bravos da 4ª brigada estavam preparados para receber os alemães à baioneta, mas depressa são completamente avassalados pela imensa mole de tropas inimigas, que avança em ondas sucessivas.


Às 10 horas e 15minutos, os alemães tomam Rouge-de-Bout, localidade que era defendida pela 40ª divisão britânica e infletem para sul, contornando os portugueses pelo seu flanco esquerdo. Às 11 horas, vindos da zona entretanto conquistada aos Ingleses, tomam Laventie, local onde se encontrava o comando do setor de Fauquissart.


Atentemo-nos no que diz Luís Alves de Fraga, com base no relato da ação do batalhão do RI 29, em apoio ao setor de Fauquissart, e que, na impossibilidade de o seu comandante o não poder fazer, por estar quase cego, foi elaborado pelo capitão José dos Santos e Cunha: “Pelas 4:35h de 9 de Abril o Batalhão de Infantaria 29 já tinha enviado todas as suas forças para apoio às primeiras linhas. Às 10:30h, o major Xavier da Costa, tendo reunido à sua volta o máximo possível de homens, tomou a decisão de resistir, entrincheirando-se nos drenos. Apesar da resistência, os homens foram morrendo ou ficando feridos um a um, até que os últimos tiveram que se render”. E conclui, no seu relato, o capitão Santos e Cunha: “Fácil é de ver que o envolvimento se fez neste setor, pelo flanco esquerdo, que estava apoiado em tropas britânicas, que cedeu às 8 horas e 50 minutos, tendo os portugueses cedido cerca das dez horas”.


Por seu lado, quanto ao batalhão do RI 1, em primeiras linhas no setor de Neuve-Chapelle, Luís Alves de Fraga diz que “às 9;30h chegaram as primeiras notícias de prisões nas linhas “A” e “B”. As guardas avançadas alemãs caminhavam 80 metros atrás da barragem de artilharia e varriam o terreno a tiro de metralhadora. O número de baixas foi enorme; restaram somente cinco oficiais e algumas dezenas de praças que não foram presos nem feridos”. E o mesmo autor, quanta a esta, conclui, dizendo que “a 6ª Brigada, nas linhas “A” e “B”, sofreu envolvimentos pela esquerda e pela retaguarda, e na direita, ataque frontal; não teve possibilidade de fazer chegar às primeiras linhas quaisquer reforços por falta de ligações e devido à intensa barragem”. Relata, ainda a este propósito, o comandante do batalhão do RI 5, em reserva, major Mário Constantino Oom do Vale, que, pelas 9 horas e 15 minutos “«apareceu o padre capelão Manuel Caetano, da 6ª Brigada, e uma escolta de seis soldados que me transmitiu a ordem de mandar avançar duas Companhias para reforçar cada subsetor (...)». [Contudo,] a barragem de artilharia era tão forte que foi impossível penetrá-la para correr em socorro da frente. Havia que tentar ocupar mais à retaguarda algumas posições que possibilitassem uma defesa eficiente e, simultaneamente, constituíssem uma dificuldade para o inimigo. Entretanto, pelo percurso, o comandante de infantaria 5 foi recebendo ordens para recuar com pouco mais de centena de homens que o acompanhavam. Os alemães avançavam sempre, vindos da esquerda, de Fauquissart”.


Dos oficiais do batalhão do RI 17, lado direito do setor de Ferme-du-Bois, em primeiras linhas, “só escapou de morrer ou ficar prisioneiro o tenente miliciano médico José Viana Correia. Pelas 13 horas foi feito prisioneiro o comandante da 5ª Brigada com o seu Estado-maior”.

 

 Às 9 horas, no setor de Ferme-du-Bois, as tropas alemãs estavam já muito próximas do posto de comando do batalhão do RI 10, após terem penetrado pelo setor inglês à direita, e as tropas deste batalhão, em primeira linha, ficaram envolvidas pelo inimigo à direita e pela retaguarda.

 

Às 9 horas e 30 minutos, o inimigo já penetrara as primeiras linhas e atacava em Givenchy.


Quer dizer, segundo ainda Guilhermina Mota, citando o general Gomes da Costa, as divisões em que os flancos da divisão portuguesa se apoiavam “retiravam para formarem flanco defensivo, deixando aberturas por onde o inimigo penetrou com mais facilidade".


Neste cenário, as unidades começam a desorganizarem-se e começam a verem-se soldados desgarrados, errando, depois de abandonarem os seus postos.


Gomes da Costa, depois dos alemães terem conquistado as primeiras linhas, limita-se, tão-somente, a ordenar que se mantenham as posições a todo o custo, ganhando tempo, esperando por reforços ingleses: eram 11 horas. Esperou uma hora mais, e os reforços não vieram.


Assim, toda a resistência era inútil.


Do Quartel-general do XI Corpo do exército britânico, às 12 horas e 15 minutos, ordenam-lhe que, de Lestrem, retire para Calonne.


Às 13 horas, as vagas de tropas alemãs, ultrapassadas as primeiras linhas, que, predominantemente, eram guarnecidas pela Infantaria, alcançam e tomam as posições de artilharia.


Quando o comando da 2ª divisão chega a Calonne, às 15 horas e 40 minutos, recebe ordens do XI Corpo do exército britânico “para tomar posição mais atrás na Ribeira de Lawe. Mas foi impossível formar unidades com as tropas que retrocediam completamente dispersas, desordenadas e perdidas pelos caminhos”.


Era um perigo tantos homens, desavindos na retaguarda, pela dispersão provocada pelo bombardeamento e pelo avanço da infantaria alemã, se encontrarem tão concentrados nesta povoação. Por isso, o comando retira para Saint Venant com o intuito de, aí, se reorganizar.


Como afirma Joaquim Ribeiro, citado por Guilhermina Mota: "Não houve quem organizasse a retirada. Os soldados vaguearam sozinhos; e assim entraram, desordenados, em cabelo, e até descalços, pelas povoações e cidades, dando uma triste impressão». Segundo este autor, pior que a derrota — na altura toda a frente aliada recuava - foi o caos da retirada, sem que ninguém fosse capaz de controlar a situação, ficando a ideia de uma total debandada”.


As tropas portuguesas e britânicas não conseguiram aguentar o embate de um confronto cuja proporção era de 1 para 10. E cederam à avalanche que sobre eles recaía. Milhares são feitos prisioneiros e mandados para o cativeiro.


Foram 1 500 (das cerca de 1 700) bocas-de-fogo para uma frente com cerca de 12 a 15 quilómetros. Uma enormidade! Que, contudo, segundo refere Luís Alves de Fraga, “era esta a experiência que a guerra das trincheiras vinha desenvolvendo desde os tempos já recuados de Verdun, pois qualquer ofensiva era antecedida de uma longa preparação de artilharia”, porquanto a intenção não era apenas destruir seja que obras defensivas fossem, mas, essencialmente, quebrar a vontade de combater por parte da Infantaria. O corte das ligações entre os diferentes comandos outra coisa não pretendia obter senão o retardamento dos reforços, desmoralizando e destruindo ainda mais o moral das tropas para oferecerem resistência ao combate. La Lys limitou-se a repetir um padrão conhecido nesta guerra.


Pelotões isolados ou grupos de tropas, ultrapassados pela avalanche dos alemães, combatem dia 9 de tarde e dia 10 de manhã, oferecendo resistência. E outros, muitos poucos já, ainda os vamos encontrar a combater ao lado dos aliados, na ribeira de Lawe, no dia 11, até que são mandados reunirem-se às suas tropas.


Com a «Operação Georgette», o comando inglês afirmava que as suas forças estavam de costas para a parede e que não lhes restava outra possibilidade que não fosse resistir ou morrer.


