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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

29
Nov20

O Barroso aqui tão perto - Pinhal Novo

Al deias do Barroso do Concelho de Boticas

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PINHAL NOVO

 

Nesta rubrica de O Barroso aqui tão perto, vamos continuar até concluir, as aldeias da freguesia de Beça, ficando aqui hoje a aldeia de Pinhal Novo.

 

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Estivemos quase para não trazer aqui esta aldeia, e o porquê ou razão é muito simples, já a tínhamos abordado anteriormente neste blog, mas foi num post especial, um post conjunto dedicado a várias aldeias, mais precisamente às aldeias de Salazar da Colónia do Barroso da Junta de Colonização Interna, da qual Pinhal Novo faz parte. No entanto seria injusto não ter uma abordagem particular, mesmo porque no referido post conjunto foi integrada nos posts dedicados às aldeias do concelho de Montalegre, e embora o Pinhal Novo faça parte desse conjunto da colónia do Barroso, é a única que pertence ao concelho de Boticas, e como tal, terá aqui o seu post, incluindo o seu vídeo. Vai ser pouca coisa e tudo muito parecido, mas a aldeia também é pequena e as casas originais da aldeia eram e ainda são, mais ou menos,  todas iguais.

 

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Embora tenha aqui o seu post, não vamos repetir aquilo que já dissemos sobre ela, principalmente sobre a sua origem e história, ou melhor, vamos repetir sim, mas recorrendo ao que sobre ela dissemos no tal post especial dedicado às aldeias de Salazar da Colónia do Barroso, mas antes, vamos deixar aqui, muito resumidamente, a história da origem desta e das restantes aldeias e colónias internas de Salazar.

 

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O designado Estado Novo de Salazar cria em 1936 a Junta de Colonização Interna (JCI), que, em síntese, visava povoar as zonas mais despovoadas de Portugal, construindo nelas aldeias novas destinadas a colonos, aos quais seriam entregues grandes áreas de terrenos, sobretudo constituídos por baldios existentes, Ideia que na época, não foi bem aceite pelas populações locais, sobretudo porque eram elas que administravam esses baldios e que deles tiravam, o que para muitos era o seu único rendimento e áreas de pastagem, embora, teoricamente, para a ocupação dessas novas aldeias fosse dada a preferência à população local, coisa que não aconteceu, pois foram maioritariamente ocupadas por casais (condição necessária) de vários pontos de Portugal. No entanto, a pobreza e necessidade da época fez com que alguma população trabalhasse para a JCI na construção desses novos aldeamentos, com alguns boicotes pelo meio, como o de plantarem árvores ao contrário (com as raízes para cima), segundo rezam alguns documentos da altura.

 

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Ao todo a JCI projetou para Portugal 7 colónias internas, sendo as mais próximas a Colónia do Barroso e a do Alvão, em Vila Pouca de Aguiar. Na Colónia do Barroso foram construídas 7 aldeias de colonos (ou colónios como dizia a população local) e ainda um Centro Administrativo para alojar técnicos e funcionários da JCI, centro este onde se localizava também o apoio administrativo às aldeias dos colonos, a fiscalização, sobretudo do cultivo e colheitas que os colonos tinham de entregar ao Estado, ou seja, em 7 partes da colheita, 6 eram para o Estado, e uma para seu sustento, destinando-se as 6 partes do Estado a amortizar empréstimos concedidos aos colonos, bem como a amortização do custo de cada casal (terrenos e habitação dos colonos), que a não ter sido o 25 de abril, hoje,  a segunda geração desses colonos, ainda estariam a amortizar.

 

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Colonização Interna que foi um fracasso, principalmente a do Barroso, começando logo pelas aldeias de colonos de Criande e Aldeia Nova que viu a maioria dos terrenos destinados aos casais dos colonos a serem inundados pela barragem do Alto Rabagão, para além de os terrenos que os colonos ocuparam serem maioritariamente impróprios para a agricultura, com a agravante de os terrenos cultiváveis estarem sujeitos a um clima hostil e pouco produtivos.

 

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A barragem invadiu parte da aldeia dos colonos de Criande e todos os seus terrenos de cultivo

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Com o 25 de abril as coisas alteraram-se e foi permitido aos colonos resolverem as obrigações que tinham com o Estado, podendo adquirir os casais que cultivavam ou abandoná-los, passando-lhes também a ser permitido vender o casal após a sua aquisição, coisa que não era permitida anteriormente, pois as obrigações do casal obrigatoriamente tinham de passar na totalidade para um e só um dos herdeiros dos colonos, de modo a que a propriedade não fosse dividida.

 

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De realçar que toda esta colonização interna era enaltecida pelo Secretariado da Propaganda Nacional, com constantes campanhas para a produção nacional e mostrando estas colónias como locais paradisíacos, produtivos e ocupados por famílias felizes, que na realidade não eram mais que escravos do estado e do sistema, além de mal queridos e até difamados pelas populações locais, porque afinal de contas, sem culpa, tinha tirado parte do rendimento e muitas vezes todo o rendimento ou sustento das populações locais. Hoje em dia, estas aldeias dos colonos encontram-se com alguns casais abandonados, outros foram vendidos e recuperados por não colonos tal como aconteceu nos Casais da Veiga de Montalegre, e nalguns, poucos,  ainda se mantêm os “colónios”, hoje, parece-me, já perfeitamente integrados e aceites nas populações locais.

