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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

18
Nov18

O Barroso aqui tão perto - Lodeiro Darque

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Continuando as nossas visitas ao Barroso aqui tão perto, hoje vamos mais uma vez até à freguesia de Salto, para uma aldeia que fica simultaneamente no limite da freguesia, no limite do concelho de Montalegre, no limite do Barroso e no limite de Trás-os-Montes, dá pelo nome de Lodeiro de Arque, às vezes também grafado como Lodeiro d’Arque, Lodeiro Darque, Lordeiro Darque e Lodeiro de Arca. Por aqui quase parece ser uma aldeia em tudo plural, mas não, é até muito singular nas suas características.  Da nossa parte para não estarmos a utilizar todos os topónimos conhecidos, de futuro, passaremos a referir a aldeia como Lodeiro Darque.

 

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Só fomos a esta aldeia uma única vez, decorria o dia 27 de maio de 2016, já depois das 17 horas, debaixo de uma valente trovoada em que chovia a potes, céu carregado e “baixo”, com muito pouca luz. Ainda pusemos a hipótese de lhe passar ao lado e ficar para uma próxima visita, que teria de ser propositada, pois sendo uma aldeia de limites não calha na passagem dos nossos itinerários pelo Barroso. Era um daqueles momentos em que sair do carro não era mesmo recomendável, nem com guarda chuva, mesmo assim decidimos dar uma volta pela aldeia.

 

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Entrámos e fomos logo brindados com um conjunto que nos agradou. Cruzeiro, alminhas e um pequeno chafariz compunham o largo de entrada. Não dava para sair do carro, mas com o vidro aberto sempre dava para fazer umas fotos rápidas. Muito escuras, por sinal, mas antes escuras que queimadas com luz a mais.

 

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As técnicas recomendam que o trabalho de campo seja precedido do devido trabalho de casa. Antes de avançarmos para o terreno deveríamos saber e recolher o máximo de informação daquilo que há por lá, no terreno. Mas digamos que sempre fui um pouco rebelde quando a normas estipuladas e que gosto de ser surpreendido. A única coisa que defino com antecedência são os itinerários de ida e volta a casa. Sei que com esta atitude às vezes deixámos coisas importantes para trás, mas também descobrimos outras, pormenores, que não vêm nos livros ou na informação disponível. Depois há também outra razão para esta atitude, é que ficando o Barroso aqui tão perto, a qualquer altura podemos lá chegar para completar o nosso levantamento, ou seja, arranjamos um pretexto para ir por lá outra vez. Não sei se será o caso, pois ainda estou na introdução do post sem saber o que os livros e outros documentos para pesquisa me reservam, mas prevejo que não sejam muitos.

 

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Em suma já tenho desculpas, talvez, para coisas que fossem de abordagem obrigatória e que tenham escapado ao levantamento, em imagem, pois quanto as conversas, na maioria das aldeias, vai sendo cada vez mais difícil, é que ao contrário do que acontecia há coisa de 30 e tal anos atrás, em que ao entrarmos numa aldeia apareciam logo os cães, os gatos, as crianças e as ruas tinham uma correria viva de pessoas e animais domésticos, hoje entramos e saímos, às vezes, sem ver vivalma. Pois em Lodeiro Darque, mesmo que habitualmente tenha uma vida social de rua, nesse dia não era mesmo recomendável andar nela. E assim foi, entramos e saímos sem ver vivalma.

 

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Já em casa, no pós-levantamento da aldeia, uma das primeiras coisas que geralmente faço é consultar as cartas, mapas e fotografia aérea. Às vezes lá dou conta de algumas falhas, de pequenos núcleos separados da aldeia que parecem merecer uma visita. No caso de Lodeiro Darque, a aldeia resume-se mesmo ao que vi. Pareceu-me então uma pequena aldeia que deveria ter mais qualquer coisa, mas não. Na realidade deve tratar-se de uma aldeia antiga que vivia à volta de duas grandes casas agrícolas, isto a julgar pelo casario existente em que duas construções se destacam como tal, e outras tantas com menos opulência, parecendo-me o restante serem armazéns agrícolas. Num total de cerca de vinte de casas, incluindo a capela e os armazéns e arrumos agrícolas.

 

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Pequena, sim, mas nem por isso deixa de ser interessante, com destaque para a sua entrada com o cruzeiro, alminhas e pequeno chafariz encostado às alminhas, as duas grandes casas agrícolas com pátio interior, a capela, o restante casario tipicamente transmontano e barrosão e a paisagem chegam para lhe recomendarmos uma visita.

 

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Vamos então à sua localização e itinerário para lá chegar a partir (como sempre) da cidade de Chaves. Pois desta vez, quanto a itinerário, partimos desde a estrada de Braga (EN103) até Sapiãos, onde abandonamos esta estrada para nos dirigirmos a Boticas. Depois tomamos a Nacional 311 em direção a Salto, nada que enganar, pois é sempre pela estrada principal, mesmo assim, a estrada está bem sinalizada para qualquer dúvida que possa surgir. Tem de se atravessar Salto e no final tem duas opções, sensivelmente de igual distância, numa segue-se pela N311 , passando ao lado de Reboreda e de Póvoa, a outra é via CM 1033, passando por Corva, Amial e Bagulhão, logo a seguir entra de novo na N311 e 400 metros à frente tem Lodeiro Darque. No nosso mapa que fica a seguir, recomendámos o CM1033 para ir (com passagem por 3 aldeias). No regresso, sempre poderá fazê-lo pela Póvoa e Reboreda, até Salto. Quanto ao restante itinerário de regresso a Chaves, desta vez, recomendo o mesmo de ida, mas sempre podem, chegado a Salto, descer à EN 103 e seguir sempre por ela até Chaves. Pelo itinerário recomendado, de Chaves a Lodeiro Darque são 60km (Via EN103 são mais 16Km).

 

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Retomemos agora com aquilo que encontrámos na documentação disponível, à qual tive acesso, sobre Lodeiro Darque, começando pela Toponímia de Barroso:

 

Lordeiro Darque, ou melhor, Lodeiro de “Arca”

 

É  mais um caso de eruditismo bacoco que até rima com idiotismo. Derivado de LODO (do latino LUTEU, que quer significar terreno enlameado) chegamos a lodeiro. No determinativo reside a dificuldade. Arque não é nada mas por dissimilação chegamos a Arque, corruptela de Arca. E essa arca teria de entrar no domínio arqueológico: ou “arca” > do latino arca como sepultura rupestre; ou como construção dolménica (que representa o mesmo); ou como marco divisório predial.

Como se trata de “lodeiro” onde a água e a terra se misturam, e condiz com parte da envolvência topográfica do sítio em causa, opto pela existência de algum marco que dividisse duas “vilinhas”, talvez Lodeiro de Arque e Lamachã, ali perto.

A confirmar quanto digo estão as INQUIRIÇÕES de

-1258 «in Lodeiro de Archa». A que propósito virá cá o Arque? Que tolice tamanha!

“Mais vale dinheiro na arca que fiador na praça”.

 

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Tolices quem não as comete… mas pelo menos já fiquei a compreender porque chovia tanto quando fui a Lodeiro … E agora apetecia-me dizer: “e com esta me bou!”, mas ainda vou ficar mais um bocadinho.

 

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Esperávamos que na “Toponímia Alegre” houvesse uma referência a Lodeiro Darque, mas não há, no entanto, bem mais antiga, há uma referência (do género) na Etnografia Transmontana I:

 

Alcunhas da Freguesia de Salto

(…)

Fome lazeira de Pereira,

Fome de rachar de Amiar, ou Manilhas

Tripas de Coelhos de Linharelhos,

Secos de pó de Caniçó,

Corvanitos de Corva,

Toucinheiros de Seara,

Pouco pão e muitas arcas de Lodeiro d’Arque

Peles de coelho em Paredes,

Sacos de palhas da Borralha.

(Informou Domingos Pereira Fernandes de Amial e José Frutuoso de Salto)

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1974.

 

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12
Nov18

O Barroso aqui tão perto - Sanguinhedo

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Como já sabemos que os finais de outono, todo o inverno e inícios de primavera, meteorologicamente falando, o tempo não é muito certo, em geral agendamos as nossas descobertas do Barroso para quando temos garantias de haver bom tempo e mais luz. Pois então, com alguma antecedência, marcámos o dia 12 de maio de 2017 para a descoberta de mais um pouco do Barroso, na qual tínhamos também incluído no nosso itinerário a aldeia de Sanguinhedo.

 

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Mas os dias do mês de maio também não são muito certos, é conforme lhes dá, e quando lhes dá para o torto, é mesmo para o torto o dia todo. Foi assim, bem torto, chuvoso e até com algum frio que nasceu aquele 12 de maio de 2017. Os parceiros de viagem ainda interrogaram se mantínhamos o dia para a fotografia e descoberta de mais algumas aldeias do Barroso. Claro que sim, em maio não podia chover todo o dia, algumas abertas haveríamos de ter… mas não tivemos, no entanto,  já que andávamos por lá, fizemos frente à chuva, ao frio e ao vento e embora as máquinas fotográficas até nem gostem de chuva, as fotografias adoram, ficam mais brilhantes, mais misteriosas, diferentes. Cumprimos a nossa missão e isso é o que interessa.

 

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Quanto a Sanguinhedo, já nos tinham falado da aldeia, como sendo uma das aldeias, a primeira completamente despovoada no concelho de Montalegre. Mal deixámos a EN103 para tomar a rampa de acesso à aldeia, com o temporal a cair sobre nós e as primeiras casas a surgirem no nosso horizonte, quase tivemos a sensação de  não estranhar o despovoamento. Parámos o carro para descansar da subida, olhámos para trás e eis o primeiro impacto, agradável, mesmo  debaixo de um céu ameaçador, a paisagem impressionava, ninguém podia ficar indiferente ao que se via. Olhando melhor para as primeiras casas, um pouco estranhas e fora do habitual no Barroso, acabavam também por fazer um conjunto simpático e igualmente interessante.

 

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A aldeia parecia começar e terminar ali, logo após aquilo que se via. Avançámos a pé mais um pouco e deparámos com um placa pousada em cima de umas pedras, encostada às paredes de uma das casas “Horse & Move – B&C Equitação”.  O Azul elétrico da placa atraía o nosso olhar e o lettering despertava-nos a curiosidade, para além disso demos conta de que a rua e a aldeia continuavam por ali acima. Os companheiros de viajem avançaram na direção que a placa indicava e eu, entrei no carro e avancei até ao final da rua que era também o final da aldeia e mal parei, fui recebido por um cão, amigável e simpático, troquei umas impressões com ele para ficarmos à-vontade, já sei que nunca me respondem, mas entendem-me sempre.