Só que, e como bem diz Mendo Henriques, o valor militar não se mede em termos só de sucesso. Os soldados portugueses resistiram durante 24 horas ao assalto dos alemães, sublinhando ter sido esta resistência um valor militar sem precedentes. E, contrariamente ao que dizem os relatórios dos Aliados, de La Lys ter sido um insucesso, os alemães consideraram uma derrota Aliada útil, na medida em que lhes atrasou a sua ofensiva.


Como se veio depois a verificar, as ofensivas alemãs da primavera foram um fracasso. E, tal circunstância, deveu-se, essencialmente, aos seguintes fatores:


  • Unificação do comando militar na pessoal do marechal Foch, permitindo aos Aliados coordenar de forma mais eficiente as suas forças, com unidades francesas a substituírem as forças britânicas nas primeiras linhas.
    • A falta de meios motorizados e meios de transporte eficientes para suportar e apoiar o avanço das tropas, o que foi uma constante alemã em toda a guerra.
    • Embora as forças alemãs de trincheiras fossem mais numerosas, estavam, contudo, menos preparadas que as unidades de elite e que foram utilizadas na Operação Michael, duas semanas antes.
    • Finalmente, o solo, com a primavera e o degelo, encontrava mole e, por isso, as posições defensivas dos Aliados tinham mais vantagem, ao poderem contar com ninhos de metralhadoras que ceifavam alemães, à medida que estes avançavam. O solo mole foi um problema grave ao avanço das tropas alemãs porque, para destruir a posição das metralhadoras, era necessário utilizar artilharia que, num terreno irregular, com muitas crateras resultantes das explosões, se encontravam cheias de água, dificultando ainda mais o avanço.


A conjugação destes fatores levou a que o avanço alemão fosse mais tarde retido, mercê ainda do reforço das unidades britânicas com tropas francesas, a sul, e belgas, a norte.

 

 Balanço final


Foi, contudo, graças ao sacrifício e à valentia de uns tantos bravos que os objetivos da ofensiva alemã, apesar de destroçarem por completo a 2ª divisão do CEP, não foram conseguidos, conforme mapa que se apresenta.

 

Eis o que nos mostra o mapa a seguir.

 

Veja-se agora o que os alemães pretendiam com a «Operação Georgette».

 


No mapa que se segue, para além de completar o que acima se reproduziu, assinala-se as unidades que mais se distinguiram nesta batalha.

 

 
Continua a não saber-se, com exatidão, as baixas ocorridas na batalha de La Lys. Segundo Luís Alves de Fraga, referindo os números adiantados por Vasco de Carvalho, em 1923, o quadro de baixas seria o seguinte:


As estatísticas do CEP “apontam para 32 oficiais mortos e desaparecidos na batalha e, em 1993,computavam-se 6 535 praças prisioneiros, mortos no cativeiro e desaparecidos, enquanto o número de sargentos ascendia a 364 prisioneiros, mortos no cativeiro ou desaparecidos”.


Mendo Castro Henriques e António Rosas Leitão, como Luís Alves de Fraga, com base no quadro do livro «História do Exército Português (1910-1945): Estado-Maior do Exército», III Volume, 1994, página 123, dizem-nos que “a lista de perdas portuguesas em La Lys é de 299 oficiais e 6 684 sargentos e praças, mortos, feridos e prisioneiros, um terço da força combatente a 9 de Abril. Não se conhece o número exato de feridos, porque ficaram no terreno ocupado, mas nunca terá sido inferior a 1 500 homens. No cativeiro faleceram mais 233 militares".

 


Se analisarmos o quadro acima das baixas, o que é mais espantoso é a enorme desproporcionalidade do tipo de baixas. Tanto prisioneiro, comparativamente aos mortos, é sinal mais que evidente que o moral das tropas era muito baixo, que estavam no limite máximo do seu esgotamento físico, psicológico e anímico, perante um inimigo que se mostrava tão verdadeiramente avassalador.


Mas, se por outro lado, formos ver o balanço da ofensiva da Operação Michael, os ingleses não se podem queixar muito do que aconteceu em La Lys. A derrocada das linhas portuguesas, não foi no entanto muito diferente da que tinha ocorrido com os britânicos em 21 de Março, onde durante as primeiras horas após a violenta barragem de artilharia, se renderam 21 000 britânicos.


Isabel Pestana comenta que “a perda de milhares de militares nas fileiras portuguesas para o cativeiro alemão foi mais significativo porque contribuiu para o desfalque [já de si bastante crítico e] que se fazia sentir há muito nas unidades militares do CEP, penalizando os sobreviventes ao serem obrigados a permanecer, muitas das vezes desmoralizados, numa campanha que não via receber tropas frescas para proporcionar o descanso merecido e há tanto tempo desejado”. Aliás muitos dos acontecimentos que a seguir sucedem, como as insubordinações, não se compreendem sem a devida compreensão desta realidade.


Há uma certa tendência, entre nós, em resumir a nossa participação na Frente Ocidental àquilo que apelidamos de o desastre de La Lys. Nada mais erróneo! Estamos plenamente de acordo com Isabel Pestana quando afirma que “dois anos de campanha não se reduzem a uma batalha que, ainda por cima, não se saldou por grande número de mortos ou feridos: os combates de Janeiro a Março [de 1918] foram mais mortíferos e desmoralizadores que La Lys!”.


Bazílio Telles, no seu opúsculo «Na Flandres (O episódio de 9 de Abril)», de 1918, não o classifica como um desastre, simplesmente um mero «episódio militar». É certo que este opúsculo foi escrito quase imediatamente a seguir ao acontecimento. Contudo, no contexto dos combates que se deram na Grande Guerra, positivamente, está mais próximo de um episódio do que de um desastre, coisa que Ferreira do Amaral, mais contristadamente se lastima que, em Portugal, assim se entenda.


Os dois anos de campanha do CEP na Flandres, de duas divisões desfalcadas e desmoralizadas, pelos motivos já amplamente expostos, numa frente variável, mas extensa para qualquer exército Aliado que fosse, apesar de todos os problemas com que o comando superior e unidades de combate na Frente se debateram, não se pode considerar, objetivamente falando, num fracasso. A exemplo de outros exércitos Aliados, teve os seus altos e baixos e, como se expressou, e bem, o general Fernando Tamagnini de Abreu, quando deixou o comando do CEP, até ao dia 9 de abril de 1918, soubemos defender o nosso setor com esforço, sim, mas com valentia.


Se quisermos fazer uma análise/avaliação destes dois anos de campanha, diríamos que, em 1917, o setor português, e na terminologia de Isabel Pestana “viveu o usual ritmo alternativo de momentos de espera e de momentos de combate, mais desgastante que nas outras zonas Aliadas devido à incapacidade portuguesa de facultar descanso às tropas que [...] permaneciam demasiado tempo na Frente”. Já o ano de 1918 foi bem diferente. Agudizou-se mais a carência de homens frescos para revezar a Frente, aumentou, principalmente no primeiro trimestre o «tempo de combate», que trouxe muita desmoralização às tropas. Não admira, assim, que, quando surge o mês de março, de intensos combates, este tenha sido um mês terrível, de mortos, feridos, doentes, à mistura com medo e pânico, um verdadeiro inferno para as tropas portuguesas. É nesta altura, ainda segundo Isabel Pestana, que “acontece o maior número de mortos em campanha, muitas vezes sepultados à pressa, ou enterrados nos escombros da 1ª linha e que se enchem as ambulâncias e os hospitais com combatentes de feridas abertas, esvaídos em sangue e, por vezes, mutilados”.