 

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Pois Pinhal Novo é uma dessas aldeias de colonos, onde inicialmente foram construídas 10 habitações e constituídos os respetivos casais (casa+logradouro+terreno) e posteriormente uma escola. Estas aldeias que pela sua arquitetura e organização, nada têm a ver com as aldeias típicas do Barroso, eram constituídas por moradias isoladas com logradouro e tinham para a época já algumas condições de habitabilidade, além de todas elas serem servidas com as infraestruturas mínimas, ainda com um tanque e chafariz público, e áreas verdes envolventes, algumas com escola, e no caso da Aldeia Nova de Montalegre, tinha igreja, miradouro e posto da GNR, além da escola e espaços verdes.

 

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Hoje em dia ainda existem no Pinhal Novo as 10 construções iniciais, dessas, pelo menos 7 foram reconstruídas e/ou ampliadas, 3 mantêm a traça inicial e penso que estão abandonadas e dentro do espaço do aldeamento já nasceram pelo menos 3 novas construções/habitações e na proximidade outros tantos armazéns agrícolas.  

 

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Agora passamos àquilo que dissemos sobre o Pinhal Novo no tal post conjunto dedicado a todas as aldeias da colónia do Barroso:

 

As aldeias de Salazar – Aldeias Jardim

 

(…)

Esta aldeia, conjuntamente com a de Criande, Vidoeiro e Pinhal Novo, fazem parte de uma segunda fase de aldeias de colonos, decidida pela LCI em 1945.

(…)

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7 - Pinhal Novo

Esta aldeia foi implantada a apenas 1,5km da aldeia do Fontão, foi-lhe atribuído o topónimo de Pinhal Novo, talvez pela mesma razão das anteriores adotarem o nome do lugar. É a única aldeia da colónia de Barroso que foi construída no concelho de Boticas.

 

O Lugar de Pinhal Novo: «[…] com 10 casais, ficará situado já na freguesia de Beça, limite da aldeia do mesmo nome, na encosta Oeste do Alto das Pias. Para lhe dar acesso projectou-se a construção duma estrada principiando na E.N. - 4 - 1ª. no local denominado Alto do Fontão e terminando na povoação de Beça, do concelho de Boticas; prevê-se a continuação desta estrada para as termas de Carvalhelhos e para Boticas, sede do concelho do mesmo nome.» (J.C.I., 1945: 98). (…) A Escola e Capela: «Pinhal Novo, com 10 casais, ficará situado a cerca de 1.500m. de Beça, sede de freguesia, de que dependerá quanto à capela e escola.» (J.C.I., 1945: 99).

COSTA (2017)

 

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O terreno para implantação das moradias é retangular, com um arruamento de entrada, ao centro, que depois bifurca para dois arruamentos que acabam por se unir em curva no lado oposto à entrada. As moradias foram implantadas 5 de cada lado ao longo dos lados mais compridos do retângulo a confrontar com os arruamentos, entre os quais ficou uma zona verde, onde mais tarde se decidiu construir a escola, mesmo ao centro desta zona verde.

 

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Nos documentos acedidos, não se encontrou qualquer referência à área agrícola e florestal pertencente a cada casal nestas duas colónias. Supõe-se que no caso do Lugar do Pinhal Novo dado o número de casais ter permanecido inalterável, a área agrícola e florestal também terá permanecido. Já no caso do Lugar do Fontão, a redução do número de casais pode estar na origem da divisão da área agrícola estando, contudo, a área atribuída inicialmente a esta colónia dentro da média (14,5 a 25 ha) da área agrícola da colonização do Barroso.

COSTA (2017)

 

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Quantos aos projetos tipo adotados para a colónia de Barroso, a autoria é atribuída a mais que um arquiteto. Nalguns documentos que consultei, o arquiteto autor do projeto tipo das aldeias de colonos de Montalegre, à exceção da do Fontão é atribuída ao arquiteto Eugénio Corrêa (?), mas sempre com o ponto de interrogação à frente. Já quanto aos autores dos projetos da aldeia de Fontão e Pinhal Novos, temos o seguinte (no final também fica uma interrogação, mas por outros motivos:

 

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Fevereiro 1961: Projecto de Adaptação das Instalações Agrícolas do Casal a Posto Escolar. O projeto foi desenhado, pelo arquiteto António Trigo, para o Lugar do Pinhal Novo. O plano desta colónia também foi alterado, e a escola acabou por integrar a nova disposição no assentamento. O casal agrícola adotado, para o Lugar do Pinhal Novo, foi o mesmo desenhado pelo arquiteto Maurício Trindade Chagas para o Lugar do Fontão em Janeiro de 1951, e não o casal inicialmente pensado para esta colónia, o casal tipo desenhado para o Barroso, de 1943. Neste projeto, também se faz a adaptação do casal agrícola a posto escolar mas o edifício ao contrário do esperado foi construído de raiz no centro do largo que organiza os restantes casais agrícolas. Ainda mais intrigante é que o mesmo projeto foi replicado com a mesma disposição dentro da colónia de Lugar de S.Mateus — Seriam estes projetos destinados a casais desocupados e por não existir nenhum nessa condição tenham optado por construir uma cópia do projeto de adaptação?.

