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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Nov19

Pedra de Toque

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AS ILHAS

 

Num curto período de férias, já no distante ano de 1987, visitamos a ilha de Zarco, a florida Madeira e, fomos à descoberta de S. Miguel, a ilha verde do arquipélago açoreano.

 

E em boa hora o fizemos.

 

Se no Funchal encontramos uma cidade bonita e em franco desenvolvimento, pejada de turistas com quem percorremos o habitual roteiro, em S. Miguel deslumbramo-nos com o remanso dos campos, verdes – muito verdes e com o impressionante espetáculo da paisagem.

 

Aí miramos cenários abismais, profundos, onde a paz e a serenidade enchiam o peito no ar que se respirava.

 

As hortênsias salpicavam os campos e perfumavam as narinas enquanto o olhar repousava no verde azul das grandes lagoas e na quietude das vacas face ao banquete da erva a cobrir as encostas.

 

Gente simples, solícita, hospitaleira, recebeu-nos com gentileza na grande ilha dos Açores, ainda longe do bulício turístico.

 

Recompensam, reconfortam umas férias, ainda que breve, nas nossas ilhas.

 

É bom, é compensador, reequilibra, conviver com o povo anónimo e poisar o sonho – “uma constante da vida” – no maravilhoso espetáculo da natureza.

 

Esta viagem inesquecível fi-la na companhia da família.

 

Mas quero voltar aos Açores e conhecer outras ilhas onde habitam vários amigos.

 

 

António Roque

 

 

 

23
Nov19

Pedra de Toque

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A Mariazinha dos Plissados

 

Maria de Jesus Barradas, creio.

 

Mulher pequena, ladina, esperta, amiga.

 

Uma vida cheia, que terminou tarde, em idade indefinida.

 

A sua incultura escolar não lhe criou peias para ser cidadã do mundo.

 

Correu continentes, cruzou céus, percorreu estradas, viajou por mares já dantes navegados-

 

Nunca temeu outras línguas, outros costumes.

 

Descia os Champs-Elysées em Paris, ou a 5ª Avenida em New York, com o mesmo fair-play, com a mesma simplicidade que calcorreava esta cidade que amava.

 

E entrava numa casa de Cascais ou visitava gente fina no Porto, com a educação que lidava com os estudantes que gostavam da sua companhia.

 

Era bom ouvi-la falar das suas paixões antigas que preservou ate ao fim, da sua origem nunca assumida pelo progenitor, que narrava com enigmas que envolviam os amores impossíveis doutros tempos.

 

Falava do seu filho morto. Que nunca deixou de embalar ao colo. Pessoa já dizia: - “Todos nós embalamos ao colo um filho morto”.

 

E de sua mãe que vendia doces e pirolitos e sabia coisas, lembrava com veneração.

 

O livro de São Cipriano, o Tarot, as cartas, os segredos dos chás e das plantas, as crenças viviam com ela e assumia-as mais com religiosidade do que como negócio, com o qual também ganhava.

 

Predisse o futuro com acerto. Nalguns casos, eu testemunhei. E apesar de para mim a casualidade, a coincidência, justificarem a previsão, quando convicta a ouvia fazer futurologia, escutava-a com todo o respeito que tenho pelas coisas ocultas.

 

Não tinha família. Conheciam-se-lhe parentes afastados quase todos residentes fora de Chaves. Mas tinha muitos amigos e era generosa para os carecidos.

 

Quando sentiu o fim, e previu-o com grande lucidez, procurou os melhores. Foi aconselhada por alguns mas outros que quis ouvir , consta que não os chamaram.

 

Do que veio depois, e da sua morte, falou-se com o mistério que a percorreu durante a vida.

 

Limpa, luxuosamente vestida, ornamentada com bom ouro, maquilhada a seu gosto, de nariz arrebitado, foi personagem da cidade onde deixou muitos amigos que a estimavam.

 

Em tempos, quando era moda, plissava saias. Daí a alcunha que não a importunava minimamente.       

 

Maria de Jesus Barradas, ficará na história das figuras carismáticas de Chaves deste século como a Mariazinha dos Plissados.

 

Orgulho-me de ter sido amigo dela.