Houve, positivamente, um esforço notável das nossas tropas nos primeiros três meses de 1918, como a seu tempo demos conta. E nem vale agora a pena falar dos defetistas, desertores e dos oficiais a quem faltou Honra, Valor e Lealdade. Supervalorizar certos grupos pelo seu comportamento, pouco em conformidade com os compromissos assumidos para com uma profissão e para com a Pátria, é não dar o devido valor aqueles - e foram felizmente muitos - que, com todas as suas forças, honrarem a farda que vestiam e o País que representavam, ao lado dos nossos Aliados, independentemente de quem ocupava, num momento concreto, o poder político em Lisboa.


Perante a avalanche de metralha e aquela multidão de tropas de assalto, numa desproporção tão significativa, nenhum outro exército Aliado poderia ter feito muito melhor. Com certeza que poderia oferecer mais resistência, com maior número de mortos e, possivelmente, não tantos prisioneiros, contudo, o resultado final não seria muito diferente daquele que verificámos nos dias 9, 10 e 11 de abril de 1918.


Neste ponto, e concluindo, estamos com Isabel Pestana quando afirma que “a presença portuguesa de dois anos e três meses em terras francesas (Janeiro de 1917 a Março de 1919) [não se pode resumir] a única batalha, conhecida pelos ingleses por «Armentières», e apresentada sempre com recursos a adjetivos dignos de fantásticas e literárias figuras de estilo mas a poucos factos”.


E, quanto a este ponto, não resistimos em aqui deixar o ponto de vista de um bravo, antigo combatente, polémico, mas magoado, e frontal. Ferreira do amaral «queixava-se» assim: “A agência «Reuter» germanófila dos pés á cabeça, refere em 10 de Abril a resistência que os portugueses opuseram ao avanço dos alemães e elogia a bravura com que se bateram apesar de terem perdido os apoios dos flancos, mas o cidadão português é que não vai na fita e chama-lhe o desastre de 9 de Abril! O «Times» e o «Daily» Mail», jornais ingleses, em 11 e 12 prestam a mais sentida homenagem á bravura e sacrifício com que se bateram as quatro Brigadas Portuguesas, mas o cidadão português é que não vai no jogo e insiste em chamar-lhe o desastre de 9 de Abril!!! O «Matin» e o Telegrame de 10 e 11 referem-se ao valor dos portugueses que se bateram na Flandres no dia 9, 10 e 11 de Abril, como se se referissem ao valor provado dos seus compatriotas, mas o cidadão português é que não vai atrás do choro... e continua a chamar-lhe o desastre de 9 de Abril!!!” (Amaral, 1923: 46). E continua: “Resumindo: para o general Ludendorff o ataque de 21 de Março representa um alto feito de armas, e o ataque de 27 de Maio (Chemins des Dames) representa uma grande vitória tática. E ao referir-se a 9 de Abril não se dá por satisfeito! O cidadão português não acha que Ludendorfl se mostra exigente quando aprecia o 9 de Abril? Ele que atacou com 17 Divisões à frente de Armentiéres a Bethume e só para o ataque de frente feito contra os portugueses destina 8 Divisões, é porque com alguma cousa contava pela frente. A nós pelo menos parece-nos isso. Mas o cidadão português é muito esperto, muito desconfiado, muito astuto, e não vai com essas! O 9 de Abril continua a ser um desastre!”. Para, assim, concluir: “Em Portugal todos os políticos, (sem exceção alguma), discutiram muito o 9 de Abril, mas todos eles não procuravam sinceramente salvar a honra da Nação. Toda essa miséria moral nada mais foi do que uma discussão de interesses partidários e pessoais!”.


Mendo Castro Henriques e António Rosas Leitão dizem que a batalha de La Lys “deu origem à quase totalidade dos prisioneiros de guerra portugueses, que até essas data era insignificante. Antes da ofensiva de 9 de Abril havia apenas 102 prisioneiros. As estatísticas oficiais registam precisamente 7 000 prisioneiros internados nos campos de prisioneiros da Alemanha, dos quais 274 oficiais. O conjunto de mortos e feridos do CEP, que mobilizou 55 083 homens para a Flandres, foi calculado em 7 384 homens [nos dois anos de campanha, conforme quadro que abaixo se apresenta], ou seja, 13,4% dos efetivos, [portanto] abaixo da média da Grande Guerra”.

 


Para finalizar, queremos deixar aqui o ponto de vista de um velho republicano, Bazílio Telles, que, logo a seguir ao 9 de abril de 1918, assim se exprimia: “Ninguém melhor que um militar, e um militar distinto, sabe que a superioridade numérica não é sempre condição imprescindível para o êxito dum ataque. Outras condições, algumas de mais importância do que essa, influem no resultado que se teve em mira colher duma ofensiva, particularmente se acaso se lhes veio juntar algum incidente meteorológico, topográfico, ou doutra ordem, favorável aos projetos do inimigo. Igualdade de efetivos pode muito bem coadunar-se com uma vitória completa do atacante, se este conta do seu lado outras superioridades sobre as forças investidas”. E dá o exemplo de Aljubarrota. E, mais adianta, acrescenta que, “por mais que a velha organização militar se modifique, por mais que se aperfeiçoe o armamento, subsistem fatores imutáveis de vitória, que nenhum progresso material, nenhuma complicação de agrupamento de unidades, são suscetíveis de alterar de maneira apreciável, que vem a ser as qualidades, o temperamento, o caráter das populações dum certo país, seja qual for. A primeira, a imprescindível condição para vencer é possuir conhecimento completo do que é estrutural na alma dum povo, da série dos móveis, dos estímulos habituais ou transitórios capazes de a fazer entrar em vibração, tirando-lhe assim o máximo esforço no sentido que se quer. Não é só lendo tratadistas profissionais estrangeiros, que só podem ensinar o que num exercício há de exterior, é sabendo de cor a história desse povo, não unicamente a história militar, a integral, que se consegue ser um bom chefe de soldados. A técnica da profissão é a tabuada, se nos relevam este modo de exprimir; mas a história nacional é o a b c. A primeira é preciosa, a segunda é indispensável”.


Nunca ninguém manifestou grande empenho em inquirir porque foi que se venceu; todos anseiam sempre por saber porque é que se foi vencido. Aos olhos do grande público a vitória tem, ou parece ter, em si a sua razão suficiente; a si, e por si própria se justifica; é um facto que se toma sem lhe determinar as condições. A derrota exige, ao contrário, que se lhe apure os motivos, se lhe destaque até ao ínfimo pormenor os antecedentes e as fases, se lhe conheça os responsáveis, pessoais ou impessoais. Ninguém jamais regateou o preço porque se triunfou do inimigo; discute-se o último ceitil que se despendeu com uma derrota. A natureza humana é assim feita, deste barro grosseiro, em toda a parte; e nem a Geografia nem a História lhe modificaram até hoje a estrutura. Não faltam nesta guerra os episódios que nos conformam a realidade destas contraditórias exigências morais das multidões consoante se vence ou se é vencido
”.

 

Nesta guerra, na Flandres e na África, conforme enfatizámos na Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae, os militares do RI 19, e de Chaves, deram provas bastas de bravura, de amor e dedicação à República e à Pátria. Para além dos simples, humildes e anónimos homens que se bateram bravamente nos diferentes campos de batalha e de que a história não reza, outros há que ficaram com o seu nome bem marcado nas suas páginas, como sejam, Bento Roma, Germano Ribeiro de Carvalho e o celebérrimo soldados Milhais, o «Milhões»…

 

Contudo, num ponto, estamos de acordo com Filipe Ribeiro de Menezes, professor de História na Universidade de Maynooth, na Irlanda, na sua obra «De Lisboa A La Lys – O Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial»: “Em La Lys findou o sonho de uma República capaz de transformar os destinos de Portugal, do seu domínio colonial e dos Portugueses de todo o mundo, mobilizando todas essas forças em torno do sacrifício dos soldados nas várias frentes de combate e da valorização, pelo mundo fora, do bom nome português”.

