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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Ago20

O Barroso aqui tão perto - Lapela

Aldeias do Barroso de Montalegre - Com Vídeo

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LAPELA - MONTALEGRE

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos hoje esse resumo para a aldeia das Lapela, Montalegre.

 

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Aldeia de Lapela vista desde Ponteira

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Aldeia de Lapela vista desde Peneda de Cima

Uma das vantagens das aldeias de montanha são as suas vistas. Delas alcançam-se muito mais além do que desde um vale, e também as suas aldeias vizinhas. Claro que o contrário também é verdade, as aldeias ganham outra visibilidade quando são aldeias de montanha, principalmente vistas desde as aldeias vizinhas, como é o caso das duas últimas imagens, uma com Lapela vista desde Ponteira e a outra desde a Peneda de Cima.

 

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Lapela é uma das aldeias barrosãs da Serra do Gerês, mas estar na serra do Gerês não significa que esteja lá nas alturas, aliás as aldeias mais baixas do Barroso estão todas na Serra do Gerês, principalmente aquelas que ficam mais próximas do Rio Cávado (margem direita) e Rio Cabril. Lapela, não é das mais baixas, mas anda na cota dos 650m de altitude.

 

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Lapela é também uma das aldeias das proximidades do Rio Cávado, a cerca de 500 m do rio, medida em projeção horizontal, mas também não é sinónimo de acessibilidade, embora possa parecer. Acontece que entre a aldeia e o rio a montanha desce a pique. Veja atrás as fotografias da aldeia vista desde Ponteira e Peneda de Cima para ver quão acentuada é essa descida para o rio, que não se vê, mas fica lá bem no fundo da encosta da serra.

 

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Quanto à aldeia, foi para nós uma agradável surpresa, arrumadinha e limpinha, rodeada com o verde que é característico nestas terras mais baixas do Barroso, mas logo interrompido pelos grandes rochedos da Serra do Gerês, onde a vegetação quase desaparece, pela menos a vegetação mais alta, pois quando muito, algumas urzes, carqueja e outra vegetação ainda mais rasteira. O verde só existe mesmo à volta da aldeia. Veja novamente a foto de Lapela vista desde Ponteira, onde esta palavras são ilustradas.

 

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Por último, na última imagem que vai ficar a seguir, fazemos um elogio ao fio azul, trazendo aqui mais uma das suas utilidades. Até hoje, não houve nenhuma aldeia transmontana onde tivesse estado que não haja utilizações deste fio azul, o melhor de todos, daí o elogio que lhe faço de vez em quando, principalmente quando o vejo com uma nova utilidade. Apenas um aparte para justificar a última foto.

 

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E agora sim, o vídeo com todas as imagens da aldeia das Lapela que foram publicadas até hoje neste blog. Espero que gostem e para rever aquilo que foi dito sobre  Lapela  no post anterior que lhe dedicámos, fica um link no final para o mesmo.

Aqui fica o vídeo, espero que gostem:

 

 

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de Lapela:

 

http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-lapela-1435209

 

 

E quanto a aldeias de Barroso, despedimo-nos até ao próximo domingo, quando teremos aqui a mais uma das suas aldeia, mas do concelho de Boticas.

 

 

 

31
Jul20

O Barroso aqui tão perto - Lamas

Aldeias de Barroso - Com Vídeo

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Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos hoje esse resumo para a aldeia das Lamas.

 

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Mas uma vez que aqui estamos, aproveitamos a oportunidade para deixar mais algumas imagens da aldeia que escaparam à anterior seleção.

 

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Imagens com pormenores com que alguns poderão matar saudades e recuar ao tempo de criança, aquando aprenderam as primeiras letras e números, mas principalmente um regresso às brincadeiras e traquinices do recreio da escola.

 

 

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Imagens também cada vez mais raras, mesmo em vias de extinção, tal como uma cobertura em colmo que tem resistido ao tempo da modernidade. Um dos poucos exemplares que ainda resta no Barroso, e é pena que se acabem, pois cada aldeia, para memória futura, poderia manter uma construção com cobertura de colmo, mesmo que para isso tivesse de ser “nacionalizada” pelo município, pois um dia destes, ou aliás,  já é complicado explicar a uma criança como era uma cobertura de colmo.

 

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Mas hoje estamos aqui para falar da aldeia ou tecermos opiniões ao respeito do que quer que seja. Estamos aqui pelo vídeo que faltou ao post da aldeia, post esse para o qual fica um link no final. Vamos então ao vídeo, que espero que seja do vosso agrado.

Aqui fica:

 

 

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de Lamas:

https://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-lamas-1668129

 

E quanto a aldeias do Barroso do concelho de Montalegre, despedimo-nos até à próxima sexta –feira, quando teremos aqui a aldeia de Lapela, mas domingo, estaremos aqui com mais uma aldeia do Barros, mas do concelho de Boticas.

 

 

24
Jul20

O Barroso aqui tão perto - Lamachã

Aldeias do Barroso de Montalegre - C/Video

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LAMACHÃ

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos hoje esse resumo para a aldeia das Lamachã, do concelho de Montalegre.

 

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Embora mais próxima da Chã do que da Lama, a aldeia de Lamachã fica no limite do concelho de Montalegre confrontante com o concelho de Boticas, sendo também as aldeias botiquenses de Lavradas e Atilhó as suas vizinhas mais próximas, e só a seguir Negrões, esta de Montalegre. Isto no terreno que por estrada a cantiga é outra, mas Lavradas é mesmo a mais próxima, a apenas 1.3km.

 

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No concelho de Montalegre,  o acesso à aldeia é feito a partir da Aldeia de Negrões, uma das aldeias ribeirinhas da margem esquerda da barragem do Alto Rabagão (Pisões), e embora a Lamachã também fique próxima da barragem, a apenas 3km, quem está na aldeia, nem por isso sente a sua presença, primeiro porque não se vê desde lá, segundo, porque a aragem de Lamachã, é mais de serra do que de rio ou barragem, embora o topónimo da aldeia nos possa levar ao engano.

 

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Lamachã é portanto uma aldeia que pode servir de passagem ou atalho entre o concelho de Boticas e o de Montalegre, no entanto, penso que não é um atalho muito utilizado, pelo menos nós raramente o utilizámos, penso que só duas vezes, e uma foi para fazer a recolha fotográfica da aldeia. Não me perguntem porquê, pois não vos sei responder, mesmo porque o trajeto da estrada junto à margem esquerda da barragem, é dos mais bonitos e interessantes que há no Barroso, mas as alturas, também têm o seu atrativo.