 COSTA (2017)

 

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Ainda antes de terminar este post e passarmos ao vídeo, vamos até ao itinerário para chegar ao Pinhal Novo, este, feito quase até ao destino pela N103 (estrada de Braga), com partida de Chaves e passagem por Curalha, Casas Novas, São Domingos, Sapelos e Sapiãos, a seguir a esta última aldeia, mesmo onde termina a longa subida, num cruzamento onde aparecem algumas construções, vira à esquerda em direção a Beça, e logo a seguir, a 1470m, num total de meia hora de viagem, num percurso de 26,3Km, temos Pinhal Novo. Ficam os nossos mapas

 

mapa pinhal.jpg

mapa pinhal-1.jpg

 

Para quem quiser saber mais sobre as aldeias de Salazar também conhecidas popularmente como as aldeias dos “colónios”, fica aqui, na integra, em PDF, o que escrevemos e imagens sobre o assunto, basta clicar na imagem. Podem guardar e utilizar, desde que não seja para fins comerciais ou publicação na íntegra, e claro, como mandam as regras e eticamente o mais correto, caso utilizem em publicações ou trabalhos, por favor deem créditos à autoria.

Clicar na ligação:

aldeias jardim-Colonia do Barroso.pdf

 

capa.jpg

 

E agora sim, chegamos ao fim deste post, apenas nos falta o vídeo, aquele que nos foi possível

Fazer com as imagens disponíveis.  Mesmo assim, espero que gostem.

 

Aqui fica:

 

 

 

Este e outros vídeos, agora, também podem ser vistos no Meo Kanal nº  895 607

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

- COSTA, Ana Mafalda Almeida Guimarães. ARQUITETURA AGRÍCOLA As Colónias do Estado Novo para o Barroso. Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Arquitetura, Universidade Lusíada do Porto, Porto 2017

 

 

 

 

15
Nov20

O Barroso aqui tão perto - Minas de Beça

Aldeias e lugares do Barroso

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O levantamento fotográfico para a abordagem das aldeias do concelho de Boticas que tenho deixado aqui nos domingos dos últimos meses, foi iniciado em 2011, mas com mais intensidade, de levar tudo a eito, em 2017 até 2019, sendo este último o ano em que dei como encerrado o levantamento, ficando apenas a Vila de Boticas com o levantamento incompleto, mas a completar em qualquer altura. Pensava eu, tendo como base um mapa que até me foi fornecido pela Câmara Municipal de Boticas, que tinha fotografado todas as localidades do concelho, no entanto, não foi bem assim.

 

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Para a abordagem no terreno, fui-me valendo dos mapas disponíveis, no entanto e no entretanto, fui reunindo outra documentação e informações para posterior abordagem, aqui no blog, de cada uma das aldeias do concelho de Boticas. Logo cedo fui-me dando conta que havia coisas que não batiam certo, e algumas ainda não consegui esclarecer. A primeira aldeia que não constava do mapa e que a descobri quando ainda estava a tratar das aldeias de Montalegre, mais precisamente as aldeias dos colonos, foi Pinhal Novo. Por sua vez, há uma que me aparece no mapa, mas que no terreno não consegui encontrar, trata-se de Caldas Santas, localizada bem próxima de Carvalhelhos e que acabei por dar como sendo pertença de desta aldeia.

 

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O aprofundar do estudo da documentação que tenho em meu poder e de outra à qual recorro, só acontece mesmo quando vou abordar essa aldeia, ou no caso do concelho de Boticas, quando abordo as aldeias de toda a freguesia, como atualmente está a acontecer com a freguesia de Beça, onde curiosamente, encontrei todas estas discrepâncias entre o que há documentado e o que consta nos meus mapas, em outros mapas a que tive acesso. Pois ao chegar a esta freguesia, nas primeiras pesquisas que fiz, nomeadamente na página oficial da C.M. de Boticas, na listagem dos lugares da freguesia aparecem:

 

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Freguesia de Beça

Povoações:

  • Beça
  • Carreira da Lebre
  • Carvalhelhos
  • Lavradas
  • Pinhal Novo
  • Quintas
  • Seirrãos
  • Vilarinho da Mó
  • Torneiros
  • Minas de Beça

 

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Ora, com esta listagem, fiquei esclarecido quanto às Caldas Santas não serem uma povoação, e confirma-se o Pinhal Novo, que é certo que é uma aldeia recente mas existe e está lá bem visível aos olhos de todos. Outra povoação que me aparece nesta lista mas que está ausente em muitas outras, é a Carreira da Lebre, também bem visível que é um povoado recente e que eu, por essa ausência em quase todas as listagens a que tive acesso das aldeias de Boticas, e dado a proximidade à aldeia de Quintas, dei como a Carreira da Lebre ser pertença desta aldeia, mas afinal na página oficial da CMB aparece como sendo uma povoação da freguesia de Beça. Ora como esta me apanhou desprevenido e embora tenha algumas fotografias da Carreira da Lebre, a verdade é que não são suficientes para a elaboração de um post, e daí não ter aparecido aqui o seu post a seguir à aldeia de Beça, isto seguindo a metodologia que tenho seguido até aqui em fazer estas abordagens por ordem alfabética.

 

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Mas a povoação que aparece nesta listagem das povoações da freguesia de Beça que me apanhou mesmo desprevenido, foi a povoação de Minas de Beça, pois só há 1 mês é que a vi mencionada pela primeira vez na listagem que tenho vindo a referir e que até consta no mapa da freguesia nos cadernos da “Prevenção dos Hábitos Comunitários nas aldeias do concelho de Boticas” . Pois esta descoberta tardia pôs mesmo em risco o poder trazê-la hoje aqui, pois sem fotografias não há post e eu não tinha nenhuma fotografia da povoação, mas era fácil de resolver, pois a distância não é muita e bastava destinar uma manhã de sábado ou domingo para chegar lá e fazer a recolha fotográfica, isto se os nosso dias corressem com a normalidade do decorrer dos dias normais, mas neste tempo de pandemia, não podemos fazer planos, mesmo que a curto prazo, pois podem-nos sair gorados, tal como aconteceu comigo.