 

100 anos volvidos, será que aprendemos efetivamente a lição, pelo que foi a história dos nossos «maiores»?...

 

António de Souza e Silva

02
Mar18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

ENTRE O RUÍDO E O SILÊNCIO, A PALAVRA

 

 

"Sobre aquilo de que não se pode falar

 devemos ficar em silêncio"

 

Ludwig Wittgenstein

Tractus Logico-Philosophicus

 

 

Temos tratado nesta rubrica temas essencialmente relacionados com o desenvolvimento local, concelhio e (sub)regional, vistos, fundamentalmente, na vertente ética e política.

 

A nossa conduta tem sido crítica, mas urbana e civilizada, numa sociedade aberta e democrática. E assim continuará a ser.

 

No passado mês de outubro, no que concerne ao concelho de Chaves, em termos de eleições autárquicas, particularmente a nível do Município, houve mudanças de cadeiras. Mudanças essas que, aliás, desde há muito as desejávamos e pelas quais, publicamente, e dentro das nossas possibilidades, demos a cara.

 

Somos militante do partido que atualmente "governa" os destinos do nosso concelho nestes próximos quatro anos. Contudo, antes de sermos militante, somos cidadão e flaviense. E, como cidadão e flaviense, vivendo numa socieade democrática, somos livre para, sempre e sem condicionalismos de qualquer espécie, dizermos o que bem entendermos quanto às decisões e ao rumo que os atuais detentores do poder tomarem para o nosso concelho.

 

Lemos atentamente a entrevista que o Presidente Nuno Vaz Ribeiro deu por ocasião dos 100 dias de governação autárquica, inserta no Boletim Municipal nº 58, do pasado mês de fevereiro. Das suas palavras, apenas aqui desejamos reter as finais que, para nós, são as mais impressivas e que poderão definir a filosofia e a postura deste mandato. Transcrevemo-las, pois:

"A relação de proximidade entre os autarcas e as populações só será possível se houver diálogo. A consolidação de projetos mais relevantes para o concelho só fará sentido se for construída lado a lado com a população, de forma a que a proposta de construção e solução possa ser também sustentada pelos contributos dos próprios. Os flavienses têm que ganhar autoestima. Mais importante do que grandes obras e avultados investimentos é a forma como as pessoas se relacionam com a sua terra.

Chaves é uma cidade histórica, um concelho muito importante, com um grande passado. Temos que valorizar aquilo que somos, o que já fomos e perspetivar o que queremos ser. Para isso, é primordial que os cidadãos percebam que têm uma importancia decisiva. Não apenas no momento da eleição dos autarcas, de quatro em quatro anos, mas no processo de decisão do dia a dia da sua aldeia, vila ou cidade.

Queremos fazer esta gestão próxima dos cidadãos e entendemos que têm todo o direito de se pronunciar sobre estas questões, sobre anteprojetos que dizem respeito a todos, porque é da vida da cidade e do concelho que estamos a falar e todos nós temos a nossa quota-parte de responsabilidade".

 

100 dias, mesmo 120 ou 150 que sejam, é muito pouco para se fazer um balanço ou a avaliação de um mandato. Ainda paira no ar muito ruído de campanha e muito júbilo de vitória, legítimo embora!

 

Por isso, estamos com Erling Kagge quando, na sua obra «Silêncio na era do ruído», faz a apologia do silêncio. Silêncio para mais e melhor ouvir.

 

Mas o silêncio de que falamos não é aquele que, tudo e em toda a ocasião, cala e consente.  O silêncio de que falamos é aquele que agora se preocupa mais em ouvir. Em observar. Em refletir. Um silêncio que traz consigo a obrigação ética do dever de falar.

 

É, assim, e neste sentido, que agora o nosso tempo é o do silêncio. Mesmo que ainda embuído de muito ruído e de promessas pouco consistentes em termos de efetivo cumprimento.

 

É este silêncio que nós, agora, estamos tendo, cultivando, criando. Um silêncio, diríamos, até mais interior. De profunda observação e reflexão de todos os atores e protagonistas da ação política.

 

Olhando mais não tanto para aquilo que dizem ser, mas, fundamentalmente, para aquilo que fazem com o que nos acontece.

 

Valorizando o silêncio, assim entendido, saberemos melhor distinguir a verdadeira ação em contraposição ao ruído.

 

Ou seja, a circunstância da nossa postura de silêncio não consiste em virar as costas ao que nos rodeia; pelo contrário, é procurarmos ver mais claramente, descortinando a que rumo nos levam.

 

Nesta hora e neste tempo, estamos, pois, com Wittgentein quando afirma que "sobre aquilo de que [ainda ]não se pode falar devemos ficar em silêncio".

 

Contudo, tudo faremos, como cidadão e flaviense, para, mesmo em silêncio, estarmos atentos. E, numa atitude de cidadão ativo e crítico em relação à nossa polis, pugnarmos para, aquando da renovação do poder, que ciclicamente acontece, depois não possamos citar as palavras que, há mais de dois mil anos, Séneca, o estoico, proferiu por altura do seu vigéssimo aniversário: "A vida é muito curta e cheia de ansiedades para aqueles que se esquecem do passado, não fazem nada no presente e temem o futuro. Quando se aproximam do fim, estes pobres coitados apercebem-se demasiado tarde de que durante todo esse tempo só estiveram preocupados em não fazer nada".

 

Não basta apenas existir, ser poder: é necessário viver, construir. Todos. Com todos. Sem ruídos.

 

Neste pressuposto, haverá um tempo em que o nosso silêncio falará.

 

Mesmo que seja para, com lisura e urbanidade, proferirmos palavras que "doam".

 

Assim fomos até aqui. Assim sempre seremos!...

António de Souza e Silva

 

 

02
Fev18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

CASAL

- DA RESIGNAÇÃO AO PROTESTO -

 

 

Não pretendemos substituir o autor deste blogue na sua rubrica sobre o levantamento e reportagem das aldeias do Barroso, aqui, no caso presente, do Baixo Barroso (Boticas).

 

Mas o episódio/conversa a que assistimos no dia 20 de janeiro passado, no intervalo que fizemos quando saímos da «Mesinha de São Sebastião», em Vila Grande, Couto de Dornelas, concelho de Boticas, para nos dirigirmos e contactarmos com duas aldeias do Baixo Barroso, não nos deixou indiferente e, por isso, não resistimos de aqui a abordar e, a seu respeito, tecermos, ou fazermos, uma pequena reflexão sobre o que somos e o Portugal em que vivemos.

 

Já vem sendo hábito, todos os anos, nos dirigirmos, como que em romagem, no dia de São Sebastião, a Vila Grande, Couto de Dornelas.

 

Como noutro local dizíamos, hoje, por bem dizer, não sabemos bem porque o fazemos. Se antes, era a curiosidade de assistir a uma tradição comunitária barrosã secular; hoje, provavelmente, será a força do hábito, transformado agora em tradição.  O ser humano tem destas coisas que, aparentemente, não são bem compreensíveis… Mas não vale a pena tentar ir ao fundo das mesmas. Deve haver alguma razão, até bem fácil e à vista, que as explique. Simplesmente, numa sociedade cada vez mais turbulenta, complexa e, quiçá, invisível, nem sequer a vemos!