 

 

António Roque

 

 

 

09
Nov19

Pedra de Toque

o piropo

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O Piropo

 

A mulher portuguesa continua a reagir muito mal ao piropo, ou, limita-se a não reagir.

 

Mesmo quando ele tem o sabor de um galanteio, ela cora ou responde com um incorreto disparate.

 

Na vizinha Espanha era, e penso que continua a ser, totalmente diferente.

 

Nos tempos em que embarcáva-mos em velhos coches, sem lotação, ali de Feces de Abaixo até à simpática vila de Verin, para as animadas verbenas veranegas, ou para os bailaricos das festas do Lázaro, à procura de uma “Nóvia”, que todos íamos tendo, as jovens galegas respondiam sempre com um sorriso, com um alegre “Gracias”, quando as brindávamos de “guapas” ou de “lindas”.

 

Por vezes era através do piropo que iniciávamos o conhecimento, que alicerçávamos a amizade duradoura, que principiávamos o namorico adolescente.

 

Mudaram os tempos. As fronteiras vão-se esbatendo. Vive-se com mais liberdade. Os costumes alteraram-se, mas…   

 

O piropo infelizmente continua a ser visto pela mulher portuguesa como um atrevimento, um insulto.

 

E é pena que assim aconteça.

 

Quando ela agradecer, descomplexada, com um simpático obrigado ao elogio à sua beleza, à sua elegância, não só terá uma atitude mais bonita como, como contribuirá para evitar por parte dos homens “bocas”

 

Tantas vezes incorretas e soezes.

 

É que nada melhor que um sorriso, um agradecimento, para desarmar o mal-intencionado, para envergonhar o mal-educado.

                                                                                                      

 António Roque 

 

 

  ( Esta crónica foi escrita no ano de 1992 e publicada no jornal “ Noticias de Chaves” )    

 

02
Nov19

Pedra de Toque

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A LUA

 

                        O teu perfume inebriava

                        Na tua elegância tão frágil,

                        Que apetecia tanto.

 

                        Todo o teu corpo

                        Tinha oriente na pele.

 

                        A tua boca

                        Falava sorrisos

                        Para mim.

 

                        E os teus olhos

                        Projetavam claridade

                        Nas minhas sombras.

 

                        Quero descobrir os teus lugares recônditos.

 

                        Entretanto,

                        Dá-me a tua lua para eu adormecer.

 

António Roque

 

26
Out19

Pedra de Toque

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O BAR AURORA

 

            Bem no centro da cidade, em pleno Largo das Freiras, localiza-se o Bar Aurora.

            Depois de alguns anos decadente e sem clientela, há pouco mais de um ano, com nova gerência, readquiriu algum movimento e retomou em parte a sua atividade.

            Não é, no entanto, deste Aurora que vos vou falar.

            O “meu Bar Aurora” que foi pujante nas décadas de 50 até à década de 90, foi uma referência, um ícone na cidade, um bar e pastelaria que se tornou conhecido em toda a região e quiçá em grande parte do país.

            Dirigido por um expert na matéria, o Sr. Avelino Castro, um espanhol que por cá se radicou durante muitos anos, pai de três filhas Flavienses amigas minhas, criou no Aurora uma pastelaria de excelência, tornando famosos bolos como as auroras, os éclaires, as línguas de bispo e demais doçaria que o pasteleiro Sr. Henrique, também espanhol, fabricava na cave.

 

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            A frequência do Bar Aurora era sobretudo da classe média e média alta.

            Os senhores maiores tomavam o seu café e o seu digestivo, depois de almoço na mesa junto ao balcão da pastelaria, aí larachavam e dissertavam sobre quase todos, sobre os benefícios do Estado Novo.

            À hora do lanche apareciam as senhoras que exibiam os seus trajes e com o chá degustavam os famosos pastéis.

            Os estudantes do Liceu defronte, sempre que as aulas o permitiam eram visitas contantes.

            Ao balcão ou nas mesas ao fundo, namoriscavam, catrapiscavam entre si e tantas vezes ali nasceram amores que tiveram futuro.

            Os bilhetinhos que se trocavam sorrateiramente na sala de aulas, aqui transformavam-se em conversas românticas mas fogazes.

            Os oficiais que vinham para o nosso quartel fazer a recruta ou formar batalhão, também pousavam no Aurora e alguns encetaram namoros que viraram casamentos.