 

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Pois acontece que antes do sábado que tinha previsto ir por lá à caça de fotografias, graças ao bicho da pandemia, por ter estado em contacto com pessoas contaminadas,  fui obrigado a fazer uma quarentena e a ficar confinado em casa, que felizmente tudo correu bem, daí como terminava a quarentena numa sexta-feira, programei o sábado logo a seguir para ir às Minas de Beça, mas por azar meu, e dado o grade número de casos que o concelho de Chaves teve, o Gorveno confinou-nos ao nosso concelho durante o fim-de-semana, proibindo-nos a saída dele, como o tempo apertava e já não havia mais sábados disponíveis, fui obrigado a gozar um dia de férias para finalmente ir a Minas de Beça, e fui, na esperança de ficar tudo resolvido mas…

 

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Pois, mas…, fui,  depois de ter feito o trabalho de casa, ou seja, o ter estudado os mapas do local, ver quais os caminhos para lá chegar e de lá sair, localizar a povoação que logo entendi não existir, mas antes, isso sim, existiam uma série de construções dispersas, algumas isoladas, outras em banda, e a aparência era a de que muitas delas estariam em ruínas, etc. Já no terreno confirmei isso mesmo, uma construção aqui, outra acolá, um conjunto de construções em banda e já quase quando estava a terminar avistei uma pessoa, no meio da estrada,  junto a uma das casas, que, ao aproximar-me verifiquei serem duas pessoas, o Sr. Marcelino e a esposa, a D. Aurora, que num plano mais baixo, ao lado da estrada,  tratava da horta, à boa maneira barrosã, onde ainda havia um bocadinho de tudo, mas sobretudo uns talhões de couve penca e troncha, a lembrar-nos de que o Natal está à porta, enquanto o Sr. Marcelino, soubemos depois, se preparava para ir botar o gado à pastagem. Mas voltemos ao mas que ficou para trás esquecido…

 

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Pois em conversa com o Sr. Marcelino, ao dizer-lhe ao que andávamos e que as Minas de Beça era a única “povoação” que nos tinha escapado no concelho de Boticas, ele nos surpreende ao dizer que nós já estávamos no concelho de Montalegre e que as antigas minas estavam todas no concelho de Montalegre, isto enquanto nos ia apontando onde ficava a linha imaginária do limite dos concelhos de Montalegre e Boticas. E de facto assim é, ao chegar a casa pude comprovar isso mesmo, as minas e algumas habitações e antigos bairros das casas dos mineiros se encontram no concelho de Montalegre, mas também há algumas no concelho de Boticas, nomeadamente um armazém em ruinas que tudo indica ter sido um armazém de apoio à minas.

 

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Quanto ao casal Sr. Marcelino e D. Aurora, hoje os únicos habitantes do lugar, mais um primo do Sr. Marcelino, portanto três no total, resta-nos agradecer a simpatia e hospitalidade com que nos recebeu e as preciosas informações que nos forneceu, senão iria hoje cometer aqui um erro crasso ao dedicar este post apenas às Minas de Beça de Boticas. Sr. Marcelino que é um descendente de um avô e pai mineiro, de quando aquilo estava cheio de gente, mas que tal como ele disse, o local não tardará outra vez a estar repleto de gente, com esta história do Lítio. E de facto, basta deitar um olho ao Google Earth para ver que no local e a contar por alto as marcas que deixaram no terreno, já se fizeram por ali cerca de uma centena de sondagens. Minas que, como veremos mais à frente, sempre existiram ao longo dos tempos, e o couto mineiro de Bessa já o era pelo menos nos tempos em que os romanos também andaram por lá.  

 

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Assim e resumindo, o complexo das antigas minas, ou couto mineiro de Bessa, as últimas a serem explodas até depois de meados do século passado,  distribuíam-se dentro dum círculo com um diâmetro de 2,5km em que mais ou menos metade dessa área pertence ao concelho de Montalegre, bem próximas da aldeia de Carvalhais, Morgade e Rebordelo,  e a outra metade ao concelho de Boticas, sendo a aldeia mais próxima, Vilarinho da Mó, daí, os créditos deste post serem também divididos pelos dois concelhos e fica assim também explicado do porquê de hoje o título ser Minas de Beça – Boticas e Montalegre – e o “mas…” que atrás deixámos. O seu a seu dono.

 

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Mas abordemos então aquilo que resta das Minas de Beça e os caminhos para lá chegar. Pois como sempre, no trabalho de casa traçamos o nosso itinerário para lá chegar. Desta vez optámos por ir sempre pela EN103 até ao Alto Fontão, ali mesmo onde se pode virar para Beça, por um lado e para a Serra do Leiranco, do lado oposto.

 

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No estudo da zona vimos um local que seria interessante para fotografar o conjunto de um pequeno aglomerado de casas, havendo um caminho de terra até lá, para tal teríamos de atravessa a aldeia dos colonos de Pinhal Novo. O local que tínhamos em mente era mesmo junto ao rio Beça, onde existem umas poldras, mas na ausência de uma ponte, para visitarmos de perto esse pequeno conjunto de casas, teríamos de voltar para trás, regressar ao Alto Fontão e a partir de aí tomar uns caminhos de montanha de terra batida, e esse tal conjunto, no nosso itinerário, seria um dos últimos a visitar, mas nem tudo sai como planeamos, pois uma coisa é o estudo dos mapas e cartas e outra a realidade.

