Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

18
Mar19

O Barroso aqui tão perto - Barracão

1600-barracao (2)

montalegre (549)

 

Neste “andar” por todo o Barroso, um dia tínhamos de parar aqui, numa das suas “estações de serviço”, por sinal uma das mais antigas que conheço e penso que durante muitos anos foi a única da EN103 entre Chaves e Braga. Refiro-me ao Barracão, mais uma localidade do Barroso de Montalegre. É para lá que vamos hoje.

 

1600-barracao (56)

 

O Barracão é uma das localidades que há mais tempo conheço, para além de Montalegre, e por sinal um lugar simpático que durante muitos anos era de paragem obrigatória e, ainda vai continuando a ser. Acontece que as minhas primeiras grandes viagens de carreira eram para Montalegre ou Braga e que eu recorde, no Barracão era o único sítio onde se fazia uma paragem mais prolongada, de 15 a 20 minutos, onde se podia sair da carreira para ir ao bar botar um copo,  fazer um chichi, esticar as penas, apanhar ar, o que fosse, mesmo para fumar um cigarro ao ar livre, sempre sabia melhor que dentro da carreira. Recordemos que antes se podia fumar dentro dos transportes públicos, até havia cinzeiro nas costas dos assentos e curioso é que era um acto que parecia não incomodar ninguém, pelo menos ninguém reclamava.

 

1600-barracao (55)

 

Gosto de chamar “Estação de Serviço” ao Barracão, e de facto assim era quando a carreira Chaves-Braga ou Braga- Chaves lá fazia escala, não só paras as coisas que atrás enunciei, mas também porque era lá que se fazia escala e tinha de mudar de carreira para ir para Montalegre. Uma “Estação de serviço” que fazia serviço público, pois o bar servia as pessoas naquilo que necessitavam, mesmo como sala de espera, mas para além disso, sempre recordo por lá as bombas de gasolina e penso que pro lá sempre se fizeram negócios ou vendiam coisas, sobretudo ligados com a agricultura, pelo menos ainda por lá existe um testemunho de tal acontecer expresso num portão “foskamónio”, um adubo de fundo para todas as culturas, segundo a publicidade.

 

1600-barracao (73)

 

Pois além destas recordações de outros tempos, pelo menos das viagens nas carreiras cinzentas do Tio Magalhães e depois as da Rodoviária Nacional (mais coloridas), penso que hoje nenhuma carreira faz este trajeto direto, no entanto, a verdade é que o Barracão mantém as suas funções de Estação de Serviço, continua por lá o bar e restaurante, as bombas de gasolina e pela certa que ainda algum negócio, pelo menos é lá que está instalado o Matadouro Regional do Barroso e Alto Tâmega, S.A. .

 

1600-barracao (77)

 

De resto, para além da “Estação de Serviço” e espaço de armazéns, mais ou menos tantos como casas de habitação, o Barracão não tem características de uma aldeia tradicional. Penso que nunca teve escola, também não lhe conheço igreja ou capela, e ao todo, entre armazéns, construções de habitação e instalações do matadouro, serão umas vinte construções, repartidas de um e outro lado da EN103. Não se se entre a sua população haverá gente que chegue para fazer uma equipa de futebol, mas o Barracão tem campo de futebol, que por estes lados não são apenas para se jogar futebol, pois é(ra) também campo para as chegas de bois, que penso também têm um significado especial no Barracão.

 

1600-barracao (67)

 

Quanto às imagens que hoje ficam por aqui, foram sendo recolhidas ao longo das nossas passagens pelo Barracão. Apenas a última recolha foi mais pensada e demorada, que deu para subir à croa de uma pequena elevação cuja cruz (cruzeiro) nos apelava a uma visita. E em boa hora lá fomos.  Pelo que pude ler numa placa colocada na base da cruz, foi mandada construir por Fernando de Moura em 1970 e foi erguida em honra do Senhor dos Perdões, que pela certa terá o poder de a todos perdoar…

 

1600-barracao (51)

 

E hoje respondo a um amigo e companheiro em muitas destas descobertas do Barroso que subiu comigo ao cruzeiro do Senhor dos Perdões. Claro que mesmo lá se tivesse dado o milagre da iluminação dos passos, não foi para a joelhar e rezar que lá subi, nem para captar a nudez crua das terras de um Barroso que eu vejo coberto de belíssimos tapetes verdes ou dos mais nobres carvalhais, onde mesmo nas terras mais altas de Portugal há sempre espaço para um belíssimo tapete, que mesmo não subindo em altura se eleva em beleza que quando em flor se enche de matizes,  parecendo espelhar nele as cores arco-íris desde o lilás-roxo-violeta da urze-erica-torga ao amarelo da giesta ou da carqueja, e outras espécies de flora e fauna que a virgindade do olhar sempre nos mostra, mas é na croa dos montes e elevações que nos purificamos, sim, porque por lá o ar é outro, estamos mais perto do Céu e vê-se o mundo todo, sem ser necessário ajoelhar, rezar ou ter cruzeiros, com todo o respeito que por eles tenho e acreditar que tem a sua nobre missão de guiarem quem anda perdido e é perdoado pelo Senhor dos Perdoes de quem tem fé, muito para além dos momentos zen que lá se desfrutam.

Mas gosto da foto, do milagre da iluminação e do poema :

(https://andanhos.blogs.sapo.pt/palavras-soltas-o-cruzeiro-do-senhor-60660)

 

1600-barracao (5)

 

E com esta passemos à forma de chegar ao Barracão, ou melhor, ao itinerário que nós recomendamos, pois todos os caminhos vão dar ao Barracão. Pois, com o ponto de partida sempre desde a cidade de Chaves,  nós recomendamos mais uma vez o trajeto via S.Caetano, Soutelinho da Raia, Meixide, Pedrário, Serraquinhos, Zebral, Vidoeiro, Cortiço (ao lado) e finalmente o Barracão. Mas se é daqueles que quer ir mesmo direto, apanhe a EN103 e direção a Braga, deixe-se ir sempre por ela e quando aparecer a placa Barracão, está lá.  Que seja por um lado ou pelo outro, a distância é semelhante, trinta e poucos quilómetros no total.

 

mapa-barracao.jpg

 

Passemos às nossas consultas sobre o Barracão, como sempre no livro Montalegre, onde apenas se refere ao Barracão como um lugar da freguesia de Cervos e à Toponímia de Barroso que pouco mais diz:

 

1600-barracao (65)

 

Barracão

É um topónimo (o lugarejo do Barracão) relativamente novo, mas não o vocábulo. Provém de “barraca” = “barra + aca” e significa edifício. Barra, por sua vez, tem raízes pré-romana, tal como Barroso – barr – a que podem juntar os mais variados sufixos criando uma família toponímica enorme que já estudámos no topónimo Barroso.

 

1600-barracao (70)

 

E pouco mais haveria para dizer sobre o Barracão se lá não tivesse nascido um Senhor que foi batizado com o nome de Fernando Gonçalves de Moura, ou Fernando do Barracão que pela sua vida e obra é mais um dos ícones do Barroso, com três livros publicados e uma vida inteira dedicada às chegas de bois do Barroso.

 

1600-barracao (18)

 

Fica um pouco da sua biografia que não está completa, mas que completaremos logo que possível.

 

1600-barracao (62)

 

Fernando Moura

Fernando Gonçalves de Moura, nasceu no lugar do Barracão, concelho de Montalegre, em 14 de Novembro de 1930, de um lar de 6 irmãos. Fez a quarta classe, para o que teve de andar de escola em escola, porque nem todas as aldeias tinham professora. Mais tarde completou o sexto ano no ensino recorrente. Foi quase tudo na vida em que um Barrosão se pode envolver: Começou como pastor de ovelhas e de cabras. Seguiu-se um período em que teve de trabalhar ao balcão do comércio do Pai – o Abel Moura – que era a estação de serviço da época, no cruzamento do Barracão, onde se fazia o transbordo dos passageiros das camionetas para Braga, Chaves e Montalegre. Entretanto envolveu-se nas mais diversas modalidades do desporto. Foi ciclista, atirador de malhão, apaixonado (até hoje) pelas «chegas de bois», caçador, um acérrimo adepto do F. C. do Porto…

 

1600-barracao (53)

 

Em 1951, Fernando Moura prestou serviço militar no Bat. Caç. 1, sendo «impedido» do então capitão António de Spínola, durante seis meses. Ao fim de 32 meses regressou ao Barracão, onde arregaça as mangas. Comprou uma camioneta comercial, distribuindo todo o tipo de produtos regionais: batata, vinho, presunto, hortaliças, enfim, tudo o que a terra dava. Em 1959 casa com Ana Lima de Moura, de Vila Verde da Raia, professora em várias escolas de Barroso. Dela teve três filhos: A Cacilda Moura, hoje professora catedrática da Universidade do Minho, o Fernando Abel e a Dina Paula. Ao filho cedeu a distribuição do gás e a parte agrícola, mantendo ele a gestão do posto de combustíveis e a representação de seguros, em que se profissionalizou.

 

1600-barracao (11)

Vistas desde o Cruzeiro do Senhor dos Perdões

Em 1995, Fernando Moura publicou o seu primeiro livro: «Barroso e as chegas de bois», onde relata 167 «chegas». Na Rádio Montalegre mantém, desde há anos, o programa «Espaço Público – chegas de Bois» de que recentemente a RTP fez uma reportagem, ao vivo, para todo o espaço onde ela chega. No associativismo tem uma acção notável: social, cultural, desportiva, recreativa, profissional e até genealógica, uma vez que se lembrou de realizar anualmente a festa dos «Mouras».

 

1600-barracao (9)

Vistas desde o Cruzeiro do Senhor dos Perdões

Fernando Moura fundou o Clube de Caça e Pesca, a Associação etnográfica «O Boi do Povo», a Associativa de Caça do Leiranco etc. «A Vida de um Barrosão», livro que ora aparece, é o corolário de toda esta vivência que o honra e honra todos os Barrosões, vivam eles onde viverem.

Em agosto de 2008 lança o seu terceiro livro, “Cruzeiros e Alminhas”.

Em 2016 foi homenageado pela Câmara Municipal de Montalegre e agraciado com a Medalha de Mérito Municipal.

 

1600-barracao (8)

Vistas desde o Cruzeiro do Senhor dos Perdões

 E é tudo por hoje, no próximo fim-de-semana teremos aqui mais uma aldeia do Barroso.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

WEBGRAFIA

 

https://www.cm-montalegre.pt/

 

 

 

 

 

11
Mar19

O Barroso aqui tão perto - Antigo de Viade

1600-antigodeviade (30)

montalegre (549)

 

Geralmente às segundas-feiras fazemos o regresso à cidade, mas hoje, para ser diferente, apenas vamos passar pela cidade, seguimos em direção ao São Caetano, paramos lá, não para cumprir promessa, rezar ou meditar, mas para encher a garrafa de água fresca para o resto da viagem, depois seguimos em direção a Soutelinho da Raia sem entrar na aldeia, pois logo no início vamos virar à esquerda e, umas centenas de metros à frente,  entramos no concelho de Montalegre, mas antes, imediatamente antes de entrarmos em Montalegre, paramos no alto,  junto ao grande penedo, para deitar um olhar sobre a Serra do Larouco, é dali, que a serra mostra toda a sua imponência e se transforma no Deus Larouco, daí, ser paragem obrigatória.

 

1600-antigodeviade (3)

 

Bem, poderia continuar a descrever o resto da viagem e o que iria acontecer, mas na realidade esta viagem já foi feita, e o que vai ficar por aqui é aquilo que vimos na aldeia barrosã convidada de hoje, Antigo de Viade, a última da trilogia de aldeias com o topónimo de Viade. Se calha, esta, Antigo de Viade, até deveria ter sido a primeira, mas calhou para o fim, pois primeiro fomos até Viade de Baixo, depois a Viade de Cima e hoje, sim, fica Antigo de Viade.

 

1600-antigodeviade (8)

 

Pois regressemos ao trajeto que fizemos até lá, um dos nossos preferidos para entrar no Barroso, e recordemos que o nosso ponte de partida é sempre a cidade de Chaves. Pois preferencialmente vamos via São Caetano, passamos por Soutelinho da Raia, entramos no concelho de Montalegre e logo na primeira aldeia, Meixide, deixamos a estrada principal que nos levaria até Montalegre, via Vilar de Perdizes, e viramos em direção a Pedrário e logo a seguir entramos em Sarraquinhos onde de novo abandonamos a estrada que também nos levaria até Montalegre para apanharmos uma outra que nos levará até Zebral, Vidoeiro e o Barracão, onde apanhamos a EN103 em direção a Braga, logo a seguir vai-nos aparecer a barragem dos Pisões (à esquerda) e depois de passarmos pela Aldeia Nova do Barroso, São Vicente, Travassos da Chã, Penedones e Parafita, ainda tendo a barragem dos Pisões por companhia, saímos da EN103 (à direita) para finalmente entrarmos em Antigo de Viade.

 

1600-antigodeviade (7)

 

Viramos à direita mas também à esquerda, entre a EN103 e a Barragem já há casario que pertence à aldeia, mas trata-se de casario mais recente e de certeza que não me engano, trata-se de casario que só foi construído depois da construção da barragem em meados do século passado. Mas o nosso destino é mesmo a antiga aldeia de Antigo de Viade, embora depois de a termos visitado também fomos deitar uns olhares à barragem e ao viveiro das trutas. Para melhor esclarecer este trajeto, fica o nosso habitual mapa.

 

antigo-viade-mapa.jpg

 

Quanto ao regresso a Chaves, como de costume, propomos um itinerário diferente e que poderá ser a EN103, ou seja, voltamos para trás e no Barracão em vez de tomarmos o trajeto de ida, continuamos pela EN103 até Chaves.

 

1600-antigodeviade (5)

 

Entremos em Antigo de Viade, que sem ter qualquer documento (para já) em que me apoiar, suponho que será a mais antiga das três aldeias que adotaram o topónimo de Viade. Pois, em geral, costumámos surpreende-nos pela positiva quando entramos pela primeira vez numa aldeia, mas desta vez, tal não aconteceu, tudo porque depois de termos passado por Viade de Baixo e Viade de Cima, só ficaríamos surpreendidos se Antigo de Viade, no que respeita a aldeia típica barrosã,  ao casaria e à envolvência não estivesse a par ou à altura das outras duas. Claro que tem as suas singularidades e é diferente das outras, mas igualmente interessante, pelo que recomendamos e merece ser visitada.