 

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Mas hoje não estamos aqui para falar da aldeia e do Barroso, pois isso já o fizemos no post que lhe dedicámos. Hoje estamos aqui pelo vídeo que falto a esse mesmo post, não por esquecimento, mas porque na altura ainda não tínhamos introduzido o vídeo nos posts das aldeias. Mas aqui está ele, espero que gostem:

 

 

 

Post do blog Chaves dedicado à aldeia de Lamachã:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-lamacha-1745499

 

 

E quanto a aldeias do Barroso de Montalegre, despedimo-nos até à próxima sexta-feira, quando teremos aqui a aldeia de Lamas, mas no domingo, teremos mais uma aldeia do Barroso de Boticas, mais propriamente a aldeia de Coimbró.

 

 

 

 

23
Jul20

Crónicas Estrambólicas

Crónicas de um Primeiro-Ministro sobre o Barroso - 11

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Crónica de um Primeiro-Ministro sobre Barroso 11

 

 

Mais uma crónica do antigo Primeiro-Ministro António Granjo, um ilustre flaviense. É a uma das 15 crónicas sobre Barroso publicadas no jornal A Capital em 1915. A crónica está escrita como foi publicada, no português da altura, incluindo gralhas tipográficas.

 

Podia fazer alguns comentários à crónica mas prefiro que os leitores tirem as suas conclusões. Reparem só na descrição da interacção do autor com as personagens do povo mais simples. Só uma pessoa com tanta classe age daquela maneira.

 

Luís de Boticas

 

 

UMA TROVOADA EM BARROSO

 

A previsão do burro – A solução d'unz enigma – A subida ao Larouco

 

 

Passa debaixo da varanda um velhote montado n'um burro. A caravana está prestes. A mula carrega as provisões, o cavallo está devidamente albardado, e o guia prescuta o céu, onde as derradeiras estrelas fecham as pupilas azues.

 

E o velhote vê-nos preparados para a marcha, tira o lenço da cabeça, cumprimentador e humilde, e lança prophecia:

 

— Não se mettam ao caminho. Temos ahi a trovoada!

 

No céu não havia uma núvem. Corria uma brisa fresca. Nada fazia pressentir a approximação da trovoada.

 

— Homem, você não acordou bem da cabeça... — returque o guia.

 

E o velhote observa:

 

— Repare para as orelhas do meu burro.

 

E o burro arrebitava as orelhas, voltando os pavilhões para o norte, encolhia a cauda entre as pernas e dilatava ruidosamente as ventas.

 

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Olhamos uns para os outros, e enquanto o velhote ageitava o lenço de Alcobaça, atado na forma de turbante, às fontes encanecidas, as gargalhadas estugiram, fazendo vir às janellas das casas vizinhos alguns rostos estremunhados.

 

Lá de longe, o velhote ainda gritou:

 

— Tenham cautela!

 

À esquerda ficam as touças de Meixide. A luz como que se esfarpa entre as galhas. Uma andorinha voa alto. Em frente o Larouco. Uma grande columna de fumo se ergue, em espiral, da base da montanha até ao anil desmaiado da madrugada. De vez em quando a brisa faz oscilar a columna e vêem-se duas linhas de fogo, uma recta, outra convexa, caminhando em sentido contrário. A serra arde. Uma torga que os carvoeiros deixaram em brasa e que ao sopro do vento se converteu em chamma, uma faúlha que se escapou d'um lume de pastores e que cahiu n’uma moita secca, a ponta de cigarro d'um viajeiro, incendiaram a montanha. Soube, adeante, em Solveira, que o incêndio tomara durante a noite proporções phantasticas. Nas povoações vizinhas da serra, portuguezas e gallegas, tocou-se a rebate e para apagar o fogo chegaram a desviar-se inutilmente regatos e levadas, e a fazer-se debalde profundos valados. O incêndio lavrava sempre, queimando carvalhos e urzeiras e torturando os pastos. O reverbero das chamas chegava a Solveira e em Santo André e Villar de Perdizes andava-se nas ruas como de dia.

 

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Os olhos vão-nos presos na columna de fumo e só damos fé de que as nuvens comem já o valle quando em volta de nós cahem as primeiras pingas grossas, levando o pó e trazendo-nos às narinas o cheiro terra.

 

Sempre tivemos a impressão de que o burro é um animal calumniado. Não só o burro é um animal elegante e inteligente, em contrário do que se affirma commumente, como é em regra dotado de aptidões que falham à maioria das creaturas humanas. As orelhas do burro do bom velhote valem bem todas as prendas de certos homens, que por bem conhecidos se não individuam, e que por andarem com as mãos pelo ar imaginam que têm direito a desfazer nos burros.

 

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Apressamos o passo. O guia encadeando os rr, ou fazendo estoirar o lodão nas retrancas da mula, faz ir tudo de escantilhão. A plaina continua, intermina e monótona. Alguns lavradores fazem as sementeiras. Aqui e além, uma mulher de capucha, um homem de polainas de junco e de crossa, espargem os montículos de estrume.

 

A chuva cae em cordas grossas. Alcançamos Solveira e respiramos.

 

Acolhemo-nos a uma taberna, onde faz de banco um cortiço de abelhas.

 

O torvão ronca. Passam carvoeiros, com as caras escondidas nas capuchas de saragoça e os socos ferrados batendo as pedras.

 

A mula e o cavallo abrigados n'um pateo contemplando melancholicamente a rua, onde cae agua dos colmos. O cavallo é cego d'um olho.

 

O guia propõe-nos o seguinte enygma:

 

— Qual dos dois vê mais, a mula ou o cavallo?

 

E mordiscando a porta do cigarro, o guia assume um ar importante.

 

É o taberneiro quem decifra o enygma, depois de eu ter demonstrado mais uma vez à minha absoluta incapacidade.

 

— Vê mais o cavallo, porque tendo um só olho vê dois olhos à mula, e esta, com os seus dois olhos, vê só um olho ao cavallo.

 

A chuva começa a levantar. O sol deixa-se quasi ver por cima da egreja, em cuja torrela branca poisam duas pombas. Debaixo d'um alpendre, um serralheiro ambulante concerta um objecto de cozinha.

 

Sobre o Larouco as nuvens galopam. São as Walkirias que passam.

 

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Aproveita-se a aberta e giramos até Gralhas.

 

Segundo o «ltinerário» de António, o Pio, e segundo as «Memórias para a história eclesiástica do arcebispado de Braga, primaz das Hespanhas», pelo padre D. Jeronymo Contador d'Argote, seria aqui Caladunum, a primeira «mantion» que as legiões romanas encontravam na via militar de Aqua Flaviae a Bracara Augusta. Há, effectivamente, perto da povoação um sítio, a «Ciada», onde têem apparecido columnas, moedas, objectos de uso comum, aras, inscripções, materiaes de construção romanos, restos de um aglomerado urbano ou de uma estação militar.