 

Estávamos a dizer que, este ano, uma vez mais, no dia 20 de janeiro, rumamos a Vila Grande/Couto de Dornelas.

 

Nestas nossas deambulações pelo Barroso, Fernando DC Ribeiro é o guia que não pode faltar e que tudo planeia… Pena que, por razões imponderáveis, o amigo Berto Ferreira não nos tenha podido acompanhar. Seria, sim, um trio perfeito! Em tempos, eramos quatro inseparáveis mosqueteiros. A loucura do tempo por que passamos e a sua voragem deixou um deles pelo caminho, na floresta densa, obscura e errática que é a vida!...

 

Caramba! E porque estamos para aqui com esta conversa? Deve ser já da idade, com o seu chorrilho de memórias a atraiçoar-nos.

 

Prossigamos e vamos ao ponto que hoje nos trouxe aqui.

 

Dizíamos que estávamos, no dia 20 de janeiro passado, em Vila Grande/Couto de Dornelas, no cumprimento e vivência de mais uma tradição. E, este ano, ao contrário de muitos outros anos, no dia 20 de janeiro passado, nem parecia que estávamos no inverno e no Barroso. Mosqueteiros irrequietos, tiradas as fotos da praxe, atestando o cabal cumprimento da tradição, pegámos na viatura e fomos visitar duas aldeias relativamente próximas de Vila Grande.

 

Como dizíamos no início, não pretendemos substituir o autor deste blogue no seu documentar e fazer reportagem de todas as aldeias barrosãs. Mas o Fernando que nos perdoe! Não resistimos a falar desta – CASAL.

 

Ao longe, quando nos aproximávamos, a sua silhueta aparenta-se a um pequeno presépio.

 

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Obviamente, sem a exuberância de Piódão, mas, por isso mesmo, na sua modéstia e singeleza, verdadeiramente autêntica, encurralada que está entre montes e protegida por um deles – o Soalheiro, donde brota a água límpida e fresca

 

Figura 02.jpg

 

que faz emprenhar a pequena veiga que lhe fica a seus pés.

 

Figura 03.jpg

 

Embalado o carro para ultrapassarmos a rampa que nos levaria à aldeia, fomos recebidos pelo ladrar de quatro cães,

 

Figura 04.jpg

 

que só se calaram com a aproximação do seu dono.

 

Fernando Ribeiro foi-nos informando que esta aldeia não tinha muita gente. Infelizmente, como muitas outras que, nas nossas constantes deslocações por terras do Alto Tâmega e Barroso, fomos encontrando.

 

O que mais nos impactou – neste lugar que tem tudo para ser um refúgio edílico – foi o enorme vazio que sentimos. O total abandono destas terras. A ruina de velhas casas

 

Figura 05.jpg

 

e de velhos espigueiros.

 

Figura 06.jpg

 

Só o ruído das águas a passarem no pequeno riacho nos “acordaram” do silêncio profundo em que este lugar está mergulhado.

 

CASAL não é certamente uma aldeia fantasma como outras que já vimos por este nosso Portugal Interior fora. Mas anda lá perto…

 

Tiradas umas quantas fotos, no início desta pequena aldeia, descemos uma pequena e íngreme calçada,

 

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que foi dar ao lugar que, talvez, inapropriadamente, lhe poderíamos apelar do Eirô do sítio, acompanhados pelo único anfitrião do lugar – o senhor Manuel Fortuna.

 

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Em circunstâncias como esta, nossa intenção é criar clima de empatia, junto destas gentes, suscetível de se abrirem e de nos contarem a história da aldeia e a dos seus habitantes. Nesta tarefa fomos coadjuvados por dois amigos, vindos da Área Metropolitana do Porto, e que, para o efeito, nos acompanharam.

 

Mas o senhor Manuel Fortuna, octogenário, pouco tinha para nos contar. É, juntamente com sua mulher, o único casal em CASAL. Tiveram seis filhos – três rapazes e três raparigas. Todos se foram à procura de melhor qualidade de vida, por esse mundo fora. Quando interrogado sobre o facto de, no verão, a aldeia ficar com mais gente, a sua resposta foi pronta:

- “Olhe que não! Apenas uma ou outra visita de um filho ou filha. Nada mais. Já não resta mais ninguém. Só nós! Que nos encostamos uma ao outro”.

 

Uma circunstância nos chamou a atenção. Neste fim do mundo havia cobertura de telemóvel. Melhor que em Chaves, em que algumas aldeias da Montanha nem um único “risco”! O nosso amigo António T. recebeu uma chamada da esposa a perguntar-lhe pelas chaves do seu carro. Botando aos mãos aos bolsos, apercebeu-se que as trazia consigo. E, assim, lá teve a senhora que se desenrascar de outro jeito.

 

E mais uma pergunta sacramental impunha que fosse feita:

- “E se, com esta idade, se têm algum problema de saúde, como é?”.

A resposta foi pronta:

- “Chamamos a ambulância! A minha Rosalina, aqui há uns tempos, teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral). A ambulância apenas demorou a cá chegar uma hora!”.

 

Eram horas de regresso a Vila Grande. Antes de partirmos este simples e encantador casal, com muito gosto, deixou-se posar para cada um de nós.

 

Repassando a vista pelas fotos tiradas, damo-nos conta que o olhar, quer de um,

 

Figura 09.jpg

 

quer de outro

 

Figura 10.jpg

 

Elemento do casal, positivamente, não se concentrava na nossa objetiva. Seus olhos estão mirando o infinito, algures, onde, possivelmente, os amores do amor das suas vidas estão – os seus filhos.

 

Mas não largam o terrunho. Aqui querem morrer!

 

No regresso a Vila Grande, por duas ou três vezes, Fernando DC Ribeiro repetia:

- “Apenas demorou uma hora a cá chegar!”.

 

Bem nos apercebemos da razão do recalcar esta frase.

 

E dizíamos para nós mesmo:

- “Que paciência; que resignação. Já não tinha que morrer. Uma hora!”.

 

E, numa espécie de transmissão de pensamento, Fernando dizia-nos:

- “Um caso desta natureza, na capital do reino, seria objeto de enorme protesto. De abertura de primeira página dos jornais das diferentes televisões. Aqui, neste fim do mundo, não se passa nada!”.

 

Na verdade, assim é.

 

Que Portugal tão díspar aquele em que vivemos!

 

Alguém acredita que as tragédias por que passámos no último verão e outono serão suficientes para despertar em nós uma consciência do ser português, entendendo o Portugal que deveríamos ser como verdadeiramente único, uno, solidário e idêntico?

 

Será que o «Portugal 2030» – Documento de reflexão lançado pelo governo a contar na elaboração da Estratégia de Portugal no horizonte 2020-2030, contando com os Fundos Comunitários, de uma Europa sem rumo, pouco solidária e com um futuro incerto – assenta em bases suficientemente credíveis para crermos num Portugal outro, tão diferente daquele que hoje presenciamos e vivemos?

 

Será que o objetivo proposto de “Reforçar a convergência dos territórios de baixa intensidade, potenciando a exploração sustentável dos recursos endógenos e diversificação da base económica” é suficiente para nos tirar do atoleiro a que chegámos e estamos?

 

Será que o Quadro que abaixo se apresenta

 

QUADRO - Sustentabilidade e coesão na baixa densi

(Fonte:- http://www.portugal2030.pt/wp-content/uploads/2017/10/FUTURO_PC_Portugal2030_rev20170918_vpm_VF.pdf)

 

contém em si as virtualidades para o virar de página por todos nós tão desejada?

