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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Abr18

Ocasionais - O Trompete de LOIVOS

ocasionais

 

“O trompete de LOIVOS”

 

 

Naquele tempo”, nos idos anos quarenta e cinquenta, era eu um passageiro assíduo do comboio, principalmente entre Chaves e Vila Real.

 

A minha primeira viagem   -   «lembro-me bem ainda como se fosse hoje»!.....   -   foi para ir até à Igreja de S. Pedro, lá na «Bila», para ser baptizado.

 

Regalava-me, sem nunca me cansar, de apreciar a paisagem, mostrava-me refilão com o carvão que a fumarola do comboio depositava no colarinho da minha camisa branca; comparava o aprumo de uns e outros «chefes de Estação» ao abanarem a bandeira e a afinação do apito, ao darem o sinal de partida; media o «revisor» de alto a baixo e elaborava complicadas teorias de interpretação de personalidade diante dos seus gestos e «sermões» na verificação e perfuração dos bilhetes; admirava-me do tamanho do tanque de água e do funil, com que às vezes a locomotiva do comboio matava a sede; percorria as carruagens de 2ª e de 1ª , para anotar as diferenças entre os passageiros de umas e de outras, as diferenças entre os assentos ... e as das janelas; espreitava com especial regozijo as fungadelas da chaminé do comboio quando o maquinista queria assustar a bicharada ou «mandar uma mensagem» aos povoados circum-vizinhos, fosse a de ser a hora do jantar (agora ao jantar chama-se almoço,  e à ceia, jantar, não é?!)  ou, se a partida fosse de Chaves,  a hora de atar os cordões das botas (no Inverno) ou dos sapatos (no Verão) para se ir para a ESCOLA (Primária ou Liceu, para uns, ou a Comercial e Industrial, para outros), ou para o trabalho!

 

Ao longo dos (desses) anos, nas minhas  à «Bila», eu era acompanhado por umas seiras com caça, uns cestos com melões e melancias  ou umas cestas com aquelas coisas boas dos recos cevados!

 

Ao longo dos (desses) anos, nas minhas vindas desde a «Bila» à “FONTE NOVA” eu era acompanhado por cabazes de uvas e de laranjas «do Douro», juntinhas a duas ou três garrafas de «Vinho Fino”!

 

Numa dessas viagens de idas e vindas entre a terra do meu nascimento e a terra do meu baptizado, ali por perto de Vila Pouca (d’Aguiar), no Apeadeiro de Zimão, vindos da Festa de N. S. das Dores, entrou no comboio uma Banda de Música: era a de LOIVOS.

 

Os músicos misturaram-se pelos assentos com os passageiros. Uns três ou quatro ficaram-se pelo varandim.

 

Uns viajantes gabavam a sua Banda favorita. Outros indicavam qual tinha «levado o ramo» na Srª da Livração, no Senhor do Monte ou na Srª da Saúde.

 

Na Estação de Pedras Salgadas, a carruagem de 1ª pegada às de 2ª recebeu “senhoras e senhores todos bem-postos”.

 

Depois da passagem de nível, mal o comboio entrou na recta de Sabroso, de súbito, ouve-se o som de um trompete.

 

A algaraviada dos passageiros emudeceu.

 

O trompetista traduziu aquele silêncio repentino por um intenso «vibrato» na sua vaidade musical.

 

 

Empertigou-se.

 

Foi para o meio da porta da carruagem, e deu alma ao trompete.

 

Toda a gente o escutava com admiração.

 

A outra porta da carruagem de 2ª Classe abriu-se. Todos se viraram para lá.

 

Antecedendo a sua passada, um cavalheiro vestido com lustrosa casaca, camisa alva folhada, chapéu alto e negro luzidio, estendeu a bengala de punho encrustado por prata sobressaída em expressivos desenhos.

 

O trompetista suspendeu o sol sustenido.

 

O aristocrata avançou dois passos.

 

Levantou a bengala.

 

Apontou-a ao músico.

 

E. com pausada solenidade, disse:

 

- O sr. é um trompetista de primeira. Venha para a minha carruagem tocar!

 

Uma entusiástica salva de palmas ecoou  pelo Vale de OURA, fazendo até tremer os sinos e as sinetas de todas as igrejas e capelas das redondezas!

 

 

M., dezassete de Fevereiro de 2018

Luís Henrique Fernandes

 

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