 

1600-antigodeviade (31)

 

Do que mais gostámos de ver em Antigo de Viade, para além do conjunto como aldeia, da verdura da sua envolvência e do espaço junto à barragem, podemos destacar a sua igreja com a torre sineira separada do edifício e localizada em frente à entrada principal, tal como vai acontecendo em outras igrejas do Barroso. Gostámos também de ter visto algumas recuperações de casario respeitando a traça original e do conjunto escola/recreio e a sua localização, já não gostámos tanto de a ver abandonada.

 

1600-antigodeviade (1)

 

Claro que para além do abandono da escola, também há outros pormenores que gostámos menos, tal como algumas ruínas, algumas casas abandonadas, o envelhecimento da população e, claro, a tendência ao despovoamento, ou seja, o costume nas aldeias mais pequenas e mais distantes da sede de concelho.

 

1600-antigodeviade (29)

 

Quanto às nossas pesquisas, no livro “Montalegre” ficámos um pouco baralhados, pois há muitas referências a Viade, simplesmente Viade, sem referir se é Viade de Cima, Viade de Baixo ou antigo de Viade. Aliás o Antigo de Viade não é referido nenhuma vez, pois a aldeia apenas aparece como Antigo, a única referência e apenas para dizer que faz parte da freguesia de Viade de Baixo, atualmente Viade de Baixo e Fervidelas.

 

1600-antigodeviade (2)

 

No resto das pesquisas também pouco mais encontrámos. Há no entanto no Facebook dos sítios com referências da Antigo de Viade, uma página e um grupo, ficam os links:

 

https://www.facebook.com/antigo.deviade

https://www.facebook.com/groups/156309271139920/

 

1600-antigodeviade (27)

 

Quanto a “Toponímia de Barroso” temos o seguinte:

 

Antigo de Viade

 

Nasce do adjectivo latino ANTIQUU > ANTICO > ANTIGO, mas com idêntica significação. Sendo adjectivo há que subentender o substantivo perdido. É natural que fosse algum casal, vilar ou construção arqueológica que se desconhece qual fosse. Mantém-se o topónimo que recorda o facto.

 

1600-antigodeviade (10)

 

Ora assim sendo, vamos ao topónimo de Viade, que Antigo de Viade também tem:

 

VIADE

 

Desde 2013 – União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas

 

É o genitivo do nome pessoal Beatus; “villa” BEATI>BIADE>VIADE.

Podia ser escrito Biade pois o topónimo já em:

-1258 «Sancte Marie Biadi» INQ 1514 estava sedimentado. De igual modo a forma encontrada em

-1288 « de Sancta Maria de Biady» (Com o y dos ditos amigos sdo pedantesco arcaísmo) INQ N.A. – 492. Nas inquirições de

- 1282 «…isto he en termyo de Biadi». Aqui voltamos à forma final/inicial – onde apenas faltava o e mudo terminal cujo i já assim devia soar.

 

1600-antigodeviade (26)-1

 

Quanto à “Toponimia Alegre” integrada na “Toponímia de Barroso” temos em relação a Antigo de Viade:

 

Justiça do céu te caia,

De Deus te venha o castigo,

Porque te foste casar

No deserto do Antigo.

 

1600-antigodeviade (19)

 

 E mais esta:

 

Adeus lugar do Antigo

Tens um chafariz no meio

Onde os homens vão beber

Com a cabeçada e freio.

 

1600-antigodeviade (6)

 

A mais esta ainda:

 

Dizem os do Antigo:

Ao clérigo-frade

Nem por amigo

Nem por compadre

 

1600-antigodeviade (18)

 

Também aqui:

 

Cávado – Regavão:

 

Leirões de Lamas,

Lagartos de Fervidelas,

Conhadeiros de Bustelo,

Boleteiros de Friães,

Ladrugães, esfola-gatos mata-cães,

Manta-moura de Reigoso,

Chinos de Currais,

Porcos de Sacoselo,

Ovelhas de Pondras,

Fanhos de Travaços de Chã,

Penedos de Penedones,

Tomba-malgas de Parafita

Ó derrim pó-pó

Cabra velha arroz pró pote!

Corta-matos do Antigo,

Esfola-cabras de Viade

Arribadas de Viade de Cima,

Machuchos da Vila

Cambados de Cambeses

(…)

 

1600-antigodeviade (9)

 

E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade ou mail.

 

1600-antigodeviade (54)

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

 

 

10
Fev19

O Barroso aqui tão perto - Codeçoso da Venda Nova

1600-codessoso-vn (117)

 

Nesta nossa peregrinação pelo Barroso hoje vamos até Codessoso ou talvez Codeçoso ou ainda Codessoso do Arco, ou mesmo Codessoso da Venda Nova, pois sinceramente não sei qual é o topónimo correto, dependendo da fonte onde for beber, o topónimo aparece grafado nestas quatro formas. Para mim é Codessoso da Venda Nova, isto por conveniência e para distinguir a aldeia de outras da proximidade que adotaram o mesmo topónimo, como é o caso de Codessoso da União de freguesias de Meixedo e Padornelos também do concelho de Montalegre, ou Codessoso do concelho de Boticas ou ainda Codessoso de Celorico de Basto. No entanto, no que resta do post, para não estar sempre a escrever Codessoso da Venda Nova, vou ficar-me só por Codessoso.

 

1600-codessoso-vn (112)

 

Também esta aldeia tem direito ao seu merecido post aqui no blog, mas, para ser sincero, esteve para não acontecer assim, pois inicialmente tinha programa que esta aldeia entrasse em conjunto com a Venda Nova e Padrões, pela simples razão que não tinha fotos suficientes da aldeia para justificar uma publicação isolada. Tal como já tive oportunidade de o dizer aqui noutras ocasiões, às vezes o cansaço, as condições meteorológicas e a falta de inspiração, tolhem-nos ou toldam-nos um levantamento fotográfico como deve de ser, sobretudo quando tal acontece durante o período da tarde, que cada vez mais me convenço que as tardes não são amigas da fotografia, exceção para a hora doirada do entardecer.

 

1600-codessoso-vn (2)

 

A primeira vez que fui a Codessoso com intenção de a fotografar, aconteceu em junho de 2017, recordo que foi um dia de muito calor. Dei uma volta pela aldeia que se localiza mais junto à barragem, fiz os registos que me atraíram e depois atravessei a estrada e entrei na restante aldeia, de onde saí sem nenhuma foto. Já depois de ter decidido que Codessoso não estaria aqui sozinha, numa descida para a Venda Nova vindo de Salto,  o meu olhar foi atraído pelo conjunto da aldeia que se via ao longe. Chegado a casa, revi novamente as fotos que tinha em arquivo de Codessoso e verifiquei que talvez estivesse a ser injusto com esta aldeia. Aí ficou decidido que faria nova passagem por lá para ver o que me tinha escapado.

 

1600-codessoso-vn (103)

 

No dia 29 de dezembro passado fui propositadamente a Codessoso, e aí sim, não só tomei alguns registos dentro da aldeia, como subi novamente ao lugar da Venda Nova desde onde a aldeia se poderia ver no seu todo e dei-me conta que seria imperdoável não ter feito estes novos registos, com realce para o conjunto que se vê desde esse local e para a composição que desde aí se conseguia em, numa imagem apenas, dar a conhecer a magia que o Barroso tem. Refiro-me à composição da primeira imagem que abre este post   que mostra algumas das singularidades do Barroso verde e agreste, da água, rios e albufeiras, do endeusamento das suas serras, no caso a Serra do Gerês que se vê em último plano, da pequena península onde mora o tal Codessoso junto à barragem. Uma imagem que mostra bem esta pérola do Reino Maravilhoso.

 

1600-codessoso-vn (24)

 

Como diz Torga, “Reinos Maravilhosos (…) O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração”, vou fazendo o exercício de não esquecer estas palavras de Torga, mas tal como disse no início, às vezes, por cansaço, falta de inspiração ou mesmo até desleixo, perdemos essa tal virgindade original do nosso olhar, e para o Barroso temos que ir sempre puros, virgens, senão corremos o risco de nos passar ao lado e perdemos “a magnificência da dádiva”.

 

1600-codessoso-vn (99-100)

 

Pintado assim o Barroso como uma pérola do Reino Maravilhoso quase somos levados a crer que é o paraíso, e até poderia ser, mas não o é. É terra difícil de se viver,  de tão ingrata que é, chega a doer, não só viver nela como ainda o é mais ser obrigado deixá-la para trás, pela necessidade que fala mais alto, e tudo poderia ser diferente, se o sol, como dizem, nascesse para todos, mas não!

 

1600-codessoso-vn (1)

 

Sem ignorar o que atrás disse, passemos à frente, pois existe sempre a esperança de que um dia se faça justiça, afinal de contas esta sina já não é de hoje e tal como como os de lá de baixo dizem que nós já estamos habituados ao rigor dos nossos invernos também vamos estando habituados ao resto, que até pode ser mentira, mas pelo menos alimenta o nosso orgulho… e por mim, antes orgulhoso do que conformista.

 

1600-codessoso-vn (108)

 

Vamos então até ao Barroso aqui tão perto, pois vamos esquecendo que este blog é feito a partir da cidade de Chaves e que estas incursões no Barroso, não são mais que um convite a uma visita à descoberta das belezas barrosãs, que essas ninguém lhas tira.

 

1600-codessoso-vn (85)

 

Pois então vamos lá, até Codessoso da Venda Nova e a melhor referência é mesmo a Barragem da Venda Nova, que como já referimos Codessoso em parte, é mesmo uma península que entra pela barragem adentro, mesmo antes de se chegar à Venda Nova.

 

1600-codessoso-vn (35)

 

Quanto ao itinerário a seguir, o mais convidativo para lá chegarmos bem e depressa é mesmo a Estrada Nacional 103 Chaves-Braga, mas como para estes passeios não devemos ir com pressas, eu recomendo mesmo uma das outras alternativas.

 

1600-codessoso-vn (76)

 

Desta vez e de modo a podemos desfrutar da imagem de boas-vindas à aldeia de Codessoso com o postal que se vê desde o alto da Aldeia da Venda Nova, proponho o itinerário via Boticas e Salto. Com saída de Chaves pela EN103 até Sapiãos e aí rumamos em direção a Boticas, tomamos depois a R311 em direção a Salto, sem entrar em Salto, pois antes deveremos tomar a estrada que nos levará à Venda Nova e de regresso à EN103. Chegados à Venda Nova, viramos em direção a Chaves e logo a seguir, quase junta à Venda Nova temos Codessoso. Para o regresso a Chaves, aí, poderá vir sempre pela EN103. Mas fica o nosso habitual mapa para melhor orientação.

 

CODECOSO-mapa.jpg

 

E vamos ver o que os documentos, livros e outros dizem sobre Codessoso, começando pelo livro Montalegre que nos leva par “O último enforcado em Montalegre”. Como o texto é longo, se quiser retome o post após a citação, mas recomendo a leitura, pois é história é interessante:

 

O último enforcado em Montalegre

 

Diz-se que quem conta um conto aumenta um ponto. Hoje, o conto não pára por aí. Há quem, ao recontar o conto e até a história, lhe aumente meia dúzia de pontos.

Todavia, o último enforcado em Montalegre constitui um facto histórico graças ao meu inolvidável amigo, José Jorge Álvares Pereira, que em boa hora decidiu resgatar às garras do mito e da lenda, atendo-se aos documentos escritos duma testemunha contemporânia e que assistiu à execução da pena.

O texto que aparece entre aspas é fruto da tradição, o que vai em itálico é do Padre José Adão dos Santos Álvares, que o publica na Revista Universal Lisbonense, tomo II, página 142-144, e que Álvares Pereira consultou.

Há apenas duas coisas que o próprio tribunal não dilucidou e que o pobre criminoso (como em toda a matéria acusatória) não se importou em esclarecer: é o nome oficial do criminoso e a confissão dos crimes de que foi acusado.

Na povoação de Codessoso do Arco (é este o verdadeiro topónimo) “nasceu, em 1815, José Fernandes, filho natural de Senhorinha Fernandes. Tinha uma irmã, igualmente filha de pai incógnito e a que a história não recorda o nome”. Estes Fernandes eram conhecidos pela alcunha de “Gaios de Codessoso” que, entre nós, as famílias também podem ter alcunhas.

Como o rapaz não se dedicasse a nenhum ofício e andasse sempre de vago, puseram-lhe a alcunha de “Bagueiro”. Aliás, é termo muito ofensivo, que se dá também aos burros e que o resto do país mal conhece enquanto tal. Os nossos dicionaristas ignoram-no por completo com tal sentido. Não admira pois que o próprio correspondente da revista, mas não o tribunal, lhe juntasse ao nome a alcunha “Begueiro”, pronunciada (e escrita) à moda do Minho. A verdade é que o homem, de  22 anos, de relações cortadas com o trabalho e sem rendimentos teria de arranjar meio de subsistir. “Roubava”.

Encontrando-se um dia na taberna das Alturas, viu ali entrarem para comer dois viajantes de Braga: a “viúva Inácia Joaquina e o menor Francisco Baptista”.

 “Diz-se que tinham ido a Chaves buscar uns magros tostões que dois canteiros seus familiares ganhavam na reconstrução das muralhas. Comida a bucha, a mulher pagou e disse ao taberneiro: Graças a Deus que ainda aqui levo trinta reis! Saíram mas foram logo seguidos pelo Bagueiro que lhes apareceu, fora do povo, oferecendo-se para lhes indicar o melhor caminho para Braga. Quando chegaram ao descampado enorme, onde mora a Senhora do Monte, o Bagueiro pediu à mulher os trinta mil reis! Quando a viúva lhe ia a dizer que só tinha trinta reis, já caíra morta. O mesmo aconteceu ao rapaz logo a seguir. Foi preso, um mês depois, na taberna de Codessoso. Conduzido à Senhora do Monte, onde ainda estavam os cadáveres, confessou apenas que os tinha acompanhado. Foi julgado, quase quatro anos após o crime e condenado à pena de morte na forca. A execução da pena demorou mais um ano e meio; aconteceu a 17 de Setembro de 1844, devido ao pedido de clemência dirigido à rainha D. Maria II. Pedido rejeitado.

Corre entre nós a versão ridícula de que o condenado, já no patíbulo, terá pedido a presença da mãe para se despedir. Então, em vez do beijo de despedida, ter-lhe-ia cortado o nariz com uma feroz dentada. Episódio inventado e torpe.