 

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E estava eu ainda de conversa com o cão, enquanto ia tirando a máquina fotográfica do carro e o guarda-chuva, o que provoca um certo embaraço andar e manejar as duas coisas, quando surge um homem vindo de uma das casas. Claro que vi logo que não era o fantasma da aldeia abandonada, pois via-se bem que era bem real, mesmo que viesse de cabeça coberta e o rosto naquele dia escuro ficasse à sombra do carapuço. E as minhas primeiras palavras dirigidas ao aparecido, ainda antes de o cumprimentar, foram de espanto: “Pensei que já não vivia aqui ninguém!?”. Que não!  Disse-me o aparecido, que vivia ele, a mulher o(s) filho(s), 10 cavalos e alguns cães, os que iam aparecendo e ficando por lá. Pela resposta deu logo para entender que o aparecido não era barrosão, embora falasse português, era um português esquisito, que deu mote para a próxima pergunta: — O senhor não é de cá, pois não!?. Pois não, não era, tinha vindo da Holanda à procura de uma propriedade para se poder dedicar aos cavalos. Era veterinário, gostava dos animais e da natureza e embora a intenção dele fosse outra região do país, calhou conhecer aquele cantinho do Barroso e apaixonar-se por ele, onde tinha tudo para aquilo que queria, e por ali ficaram.

 

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No entretanto,  os meus parceiros de viagem chegaram e ficaram tão espantados quanto eu fiquei quando viram o aparecido, que viemos depois a saber chamar-se Casper,  que vivia com a mulher, Brigitte, que entretanto também apareceu, ela professora de equitação. Bem, para o levantamento fotográfico da aldeia bastariam uns 20 minutos, mas a conversa foi rendendo, os anfitriões eram simpáticos, mostraram-nos as instalações, apresentaram-nos os cavalos que estavam lá mais à mão, um deles o halibute (fixei o nome por ser curioso) e acabámos por ficar por lá cerca de duas horas, se bem recordo.

 

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Um ano e uns meses já é muito tempo para recordar pormenores da conversa que tivemos, mas recordo ainda terem-nos falado de uma atividade com barcos de recreio na barragem da Venda Nova, que fica a penas 120m da aldeia, ou seja, entre a aldeia e a barragem, praticamente apenas temos a EN103. Recordo ainda terem falado em turismo rural, que tinham algumas das casas preparadas para este fim. Fui à net, pesquisei e lá está, pelo menos no “Booking.com” onde encontrei uma descrição sobre as instalações, que suponho ser da responsabilidade dos proprietários (holandeses), pelo menos a julgar por um pormenor do texto que deve estar relacionado com o ainda não dominarem convenientemente o português, refiro-me a este pormenor que irão ver no texto que a seguir vou transcrever: “existem estábulos para cavalos nos quartos”.  

 

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Pois aqui fica a transcrição daquilo que está no “Booking.com”

 

Quinta da Riba

Situada em Sanguinhedo, a Quinta da Riba é uma propriedade que providencia passeios a cavalo, com um total de 10 cavalos lusitano. Existem estábulos para cavalos nos quartos e um dos proprietários é um instrutor de equitação.

Entre as várias comodidades desta propriedade estão um jardim e um terraço. Está disponível acesso Wi-Fi gratuito. Os quartos deste alojamento de turismo rural estão equipados com um guarda-roupa. Os quartos estão completos com uma casa de banho partilhada, enquanto algumas unidades da Quinta da Riba também possuem uma área de estar.

Todas as manhãs é servido um pequeno-almoço continental na propriedade.

Uma variedade de actividades populares estão disponíveis na área em redor do alojamento, incluindo caminhadas. A propriedade também é um abrigo para cães.

Braga fica a 41 km da Quinta da Riba. O aeroporto mais próximo é o Aeroporto Francisco Sá Carneiro, a 76 km deste alojamento de turismo rural. 

Esta propriedade também tem uma das localizações melhor pontuadas em Sanguinhedo! Os hóspedes estão mais satisfeitos com ela do que com outras propriedades da mesma área.

Este alojamento é recomendado pela boa relação preço/qualidade em Sanguinhedo! Os hóspedes têm mais por menos dinheiro em comparação a outros alojamentos nesta cidade.

Falamos o seu idioma!

 

Para saber mais sobre esta unidade, nem há como consultar os seus sítios na net:

 

Páginas da Horse & Move – Sanguinhedo - Portugal

Internet: http://horseandmove.123website.nl/

Facebook: https://www.facebook.com/horseandmove/

 

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No texto que atrás foi ficando, já fica um pouco ou quase tudo a respeito da localização de Sanguinhedo. Já dissemos que fica junto à Barragem da Venda Nova, junto à EN103, a 41 Km de Braga e a 76 Km do aeroporto Sá Carneiro. Falta dizer que fica a 500 metros da Venda Nova e a 61,8 km de Chaves, mas a seguir deixamos o melhor caminho para lá chegar a partir de Chaves, logo seguido do nosso habitual mapa.

 

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Pois embora Sanguinhedo fique junto à EN103 e bastaria tomar esta estrada em Chaves, seguir sempre por ela até à Venda Nova (Barragem) e logo a seguir quatrocentos e tal metros) virar à esquerda para a nossa aldeia de hoje, não é este o itinerário que vou recomendar, pois esse será o da N311, por ser mais curto e para mim o mais interessante, no  entanto já sabem que eu recomendo sempre um caminho para ir e outro para vir, e o regresso, esse sim, recomendo a EN103. Mas que decide não sou eu e vocês tomarão aquele que entenderem. Falta só referir que a N311 é a estrada que liga Boticas a Salto, ou seja, caso seja este o itinerário escolhido, terão de tomas a EN103 em Chaves até Sapiãos, aí abandonam a EN103 e viram para Boticas, atravessam esta vila e seguem em direção a Salto, mesmo antes de chegar a Salto terão de virar à direita em direção à Venda Nova. Há sempre placas informativas, não há nada que enganar. Por este itinerário são 61.8 Km pela EN103 são 68.7 Km. Fica o nosso mapa.

 

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Vamos agora ao que encontrámos nas nossas pesquisas, onde como sempre o livro “Montalegre” é de consulta obrigatória. Pois no referido livro só encontrei duas referências a Sanguinhedo, uma quando se refere o roteiro das barragens e outra em relação ao Padre Domingos Barroso, que transcrevemos:

 

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Padre Domingos Barroso (séc. XIX) nasceu na quase erma povoação de Sanguinhedo, em 1889. Assinalado praticante das actividades cinegéticas, devemos-lhe o apuramento da raça canina dita “perdigueira”. Devido a tal escreveu “O Perdigueiro Português,” obra publicada em duas edições e muito elogiada. Escrevia muito bem, em estilo desempenado e limpo e colaborou em diversos órgãos de comunicação social escrita.

 

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Achámos estranho não aparecer nenhuma referência quanto à freguesia a que pertence, que deduzimos ser a Freguesia da Venda Nova. Fomos até essa parte do livro e lá aparece a aldeia grafada como Sangunhedo (sem o i). Mais por curiosidade do que por dúvida, fomos consultar o site do Município de Montalegre, que na pesquisa nos remete para o livro “Montalegre”, ou seja, voltámos ao mesmo, mas há sempre a “Toponímia de Barroso” para tirar dúvidas, e aí esclarecemos aquilo que já sabíamos, que Sanguinhedo é mesmo Sanguinhedo, só não sabíamos é que era do Arco, ou seja, Sanguinhedo do Arco, mas vamos à “Toponímia de Barroso” ver o que por lá se diz ao respeito.

 

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Sanguinhedo do Arco

Este topónimo tem percorrido o mesmo caminho de Sabuzedo, mas a partir do nome comum SANGUINHO + EDO – SANGUINHEDO. Apesar disso o povo pronuncia muitas vezes Sangunhedo  e refere o topónimo ao nome de um santinho: São Gunhedo, o que é um acto de crença inexplicável! E a tal santinho dedicaram as alminhas  do lugar que estão junto à Estrada Nacional 103.

 

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Ora com mais esta do São Gunhedo lá tive de ir à procura das alminhas para deixar aqui e que tinha arquivadas com as da aldeia de Padrões, mas como não quero que aqui falte nada, aqui estão as referidas alminhas:  

 

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Ainda integrado na “Toponímia de Barroso” está a “Toponímia Alegre” onde aparece uma quadra dedicada a Sanguinhedo:

 

Adeus, adeus, Sanguinhedo

És de ladeiras ao fundo;

Quem lá vai tomar amores

Vai-se despedir do mundo.

 

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No Dicionário do mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, encontrámos mais uma referência a Sanguinhedo:

 

MONUMENTOS, ACHADOS HISTÓRICOS E LOCAIS DE INTERESSE

De entre os monumentos destacamos: os diversos dólmenes e antas, já assinalados. Estes monumentos tumulares de pedra foram construídos, entre nós, no período que se situa nos fins do Neolítico, com prolongamento pela Idade do Bronze; os castros são povoações fortificadas, localizadas em colinas de difícil acesso e, de preferência, junto a cursos de água, onde os povos viviam em relativa tranquilidade e se poderiam defender de outras tribos. A cultura castreja teve larga difusão no Barroso, como já vimos; as estradas romanas que atravessavam a região do Barroso, fazem a ligação entre Braga e Chaves e Astorga com variantes e itinerários diferentes; os marcos miliários, monolitos que se fixavam ao longo das vias romanas, por vezes, com indicação de nomes e títulos honoríficos. assinalavam as distâncias de 1.000 em 1.000 passos. Dos muitos existentes ainda se conservam os que se encontraram em Vilarinho dos Padrões, Sanguinhedo.

 

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E vamos iniciando as despedidas, mas antes ainda há tempo para referir que na Internet encontrei a referência a uma  “Associação Recreativa e de Revitalização da Aldeia de Sanguinhedo”, mas apenas isso e ainda uma Dissertação de Mestrado de Arquitetura, data de 2013 e intitulada “Impacto da arquitetura na minimização do despovoamento local : Sanguinhedo, um caso de estudo”, ao qual só tivemos acesso ao resumo, que diz assim:

 

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O presente trabalho de investigação aborda a implementação de um restaurante apoiado por edifícios dirigidos ao Turismo de Habitação Rural, em Sanguinhedo, lugar de Venda Nova, um lugar quase abandonado no concelho de Montalegre. Representa a última etapa do 2º Ciclo, Mestrado Integrado em Arquitetura, a apresentar na Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada de Vila Nova de Famalicão. “Impacto da Arquitetura na Minimização do Despovoamento Local – Sanguinhedo: Um caso de estudo” foi o título produzido, após se analisar o estudo desenvolvido e se estabelecerem os objetivos pretendidos. A escolha deste trabalho foi motivada pelo conhecimento prévio da propriedade e região onde se pretende implementar o restaurante. Este trabalho explora o Turismo, em particular o Turismo em Espaço Rural e a forma como este pode dinamizar uma região e diminuir o seu despovoamento. A ideia surge depois do contato com a região do Barroso e suas gentes, aqui caracterizados, bem como da constatação do êxodo rural que esta região tem vivido em tempos recentes. Caracteriza-se a povoação de Venda Nova e seu enquadramento natural e geográfico fundamentando assim, a necessidade de implementação de um espaço que apoie o Turismo e sirva como âncora para não só atrair turistas, mas cativar as gerações mais novas a ficarem na sua terra natal. Cria-se, assim, um pólo dinamizador para um reinventar do espaço rural de Sanguinhedo, Venda Nova.

 

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Pois, todas as ideias são válidas e preciosas para combater despovoamento rural, o problema é que se trata de um problema estrutural, que não depende de nós e da nossa vontade, mas sim do poder central, se é que existe, pois também ele está hipotecado a quem realmente detém, e o problema maior, é que, parece-me, já não se saber que o detém. Entretanto, vamos ficando sem hospitais públicos, sem escolas, sem comércio local, sem agricultura, sem o regresso dos nossos filhos, sem os nossos saberes, sem os nossos sabores, sem as nossas tradições, enfim, sem a nossa cultura, para por fim ficarmos sem a nossa identidade.