 

Alguns vizinhos ficam abismados quando tropeçam com a «tegula» romana, o que acontece a cada passo, quando abrem um sulco ou escavam um poço. Põem-se a magicar, os pobres diabos, no facto de serem actualmente todas as casas cobertas de colmo e há tantos annos ter havido ali casas cobertas de boa telha, e ficam-se scismando se o mundo não terá andado par traz e não estará perto do dia do Juizo Final.

 

Uma escavação quasi à superfície desenterraria alguns trechos de muralhas e permittiria a reconstituição da «mantio». Mas não vale a pena preocuparem-se com isso nem os governos, nem os municípios, nem os sábios das tantíssimas academias que pululam em Portugal e cujos diplomas podiam muito bem substituir as antigas cartas de conselho.

 

A trovoada ronda em volta do Larouco. Dir-se-hia que as penedias veem aos rebelourões pela serra abaixo.

 

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Uma moça loira, os olhos verdes refletindo, como pequeninos vitraes, as imagens, e que a chegada da caravana attrahiu à tabemoria, fia na roca, inclinando de vez em quando o pescoço branco para molhar com os lábios carnudos e frescos o fio de lã.

 

O guia deita a cabeça de fora, espreitando inquieto o horizonte.

 

A moça sorri e adverte:

 

— A trovoada é como o lobo: morde e passa.

 

A sentença agrada-me,

 

— Menina podemos ir ao Larouco?

 

As pupilas verdes fixam-me. O fuso pára um momento.

 

— Quando o trovão ronca no vale O sol canta na serra.

 

E o fuso começa novamente a girar entre os dedos brancos como a lã.

 

Não hesito um momento. A pitonisa falou.

 

— Rapazes acima.

 

O guia torce o nariz. O photographo, olhando a machina, medita sobre as consequências da aventura. A moça continua a sorrir. No seu sorriso parece-me ver um fundo de ironia.

 

— Acima!

 

 

Antonio Granjo

 

 

 

17
Jul20

O Barroso aqui tão perto - Ladrugães

Aldeias do Barroso - Com Vídeo

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LADRUGÃES - MONTALEGRE

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos hoje esse resumo para a aldeia das Ladrugães.

 

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Ladrugães é uma das aldeias que fica nas proximidades do Rio Rabagão, na sua margem direita, entre as barragens dos Pisões e da Venda Nova, tendo como aldeias mais próximas a Vila da Ponte e Reigoso.

 

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Já que referimos o rio que tem próximo, passemos às Serras próximas, serras e rios, que afinal são a essência do Barroso. Pois quanto a Serras, a aldeia localiza-se na Serra do Facho, que mais coisa menos coisa, fica a meio e entre a Serra do Barroso e a Serra do Gerês.

 

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Mas embora seja uma aldeia de montanha, aliás como quase a grande totalidade das aldeias de Barroso, não está implantada nas terras mais altas, pois encontra-se a uma cota entre os 760 e os 870 metros de altitude. Quer-se dizer, são terras altas, mas não muito. Já agora, e a título de curiosidade, a serra do Facho atinge os 1280m de altitude.

 

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Quando se fala das Serras do Barroso, em geral só se mencionam as mais altas, como o Gerês, o Larouco, a Serra do Barroso ou Cabreira, mas há mais algumas que ultrapassam os 1.000 metros de altitude. Mas hoje não estamos aqui para falar de rios ou serras, e até da aldeia que trazemos hoje, pois sobre ela, já dissemos tudo que tínhamos a dizer no post que lhe dedicámos, hoje estamos aqui pelo vídeo que não teve nesse post e aproveitámos para deixar mais algumas fotografias. Antes do vídeo, só queria chamar a atenção para a última foto, pois ao fundo vê-se Ladrugães e a serra do Facho, mas a foto é tomada desde a Serra do Barroso, Casas da Serra, e tem em último plano a serra do Gerês.

 

Agora sim, o vídeo:

 

 

Post do blog Chaves dedicado à aldeia de Ladrugães:

https://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ladrugaes-1520004

 

E quanto a aldeias do Barroso, despedimo-nos até ao próximo domingo  em que teremos aqui a aldeia de Cerdedo, concelho de Boticas e até de hoje a oito, com a aldeia de Lamachã, concelho de Montalegre. Amanhã, temos mais uma aldeia de Chaves, Lamadarcos (andamos nas lamas).

13
Jul20

O Barroso aqui tão perto - Casas da Serra

Aldeias de Barroso - Concelho de Boticas

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Já estávamos no outono, mas apenas no calendário, pois bem lá na croa da Serra do Barroso, naquele dia de 6 de outubro, ainda era verão, como se fosse julho ou agosto, mesmo nos incêndios que iam manchando o azul do céu com o fumo do que ardia em terra, e a nossa volta, por onde íamos passando, não era exceção, o pouco mato rasteiro que havia para arder, ia ardendo, coisa de pastores diziam-nos, mas por ali não havia alma viva, apenas nós e a estrada, estreita, a caminho de mais uma aldeia do Barroso que nos diziam existir por ali, mas sem se avistar.

 

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Vindos de Coimbró e de Covelo do Monte, passámos por um pequeno santuário no meio do nada e continuámos por estrada virgem para nós, era a primeira vez que por ali passávamos, as curvas iam contornando pequenas elevações, muitos penedos, vegetação sempre rasteira e muito fumo, às vezes passávamos mesmo pelo meio do fogo, de ambos os lados da estrada, sem grande perigo pois as chamas iam comendo nas calmas o que restava por arder. Segundo os nossos cálculos, Casas da Serra deveria estar a aparecer-nos no horizonte, mas no entretanto apenas estrada, penedos, e o incêndio, para trás, nas nossas costas, iam ficando as grandes ventoinhas de um dos parques eólicos, um tipo de vegetação recente que agora vai cobrindo os montes altos do Barroso…

 

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E finalmente uma pequena placa indicava Casas da Serra, e sim senhor, serra(s) havia muita(s), estávamos na Serra do Barroso e ao fundo víamos a serra do Facho e depois dela a Serra do Gerês, e uma pequena povoação na Serra do Facho, Ladrugães, parece-me, mas casas de Casas da Serra, ainda nada. A figura de um pequeno pato chamou-nos a atenção e mais um clique, um daqueles patinhos que as crianças põem na banheira enquanto tomam banho, mas este era mais um rochedo no monte,  depois de um outro grande penedo que obriga a mais uma curva na estrada, e finalmente, entre rochedos e bocadinhos de estrada, um ponto vermelho que tudo leva a crer ser um telhado das Casas da Serra.

 

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E era. Logo de seguida, uma capela na croa de um pequeno monte e na base, uma casa branca realça no meio de uma pequena veiga amarela, por aqui não há a exuberância do verde. A terra é alta, estávamos a 1.150 metros de altitude e não me cheira a fontes de água nem as oiço a correr nas levadas, talvez de inverno o verde regresse. Vista dali as Casas da Serra parecem simpáticas, embora aquela casa branca chame toda a atenção para só, mas nota-se por trás dela o casario de pedra bem camuflando na paisagem, apenas uns poucos telhados laranja nos indicam o granito que os suportam.

