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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

08
Jan20

Bóbeda - Chaves - Portugal

1600-BOBEDA (25)-video.jpg

 

Bóbeda

 

Até hoje o Blog Chaves dedicava os fins-de-semana às nossas aldeias, e vai continuar a fazê-lo, com um post completo, mas a partir de hoje, teremos também aqui as aldeias do concelho de Chaves neste dia, quarta-feira, com um post onde publicamos um pequeno vídeo com todas as fotografias da aldeia publicadas no blog até à presente data, isto para aquelas aldeias que não tiveram vídeo quando publicámos o seu post completo.

 

1600-BOBEDA (33)-video.jpg

 

Um vídeo mas também algumas fotografias que temos em arquivo e que escaparam nas anteriores seleções.

 

1600-BOBEDA (37).jpg

 

Fica então o vídeo de hoje, dedicado à aldeia de Bóbeda, ou seja, continuamos a seguir a ordem alfabética, tal como já vinha sendo habitual aos sábados.

 

 

Link para partilha ou ver diretamente o vídeo no youtube:

 

https://youtu.be/JTeiQQNDz3U

 

1600-BOBEDA (105)-video.jpg

 

Posts anteriores publicados no blog Chaves, dedicados à aldeia de Bóbeda:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/bobeda-chaves-portugal-1542483

https://chaves.blogs.sapo.pt/444426.html

https://chaves.blogs.sapo.pt/197932.html

 

 

 

 

29
Nov09

Bóbeda - Chaves - Portugal

Antes da auto-estrada (A24) existir, a nossa grande via era a Estrada Nacional 2. Por ela saímos para tomar Portugal e por ela se entrava de regresso à terrinha. Sempre gostei mais das entradas que das saídas e, chegado à descida e curvas do Reigaz, sentia-se o pequeno aperto no coração de estarmos à porta de casa. Oura, Salus, Vidago, Vilarinho das Paranheiras, Vilela do Tâmega, as placas de Moure e Redial, Bóbeda, Vila Nova de Veiga, Outeiro Jusão e finalmente a entrada triunfal no vale de Chaves, que, se a ausência tivesse sido longa, a pele picava-nos  no desfazer das saudades.

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Repetidamente , com mais ou menos frequência, atravessava-mos as aldeias da Estrada Nacional 2, quase sempre com a pressa de chegar ao destino a horas ou de regressar a casa na hora de reunião da família, não fosse a sopa arrefecer ou as batatas ficarem desfeitas da espera.  Com a pressa, quase e só dávamos conta das placas das aldeias que ia-mos debitando à estrada e nunca reparávamos que a placa anunciava uma aldeia, com um coração, gente e vida dentro dela, tanto mais, que as aldeias se iam arrumando a um só lado da estrada e se iam escondendo ou diluindo por entre a confusão da montanha. Ao conhecimento, apenas se dava a placa e duas ou três casas junto à estrada. Tudo o resto nos era alheio. Excepção para Vidago e Vilarinho das Paranheiras, mas nesta última, apenas enquanto existiu o velho traçado que nos oferecia a aldeia num anfiteatro. Com o traçado novo, perdeu também o romantismo e fica alheia a quem passa.

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Sempre tive curiosidade de conhecer essas aldeias de estrada por dentro, na sua intimidade, viver o seu largo da festa, atravessar as suas ruas, beber das suas fontes, sentir a sua vida.

 

Uma a uma, nos últimos anos, percorri todas as nossas aldeias, algumas repetidamente por uma ou outra razão e só lamento tê-lo feito tão tarde e delas ter perdido grande parte da sua verdadeira vida e do seu verdadeiro espírito de aldeia, com muita gente nas ruas, sobretudo crianças, mas também galinhas, cavalos, burros, cães e até perus, patos e porcos. Com as escolas a funcionar e os altifalantes das carrinhas dos vendedores ambulantes a debitarem música pimba, ou assistir à chegada do peixe, do pão e finalmente, beber um copo na taberna escura, balcão de madeira onde tudo se vendia a granel e sobre o qual havia sempre uma balança e as medidas das canecas de inox perfiladas por ordem decrescente, desde o Litro ao quartilho, até às medidas pequenas que por força da Lei estavam por lá, mas apenas serviam de enfeite.

