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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Out18

Discursos sobre a cidade

SOUZA

 

 

O FACEBOOK COMO UM INSTRUMENTO NO EXERCÍCIO DA CIDADANIA

 

 

Não confundamos.

 

As «amizades» do Facebook são de outra ordem.

 

A este propósito, veio-nos à lembrança uma das passagens de uma entrevista do recém-falecido Bauman, quando se referia ao Facebook, e aos «amigos» desta «rede».

 

Dizia ele tratar-se de uma pessoa solitária, numa multidão de solitários.

 

Será?

 

Só?...

 

Será como Bauman diz, a atratividade deste tipo de rede é que não cria compromissos, não estabelece verdadeiros laços humanos, ao não se efetuar uma conexão de verdade como aquela que põe face a face, corpo a corpo e olhos nos olhos as pessoas?

 

Será que este tipo de relação, no Facebook, não promove ou não cria, compromisso nenhum entre amigos?

 

Será que não estamos perante uma pura espetacularização da vida privada, em plena praça pública?

 

Que a essência desta relação está só, e apenas, no «conectar» e «desconectar» do «amigo», conforme a este lhe der na “real gana”?

 

Não provocando, assim, situações difíceis que o «desconectar» real de uma amizade concita - na rotura da mesma -, e que, até, pode ser traumática?

 

É certo que o Facebook está na moda. E que reflete um dos “sinais dos tempos” propiciados pela novas tecnologias da comunicação e da informação, no contexto de uma sociedade globalizada, como aquela em que vivemos.

 

Uma sociedade em que se acentua, de forma cada vez mais clara, os sinais identificadores da perda das identidades e das raízes dos cidadãos. Uma sociedade em que assistimos ao paradoxo de sermos cidadãos do mundo, graças às fantásticas inovações tecnológicas e, ao mesmo tempo, sentimo-nos isolados diante de uma realidade que, muitíssimas vezes, nos escapa do controlo.

 

O homem globalizado, do nosso tempo, é um homem fragmentado e eticamente confuso, num processo acelerado de homogeneização e uniformização.

 

Sabendo embora tudo isto, perguntamo-nos:

  • Será que as «amizades», os diálogos e trocas de opinião que «a rede» estabelece e propicia podem-se entender como uma nova forma de “espaço público”, compreendido como ambiente de convívio e de formação da cidadania, sobretudo num momento histórico marcado pelo isolamento cada vez maior dos indivíduos, engaiolados em espaços privados, em nítida demonstração de retrocesso e de vitória do individualismo, em detrimento das conquistas coletivas?

 

A pergunta pode ter duas respostas.

 

Pela nossa parte preferimos aquela que vê e se serve da «rede» como uma possibilidade de “alcance de campo” que esta propicia, ao ampliar as possibilidades de conhecimento e de “mobilização” do cidadão  em ordem à construção da polis.

 

Pela convivência com os seus pares, integrantes da comunidade a que voluntariamente “aderiu” e/ou à qual pertence.

 

Comunidade efetiva e afetiva de homens e mulheres livres. Solidários. Justos.

 

Que, em última instância, procuram o contacto equilibrado e harmónico com a mãe-natureza.

 

Sem pretendermos darmos lições a ninguém, sinceramente esperamos que, passado um ano, depois de serem eleitos para os novos cargos autárquico no nosso concelho, os nossos novos representantes saibam estar à altura dos desafios que hoje são colocados à nossa sociedade.

 

Que não se usem as novas tecnologias de comunicação e informação apenas como simples fachada, mas como um meio ou instrumentos de, todos, construirmos, em verdadeiro diálogo, a nossa polIs.

 

Procuraremos estar atentos…

 

António de Souza e Silva

 

 

02
Dez16

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

DA ORGANIZAÇÃO URBANA (OU PLANEAMENTO URBANO)

AO DISPARATE DA NOVA INTERVENÇÃO NO LARGO DAS FREIRAS

 

Não nascemos em Chaves. Optámos, contudo, por fazer dela a nossa cidade, a nossa terra.

 

Tendo família já aqui a viver, e estudante na capital do distrito, quando adolescente, costumávamos vir, pelo período do Natal, Páscoa e Férias Grandes, a Chaves. E, com efeito, deliciávamo-nos o palpitar que, naquela altura, no designado Largo das Freiras, se vivia. Era uma mistura interessante de estudantes, professores, tropa, forasteiros e flavienses comuns que, circulando entre o Bar Aurora e o Café Sport, tendo como linha de articulação a Rua de Santo António, davam movimento, cor e vida àquele local. Por ali, tudo quanto a Chaves dissesse respeito, acontecia.