 

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Há terras onde se sente mesmo estar no teto do mundo, esta é uma delas, Casas da Serra, lá bem no alto da serra, mas a croa da serra, essa é reservada à pequena capela, mais parecendo um farol em terra para quem anda a navegar no mar de montanhas do Barroso, embora não seja essa a sua finalidade, mas na realidade, servem mesmo de faróis diurnos para quem navega no mar de montanhas do Barroso.

 

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E esta das capelas nas croas de pequenos montes dentro das grandes montanhas, vão-se repetindo nas aldeias das redondezas, desde a capela de São João da Fraga no Gerês à capela de Santo Isidro nas Alturas do Barroso, desde a capela de Santa Luzia em Cela à capela de Atilhó, desde a capela da Senhora da Livração em Ormeche (Paio Afonso) à de São Domingos em Morgade ou à da capela na Nossa Senhora das Treburas em Montalegre, entre outras. Um dia, quando acabarmos esta ronda por todas as aldeias do Barroso, pode ser que surja aqui um post com todas estas capelas e igrejas das croas dos montes ou isoladas na montanha.

 

 

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Apetecia-me ficar no discurso anterior pois o cartaz de boas-vindas à aldeia não é lá muito acolhedor, um largo, no meio um tanque vazio sem água, a maioria do casario, senão todo, está abandonado, fechado. Metade da aldeia está em ruinas, pelo menos os telhados estão todos esbarrondados, e as paredes não estão porque são de boa construção, aliás uma construção em granito maioritariamente trabalhado em perpianho que demonstra que esta aldeia quando existiu com toda a sua integridade e pessoas dentro das casas, não era uma aldeia qualquer, mas que agora parece uma aldeia fantasma. Mais uma vez a casa branca destoa no conjunto, não parece abandonada, mas também não parece habitada e, ia a quase a dizer que pessoas na aldeia não havia, mas uma alma viva apareceu, assim a modos de querer saber ao que andávamos, e tinha toda a razão, depois das apresentações e de contarmos ao que íamos, começámos a dialogar.

 

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Pensávamos que não havia aqui ninguém, fomos-lhe dizendo, que Casas da Serra já estava como Covelo do Monte[i], mas afinal ainda há vida por aqui. E o resto do pessoal!?Sou só eu!, respondeu-nos o José da Silva Freitas, cinquenta e poucos anos… então é o dono disto tudo! Afirmámos, e a resposta foi pronta - não, só das casas com telhado… e a aquela branca não é minha. Seguiu-se um prolongado silêncio enquanto subíamos a encosta em direção à pequena capela.

 

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Vista lá de cima a aldeia nem melhora nem piora, é aquilo que ali está. Invadem-nos sentimentos estranhos, faze-mos a nós próprios perguntas que não têm resposta porque não sabemos responder, e também não queremos perguntar. O que levou os antepassados desta aldeia a construir ali as suas casas no meio de rochas, num pequeno vale, é certo, mas metade desse vale é ocupado pelas casas. Ao contrário das outras aldeias que ergueram as suas casas nas encostas para deixarem as terras de cultivo livre, mas aqui compreende-se o porque das casas estarem no vale, pois é fácil de imaginar o que serão por aqui os invernos, a neve, o gelo e o vento, e o vale está mais protegido, principalmente dos ventos.

 

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Tento imaginar esta aldeia com vida, com o gado, as galinhas, os cães e as pessoas na rua, as casas ainda todas habitadas e o pequeno vale cultivado com o forno do povo bem afastado da aldeia, vá-se lá saber porque, talvez com medo aos incêndios, pois hoje as casas têm telhado de telha cerâmica, mas há coisa de 40 ou 50 anos ainda eram os colmos que faziam a cobertura das casas, o coroamento das parede de topo são testemunho disso. Mas olhando lá do alto da capela, vê-se perfeitamente que os antigos habitantes não viviam da agricultura. Talvez fossem pastores com grandes cabradas e outro gado maior. Talvez fossem caçadores. Talvez fossem ambas e duas as coisas..

 

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Tento imaginar a aldeia antiga o interessante que deveria ser. O lugar é bonito. Desde ele, basta subir até à capela, vê-se quase todo o Barroso, com vistas privilegiadas para terras do Gerês, terras de Cabril, terras de Salto, alcança-se o Larouco já bem distante e ao descer a montanha em direção a poente o rio Rabagão e os seus vales de Ladrugães na margem direita e de Vila da Ponte e Ormeche na margem esquerda, isto hoje, já depois das barragens, que há 60, 70 anos atrás era só o Rabagão.

 

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Ainda lá em cima no alto da capela,  os sentimento continuam contraditórios, aquilo que os meus olhos veem são de uma beleza singular, ali poderia existir um pequeno paraíso, mais uma pequena pérola deste colar do Barroso, mas assim, abandonado, com apenas uma alma viva a habitá-lo, mete dó e temos pena… por outro lado, a compreensão faz-nos voltar à razão, compreendemos, oh! se compreendemos, perfeitamente, que todos tivessem abandonado, partido e vêm-me de novo as palavras de Torga à lembrança “ Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhe dá a simples proteção de as respeitar.” E esta falta de respeito continua, pois estas aldeias definham, morrem à vista de todos e ninguém faz nada para contrariar este mundo que se acaba. Assim a compreensão das partidas leva-me até um outro sentimento, o da raiva.

 

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Quanto ao futuro desta aldeia já se sabe qual é, está a um pequeno passo disso mesmo. Quiçá daqui a 500 ou 1000, ou 10000 anos seja um dos muitos campos de arqueologia, com jovens arqueólogos a estudar uma civilização antiga que vivia o chamado comunitarismo barrosão…

 

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Vou manter esta aldeia debaixo de olho, talvez da próxima vez que lá for me aconteça o que me aconteceu em Covelo do Monte, quando tentei ir lá a primeira vez, quando a meio do caminho uma vedação e um portão vedavam a entrada, toda a aldeia foi comprada para um empreendimento turístico que nunca passou do papel, se é que algum papel existiu. E o turismo bem poderia contribuir para o futuro destas aldeias, mas para isso, teria de ter o seu povo, hábitos e costumes a habitá-las.