 

E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

DA FONTE, Barroso, Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, Guimarães.

 

WEBGRAFIA

https://www.booking.com/hotel/pt/quinta-da-riba.pt-pt.html, consultado às 18H50 de 11/11/2018.

http://repositorio.ulusiada.pt/handle/11067/2996, consultado às 19H30 de 11/11/2018.

 

04
Nov18

O Barroso aqui tão perto - Bostochão

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Eu sei que prometi vir aqui ao blog todos os domingos com uma aldeia do Barroso, no entanto nem sempre nos é possível cumprir, a tempo e horas, as nossas promessas, mas apenas se adiam, e cá estamos de novo, com mais uma aldeia do Barroso, do concelho de Montalegre, hoje da freguesia de Cabril e que dá pelo nome de Bostochão (Busto Chão).

 

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Não sei porque razão, mas quando iniciei esta ronda pelas aldeias do Barroso, era uma das aldeias que tinha curiosidade em conhecer. Claro que a curiosidade deste conhecer era geral, mas há sempre uma aldeia ou outras em que a curiosidade é redobrada. Pois da primeira vez que a abordei, embora a curiosidade, foi só de passagem, o nosso destino era outro e tínhamos de cumprir.

 

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Quando calhou no nosso destino, decorria o ano de 2016, no dia 15 de julho, já depois das 16 horas. Dia quente, muito quente, e já andávamos nesta coisa de recolher imagens desde manhãzinha  bem cedo. Ora diz-nos a experiência que após os almoços do Barroso, vá-se lá saber porquê, a nossa inspiração cai a pique, a luz fica complicada e os motivos mais interessantes escondem-se de nós. Demos uma volta à aldeia, duas voltas e nada, mas insistimos sempre tem tomar umas imagens, no entanto, nestas circunstâncias, partimos sempre das aldeias com espírito de missão NÃO cumprida.

 

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E assim foi em Bostochão. Tivemos que lá voltar, um ano depois, no dia 17 de agosto de 2017 lá estávamos de novo, mas desta vez ainda de manhã, rondavam as 11 horas e nesta segunda entrada na aldeia, o calor ainda não apertava, a luz estava ótima, os motivos de interesse começaram a aparecer e a inspiração estava no seu normal. Não deu para muitas fotos, pois a aldeia não é grande, mas deu para algumas, mais que o suficiente para a feitura deste post.

 

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Bostochão é mais uma aldeia onde os nossos sentimentos entram em conflito ou mesmo em contradição. Por um lado gostamos do que vamos vendo, apreciamos a paisagem, o casario os pormenores, e ficamos agradados com isso, mas as ruinas, os abandonos das casas e a ausência das pessoas nas ruas e na vida diária, não nos deixam indiferentes, e vem-nos sempre à lembrança de como eram cheias de vida as nossas aldeias há coisa de 30 anos, e aí, passa a doer ver a realidade de hoje e o sentimento até nem é desagrado, mas antes de revolta, é que com estes abandonos das nossas aldeias, vai-se perdendo tudo aquilo que tínhamos de bom em termos culturais da vida rural das nossas aldeias, como as tradições, os saberes populares, os seus sabores, o comunitarismo mas talvez o mais importante seja mesmo o perder-se a vida de vizinhança e a vida de família, onde três gerações de família e vizinhança, viviam lado a lado,  num espírito de interajuda e num convívio intergeracional são, de troca e passagem de saberes, sempre com um extremo respeito pelos mais velhos, quando ser velho, era ainda sinónimo de ter muita experiência, muito conhecimento.

 

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No pós 25 de abril, ou seja, há coisa de trinta a quarenta anos, anos que coincidiu com o início da minha atividade laboral que, direta e indiretamente estava também ligada à vida das aldeias, recordo que os seus principais anseios e prioridades eram ter acessos e ruas pavimentadas, infraestruturas básicas, principalmente eletricidade e abastecimentos de água, mas também saneamento e escola, nas aldeias que não a tinham. Um pouco às cegas foram-se satisfazendo as necessidades das aldeias, pavimentaram-se os acessos, contruíram-se redes de abastecimentos de águas e saneamentos, pavimentaram-se as ruas das aldeias, a eletricidade chegou a todas as casas, idem com as telecomunicações, construíram-se as escolas que faltavam.

 

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Disse atrás que um pouco às cegas se foi construindo o que faltava, e foi às cegas porque autarcas e poder central apenas se preocuparam em satisfazer as necessidades imediatas, esquecendo-se (ou não) do futuro das populações rurais. Isto para ser muito meigo na minha apreciação, porque se fosse um pouco mais áspero, diria que autarcas e poder central sempre se estiveram a marimbar (para não utilizar outro termo) para as aldeias, apenas foram investindo nelas enquanto tinham eleitores, mas depressa deram conta que se estivessem concentrados nas cidades, continuavam eleitores e saiam muito mais baratos. Daí convidaram-nos, ou melhor, forçaram-nos a sair das aldeias. O futuro e a História darão conta dos crimes que se cometeram nestes últimos anos, não contra as aldeias, mas contra a nossa cultura rural e popular. Quanto as estórias futuras, se ainda se contarem, começarão “ Era uma vez, nuns sítios que se chamavam aldeias…”

 

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Mas vamos até Bostochão, e como chegamos lá!? — Pois vamos ao itinerário mais interessante, partindo do princípio em que vamos de passeio para conhecer as maravilhas que temos à porta, a menos de uma hora de viagem. Como sempre o nosso ponto de partida é a cidade de Chaves, e desta vez optamos por indicar a estrada de S.Caetano ou de Soutelino da Raia (EM507) até Montalegre onde após atravessarmos a vila, devemos tomar a M308 (em direção ao campo de futebol) até Sezelhe onde entraremos no Parque Nacional da Peneda Gerês, seguindo sempre pela estrada principal até Paradela (aldeia e barragem). Em Paradela, passamos o paredão da barragem para a outra margem, ou seja continuamos pela M308 em direção a Cabril, vamos passar ao lado de uma série de aldeias, qual delas a mais interessante ( Sirvozelo, Cela, Lapela, Azevedo, Xertelo, etc.) não sai dessa estrada que quando for a dar conta vai-lhe aparecer a placa que diz Bostochão. Mas fica o nosso mapa para ter uma ideia de onde fica.

 

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Como já o dissemos aqui várias vezes, não gostamos de regressar pelo mesmo itinerário, assim no regresso tomámos outro itinerário que sempre pode ser o itinerário de ida alternativo ao primeiro. Mas recomendamos o primeiro para ir por ser mais interessante e mais curto (75km). O itinerário de regresso é feito quase na totalidade pela EN103,  é mais longo (cerca de 83Km), mas ambos são percorridos, nas calmas, em 1H30, isto sem contar as paragens, que as há sempre obrigatórias.

 

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E estamos chegados aquela parte das pesquisas para ver o que por aí se diz de Bostochão, começando pelo livro Montalegre onde apenas diz que é um lugar da freguesia de Carbril. Começando e ficando pelo livro Montalegre, ou quase, pois mais nada encontrámos, mas ainda nos resta a Toponímia de Barroso, à qual passamos de seguida.

 

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Ora na Toponímia de Barroso não aparece Bostochão, mas sim Busto Chão. De facto, parece que era assim o seu topónimo mais antigo, pelo menos aparece assim grafado num testamento do Arquivo Distrital de Braga do ano de 1782:

“ (…) natural do lugar de Busto Chão, Freguesia de São Lourenço de Cabril, (…)

 

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Busto Chão

Ao contrário do que penso de outros bustos e Bustelos, neste caso deve tratar-se de topónimo  de sentido pastoril, a partir da raiz pré-romana BUST, significando sítio próprio para pastagens. Assim, Busto (lameiro ou poula, mas não plano,) figura também em:

- 1258 « Item de Busto (frio)» - forma perfeitamente estabelecida no século XIII. Pelo contrário a pastagem de Cabril não era fria mas era plana.

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

30
Set18

O Barroso aqui tão perto - Algures entre Cabril e Sirvozelo

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Pois é, nem sempre o tempo nos corre de feição, ou melhor, correr até corre, mas às vezes há outras prioridades que fazem com que alguns dos nossos compromissos não possam ser cumpridos. Ontem falhei aqui no blog ao não trazer mais uma aldeia de Chaves e hoje ia falhando no trazer “O Barroso aqui tão perto” e, de certa maneira, vou falhar outra vez, pois em vez de uma aldeia barrosã que não tive tempo de preparar, vou deixar-vos aqui três imagens, que nem sequer consigo dizer-vos onde foram tomadas, pois acontece que nas nossas andanças pelo Barroso, entre destinos dos nossos itinerários, às vezes vamos recolhendo imagens de motivos que nos despertam a atenção, mas na hora de as arquivar, não sabemos, territorialmente falando, em que aldeia ou lugar as guardar/arquivar. Assim vou criando pastas que dizem “entre x e y”. As imagens de hoje retirei-as da pasta “entre Cabril e Sirvozelo”.

 

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Ora entre Cabril e Sirvozelo há pelo menos a Cela, Lapela, Azevedo, Xertelo, Chelo, Bosto Chão e Vila Boa, mas com as objetivas da câmara fotográfica podemos ir muito mais além e fazer parecer ficar perto aquilo que fica longe. Das imagens aqui deixo sei que a da serra é do Gerês, a da vitelinha recordo ser no meio do monte entre a Cela e Lapela, ou talvez mesmo até Azevedo a da aldeia ainda não consegui descobrir. Não é impossível de descobrir, pois com a facilidade com que hoje temos acesso à fotografia aérea, bastava ir ao google earth (por exemplo) e investigar, comparando, mas tal como disse, por aqui o tempo é pouco e de momento apenas estou num intervalo de outras prioridades, e depois, é de certeza uma aleia barrosã, disso tenho a certeza, daí estar aqui com todo o direito.

 

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E para finalizar fica um apontamento do diário de Miguel Torga, quem sabe se não se referirá mesmo a estas terras que aqui ficam. Certo é que pelo menos são próximas, não fossem elas palavras que se referem ao Gerês.

 

O que salva o poeta é uma espécie de volubilidade visual, incorrigível. Como nunca vê com olhos automáticos, hirtos, rotineiros, pode, do mesmo ângulo e nas mesmas circunstâncias, estar sempre a descobrir novidades, aspectos inéditos numa paisagem gastas. E é o que me acontece. Ando aqui pela décima segunda vez como uma Kodak maluca, incapaz, por capricho de fabrico, de seriar a vida. Cada disparo é mais um inédito desfloramento de luz.

 

Miguel Torga, (1952), in Diário VI

 

Pois a minha “Kodak” não está maluca, nem incapaz, mas às vezes também não sabe aquilo que faz…

 

E com esta me bou!

 

 

 

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24
Set18

O Barroso aqui tão perto - Gorda

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Nesta ida ao “Barroso aqui tão perto”, vamos até terras da Chã, e tal como em todas as famílias há sempre um(a) que é sempre mais gordinho(a), hoje também vamos conhecer a Gorda da Chã, que por sinal, até é das mais magrinhas da freguesia, pelo menos em casario e dimensões, seja como for, é uma das localidades do Barroso de Montalegre e daí, também aqui tem lugar.