 

Hoje, está tudo completamente mudado. E temos pena, nostalgia, saudade de um lugar que antes era a imagem de marca da sua cidade e atualmente se encontra despido e sem vida. Alguns apontam o dedo aos que, na sua opinião, são os causadores deste tamanho assassinato urbanístico – os senhores do poder local.

 

Gostaríamos, aqui de participar nesta discussão à volta do Largo das Freiras e do verdadeiro disparate das obras que, neste momento, estão ali a ser feitas, ou seja, um arranjo cosmético, dizemos nós, que não vai trazer mais vida ao local. Enfim... Como o dinheiro é de todos nós, que infelizmente não o controlámos efetivamente, displicentemente passamos aos nossos autarcas um cheque em branco para, na nossa cidade, fazerem o que muito bem entendem.

 

Da nossa parte desejamos acarear e trazer a este já longo debate a nossa perspetiva. Por duas ordens de razões: a primeira, porque sempre nos interessaram as questões ligadas à geografia, urbanismo e planeamento, por gosto e também por razões profissionais; a segunda, porque reputamos de importância fundamental que discutamos a nossa cidade e opinemos sobre a sua evolução, o que dela queremos. Todos.

 

Segundo supomos saber, a intervenção feita naquele local foi no âmbito do Programa Polis. Temos para nós que, salvo raras e honrosas exceções, a grande maioria das intervenções deste Programa visa(ra)m aquilo a que designamos como a obtenção da cidade espetacular ou monumental. Mas, muitas vezes, estas intervenções levam à perda da noção de lugar ou, como diz Carla Narciso, na sua obra Espaço Público – Desenho, Organização e Poder, do genius locci, provocando a dispersão de grupos sociais que até ali exerciam as suas atividades, quer profissionais, quer de lazer.

 

Ou seja, não nos pareceu ter ali havido uma intervenção urbana equilibrada, no pressuposto da “compreensão das diferentes escalas territoriais de inserção, nos processos de reestruturação, nos elementos arquitetónicos, na morfologia urbana existente e nas tradições” (Carla Narciso, ob. cit.).

 

Estamos de acordo ainda com aquela autora quando, no mesmo passo, diz que as intervenções urbanas não devem significar uma perda da cidade, mas sim uma melhoria social e estética. Mas frisa. Na obtenção deste desiderato é igualmente necessário a participação das comunidades locais nas discussões e intervenções a serem implementadas.

 

Não sabemos se os meios de consulta pública, para além dos que a lei estipula e prescreve, foram implementados e levados a cabo de uma forma verdadeiramente participativa. Circunstâncias várias da nossa vida impediram-nos a presença em Chaves naquela altura.

 

Hoje em dia é frequente vermos uma cidade, e os seus espaços públicos, como se fossem uma simples mercadoria. Que é de todos, mas usufruído por muitos poucos. É uma lógica de produção e reprodução do sistema económico que aí está em vigor.

 

Os espaços públicos que antes eram destinados à sociabilização, o verdadeiro espaço vivenciado, como define Henri Lefebvre, convertem-se na representação de um espaço artificial, desligado dos residentes e usuários, onde não se considera as tradições e as identidades locais, onde a escala do projeto não corresponde à escala do ser humano.

 

As atuais estratégias de desenvolvimento compreendem a cidade como uma comunidade onde existe uma vida local e lugares requalificados.

 

Infelizmente, o conceito utilizado tem sido o da requalificação através da arquitetura/espetáculo para ser exibida, gerando uma verdadeira teatralização e/ou turistização do espaço público.

 

O que importa, nesta forma de fazer cidade,  é a diferenciação e a capacidade de ilusão que as obras provocam na sua passagem, desprendidas da  vivência e do quotidiana das pessoas que aí vivem, traduzindo-se, assim, num aniquilamento do lugar.

 

É certo, como dizem Borja & Forn, em Políticas da Europa e dos Estados para as Cidades, que o maior desafio do planeamento urbano contemporâneo é aumentar o potencial competitivo das cidades no sentido de responder às procuras globais e atrair recursos humanos e financeiros internacionais. Mas, de acordo com vários exemplos que temos assistido, o planeamento tem sido feito à margem da cidade, com total esquecimento das pessoas que ocupam e vivem nesses espaços.