 

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Deixemos este já longo desabafo para trás e passemos à localização e itinerário para lá chegar. Já compreenderam que esta aldeia fica na serra do Barroso, lá bem no alto, mas ali, já, onde ela começa a descer para a Serra da Cabreira. Como temos andado pela Freguesia de Alturas do Barroso/Cerdedo, aliás a aldeia fica mais ou menos entre estas duas aldeias (Alturas e Cerdedo) e desde ambas se pode fazer o acesso a Casas da Serra, mas vou indicar-vos o itinerário que julgo mais interessante, com partida como sempre da cidade de Chaves, passagem por Boticas e Carreira da Lebre, até aqui nada que enganar. Logo a seguir à Carreira da Lebre, após passar o rio, vira-se em direção a Carvalhelhos, sem entrar na aldeia, pois imediatamente antes, vira-se à esquerda em direção a Atilhó e Alturas do Barroso. Nas alturas do Barroso o melhor é perguntar a alguém (há sempre gente nas ruas em Alturas do Barroso) qual a saída para Casas da Serra ou Coimbró, digo isto porque em alturas do Barroso, vindos de Atilhó, há mais duas saídas, uma para Montalegre e outra para Vilarinho Seco, não é por essas, é pela outra que fica a meio, mas vá por mim, pergunte a alguém na aldeia. Depois de estar na estrada certa, deixe-se ir até encontrar um cruzamento com umas construções (parece-me que de apoio ao parque eólico. Aí vire à esquerda e só passados 900 metros encontrar um pequeno santuário, vai pelo caminho certo, depois, logo a seguir, a menos de 3km, encontrará à direita o desvio para Casas da Serra. Mas ficam os nossos mapas com o itinerário, já é uma ajuda.

 

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Quanto às nossas pesquisas sobre a aldeia, bem vasculhamos os nosso documentos, na interente, em tudo quanto era sítio, mas nada ou quase nada, apenas duas referências à aldeia e uma delas já ultrapassada, duas referência na monografia de Boticas onde refere pertencer à freguesia de Cerdedo (que hoje já é Alturas do Barroso/Cerdedo, e a outra que diz: “ Parque Eólico da Serra do Barroso (Casas da Serra – Cerdedo)”, e mais nada.

 

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Mas com todo o nosso palavreado de hoje, também não tínhamos mais espaço e nem sequer um tema do Barroso, como habitualmente acontece, vamos ter por aqui. Assim só nos resta deixar aqui o vídeo resumo com todas as fotos do post de hoje.

 

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No entanto não queria terminar sem recomendar uma visita a aldeia, o lugar é bonito e recomenda-se, quanto aos sentires, cada um é cada qual e lá sente à sua maneira, se for um misto de sentimentos, até contraditórios, também não é mau, às vezes são necessários para melhor discernimos as coisas.

 

 Agora sim, o vídeo:

 

 

 

[i] Covelo do Monte, uma aldeia vizinha, completamente despovoada.

 

 

 

10
Jul20

O Barroso aqui tão perto - Gralhós

Aldeias do Barroso - Concelho de Montalegre (Com vídeo)

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GRALHÓS - MONTALEGRE

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos hoje esse resumo para a aldeia das Gralhós, Montalegre.

 

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Aldeia de Gralhós, uma das aldeias bem típicas do Alto-Barroso e a manter toda a sua tipicidade, com o seu núcleo antigo a manter a sua integridade, embora a com muito casario abandonado e em ruínas.

 

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Já as novas construções foram sendo construídas nos acessos à aldeia antiga e junto à estrada de ligação a Montalegre, formando dois pequenos núcelos. Em suma, é uma aldeia que tem três pequenos aglomerados de construções, dois novos e um antigo.

 

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Pena que o núcleo antigo esteja tão abandonado e com algumas ruínas, tanto mais que esta aldeia tem uma localização excelente, próxima da sede do concelho, Montalegre, próxima da EN103 e próxima da barragem dos Pisões.

 

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Poderia muito bem ser uma das aldeias turísticas de Montalegre se… e este se passa por uma forte aposta no turismo. Todo o Barroso é um tesouro turístico por explorar, tem tudo para ter um turismo de interior e de qualidade, só falta mesmo explorá-lo, de uma forma sustentável, não com projetos isolados, mas num projeto que pense o Barroso como um todo, de interesse intermunicipal e nacional.

 

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Mas hoje não estamos aqui para falar do Barroso, mas sim para cumprir a nossa falta para com a aldeia de Gralhós, trazendo aqui o vídeo resumo com todas as fotografias publicadas até hoje neste blog, incluindo as deste post que escaparam à anterior seleção.

 

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Pois aqui fica o vídeo da aldeia de Gralhós. No próximo domingo continuaremos pelo Barroso, com uma nova aldeia do concelho de Boticas e da Freguesia de Alturas do Barroso/Cerdedo. Ao concelho de Montalegre, regressaremos na próxima sexta-feira com mais um vídeo em falta, no caso, da aldeia de Ladrugães.

Aqui fica vídeo, espero que gostem:

 

 

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de Gralhós, Montalegre:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhos-1531210

 

 

05
Jul20

O Barroso aqui tão perto - Atilhó

Aldeias do Barroso - Aldeias de Boticas

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ATILHÓ – BOTICAS

 

Nesta ronda pelas aldeias do Barroso do concelho de Boticas, continuamos na freguesia de Alturas do Barroso/Cerdedo, hoje com a aldeia de Atilhó.

 

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Aldeia de Atilhó que vai calhando muitas vezes nos nossos itinerários pelo Barroso e na passagem ou atalhos para do concelho de Boticas para Montalegre ou vice-versa, quer via Alturas do Barroso com subida aos Cornos do Barroso ou pelo estradão que liga a Vilarinho de Negrões.

 

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Nestas aldeias de passagens frequentes, a passagem por elas, tanto as favorece como desfavorece, ou seja, por vezes, na nossa passagem, há motivos que promovem a nossa paragem para um registo, quer pelas condições meteorológicas, por exemplo de neve ou nevoeiros, ou por um qualquer outro motivo digno de registo, enriquecendo assim o espólio fotográfico do nosso arquivo sobre a aldeia. Por outro lado, como sabemos que passamos por lá muitas vezes, vamos sempre adiando o levantamento fotográfico, e quando calha a fazê-lo, por vezes nem sempre é o melhor dia para tal, principalmente pelas condições de luz ou meteorológicas. Foi um bocadinho o que aconteceu com atilho, que acabámos por levantar a aldeias às prestações, resultado de meia dúzia de passagens. Assim, as fotografias que hoje aqui deixamos, têm datas desde maio de 2011 a abril de 2019

 

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Completemos a localização desta aldeia e simultaneamente vamos abordar um pouco a rede viária do concelho de Boticas em relação ao concelho Montalegre, que pode de ser de toda a utilidade para um passeio de fim-de-semana pelo Barroso, isto para quem parte da cidade de Chaves ou da Vila de Boticas.