A sentença resume-se ao seguinte: É acusado o réu José Fernandes, solteiro, trabalhador… primeiro, de ter num dos dias do mês de Abril de 1838, na serra das Alturas, assassinado e roubado a Inácia Joaquina… e Francisco Baptista…; segundo, havendo-os previamente enganado… e fazendo-lhes crer que havia passagem de tropas nas Alturas (sic) e que deviam evitá-las; terceiro, de ter, na ocasião em que foi preso, em uma taberna do lugar de Codessoso da Venda Nova, no dia 21 de Maio 1838, sido encontrado com um pau de chuço, uma choupa e uma faca de ponta aguda.

Circunstâncias agravantes apontadas no libelo:

 … ao se encontrar junto aos cadáveres dos assassinados um chapéu velho pertencente ao réu;

… se ter visto a este nos últimos dias do mês de Abril um capote velho cor de pinhão que algumas pessoas asseveraram tê-lo visto ao falecido Francisco Baptista;

… sendo conduzido o réu ao lugar em que se achavam os cadáveres… já meios consumidos e devorados, ali confessou ter acompanhado os referidos indivíduos assassinados por caminhos transversais;

… finalmente, … o réu padece notas de opinião de ladrão, salteador e assassino.

Alusão do juiz à defesa do réu:

- Defende-se o réu alegando que é um cidadão bem comportado, que ganha a sua vida honestamente por meio do trabalho e que nunca padeceu notas de ladrão, salteador ou assassino e que nunca usara de armas defesas e que as que foram encontradas na casa em que foi preso não eram suas.

- Portanto, pelo que dos autos consta em vista da decisão do júri e os princípios de direito criminal em que me fundo, condeno o réu José Fernandes, solteiro e jornaleiro do lugar de Codeçoso da Venda Nova, a morrer morte natural para sempre, levantando-se para esse fim uma forca no lugar do Toural desta Vila. Pague o mesmo réu as custas dos autos.

Audiência geral em Montalegre, 21de Janeiro de 1842.

João Carlos de Oliveira Pimentel

O autor do relato desta execução é o padre José Adão dos Santos Álvares que também se assinava José Adão dos Santos Moura. Foi filho do médico José dos Santos Dias, ambos naturais do Cortiço, freguesia de Cervos. O Padre, ao tempo, paroquiava São Vicente da Chã e era correspondente de várias publicações além da Revista Universal Lisbonense. Ao enviar a notícia 3502 à Revista prestou-nos um excelente serviço enquanto barrosões e cidadãos. Contudo, comete pequenos lapsos exclusivamente devidos ao isolamento em que as povoações viviam. E parece que soou a hora de relatarmos apenas o que realmente é, sem ofensa para ninguém, nem receio de dizer a verdade.

O réu chamava-se José Fernandes, por alcunha o Vagueiro, filho de Senhorinha Fernandes, da casa dos Fernandes, por alcunha os Gaios, de Codessoso do Arco, antiga freguesia de São Simão e, agora, lugar da freguesia de São Pedro da Venda Nova. O vocábulo Begueiro foi importado do Minho. Os Barrosões, querendo significar o animal de carga, o burro, dizem vagueiro, ou melhor Bagueiro . E era assim que chamavam ao José, dos Gaios de Codeçoso – o Bagueiro!

Veio o réu da cadeia da Relação, no Porto, (onde alguns anos depois foi cair o célebre romancista Camilo mais a sua paixão). Trazia uma escolta de cinquenta soldados de Infantaria nº2 e foi despedir-se de sua mãe e da irmã a Codeçoso continuando em direcção à Capelinha da Senhora do Monte. “Consta que a sua infeliz mãe, uma desgraçadinha viúva o seguiu longo tempo na mais viva consternação e que obrigada a tornar para trás, caiu de cama onde se conserva”. Assim se rejeita a tradicional cena do beijo uma vez que a mãe não assistiu à execução. 

O Bagueiro chegou a Montalegre, “no dia 13 de Setembro de 1844, pelas 10 horas e entra logo na prisão. Fuma constantemente e bebe água”.

Dia 1, ao meio-dia, chegam os executores; ele vê-os das grades da prisão e deixa a meio a refeição. Prestam-lhe apoio religioso (e psicológico) quatro padres, revezando-se ao longo do dia.

 “No dia 16 ouve três missas e comungou. A seguir deita-se e perde quase todo o alento de que vinha dando mostras. Para o fim do dia revela extremo abatimento; mostra-se compungido mas resignado; recita jaculatórias e beija repetidamente um crucifixo; não come, só bebe água. Enquanto batem as horas, conta-as e faz saber o tempo que lhe resta de vida. Reconcilia-se várias vezes porque quer morrer como cristão”.

“Diz-se que, de madrugada, as sentinelas adormeceram e ele veio ao Toural ver o patíbulo onde seria executado. Regressado à prisão acordou as sentinelas e disse-lhes que não fugira porque queria pagar os seus erros e ser recebido no paraíso”.

No dia 17 voltou a confessar-se. “São onze e meia; chega a irmandade da misericórdia e os executores com alva e corda entram; não desanima; vestem-no, cingem-lhe o baraço; ele se presta com toda a resignação e ajuda a acomodar as voltas da corda na prisão das mãos; saem para a praça do Toural, a pequena distância, a misericórdia com o painel de Nossa Senhora, um minorista com um crucifixo voltado para o padecente; segue-se este caminhando a pé acompanhado dos eclesiásticos… e os dois executores de casaco e calça preta… Chegam à Capela de São Sebastião, na dita praça onde o capelão da misericórdia celebra o santo sacrifício da missa; aqui o padre Manuel Caetano faz uma alocução ao réu e ao povo toda de sentimento e compunção… Dirigem-se para o centro da praça onde se ergue o patíbulo… o padre reza e exorta a uma forte confiança na protecção da Senhora e com breves e patéticas orações o anima a subir. Simões, o executor mais novo, o esperava já no cimo do patíbulo. O padecente pede novamente água, e depois ele próprio, com voz sonora e inteligível pede perdão a todos: dá adeus ao mundo, implora a protecção de Maria Santíssima… cede custosamente o crucifixo; lança-lhe o algoz o capuz.

… num choro geral e extraordinários alaridos dos espectadores anunciaram que tudo estava consumado. A execução diz-se que fora pronta; mas não tanto quanto por ventura o pede a humanidade.

O cadáver foi pela Irmandade da Misericórdia conduzido ao cemitério da Matriz”. A tudo isto assistiu, às carrachuchas de seu pai, uma criança de sete anos que foi meu avô. Dizia ele que a administração concelhia envidava esforços no sentido de que cada família se fizesse representar nas execuções das penas de morte “pela cabeça de casal” e o seu herdeiro mais jovem mas “em idade de razão”. Fica assim justificada uma assistência de cinco mil pessoas, o que constituía um terço da população residente no concelho de Montalegre por esse tempo.

A título de nota marginal, cumpre saber que estiveram presentes dois executores, vulgo carrascos. Um deles era o carrasco oficial e legal, natural de Capeludos de Aguiar, de seu nome Luís Negro. Foi um facínora abominável e soldado dos dragões de Chaves. Condenado à morte na forca viu a sua pena comutada em prisão perpétua ao aceitar, com paga por cabeça, o ofício de carrasco no funcionalismo dos tribunais. Mas, afinal, o Negro não tinha a alma tão negra como o pintavam! O padre José Adão não quis ver a execução toda mas nós sabemos que quem lançou o capuz ao réu foi o Simões (figura sinistra que pensamos ter sido um tal José Ramos Simões, assassino confesso e condenado à pena máxima. Foi-lhe também comutada a pena por ter aceitado ser executor de Alta Justiça. Era ele a quem o Negro pagava para lhe fazer o serviço e, pelos vistos, fazia-o bem por ser de avantajada estatura. Lançou-se, abraçado ao condenado, para que com o seu peso a morte lhe chegasse mais depressa. O Luís Negro, carrasco legal, pagava portanto do seu bolso a quem fizesse tal serviço e desse o fatal abraço ao condenado! É o que diz o Visconde de Ouguela no seu trabalho “O último carrasco”; o Camilo, nas “Noites de Insónia”, o dá a entender e o padre José Adão na sua notícia para a revista e eu aprendi de meu pai e tios.

De todo o modo, o Luís Negro não levou muito trabalho, desse dia em diante, com execuções, a norte do Mondego. Com efeito, só pagou e recebeu estipêndio em mais duas execuções: a do Manuel Pires, natural da Rua, concelho de Sernacelhe, salteador e assassino conhecido por Russo da Rua, enforcado a 8 de Maio de 1845. O último acto rancoroso do comportamento ferino do Russo deu-se “quando já pendente nos ares e cavalgado do verdugo, mordê-lo rijamente na perna esquerda!” Dessa dentada safou-se o Luís Negro! Finalmente, a 19 de Setembro de 1845, no Largo do Tabulado, em Chaves, assistiu à execução de José Maria, o Calças. Andava, por esse tempo, muito acesa a luta contra a pena de morte. Para crimes políticos somos nós os pioneiros pois abolimo-la, em 1852 e para os crimes civis, em 1867.

Todavia, após a Patuleia foram rareando as condenações à pena capital e essas eram comutadas em penas perpétuas ou de degredo para as costas de África.

Mas Luís António Alves, por alcunha o Negro, executor de Alta Justiça, cumpriu integralmente a sua pena pois morreu na cadeia do Limoeiro, na primavera de 1874, vinte anos depois do Vagueiro de Codessoso. Paz às suas almas.

 

1600-codessoso-vn (13)

 

Só a titulo de curiosidade, refere-se no documento que atrás fica transcrito o último enforcamento em Chaves, o de José Maria, o Calças, em 19 de setembro de 1845, que ao que consta por cá (em Chaves), era natural da aldeia de Faiões, que muitas vezes, erradamente, também se diz ter sido o último enforcado em Portugal. Mas não, o último condenado à morte em Portugal e último enforcamento, foi o de José Joaquim Grande e aconteceu em 22 de abril de 1846. A pena de morte para crimes civis só seria abolida em 1 de julho de 1867, no entanto o código de justiça militar em Portugal manteve a pena de morte, que só seria abolida no pós 25 de abril, mais precisamente em 1976.

 

1600-codessoso-vn (16)

 

Por falar em mortes e mesmo sem haver pena de morte para tal, o facto é que o comunitarismo barrosão nas suas várias formas em que existia, também está condenado à morte, esta natural, vítima da modernidade, mas também do despovoamento rural. Boi do povo, por exemplo, penso que já não existe nenhum, fornos do povo ainda vão existindo, alguns ainda utilizados esporadicamente, vezeiras, a única que vi nos últimos tempos foi em Santo André, não sei se existirão mais. O que caiu em desuso quase total foram os tanques e lavadouros coletivos, hoje secos, sem água, apenas servindo para algumas expressões de “arte de rua”, revolta ou denúncias…

 

1600-codessoso-vn (71)

 

Até a natureza parece, ou está mesmo a ser vitima da modernidade, pelo menos em algumas irregularidades relacionadas com o tempo meteorológico, contudo, continua fiel a si própria quando nos surpreende com os seus fenómenos naturais, como os seus arco-íris, as suas auroras boreais, os seus reflexos (como o da última imagem), autênticas obras de arte, mas também aqui, principalmente nestas últimas, para as ver,  também é preciso “que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração”. Pois essas manifestações de arte estão lá, só não as vê quem não quer ou quem não pode.    

 

1600-codessoso-vn (80)

 

Continuemos ainda com a documentação disponível sobre Codessoso, agora com aquilo que diz a “Toponímia de Barroso”:

 

Codessoso do Arco

 

Atenção à grafia do topónimo: As formas intermédias constitutivas não autorizam o uso do ç.

Era e é uma família toponímica abundante, com derivações e flexões e significa um local de codessos, planta semelhante à giesta. Do latino cutissu (originalmente do grego cytissu) > codesso.

Este Codessoso já se chamou do Arco (e foi sede de freguesia, sob o orago de São Simão) devido à célebre Ponte Romana. Com Argote foi elevado à categoria de Praesidium, mansione da via prima, por manifesto erro de contagem das milhas romanas que aquele arqueólogo cometeu no que foi imitado por vários outros que o seguiram de olhos fechados como José Pinheiro e mais uma dúzia deles os tais que não vão às fontes!

 

1600-codessoso-vn (15)

 

Aqui volto de novo à questão da forma como o topónimo desta aldeia é grafado, e eu até sou do que vai às fontes, aos tanques, às minas e até torneira e chego a esta altura do campeonato completamente baralhado. A mim tanto me faz que seja Codessoso como Codeçoso, é-me indiferente, gostaria mesmo de saber é qual deles é o correto  O Autor da “Toponímia de Barroso” é perentório quando a respeito desta aldeia afirma (o sublinhado e realce é meu):  Atenção à grafia do topónimo: As formas intermédias constitutivas não autorizam o uso do ç.

 

1600-codessoso-vn (14)

 

O mesmo autor, no livro Montalegre reforça esta mesma ideia quando a respeito do “O último enforcado em Montalegre”, artigo que neste post transcrevemos atrás na integra, afirma (o sublinhado e realce é meu) : “Na povoação de Codessoso do Arco (é este o verdadeiro topónimo) “ . No entanto a bota não dá com a perdigota, nesse mesmo artigo do enforcado o autor escreve 6 vezes Codessoso com SS e 3 vezes Codeçoso com Ç. Mas no mesmo livro, ao todo, Codessoso com SS aparece 12 vezes, com Ç aparece 6 vezes, duas das quais, quando aborda a freguesia da Venda Nova, onde se afirma Os sublinhados e realces são meus): “ Lugares da freguesia: (4) Codeçoso, Padrões, Venda Nova e Sanguinhedo.” E logo a seguir, no texto:

“A nova sede de freguesia substitui o lugar de S. Simão de Codeçoso de Arco e passou a chamar-se São Pedro de Venda Nova, tendo andado anexa a Santa Marinha de Ferral. A antiga igreja que fora transferida do vale da igreja para Venda Nova acabou por ser afogada, como toda a povoação e o cemitério pelas águas da barragem que foi inaugurada em 1950, com pompa e circunstância e onde, no desfazer da festa, afogaram dez pessoas!”