 

O que, infelizmente, se pretende é construir uma cidade cujos seus espaços cativem o olhar do forasteiro ou turista ou que, em termos mais gerais, propicie uma atratividade em termos económicos, no conserto de uma sociedade totalmente rendida ao mercado, transformada em verdadeira mercadoria, em que as pessoas que a habitam, na grande maioria dos casos, são esquecidas.

 

E é bem certo que muito políticos e técnicos se esquecem que o espaço público tem como objetivo principal a apropriação pelo ser humano, seu habitante habitual.

 

O projeto de arquitetura deve dirigir-se aos anseios e aspirações da população que dele vai usufruir, otimizando características fundamentais à sua apropriação. Estes devem possuir características próprias e identitárias que mantenham relações de proximidade e até mesmo de afeto com os mesmos.

 

Desta forma, no que à intervenção do arranjo do Largo das Freiras diz respeito, somos a considerar que poderemos, eventualmente, estar não em presença da ativação ou da (re) construção de um património dos flavienses. Pelo contrário, assistimos à  morte de um legado patrimonial, com fortes poderes de identificação simbólica. Que não lhe conferiu nova vitalidade, como seria de esperar. E presumimos que aquela intervenção tenha sido feita com base, quase exclusiva, na representação meramente económico-turístico, baseada na moda, e na redução dos espaços públicos a mera mercadoria, numa lógica neoliberal.

 

Mas, na nossa modesta opinião, não se pode apenas apontar o dedo aos autarcas, apesar de termos de debater e por em causa a visão que o poder político tem sobre o território sobre o qual exerce poder.

 

O poder municipal é o principal impulsionador do espaço público e, em particular, ao nível das cidades pequenas e médias. Pela forte concentração do poder e/ou pela maior visibilidade que ele pode ter”, o resultado destas intervenções podem induzir a persuasão do voto. Basta considerarmos as sucessivas inaugurações de parques, praças e jardins em plena época eleitoral.

 

Desta forma, o espaço público reflete a corporificação da preocupação e da capacidade especial da autoridade e, deste ponto de vista, surge como um produto personalizado que compromete o voto. A pressão ao nível dos técnicos é claramente elevada ao conceito de arranjo e assim destitui o espaço de uma forma que o deve caracterizar e individualizar. (Sobarzo, em A Produção do Espaço Público: da dominação à apropriação). É, positivamente, nesta altura, é o que estamos a observar pela nossa cidade, com especial incidência no dito Largo das Freiras.

 

Mas também temos de entender a dinâmica das cidades e dos seus ocupantes. E de refletir sobre a(s) nossa(s) identidade(s) e apropriação (ões) dos lugares feita pelos cidadãos pertencentes a uma determinada comunidade.

 

As cidades não são estáticas. Têm espaços que desempenham funções. Funções que servem os seus habitantes e os quais delas se apropriam. A forma como as vivem, e delas se apropriam, distingue-as dos demais. E tornam-se, assim, elementos identificadores específicos de uma determinada comunidade. Que querem preservar, pois são o seu selo, a sua marca distintiva. Mas a circunstância dos constantes gritos ou desta revolta que, ao longo do tempo, temos visto espelhado à volta deste assunto relacionado com o Largo das Freiras, não reflete esta dinâmica, ou seja, o ir às razões porque aqui chegámos. Parece-nos mais um saudosismo, que não atende e entende a dinâmica dos lugares, em particular das cidades.

 

E, chegado aqui, algumas perguntas deixamos no ar:

  • Será que houve novas centralidades que desempenharam esta função?
  • Até que ponto o Largo das Freiras era efetivamente um verdadeiro espaço público de convívio, partilha, e porque não dizê-lo, de exercício efetivo de cidadania, a partir de determinado momento da história da nossa cidade?
  • Porque os flavienses deixaram de se identificar com aquele lugar como património da sua cidade ao ponto de permitirem este estado de coisas?
  • Será que o novo arranjo, que, em nosso entendimento, não passa de um verdadeiro disparate, onerando mais o erário público, irá restituir ao flaviense do século XXI, a função identitária que tinha? O que verdadeiramente se pretende com este novo arranjo? O que os flavienses querem, desejam? Foram ouvidos para o efeito?
  • Será que Chaves tem massa crítica suficiente para fazer face aos senhores todos poderosos do poder político-partidário autárquico, imbuídos de uma mentalidade mercantilizada da coisa pública, quiçá, não raras vezes, pela nossa passividade, senhores do quero, posso e mando, fazendo, na prática, o que lhes dá na real gana?