 

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Acontece que enquanto estávamos a fotografar esse conjunto, uma carrinha todo terreno passou junto desse conjunto de casas do outro lado do rio, espanto nosso, quando fomos a dar conta a carrinha já estava junto a nós no lado de cá do rio Beça, rio que ainda estava a uma ou duas centenas de metros de nós e que o arvoredo não deixava ver as tais poldras, mas que pelos vistos também existiria um pontão, e antes de voltar para trás, resolvemos perguntar ao proprietário da carrinha se existia pontão, ao que nos respondeu que não, que não era preciso, pois atravessava-se diretamente pelo rio.

 

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Ora também lá fomos e também o atravessámos. Baralhou-nos um bocado o nosso itinerário pré-programado, pois passamos a fazer as visitas ao contrário, mas poupámos tempo e meia dúzia de quilómetros, mas não vai ser esse o itinerário que vos vou deixar, pois parto do princípio que os itinerários que aqui recomendo são para poderem ser feitos por automóveis ligeiros, embora os que fiz seja mais recomendados para viaturas todo o terreno, a verdade é que também vimos por lá um ligeiro, só não sei é se conseguirá atravessar o rio Bessa. Mais vale não arriscar e ir por estrada pavimentada.

 

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Ora então o nosso itinerário para chegar à zona das Minas de Bessa, com início como sempre na cidade de Chaves, é via N103 até ao Alto Fontão, não há nada que enganar, a seguir a Sapiãos quando aparecerem as primeiras casas, mesmo no final de toda a subida, está no Alto Fontão. Se a N103 começar a descer, já vai enganado, mas não se preocupe, pois estão lá as placas na estrada a indicar a saída para Beça. Logo a seguir vai passar ao lado da aldeia dos colonos, Pinhal Novo, e quando chegar a Beça, terá que entrar na aldeia e seguir as indicações das placas, onde estão assinaladas as Minas de Beça e também Vilarinho da Mó. Em caso de dúvidas, vá perguntado na aldeia, pois há sempre gente nas ruas. Se chegar até ao rio Beça, está no bom caminho.

 

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Depois de atravessar a ponte sobre o Beça, terá que percorrer apenas cerca de 1,2Km e abandonar a estrada por onde vai, que é quase seguir a direito, pois a estrada nesse local faz uma curva de 360º. A partir de aí, está a entrar no território das Minas de Beça. Tal como já atrás disse, não existe nenhuma povoação, existem sim, num raio de 2,5km algumas construções isoladas, pequenos conjuntos de 3 a 4 construções, e dois conjuntos de 5 ou 6 casas em banda. Quanto às minas propriamente ditas, esqueça, o melhor é não as procurar, pois já não há nada para ver, ou praticamente nada, apenas algumas ruinas pouco visíveis e encobertas pelo mato. A visita vale pelas paisagens e pelas margens do Rio Beça, pelo contacto com a natureza onde até as grandes aves de rapina nos sobrevoam nas calmas, quase como que nos ignorando…  Para ajudar a chegar até as Minas de Beça, ficam também os nossos mapas.

 

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Como não há aldeia, isto no conceito típico de aldeia, quando muito há, ou houve, um povoamento disperso à volta das Minas de Beça, isto atualmente e nos últimos tempos, então sem aldeia, vamos abordar as minas, que essas sim, existiram como minas, não só nos últimos tempos até há coisa de 50 a 60 anos, embora hoje inativas, mas desde sempre, conforme as necessidades do tipo de mineral a explorar, existem indícios de que terão existido outras, do tempo da ocupação romana, por exemplo, pois ao que parece a riqueza geológica do local tem dado para várias explorações de minério diferente, o mais recente, parece ter sido o estanho, quando o estanho fazia falta, tal como as de volfrâmio no tempo da segunda guerra mundial. Agora chegou a vez do lítio e que não haja dúvidas, pois a força da necessidade atual, e num futuro próximo, de lítio, será suficiente para se seguir em frente com a sua extração. S€mpr€ foi assim € s€mpr€  assim s€rá. Então. Lançando mão de alguns trabalhos académicos e outros estudos, quer no campo da geologia ou do ambiente, nomeadamente o florestal, vamos ver o que se diz e tem dito sobre este couto das minas de Beça.

 

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In MINERAÇÃO E POVOAMENTO NA ANTIGUIDADE NO ALTO TRÁS-OS-MONTES OCIDENTAL - CARLA MARIA BRAZ MARTINS (COORD.), encontrámos o seguinte:

 

N.º 050: Beça, Lavra de Beça, Cervos Descrição: Os trabalhos mineiros desenvolvem-se numa encosta sobre o rio Beça, num substrato xistoso, com grandes cortas (3 paralelas) e trincheiras (2). Admitem-se ser trabalhos antigos, romanos, apesar da existência de exploração contemporânea.

 

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Na mesma publicação, de autoria de João Manuel Farinha Ramos*

* LNEG (S. Mamede de Infesta)

Encontrámos o seguinte:

 

Das ocorrências deste tipo salientam-se as antigas minas de Sn e W de Carvalho em Vilar (Boticas), e as de Lavradas, Monte da Agrova N.º 3 e Monte das Vargelas todas em Beça, (Boticas). Nestas minas ocorrem filões e filonetes quartzosos e micáceos com cassiterite e volframite, encaixados numa formação metassedimentar de idade silúrica, nas proximidades do contacto com um granito de grão médio, tendência porfiróide, biotítico, sintectónico e depósitos aluvionares também mineralizados. A antiga mina Carvalho entre 1937 e 1971 produziu 30,6 t de mistos de cassiterite e volframite, e a de Monte das Vargelas 10,3 t de volframite e cassiterite em 1952.