            Os estudantes mais espigadotes que por aqui andavam ou vinham de férias das universidades, no café conversavam, trocavam cultura, conspiravam sempre apoiados por professores mais sábios (José Manuel Mendes, José Henrique Dias…) ou pela opinião experiente do Dom Avelino que lhes ensinou a apreciarem a boa música tanto ligeira como clássica e a saberem algumas notícias da Guerra Civil Espanhola.

 

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            O Bar Aurora era um lugar de referência na cidade (até no país), um ponto de encontro que ficou retido na memória de todos os que, como eu, o frequentaram.

 

            Sempre que por lá passo ainda “vejo” uns olhos negros numa tez morena salpicada de sardas.

            E ainda um sorriso mágico que retenho há mais de cinquenta anos e julgo que reterei para sempre.

            Mas não entro, porque a saudade é tanta que dói em demasia.

            O amor tem destas coisas.

            A vida é feita de memórias.

 

António Roque

 

28
Set19

Pedra de Toque

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UM SORRISO.

 

                        Chamava-se Conceição, a minha mãe.

                        Era no entanto conhecida e tratada por quase toda a gente, simplesmente por São.

                        Pessoa de muitas amizades, espalhava simpatia e simplicidade, qualidades que os filhos muito lhe apreciavam.

                        Era uma mulher bonita.

                        Ainda quando solteira ganhou o terceiro prémio num concurso onde se elegeu a mulher mais linda da nossa cidade.

                        Até ao fim da vida, foi uma mulher de luta, de trabalho e de uma dedicação sem limite aos seus três filhos.

 

                        Lembrei-me há dias dela num sorriso fugaz, mas intenso e luminoso, que me ofereceram numa sessão pública onde estive presente, e que se colou aos meus olhos.

                        De tal sorte que ainda o trago comigo.

 

                        Que saudades mãe.

                        Obrigado São.

 

António Roque

14
Set19

Pedra de Toque

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As criaturas da noite

 

 

Com neblina, geada ou frio de amolgar ossos, com breu, com céu limpo ou estrelado, luarenta ou cálida, a noite é poiso de homens e mulheres que por fascínio ou ofício protelam o sono, até ao branquear da aurora.

 

São as criaturas da noite.

 

Nela movimentam-se como se o dia raiasse em cada um dos seus passos.

 

Nas fábricas complementando as máquinas, nos jornais compondo e redigindo a notícia, nos hospitais vigiando a doença, nos quartéis expectantes face ao rastilho dos fogos.

 

Nas ruas, hoje motorizadamente, outrora palmilhando-as, os agentes da autoridade velam pelo sono tranquilo da maioria, defendem os legítimos direitos sobre os bens, sobre a propriedade de cada um.

 

Dantes, o polícia agasalhado no seu pesado sobretudo escuro, nas gélidas noites deste Inverno longo, era figura carismática que ornamentava a noite da cidade.

 

Taciturno, solitário, temido e respeitado no seu enfrentamento não só com intempérie, mas também com a marginalidade, era vê-lo sempre presente nas ruas e vielas.

 

As tabernas, depois os cafés, hoje mais os pubs ou as discotecas, são sítios da noite, lugares onde se sonha, onde se esquece, onde se bebe, onde o amor se espevita.

 

A noite é pretexto de conversas férteis, de diálogos lúcidos onde a imaginação se enamora da poesia na celebração dos grandes momentos da vida.

 

As descobertas, os mistérios, a magia, a aventura, o feitiço, o ódio, a amizade, o ciúme, o amor são companheiros perdiletos da noite.

 

É de noite que normalmente se nasce.

 

É de noite que habitualmente se morre.

 

A saudade bate quási sempre de noite à porta do nosso peito.

 

Se a farra, o festim, o baile são atributos da noite, a solidão fere muito mais fundo quando a noite cai.

 

Por ela trespassa o vício – a euforia do álcool, o fumo que sobe à memória e as narinas expulsam, a droga que semeia flores que num ápice murcham em mentes atormentadas.

 

Para os doentes o pôr-do-sol é prenúncio de escuridão que espreita, do sofrimento, do tempo com horas em demasia.

 

Para os amantes, a noite é sempre uma vertigem imparável e doce até ao centro da terra.