 

Nas discussões, e em particular quando está em causa o bem público, não podemos ser redutores: temos de abrir o enfoque da nossa visão para ver as coisas. Não há apenas o eu e os outros. Há também o nós.

 

E nós, flavienses, discutimos e opinamos pouco sobre o nosso espaço público. Pouco nos preocupamos com a criação e preservação dos lugares de convívio, partilha, socialização e identidade local.

 

Narcisicamente é-nos mais cómodo partilhar e conviver através das redes sociais!

 

Mas todos sabemos - e está provado -, que estas redes são lugares pobres de efetiva partilha, de criação de socialização e convívio e nulo na construção de identidades genuínas.

 

Aproximam-se aí as eleições autárquicas. Vemos algumas forças políticas - e muito bem - movimentarem-se e discutirem o futuro da nossa cidade e do nosso mundo rural. Mas esta preocupação e discussão deve ser genuína, ou seja, não deve ser feita apenas na aproximação dos períodos eleitorais. Tem de ser assumida pelos flavienses - instituições e pessoas - como uma prática quotidiana, fundamental para uma verdadeira construção e desenvolvimento do nosso território concelhio, em que a nossa qualidade de vida, de acordo com uma nova visão e de um novo modelo de desenvolvimento dos nossos territórios para o século XXI.

 

A cidadania não tem lugar apenas nos dias em que somos chamados a votar. Exerce-se todos os dias, ao nível das mais diversas formas de organizações dos cidadãos, que compõem e habitam um determinado espaço.

 

António de Souza e Silva

 

 

15
Out16

Coisas... Onde para a sensibilidade cultural flaviense?

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CHAVES ATRAVÉS DA IMAGEM

 

ONDE PARA A SENSIBILIDADE CULTURAL FLAVIENSE?

 

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Ao abordarmos, nesta rubrica, aspetos que, a nosso ver, denigrem a imagem de cidade de Chaves e das suas gentes, não o fazemos com fins de militantismo partidário - apesar, da maioria de quem nos lê, saber que de lado do espetro ideológico-partidário nos colocamos -; nem, tão pouco, por uma mentalidade, porventura para alguns, do bota abaixo; ou sequer porque não vamos na cara do senhor que, na atualidade, está à frente dos destinos da nossa autarquia, apesar de - é bem verdade -, não apreciarmos posturas autárquicas autocráticas e que olham as instituições que «governam» como se fossem uma sua coutada e dos seus seguidores partidários.

 

Quem, assim pensar, em boa verdade, não enquadra duas questões essenciais que estão presentes no exercício da nossa escrita.

 

A primeira, é a de que não pretendemos qualquer protagonismo político-partidário, quer no partido, no qual enfileiramos, quer na sociedade flaviense, à qual pertencemos.

 

Quem nos conhece sabe que, há muito tempo, estamos retirados das lides político-partidárias ativas; que tentámos, quando no poder, desempenhar, de acordo com as nossas modestas competências, e o espaço de manobra possível, que soubemos conquistar e nos foi possível utilizar, para, pessoalmente, e em equipa(s), fazermos o nosso melhor. E, se melhor não fizemos, pode, naturalmente, atribuir-se às nossas próprias limitações. E à circunstância de, já na altura, aquilatarmos, e insipidamente constatarmos, que o tempo dos políticos heróis fazia parte do passado; que as decisões políticas, tanto quanto possível, devem ter por detrás equipas multidisciplinares, escolhidas e escrutinadas em função da sua competência - que não os «amigos» partidários - capazes de emitirem informações, pareceres ou opiniões, suscetíveis de melhor as informar, enformar e enquadrar, tendo como pano de fundo uma sociedade cada vez mais aberta, plural e heterogénea, como aquela em que vivemos.

 

Pode acreditar o leitor(a) que sempre tentámos trabalhar na autarquia cuidando que, o que fazíamos, era o melhor, imbuído do espírito de que estávamos, laborando no município flaviense em cumprimento de um dever cívico, em autêntica «comissão de serviço».

 

A segunda questão, decorre diretamente da primeira, ou seja, devemos estar abertos às críticas que nos fazem, quer estejamos no exercício do poder, quer na oposição.