 

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De autoria de Pedro Miguel Azevedo Paredes em “Prospecção de ocorrências filonianas do tipo LCT nas formações metassedimentares entre Boticas e Montalegre (N de Portugal) - Dissertação de Mestrado - Mestrado em Geologia – Ramo Valorização de Recursos Geológicos - Universidade do Minho, Escola de Ciências, encontrámos o seguinte:

 

Mais recentemente, em 2014, a Comissão Europeia publica novo relatório sobre as matérias-primas consideradas essenciais (numa actualização do primeiro relatório elaborado em 2010), em que introduz o estanho nessa lista (mantendo o tungsténio na lista das matérias-primas consideradas críticas),(...)

Também por essa razão (aliada à componente histórica), além do tungsténio o presente trabalho abarca a extracção do estanho (a partir da cassiterite), que foi uma das principais actividades do Couto Mineiro do Bessa.

 

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Apesar da importância do couto mineiro anteriormente referido, o conhecimento geológico da área é limitado, destacando-se apenas:

- A publicação “Jazigos portugueses de cassiterite e volframite”, de Cotelo Neiva (1944), onde o autor refere a natureza filoniana do jazigo, com numerosos filões de pegmatito granítico, registando possanças de alguns centímetros a 35 centímetros, com direcção geral NW-SE (concordantes com os planos de xistosidade do xisto encaixante) e inclinação geral NE, sendo por vezes de 40º relativamente à vertical. Realça também a existência de filões perpendiculares a estes últimos, ricos em cassiterite, sendo que a região metalífera mais rica é a que se encontra próxima da mancha granítica. No livro encontram-se ainda estudos sobre: as rochas eruptivas vizinhas, as rochas encaixantes e o greisen do Bessa; a mineralogia do pegmatito granítico e respectiva paragénese, destacando-se a presença, essencialmente, de quartzo e feldspato potássico, tendo como minerais acessórios, entre outros, a volframite e a cassiterite.

 

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A exploração mineira nesta zona remonta ao tempo dos romanos. No Boletim de Minas de 1938, referente às minas de Monte Agrove nº1 e Carvalho, aparece a seguinte citação: “Foram explorados aluviões ricos em cassiterite e volframite e resíduos de antiquíssimas fundições de estanho, provavelmente romanas, pois que nelas foram encontradas duas moedas de prata dessa época. Estes resíduos contêm, como é natural, a volframite, que então não era aproveitável. O povo dá o nome de agrovas às escavações antigas.” (Nunes, J. P. Avelãs; 2010). Inicialmente, o foco principal da exploração incidia nos filões pegmatíticos do tipo LCT, com mineralizações de cassiterite, para extracção do estanho. Acessoriamente, eram explorados concentrados de columbite-tantalite e ilmenite.

 

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As referências mais antigas da exploração no Couto Mineiro do Bessa, referidas em relatórios da Circunscrição Mineira do Norte, remontam a 1918 (minas da Corga das Domingas e da Cova da Mêda). De acordo com o mesmo organismo, de 1956 a 1965, foram produzidos 108t de cassiterite, com 60% a 75% de teor. Nesse mesmo período, produziu também 6t de concentrados de tantalite-columbite, com 30% de Ta2O5. Nas concessões de Carvalho, Estanheira e Palheiros, pertencentes ao mesmo Couto, foram produzidos, respectivamente: 11t de volframite e 26t de cassiterite; 2t de cassiterite; e 3t de cassiterite. Além do Sn e do W, também foram explorados recursos minerais não metálicos, como o quartzo e o feldspato (Ramos, Rui; 2003).

 

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Não propriamente sobre as minas mas sobre o povoamento florestal desde que a última exploração encerrou, encontrámos um trabalho de autoria de Raquel López, Engenheira florestal, visto em http://www.sinergeo.pt/evolucao-da-paisagem-no-couto-mineiro-de-beca-por-raquel-lopez/ , e consultado em 14-11-2020, que diz o seguinte:

 

Apesar da escassa presença humana, existiam algumas culturas agrícolas com grandes áreas de pasto, localizadas principalmente à esquerda da exploração mineira.

 

Em redor das cortas a classe mais representativa era o estrato arbustivo.

 

Ao longo dos anos, ou seja, após 53 anos o quadro é bastante diferente e a intervenção humana tem muito a ver com a transformação da paisagem.

 

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Em 2011 as espécies florestais de coníferas são as que verificaram um maior crescimento em área. Desta vez, o estrato arbóreo (o pinheiro, o carvalho vermelho, o carvalho negral, o castanheiro, o amieiro, o choupo, o vidoeiro, o eucalipto, etc.) é a classe mais representativa, muito diferente do que se verificava em 1958, onde a classe arbustiva era a vegetação dominante e a arbórea a de menor ocupação. Nos arredores da exploração, onde antes crescia vegetação de tipo arbustiva em  competição com o mato, agora crescem povoações recentes de pinheiros e em menor superfície povoações de eucaliptos.

 

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As povoações humanas são maiores e é observado um pequeno aumento na presença de culturas agrícolas, de localização semelhante como em 1958. Em 2011não foram observadas alterações significativas na distribuição dos pastos. Estes estão distribuídos mais ou menos pela mesma área e ocupando superfícies semelhantes em ambos anos.