 

1600-codessoso-vn (20)

 

Ainda o Codeçoso ou Codessoso, se fizermos um exercício e formos diretos à caixa de pesquisa na página oficial do Município de Montalegre, Codessoso com SS aparece-nos 2 vezes enquanto que Codeçoso com Ç aparece-nos mais de uma centena de vezes, sobretudo em documentos oficiais, como atas e outros. Ora, agora que estou a finalizar este post, caio na realidade e dou o dito por não dito, pedindo desculpas pela minha falta de coerência. Assim, no texto que é de minha autoria, onde escrevi Codessoso com SS deveria ter escrito Codeçoso com Ç, e este é definitivo: CODEÇOSO .

 

1600-codessoso-vn (75)

 

 E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

WEBGRAFIA

- https://www.cm-montalegre.pt/ (Consultado em 10-02-2019)

 

 

27
Jan19

O Barroso aqui tão perto - Montalegre e a Feira do Fumeiro

1600-barroso XXI (58)

montalegre (549)

 

Vamos lá até ao Barroso aqui tão perto, num dos dias em que todos os caminhos vão dar a Montalegre, desta vez para a Feira do Fumeiro, a 27ª edição. Assim sendo, hoje não há aldeias, pois também elas estão em Montalegre, e também não há itinerários recomendados, pois qualquer um serve desde que se chegue até à Vila de Montalegre e à feira do fumeiro.

 

1600-barroso XXI (9)

 

Embora o nosso destino seja a feira, há tempo ainda para umas recomendações, pois a feira hoje no seu 4º dia, abrirá as portas pelas 10h da manhã e só encerrará às 20h. Há, portanto, muito tempo para feirar e para muito mais. Assim não vale a pena irmos cegos pela feira e até à feira, quero eu dizer, que pelo caminho também podemos ir em maré de apreciação, se lhes apetecer, têm tempo para passar e até parar algumas aldeias que nos vão ficar pelo caminho. Digo passar pelas aldeias, pois se formos simplesmente pela estrada que dá acesso a Montalegre, e suponho que desta vez todos irão via São Caetano, a estrada passa ao lado das aldeias. Se as quiser visitar, terá mesmo de sair da estrada principal, depois é só passar e parar se assim o entenderem, sem ser necessário voltar para trás, pois todas elas têm entrada e saída para a estrada principal.

 

1600-barroso XXI (85)

 

Chegados a Montalegre há também algumas visitas obrigatórias, que tanto poderão ser feitas de manhã como de tarde. Claro que o castelo é uma dessas visitas obrigatórias e a caminho dele o Espaço Padre Fontes do Eco-Museu do Barroso. Castelo que na sua intimidade tem uma leitura, mas à distância tem outro encanto, nem melhor nem pior, simplesmente diferente. Um dos pontos de apreciação obrigatória é logo imediatamente antes de entrarmos em Montalegre, após passarmos Meixedo. Vale a pena parar para uma foto, que esteja sol ou chuva, com neve ou sem ela, pois, a não ser que esteja nevoeiro cerrado, dá sempre uma boa foto. Tal como desde o miradouro da Corujeira, se não souber onde é, pergunte, pois também é um dos locais de visita obrigatória e desde onde se podem lançar olhares para muito mais além de Montalegre.

 

142-barroso XXI (142)

 

Com isto tudo já devemos estar na hora do almoço, onde neste dia é obrigatório comer o cozido à barrosã, que até poderá ser parecido ao cozido à portuguesa, mas que fica a léguas de distância. E perguntarão em que é o cozido à barrosã é diferente do cozido à portuguesa? - Pois em nada, mas em tudo. Começando pela qualidade do fumeiro, das batatas e das couves, e porque não, da água que vai cozer tudo. É que há fumeiro e fumeiro, batatas e batatas, e couve e couves. E no Barroso não se brinca com os sabores, têm de ser genuínos, com batata barrosã, couve barrosã e fumeiro barrosão. E nisto do fumeiro, quem é apreciador, sabe que de terra para terra (local para local ou região para região) o fumeiro é diferente, é assim um bocado como o vinho, é todo bom, mas diferente. Por falar em vinho, o Barroso não produz vinho, mas nos restaurantes e nas casas dos barrosões, em geral, bebe-se do melhor vinho que vai à mesa. Eles sabem sempre onde há para se abastecerem.

 

1600-lm (285)

 

Mas mesmo sendo parecido, o fumeiro é sempre diferente e de terra para terra os gostos também diferem. Claro que os produtos alimentares de cada região vão fazendo parte da nossa dieta alimentar desde que nascemos, pois começámo-los logo a comer, ou melhor, a mamá-los da teta das nossas mães. Eles irão ser responsáveis pelos nossos sabores e gostos.

 

1600-barroso XXI (145)

 

Pessoalmente, na minha dieta, sempre esteve o fumeiro de Chaves e o do Barroso, ambos de excelência, mas com pormenores que faziam toda a diferença e que só mais tarde comecei a entender. Um deles, são por exemplo as filhoses de sangue, que no Barroso fazem a delícia dos pequenos almoços e vão enganando o estomago durante todo o dia, e que em Chaves não se fazem e, a grande maioria do pessoal, nem sequer sabem que existem ou como são. Sorte a minha, que com mãe de Montalegre, pai de Vila Pouca e descobertos os sabores de Chaves, lá em casa fazia-se uma mistura de fumeiro com os sabores que mais gostávamos, onde as filhoses de sangue nunca faltavam. Quanto à batata e a couve, nestas três regiões aqui faladas (Barroso, Chaves e Vila Pouca) são de qualidade, e são estes produtos, em geral, que também fazem a diferença à mesa.

 

cartas da feira 19.jpg

 

Há ainda outras iguarias que fazem a diferença nestas coisas do fumeiro da região, algumas delas ligadas e nascidas nas necessidades das barriguinhas de tempos felizmente passados, em que era preciso inventar um pouco para levar comida com sabor à mesa, com o pouco que havia para comer. Hoje, algumas delas,  são consideradas iguarias, como por exemplo os milhos, mas outros há, que ainda hoje fazem parte da dieta, sabores e gostos de alguns, que ainda não chegaram às mesas dos restaurantes…  

 

programa-19.jpg

 

E ficamos por aqui, já com água na boca. Fica também o destaque do programa da feira para hoje, pois a qualquer hora, estando cá na terrinha ou na proximidade do Barroso, ainda lá podem dar um pulo.

 

 

 

 

20
Jan19

São Sebastião na Vila Grande - Couto de Dornelas

1600-vila-grande (3725)-18

 

Este ano não fomos até esta festa comunitária que se realiza na Vila Grande, freguesia do Couto de Dornelas em Boticas, sempre no dia 20 de janeiro. Não pudemos lá ir mas como temos imagens em arquivo, deixamos aqui quatro olhares sobre esta festa.

 

1600-vila-grande (3780)-18

Olhares sobre o mais significativo que vai desde a festa religiosa com a respetiva missa, bênção do pão e o beijar do santo. A lado pagão da festa também sempre presente com a música dos bombos e concertinas que nunca faltam em todas as edições.

 

1600-vila-grande (3899)-18

 

Mas o que mais atrai nesta festa, é mesmo a festa comunitária de dar de comer a todos quantos lá vão, com o pão, a carne de porco e o arroz que é distribuído de vara a vara a longo de uma mesa com centenas de metros ao longo da rua principal da aldeia.

 

1600-vila-grande (3805)-18

 

O nosso lamento, deste ano, vai apenas para o termos quebrado a promessa de lá ir em carne e osso, mas cumprimos a promessa aqui ao irmos lá em imagem, de arquivo, do ano passado. Para a ano lá estaremos de novo.

 

 

 

 

13
Jan19

O Barroso aqui tão perto - Chã e São Vicente da Chã

1600-s-vicente (45)

montalegre (549)

 

No “Barroso aqui tão perto” de hoje vamos até à Chã, ou melhor, até São Vicente da Chã, ou ambas, penso eu.

 

A passagem das aldeias do Barroso aqui pelo blog tem-se feito de maneira aleatória, isto porque alguma metodologia teria de seguir para as trazer aqui. Pensei inicialmente fazê-lo por ordem alfabética, mas para isso, na altura em que iniciámos esta rubrica, teríamos de ter o levantamento de todas as aldeias, o que não era o caso. Como sempre gostamos de ser surpreendidos, optámos por sortear a aldeia a estar aqui todos os domingos. Com alguma batota pelo meio, assim foi sendo. Acontece que a Chã calhou-nos em sorteio algumas vezes, mas tivemos de passar à frente e fazer novo sorteio, tudo isto porque desde início tive a dúvida de se a Chã e  São Vicente seriam duas aldeias, ou apena uma. Estudando a geografia do local e a proximidade daquilo que eu pensava ser São Vicente e a Chã, a distância entre ambas era tão pouca que me convenci ser apenas uma aldeia.

 

1600-s-vicente (18)

 

Pois sendo então uma única aldeia, outra dúvida surgiu. Qual era afinal o topónimo da aldeia? Apenas Chã, apenas São Vicente ou São Vicente da Chã?  

 

Na verdade a Chã é toda uma pequena região que em termos toponímicos, vai aparecendo colada como apelido ao topónimo principal, tal como Travassos da Chã ou Castanheira da Chã, além de a Chã ser a freguesia de uma série de aldeia. Foi talvez por isso, o ser freguesia, que me induziu em erro ou dúvida, pois em princípio, sendo freguesia, seria também aldeia, mas não é obrigatório que assim seja. Aliás no concelho de Chaves acontecem alguns casos idênticos em que a freguesia não é aldeia, como é o caso da freguesia de Stº António de Monforte  à qual pertencem as aldeias de Curral de Vacas e Nogueirinhas.

 

1600-s-vicente (14)

 

Assim, teremos mesmo de chegar à conclusão que aqui se passa o mesmo, ou seja, o topónimo da nossa aldeia de hoje será São Vicente da Chã, em que a Chã é também freguesia e região. Pois é por aí que vamos hoje, com fotografias de São Vicente da Chã mas aproveitando para falar um pouco de toda a freguesia e desta pequena região dentro do Barroso que dá pelo nome de Chã.

 

1600-s-vicente (40)

 

São Vicente da Chã é uma velha conhecida minha que vem do tempo em que aí me apeava da carreira Chaves-Braga para apanhar a ligação para Montalegre. Se bem recordo penso que assim passou a ser a partir de meados dos anos 70, pois antes recordo também que o apeadeiro e ligação a Montalegre se fazia a partir do Barracão para depois seguir via Gralhós.

 

1600-s-vicente (4)

 

Mas vamos então à Chã (região e freguesia) para depois ficarmos nos pormenores de São Vicente da Chã.

 

Ora a Chã, como o seu significado indica:

 

chã 
(latim plana, feminino de planus-a-um, plano, liso, uniforme, chato, fácil)

- Chão

 - plano ou extensão plana de terra.

- planície; planura; chapada; chada

- planalto

 

1600-s-vicente (39)

 

E de facto assim é, todas as aldeias que pertencem à freguesia da Chã estão em terras pouco acidentadas, em planalto a rondar a cota dos 900 metros de altitude. Conhecendo a região, penso mesmo que a Chã (região) vai muito além dos limites da freguesia e bem se poderia estender para todo o planalto do Larouco e outras freguesias vizinhas que estão todas em terra de planalto na cota aproximada dos 900m de altitude

 

BRASAO-CHA__1_1024_2500.jpg

1600-s-vicente (20)

 

Quanto à freguesia da Chã e segundo consta na página oficial do Município de Montalegre, temos o seguinte:

 

Ainda ostenta evidentes vestígios da sua importância constante nos tempos medievais e clássicos.

Cinco das suas doze povoações receberam a visita da estrada Romana – a XVII do Itinerário de Antonino: Penedones (Santo Aleixo), Travaços, São Vicente, Peireses e Gralhós. Pouco mais jovem que a via Romana é a ara que recentemente se achou em São Vicente – sinal inequívoco de que no outeiro (altarium) onde o cristianismo ergueu o templo românico, séculos antes, os povos que nos antecederam, aí adoravam o seu “Deus Óptimo Máximo”.

O mesmo lugar foi também do interesse dos reis de Portugal que o ofereceram como comenda às freiras de Santa Clara com mais duas freguesias anexas, num total de dezasseis povoações. O actual templo da freguesia é bem digno da mais atenta visita devido à obra patente dos Pintos de Donões, exímios artistas de Barroso.

 

1600-s-vicente (15)

 

Outros dados da freguesia:

- Área: 51 km2

- Densidade Populacional: 14.7 hab/km2

- População Presente: 752

- Orago: S. Vicente

- Pontos Turísticos: Igreja Românica e Inscrição votiva a Júpiter (S.Vicente); Ponte Velha (Peireses); Sepulturas Antropomórficas e Ara (Penedones); Via Romana (Gralhós); Cascata de Fírvidasl; Parque de lazer de Penedones.

- Lugares da Freguesia (12): Aldeia Nova, Castanheira, Fírvidas, Gorda, Gralhós, Medeiros, Peireses, Penedones, São Mateus, São Vicente, Torgueda e Travaços da Chã.

 

1600-s-vicente (6)

 

Pois aqui nos pontos turísticos, penso que são muito modestos e bem lhe poderiam acrescentar outros tantos, mas há pelo menos mais três pontos turísticos ou de interesse que seria obrigatório mencionar, deixando a paisagem natural de parte. Pois esses três pontos são: a Barragem dos Pisões; a gastronomia (restaurantes);  e as duas aldeias dos colonos (Aldeia Nova e S. Mateus), sem esquecer, claro, a arquitetura tradicional transmontana/barrosã das restantes aldeias.

 

1600-s-vicente (12)

 

São Vicente da Chã

Ainda antes de entrarmos nos pormenores, fica um conselho ou alerta – Não se deixe levar a crer que São Vicente da Chã é aquilo que vê desde a Estrada Nacional 103 ou da estrada que liga esta a Montalegre, pois não é assim, aí apenas verá o que é mais recente. As suas preciosidades, estão mesmo na e à volta da sua Igreja Românica, mas para isso, terá de sair da estrada nacional, tomar a estrada secundária (M509-1) e 250m à frente, abandonar esta última, virando à esquerda até chegar à Igreja Românica a apenas 150m. Aí sim, temos tudo, a cereja e o bolo.

 

1600-s-vicente (34-35)

 

Quanto à igreja Românica, para mim, é uma das mais interessantes que o Barroso tem, e nem sequer vimos o seu interior. Principalmente o enquadramento, mesmo com a torre sineira separada da igreja a esconder a sua fachada principal, ou será antes, com a torre sineira separada, mas a fazer parte da fachada principal da igreja.