 

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Deixando de parte caminhos de terra só próprios para viaturas de todo terreno, existem 4 ligações entre o concelho de Boticas e o concelho de Montalegre, podendo dois desses acessos ser considerados principais, um secundário e outro um percurso de terceira categoria e de montanha.

 

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Os dois principais acessos são a Estrada Nacional 103 que liga Chaves a Braga e que entra no Concelho de Montalegre na região do Alto Barroso, mais propriamente com entrada no Alto Fontão, passagem pelo Barracão e depois faz o percurso das três barragens, a dos Pisões (pela margem direita) e a da Venda Nova e Salamonde (pelas margens esquerdas). Penso que será este o principal acesso entre as sedes co concelho (Boticas e Montalegre).

 

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O segundo acesso principal é a ER311, uma das estradas de montanha mais interessantes de Portugal, e não exagero ao afirmar isto, basta conhecer o seu itinerário e percorrê-la para ver que isto é verdade, isto referindo-me à EN311 original, criada pelo Decreto-Lei 34593 de 1945-05-11, cujo trajeto era: Fafe – Cabeceiras de Basto – Ladeiro – Casal – Boticas – Vidago – Loivos e Serapicos (EN314).

 

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EN 311 hoje em dia esfrangalhada em termos de classificação, pois embora mantenha em com o nº311, hoje é classificada desde estrada municipal, estrada regional, e estrada nacional, neste último caso só entre Boticas e Vidago, passando a regional entre Boticas e Venda Nova e de Salto a Cabeceiras de Basto. Já no concelho de Chaves, entre Vidago e o Peto de Lagarelhos, passou a municipal. Seja como for esta estrada, a original  EN 311, iniciava em Fafe e Terminava em Serapicos, ou seja, iniciava-se no Minho e terminava em Trás-os-Montes, atravessando por dois distritos (Braga e Vila Real) e por 6 concelhos (Fafe, Cabeceiras de Basto, Montalegre, Boticas, Chaves e Valpaços). Todo o trajeto em montanha e pequenos vales entre montanhas.

 

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Mas voltando às ligações a Montalegre, é esta mesma ER311, como uma ligação principal ao concelho de Montalegre, ao baixo Barroso, mais precisamente a Salto e Venda Nova.

 

O terceiro acesso ao concelho de Montalegre, também toma a ER311 até pouco depois da Carreira da Lebre, e no desvio para Carvalhelhos, toma a  EM520 que liga precisamente as duas estradas atrás referidas (EN103 e ER311), estrada esta que passa pelos Cornos de Barroso e faz a travessia da barragem dos Pisões pelo seu paredão, ou seja, este paredão também é estrada. Esta ligação a Montalegre passa obrigatoriamente por Atilhó, daí nos calhar muita vezes em passagem nos nossos itinerários.

 

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Para concluir, a terceira ligação entre Boticas e Montalegre, acontece entre Ardãos e Meixide, penso que esta ligação ainda não tem classificação como estrada, pois nos mapas aparece com rua Laborada. Um atalho que às vezes dá jeito tomar, mas com extremos cuidados, pois a estrada é estreita, em montanha e com muita curva.

 

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Ficam os nossos mapas para melhor se entenderem os parágrafos anteriores e a localização de Atilhó. Só não consta a “rua” que liga Ardãos a Meixide, mas existe.

 

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E agora muito resumidamente as nossas impressões pessoais sobre Atilhó. É, o que não é de estranhar no Barroso, uma aldeia interessante, mantendo a sua tipicidade e integridade de aldeia barrosã, sem grandes atentados pelo meio e algumas recuperações felizes. A Estrada atravessa o núcleo mais antigo a aldeia a meio, onde se destacam alguns dos largos principais da aldeia, num deles, mais pequeno, mas onde penso ter sido o centro principal da antiga aldeia, com um belíssimo tanque e chafariz onde se inicia a rua 1º de Dezembro que a meio tem um passadiço constituído por um arco perfeito em pedra de granito que bem pode ser apresentado como o ex-líbris desta aldeia. Mas passemos aos escritos e documentos sobre a aldeia.

 

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Na página da Direção-Geral do Património Cultural, sobre a capela de Atilhó, encontrámos o seguinte:

 

Imóvel
Localizada num dos extremos da aldeia de Atilhó, a Capela de Santa Margarida é um templo setecentista de planta retangular, com anexo lateral correspondente à sacristia. Implantada numa cota mais baixa em relação à rua fronteira, e delimitada por muro, o templo está adossado ao cemitério local.


De grande austeridade arquitetónica e decorativa, a capela apresenta fachada principal aberta por portal central, com moldura de linhas retas, idêntica à das janelas retangulares que o flanqueiam. Sobre a porta sobrepõe-se um pequeno óculo, envolvido por roseta. O frontispício é ladeado por cunhais de pilastras com entablamento, encimados por pináculos com esferas, numa solução que se repete no alçado posterior.


O elemento de maior destaque é a sineira que remata a empena na fachada principal, formada por arco de volta perfeita com duplas volutas que se unem, suportando a cruz central, flanqueada por pináculos idênticos aos dos cunhais.


No interior mantém-se a austeridade decorativa, com paredes revestidas por azulejos azuis, brancos e amarelos. Este programa decorativo terá sido executado no século XX, época de que data também o espaço da sacristia. Na capela-mor, um pouco mais larga do que a nave, destaca-se ao centro o retábulo de talha dourada e policromada, de gosto rococó, que integra a imagem da padroeira, Santa Margarida, ladeada pelas esculturas de Santa Bárbara e Santa Luzia. Nas paredes laterais deste espaço foram colocadas diversas mísulas com imaginária de devoção popular.

História
A Capela de Santa Margarida de Atilhó terá sido edificada na segunda metade do século XVIII, apontando-se a data de 1763, inscrita na fachada lateral do lado do Evangelho, como o ano da sua sagração. Estilisticamente, este templo revela fortes afinidades com a Igreja de Santa Eulália de Pensalvos, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, que foi alvo de uma intervenção arquitetónica no final do século XVII.


No século XX a capela foi intervencionada, datando desta campanha o revestimento azulejar e a edificação da sacristia.


A Capela de Atilhó foi classificada como de interesse municipal em 1986.
Catarina Oliveira
DGPC, 2017

 

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Na monografia de Boticas - Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas, encontrámos:

 

Festas e Romarias

- S. Sebastião, Domingo a seguir ao dia 20 de Janeiro, Atilhó.