 

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Ao comparar ambos anos com o 2006 a paisagem  volta a trocar. Em 2006 era praticamente dominada por uma mancha densa composta principalmente de plantações de pinheiro de duas classes de idade diferentes, porém mais velhas do que as plantações de pinheiros que estavam a crescer em 2011. Por outro lado, a paisagem de 2006 também está longe do que ela era em 1958 (lembre-se que o mesmo espaço estava ocupado principalmente por arbustos).

 

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Atualmente, e apesar de ter passado apenas quatro anos, a paisagem nas imediações da mina amostra-se de novo diferente com respeito a como ela se apresentava em 2011. Durante este período houve uma série de incêndios que causaram o desaparecimento de uma grande parte da floresta, interrompendo novamente o crescimento natural da vegetação e, consequentemente, alterando a paisagem.

Resulta, portanto, que esta região tem sido sujeita fortemente a fatores (quer sejam de origem humana ou natural) que repetidamente alteraram a evolução natural da vegetação, transformando a paisagem significativamente, em períodos curtos.

 

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E estamos a chegar ao fim deste post, hoje idêntico a todos os anteriores desta série, mas também, em tudo diferente, não tivemos uma aldeia mas sim umas minas, só que, para já desativadas, mas vimos o que delas restou, ou melhor, o que a elas sobreviveram, o casario disperso, também ele moribundo, mas não todo, pois existem sempre resistentes que por uma ou outra razão insistem em ficar e vão ficando.

 

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Só nos resta o vídeo final com todas as fotografias hoje aqui publicadas, e no próximo domingo cá estaremos novamente, com mais uma aldeia da freguesia de Beça, do concelho de Boticas, e aí, será uma aldeia a sério, mas que também tem os seu mas. Chama-se Pinhal Novo e é uma das 7 aldeias de colonos que Salazar mandou construir no Barroso, esta, a única a ser construída no concelho de Boticas, as restantes 6 foram construídas no concelho de Montalegre.

 

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Aqui fica o vídeo, espero que gostem:

 

 

 

Agora também pode ver este e outros vídeos no MEO KANAL Nº 895 607

 

 

09
Nov20

O Barroso aqui tão perto - Lavradas

Aldeias do Barroso - Concelho de Boticas

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LAVRADAS

 

Cá estamos de novo para continuar a nossa viagem pelo Barroso do concelho de Boticas. Temos abordado as aldeias freguesia a freguesia, pela ordem alfabética e no último domingo tivemos aqui Carvalhelhos, da freguesia de Beça, e e nesta freguesia que vamos continuar, com a aldeia de Lavradas.

 

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Iniciemos já pela sua localização e como chegar até lá, como sempre a partir da cidade de Chaves. Pois não há nada que enganar, saímos de Chaves pela EN103 em direção a Braga, mas só até Sapiãos, onde devemos tomar o caminho de Boticas, aí, apanhamos a route 66 de Boticas, por cá conhecida como R311, estrada essa que atravessa o Concelho de Boticas de lés a lés, uma estrada toda ela de montanha, que se inicia no concelho de Chaves, no Peto de Lagarelhos e termina em Fafe, passando assim por 5 concelhos (Chaves, Boticas, Montalegre, Cabeceiras de Basto e Fafe).

 

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É assim a magia desta R311 que até nos tira do nosso caminho, que hoje é o de Lavradas. Pois depois de apanharmos a R311, seguimos até à Carreira da Lebre, seguimos em frente e logo a seguir, como quem diz, depois de atravessar o Rio Beça, viramos à direita em direção a Carvalhelhos onde, na rotunda com a santa das águas, viramos à esquerda em direção a Atilhó e Alturas do Barroso e, claro, também Lavradas que será a primeira aldeia a aparecer, a cerca de 4Km de Carvalhelhos. Fica o nosso mapa para melhor localização.

 

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Nos nossos itinerários pelo Barroso, já fizemos algumas passagens por esta aldeia, no entanto, para fotografá-la, apenas parámos lá duas vezes, a primeira já foi em maio de 2011, a segunda em julho de 2018. Da primeira vez, como fomos conduzidos até lá depois de passarmos por várias aldeias, nem deu para perceber onde ficava, e como a visita foi breve, também não deu para perceber a aldeia.

 

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Na segunda visita a nossa intenção era mesmo fotografar e perceber a aldeia para a trazermos a este blog. Embora hoje vos aconselhe um itinerário a partir de Chaves, a nossa entrada em Lavradas na segunda visita fotográfica que fizemos, foi feita a partir da aldeia vizinha de Lamachã, do concelho de Montalegre e chegados lá, foi como se fosse pela primeira vez.

 

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Como sempre, para se ficar a conhecer uma aldeia, não nos podemos ficar pela primeira impressão, pois lá diz o ditado que as aparências enganam. Além disso certas há horas do dia que não são muito próprias para a fotografia, sobretudo à hora do almoço, isto por duas razões, primeiro porque a nossa cabecinha já começa a ouvir a nossa barriguinha a reclamar por comida, a segunda, tem a ver com a intensidade da luz, principalmente nos dias intensos com o sol de verão, e embora a luz seja uma condição necessária para haver fotografia, quando é muito intensa, em vez de ajudar só atrapalha. Pois era nestas condições que entrávamos em Lavradas e logo nas primeiras construções que vimos, armazéns e construções novas… enfim, fizemos meia-dúzia de fotos e já estávamos quase de partida, mas há sempre encontros felizes, e descobertas mais felizes ainda…

 

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Depois do largo da igreja, o nosso destino fazia-se com passagem por Vilarinho da Mó e foi aí que começámos a perceber e conhecer a aldeia, principalmente com aquilo que vai além das ruas e entra nos pátios e outros pormenores que não estão ao alcance de todos, coisas que nos fazem despertar para a realidade das coisas… os nossos olhos só veem aquilo que querem, e às vezes atraiçoam-nos.