 

Quando trabalho noite dentro, escutando o silêncio envolvente, passa-me pelos olhos o mar liso e infindo, reflectindo brilhante o luar, nas margens do equador quando fiz a longa viagem para o outro continente onde vi chitas exóticas envolvendo corpos de seda e sóis irreais em louvor à natureza.

 

Na cabeça arrumo no sótão mais distante os problemas dos outros e, refrescado pela brisa, caminho na noite em direcção à cama.

 

Antes de adormecer pego no genial Pessoa, mais precisamente no seu amigo Álvaro Campos, breviário de há muito na minha mesa-de-cabeceira.

 

E em tom de prece, pela milésima vez, releio algumas estrofes da sua ODE À NOITE.

 

Adormeço então em paz, sereno, com o mesmo sorriso interior que aflorava quando aconchegado colocava a cabeça no colo de minha mãe.

 

 

António Roque

 

07
Set19

Pedra de Toque

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JÁ CHEIRA A SETEMBRO.

 

                        Escrever para quem ama a escrita, é como respirar.

                        A cabeça pesada não facilita a conjugação das palavras.

                        As noites mal dormidas e os consequentes pesadelos, dificultam o descanso.

                  Pessoas há que incomodam e nos levam para paisagens inóspitas que nada nos dizem, porque são distintas, e contribuem para nos empedernir e para nos cercearem os sonhos que gostosamente vamos alimentando.

                        Mas depois, depois… por vezes num ápice, como que por magia, acontece o inesperado, numa simples troca de olhares onde descubro a tua sensibilidade, onde está a tua inteligência, ou num poema que se lê e relê e nos retém numa página de um livro que nos empolga.

                        O telefone toca e surge uma voz de amigo do peito, de amigo de sempre, de “irmão” que se preocupa connosco e quer saber de nós.

                        Do Minho chega o sotaque de um passado recente e gostoso que nunca esquece.

                       

                        A vida então sorri-me e volta a valer a pena.

                        Já cheira a setembro.

 

                        “O mês que se desfolha entre os dedos do vento”, como escreveu o poeta.

 

António Roque

 

18
Ago19

Pedra de Toque - O Olhar

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O OLHAR

 

 

Se não eras tu, era alguém com os teus olhos.

 

Verdes, fundos, mas mais baços, mais tristes...

 

Outrora eram brilhantes e sorriam a cada esgar.

 

Ruborizavam quando no jardim atapetado de Outono te murmurava que contigo encantaria todas as noites e que sem ti o futuro seria breu.

 

Passaram cinquenta longos anos.

 

No bulício da rua na grande cidade, revi o teu olhar sedutor, envolvo em pequenas rugas que vincavam tua pele sedosa.

 

O teu semblante e o teu corpo não exalavam a frescura que ainda consegui respirar na momentânea  viagem pela memória que me levou ao passado.

 

O tempo é inexorável. Cruel, muitas vezes.

 

Porque impiedosamente degrada, enruga, definha.

 

Para nos salvarmos é importante resguardar a memória, perscrutar a beleza que permanece por dentro.

 

Nem que seja através dos silêncios.

 

Nem que seja através do olhar.

 

 

António Roque

 

01
Jun19

Pedra de Toque

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Cristina

 

O Brunheiro chorou por ti,
Quando tu morreste.

 

As lágrimas desceram tristes,
As encostas verdejantes
E desaguaram nas levadas
Que as conduziram ate aos nossos olhos.

 

As flores da tua casa
Perderam viçosidade
Com tristeza
E com a saudade.

 

Eras miúda,
eras menina,
foi assim que te conheci,
querida Cristina.

 

Sempre lúcida,
Sempre doce,
Sempre ao lado do progresso,
Com “ Abril dentro do peito”.

 

A literatura fascinava-te.
Os teus alunos e as palavras dos poetas empenhados,
Permaneceram até ao fim.

 

Foste a primeira “Ponta Solta” que definitivamente me deixou

 

Permite-nos que sejamos teus herdeiros
Da muita poesia que te corria no sangue.
Para nós amiga, não morreste!
Permaneces …
Eras miúda
Eras menina,
Quando te conheci,
Querida Cristina !

 

António Roque

 

 

 

 

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