- Sto. António,* 13 de Junho, Alturas do Barroso e Atilhó

- Santa Margarida, último domingo de Agosto, Atilhó

- Santa Bárbara,* 04 de Dezembro, Atilhó

- Santa Luzia,* 13 de Dezembro, Atilhó

 

Património Edificado

- Capela de Santa Margarida (Atilhó) – Património Classificado (IIM)

- Forno do Povo de Atilhó

 

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A respeito de moinhos, refere-se o seguinte na monografia de Boticas:

 

Neste tipo de sistemas de admissão de água o cubo pode adaptar-se facilmente ao declive do terreno em que é construído o moinho, podendo ser inclinado, acompanhando o declive da encosta (moinho de tubo), ou perfeitamente vertical, constituindo um tipo de moinho internacionalmente conhecido como moinho de Arubah, de que subsiste um raro exemplar na aldeia de Atilhó, na freguesia de Alturas do Barroso.

 

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Há dias, no Observador online, sob o título “Trabalho comunitário suspenso no Património Agrícola Mundial”, ao respeito,  apontavam-se alguns exemplos na aldeia de Atilhó. Não vamos transcrever o artigo (fica link no final). Mas o mesmo vai servir de mote para trazemos aqui mais um tema do Barroso, “A entreajuda nos trabalhos agrícolas”

 

 

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Temas do Barroso

 

A entreajuda nos trabalhos agrícolas

 

Dentro de cada comunidade aldeã criaram- -se redes de apoio, formas de solidariedade e cooperação vicinal, geralmente designadas como entreajuda.

 

A entreajuda tem como características principais a gratuidade e a reciprocidade de serviços, uma vez que, o favor recebido deve ser retribuído, pois, existe a obrigação moral de retribuir em iguais circunstâncias, ou em circunstâncias consideradas socialmente como equivalentes. Uma regra estabelecida pelo costume, que o adágio popular “Uma mão lava a outra e as duas lavam a cara” tão bem resume.

 

O êxodo rural, que se registou a partir de 1960, veio alterar quer a agricultura local, quer as formas de organização social, bem como as diferentes interdependências e as relações sociais existentes. Com a debandada geral que se registou, muitas parcelas agrícolas foram votadas ao abandono, o efectivo animal diminuiu e assistiu-se, simultaneamente, à crescente mecanização agrícola, que procurou suprimir a falta de mão-de-obra agrícola.

 

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Actualmente, a mecanização agrícola permite aos agregados familiares realizarem os trabalhos agrícolas sem terem que recorrer à mão-de-obra exterior à unidade doméstica. Todavia, a entreajuda continua a desempenhar um importante papel, na vida da população local, em especial para os mais idosos. Numas aldeias, mais do que em outras, vizinhos e familiares ainda se entreajudam uns aos outros não apenas por altura do “maior aperto” dos trabalhos agrícolas, mas nos mais diversos trabalhos (ir à lenha, cortar e carrar mato, fazer as sementeiras, sachar as terras e fazer as colheitas) numa lógica de reciprocidade dos serviços em iguais circunstâncias ou considerados socialmente como equivalentes. Esta entreajuda é especialmente importante entre os agricultores mais idosos a quem as forças começam a faltar para as árduas jornadas no campo, vale nestas situações a ajuda de outras pessoas.

 

Na maior parte das aldeias, a entreajuda processa-se, essencialmente, por altura do “pico” dos trabalhos agrícolas, que exigem celeridade na sua execução, como por exemplo as sementeiras, a ceifa e a recolha do feno, a recolha dos cereais e as vindimas. Participar e ajudar os vizinhos nestas tarefas, garante ao agricultor a ajuda e os braços necessários para a realização dos seus trabalhos.

 

Mas nem sempre quem que é ajudado nos seus trabalhos, pode retribuir essa ajuda em iguais circunstâncias, nestas situações cada um retribui como pode, aproveitando as circunstâncias e fazendo o que está ao seu alcance para ajudar quem o ajudou.

 

Todavia hoje cultiva-se menos, e entre os mais novos a adopção das modernas máquinas agrícolas veio facilitar a execução dos trabalhos sem ter que recorrer a muitos braços. Pelo que, muitas vezes a entreajuda se resume a pequenos círculos de vizinhança e familiares próximos.

 

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E para finalizar, o habitual vídeo com todas as fotografias de atilho  publicadas até hoje neste blog. Espero que gostem.

 

 

Alguns artigos de interesse sobre Atilhó:

 

- https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/covid-19-em-atilho-os-dias-sao-de-trabalho-no-campo-sem-os-intervalos-no-cafe-ou-na-missa

 

- https://observador.pt/2020/04/25/trabalho-comunitario-suspenso-no-patrimonio-agricola-mundial/

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

CÂMARA MUNICIPAL DE BOTICAS, Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas - Câmara Municipal de Boticas, Boticas, 2006.

 

WEBGRAFIA

 

-  http://www.cm-boticas.pt/

-  http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/71490

 

 

 

03
Jul20

O Barroso aqui tão perto - Gralhas

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GRALHAS - MONTALEGRE

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando do seu post neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos aqui hoje esse resumo para a aldeia de Gralhas, Montalegre.

 

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Aldeia das proximidades da sede do concelho, Montalegre, mas bem mais próxima da Serra do Larouco, pois fica mesmo nas suas faldas.

 

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Daí, lá e também aqui em imagem, a neve ser uma visita habitual, principalmente no inverno, mas também já não é de estranhar se ela cair em plena primavera.

 

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A par de Sendim, Padornelos, Meixedo e Santo André, é uma das aldeias que da parte portuguesa rodeiam a Serra do Larouco

 

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Mas sobre a aldeia de Gralha já dissemos tudo que tínhamos a dizer no post que lhe dedicámos, para o qual fica link no final deste post. Hoje é mais pelo vídeo que não teve, e aproveitamos a ocasião para deixar aqui mais algumas fotos que escaparam à anterior seleção.

 

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E agora sim, o vídeo com todas as imagens da aldeia de Gralhas que foram publicadas até hoje neste blog. Espero que gostem. Aqui fica:

 

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de Eiras:

 

E quanto a aldeias de Montalegre, despedimo-nos até a próxima sexta-feira,  em que teremos aqui a aldeia de Gralhós.

 

 

02
Jul20

Crónicas Estrambólicas

Crónicas de um Primeiro-Ministro sobre o Barroso - 9

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Crónica de um Primeiro-Ministro sobre Barroso 9

 

Mais uma crónica do antigo Primeiro-Ministro António Granjo, um ilustre flaviense. É a uma das 15 crónicas sobre Barroso publicadas no jornal A Capital em 1915. A crónica está escrita como foi publicada, no português de 1915, incluindo gralhas tipográficas.

 

Não tenho grandes comentários a fazer sobre esta crónica. Acho que há um excesso de preconceitos do Granjo contra os emigrantes no Brasil, que hoje em dia seriam politicamente incorrectos. Sobre o comunismo barrosão: sei que há cada vez menos comunismo embora ainda haja alguma entreajuda à moda antiga num arranque de batatas, numa vindima, ou coisa assim. Infelizmente, deixei os comentários a esta crónica para a última da hora e agora já não estou em condições de dizer nada. É que estive em comunismo copofónico com um amigo de Montalegre, um autêntico convívio barrosão, e agora estou bom mas é para ir dormir. Cronismo amador dá nisto. Um dia destes escrevo algo relacionado sobre isto, para compensar os leitores.