 

Não são Documentos e Reflexões, por mais bonitas que pareçam e por mais bem feitinhas que estejam, que promoverão qualquer mudança!

 

Nem, tão pouco, acreditamos no novo pacote que está aí sobre a descentralização, assente num modelo base que, no passado, teve as suas virtualidades e deu os seus frutos, mas que, hoje, está completamente fora do contexto, face à nova sociedade em que vivemos!

 

A escala do desenvolvimento é fundamental. O Município é uma realidade muito pequena, demasiado redutora e efetivamente pouco profícua para os territórios de baixa intensidade como os nossos!!!

 

Mutatis mutandis, Chaves (cidade) e os municípios que compõem a CIM – Alto Tâmega (Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega), têm de ter uma postura outra perante o desenvolvimento dos seus territórios.

 

Para que seu papel seja profícuo e decisivo no desenvolvimento deste pedaço de território que nos é dado viver, é necessário que se assumam todos como um interpar, sabendo efetivamente cooperar (e não competir somente) com os demais na tarefa difícil, mas ingente, de nos desenvolvermos efetivamente.

 

Fala-se que Chaves é a capital do Alto Tâmega (e Barroso).

 

Querer ser capital não é ter o mando!

 

Ser capital é ter cabeças pensantes – da diáspora; do país, que estão fora do território onde nasceram, muitos deles levados pelo canto da sereia, esquecendo-se positivamente do berço; do seu interior, os que cá vivem – para, em conjunto, e sem hegemonias, dar uma volta a tudo isto. Mesmo contra um país altamente burocrático e centralizador.

 

Para o efeito, é preciso ter coragem, vontade, determinação.

 

Teremos?

 

Que interesse há em apregoarmos, aos quatro ventos, que somos durienses, transmontanos e barrosões, se nada queremos e fazemos no e para o berço que nos viu nascer?

 

De que nos vale ser Rei, se não temos coroa?!...

 

Olhamos muitas vezes para as nossas terras que, cada um de nós, posta nas redes sociais.

 

Basta de nostalgia!


Orgulho é que se precisa!

 

Trabalhemos para o mesmo fim. E protestemos, combatendo esta ancestral resignação de sermos os eternos coitadinhos!!!...

 

Obrigado tio Manuel Fortuna e tia Rosalina por nos tornardes mais consciente da realidade que pisamos e somos….

 

António de Souza e Silva

 

05
Jan18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

O MESMO DESTINO COM DIFERENTES CAMINHOS

 

O final de um ano e começo de outro vem normalmente acompanhado de uma reflexão crítica sobre o ano que acabou e um desejo sobre o que principia.

 

Não está nos intentos deste pequeno texto fazermos essa reflexão, particularmente no que concerne ao ano que passou, sobre a nossa cidade e o nosso concelho. Provavelmente exigir-se-ia mais tempo e, como não podia deixar de ser, muito mais espaço.

 

Vamo-nos, pois, cingir tão só a uma simples e breve reflexão sobre um aspeto muito específico de uma obra que lemos em 2017 – «O medo da insignificância – Como dar sentido às nossas vidas no século XXI», de Carlo Strenger -, obra que veio na sequência da leitura de Isaiah Berlin, em especial do seu texto - «Two Concept of Liberty», provavelmente o texto com mais influência no pensamento político do século XX.

 

Na reflexão que Strenger faz acerca deste texto de Berlin, a certa altura, pergunta: haverá uma solução única, definitiva, final para as nossas vidas e para a Humanidade?

 

Explicitemos melhor a pergunta, citando Berlin:

Uma crença, mais do que qualquer outra, é responsável pela chacina de indivíduos nos altares dos grandes ideais históricos – a justiça ou o progresso ou a felicidade das gerações futuras, ou a missão sagrada da emancipação da nação ou da classe, ou mesmo a própria liberdade. (…) [Na Humanidade existe] (…) a crença de que, algures no passado ou no futuro, numa relação divina ou na mente de um indivíduo, nas declarações da história ou da ciência ou no simples coração de um homem bom, existe uma solução final. Esta fé antiga assenta na convicção de que todos os valores positivos nos quais os homens acreditaram devem, afinal, ser compatíveis e, talvez mesmo implicarem-se uns com os outros. «A natureza liga a verdade, a felicidade e a virtude mediante uma corrente indissociável» […] Na verdade, o próprio desejo de uma garantia de que os nossos valores sejam eternos e seguros em algum céu objetivo talvez seja apenas um desejo das certezas da infância ou dos valores absolutos do nosso passado primitivo”.

 

Este parágrafo resume todas as visões do mundo responsáveis pela miséria criada pelo Homem.

 

Só que as nossas crenças têm uma validade relativa e, no defendê-las sem hesitar, está o que verdadeiramente distingue um homem civilizado de um bárbaro.

 

Berlin conclui que, “exigir mais do que isto, é, talvez, uma necessidade metafísica profunda e incurável; mas deixar que essa necessidade determine a nossa ação é um sintoma de uma igualmente profunda, mas perigosa, imaturidade moral e política”.

 

Strenger, nesta sequência, afirma, que “Os seres humanos têm sempre esperança de que exista uma orientação infalível para os ajudar no labirinto da vida, seja ela um texto sagrado, um vidente, as estrelas ou uma voz ancestral omnisciente. Estamos todos demasiado conscientes da fragilidade da vida. Sabemos que não existem garantias de que a nossa vida corra bem. Sabemos que tomar decisões erradas pode levar a consequências desastrosas e que, por vezes, mesmo as boas decisões não conseguem proteger-nos de calamidades como a doença, o divórcio, a falência, as difíceis relações com os nossos filhos, etc.”.

 

É difícil lidar com esta fragilidade. E todos queremos proteção contra ela.

 

Prossegue Strenger que “Tanto a experiência pessoal como empírica deveriam convencer-nos de que não existe tal coisa [ou seja, solução única, definitiva, final]. (…)  Enquanto crianças, não sabíamos nada sobre a imensidão do mundo nem sobre os seus perigos. Fomos deles protegidos por seres humanos cujos poderes pareciam ser ilimitados. Os nossos protetores providenciaram-nos tudo aquilo de que precisávamos e nós não tínhamos a mínima ideias de como é que o faziam (…)”

 

Freud afirma que esta experiência, embora não conscientemente lembrada, deixou uma marca indelével no nosso inconsciente, tendo nós ficado com uma ânsia para toda a vida de proteção ilimitada, prossegue Strenger.

 

Nesta sequência, uma pergunta ingente se impõe: como é possível provar, sem qualquer margem de dúvida, que a visão que cada um tem do mundo atual é a única com possibilidades de racionalidade?

 

Strenger responde que “(…)  Nenhum conhecimento humano atingirá alguma vez níveis de certeza que satisfaçam o nosso anseio de proteção total. A única certeza que temos é a da nossa morte. E, quanto a isto, como mostra a psicologia existencial, trata-se da única certeza com que não conseguimos lidar – e as consequências podem ser verdadeiramente letais”.

 

No estado atual, da sociedade em que imperam as Tecnologias da Informação e da Comunicação, da mundialização ou globalização da vida e das sociedades, em que criámos o Homo globalis, com acesso vasto, diríamos, ilimitado, à informação, será a o Homem capaz de ganhar a corrida contra a ignorância, a intolerância e as visões de mundo regidas pelas limitações do nascimento, dos costumes e das mentes mesquinhas originadas pela ausência de uma verdadeira educação assente em princípios ou soluções radicais, finais? Seremos capazes de contrabalançar a natureza que tende para as divisões e que herdámos dos nossos antepassados primatas?    