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Teria tido tempo também para assistir a uma partida de matraquilhos ou a uma “negra”, de ver bem jogar à “sueca”,  ou ao “chino”, à malha, ao espeto, ao pião, à bola e essas coisas dos homens e rapazes, ou então, às coisas das raparigas, mais de jogar elásticos e à macaca do que andar com bonecas atrás delas. Tempo teria ainda para passar pelo tanque do povo e ver como as fatias do sabão  vermelho deslizavam sobre as roupas, batidas e torcidas à força dos braços entre falares, cantares e bocas do mulherio. Tempo para pelo cheiro das giestas acabadas de queimar ou do pão acabado de cozer, descobrir o forno do povo, onde talvez uma bica estivesse a ser saboreada, depois de regada com azeite e salpicada de açúcar… enquanto distraidamente, se calha, meter pés no rego de água que livremente e apressadamente corria aldeia abaixo, para mais tarde regar uma horta antes de, definitivamente se perder por entre o verde de um lameiro, onde pela certa estaria meia dúzia de pachorrentas vacas a pastar.

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Embora em miúdo tivesse vivido e assistido alguns destes grandes momentos das aldeias, penso ter perdido definitivamente o seu registo fotográfico, pois as aldeias de hoje, são uma longínqua imagem daquilo que foram, para o bem e para o mal, pois com certeza se há coisas que nas aldeias se perderam sem deixar saudades e facilmente foram esquecidas, muitas há, que deixarão saudades eternas.

 

Mas vamos até Bóbeda, que, como todas, também já foi uma dessas aldeias que deixam saudades.

 

Bóbeda, localizada junto à tal Nacional 2, pertence à freguesia de São Pedro de Agostém e dista 6 quilómetros da cidade de Chaves.

 

Quanto ao seu topónimo, dizem, poder ter origem árabe, no entanto, é apenas um palpite, pois não há qualquer base que possa sustentar esta origem do topónimo.

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Também quanto à história do seu povoamento antigo, não há muitos dados disponíveis. Sabe-se que possivelmente os romanos exploraram junto ao Tâmega uma mina de ouro, mas pouco mais. Até ao século XVIII, não existem dados que possam falar do passado de Bóbeda, mas a partir dessa data, a família Pizarro, faz um pouco da história da aldeia.

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Família Pizarro que já várias vezes foi abordada neste blog. Esta família habita Bóbeda desde os inícios do Século XVIII. Oriunda de Espanha, mais propriamente de Trujillo, da Estremadura espanhola, descendente de cavaleiros que participaram na Reconquista Cristã e na conquista do México e Peru, no século XVI.

 

Algum casario nobre que ainda existe na aldeia, com destaque para a Casa do Cruzeiro, com Pedra de Armas e capela (de devoção à Senhora da Conceição), deve-se ao povoamento da aldeia por parte da família Pizarro.

 

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Família Pizarro que também faz parte da história flaviense e da qual saíram alguns ilustres, já aqui abordados: Ignácio Pizarro de Moraes Sarmento, nascido em 22 de Novembro de 1807 na referida Casa do Cruzeiro, em Bóbeda. Político e poeta, foi um dos nomes maiores da literatura portuguesa de então. Mas tudo que há a dizer sobre Ignácio Pizarro, já aqui foi dito, e nem há como passar pelos post´s que lhe foram dedicados para ficar a conhecer a sua vida e obra, em:

 

Ignácio Pizarro – 1ª Parte

e

Ignácio Pizarro – 2ª Parte

e

Ignácio Pizarro – 3ª Parte

e

Ignácio Pizarro – 4ª e últipa parte

 

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E se Ignácio Pizarro, embora hoje esquecido, foi reconhecido e a cidade lhe prestou algumas homenagens, já o com seu pai, não se passou o mesmo e, ainda hoje Chaves lhe deve o devido reconhecimento, não só como militar, mas principalmente no que diz respeito às Invasões Francesas, pois a haver um herói na defesa de Chaves nessas invasões, o herói foi Francisco Pizarro e não o General Silveira, pois enquanto o primeiro ficou em Chaves a defender a população, o segundo, fugiu cobardemente. Mas também assim se faz a história, reconhecem-se os falsos heróis e esquecem-se os verdadeiros. Uns têm direito a cerimónias e estátuas, outros ao esquecimento. Para saber mais sobre quem foi Silveira e Francisco Pizarro nas II Invasões Francesas, siga o link:

 

O Muro da Vergonha do General Silveira

 

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Sobre o Silveira e Francisco Pizarro, da minha parte, a história ainda não encerrou o capítulo. Oportunamente haverá mais novidades sobre o assunto.

 

Sobre Francisco Pizarro, ou melhor, sobre o Marechal de Campo Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro – o «Maranhão», falta escrever a história que lhe fará justiça, mas mesmo sem essa, ele é um ilustre Flaviense que a cidade teima em esquecer.