 

1600-s-vicente (10)

 

Como dissemos não é só a igreja Românica, mas também o seu enquadramento e casario à sua volta logo seguido da exuberância do verde barrosão, que quando é verde é mesmo verde, cheio de frescura que as terras com água lhe dão. Neste conjunto, mais uma pérola do Barroso, apenas um reparo. Tal como diz o povo, no melhor pano cai a nódoa, e esta lá está, em forma de telhado em fibrocimento na construção mesmo em frente à igreja (15m). Não é por nada, mas destoa do conjunto, no entanto é de fácil reparo e ouro sobre azul, no reparo, era o telhado retomar a sua cobertura original, o colmo, nem que fosse e só para memória futura ou para a história das coberturas de colmo. Claro, eu sei que se trata de uma construção particular e que (talvez) não se possa exigir tal ao seu proprietário, mas aqui, como o interesse até é público e turístico, as pessoas são sensíveis a alterações e o Município, através ou com a Junta de Freguesia, poderiam e deveriam contribuir para a substituição e preservação do espaço envolvente da igreja.   

 

1600-s-vicente (32)

 

Depois deste pequeno conjunto que não é mais que o centro histórico de São Vicente da Chã, temos a paisagem, com muito verde, sobretudo de lameiros limitados por estremas de arvoredo autóctone, principalmente na baixa que liga à aldeia de Torgueda da Chã. Mais além, já na estrada que liga a Montalegre, outro tipo de cultivo, menos verde. Também nesse trajeto, um monumento religioso chama a atenção de quem passa.

 

1600-s-vicente (26)

 

O tal monumento, de construção recente, de um lado, no canteiro relvado, numa placa tem inscrito “Grande Jubileu – Ano 2000” e do outro lado, noutra placa, uma mensagem religiosa: “Mistério da fé para a salvação do mundo! / Glória a vós que morrestes na cruz e agora viveis para sempre. Salvador do mundo, salvai-nos, vinde Senhor Jesus”

 

1600-medeiros (6)

 

Vamos agora ao itinerário para chegar até São Vicente da Chã, como sempre a partir da cidade de Chaves e que não tem nada que enganar, pois fica mesmo junto à Estrada Nacional 102 que liga Chaves a Braga. Por curiosidade o nosso itinerário de hoje é idêntico ao do último fim de semana onde mais uma vez optamos pelas estradas secundárias em vez da estrada nacional, ou seja, via São Caetano/Soutelinho da Raia, Meixide após a aldeia outra pela estrada da esquerda até Serraquinhos, passar ao lado de Viade tomar a direção do Barracão e estramos na EN103 em direção a Braga, logo a seguir temo a Aldeia Nova do Barroso e um pouco mais à frente São Vicente da Chã. Mas fica o nosso mapa para melhor orientação.

 

mapa-cha.jpg

 

Vamos agora ao que dizem os livros e documentos.  Iniciando pelo livro “Montalegre”:

 

“Sinais dos tempos”

Vários outros monumentos da romanização se descobriram e permanecem cá testemunhando a sua origem e finalidade: marcos miliários em (Padrões, Currais, Travaços e Arcos) aras romanas em (Vilar de Perdizes, Pitões e São Vicente da Chã) estelas funerárias (Vila da Ponte/ Friães), o célebre Penedo de Rameseiros (Vilar de Perdizes) e outros.

 

Padre José Adão dos Santos Álvares (séc. XIX) nasceu no Cortiço, filho do anterior, em 1814. Foi correspondente muito conceituado de vários jornais e revistas do Porto, Braga e Lisboa. Foi pároco de São Vicente da Chã, onde jaz, e arcipreste de Montalegre. Descreveu com realismo os últimos momentos de vida de José Fernandes, o Bagueiro, último condenado à morte em Barroso, que subiu ao cadafalso em 17 de Setembro de 1844.

 

O vale do Regavão, que bordeja a freguesia pelo sul e nascente, dá passagem à via prima, aqui assinalada por um miliário gigante que depois se transformou na cruz de Leiranque. Não longe desse local houve um pisão – que passou a topónimo da barragem e mais acima a antiquíssima Vila de Mel, provavelmente a primeira “statio” (São Vicente da Chã seria a segunda ) entre as cidades de “Praesidium” e “Caladunum” – “mansiones” da dita via imperial.

 

1600-s-vicente (7)

 

Quanto à “Toponímia de Barroso” temos o seguinte:

 

CHÃ

É um corónimo: nome de uma região!

Chã, como já se disse (veja Cabril) vem do adjectivo latino PLANA > CHÃ, o que implica subentender  um substantivo terra ou seara: terra chã!

 

Quanto a S.Vicente na mesma obra temos:

 

SÃO VICENTE teve culto remoto. O célebre mártir de Saragoça já gozava honras de templo importante e antiquíssimo na própria cidade de Braga. Diz o ignorado mas interessante sabedor, Almeida Fernandes, em “Cadernos Vianenses” TV (1980) pp.285, que os cultos antigos (como S. Vicente) vieram substituir cultos pagãos.

-1258, «in collatione Sancti Vicencii de Chaa» INQ 1517.

Em S. Vicente da Chã foi encontrada uma ara dedicada ao deus olimpo Júptiter Óptimo Máximo, em 2004, o que vem confirmar o que Almeida Fernandes afirma. São Vicente é o orago da extensa freguesia da Chã que, com suas anexas de Morgade e Negrões, constitui Comenda das Clarissa de Vila do Conde. Também é orago de Contim e de Campos (esta, depois de desmembrada de São Martinho de Ruivães) e foi-o  da antiquíssima freguesia extinta que teve o nome de São Vicente d’ O Gêres, junto de Pitões e a que estupidamente vão chamado Juríz.

 

1600-s-vicente (31)

 

Na “Toponímia Alegre” incluída na “Toponímia de Barroso”, temos o seguinte:

 

Chã – São Vicente

Ruim sítio, ruim gente,

Coelheiros de Medeiros,

Ciganos os de Peireses,

Pretinhos de Travaços de Chã,

Cruz-veigas de Gralhós,

Viajantes de Penedones,

Carvoeiros de Castanheira,

Torgueiros de Torgueda,

De Fírvidas são salta-pocinhas e

Arranca-torgos de Codessoso da Chã.

 

1600-s-vicente (1)

 

E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

1600-medeiros (4)

 

BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

WEBGRAFIA

- "chã", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/ch%C3%A3 [consultado em 13-01-2019].

-   https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/ch%C3%A3 (Consultado em 13-01-2019)

- https://www.cm-montalegre.pt/pages/451 (Consultado em 13-01-2019)

 

06
Jan19

O Barroso aqui tão perto - Viade de Cima

1600-viade-cima (3)

montalegre (549)

 

Em 10 de setembro passado (2018) iniciávamos esta rubrica assim: “Vamos lá a mais uma voltinha pelo Barroso, que fica aqui tão perto e que é sempre um encanto andar por ele em constante descoberta. Hoje vamos até uma das 3 aldeias que têm como topónimo Viade, neste caso, Viade de Baixo.”. Isto foi em 10/09/18, em 06/01/19, hoje, mantemos o texto, só trocamos a sua última palavra para “Cima”, ou seja, em vez de irmos até Viade de Baixo, vamos até Viade de Cima.

 

1600-viade-cima (59)

 

É de prever que as três aldeias com o topónimo de Viade fiquem próximas umas das outras, e de facto assim é. Viade de Cima fica a apenas 300m de Viade de Baixo, só que um pouco mais acima, mais alta, poucos metros mais alta, talvez o “de cima” se deva ao ser “a seguir”, pois para se chegar até Viade de Baixo temos que passar obrigatoriamente por Viade de Baixo, isto por estrada normal, pois a monte, as coisas podem ser diferentes.

 

1600-viade-cima (15)

 

Estou agora a iniciar a escrita deste post e parto sempre para este trabalho em branco, ou seja, inicio o post e depois é que vou à procura de informação sobre a aldeia. Não foi assim que aprendi que as coisa se deveria fazer, pois academicamente falando deveria previamente reunir toda a informação disponível, analisá-la, selecioná-la e depois sim, partir para o texto final, mas como este não é um trabalho académico, tenho alguma liberdade de escrita, e gosto de ir descobrindo as coisas, surpreender-me com elas e partilhar a emoção do momento, contudo, neste caso, prevejo que o discurso não será muito diferente daquele que tive com Viade de Baixo, à exceção de nesta última aldeia ter tido a ajuda preciosa de uma “filha” da terra.

 

1600-viade-cima (62)

 

Voltando ao Viade, topónimo comum às três aldeias, suponho que aquele Viade que ainda nos falta abordar seja o mais antigo, aquele que dá pelo topónimo de Antigo de Viade, e que a seguir tivesse surgido ao lado, a pouco mais de 800 metros a aldeia de Viade de Baixo e depois a de Viade de Cima. Mas esta afirmação não tem qualquer base de apoio, sou apenas eu a supor. Dadas as distâncias que separam as três aldeias, bem poderia ser apenas Viade, com o bairro do lado e o bairro de cima, mas não é assim, e se elas estão separadas, por alguma razão será, ou seria, pois a coisa já não é de hoje.

 

1600-viade-cima (60)

 

Mas tal como dizia no post de Viade de Baixo, isto de um topónimo principal se repetir em aldeias vizinhas é muito comum em Portugal, aliás no concelho de Montalegre não é caso único, pois nas Penedas (de baixo, do meio e de cima) repete-se o mesmo, também no concelho de Chaves acontece nas Assureiras (de baixo do meio ou de cima). E outras há que adotam o mesmo topónimo principal e acrescentam “Vila” a um deles, que pela lógica a “Vila” será acrescentada à mais recente. Em Chaves, por exemplo, acontece em Nantes e Vilar de Nantes ou Oura e Vila Verde de Oura, acrescentando aqui, que as três Assureiras atrás referidas (de baixo, do meio e de cima), em tempos idos, eram a Vila de Baixo, do meio e de Cima. Curiosidades que pretendem apenas ir ao encontro da origem dos lugares.



1600-viade-cima (22)

 

Mas neste caso de Viade, embora exista o Viade de Baixo e o Viade de Cima, a outra aldeia dá pelo topónimo de Antigo de Viade. Quanto ao significado (origem) do topónimo principal “Viade”, é comum às três aldeias, daí repetirmos o texto que deixámos para Viade de Baixo e que rezava assim, conforme consta na “Toponímia de Barroso”  :

 

1600-viade-cima (9)

 

VIADE

Desde 2013 – União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas

 

É o genitivo do nome pessoal Beatus; “villa” BEATI>BIADE>VIADE.

Podia ser escrito Biade pois o topónimo já em:

-1258 «Sancte Marie Biadi» INQ 1514 estava sedimentado. De igual modo a forma encontrada em

-1288 « de Sancta Maria de Biady» (Com o y dos ditos amigos sdo pedantesco arcaísmo) INQ N.A. – 492. Nas inquirições de

- 1282 «…isto he en termyo de Biadi». Aqui voltamos à forma final/inicial – onde apenas faltava o e mudo terminal cujo i já assim devia soar.

 

1600-viade-cima (37)

 

Quanto a Viade de Cima, na “Toponímia de Barroso” , consta o seguinte:

 

Viade de Cima

A raiz é a mesma de Viade de Baixo, contudo esta localidade não está documentada a não ser no A.H.P. como “Byade de Cima”.

 

E perguntarão, o que é o A.H.P.? - Pois não sei, confesso a minha ignorância, mas como sou curioso fiz uma pesquisa rápida na NET e só me apareceram duas entidades com estas iniciais, o AHP de Associação Hoteleira de Portugal e o AHP de Analytic Hierarchy Process, contudo, puxando pela mioleira, penso que será o AHP do Arquivo Histórico Português, também poderá ser o AHP de Arquivo Histórico do Porto, com a certeza que não é do Arquivo Histórico de Vila Real, porque se assim fosse,  seria AHVR. Seja como for, no H.H.P. está lá “ Byade de Cima”...

 

1600-viade-cima (17)

 

Falta a “Toponímia Alegre” da qual não vamos transcrever todo o texto, apenas referir as partes em que Viade é referida, exceto uma que fora do contexto é forte e injusta para a aldeia, tanto mais que não sabemos a que Viade de refere (antigo, de baixo ou de cima). Então diz assim:

 

Uma mulher de Viade:

Mandei fazer uma capa

Ao pisoeiro d’ Ablenda:

Ninguém se finte nos homes

Que os homes são má fazenda!

 

As outras referência, são alcunhas dos de Viade:

 

(…)

Esfola-cabras de Viade

Arribadas de Viade de Cima

(…)

Pica-sinos de Viade

 

1600-viade-cima (16)

 

Como sabem fazemos estes posts/convites de visita ao Barroso a partir da cidade de Chaves, daí traçarmos sempre os nossos itinerários para chegar até ao nosso destino. Pois desta vez para o nosso itinerário de ida, vou recomendar-vos a estrada do S. Caetano, mas hoje recomendo que a primeira paragem se faça aqui, no Santuário deste Santo, para uns momentos de estar, de reflexão se quiser  ou nem que seja para encher uma garrafa de água fresca (ontem prometi parar no S.Caetano e a promessa está cumprida). Pois a seguir temos de Soutelinho da Raia, sem entrar na aldeia, imediatamente antes de aparecer a placa a anunciar o concelho de Montalegre, há um enorme rochedo junto à estrada, que é de paragem obrigatória, pois é desde aí que se vê todo o planalto do Larouco a rematar na serra. É desde este ponto que a Serra do Larouco mostra todo o seu endeusamento. Eu não fiz promessa de lá parar, mas a grande maioria das vezes paro por lá para tomar a minha dose de contemplação, mas desta vez como já parámos no S.Caetano, aqui seguimos em frente até Meixide.

 

1600-viade-cima (19)

 

Em Meixide, no final da aldeia a estrada bifurca-se, com ambos os destinos dirigidos a Montalegre. Devemos optar pela estrada da esquerda em direção a Pedrário e Sarraquinhos, nesta, logo na entrada devemos entrar dentro da aldeia, atravessá-la e sair em direção a Zebral. Todas esta aldeias são interessantes, assim, se algum motivo o convidar a parar, pare, pois temos tempo para chegar a Viade de Baixo. Depois de deixarmos Zebral de lado sem entrar nela, seguimos em direção a Vidoeiro, uma das aldeias dos colonos de Salazar, deve ignorar as placas para o Cortiço, mas se passar por lá também fica a caminho, e a pouco mais de 1 km está na “estação de serviço” do Barracão, já na EN103 (estrada Chaves-Braga).    