 

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Por sinal é uma das aldeias que conheço há mais tempo, mesmo antes de ter conhecido Montalegre, suponho, pois já não recordo, mas pela certa que assim foi na primeira viagem que fiz de Chaves até Montalegre,  nas carreiras de Braga, primeiro conheci o Alto Fontão, depois o Barracão, Gralhós e logo a seguir Gorda, e só 3km à frente deveria ter conhecido Montalegre, mas isto são tudo suposições que na realidade aconteceram mas das quais não tenho memória, mas sei que assim aconteceu.

 

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Já na memória tenho as vezes que em casa se falava da Gorda, mas também não recordo a respeito de que, e as pessoas que disso falavam já não me podem ajudar a recordar, mas a Gorda é a localidade, a última, que antigamente nos surgia antes de chegarmos a Montalegre, era assim uma espécie de “prepara-te que estamos a chegar”.

 

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Muito tempo depois desses tempos que atrás refiro, pelo que a Gorda tem como imagem de marca, comparo a localidade com a nossa flaviense que dá pelo nome de Bolideira (sem a pedra). Isto pelas dimensões das duas localidades (idênticas) e pelos armazéns, parecendo uma espécie de um pequeno entreposto, e na mesma uma localidade de passagem.

 

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Quero com isto dizer que se trata de uma pequena localidade que sai fora das características tradicionais de aldeia, daquelas que têm um núcleo bem definido, igreja ou capela, escola (mesmo que não funcione), largo da aldeia, tanque público, forno do povo, etc.

 

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Mas vamos até à Gorda, que já sabemos ficar em terras da Chã, ou seja, em todo aquele território que confronta com a margem direita da barragem dos Pisões. Primeiro vamos saber como chegar até lá, com o nosso itinerário seguido do nosso mapa. Como já vem sendo hábito recomendamos um caminho de ida e outro de vinda, que pode optar por fazer ao contrário daquilo que recomendo. Pois para ir, a EN103 (Chaves-Braga) parece-me bem. Saímos de Chaves, Curalha, etc, sempre pela EN103 até ao Barracão, a partir do qual devemos ficar com atenção à saída da EN103 que fica a 2 quilómetros e pico à frente. Já na M308, depois de passarmos Gralhós, teremos a Gorda, nada que enganar. No regresso sugiro seguir pela mesma estrada (M308) em direção a Montalegre, visitar a vila e regressar via Vilar de Perdizes, Soutelinho da Raia, Chaves. É passeio para um dia e de fazer nas calmas, saindo de casa não muito cedo e regressar a tempo e horas do que quer que seja.

 

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Vamos então às nossas pesquisas onde já adivinhava não encontrar grandes resultados, tudo pelo que já fui dizendo nos parágrafos anteriores, principalmente o de ser uma localidade pequena que sai fora das características da aldeia tradicional. Pois a verdade é que não encontrámos qualquer documento sobre a Gorda, mesmo no livro Montalegre onde costuma haver sempre qualquer coisa, só há a referência à Gorda pertencer à freguesia da Chã.

 

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Pelo menos na Toponímia de Barroso encontrámos um pequeno apontamento, que diz assim:

 

Gorda

Não parece restar dúvida que só pode ser o adjectivo latino GORDU > GORDO, no  feminino. E, como é corrente, subentendendo o substantivo terra ou equivalente: terra gorda que significa fértil, rica. Topónimo predial agora habitado mas ainda bastante recente pois não consta de qualquer documento de quantos temos compulsado.

 

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Ora cá está, a Gorda até na Toponímia de Barroso ficou magra por falta de documentação. E sim,  também a mim me parece um pequeno conjunto de construções mais recentes que as restantes localidades e que teria surgido ali por causa do entroncamento que nos leva até à aldeia de Peireses que fica a penas 900 metros da Gorda, quero com isto dizer que mais parece um bairro da aldeia de Peireses do que propriamente uma aldeia autónoma, mas se oficialmente é considerada uma localidade autónoma, pois assim seja e aqui está como tal.

 

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Com tudo isto já perceberam que fiquei sem palavreado para o post e lá teria que voltar às minhas impressões pessoais sobre o local. O que até nem é difícil, pois bastava uma imagem, a que a seguir aqui fica, para me dar inspiração que daria para ficar aqui todo o dia a divagar sobre o tema, que dá pelo nome de Serra do Larouco, mais uma vista sobre o Deus Larouco que é assim que se vê desde a Gorda, sempre diferente, mas sempre igual na sua imponência e majestosidade, mas sairíamos do tema, que hoje é a localidade da Gorda, da freguesia da Chã, de Montalegre, do Barroso, de Trás-os-Montes, Portugal. Assim, ficamos por aqui, mesmo porque não temos mais imagens preparadas, porque a Gorda sendo pequena também é magra para imagens.

 

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Assim, ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

10
Set18

O Barroso aqui tão perto - Viade de Baixo

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Vamos lá a mais uma voltinha pelo Barroso, que fica aqui tão perto e que é sempre um encanto andar por ele em constante descoberta. Hoje vamos até uma das 3 aldeias que têm como topónimo Viade, neste caso, Viade de Baixo.

 

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Isto de o topónimo principal se repetir em aldeias vizinhas é muito comum em Portugal, aliás no concelho de Montalegre não é caso único, pois nas Penedas (de Baixo, do Meio e de Cima) repete-se o mesmo, também no concelho de Chaves acontece nas Assureiras (de Baixo, do Meio e de Cima).

 

Mas neste caso de Viade, embora exista o Viade de Baixo e o Viade de Cima, a outra aldeia dá pelo topónimo de Antigo de Viade. Quanto ao significado do topónimo, mais à frente abordaremos o tema.

 

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Para já vamos às nossas impressões primeiras tomadas na nossa primeira visita a Viade de Baixo. E digo primeira, porque há aldeias em que ir por lá uma única vez não é suficiente. Aconteceu em Viade de Baixo onde fomos uma segunda vez, mas também uma terceira vez, e agora que comecei a entrar na sua intimidade e história, ou seja, a bisbilhotar nos documentos e publicações, penso que com tempo, uma quarta vez irá ser uma realidade, pois já me dei conta que me escaparam algumas coisas por lá. E confesso a minha culpa, pois poderia não ter acontecido assim.

 

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Pois a primeira vez em que fomos por Viade de Baixo, foi há dois anos, mais precisamente no dia 21 de maio de 2016 a partir das 16H30. Agora que já vou tendo um bocadinho de experiência nesta coisa de recolher imagens mas também conteúdos das aldeias, sei que a partir da hora do almoço é má hora para a fotografia, não só pela luz que é traiçoeira, mas também pelo calor que aperta mais (em tempo quente como foi o caso) e ainda pelos almoços do Barroso que são sempre bons e fartos, o que castra a inspiração, recomendado mais as assossegas.

 

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No trabalho de casa de organização e arquivo das imagens de Viade de Baixo do dia 21.05.16, logo me dei conta que a inspiração não tinha sido muita e que a recolha tinha ficado muito curta, principalmente depois de ter descoberto um lugar no facebook dedicado à aldeia e nele ter visto as imagens que Artur Pastor (https://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Pastor) por lá tinha recolhido nos anos 50/60. Nesse dia ficou decidida uma nova visita a Viade para uma recolha mais aprofundada.

 

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No dia 14 de junho de 2017, às 15 horas. De novo numa hora não muito própria, mas desta já íamos mais informados pelo que nos resguardámos um pouco no almoço e aproveitámos aquela hora em que eles (almoços) ainda não começaram a fazer efeito. Quanto ao calor e à luz daquela hora, lá teria que ser, nesta nova ida a Viade de Baixo. Desta vez sim, saímos de lá com espírito de missão cumprida, embora como já disse atrás, ainda com algumas falhas.

 

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Mas no entretanto e na recolha de informações para novos roteiros e itinerários, dei-me conta da existência de uma capela no meio do monte. Pela proximidade só poderia pertencer a Viade e como no passado dia 1 deste mês de setembro andávamos por ali nas proximidades, resolvemos partir à sua descoberta, e diga-se, que foi uma descoberta interessante e agradável, não só pelo conjunto da capela, fonte, cruzeiro e cruz, mas também pelas vistas que desde lá se alcançam. Ah! E desta vez chegámos lá ainda antes de almoçar, aliás até estivemos por lá a fazer horas (ou minutos) para chegarmos à mesa à hora certa. Não sei se já deram conta da importância que a mesa barrosã tem nesta coisa das recolhas fotográficas e documentais… aliás há por aqui quem diga que nós vamos para o Barroso mais pela mesa barrosã do que pelas fotografias, o que não é verdade, mas também não é mentira. Digamos antes que é ouro sobre azul…  

 

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Mas entremos na intimidade de Viade de Baixo, mas antes, como de costume, vamos saber onde se localiza e como chegamos lá, sempre a partir da cidade de Chaves. Para melhor localizarmos Viade nem há como dizer que confronta com a Barragem dos Pisões, na sua margem direita, ali por onde a EN 103 vai contornando as curvas da barragem, um pouco antes de se chegar ao paredão da barragem e da aldeia dos Pisões.  Onde atrás se diz que confronta com a barragem, quer dizer-se o território de Viade, pois a aldeia propriamente dita, fica a 800 metros da barragem e entre ambas, mais ou menos a meio, passa a EN103.

 

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Já entenderam que a EN103 pode ser um caminho para lá chegar, no entanto vou recomendar outro itinerário mais interessante, pois parto do princípio que quando vamos para uma destas aldeias, não vamos lá passar o dia todo e pelo caminho podemos ir deitando um olho a outras aldeias, outras paisagens e até fazer umas paragens em locais agradáveis para se estar um bocadinho em maré de apreciação.

 

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Pois desta vez para o nosso itinerário de ida, vou recomendar-vos a estrada do S. Caetano ou de Soutelinho da Raia, se preferirem. Quando deixarem Soutelinho para trás e imediatamente ante de aparecer a placa a anunciar o concelho de Montalegre, há um enorme rochedo junto à estrada, que é de paragem obrigatória, pois é desde aí que se vê todo o planalto do Larouco a rematar na serra. É desde este ponto que a Serra do Larouco mostra todo o seu endeusamento. Eu não fiz promessa de lá parar, mas a grande maioria das vezes paro por lá para tomar a minha dose de contemplação.  

 

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Logo a seguir temos Meixide onde no final da aldeia a estrada se bifurca, com ambos os destinos dirigidos a Montalegre. Devemos optar pelo da esquerda em direção a Pedrário e Sarraquinhos, nesta, logo na entrada devemos entrar dentro da aldeia, atravessá-la e sair em direção a Zebral. Todas esta aldeias são interessantes, assim, se algum motivo o convidar a parar, pare, pois temos tempo para chegar a Viade de Baixo.

 

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Depois de deixarmos Zebral de lado sem entrar nela, seguimos em direção a Vidoeiro, uma das aldeias dos colonos de Salazar, deve ignorar as placas para o Cortiço, mas se passar por lá também fica a caminho, e a pouco mais de 1 km está na “estação de serviço” do Barracão, já na EN103 (estrada Chaves-Braga).    