 

Não é no digladiar contínuo, quer individual, quer coletivamente, que o Homem atual se realiza, se deve realizar.

 

Se bem que a nossa estrutura básica, entre outros fatores, é determinada pela cultura em que nascemos, contudo, no mundo em que nos é dado viver, temos acesso a outros paradigmas culturais, ao ponto de escolhermos a cultura que irá ser central nas nossas vidas. O que não significa que a nossa cultura de origem desapareça ou deixe de ter um papel.

 

É entre a tensão da facticidade do nosso nascimento e o desejo que temos de transformar as nossas vidas numa criação nossa, e de integrar paradigmas que encontrámos e com os quais sentimos alguma afinidade, que podemos viver a nossa vida plenamente, resume Strenger.

 

Por isso não faz sentido as autênticas batalhas campais a que assistimos em campanhas eleitorais.  Nem a forma como hoje as diferentes formações e movimentos políticos encaram os problemas da polis.

 

Vimos com enorme apreensão a forma como, individual e coletivamente, nos posicionámos perante as catástrofes pelas quais passámos neste último verão!...

 

Fomos incapazes, individual e coletivamente, de entender que a responsabilidade é de todos. Por igual. Quem nos governa, são nossos representantes. Que sobre eles devemos exercer um constante escrutínio e não esperar a constante salvação das nossas almas. Somos todos farinha do mesmo saco. A necessitar de mais consciência individual e responsabilidade coletiva.

 

Para a prossecução do desiderato do nosso verdadeiro desenvolvimento e dos territórios em que vivemos, só uma verdadeira educação para a cidadania – que tanto nos falta – é que nos poderá “salvar”. Sabendo que não há soluções únicas, finais.

 

Cada um de nós, individual e coletivamente, pelas mais diferentes e variadas formas, deve, em constante diálogo e acerto de posições, encontrar o caminho do seu próprio desenvolvimento. Pois ninguém desenvolve ninguém, a não ser nós próprios!...

 

É urgente criarmos uma verdadeira cultura de solidariedade. Não “brincando” à caridadezinha nos momentos de aflição e aperto. Olhando para o nosso meio ambiente, para o nosso território, o nosso berço, que é a terra onde nascemos e o planeta onde vivemos, e sermos capazes de nos dar conta que o estamos a martirizar, a destruir, quando o tratamos e gerimos de uma forma inconsciente e irresponsável, como estamos fazendo.

 

Daremos sentido às nossas vidas, deixando de imitar os 0,5% da humanidade que vivem como semi-deuses, promovidos pela sociedade capitalista que criámos, e pelos media do Homo globalis, enquanto 99, 5% da população mundial – sem contar com metade da população da Terra que vive na mais abjeta pobreza – vive o dia-a-dia das suas vidas deixando-se tratar e usar como pura mercadoria, e não como verdadeiros seres humanos que são. Daremos sentido às nossas vidas encontrando diferentes caminhos como destino das nossas vidas, que não aquele que os “imperialismos” por que passámos nos pretendem impingir.

 

A redenção do Homem, ou seja, a sua realização, não está na vivência da ilusão que todos podem alcançar o céu, no qual atualmente 0,5% da população mundial vive (ou presume que vive), e com que os media constantemente nos martelam, mas numa forma outra de encararmos o Ser Humano e o Planeta por ele habitado.

 

Estamos, uma vez mais, com Carlo Strenger quando afirma que “somos os espetadores de uma raça que está entre a inércia pura da destruição (…) e o surgimento de uma compreensão coletiva do facto de termos de mudar de rumo para sobreviver”.

 

Está nas nossas mãos – e não numa divina providência qualquer – o nosso destino.

 

Sem uma solução final qualquer.

 

Por diferentes caminhos que, individual e coletivamente, humanamente, e no respeito pela Natureza, formos capazes de construir.

 

Em outubro passado, Chaves deu o seu primeiro e pequenino passo para o exercício dessa mudança.

 

Sejamos capazes de contruir o nosso caminho, rumo a uma maior solidariedade social, um desenvolvimento harmonioso e um território interior mais coeso e com mais oportunidades.

 

Com todos.

 

Sem providencialismos e políticos heróis. Que não os há!

 

Bom Ano para 2018.

 

António de Souza e Silva

 

 

01
Dez17

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

NOVAS POSTURAS E MENTALIDADES AUTÁRQUICAS PRECISAM-SE!

 

No nosso último Discurso, nesta rubrica, falando a propósito das ideias e princípios básicos que devem presidir aos processos políticos, a certa altura, dizíamos que uma das ideias prendia-se com o facto de que a “era” dos políticos e líderes providenciais tinha acabado e que a política e o desenvolvimento das sociedades, e seus respetivos territórios, não se fazia unicamente com personalidades individuais, por muito sábias ou carismáticas que fossem. Assenta nas instituições que se têm e na sua renovação.

 

Num outro Discurso, publicado o ano passado, também nesta rubrica, sob o título «Desenvolvimento do Alto Tâmega – As nossas Interrogações», a propósito dos pilares onde assenta o desenvolvimento local (territorial), apresentávamos o esquema que aqui, mais uma vez, recolocamos:

 

desenvolvimento.jpg

 

Fonte: Bramanti; (Retirado de Cerqueira)

Os processos de desenvolvimento territorial - Da base ao ponto de chegada

 

Não vamos falar dos quatro pilares em que assenta o desenvolvimento territorial; nem tão pouco nos dois eixos em que os mesmos se devem articular, aliás de importância fundamental para qualquer processo de desenvolvimento e, consequentemente, para a consecução e sucesso dos territórios e regiões ganhadoras, no plano do desenvolvimento.

 

Concentremo-nos hoje essencialmente naquilo que o autor do esquema chama de Densidade Institucional, a base essencial em que os quatro pilares assentam, falando particularmente na sua articulação com o conceito de governância (ou governança).

 

O conceito de governança surgiu a partir das reflexões conduzidas principalmente pelo Banco Mundial. “tendo em vista aprofundar o conhecimento das condições que garantem um Estado eficiente”.  A capacidade governativa não seria avaliada apenas pelos resultados das políticas, mas também pela forma como o poder é exercido.

 

Com base neste conceito de governança, duas questões merecem aqui destaque. A primeira, é a ideia de que uma boa governança é um requisito fundamental para um desenvolvimento sustentado, que incorpora não só crescimento económico como também equidade social e direitos humanos; a segunda, tem a ver com a questão dos procedimentos e práticas de «governo» na prossecução das suas metas, adquirindo aqui relevância aspetos como o formato institucional do processo decisório, a articulação público-privado na formulação de políticas ou, ainda, a abertura maior ou menor para a participação de todos os setores da sociedade.

 

O município de Chaves está integrado nas NUTS III – Alto Tâmega – um acrónimo de “Nomenclatura das Unidades Territoriais para fins estatísticos, sistema hierárquico de divisão do território em regiões”.

 

Com base nesta divisão estatística, e neste sistema hierárquico de divisão do território, para efeitos de desenvolvimento do Alto Tâmega (e Barroso), apesar de até já haver uma Associação de Municípios do Alto Tâmega (AMAT), canalizando melhor os diferentes fundos, particularmente os Comunitários, como alias por todo o país aconteceu, até se criou uma outra estrutura – no caso vertente para o Alto Tâmega – a Comunidade Intermunicipal (CIM).

 

A CIM do Alto Tâmega até mandou elaborar uma «Estratégia Integrada de Desenvolvimento Territorial – Alto Tâmega».

 

Consultámos o website da CIM – Alto Tâmega.