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Francisco Pizarro nasceu em Bóbeda em 27 de Setembro de 1776 e morreu também em Bóbeda, no dia de Reis de 1819, tendo sido sepultado na Igreja do forte de S.Francisco, quando era Governador e Capitão General da Capitania do Maranhão e Conselheiro de Estado.

Para saber mais sobre este ilustre flaviense, seguir o Link:

« O Maranhão»

 

E sobre Bóbeda, vai sendo tudo por hoje, mas fica a promessa que ainda se falará mais sobre esta aldeia, pois a história sobre os seus ilustres ainda não está encerrada.

 

Até amanhã!

 

 

 

08
Dez08

Ilustres Flavienses - Inácio Pizarro - 4ª e últipa parte.

 Gravura de Inácio Pizarro nos últimos anos da sua vida

 

Depois de terem vivido em Lisboa os primeiros anos do seu casamento, Inácio Pizarro e D. Inês haviam feito uma tentativa no sentido de fixarem a resincia em Chaves e Bóbeda, onde os solicitavam quer as preocupações relativas à administração do seu património, quer as da "tutela" de suas irmãs.

 

Porém, esta tentativa não resultou por muito tempo e o casal regressa a Lisboa, onde julgamos terá permanecido por alguns anos mais.

 

Depois disso, Inácio Pizarro terá, definitivamente, decidido residir em Bóbeda ou Chaves, ficando sua mulher em Lisboa.

 

A partir de então, Inácio Pizarro, no auge da popularidade que lhe conquistara a publicação do Romanceiro, terá procurado em Chaves o convívio social de que sentiria a falta.

 

Vivendo quase sempre nas suas terras de Trás-os-Montes, indo à capital somente para se não afastar completamente do movimento literário e da convivência social. Era muito estimado em Lisboa e no Porto. Camilo Castelo Branco prestou homenagem ao seu carácter e talento, no estudo que lhe consagrou e que vem publicado nos seus Esboços de apreciações literárias.

 

Sem dúvida alguma que só pela sua carreira literária Inácio Pizarro é digno de ser um Ilustre Flaviense, mas também um Ilustre Português, principalmente e nem que fosse apenas pelo “Romanceiro Português”, sendo mesmo considerado por Camilo Castelo Brannco um dos maiores nomes da Literatura Portuguesa.

 

Mas para terminar este já longo post, apenas porque já vai longo, pois sobre Inácio Pizarro haveria muito mais a dizer, não posso terminar sem referir também a sua acção política.

 

Eleito deputado às Cortes, com 29 anos apenas, renunciou ao mandato quando se viu impotente para evitar os desmandos do Governo em matéria tributária. Mais tarde, em 1946, quando populares secundaram a revolução Maria da Fonte e António Carvalhal, foi por seu intermédio que a tropa os não atacou e concedeu o valioso apoio às justas reivindicações dos rebeldes.

 

 

Inácio Pizarro de Morais Sarmento, faleceu em 17 de Maio de 1870 e se nas efemérides centenárias do seu nascimento e morte ninguém (flaviense responsável) se lembrou dele, pode ser que lá para 2070, quando fizer 200 anos que morreu alguém se lembre de uma homenagem digna e o fazer um pouco de história à sua vida e à sua obra. Há que ter esperança.

 

De entre o convívio entre Inácio Pizarro e Camilo Castelo Branco, num dos regressos a Chaves, numas das viagens penosíssimas, no cume do Inverno a dobrar montanhas, com frio, vento e chuva, relatava assim a Camilo, em verso uma dessa viagens:

 

Quisera ver aqui ministros

Mettidos numa liteira

Ouvindo os guizos sinistros

Na descida da Gralheira.

Quisera vê-los transidos

Se susto, horror e frio,

Numa liteira mettidos

Atravessando o Mezio.

Quisera ver despenhada

A liteira… Oh! Isso não!

Bastava vê-la atolada

E elles na lama…onde estão.

 

Engraçado como estes versos ainda mantêm actualidade no sentimento de alguns flavienses….

 

Até amanhã!

 

Bibliografia e fontes documentais:

 

- Firmino Aires, Toponímia Flaviense, Chaves, 1990;

- Francisco G. Carneiro, Excertos de temas flavienses;

- Grupo Cultural Aquae Flaviae, In Memoriam Inácio Pizarro, Revista nº 16, Dez.1896

- Eugénio Pimentel, in Ilustração Transmontana, 1º Volume (1908);

- Tombo Heráldico do Nordeste Transmontano, Volume Primeiro, J.G. Calvão Borges, Lisboa, 2000.

 

- Maria do Sameiro Pizarro Bravo Soares Pinto;

- Fernando Pizarro Bravo.

 

 

 

 

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