 

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Aqui começa a segunda parte do nosso itinerário que servirá para ir e mais tarde regressar. Estando no Barracão é só seguir pela EN103 em direção a Braga. Vai passar pela Aldeia Nova do Barroso (outra das aldeias dos colonos de Salazar), por S. Vicente da Chã, por Travassos da Chã (a lado), por Penedones e Parafita e logo a seguir aparecem as placas a indicar a entrada para Antigo de Viade, mas não é este o Viade do nosso destino de hoje, assim, continue pela EN103 e oitocentos metros mais à frente, aí sim, terá a indicação da entrada em Viade de Baixo e de Cima, à direita. Estamos no nosso destino. Fica o mapa por via das dúvidas.

 

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Estamos finalmente em Viade de Baixo. Não se esqueça, que para regressar a Chaves, depois da visita, deve retomar EN103 mas em direção contrária àquela que tomou para chegar a Viade . Não saia da estrada e estará de regresso a casa. Mas entremos então em Viade e nas nossas recomendações.

 

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Iremos já aos pontos de interesse que vêm nos documentos e livros, mas só um apontamento, não deixe de apreciar com olhos de ver a igreja, as capelas, alminhas e cruzeiros que vai encontrar ao longo da aldeia. O seu casario tipicamente barrosão que ainda vai resistindo, os canastros e tudo o mais que lhe despertar interesse. Na Igreja vi lá um pormenor que me encheu as medidas e que fica na foto seguinte. Trata-se das escadas de acesso à torre sineira, são de uma mestria suprema, nem que fosse só por este pormenor, já valia a pena uma visita a Viade. Mas há muito mais…

 

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Vamos aos documentos, iniciando pelo livro Montalegre, onde se diz:

 

Área: 43 Km²

Densidade Populacional: 18.1 hab/km²

 População Presente: 750

Orago: Santa Maria

Pontos Turísticos: Albufeira de Pisões; Solar dos Queridos; Marco Miliário e Igreja (Viade de Baixo);

Lugares da freguesia: (10) Antigo, Brandim, Friães, Parafita, Pisões, Telhado, Viade de Baixo e Viade de Cima, Lama da Missa e Castelo.

 

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Os dados do parágrafo anterior referem-se à antiga freguesia de Viade de Baixo, ou seja, Viade foi também uma das freguesias rifadas para se unir a outra freguesia vizinha, a de Fervidelas, ou seja, atualmente chama-se União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas, pelo que, às aldeias da freguesia atrás mencionadas, acrescem agora a aldeia de Fervidelas e Lamas.

 

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E continua o livro Montalegre:

 

A freguesia de Santa Maria de Viade orgulha-se do seu passado glorioso, de que restam vestígios notórios, às vezes, de muito difícil estudo por ausência total de documentos. Referimo-nos ao bonito solar dos Queridos no qual sobressai uma impressionante pedra de armas, dos Barrosos e Mouras, e a extinta capela de Santa Rita. A dificuldade de retirar da obscura poeira dos tempos a verdadeira história destes e doutros monumentos conduz à propagação do rosário de lendas que a tal respeito se contam.

 

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E continua:

 

O vale do Regavão, que bordeja a freguesia pelo sul e nascente, dá passagem à via prima, aqui assinalada por um miliário gigante que depois se transformou na cruz de Leiranque. Não longe desse local houve um pisão – que passou a topónimo da barragem e mais acima a antiquíssima Vila de Mel, provavelmente a primeira “statio” (São Vicente da Chã seria a segunda ) entre as cidades de “Praesidium” e “Caladunum” – “mansiones” da dita via imperial. Aí, ainda se pode ver a necrópole cujas sepulturas abertas num granitoide muito mole e areento se vão esboroando com a erosão eólica e aquática. Urge acudir-lhes. Doutras eras mais recentes temos imensas notícias que dariam para grossos volumes.

 

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E ainda:

Apesar de tudo ainda temos mais de mil fontes por esses recantos e algumas, que abasteceram as povoações, merecem uma visita! São as fontes de mergulho ou de chafurdo: em Mourilhe, Arcos, Vila da Ponte, Meixedo, Telhado, Viade de Baixo… Quase todas as povoações tinham a sua.

 

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E ainda a Lenda de Montalegre com uma referência a Viade:

 

Lenda de Montalegre

 

Diz-se que andavam por aí uns fidalgotes, com avantajadas comitivas de escudeiros, pagens e criadagem os quais entravam nas aldeias, comiam, bebiam do bom e do melhor, acomodavam e alimentavam cavalos e mulas, dormiam nas melhores casas e não prestavam  contas. Traziam os barrosões de nervos alterados e incapazes de lhes dar resposta condigna visto que partiam como chegavam, fora de horas e sem avisarem.

 

Mas num belo dia uma grande comitiva subia do Minho  por Salto, Vila da Ponte, Viade, comendo os melhores leitões, vitelas e cabrito, bebendo á tripa fora, despejando dispensas e fumeiros e sem abrirem os cordões à bolsa.

 

Juntou-se o povinho com grande alarido e ameaças ao alcaide cerca dos cubelos do Castelo. Ameaçado e vaiado o alcaide ordenou ao Capitão-mor que organizasse as forças necessárias para emboscar os agressores e obrigá-los a pagarem os prejuízos causados. 

 

Foi acorrentado para o cárcere do Castelo o Fidalgo que superintendia e comandava os assaltantes sendo dada ordem aos seus criados de regressarem às suas terras. Que voltassem com as quantias que o Povo exigia pelos gastos e roubos e então seria dada liberdade ao fidalgo encarcerado.

 

Uns tempos depois chegaram os familiares do preso e pagaram as suas dívidas. De seguida foi entregue o cavalo ao prisioneiro. Que partisse e não voltasse… 

 

O homem ao montar o seu cavalo a caminho da liberdade, despediu-se com duas palavras que são muito queridas a todos os Barrosões.

 

- Monto  alegre!!!

 

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E mais:

 

As Igrejas, Capelas, Alminhas e Cruzeiros - Vestígios de estilo românico nas Igrejas de S. Vicente da Chã, Viade e Tourém.

 

E ainda:

 

Contudo, a maior riqueza das nossas igrejas encontra-se no interior: tanto em muitos dos seus santos que escaparam à usura de sacristães, padres e “homens-bons”, como na talha que as orna, sendo que uma boa parte dela se deve a ignorados artistas autóctones. Merecem algum realce certos exemplares como Salto, Santa Marinha, Covelo, Vila da Ponte, Viade, S. Vicente, e sobretudo, pelo ruralíssimo e humílimo conjunto de talha de S. Miguel de Vilaça.

 

E também:

 

Há várias povoações com núcleos de construções tradicionais, bem conservados, muitíssimo belos e dignos de ajuda para a melhor preservação do património construído.

 

Estão neste caso Fafião, Pincães, Salto (diversos lugares de freguesia) Currais, Vila da Ponte, Viade, Carvalhais, Cervos, Donões, Gralhas, Tourém, Pitões, Parada e Sirvoselo. Em todas elas há núcleos construídos dignos de integrar os roteiros de visita ao património que o Ecomuseu defende.

 

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Continuando no livro “Montalegre”

 

No castelo de São Romão gravaram uma cabeça de boi, há milhares de anos, em sinal do culto que lhe devotavam; no século passado, os de Travaços do Rio, terra de memórias firmes e longas, gravaram a cabeça do boi campeão numa torre que lhe dedicaram. Não há muitas décadas, dezenas e dezenas de bovinos faziam novenas à roda da Capelinha do Santo António de Viade que os protegera de doenças e desastres.

 

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Capela de Stº António

 

Quanto a festas:

 

As Festas

 

Por falarmos em festas, algumas ocorrem cada ano por toda a região. As de mais nomeada e tradição são as festas concelhias ao Senhor da Piedade, que se realizam na capital, durante a primeira quinzena de Agosto; a de Salto, à Senhora do Pranto, em 15 de Agosto; a de Vilar de Perdizes, à Senhora da Saúde, a meados de Junho; as das sete Senhoras, todas elas Nossa Senhora dos Remédios, em sete localidades diferentes de Barroso, no dia 8 de Setembro, etc.

 

Muitas delas apresentam um programa de carácter etnográfico e recreativo e realizam-se em locais de impressionante envolvência paisagística. Entre estas destacam-se: a Senhora da Vila de Abril, na freguesia de Contim; a Senhora das Neves, na freguesia de Cabril; São João da Fraga, em Pitões; a Senhora de Galegos, na freguesia de Cervos (Cortiço); o São Domingos, em Morgade e o Santo António, em Viade.

 

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E arte sacra:

 

É ver e conhecer a tríade dos Pintos de Donões que tantas obras nos legaram e pedem meças a qualquer artista; são verdadeiras obras-primas que ornam ainda os altares de dezenas de igrejas, desde Montalegre a Chaves, Boticas e Valpaços. Foram exímios escultores, com algumas peças perfeitamente inéditas no nosso meio; foram pintores, douradores de altares e imagens, ensambladores e entalhadores. De todos estes exercícios guardamos espécimes de altíssima qualidade no nosso Concelho. O primeiro, Bento Pinto Júnior (1837-1922) tem obras em Donões, Fírvidas, Peirezes, Sapelos, Pedrário, Montalegre, Travaços, Cambeses e Viade; Domingos José Pinto (1874-1950) deixou obras na Vila da Ponte – a primeira imagem da Senhora de Fátima em Barroso- em Montalegre, Donões, Padroso, Nogueira (Boticas) e Bustelo, Vilarelho e Chaves (todas do concelho de Chaves); António Teixeira Pinto está bem representado nos quatro concelhos acima referidos, sobretudo na pintura e douramento de altares conquanto tenha executado diversas imagens.

 

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E agora é a vez da “Toponímia de Barroso” fazer a sua entrada:

 

VIADE

Desde 2013 – União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas

 

É o genitivo do nome pessoal Beatus; “villa” BEATI>BIADE>VIADE.

Podia ser escrito Biade pois o topónimo já em:

-1258 «Sancte Marie Biadi» INQ 1514 estava sedimentado. De igual modo a forma encontrada em

-1288 « de Sancta Maria de Biady» (Com o y dos ditos amigos sdo pedantesco arcaísmo) INQ N.A. – 492. Nas inquirições de

- 1282 «…isto he en termyo de Biadi». Aqui voltamos à forma final/inicial – onde apenas faltava o e mudo terminal cujo i já assim devia soar.