 

1600-viade-cima (57)

 

Aqui começa a segunda parte do nosso itinerário que servirá para ir e mais tarde regressar. Estando no Barracão é só seguir pela EN103 em direção a Braga. Vai passar pela Aldeia Nova do Barroso (outra das aldeias dos colonos de Salazar), por S. Vicente da Chã, por Travassos da Chã (ao lado), por Penedones e Parafita e logo a seguir aparecem as placas a indicar a entrada para Antigo de Viade, mas não é este o Viade do nosso destino de hoje, assim, continue pela EN103 e oitocentos metros mais à frente, aí sim, terá a indicação da entrada em Viade de Baixo e de Cima, à direita. Logo após Viade de Baixo já estamos no nosso destino. Mas fica o mapa por via das dúvidas.

 

mapa-viade cima.jpg

 

E agora as nossas impressões sobre Viade de Cima. Fomos lá pela primeira vez em 25 de maio de 2016, já a meio da tarde, num dia muito quente e já depois de termos feito uma paragem em Viade de Baixo. Sabíamos que das três aldeias de Viade esta era a mais pequena e que o levantamento fotográfico seria breve, e embora o levantamento até fosse breve, a nossa estadia prolongou-se mais que o previsto, tudo porque logo à entrada da aldeia o manejo de um fuso e uma roca nos fez parar, coisa que eu já não via desde puto, quando em casa da minha avó a via, pasmado, a manejar com mestria uma nuvem de lã a ser transformada num fio de lã.

 

1600-viade-cima (40)-2

 

Parámos. Quem manejava, também com mestria, a roca e o fuso era a D. Maria Pires, então com 86 anos e que hoje, espero que continue com a sua simpatia e arte de bem receber à barrosã, terá 88 anos, vivia com o seu marido então com 93 anos. Ficámos encantados a ver o fio de lã a nascer e a enrolar-se no fuso, igualmente com o fio a formar-se a partir de uma nuvem de lã apegada à roca. Claro que entre a contemplação e apreciação a conversa ia rolando. Gente nova na aldeia , não havia, agora só velhos, os filhos todos para fora. Já não recordo quantos disse ter, mas recordo que um, tinha restaurante em Lisboa, lá onde param os artistas e o teatros, presumi ser o Parque Mayer, mas para o caso nem interessa.   Nem que fosse só por esta conversa e pela mestria do manejo da roca e o fuso a fazer fio de lã, a ida a Viade de Cima já tinha valido a pena.

 

1600-viade-cima (29)

 

Mas tinha mais, primeiro a paisagem com vistas lançadas para a barragem dos Pisões e para a Serra do Barroso, com os cornos do Barroso quase no alinhamento da aldeia. Mas também a verdura dos seus campos chamavam a atenção da objetiva, idem para o casario tradicional de granito à vista, pena os abandonos e as ameaças ou mesmo ruinas, mas no geral, é mais uma aldeia barrosão que não deixa ficar mal o Barroso e que merece uma visita.

 

1600-viade-cima (54)

 

Como aldeia pequena que é Viade de Cima, era de prever não haver muita literatura sobre a povoação e de facto assim é. Nos nossos locais habituais de pesquisa, nada consta, nem no livro “Montalegre”, ou aliás, aí consta a nome da aldeia mas apenas para mencionar que é um dos lugares da freguesia de Viade de Baixo. Informação que hoje em dia já não é correta, pois hoje, após a reforma administrativa das freguesias, passou a ser União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas. Fora esta referência, apenas encontrámos um texto do Padre Lourenço Fontes, intitulado “ O Reino das 7 maravilhas é Barroso” onde entre as mil e uma maravilhas do Barroso, apresenta os  “7 Canastros: Vila da Ponte, Outeiro, Cervos, Viade de Cima, Paredes do Rio, Mourilhe”

 

1600-viade-cima (6)

 

E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas, hoje apenas uma,  e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

1600-viade-cima (5)

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

 

 

30
Dez18

O Barroso aqui tão perto - Ano de 2018

barroso (133).jpg

montalegre (549)

 

Hoje é dia da nossa habitual rubrica dos domingos  “O Barroso aqui tão perto”.  Acontece que neste fim de semana até são os  seus dois dias dedicados ao Barroso, pois ontem (sábado) andámos todo o dia  por lá em recolha de algumas imagens em falta e à descoberta de alguns pormenores, e hoje (domingo) calha-nos a publicação do post. Um pouco apertado para o podermos dedicar a uma aldeia, é que entre escolher imagens, fazer pesquisas para o texto e elaborar o post,  demoramos sempre umas largas horas, trabalho que costumamos fazer aos sábados e às vezes ainda se prolonga para domingo. Na impossibilidade de o fazermos, optamos por um post alternativo, também dedicado ao Barroso, mas em jeito de balanço, por um lado, dando conta de todas as publicações que fizemos este ano, por outro, dando conta  daquilo que nos falta fazer nesta aventura de deixar aqui todo o Barroso, para já apenas o Barroso do Concelho de Montalegre, embora pontualmente também já vá surgindo o Barroso de Boticas.

 

1600-cela (70).jpg

Cascata de Cela Cavalos

1600-currais (60).jpg

Trecho de Currais

Então para este post em que não vamos ter tempo de trazer aqui uma aldeia, nem de selecionar novas fotografias, vamos deixar aqui algumas imagens daquelas que fomos deixando aqui durante todo o ano, uma seleção com algumas imagens que nos deu gozo registar, mas também uma listagem das aldeias que já abordámos até hoje bem como as aldeias ou temas que faltam passar por aqui.

 

1600-fafiao (185)-composicao.jpg

Fafião - Escultura do lobo

1600-leiranco (4).jpg

Serra do Larouco vista desde a Serra do Leiranco

Assim, desde janeiro até dezembro deste ano de 2018, deixámos por aqui 45 publicações com aldeias e temas do Barroso:

 

publicacoes-1.jpg

publicacoes-2.jpg

publicacoes-3.jpg

 

Mas para terminarmos o concelho de Montalegre, ainda nos faltam percorrer muitos caminhos, aqui no blog, pois no terreno já foram todos percorridos, exceção para alguns pormenores e temas que também aqui queremos trazer, mas que por várias razões ainda não pudemos ir aos locais ou abordar os temas, principalmente por falta de disponibilidade nossa ou de terceiros e pela dificuldade dos acessos.

 

1600-misarela (160).jpg

Ponte da Misarela

Para já, daquilo que já temos em recolha, do concelho de Montalegre faltam ainda passar por aqui:

 

- As 6 aldeias dos colonos, nomeadamente: Aldeia Nova do Barroso; Aldeia Nova de S.Mateus; Aldeia do Alto Fontão; Casais da Veiga; Criande e Vidoeiro.

- Antigo de Viade

- Barracão

- Borralha (Minas)

- Cabril

- Lama da Missa

- Paradela do Rio

- Peireses

- Pisões

- Pitões das Júnias

- Salto

- Chã (S.Vicente)

- Tourém

- Viade de Cima

- Vila da Ponte

- Vilar de Perdizes

- Sede do Concelho - Montalegre

 

1600-padroes (14).jpg

Alminhas - EN103 próximas da aldeia de Padrões

1600-pisoes (226).jpg

Entardecer na Barragem dos Pisões

Claro que o Barroso não se esgota no concelho de Montalegre,  nem nas suas aldeias e vilas. Muito temas há que merecerão uma abordagem mais específica e outro tipo de tratamento, por isso, enquanto este blog existir, continuará a ter os domingos e/ou outros dias para abordar esses temas, assim tenhamos nós disponibilidade e meios para o fazer e eles passarão por aqui. À nossa maneira, claro, carregados de boas intenções, com os nossos defeitos, mas, também algumas virtudes havemos de ter e, sempre, com a mesma dificuldade de ter acesso à informação que gostamos de partilhar. Contudo, a ideia é mesmo mostrar o Barroso de modo a servir de convite a uma visita, a esse (este) Barroso que temos aqui tão perto, lembrando que este blog é made in Chaves, mas  na companhia dos nossos vizinhos e com o espirito de boa vizinhança, afinal de contas todos eles pérolas do colar chamado Reino Maravilhoso, tal-qual Miguel Torga tão bem o descreveu. Fica um cheirinho:

 

1600-reigoso (11).jpg

Reigoso

Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.

(...)

Miguel Torga, In Reino Maravilhoso

Se quiser ter acesso a todo o texto do “Reino Maravilhoso” de Miguel Torga, com ilustração nossa (fria de inverno), clique aqui.

 

1600-sacoselo (5).jpg

Sacoselo

1600-sirvozelo (57).jpg

Sirvoselo

Pelas minhas contas teremos ainda localidades do Barroso de Montalegre pelo menos para mais meio ano, mas é natural que o restante Barroso, o de Boticas e/ou outras localidades de outros concelhos que pertencem igualmente ao Barroso comecem também a ter lugar aqui no blog, no entanto, o Barroso de Montalegre continuará por aqui após publicação de todas as suas localidades, não com posts tão completos como o têm sido até aqui, mas com algumas imagens que merecem ser partilhadas e que não couberam nos respetivos posts das localidades a que pertencem, ou então imagens que não são propriamente de localidades mas temáticas, como o poderão ser a neve, a água, albufeiras e rios, as cascatas, as serras, a fauna e flora, usos e costumes comunitários, pessoas, festas e tradições,  etc, O Barroso tem um manancial de informação e imagens quase inesgotável,  ad aeternum.

 

1600-travassos do rio (91).jpg

Mulher com capa de burel em Travassos do Rio

 

E com esta me bou!

 

Mais uma vez fica também o aviso de que as imagens de hoje não são inéditas, é uma seleção (1 dúzia)  das que foram publicadas ao longo deste ano de 2018 nesta rubrica “O Barroso aqui tão perto”. Outro aviso é o de que neste post apenas foram mencionadas as aldeias que passaram por aqui no ano de 2018 e as que faltam passar. As restantes aldeias já foram abordadas nos anos anteriores, pois desde o ano de 2013 que temos feito publicações regulares sobre as aldeias do concelho de Montalegre, publicações essas que têm link na barra lateral deste blog. Estão lá todas as aldeias do Barroso por ordem alfabética, tal como no memu superior do blog, mas aí estão no botão “Barroso”, mas aí, estão por ordem cronológica de publicação.

 

 

 

 

 

23
Dez18

O Barroso aqui tão perto - Cavalos, Chãos e Vila Boa

1600-cavalos (8)

montalegre (549)

 

Hoje no “Barroso aqui tão perto” não vamos para uma aldeia ou localidade, nem duas, mas para três que até poderiam ser mais ou apenas uma. Vai ser difícil de explicar e justificar em palavras esta decisão, e vai-me obrigar a uma introdução explicativa que talvez não explique nada em particular, mas um todo que é real, de um Barroso feito de Barrosos, aqui e hoje a uma escala mais pequena que se vai ficar pelas três localidades que hoje vamos aqui, e que são elas:  Vila Boa, Cavalos e Chãos.

 

1600-vila boa (11)

 

Umas palavras em jeito de introdução

Seguindo o terreno, sem olhar a estradas e caminhos, de Norte para Sul, temos Vilas Boas, a seguir Chãos e depois Cavalos, mas tudo isto, no terreno, é muito confuso. Se não fossem as placas indicativas da estrada e sabermos que estas três localidades existiam, eu diria que estava em Cabril, ou bairros de Cabril. Não é por nada, mas entre Vilas Boas e Cabril são apenas 800 metros e é entre estas duas localidades que se localizam Cavalos e Chãos.

 

1600-sao-ane (4)

 

Já perceberam que estamos num outro Barroso dentro do Barroso, é o Barroso de um povoamento mais disperso que se vai desenvolvendo em linha, no caso, numa linha paralela ao Rio Cabril, em terras baixas com cotas entre os 250 m de altitude junto ao Rio Cabril, ou seja, e só para termos uma ideia e uma comparação, são 100m abaixo da cota do Vale de Chaves, mas como aqui não estamos a falar de vales mas de localidades adossadas à encosta da montanha com pendente para o Rio Cabril, Vila Boa (lá muito mais no alto) atinge a cota dos 390m  (idêntica à cota das terras mais baixas de Vilar de Nantes ou Samaiões, ainda do Vale de Chaves).

 

1600-chaos (4)

 

Claro que o que deixo atrás em nada corresponde à realidade que se vive in loco, pois quem ler as palavras que deixei vai ficar com a ideia que andamos por outras paisagens, mas não é assim. Como disse estas aldeias ou localidades situam-se numa encosta de montanha com pendente para o Rio Cabril, na sua margem esquerda, mas mesmo em frente, a outra pendente da montanha na margem direita do rio, vai acima dos 1400m de altitude, é que mesmo em frente temos a grande muralha e imponência da Serra do Gerês. Isto é complicado de explicar e descrever em palavras, há mesmo que ir ao local para ver e sentir este ambiente e como o verde vivo da vegetação da margem direita do Rio Cabril se vai transformando numa paisagem sem vegetação onde os grandes rochedos são reis e senhores assumindo um colorido próprio com vários matizes ténues que terminam ou não a confundir-se com o próprio céu, dependendo da luz e da meteorologia do dia, havendo dias de chuva em que a grande serra nem se deixa ver. Há portanto que ir por lá várias vezes e em várias épocas do ano.

 

1600-cavalos (3)

 

É, o Barroso é assim, não lhe chegava pertencer ao Reino Maravilhoso que Torga tão bem descreve, como tem de ter todo um colar de pérolas matizado, isto quando à natureza não lhe dá para cobrir tudo com um manto branco, como se Deus fizesse um intervalo na vaidade destas pérolas coloridas para descansar a vista na pureza do branco. Da maneira como vou pintando esta tela do Barroso, quase parece que se vive no paraíso, mas não é bem assim, pois são terras de vida difícil que chegam a doer, onde sobretudo se sobrepõe um sentimento telúrico, com uma vida fortemente ligada ao chão, à terra que os viu nascer e os fez para a vida de viver o Barroso onde cada habitante é um Barrosão e não um Barrosinho,  ou como Torga diz no “Reino Maravilhoso”: “Homens de uma só peça, inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão.”

 

1600-chaos (3)

 

Cavalos, Chãos e Vila Boa

Vamos então às nossas três localidades de hoje.