 

Dos seus órgãos, constam:

  • Assembleia Intermunicipal. De 2013 a 2017, apenas existe uma ata – a da Eleição da Mesa;
  • Conselho Intermunicipal, a mesma coisa;
  • Secretariado Executivo, liderado por um ex-Presidente de Câmara, começou a sua atividade em 2014. Desde 2014 até à presente data, este Secretariado Executivo efetuou 93 reuniões. Numa visão muito sumária destas 93 reuniões, outra coisa não se fala senão em “Pontos da situação”; “Criação de Website”; “Logotipo”; “Preparação de Informações a prestar”; “Assuntos de Interesse”; “Planos de Atividade e Orçamento”…

Conselho Estratégico para o Desenvolvimento Intermunicipal do Alto Tâmega. Tratando-se de um órgão consultivo, eis o conjunto das entidades que o compõem:

  • ACISAT
  • ADRAT
  • AECORGO
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE RIBEIRA DE PENA
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE VALPAÇOS
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE VILA POUCA DE AGUIAR
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DR. ANTÓNIO GRANJO
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DR. BENTO DA CRUZ
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DR. JÚLIO MARTINS
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS FERNÃO DE MAGALHÃES
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS GOMES MONTEIRO
  • AGRUPAMENTOS DE CENTROS DE SAÚDE DO ALTO TÂMEGA E BARROSO
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE BOTICAS
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE CHAVES
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE MONTALEGRE
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE RIBEIRA DE PENA
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE VALPAÇOS
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE VILA POUCA DE AGUIAR
  • AUTORIDADE NACIONAL DE PROTEÇÃO CIVIL- CDOS – VILA REAL
  • CÂMARA MUNICIPAL DE BOTICAS
  • CÂMARA MUNICIPAL DE CHAVES
  • CAMARA MUNICIPAL DE MONTALEGRE
  • CÂMARA MUNICIPAL DE RIBEIRA DE PENA
  • CÂMARA MUNICIPAL DE VALPAÇOS
  • CÂMARA MUNICIPAL DE VILA POUCA DE AGUIAR
  • CAPOLIB
  • CENTRO DE EMPREGO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL DO ALTO TÂMEGA
  • CENTRO DISTRITAL DE SOLIDARIEDADE E SEGURANÇA SOCIAL DE VILA REAL
  • COMISSÃO DE COORDENAÇÃO E DESENVOLVIMENTO REGIONAL DO NORTE
  • COOPBARROSO
  • COOPERATIVA AGRICOLA DE VILA POUCA DE AGUIAR
  • DESTACAMENTO TERRITORIAL DE CHAVES DA GNR
  • DIREÇÃO REGIONAL DE AGRICULTURA E PESCAS DO NORTE
  • DIREÇÃO REGIONAL DE CULTURA DO NORTE
  • ESCOLA PROFISSIONAL DE CHAVES
  • ESCOLA SUPERIOR DE ENFERMAGEM DR. JOSÉ TIMÓTEO MONTALVÃO
  • GRUPO UNICER
  • INSTITUTO POLITÉCNICO DE BRAGANÇA
  • IPSS -SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE VILA POUCA DE AGUIAR
  • MAIS BOTICAS- ASSOCIAÇÃO EMPRESARIAL BOTIQUENSE
  • PSP DIVISÃO POLICIAL DE CHAVES
  • REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 19
  • REPRESENTANTE DO SECTOR ECONÓMICO DO MUNICÍPIO DE CHAVES
  • REPRESENTANTE DO SECTOR ECONÓMICO DO MUNICÍPIO DE MONTALEGRE
  • REPRESENTANTE DO SECTOR ECONÓMICO DO MUNICÍPIO DE RIBEIRA DE PENA
  • REPRESENTANTE DO SECTOR ECONÓMICO DO MUNICÍPIO DE VALPAÇOS
  • REPRESENTANTE DO SECTOR SOCIAL DO MUNICÍPIO DE CHAVES
  • REPRESENTANTE DO SECTOR SOCIAL DO MUNICÍPIO DE MONTALEGRE
  • REPRESENTANTE DO SECTOR SOCIAL DO MUNICÍPIO DE RIBEIRA DE PENA
  • REPRESENTANTE DO SECTOR SOCIAL DO MUNICÍPIO DE VALPAÇOS
  • SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE BOTICAS
  • SOLVERDE
  • TURISMO DO PORTO E NORTE DE PORTUGAL
  • UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO.

Este Conselho nunca reuniu, que se saiba.

 

Se a «Estratégia Integrada de Desenvolvimento Territorial – Alto Tâmega» era um Documento fundamental sobre o qual os diferentes órgãos da CIM - AT se deveriam preocupar e debruçar, consultando o seu website, e analisando as atas dos diferentes órgãos, como demos conta, só nos apetece exclamar: Uma Vergonha!

 

O que foi feito das diferentes propostas e ações do dito Documento «Estratégia Integrada»?

 

Que estratégia de comunicação a CIM – AT tem para com todas as instituições e munícipes do Alto Tâmega (e Barroso)?

 

Não brinquem connosco!!!

 

Onde é que pára um dos “slogans” da ACISAT, consubstanciado numa das suas ações/palestras - «Pouca gente, muita terra, grandes projetos»?

 

Como se pode atrair investimentos se o maior recurso/investimento, que são as gentes do Alto Tâmega e Barroso, estão arredadas não apenas do processo decisório como fundamentalmente daquilo que se passa (e do que se pretende) para e no Alto Tâmega e Barroso?

 

Num outro Discurso nosso, sob a designação «Onde pára a Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega (e Barroso)», observávamos que o Documento «Estratégia Integrada» apontava para a abordagem de uma estratégia integrada de desenvolvimento que privilegiava um processo abrangente e participado, envolvendo ativamente os atores do território, procurando um impacto positivo na região.

 

Tudo não passou de palavras. Que ficaram mortas nas folhas do Documento «Estratégia Integrada».

 

Por estas paragens, a “estratégia” parece-nos ser outra.

 

Para que aquelas palavras fossem arrancadas aquele Documento e tivessem vida, era necessária uma nova postura, de profundo e profícuo diálogo entre as diferentes instituições que atuam no território do Alto Tâmega (e Barroso). Batendo muita “pedra”, concitando o diálogo, chegando a acordos.

 

Que é o mesmo que dizer que a estratégia de desenvolvimento para o Alto Tâmega e Barroso não só depende da capacidade dos atores, mas fundamentalmente das instituições das quais eles são simples representantes, em ordem a uma efetiva participação nas tarefas do desenvolvimento territorial. A isto se chama Densidade Institucional.

 

O que no Alto Tâmega e Barroso presenciamos no passado, fundamentalmente dos seus atores principais na estratégia de desenvolvimento integrado, tendo em conta cada município, não é outra coisa senão comportamentos autocentrados, como se hoje em dia fosse possível viver numa verdadeira autarcia, que, infelizmente, o nosso sistema político-eleitoral propicia!

 

Senhores repetentes Alberto Machado, Amílcar Almeida, Fernando Queiroga, Orlando Alves, e recém-chegados, Nuno Vaz e João Noronha, respetivamente Presidentes de Câmara dos Municípios de Vila Pouca de Aguiar, Valpaços, Boticas, Montalegre, Chaves e Ribeira de Pena, - principais responsáveis pelo motor do desenvolvimento local, que são as vossas instituições -, se continuarmos com esta postura institucional, o Alto Tâmega e Barroso, e concretamente o nosso Município de Chaves, não vai a lado nenhum!

 

Não é só de novas caras que o Alto Tâmega e Barroso precisa é, essencialmente, de outras e novas mentalidades.

 

Se não as renovarmos não chegaremos a lado nenhum!...

António de Souza e Silva

 

 

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