 

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 Os cornos da Serra de Barroso, vista desde Viade

 

No Portal do Arqueólogo encontrámos o seguinte:

 

Via Romana XVII

 

Troço de caminho, parte integrante da via XVII do Itinerário de Antonino. Nesta freguesia tem início alguns metros para Sul da ponte da Cambela, nas imediações da qual foi encontrada uma estela funerária, de época romana. Efetivamente na descida para a ponte conserva-se um belo troço lajeado, cujos marca dos rodados é notória. A via entrava no concelho de Montalegre junto à ponte do Arco (ponte romana), milha 35 desde Bracara Augusta ou 43 desde Aquae Flaviae, continuava pela aldeia de Vilarinho dos Padrões, Venda Nova e Castro de Codeçoso. Neste troço que contempla a freguesia da Venda Nova encontra-se submersa pela albufeira da Venda Nova. Nos Pisões, segundo Lereno Barradas atravessaria a antiga EN ao Km. 116, onde conservava um agradável troço de calçada. Desde os Pisões encontra-se submersa pela albufeira do Alto Rabagão até Villa de Mel, a Sul do Alto do Pedrouço. Na Cruz de Leiranque, local inundado pela albufeira foi encontrado um miliário, posteriormente transferido para Viade de Baixo - CNS 19818. Segundo informação anterior ao levantamento efetuado pela CM Montalegre, os restantes miliários provenientes deste troço encontram-se no Museu da Região Flaviense. É um dos troços mais conhecido da Via XVII do Itinerário de Antonino, onde foram registados miliários in situ e principalmente onde se encontraram miliários com marcação desde Chaves e desde Braga, na mesma milha, facto que não se volta a constatar no decurso desta via. Há ainda referencia de que neste percurso de três milhas romanas (cerca de 4,5 km) existiam 10 miliários, de entre os quais dois são anepígafos, um apenas se conservam as milhas, dois são da dinastia Júlio-Claudiana (Cláudio e Tibério) e quatro da dinastia dos Antoninos (Trajano e Adriano). Para obtermos uma descrição deste troço tivemos que nos limitar aos registos mais antigos (anteriores à construção da albufeira), uma vez que só é possível reconhecer este caminho quando o nível da albufeira desce consideravelmente. Na ponte do Arco, segundo Argote a via cruzava a antiga estrada nacional, continuava por Padrões, Venda Nova, correspondente ao lugar antigamente conhecido por Venda dos Padrões, Codeçoso do Arco, encosta do castro de Codeçoso, milha 38, deste ponto a via descia pela encosta Ocidental até ao rio Rabagão, que cruzava no lugar de Porto de Carros, onde existia a ponte dos Três Olhais, sobre o Rabagão, referida por Argote, e destruída pelas cheias.

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Fotografia de Artur Pastor

 

 

Agradecimentos:

 

Em tempo, umas fotografias antigas do Barroso chamaram-me a atenção. Segui a pista de uma delas e fui parar a um grupo do facebook que tinha como título “Viade de Baixo”. Por lá encontrei outras fotos antigas, igualmente interessantes, tal como a que me fez chegar a este grupo. A curiosidade da autoria levou-me entrar em contacto com uma administradora do grupo (Ana Paço), que prontamente me informou serem fotos dos anos 50/60 de autoria de Artur Pastor. A partir de aí recorri mais algumas vezes às ajudas da Ana a pedir informações sobre Viade, a última vez, há poucos dias, a respeito de uma  Capela nas proximidades de Viade e que graças à Ana ficámos a saber ser “ a capela de São António e de São Salvador do Mundo” com festa a realizar-se “no terceiro fim de semana de agosto” e que no passado “ os andores saiam da igreja de Viade e a procissão seguia pelo caminho de terra” até à capela de Stº António, com missa “ e a seguir faziam-se grandes merendeiros nos campos em volta. Da parte da tarde os lavradores que tinham gado, levavam o gado a dar umas voltinhas a capela, para que ficassem protegidos. Hoje em dia, já não se faz a procissão a partir da aldeia, já não há merendeiros e a festa e o arraial são feitos no largo da seara”.

 

Pois só nos resta agradecer à Ana Paços e ao seu grupo no facebook “Viade de Baixo” pela sua disponibilidade e informações que nos facultou, que em muito contribuíram para a feitura deste post. Já agora fica o endereço do grupo ao qual recomendamos uma visita: https://www.facebook.com/groups/viadebaixo/

 

Ficam algumas imagens de Artur Pastor e uma nossa, atual, quase do mesmo ângulo em que A.Pastor tomou uma das suas. Apenas uma coincidência, pois a minha foto foi tomada antes de conhecer a  de A.Pastor, mas deixo ambas pela curiosidade de se poder comparar o atual com a imagem de há quase 70 anos atrás.

 

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E pela certa que haveria muito mais que dizer sobre Viade de Baixo, mas para já fica isto mas pela certa que teremos por aqui esta aldeia outra vez.  Para terminar e ainda antes de passarmos ao habitual  encerramento do post. Fica uma imagem da cruz colocada no recinto da Capela de Stº. António, que também deve visitar. Sem tempo para a poder localizar, se perguntarem na aldeia onde fica, pela certa que chegarão até ela.

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

WEBGRAFIA

 

https://digitarq.advrl.arquivos.pt/details?id=1067634

https://www.facebook.com/groups/viadebaixo/

http://arqueologia.patrimoniocultural.pt/?sid=sitios.resultados&subsid=2349128

https://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Pastor

https://www.cm-montalegre.pt/

 

 

 

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02
Set18

O Barroso aqui tão perto - Montes, Montanhas e Serras

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Mais um sábado que passei pelo Barroso de Montalegre para amarrar umas pontas soltas do nosso levantamento fotográfico sobre as aldeias e outros lugares, com muitas paragens para registos que iam surgindo pelo caminho, como um arranque de batatas em Medeiros, um ângulo diferente sobre a ponte de Vila da Ponte, as inevitáveis e agradáveis conversas que vamos provocando com os residentes resistentes.

 

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Um sábado em cheio onde não faltaram as subidas às croas dos montes, montanhas e serras do Barroso, com muito calor, mesmo lá em cima onde a temperatura apenas descia uns míseros 2 ou 3º. Um almoço como os que costumam ser os almoços do Barroso, todos os ingredientes para chegarmos a casa de rastos com o corpinho a pedir, pelo menos, um pouco de sofá e a frescura das casas.

 

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Quero com isto dizer que com estas andanças pelo Barroso, depois ficamos sem tempo para preparámos mais uma aldeia para deixar aqui no “Barroso aqui tão perto”, mas o espaço existe e alguma coisa tínhamos que deixar por aqui, e nestes casos temos de facilitar a tarefa e preparar algo mais genérico. Porquê não os montes, montanhas e serras de onde todo o Barroso se avista e todas as montanhas e serras se dão a conhecer. Pois são essas as imagens de hoje, imagens do nosso reino maravilhoso.  

 

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E quando se fala em Reino Maravilho temos que evocar Torga. Fui, dentro do blog, à procura de Torga e do Reino Maravilhoso e encontrei por lá isto que não resisto a transcrever:

 

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“Chegado a casa, abriu-me o apetite para reler o “Reino Maravilhoso” de Torga, o mesmo de que tantas vezes se fala e se faz a citação das primeiras palavras do texto… “Vou falar-vos de um reino maravilhoso (…) fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores (…)  Vê-se primeiro um mar de pedras (…)— Para cá do Marão, mandam os que cá estão!... “ e nunca aparece o texto por inteiro, e é pena, pois todo ele é um poema que nos deixa nus perante a nossa identidade transmontana, o nosso ser, um retrato fiel daquilo que somos e que todo o transmontano tem obrigação de conhecer.”

                                         In https://chaves.blogs.sapo.pt/564005.html onde está transcrito o texto integral de “O Reino Maravilhoso” de Miguel Torga – Se é transmontano é de leitura obrigatória, se não o é,  também o deve ler para ficar a saber quem somos

 

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Quanto às imagens de hoje são de uma das pérolas desse “Reino Maravilhoso”, esta dá pelo nome de Barroso, com as suas serras e montanhas, com vistas que são vistas desde os seus pontos mais altos e desde onde as três principais serras do Barroso se avistam umas às outras, sendo que duas fazem um dos limites do Barroso (Serra do Larouco e Serra do Gerês) e a outra, está bem no coração do Barroso e dá pelo nome, como não poderia deixar de ser, de Serra do Barroso, todas acima dos mil metros de altitude.

 

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Pois são estas as nossas imagens de hoje, um pouco misturadas, mas todas elas tomadas desde a Serra do Larouco, desde a Serra do Barroso ou desde a Serra do Gerês, onde algumas são tomadas dentro delas para elas próprias, como acontece no caso da Serra do Gerês em alguns locais onde nada mais se vê para além do céu e da própria serra.

 

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E para a semana, próximo domingo, cá estaremos de regresso a mais uma aldeia do Barroso de Montalegre, nesta rubrica de “O Barroso aqui tão perto” quando levamos já mais 100 postagens dedicadas ao Barroso, aos seus lugares e aldeias ou temas do Barroso, e se pensam que isto terminará um dia, desenganem-se, pois o Barroso tem, de interesse, lugares, temas e motivos para toda uma vida.

 

 

26
Ago18

O Barroso aqui tão perto - Pondras

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O nosso destino de hoje no “Barroso aqui tão perto” é a aldeia de Pondras, que até terem inventado aquela da reorganização administrativa em 2013, era também freguesia, hoje agregada à freguesia da Venda Nova, ou seja, hoje pertence à União de Freguesias de Venda Nova e Pondras. Assim, é natural que ao longo deste post, quando me referir a Pondras, tanto o esteja a fazer em relação à aldeia como à antiga freguesia.

 

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Iniciemos pela sua localização, uma das aldeias cujo território tinha um dos seus limites no rio Rabagão, margem esquerda, mais precisamente onde a barragem da Venda Nova tem o seu início, mesmo junta à EN103 que atravessava toda a freguesia e que servia as restantes aldeias da freguesia (São Fins, Ormeche e Pai(o) Afonso).

 

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Se recuarmos no tempo, Pondras esteve sujeita a outras alterações administrativas. Segundo o Arquivo Distrital de Vila Real, Pondras foi abadia da apresentação da mitra no termo de Montalegre. Pertenceu ao concelho de Ruivães até à extinção deste, em 31 de Dezembro de 1853, altura em que transitou para o de Montalegre. Em 1839, surge na comarca de Chaves e, em 1862, na comarca e concelho de Montalegre. A paróquia de Pondras pertence ao arciprestado de Montalegre e à diocese de Vila Real, desde 22 de Abril de 1922. O seu orago é São Pedro Fins.

 

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Em termos de população a antiga freguesia atingiu o seu auge em 1960, com 513 habitantes, população essa que vinha crescendo desde 1864 com 287 habitantes. A partir de 1960 a linha de tendência é decrescente e tem-se mantido ao longo dos CENSOS, tendo atingido em 2011 os 131 habitantes, e se a linha de tendência se mantiver nos próximos CENSOS, dentro de 20 anos não terá qualquer habitante. O problema é que qualquer que seja a medida a tomar para travar o despovoamento rural, já vai ser tardia, pois tenho a impressão que já se ultrapassou o ponto crítico de não retorno.

 

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Só um aparte a respeito do Brasão da antiga freguesia de Pondras, pois achei curiosas as figuras do escudo, principalmente a das chaves, uma a ouro e outra a prata. Curiosas por serem comuns às da cidade de Chaves (rio, ponte e chaves). Sei que deve ser apenas coincidência. Tentei ver o significado das figuras mas não consegui. Se alguém souber, por favor, digam-nos, num comentário aqui no blog, no facebook,  ou por e’mail, tanto faz.