 

Esta descoberta do Barroso que há anos me propus fazer, foi feita em muitas etapas, com roteiros previamente definidos e mais ou menos pensados para um dia completo. Passei por estas localidades algumas vezes, ainda antes de fazerem parte do roteiro do dia. Numa dessas passagens, uma placa da estrada chamou-me a atenção, é que a mesma nunca me tinha aparecido nos meus mapas de estudo nem nos mapas turísticos de Montalegre. Cavalos, era o que estava escrito na placa e fui andando à espera que a aldeia surgisse mas quando dei conta estava em Cabril. Isto, segundo o registo da fotografia que então tirei à placa, aconteceu em julho de 2016.

 

1600-vila boa (6)

 

Passado 1 ano, mais precisamente em agosto de 2017, finalmente Vila Boa, Cavalos e Chãos, entre outras, calharam no roteiro do dia. Parámos em Vila Boa, coisa breve, pois a vila é boa mas pequena e de seguida tocámos o carro para Cavalos, mas a placa de Chãos fez-nos sair da estrada para fazermos primeiro o seu registo, e lá fomos até Chãos, igualmente pequena, a uns escassos 200 ou 300 metros abaixo de Vila Boa. Registámos algumas imagens e bota de novo para trás, para Cavalos. De regresso à estrada mais principal, fomos registando o que fomos vendo com interesse para a nossa objetiva. Passados uns escassos 200 a 300 metros estávamos em Cabril. Voltamos atrás, voltamos à frente e era mesmo assim. Cheguei à conclusão que Cavalos é assim como o efluente de um rio, desagua em Cabril.

 

1600-vila boa (5)

 

Assim, as nossas imagens de hoje são apenas destas três localidades correndo o rico de algumas delas já serem mesmo de Cabril, o que por aí nem há mal nenhum, pois todas estas localidades pertencem à freguesia de Cabril, mas paramos na sua entrada, pois Cabril irá ter aqui o seu próprio post, e para breve, pois já são poucas as aldeias do concelho de Montalegre que nos faltam abordar.

 

1600-cavalos (13)

 

Itinerário e localização

Quanto à localização o assunto já está mais ou menos abordado. Sabemos que as três aldeias ficam juntas a Cabril, já é uma boa referência, mas indo pela habitual referência dos rios e das barragens, as três aldeias ficam também próximas do Rio Cabril, na sua margem esquerda, imediatamente antes deste rio, teoricamente,  desaguar no Rio Cávado, pois na prática já desagua na barragem de Salamonde.

 

Quanto ao itinerário para chegarmos a esta três aldeias, como sempre a partir de Chaves, é via estrada de S. Caetano/Soutelinho da Raia, depois Montalegre, aqui desce-se ao campo de futebol e continua-se sempre por esta estrada até à aldeia e barragem de Padrela. Aqui atravessa-se o paredão da barragem para a outra margem e seguimos sempre por essa estrada, a única que existe até chegarmos As nossas aldeias de hoje, mas antes terá de passar (sempre ao lado) de Sirvozelo, Cela, Lapela, Azevedo, Xertelo, Chelo e Bosto Chão, logo a seguir será Vila Boa, uma das nossas aldeias de hoje, as outras duas, são logo a seguir. Mas fica o nosso habitual mapa.

 

mapa.jpg

 

Quanto aos topónimos, vejamos o que nos diz a “Toponímia de Barroso”:

 

Cavalos

O topónimo chega-nos de “cavalo” (pelo latino popular caballu) mas com outros significados. Assim, pode o nome dever-se ao facto de se tratar de sítio de pedras cavaleiras ou penedos encavalados; Pode também referir-se a muitos animais dado que a categoria social dos habitantes o exigia. Com efeito,

- 1258 «se algum destes habitantes tiver cavalo, escudo e lança, defenda o seu tributo…» como como se afirma nas INQUIRIÇÕES de 1258. Tanto uma como outra explicação, ambas se ajustam ao topónimo e estão em consonância com os topónimos anteriores e seguintes. A zona cabrilense é cheia de penedos sob os quais os seus habitantes fazem ainda hoje as suas adegas de verdinho e aguardentes afins.

 

Chãos

Plural de chão – por planu. É adjectivo e pressupões o substantivo campos, prados.

 

Vila Boa

Villa < Vila e Bona < Boa. Não aparece nas inquirições nem no Arquivo Histórico Português (1531). Esta Vila Boa pertence a Cabril.

 

1600-cavalos (6)

 

Quanto à “Toponímia Alegre”, temos:

 

“Apelidos” de Cabril

 

Moeda falsa de Lapela,

Vinho-azedo de Azevedo,

Cava-touças de Sertelo,

Escorricha-picheis de S. Lourenço,

Rabões de Chelo,

Bufos de Vila Boa,

Lagartos de Fontaínho,

Cinzentos de Chãos,

Carrapatos de Cavalos,

Paparoteiros da Vila

Dente-Grande da Ponte,

Pousa-fois na Chã de Moinho,

Raposos de Busto-Chão,

Esfola-vacas de São Ane,

Ferra-bestas de Pincães,

Putaria de Fafião.

 

1600-vila boa (3)

 

 Na Etnografia Transmontana I, de Lourenço Fontes,  aparecem os “apelidos de Cabril”, lá intitulados como “Alcunhas da Freguesia de Cabril” e com algumas variantes, uma delas diz respeito a Chãos e Cavalos não aparece:

 

Alcunhas da Freguesia de Cabril

 

Moeda falsa de Lapela,

Vinho-azedo de Azevedo,

Cava touça de Xertelo,

Escorricha capichés de S. Lourenço,

Rabões de Chelo,

Lagartos de Fontaínho,

Bufos de Vila Boa,

Cinzeiros de Chãos,

Dente grande da Ponte,

Esfola vacas em Soane,

Pousa fois em Chão de Moinho

Ferra bestas em Pincães,

Putaria de Fafião.

 

1600-chaos (7)

 

E o livro “Montalegre” o que nos diz sobre as nossas aldeias de hoje!?

 

Em relação a Vila Boa e Cavalos,  apenas a referência de pertencerem à freguesia de Cabril e à sua altitude, mas isso já nós o dissemos atrás.

 

Quanto a Chãos, temos uma referência ao Penedo do Touro, mas como são abordados outros penedos na região, transcrevemos todo o parágrafo:

 

São igualmente célebres por serem incomuns: o penedo do Esporão (S. Lourenço Cabril), a Laje dos Bois (Lapela-Cabril) o Penedo da Pala (Cela-Outeiro) o Penedo da Caçoila (Pedrário-Sarraquinhos) A Casa dos Mouros ( Morgade), o Penedo Sagrado (Salto) A Mesa do Galo (Borralha-Salto), o Penedo da Caldeira (Vila da Ponte), o Castelo (Fervidelas), A Fraga, os Cornos da Fonte Fria, Altar de Cabrões (Pitões), o Altar da Moura (Frades-Cambezes) A Pedra Bolideira (Ponteira – Paradela), o Penedo do Touro (Chãos-Cabril) “ ao abrigo dele se podem defender das inclemências do tempo mais de duzentas cabras”, os Pedralhos (Vila da Ponte) onde escreviam o nome os emigrantes para o Brasil, alguns dos quais nunca regressaram à terra, a Pedra da Gola Furada e a Pedra que Tine (Seselhe), o Penedo Buraco da Serpe (São Ane - Cabril) e uma infinidade de outros mais ao longo do concelho de Montalegre.

 

1600-cavalos (5)

 

Ficamos por aqui, mas antes ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

1600-chaos (2)

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1974.

 

 

18
Dez18

O Barroso aqui tão perto - Travassos do Rio

1600-barroso XXI (178)

montalegre (549)

 

Ontem deixámos uma amostra no blog da nossa aldeia convidada de hoje para esta rubrica de “O Barroso aqui tão perto”. Uma amostra e simultaneamente um desafio. Tratava-se da primeira imagem que abre o presente post e o desafio era descobrir de que aldeia se tratava. Ninguém respondeu, mas o mais certo é que ninguém a tivesse reconhecido, mesmo tratando-se de uma aldeia bem conhecida.

 

1600-travassos do rio (9)

 

Estas aldeias do Barroso, dependendo de onde se veem, mudam de feições. Têm este dom de se travestir, mais para encantar do que para baralhar. Têm também o dom de ao longe nos provocarem e despertar em nós a vontade de as visitar e de conhecer a sua intimidade. Entendamos a coisa como um convite, e o primeiro que dela recebi, já foi há muitos anos, inícios dos anos setenta do século passado, ainda eu era um puto, mas já olhava para as pequenas manchas de casario que floriam no meio das montanhas verdes. Aconteceu na primeira vez que fui a Tourém, não à ida, mas no regresso, quando ela se dá a conhecer na descida para Covelães.  

 

1600-travassos do rio (12)

 

Revelado o segredo, hoje logo no título do post, entremos então na nossa aldeia de hoje, que dá pelo nome de “Travassos” e pelo apelido de “do Rio”, ou seja,  Travassos do Rio, e é do Rio porque pertence ao conjunto de aldeias que adotam este apelido por se localizarem junto ao pequeno vale que se desenvolve ao longo do Rio Cávado a jusante da Vila de Montalegre, mas também para se distinguir da outra aldeia que é também Travassos, mas no caso Travassos da Chã, esta última juntinha à Barragem dos Pisões.

 

1600-travassos do rio (70)

 

Continuemos então com o nosso itinerário para chegar até lá e com a sua localização, agora mais precisa,  onde não há nada que enganar, pois fica junto a um dos principais trajetos pelo interior do concelho de Montalegre, na margem direita do Rio Cávado, já dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês e imediatamente a seguir a aldeia de Sezelhe. Assim, o nosso itinerário a partir de Chaves é feito via estrada de S. Caetano/Soutelinho da Raia até Montalegre. A partir da Vila desce-se até ao campo de futebol e depois vamos passar ao lado de Donões (à direita) ao lado de Cambeses do Rio (à esquerda), ao lado de Mourilhe, Frades e Sezelhe (todas à direita). Curiosamente a estrada não atravessa nenhuma destas aldeias, passa-lhes sempre ao lado. Em Sezelhe, atenção às placas no cruzamento, dever-se-á seguir em frente e logo a seguir (a 1Km), estamos no nosso destino.  Mas fica o nosso mapa e itinerário para melhor localização.

 

travassos-mapa.jpg

 

Se formos daqueles que antes de parar para os pormenores, gosta de dar uma volta geral à aldeia, pela certa que a sua atenção recairá sobre uma torre sineira que existe no meio de um largo, muito peculiar, pois trata-se de uma torre sineira sem igreja ou capela por perto e foi erguida em honra/homenagem, uma torre de culto ao boi do povo, tendo mesmo esculpida numa das suas fachadas a cabeça de um touro, mas também (li algures mas hoje não encontrei a referência) por não existir outro sino na aldeia, sino que nas aldeias sempre teve as suas funções de convocar o povo para vários fins, ou lançar avisos em caso de necessidade, como os sinais em caso de morte de um seu habitante, mas também, e no caso reforçado, para convocar o povo quando o boi partia para as chegas em terras vizinhas.

 

1600-travassos do rio (97)

 

Todos os barrosões conhecem a importância que tinha o boi do povo e quais as tradições, festa e outros que estavam a ele ligadas, mas para quem não sabe, recordemos aquilo que se diz ao respeito do boi do povo e do comunitarismo destas aldeias barrosãs na Etnografia Transmontana I, do Padre Lourenço Fontes para melhor se entender a sua importância:

 

1600-travassos do rio (46)

 

O BOI DO POVO

 

Dentro do culto dos animais, o que mais sobressai em Barroso é o Boi do Povo. Diz Miguel Torga em Diário X, localizando Serraquinhos:

«Atrai-me esta amplidão pagã, sinto-me bem a pisar um chão em que deus vivo, de rico e pobres, de alfabetos e analfabetos é o toiro do povo. Um deus de cornos e testículos, que depois de cada chega e de cada vitória, a gratidão dos fiéis, cobre de palmas, de flores, de cordões de oiro e de ternura. Um deus que a devoção adora, sem lhe pedir outros milagres, que não sejam os da força e da fecundidade… Um deus a quem se dão gemadas de cerveja, para que possa inundar as vacas de sémen, as moças de esperança, os moços de certeza e a senilidade de gratas recordações. Um deus eternamente viril, num paraíso sem pecado original.»

O boi do povo é a amostra mais válida do comunitarismo barrosão.

Tem boas cortes, bons palheiros e celeiros, pastos, lameiros de feno, lamas, terras de centeio, milho, poulas, etc.. Todas estas propriedades são do boi do povo, grande senhor feudal, mais rico que muitos dos habitantes da aldeia. O boi é propriedade do povo. Cada aldeia, segundo as posses, os caprichos, e o número de vacas, tem um, dois, três e quatro bois comuns. São comprados pelo povo ou seus representantes, com o dinheiro de todos. Vendem um que dá para comprar outro mais novo e sobra dinheiro, que entra para comprar alimentos ao boi ou, despesas comuns.

 

1600-travassos do rio (41)

 

PASTOR DO BOI

O boi tem um pastor do povo. É pago pelo povo, em alqueires de centeio, segundo o número de cabeças de gado, de cada lavrador. A vida subiu e hoje os pastores nem por um alqueire, por cabeça, querem guardar o boi. Quando uma terra tem muitas vacas ainda vale, mas com os tractores e florestas reduziu esse número e o pastor ganha menos. Há terras que além do pastor pagam ao tractor, especialmente por ocasião de chegas. O pastor ou sua mulher ou filhos pastoreiam  todo o dia o boi. Em Cambezes quando é o tempo das ferranhas de centeio, o boi anda à roda do povo e vai pastar, hoje, na ferranha de um lavrador, amanhã na de outro, até dar a volta e completar as rodas de cada lavrador, que variam segundo o número de vacas. Quanto mais vacas, mais pasto têm de dar ao boi. O pastor é o que tem a chave da corte do boi e é ele que abre a porta quando a vaca vai ao boi, ou nega a chave e o boi, quando a vaca anda estragada. A cobrição faz-se na rua pública, ao anoitecer.

 

1600-travassos do rio (48)

 

CHEGAS

São as chegas o verdadeiro desporto, se assim se pode chamar, que o Barrosão adora. Deixa tudo, percorre, a pé, as maiores distâncias, para ver uma chega de bois, que não conhece. Uma chega consiste (…) na luta entre dois bois do povo, de terras diferentes, ou da mesma terra.