 

Luís de Boticas

 

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AINDA O COMMUNISMO BARROZÃO

Os que emigram e a influência que exercem quando regressam

 

Assim, os barrozões vão buscar à Terra Quente, ao Douro, em camaradas, os meios de subsistência que lhes nega à terra avara onde nasceram.

 

Isoladamente, vão para o Alentejo onde dão excelentes lagareiros; vão para Lisboa, onde uma pequena colónia barrozã moireja obscuramente; vão para o Brazil, para a América do Norte.

 

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Mas onde quer que o barrozão se aninhe, nos montes alentejanos, nos pateos de Lisboa, nas «praias d’além do mar», sempre dentro dos seus olhos e da sua alma vivem e cantam os colmados e os canastros das suas aldeias, os campos de milho das suas veigas, os lameiros das suas ribeiras. A saudade é para eles, homens da montanha, verdadeiramente um sexto sentido. Fóra das horas de trabalho, a que se entrega com todas as forças, com toda a brutalidade do seu ser, os momentos mais deliciosos do barrozão são aquelles em que revive a sua mocidade, alembrando os primeiros olhos dos quaes o coração «se ficou dependurado», como diz a cantiga, sobredoirando o altarsinho humilde em que commungou a primeira vez e em que os dedos maternaes espalharam papeisinhos de côr a fingir de petalas, sorrindo à ideia de que, todas as noites, ao levantar da mesa, os velhotes, lá muito longe, emquanto o vento uiva e os lobos fazem a bocca em roda das povoações, rezam o seu padre nosso para que Deus o affaste dos perigos e o livre de más companhias...

 

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Barroso - Fotografia de Artur Pastor

 

Vão para o Brazil, para a América do Norte, «para além d'água». Uns lá ficam; outros, judeus errantes à busca da imagem da fortuna, andam, andam, para afinal nem sequer se saber onde cahiram para sempre; alguns voltam. Os que voltam, um bello dia entram na povoação escarranchados n’uma boa besta, de grossa cadeia de oiro, bota fina, bem apessoados; atraz, um carro de bois, chiando que o leva o diabo, carreja as malas enormes, a cadeira de bordo e o papagaio.

 

As geiras das camaradas, o dinheiro do Brazil explicam o inexplicável. Desgraçado pássaro o que nasceu em ruim ninho, costuma dizer philosophicamente o barrozão. Como os pássaros, essas creaturas emigram para os paizes do sol, mas voltam sempre ao seu ruim ninho. Gostam de morrer sentados nos seus penedos, vendo desapparecer o sol lentamente. Parece-lhes que o corpo lhes descerá à campa um pouco mais quente e que a alma lhes levará menos tempo à subir ao céu.

 

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O papel social do brazileiro é por via de regra deletério e dissolvente. Eivado dos hábitos individualistas da cidade, pouco se lhes dando dos meios e olhando exclusivamente aos fins, não é raro que o brasileiro pretenda apropriar-se dos pastos comuns, tapar as servidões do povo, insurgir-se contra os usos e costumes, rebelar-se mesmo contra a auctoridade paterna. Também não é raro que o brazileiro se converta no usurario, levando juros exhorbitames, fazendo contractos leoninos, promovendo execuções. A usura tem frequentemente a forma do «pão aquartelado». O usuário empresta ao lavrador, para a semente um alqueire de pão, e o lavrador restitue ao usurário o alqueire e mais um quarto. Mesmo descontando à circunstância de estar sempre o pão mais caro na sementeira do que na colheita, é qualquer coisa como 15 a 18%. Nos annos em que a uma colheita abundate se segue um anno de seca e de fome, atinge as proporções phantasticas de 25%.

 

Já o soldado, depois de acabar o tempo, sahia do quartel e vinha para aldeia espalhar, com a siphilis, o desrespeito pelos velhos usos e pelos bons costumes. O brazileiro espalha a confusão e a indisciplina.

 

Ainda há poucos annos a moeda tinha em Barroso apenas o préstimo de por meio d'ella se comprarem na vila as coisas de mercearia. Seguia-se nas fainas agrícolas o sistema da mutualidade de serviços e pagava-se aos artificies (artistas) em géneros.

 

A carreja (transporte da messe aos domicílios) era determinada para todos e em dia fixado no chamado. Antes da carreja dois vizinhos faziam a contagem das pousadas (cada pousada tem cinco molhos) deante do guardador que arrematára a guardada pelo menor número de alqueires. O preço do guardador era repartido pelos vizinhos na proporção do que cada um colhera; e a carreja era feita em massa por todos os vizinhos. Ainda uma forma de communismo.

 

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Barroso - Fotografia de Artur Pastor

 

Levantadas as mêdas ou medouchas, conforme o tamanho, esperava-se a hora da malhada. Chamava-se à eira e cada qual acorria, não tendo o dono da messe outra obrigação além de dar de comer aos que trabalhassem. Era o serviço mútuo.

 

Nas espadelas do linho, o processo era o mesmo. Ajudavam-se uns aos outros, sem que houvesse a necessidade de intervenção da moeda para o pagamento de serviços, que se davam, mas que se não vendiam.

 

Ainda por muitos sítios se obedece aos antigos costumes, mas os institutos da mutualidade de serviços e da troca de géneros vão diminuindo de importância. A compra e venda, e consequentemente a moeda, vão entrando definitivamente nos hábitos.

 

Em grande parte esta evolução é devida ao brazileiro.

 

Em todo o caso, se o brazileiro, com os vicios que traz da cidade, é dentro da família communalista barrozã um elemento crítico, certo é que de vez em quando a sua bolsa e a sua vaidade erigem bons edifícios por aldeias reconditas, semeando a abundância, e que o exemplo da sua prosperidade e fortuna dão ouzio e força aos outros.

 

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N’esta região pauperrima, a arte é nula. A’ parte a canção popular, que brota espontânea como a agua das levadas, tudo se reduz a uns desenhos lineares nas espadelas, nos córnos de chamar as vezeiras. Não há em todo o Barroso uma única egreja em que appareça uma talha nobre, um azulejo, uma grinalda, uma rosacea, uma custodia. Pequenas capelas, com altares de ordinaríssima talha, muitas vezes caiada. É em volta d'estas capelas, alvejando entre os soutos dos castanheiros, ou apoiando-se no dorso das cumiadas que ainda se expõem os amortalhados e que as vaccas, com ramos de giesta floridos nas hastes em forma de lira, veem offerecer-se aos oragos e padroeiros.

 

Antonio Granjo

 

 

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