 

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Dizem que a história ao longo dos tempos se vai repetindo, pois cá pra mim não tardará muito e teremos no Barroso e um pouco por todo Trás-os-Montes uma nova medida tipo as “aldeias jardim” de Salazar, tal como foram apelidadas as aldeias novas dos colonos e que o concelho de Montalegre até tem algumas, que a Junta de Colonização Interna levou a efeito em meados do século passado. Só temo é que os novos colonos não sejam trabalhadores da terra, mas antes exploradores da terra,  e que em vez de pequenos baldios dados à exploração de famílias, sejam dadas regiões à exploração de grandes empresas e indústrias, supostamente portuguesas ou chinesas, tanto faz. O futuro o dirá, e não irá tardar muito…

 

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E já que abordámos a localização de Pondras e um pouco da sua História, é tempo de fazermos o(s) nosso(s) itinerário(s) para lá chegar. No último fim de semana deixámos aqui uma nova forma de abordar este assunto, ou seja, deixámos um caminho para ir e outro para vir. Hoje vamos fazer o mesmo, e podem considerar fazer os percursos ao contrário, pois tanto faz.

 

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Pois como podem ver no mapa que atrás deixámos, a nossa partida, como sempre da cidade de Chaves é feita pela estrada de Braga, a EN103, será esta que nos levará direitinhos até Pondras, pois basta não sair dela que ao quilómetro 63,7, mais metro menos metro, estaremos em Pondras. Se é dos que cumpre as regras de velocidade, demorará pouco mais de 1 hora a chegar lá. Claro que se vai em passeio, e gosta de ir parando pelo caminho, o que recomendo sempre que a coisa seja interessante, demorará mais, mas às vezes compensa. A proposta do regresso é via Boticas, pelo que deverá continuar mais umas centenas de metros pela EN103 até à Venda Nova, aí deverá virar à esquerda em direção a Salto, a entrada desta apanhar a EN311 até Boticas, a seguir Sapiãos e estamos de novo na EN103, agora em direção a Chaves.

 

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Mas regressemos a Pondras e aos seus traços culturais de aldeia, com sabores e saberes, tradições, crenças e tudo que fazem o ser de uma aldeia, traços que cada vez mais apenas têm significado na resistência do seu povo e no testemunho, ia dizer vestígios, mas ainda podemos ficar pelos testemunhos, físicos, que vão ficando para memória futura, tal como sejam algumas construções dedicadas à comunidade (capelas, igrejas, tanques e fornos do povo, chafarizes, alminhas, etc.), e que Pondras também tem, e até com alguma abundância e singularidade, como é o caso dos canastros e das alminhas, uma delas lindíssima e muito bem enquadrada. Fica a imagem:

 

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Mas nem todas são ou estão assim, pois há as que são obrigadas e desprezadas pela agressividade da modernidade. Não bastam os fios e postes elétricos ou de comunicações que são colocados sem o mínimo de respeito pelas populações e por algumas coisas que as aldeias têm de melhor (igrejas, capelas, cruzeiros, etc.), como na colocação de outros equipamentos, do lixo no caso, tiram toda a dignidade àquilo que até é património de Portugal, as alminhas, como estas que deixo a seguir. Poder-se-á dizer que é mais uma para aquelas do “Portugal no seu melhor”. Ficam as imagens:

 

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É, gostamos de mostrar aquilo que as aldeias ainda têm de interessante, mas muitas das vezes somos privados de o fazer, pois acontecem coisas destas que são verdadeiros atentados à dignidade das aldeias. Pela certa que não faltariam locais mais apropriados para a colocação destes pequenos mamarrachos cuja companhia não agrada a ninguém, eu sei, mas as alminhas, por não se queixarem, não têm culpa. Desta vez não resisti e tive de trazer aqui as imagens que ficaram atrás.

 

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Que não sejam estas imagens as que manchem a imagem de Pondras. São de lamentar, mas têm solução e Pondras são muito mais, é uma aldeia interessante, quer na sua intimidade quer na sua beleza vista a alguma distância. Também as vistas que desde a aldeia se alcançam, recomenda-se a quem gosta de paisagens que vai mudando conforme a distância, mas onde predominam o verde e o azul, quer o do céu, quer o da terra que as montanhas mais distantes oferecem ou o reflexo das águas das albufeiras.

 

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E agora é aquela parte dedicada às nossas pesquisas, em que vasculhamos nos livros, nos documentos e na internet aquilo que se diz sobre as aldeias que vistamos. Claro que vamos sempre ao livro Montalegre, penso que lhe posso chamar monografia de Montalegre, onde encontrámos:

Vestígios de estilo românico nas Igrejas de S. Vicente da Chã, Viade e Tourém. É justo salientar que diversas outras igrejas datam dos primeiros tempos da monarquia e seriam incluídas nesse estilo. Acontece que foram sofrendo remodelações – muitas vezes a fundamentis – que as descaracterizaram. A última grande febre dos arranjos deu-se nos princípios do século XVIII e, por isso, os edifícios exibem datas dessa altura. Por exemplo: Pondras -17; Santo André- 1813; Vila da Ponte – 1710, etc.

 

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E continua:

Os cruzeiros são mais de 60 e se lhes juntarmos os calvários ainda existentes com as cruzes das estações da via sacra serão três vezes mais. Destacam-se o de Salto, Pondras, Mourilhe, Codessoso de Meixedo, de Montalegre, o da Interdependência da Vila da Ponte, Negrões, Meixedo, Sabuzedo, Santa Marinha, Santo André, Penedones, Antigo de Serraquinhos, Sezelhe, Travasços do Rio, Vila da Ponte, Bustelo e Parafita!

Pois esta imagem do cruzeiro escapou-nos, não sei porque razão, mas não a temos, talvez não o tivéssemos visto, o que é estranho ou então algum coisa, obstáculo ou outro nos impediu de tomar a imagem. Lamento mas não a tenho.

 

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E na página dedicada à freguesia de Pondras diz o seguinte:

Ocorre evidente discrepância sobre o hagiotopónimo desta freguesia. As inquirições de 18 tratam-na, e bem, por Santo Fins; o Catálogo de todas as Igrejas, 130, (reinado de D. Dinis) chamam-lhe, e mal, São Félix. Mais recentemente, voltámos, e bem, ao chamadouro correcto que é São Pedro Fins de Pondras. É provável que a confusão derive do tratamento dado na arquidiocese ao problema de São Pedro de Rates, dito primeiro bispo-fundador da Igreja de Braga, ou a D. Pedro, primeiro bispo-refundador da Igreja de Braga. De todo o modo, em Pondras, fazem festa ao príncipe dos Apóstolos, em 9 de Junho. É um caso significativo o modo de povoamento verificado visto que as principais povoações da freguesia, Pondras e Ormeche estão algo distantes do local da Igreja, por acaso (ou talvez não) junto do outeiro que foi um castro e onde demora a povoação de São Fins. (é esta a verdadeira grafia do hagiotopónimo que dá nome ao lugar onde se situa a igreja).

No cabeçalho do artigo, nos pontos de interesse, também se fala num relógio de sol em Pondras, a nossa objetiva também não o viu. Mais um lamento.

 

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Quanto à Toponímia de Montalegre, ao respeito da aldeia, diz o seguinte:

 

Pondras

Desde 2013 – União das Freguesias de Venda Nova e Pondras

Vem de “PONDERA” < PONDRA ou POLDRA. Este L de Poldra aparece por acção da reversa R: é o que se chama uma assimilação imperfeita.

Alguns toponimistas (eventuais imitadores de poldros e semelhantes raças cavalares) propõem para Poldras o radical de Poldra com o significado de égua jovem. Evidente ridiculez. Acontece que o nosso topónimo:

- 1258 Ponderas INQ 1513 explica claramente o latino neutro do plural (aqui tido por singular) pondera > pondra, com significado de peso (pondus). O facto de ser plural singularizado ajuda a ver que se trata de pedras separadas e pesadas para atravessar correntes de água. Os árabes arabizaram, como se esperava, o vocábulo e meteram-lhe o artigo al que também aceitamos. O caso das poldras é muito encontrável na evolução fonética (sem qualquer intervenção arábica) por influência das consoantes r e l como acima se disse.

Este nome justifica-se perfeitamente porque toda a freguesia se encontra situada na margem esquerda do Regavão e que só podiam atravessar em pedras passadeiras visto que não possuíam ponte. Talvez por isso a freguesia que é tão pequena se institui tão cedo.

 

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Ainda antes de entrámos na Toponímia Alegre que é parte integrante da Toponímia de Barroso, queria aqui fazer um aparte a este respeito. Como devem reparar, limito-me a citar aquilo que vem escrito na “Toponímia de Barroso”, por curiosidade, porque sempre gostei de saber a origem dos topónimos, ou nomes dos nossos lugares, no entanto não quer dizer que concorde, aceite ou valide tudo o que se lá diz, mas como é uma citação, limito-me a citar. Longe de mim de ser ou pretender ser um “toponimista”, mas parece-me que muitas das vezes o topónimo nada tem a ver com o significado que se vai buscar à origem da palavra que faz o topónimo. Parece-me e conheço muitos casos em que assim não é, mas, claro, temos que dar sempre o benefício da dúvida, ou então dizer como Firmino Aires, na Toponímia Flaviense a respeito dos argumentos utilizados por  J.L. de Vasconcelos, no Archeologo Português, sobre o topónimo da Rua da Trancada em Chaves, quando termina a sua citação dizendo: “… Os investigadores que o confirmem ou o refutem”.   Subscrevo esta!

 

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E na Toponímia Alegre temos o seguinte:

 

Pondras (Memórias Paroquiais de 1758):

(Sobre os habitantes)

“…lavradores de baixo bordo e limitada esfera mas soberbos, quase todos lagareiros de azeite em terras dos Alentejos e todos homens de alforge.”

Abade Miguel Vieira

 

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E continua:

Entre Pondras e Ormeche

Andam melros no namoro:

Eu levo por todo o lado

Saudades, amor e choro.

 

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E quase para finalizar. Sobre a aldeia de Pondras, encontrei uma página no facebook pertencente à “Associação Pondras em Movimento” e ao que parece é mesmo para por em movimento a população de Pondras, pelo menos a crer naquilo que a associação diz ter por missão: “Promover eventos de confraternização entre a povoação local”  e pela foto do cabeçalho, parece-me ter muita gente jovem. Esperemos que estes jovens ao partirem, deixem outros no seu lugar, porque sou dos que ainda acreditam neste tipo de associações sem fins lucrativos, embora, infelizmente, não costumem ter apoios ou ser acarinhadas por quem deveria ter esse dever. Não sei se é o caso, mas há algumas que conheço que assim é.  Fica o link para a página da associação no facebook: https://www.facebook.com/Associa%C3%A7%C3%A3o-Pondras-em-Movimento-148801851850059/

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

WEBGRAFIA

 

https://digitarq.advrl.arquivos.pt/details?id=1067634

 

 

 

 

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19
Ago18

O Barroso aqui tão perto - Lamachã

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Vamos lá, mais uma vez, até ao Barroso aqui tão perto, hoje para a aldeia de Lamachã, no limite do concelho de Montalegre a apenas 400 metros do concelho de Boticas.

 

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Lamachã é uma daquelas aldeias que não calha nos habituais itinerários do Barroso, e embora não seja uma aldeia de fim de estrada, pois é servida por uma estrada secundária que liga ao concelho de Boticas via aldeia de Lavradas, aldeia essa, que está nas mesmas condições de Lamachã. Daí ser uma estrada mais utilizada para atalhos, principalmente pelas aldeias vizinhas ou para quem conhece a região.