 

Não somos senhores, detentores da verdade. E a perfeição não é algo que se adquira por pura espontaneidade. Vai-se construindo. E vai-se construindo, em sociedades democráticas, abertas e plurais, ouvindo os diferentes lados da barricada, ou, se quisermos, os diferentes espetros da sociedade. E, de entre eles, o ponto de vista livre e «desinteressando» do cidadão que opina sobre a sua cidade e que, nela, pretende construir uma polis mais justa, equilibrada e com melhor qualidade de vida para os seus concidadãos e para aqueles que nela pretendem construir as suas vidas.

 

Todo este arrazoado vem a propósito da nossa sensibilidade quanto ao que acontece, em termos de cultura - melhor dizendo, sensibilidade cultural -, na nossa cidade.

 

Não vamos falar da programação cultural que temos. Por razões pessoais de força maior, infelizmente, somos pouco assíduos aos eventos, que são levados a cabo, para podermos ter uma opinião justa, adequada e equilibrada quanto à mesma.

 

O que nos trouxe hoje aqui à escrita, como dissemos, é mais uma questão de sensibilidade quanto às coisas da cultura em geral da nossa terra.

 

Pugnámos no passado que um dos aspetos da dinamização social, cultural e económica da cidade tinha a ver com questões do conhecimento e da cultura. Fomos um dos primeiros a falar da criação, em Chaves, de uma Fundação ligada ao pintor/arquiteto Nadir Afonso, conectando-a com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD)-Pólo de Chaves, ministrando-se cursos que, quer a montante, quer a jusante dessem coerência à existência da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Chaves, ligada à região e ao desenvolvimento da parte norte do distrito de Vila Real. Com a existência de, pelo menos, um Departamento (ou Escola) em Chaves, nomeadamente com valências que fossem desde o Turismo, às Artes, à Arquitetura (Paisagística) e à Animação Sociocultural, entre outras. Para já não falar de uma mais íntima e profunda relação que a UTAD deveria ter com a experimentação e o desenvolvimento agrícola em Chaves, uma vez que somos possuidores de uma Veiga, uma das maiores do norte do país - na qual se fez avultados investimentos, ao longo dos anos, em infraestruturas de rega -, pese embora os atropelos que, ao longo dos anos, certos interesses, dos quais a especulação imobiliária e a construção, foram nela os mais visíveis. Durante anos, acalentámos esperanças, mas tudo não passaram de promessas. Até que o tempo tudo levou!...

 

Sabemos da grande vocação de Chaves como grande centro de comércio para o seu mundo rural e, porventura também, para os territórios intra e transfronteiriços, que, com ela, confinam.

 

Reconhecemos que a Feira dos Santos - embora a necessitar de alguma inovação e de passar a ter uma estrutura organizativa profissional, com um marketing devidamente adequado -, é uma tradição que devemos manter, preservar e, de acordo com os tempos que correm, inovar. É urgente repensar o nosso mundo rural, quer em termos do território que queremos cuidar, cultivar, quer das duas gentes, infelizmente pouca e muito envelhecida. Requerendo uma ampla discussão nacional sobre que mundo rural queremos para o país e que modelo de desenvolvimento a ele ligado queremos.

 

Constatámos que, particularmente desde o 25 de Abril de 74, os sucessivos executivos municipais não foram capazes de gerar uma bolsa de terrenos, no perímetro urbano e áreas adjacentes da cidade. Tal desleixo ou incúria fez a autarquia flaviense ser presa da especulação imobiliária, pagando muito caro expropriações, quando necessitava de terrenos para lançar e construir equipamentos públicos ou coletivos para uso da comunidade, e acabando sempre por situações de recurso ou localizações acanhadas e pouco desafogadas, em conflito com outros usos.

 

Não se criou, ao longo destes anos, entre os comerciantes da nossa terra, um verdadeiro espírito de classe que, para além da proteção legítima dos seus interesses individuais, vissem a cidade como um todo, fazendo-se partícipes da sua construção, entendida como polis. E não nos venham dizer que a «culpa» é das grandes superfícies comerciais! As «culpas» morrem sempre solteiras...

 

Não houve habilidade e/ou pedagogia suficiente para se encontrar terrenos, com função polivalente, junto do centro urbano, capazes de, neles, com unidade de espaço, dignidade e a contento de todos os comerciantes, quer os locais, quer os que nesta época vêm de fora, se poder realizar a Feira dos Santos, dando a esta um verdadeiro, autêntico e inovador carácter regional.

 

Somos, pois, conhecedores e cientes de toda esta história e das fraquezas que, quanto a esta matéria, pendem sobre nós.

 

Não esperávamos, contudo, com o espetáculo a que, na passada terça-feira, assistimos.