Antes da chega o tratador aumenta a ração diária do boi. A juventude e outros  pedem grão, milho, farinha, farelo, batatas, feno para tratar o boi para a chega. Por vezes roubam as espigas de milho, as caixas de centeio das suas famílias ou de estranhos ou de terras vizinhas, para dar ao boi. Chegam a tirar da boca para não faltar ao boi, que é preciso engordar para ganhar. A emulação e rivalidade aparece quando um boi ganhou a outro na chega, ou quando os bois são do mesmo peso, ou têm de lidar, ou qualquer razão válida para poder desafiar o de outra terra. Começa a pensar-se na chega e a fogueira ateia-se. A mocidade, que tem certo direito no boi, pois é ela que o trata, pensa em ir contratar um adversário. Este concorda ou não, e pede prazo, para tratar o seu boi. Por fim, pede-se o placet à Junta ou regedor da freguesia de cada boi contendente, que nem sempre o dão, mas a chega faz-se. Combina-se o local, que tem de ser descampado, a meio das duas aldeias digladiantes. O boi que vai turrar convém estar totalmente fechado na corte oito dias, para no dia da chega sair mais bravo.

 

1600-travassos do rio (67)

 

E sobre as chegas, continua:

A chega é habitualmente a um Domingo ou dia santo, de tarde pelas 3 horas. De manhã na corte ou fora preso a uma árvore, afiam-lhe as pontas nos cornos, primeiro com navalha afiada, depois com grosa de vidro, a raspar. Alguns para que fira e faça fugir o adversário aplicam-lhe pontas de aço, nas extremidades. Alguns ainda dão vinho e cerveja ao animal, para que vá mais furioso. Durante a noite azougam-no, ou colocam-lhe a pele de uma vaca ou vitela no lombo, para que ai cheirar o inimigo, este fuja de pasmo e medo. Entretanto na missa, lembra-se aos santos o pedido de vitória para o boi da nossa terra. Fazem-lhe promessas, orações, responsos e votos de ansiedade, para que toda a corte do céu esteja do lado do nosso boi. Diziam na última chega em 3 de Fevereiro de 1974, entre Vilar e a Vila: Nossa Senhora da Saúde se ponha do lado do nosso boi, e respondiam outros, no meio das refregas da chega: Senhor da Piedade esteja pelo nosso. Fazem apostas de 100$00 ou mais.

E chega a hora da partida. Toca o sino da aldeia ou o do boi para juntar o povo e tocam o boi ao local previsto e marcado, de comum acordo.

 

1600-travassos do rio (4)

 

Ainda as chegas de bois:

À saída da corte pode sair um pouco bravo, então tocam outro companheiro para que não fuja. E toda a gente de pau na mão, rodeia o ídolo, fazem prognósticos de vitória ou derrota, e uns atrás, outros adiante, homens e mulheres, pequenos e grandes, velhos e velhas aí vai tudo, caras alegres, desafiando um e estimulando outro para animar e lhe dar peito para ganhar.

Se passam em frente a alguma capela, igreja, ou nicho das almas, não deixam de fazer a sua petição esperançada, ou dar a sua esmolinha aos santos ou às benditas almas que obtenham a vitória. Transitando por alguma aldeia, deitam sal e, cruz nas ruas por causa da bruxaria ou mau olhado, à ida e à vinda. Não podem passar por algum rio se não perde o azougue e a força.

Chegam os animais ao campo, já repleto de gente em círculo largo. Entra um, de cada extremo do campo e ao mesmo tempo. É a entrada triunfal onde ambos e dois esperam os louros. Cada boi é acompanhado do pastor, que empunha o seu pau de lodo, para apoiar e animar o boi, apesar de serem muitos os que nessa hora, desejariam estar ao lado do seu preferido, para lhe dar força e o ir enfurecendo: é boi, é boizinho!

 

1600-travassos do rio (33)

 

Continuamos com as chegas:

Fazem ou não, uns momentos de carranca, com as caras, viradas, e pouco a pouco ou de repente conforme a inspiração de momento, pegam-se de frente, com a maior violência possível, procurando ferir e rasgar o companheiro, com as hastes, bem aguçadas. É o momento de mais atenção dos milhares de espectadores, que de todas as aldeias mais afastadas vieram assistir. Se não fora a Guarda Republicana, o povo crescia e rodeava os bois, como acontece nas chegas que se fazem de noite, em que há poucos espectadores. 5, 10, 15, 30 minutos é o geral de tempo que os gladiadores se entretêm a disputar a força. Houve um ou dois casos em que um matou o adversário, que era de Parafita.

 

1600-travassos do rio (66)

 

E continua:

No geral apenas há a lamentar uns ferimentos mais ou menos graves, na superfície da pele. Quando as forças já estão bem medidas e houve sobreposição de um boi, o outro começa a olhar para o lugar por onde entrou, se tem tempo, e vai recuando, até que foge. O vencedor corre furioso a ver se o apanha. Intervêm logo os pastores e conterrâneos, com paus no ar, para os apartarem. E os da terra vencedora rodeiam o seu boi, sem medo. É o maior frenesi o da vitória. As raparigas e rapazes dão vivas: viva o nosso boi, viva! E depois de lhe verem as feridas, tocam cada qual o seu boi para a sua terra. Os vencidos, com a «beiça» e os vencedores cantando, uns diante, outros atrás do boi. Se podem, enfeitam-no com fitas, ramos, flores, bandeiras vermelhas, cordões de ouro, notas de conto, etc.. Chegando ao povoado, o boi vai, em procissão, dar a volta às ruas da aldeia, ovacionado por todos que dizem: abençoado boi e grão que comestes! Há festa com baile para todos e vinho à discrição pago pelos entusiastas e apostantes.

 

1600-travassos do rio (72)

 

Por fim, ainda sobre as chegas:

Ganha uma vitória, logo outros, que têm na aldeia um boi do povo, que foi já vencedor, pensam em desafiar aquele para outra chega a ver qual é o campeão.

Antigamente no fim das chegas havia barulho. Ao fim das chegas dos bois, chegavam-se os homens. Todos levavam paus e discutia-se a força, o direito de ganhar, qualquer ilegalidade e toca a dar paulada à direita e à esquerda. Hoje a Guarda tira paus a quem os leva e já não há perigo de se pegarem os homens, por causa dos bois.

 

1600-travassos do rio (59)

 

Assim, tal e qual como atrás descrito, recordo as chegas do Sr. da Piedade entre os bois da Portela e da Vila, ou da Portela ou da Vila com outras aldeias, a festa à volta do vencedor e as «beiças» dos perdedores, mas recordemos que a Etnografia Transmontana – I,  foi publicada em 1974, isto para vos dizer que a tradição da chega dos bois, hoje,  já não é aquilo que então era.  As chegas ainda existem no Barroso, agora disputa-se um campeonato, mas os bois já não são comunitários, já não são do povo, já não representam as suas aldeias. Hoje são de proprietários particulares, alguns até nem são barrosões.  Mantêm-se as chegas, mas perdeu-se toda a tradição e festa comunitária que a elas estavam ligadas. Coisas dos novos tempos, mas também ela uma consequência do despovoamento das aldeias.

 

1600-travassos do rio (25)

 

Mas isto já não são coisas de hoje, Miguel Torga, no seu diário, em 29 de agosto de 1991, registava o seu lamento num escrito que hoje também ele repousa transcrito em placa colocada na base da torre do boi e onde se pode ler:

 

Travassos do Rio, Montalegre, 29 de Agosto de 1991

 

Notabiliza este lugar um baixo-relevo na torre sineira a figurar a cabeça de um toiro, que foi campeão invencível nas turras do seu tempo e os habitantes, ufanos de tanta valentia, quiseram perpetuar.

Vou rememorando: Cornos das Alturas, Cornos da Fonte Fria, Tourém, Toural, Pitões.

Era assim antanho. Por todo o lado a mesma obsessão a tutelar as consciências. O mal é que o povo, em meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala francês, bebe coca-cola, deixo de comer o pão e centeio do forno comunitário, assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais alugados. É um nédio boi capado.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

1600-travassos do rio (56)

 

E sem mais demora que esta coisa começa a alongar-se e se nos entusiasmamos temos aqui latim para uma semana, passemos às nossas habituais abordagens que repetimos em cada aldeia, como por exemplo saber o que nos diz a “Toponímia de Barroso” ao respeito da nossa aldeia convidada:

 

Travaços do Rio

 

A grafia com ss é ridiculamente errónea visto que toponimicamente não fica abonada por qualquer forma escrita antiga.

A raíz latina trabe é evidente, significando trave, com sufixo aço; trata-se, por conseguinte, de local onde abundam árvores para construção, elegantes e de boa madeira com as quais os povos primitivos, à falta de pedra próxima em quantidade, faziam muitas vezes resistentes paliçadas defensivas à roda das casas do castro.

Alguns dos mais antigos documentos concernentes ao território Barrosão dizem respeito ao termo desta localidade como já afirmei noutros trabalhos e de que destaco a célebre doação feita por Aloito e sua mulher Bonela a São Rosendo em

- 953 «ipsa villa qui vocitant Travazos…prope rivulo Catavello» T.de C., I, de Andrade Cernada, Santiago de Compostela, 1995. Pág. 7/12.

Como o rio desse nome entre Larouco e a foz do Regavão era o Catavelo não restam dúvidas quanto ao Travaços de que se fala!

 

1600-travassos do rio (53)

 

E como sobre Travassos nada consta na “Toponímia Alegre”, faço eu um apontamento.

Mais uma vez a Toponímia de Barroso vem “contrariar” aquilo que é oficial e popularmente aceite e em vigor, refiro-me ao topónimo da nossa aldeia de hoje que em todo o lado o vejo escrito (página oficial da Câmara Municipal, CENSOS, e outra literatura e documentos) com sendo Travassos (com ss) e não Travaços  (com ç). A título de curiosidade para nós flavienses, na direção oposta a este Travassos-Travaços encontramos um caso idêntico, mas ao contrário, ou seja Valpassos como antigamente se escrevia, hoje escreve-se Valpaços. E afirmei “idêntico” sem ter bem a certeza de se o é, pois como cidadão comum falham-me estas preciosidades eruditas da evolução da nossa língua, coisa que nem quero aprofundar, pois para confusão já me chega ser obrigado a escrever segundo o novo acordo ortográfico, daí, aceito as coisas como elas hoje são, e neste post, o Travassos com que iniciei vai continuar a ser Travassos até ao fim.

 

1600-travassos do rio (52)

 

Passemos ao livro “Montalegre” aqui também Travassos grafado como Travaços, mas embora seja uma exceção aos escritos comuns, não é exceção nenhuma, pois o autor da “Toponímia de Barroso” é o mesmo do livro “Montalegre”, é portanto uma questão de coerência. Mas diz então o livro “Montalegre” a respeito de Travassos do Rio:

 

O boi do povo em Barroso é o símbolo máximo da vida comunitária, da virilidade, da fecundidade, da força e da honra da freguesia. No castelo de São Romão gravaram uma cabeça de boi, há milhares de anos, em sinal do culto que lhe devotavam; no século passado, os de Travaços do Rio, terra de memórias firmes e longas, gravaram a cabeça do boi campeão numa torre que lhe dedicaram. Não há muitas décadas, dezenas e dezenas de bovinos faziam novenas à roda da Capelinha do Santo António de Viade que os protegera de doenças e desastres. As inseminações artificiais retiraram à “divindade de cornos” o poder dos testículos mas não impediram que os barrosões continuem a praticar o seu desporto favorito que são as chegas. Até estão organizadas num campeonato ao longo do ano! Se os leitores forem ao futebol, em Montalegre, verão a assistir umas cem ou duzentas pessoas; se esperarem para ver uma chega de campeões, tenham cuidado!...não sejam atropelados por alguma multidão de cinco ou seis mil pessoas cheias de emoção!

 

1600-travassos do rio (75)

 

Uma outra referência à aldeia, ainda no livro “Montalegre” é a respeito de um seu ilustre:

Filipe José Gonçalves Andrade (séc. XVIII) nasceu em Travaços do Rio, em 173. Foi médico e cirurgião – mor do Reino do Algarve. Traduziu do francês a “Memória a respeito da peste” e faleceu, com oitenta anos, em Cabril, Montalegre. Foi agraciado com o hábito da Ordem de S. Tiago em 1791.

 

1600-travassos do rio (19)

 

E ainda mais uma referência no livro “Montalegre”

 

A criação de gado foi tão importante que os de Travaços do Rio ergueram a meio do povo uma torre ao boi campeão. Os seus habitantes devem sentir-se orgulhosos também porque Travaços é, depois de Salto, a terra barrosã referida em documentos autênticos e mais antigos: trata-se de dois documentos do Tombo de Celanova, na Galiza, referentes a doações destinadas ao Mosteiro e ambas no termo de Travaços, datadas, respectivamente, dos anos 93 e 976, sendo que numa delas é doadora a própria mãe do bispo São Rosendo! Há 103 anos!

 

1600-travassos do rio (91)

 

E o nosso entusiasmo vai ficar por aqui, mas antes ainda uma referência a mais duas preciosidades que encontrámos em Travassos do Rio e que ficam nesta duas últimas imagens, a primeira uma senhora com a capa de burel vestida, um abrigo para o frio e para a chuva, como era o caso no momento em que tomámos a foto, capa que embora ainda se vá vendo ao longo do Barroso, já começa a rarear. A outra preciosidade, por sorte de uma porta aberta que nos facilitou a imagem, é a de uma malhadeira, que também já é rara e cuja invenção é atribuída a Júlio dos Santos Pereira, que embora natural de Valpaços, fez de Chaves a sua terra de residência (sobre a invenção da malhadeira, notícia aqui: https://www.jn.pt/arquivo/2005/interior/flavia-criativa-de-volta-13-anos-depois-494764.html

 

1600-travassos do rio (43)

 

E ficamos por aqui sem uma referência ou imagem das cascatas Barrondas, tudo porque não fomos lá e não temos imagens, mas ficam para um post futuro. Fica prometido. Ficam também as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, José Dias, (2006), Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre.

BAPTISTA, José Dias, (2014), Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1974.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana II - Comunitarismo do Barroso, edição do autor, Montalegre, 1977.

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Fer.Ribeiro

      Há certas coisas que não se podem dizer nos posts,...

    • Fer.Ribeiro

      Obrigado pelo seu comentário. Quanto ao tapume, co...

    • Anónimo

      Parabéns pelo magnífico trabalho apresentado. No q...

    • FJR

      Conheço bem esta Rua pois o "velho Ceroulas" tinha...

    • FJR

      Eu tenho muitas saudades, Felizes aqueles que pode...