 

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Nós passámos lá há uns anos pela primeira vez por, precisamente utilizando-a como um atalho mas também por curiosidade. Na segunda vezque lá fomos, já foi de propósito para fazer a nossa recolha fotográfica, decorria então o mês de outubro de 2016, ao fim da tarde, em hora não muito própria para fotografar, quer pela luz que já não estava no seu melhor, quer pelo nosso cansaço de todo um dia à caça de fotografias, o que faz com que a inspiração também  se distraia.

 

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Pois ao rever as fotografias desse dia de outubro de 2016, para além do que atrás dissemos, sentimos que eram poucas para mostrar o todo da aldeia, daí, há coisa de um mês atrás fomos por lá outra vez, desta vez a horas decentes, ainda pela manhã, fresquinhos e com boa luz. Desta vez sim, sem qualquer desculpa para não termos feito o trabalho como deveria ser, e se não fizemos melhor, é porque não o sabemos fazer, para além de estarmos, isso sim, sempre condicionados àquilo que a aldeia tem para oferecer. Mas tudo correu bem.

 

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Lamachã é uma aldeia típica do Alto Barroso, mesmo porque está implantada a uma cota superior aos 1000 m de altura e no grande planalto que se vai desenvolvendo entre a Serra de Barroso e a Serra do Larouco, embora a aldeia esteja em plena Serra do Barroso.

 

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Já fomos deixando por aqui a sua localização, pois já sabemos que está a 400 metros do concelho de Boticas e na Serra do Barroso, talvez falte acrescentar que é uma das aldeias das proximidades da barragem dos Pisões (margem esquerda) a apenas cerca de 3Km, igual distância à aldeia de Negrões, onde aliás se toma a estrada que dá acesso a Lamachã. Mas também pelo final do seu topónimo “chã” podemos localizar a aldeia. Mas vamos ao itinerário a partir da cidade de Chaves, no final do qual deixaremos o nosso habitual mapa onde localizamos a aldeia no contexto do Barroso.

 

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O itinerário que recomendamos para chegar até Lamachã a partir de Chaves é via EN103 (Estrada de Braga), mas temos uma variante, embora até Sapiãos seja caminho comum. Pois a minha proposta é ir por um lado e regressar por outro, ou seja, para lá vamos sempre pela EN103 até ao Barracão, aí saímos à esquerda e tomamos a estrada municipal EM525 que liga a Criande/Morgade, ou seja, aí teremos a barragem dos Pisões à nossa frente. Deveremos seguir pela EM525 em direção a Negrões sempre junto à barragem. Em Negrões abandonamos a EM525 e tomamos a EM519 em direção a Lamachã. De Negrões a Lamachã são 2.7Km. Por este itinerário, ao todo serão 45.4km.

 

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No regresso, podemos vir via Boticas, ou seja, depois de Lamachã continuamos pela EM519 até Lavradas e logo a seguir apanhamos a EM520 em direção a Carvalhelhos, logo a seguir apanhamos a EN311 em direção a Boticas, passando pela Carreira da Lebre. Em Boticas seguimos em direção a Sapiãos onde entramos na EN 103 (Estrada de Braga), mas em direção a Chaves. Este regresso é de 38Km, mais curto que a ida. Claro que pode fazer tudo ao contrário, ir via Boticas e regressar via Barracão.

 

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Já a seguir vamos àquilo que encontrámos nas nossas pesquisas, começando pela monografia de Montalegre e logo na nossa citação inicial compreenderão porque recomendei o itinerário mais longo para chegar a Lamachã. Já agora, também eu recomendo a rota que ficará a seguir.

 

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Então diz assim o livro Montalegre:

 

A grande rota das barragens

Vamos propor um passeio ao longo das albufeiras que se espraiam pelos vales dos rios Cávado e Rabagão. São cenários majestosos de água e serra, bem vivos nos prazeres da pesca, da vela do flyserf,  do remo, da canoagem e do esqui, ou no gosto da vitela barrosã, do cabrito,  das trutas  e das carpas.

 

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E continua:

Fixe como ponto de partida a vila de Montalegre. Saia em direcção à EN 103, Braga - Chaves, seguindo em direcção às aldeias da Aldeia Nova do Barroso – aldeia dos Colonos - Morgade, Negrões, Lamachã e Lavradas, já no concelho vizinho, para ter acesso ao grande miradouro do Vale do Rabagão, que são os “Cornos das Alturas”. Lamachã e Vilarinho Seco são aldeias pequenas de rosto antigo, sorridentes nas expressões populares e rodeadas de pastos, campos de milho e centeio. Na descida para Lama da Missa pare e admire o vasto panorama da albufeira da barragem do Alto Rabagão. A truta, o escalo, a boga e a carpa são as principais espécies piscícolas existentes nesta albufeira, considerada como a maior do Norte de Portugal. Em Penedones, o Clube Náutico e de Aventura do Alto Rabagão organiza passeios de barco na albufeira para grupos até 16 pessoas, bem como regatas, passeios a pé, ou de bicicleta de montanha. Neste local está instalado o Parque de Campismo Municipal e passa também o GR 117 – Via Romana XVII.

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E continuamos no livro Montalegre:

Pelo termo de Codessoso passava um caminho medieval importante que servia diversos lugares da enorme paróquia da Chã, ao tempo das Inquirições de D. Afonso III: Negrões, Vilarinho, Lamachã, Morgade, Carvalhais e Rebordelo, Fírvidas e Gralhós, além das herdades ribeirinhas do Regavam (sic).

 

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Ainda no livro Montalegre:

 

Negrões

Também esta freguesia integrou a Comenda da Chã às Clarissas de Vila do Conde, pelo rei de D. Dinis. Em 1862, nasceu em Vilarinho de Negrões, Domingos Pereira. Ordenado padre e já abade de Refojos (Cabeceiras) contra vontade de seu tio, o também padre João Albino Carreira, filiado no Partido Regenerador, filiou-se no Partido Progressista. Fiel ao seu credo partidário, tornou-se amigo íntimo de Paiva Couceiro e recusou aderir à República em 1910. Perseguido, como os outros chefes monárquicos, após a estrondosa derrota, no espaldão da carreira de tiro, em Chaves, foi condenado a 20 anos de penitenciária. Conseguiu colocar no Brasil os seus “soldados, na ordem de alguns milhares” e regressou a Espanha e à sua actividade conspiratória. Conspirou a vida inteira. Depois da amnistia de Sidónio Pais, teve acções preponderantes na proclamação da “Monarquia do Norte”, em 1919, participando nos combates de Cabeceiras, Mirandela e Vila Real. Restaurada a República exilou-se em Espanha e foi condenado à revelia a 20 anos de prisão maior. Excluído, como Paiva Couceiro, da amnistia concedida aos monárquicos, regressou em segredo, em 1926, a Cabeceiras, onde viveu até 1942. Por falar em condenações, é de lembrar a condenação de José Pereira, de Lamachã, em 1947, a 29 anos e meio de cadeia “acusado de ser o autor moral” dum crime que de certeza não cometeu. Eram assim os tribunais e juízes fascistas.

 

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E o que nos diz a Toponímia de Barroso!? – Não sei. Mas já vamos ver.

Então diz assim:

 

Lamachã

 

São dois vocábulos acoplados: Lama e Chã, isto é, o nome comum LAMA do latino LAMA, que significa lodo, água  e terra; com o adjectivo PLANA>PLAA>CHAA>. Está documentada ainda com os dois vocábulos separados (ao que não me oponho) e referida a um povoado desaparecido, na freguesia de Salto.

-1258 «et de villa de Lama Chaa etc,».

No Arqui. Hist. Port. Já não existe a Lama Chã de 1258 de Salto mas existe a Lama Chaa, com cinco fogos, na sua freguesia de Negrões. É muitas vezes conhecida pelo dialectal oxítono Lamachão (quadra).

 

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E a Toponímia Alegre, o que nos diz:

 

Negrões, trinta vizinhos

Quarenta ladrões

E o padre quarenta e sete!

 

Quereis saber onde moro?

Eu dou-vos a direção:

Moro na rua do forno,

Correio de Lamachão!

 

De Lamachão

Nem bom homem

Nem bom cão!

 

Os de Lamachão

O que dizem à noite

Esquecem pela manhão.

 

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Várias referências a existência de um Castro em Lamachã, desde a listagem de castros em Montalegre de autoria do Padre Lourenço Fontes e confirmada na listagem de castros no “ O Archeologo Português”: Povoado da Idade do Ferro a apresentar uma estrutura defensiva constituída por duas linhas de muralhas circundantes e, do lado Este, por um fosso, atualmente usado como caminho. Na plataforma superior são evidentes os entalhes na rocha, onde entroncaria a muralha. A linha de muralha mais exterior foi recentemente reaproveitada para suportar um caminho.


Na zona intramuros são evidentes os restos de construções, tendo sido encontrados por todo o povoado fragmentos cerâmicos indígenas.

 

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Bem queríamos deixar por aqui outras informações sobre Lamachã, mas nada mais encontrámos nas nossas pesquisas. Por nós gostámos do que vimos e pela certa que o atalho por Lamachã nos irá servir mais vezes, pelo que estaremos atentos a novos motivos que por lá nos possam surgir.

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

12
Ago18

O Barroso aqui tão perto - Pelas serras com Torga

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Mais uma ida até ao Barroso aqui tão perto, mas mais uma vez sem termos por cá qualquer aldeia e até temos uma preparada em imagem, mas ainda lhe faltam as palavras para as quais não tivemos tempo de lhe alinhavar as letras. Assim, hoje vamos mais uma vez para o Barroso, sim, mas aquele que é feito de serras e montanhas e água que corre, que cai, que estaciona entre o penedio. Vamos fazer nossas as palavras de Miguel Torga, não só por também nós comungarmos da sua paixão telúrica, mas por serem também palavras inspiradas por imagens como as que deixamos hoje, aliás algumas delas foram tomadas enquanto se falava de Torga e de como tão bem entendíamos e sentíamos as suas palavras quando estamos no seu ambiente natural.

 

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É possível que esta paixão telúrica que me faz divinizar as fragas, os rios e os carvalhos signifique, afinal de contas, que não consegui desembaraçar-me da placenta de ovelha que o destino me atirou à figura, como certo inimigo fez a Maomé. Mas não me desagrada a hipótese.

 

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Estou sinceramente convencido de que a realidade campestre nem é inferior à outra, nem se lhe  opõe. Por detrás das pedras roladas e das ravinas, pulsa o mesmo coração inquieto a vida. A solução, portanto, consiste apenas em auscultá-lo com a finura de ouvido que é obrigatória nas consultas citadinas. E a mágoa que me punge não é ser montanhês por devoção: é de não ser capaz de revelar todos os mistérios que se escondem nas dobras da estamenha.

 

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Bem rústicas parecem as urzes, e a abelha tira das suas flores mel perfumado. Nada mais agressivo do que um silvedo, e o melro faz o ninho no meio dele.

 

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O mal é nosso e, neste caso, meu particularmente. Confundimos a casca com o sabugo. Talvez porque só temos casca e não merecemos a graça de comungar à mesa onde Collete recebia o corpo eucarístico da natureza. Ela, sim, podia exprimir o cataclismo de cada fecundação e decompor o arco-íris  de cada primavera. Através do sacramento do amor e da entrega, real e substancialmente, os seres e as coisas passavam a fazer parte da sua humanidade profunda e falavam depois pela sua boca.

 

Miguel Torga, In Diário VII

 

 

 

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