 

Quando nos preparávamos para fazer uma visita, mais em profundidade, ao, agora designado, Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso,

 

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ficámos deveras escandalizados com o que vimos.

 

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Uma obra - reconhecida internacionalmente como uma obra-prima de arquitetura - da autoria do arquiteto português Siza Vieira,

 

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que a todos nós munícipes nos custou os olhos da cara, e onde as obras do nosso pintor/arquiteto se encontram em exposição,

 

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 completamente devassada pela presença de toda a panóplia e arsenal de equipamentos de diversão que se lhe apostam à sua frente!

 

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Já para não falarmos da proximidade destas «diversões» a uma Escola Secundária da nossa cidade!

 

Nada temos contra aquelas diversões e a alegria ou prazer que proporcionam às pessoas e crianças que deles querem fazer uso para seu lazer nesta altura ou quadra do ano. Estamos verdadeiramente chocados é com a sensibilidade daqueles que decidiram que aquele seria o lugar adequado para as colocar.

 

Não se entende que uma cidade que se quer posicionar na alta roda da cultura e da programação cultural local, regional e nacional tenha uma sensibilidade tão... rasca!

 

Sem elitismo, mas usando o bom senso, qualquer cidadão comum, possuidor de um mínimo de estética e gosto, ao ver este espetáculo, deve pensar para consigo próprio que, em Chaves, não bate a bota com a perdigota!

 

Esta espúria mistura só nos desprestigia. E é pena.

 

Estamos em crer que os flavienses gostam que a sua cidade espelhe uma imagem bem diferente do que a que, nesta Feira dos Santos, se nos apresenta...

 

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António de Souza e Silva

 

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Este espaço "Coisas"  está aberto a todos que nele queiram participar, basta enviarem os conteúdos para blogchavesolhares@gmail.com . As regras são simples e podem ser vistas aqui .

 

 

03
Abr15

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

NOTAS SOBRE A LEITURA DO «SOLDADO-SAUDADE» E À SUA MARGEM

 

I

 

Assumidamente sou de alma duriense. Temperada por gerações de «escravos da terra» - que já não têm certeza que seja sua - mas que a trataram (e ainda tratam, embora com outros meios) como um jardim e que, por isso mesmo, tudo quanto pensam e sentem sai-lhes naturalmente do coração. Os durienses têm um coração enorme. Do tamanho deste mundo.

 

Mas o Douro é Trás-os-Montes. E Trás-os-Montes sem o Douro não se completa.

 

Mas se Trás-os-Montes e esse tal Reino Maravilhoso que nos apresenta (e canta) o nosso escritor e poeta maior, Miguel Torga, ele é também, traz consigo, aquilo que é consubstancial ao próprio homem - a sua contradição.

 

Há cinquenta anos que vivemos nestas paragens norte de Trás-os-Montes. Aqui nos fizemos homem. Aqui fizemos a nossa vida. Nossa alma continua a ser a de um humilde cavador duriense.

 

Mas, Trás-os-Montes, de que tanto nos orgulhamos, e que é tão cantado e desejado pelos nossos maiores, cumpriu-se?

 

Infelizmente, creio que não!

 

Abril trouxe uma lufada não só de Liberdade como de Abertura e Desenvolvimento a este pequeno «país». O poder autárquico, nos primeiros tempos, trouxe progresso, desenvolvimento e qualidade de vida. Mas foi incapaz de evitar a «sangria» das suas gentes para o grande «oceano» das quatro paragens do mundo.

 

Os portugueses persistiram - e quantos transmontanos se contam entre eles! - num modelo de desenvolvimento que privilegia um litoral (sem qualidade de vida), onde se concentra a grande massa de votantes. Por cá, cada autarca foi transformando o território que era suposto desenvolver, como se fosse uma sua coutada. Em vez de pensarmos em Trás-os-Montes num território como um todo, cada um de nós, tendo à cabeça o «cacique» que elegemos, simplesmente olhamos para o nosso próprio umbigo, a nossa própria sombra, esquecendo-nos do território que fica ao nosso lado, e que nos é complementar para nos podermos desenvolver a uma escala que nos dê uma certa autonomia, desenvolvimento, projeção e dignidade. Dizem os técnicos, escala. No uso de uma estratégia comum. Sem competições, que apenas não só delapidam os nossos parcos recursos financeiros, como nos empobrecem cada vez mais!

 

[Imagem 1 - Mapa de Trás-os-Montes e Alto Douro].

 

Desde Bragança a Vila Real, cada concelho promove e desenvolve as mesmíssimas coisas sem qualquer visão de conjunto. Isto, para já não falar na estratégia suicida e «antropofágica» das capitais de distrito, que tudo querem à custa dos outros concelhos que são a razão da sua artificial existência. Porque se circunscreve a razões de índole puramente administrativas. Tão só. Temos uma mentalidade pequena. Somos muito pequeninos, incapazes de ver um pouco mais além. É, naturalmente, uma questão cultural. Advinda de um individualismo que chega a atingir as malhas do patológico: só o que é nosso, da nossa terra é que é bom; o resto, não presta! Quando, afinal, só nos completamos com o outro, a outra nossa metade!

 

II

 

Mas não era disto que hoje queríamos falar. Foi o folar, os pastéis, o fumeiro, os sabores (da terra e dos céus) que me trouxeram até aqui, quando simplesmente queriamos falar da alma e da vida transmontana (duriense), plasmada na escrita dos nossos maiores. Dos nossos contistas. Que os temos do melhor que há. Desde Domingos Monteiro, João Pina de Morais, João de Araújo Correia e Miguel Torga.

 

Na comemoração do Centenário da Grande Guerra, ao tentar conhecer a participação dos portugueses no conflito, em especial dos militares do RI 19 e do Alto Tâmega, fui ao encontro de duas obras de Pina de Morais, natural de Valdigem, Lamego: Ao Parapeito e Soldado-Saudade.

 

Não peço ao leitor (a) que conheça a fundo e se especialize sobre o que foi este conflito. Tão-somente que o conheça, conhecendo um pouco do que foi a história dos seus antanhos. E que comece pela pena e alma de um antigo combatente, que foi Pina de Morais. Tomando conta dos «horrores» da guerra e «vibre», como ser humano, ao ler cada capítulo deste extraordinário testemunho que ó o Soldado-Saudade.

 

Deixamos aqui ligeiras impressões suscitadas pela leitura dos seus capítulos.

 

Lendo os nossos melhores contistas, sinto-me, cada vez mais, duriense, mais transmontano, mais português, apesar de saber e (re)conhecer que, hoje em dia, a nossa pátria é o Mundo. Mundo esse que, para o ser verdadeiramente, humano, naturalmente, se constrói no meio e com as diversas diferenças, entre as quais a da alma portuguesa cuja essência é a sua constante diáspora.

 

Mas, contemos o que vertemos em escrita logo após a leitura do Soldado-Saudade:

 

III

 

Soldado-Saudade, de João Pina de Morais, misto de memórias e diário, tão a jeito do grande contista duriense e transmontano, relata-nos cenas vividas por um tenente, militar de profissão, na Grande Guerra.

 

A sua leitura, na qual se descobre, com grande pendor, um homem que escolheu a guerra como cenário integrante da sua profissão, toca-nos pela humanidade prenhe, nos seus capítulos, de memórias vívidas da guerra por que passou.

 

A dedicatória que faz no livro emociona, ao dedicá-lo «às mães dos combatentes da Grande Guerra - um filho como os vossos - pede carinho da vossa lembrança».

 

Recorde-se que, quando Pina de Morais chega a casa, vindo da Flandres, sua mãe havia morrido!

 

Li-o em pouco menos de um dia. Não despeguei o olhar dele enquanto não acabei de ler a sua última palavra.

 

Idêntico entusiasmo já me tinha causado Sangue Plebeu, uma outra obra de Pina de Morais, lido há uns anos. Sangue Plebeu toca-nos pelos lugares e pessoas da nossa infância; Soldado-Saudade pela profunda humanidade que dele se respiga em tempos de guerra.

[Imagem 2 - Trincheiras França Grande Guerra.jpg

 

Expressemos algumas notas, muito sucintas, sobre os capítulos que mais nos despertaram a atenção.

 

«Cauchemar», «Maçonaria de Trincheiras», «O Capitão dosSouvenirs’», «’O Ganga’ bom soldado», «A Melhor Esmola» são capítulos onde melhor podemos observar a enorme e prodigiosa capacidade de adaptação do homem-soldado português a situações extremas de dor e sofrimento, vividas num mundo onde a morte é o cenário perene, permanente, mas assumidas com singularidade, estoicismo, coragem, com verdadeira humanidade e, não raras vezes, com bonomia e recortes de certa ironia.

 

Mas, de todos os capítulos desta magistral obra, gostaria de destacar «A Morte do Pierrot»: um dos capítulos mais emocionantes do Soldado-Saudade passado na terra-de-ninguém!

 

Em ambiente e teatro de guerra ainda há tempo para se viver com intensidade a festa da vida. A história d’«OLisboa’» e da sua belga; da somítica «Madame la Fermière» e da sua infidelidade com o oficial português são prova cabal de que nem a guerra mata a atração e o amor que os seres humanos têm uns pelos outros. Nas proximidades do cenário permanente da morte, são verdadeiros cânticos e hinos à vida.

 

Só uma alma pura transmontana é que pode dar vida e nos fazer vibrar com a linda história da «La Petite Viève» com a sua constante expressão: «Alemanes bombardent - nô bonne

 

«O Último Natal da Guerra» (1917). Não é só a verve que fala. É toda uma alma que transborda, mexendo com as mais ínfimas recordações da nossa infância. Como Pina de Morais nos faz lembrar os natais da nossa meninice, vividos nas noites frias das faldas do Marão! Que humanidade sentida em cima do parapeito, em plena guerra, num desejo universal de tréguas, sossego e paz! E que revolta, que mexe e nos remexe em todo o nosso ser como homens de paz, quando vem a ordem de bombardear um pacato e sossegado boche que, na Paz do Senhor, também quer viver a sua Ceia do Natal, dentro das condições misérrimas de toupeira, em paz e tranquilamente! E como a falta de respeito para com um dia sagrado, atiça ódios que, na volta do Ano Novo, se repercutem em lançamentos de «gás cruz amarelo e mostarda».

 

Pina de Morais ainda tem tempo para expandir os seus sentimentos quantos aos nossos «amigos e fieis aliados», os ingleses, quando nos fala da insipidez do viver britânico não comparável com o descarado, atrevido e apaixonado latino-luso.

 

«Os Médicos». Em tempo de guerra, como esta foi, não faltou o elogio sentido pelos colegas médicos combatentes, portadores de outras armas - não das que fazem a morte, mas que teimosamente lutam pela vida.

 

«O Medo». Os bravos também têm medo. E não é nenhuma vergonha confessá-lo. O medo é consubstancial ao herói. O herói tece-se no meio do medo da situação excecional. Tudo o resto é simplesmente banal!

 

«Ingleses e Americano»s. Na guerra, as culturas também contam e definem carateres. Carateres que dão conteúdo às relações entre as pessoas. Em que se discute a guerra e o modo como ela é - ou deveria ser- conduzida.

 

«Uma francesa famosa». Corações apaixonados; amores vadios e errantes e os seus ardis e artimanhas.

 

«Últimas páginas d’um diário» são as últimas palavras de um diálogo último, pressentido, de um filho perante uma mãe que, à sua chegada, já tinha morrido pelo filho na guerra!...

 

[Imagem 3 - A Guerra - Horror e Desolação].jpg

Livro a não perder. Não só porque nos relata episódios de uma guerra em que os nossos «maiores» nela estiveram implicados. Em que lhe sofreram os horrores. Em que lhes ficaram as sequelas. Que fez parte da vida deles. E também das nossas, seus filhos. Porque sempre atual. Toda ela cheia de cenas e episódios de vida, vivida intensamente. No fio da navalha em que se entretece a vida e a morte. Plena humanidade.

 

[Imagem 4 - Perce-neige  - Flor singela e virginal

 

IV

 

E, por último, lida esta obra, este trecho poético de Affonso Romano de Sant’Anna, que não nos sai da mente. E nos obriga a refletir em tempo de Páscoa - entre a Vida e a Morte - na construção de um outro Mundo - numa «Ressurreição»:

 

[...] Os homens amam a guerra

E mal suportam a paz.

 

Os homens amam a guerra,

portanto,

não há perigo de paz.

 

Os homens amam a guerra, profana

ou santa, tanto faz.

 

Os homens têm a guerra como amante,

embora esposem a paz.

 

[...] Durante séculos pensei

que a guerra fosse o desvio

e a paz a rota. Enganei-me. São paralelas

margens de um mesmo rio, a mão e a luva,

o pé e a bota. Mais que gêmeas

são xifópagas, par e impar, sorte e azar

são o ouroboro - cobra circular

eternamente a nos devorar.

[...] Acabará a espécie humana sobre a Terra?

Não. Hão-de sobrar um novo Adão e Eva

a refazer o amor, e dois irmãos:

Caim e Abel

- a reinventar a guerra.

 

António de Souza e Silva

 

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