 

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Lavradas é uma aldeia com certas dimensões, para aldeia do Barroso até pode ser considerada grande, rodeada de campos agrícolas férteis e bem tratados e isso reflete-se também no casario que ao longo dos tempos foi sendo recuperado e transformado, já longe da arquitetura vernácula original. Mas a aldeia vale pelo seu todo, não só pelo casario, mas também pela vida que tem, pelos seus usos e costumes, e nisso tenho a certeza que a aldeia mantém toda a sua integridade, vê-se nas suas ruas, nas suas casas e nos seus campos.

 

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Campos verdes, aliás já estamos habituados ao Barroso verde das terras planas e baixas a contrastar com o Barroso agreste no alto das montanhas, mas só há verde se houver água, e se o Barroso por uma lado é castigado com o rigor dos invernos frios, por outro lado recebe a bênção da água, sendo frequente vê-la a correr livremente em valetas e levadas, a inundar lameiros, a encher barragens, mas embora abundante, não se pode desperdiçar e tem de haver regras para chegar a todos.

 

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Pois a água é um bem precioso e daí ser também um bem comunitário. Vejamos o que se diz sobre o assunto na “Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas”. Atenção, como sempre avisamos que os dados deste documento foram publicados em 2006, daí, poderão não estar atualizados.

 

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A Água

A água, elemento dominante da paisagem uma boa parte do ano, desempenha um importante papel na sobrevivência das economias agro-pastoris da região. São inúmeras as suas aplicações: garante da produtividade das parcelas agrícolas e dos lameiros, sustento dos gados, força motriz dos inúmeros moinhos de água existentes ao longo dos corgos e dos rios; estende a sua utilidade ao quotidiano das aldeias, aos tanques, bebedouros dos animais e aos lavadouros públicos existentes.

 

Dadas as características dos solos e os rigores do clima da região, a água, seiva da terra, desempenha um papel fulcral na produtividade agrícola.

 

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No território do concelho pratica-se a rega por gravidade. A água de rega, proveniente de várias fontes de água superficiais, localizadas nas encostas dos montes e serras junto às aldeias, é utilizada para regar as parcelas localizadas a juzante.

 

Para optimizar a utilização deste recurso, foram criadas infra-estruturas para a rega. Os regos conduzem a água desde as nascentes, corgos ou ribeiras, até às poças/tanques de rega, reservatórios de retenção da água. Da poça/tanque, a água é encaminhada, também através de regos, até às parcelas agrícolas. Acontece, por vezes, as nascentes brotarem no local onde se encontra a poça/tanque. Em quase todas as aldeias, estas infra-estruturas, outrora em terra batida e pedra, foram alvo de obras de beneficiação, remodeladas, e construídas em cimento e betão armado, de forma a rentabilizar este recurso, reduzindo ao mínimo o seu desperdício ao longo do percurso que faz até às parcelas agrícolas.

 

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Geralmente, cada uma das aldeias dispõe, no seu termo territorial, de nascentes, regatos ou ribeiros, donde provém a água para rega. Todavia, existem situações em que diferentes aldeias têm que partilhar a utilização da água. A partilha de água entre aldeias, geralmente conflituosa, levou à criação de regras de utilização bem definidas, nem sempre respeitadas pelos seus habitantes, ou à posse dessa água por apenas uma das aldeias. Existem no concelho três aldeias em que parte da água, que utilizam para rega, é proveniente de outra aldeia: em Antigo (Dornelas) regam com água de Gestosa (Dornelas), em Carvalhelhos (Beça), regam com água de um ribeiro de Carvalho (Vilar), e em Lavradas (Beça) regam com água de Lamachã (Negrões - Concelho de Montalegre). Cada uma destas aldeias tem direito a essa água por um determinado período, durante o qual os da outra aldeia não podem tornar a água. Esta regra nem sempre é respeitada, acontecendo por vezes as pessoas andarem a regar e a água faltar, porque alguém da outra aldeia a tornou. Estas situações, além dos conflitos que geram entre os intervenientes, acarretam inúmeras canseiras, pois quem quer regar tem que ir buscar a água à outra aldeia e guardá-la para que não lha voltem a tornar.

 

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E estamos a chegar ao fim deste post, só falta mesmo o vídeo onde estão reunidas todas as fotografias deste post, mais algumas que já foram sendo publicadas ao longo da existência deste blog para ilustrar outros posts, como o das crónicas de António Granjo na sua passagem por Lavradas a caminho de Alturas do Barroso. Aqui fica, espero que gostem:

 

 

 

Agora também pode ver este e outros vídeos no MEO KANAL Nº 895 607

 

E quanto a aldeias de Chaves, despedimo-nos até ao próximo domingo em que teremos aqui mais uma aldeia da freguesia de Beça.

 

 

 

02
Nov20

O Barroso aqui tão perto - Carvalhelhos

Aldeias do Barroso - Concelho de Boticas

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Carvalhelhos

 

O nosso destino de hoje no Barroso aqui tão perto, é a aldeia de Carvalhelhos, freguesia de Bessa, concelho de Boticas. E quem é que não conhece Carvalhelhos!? Pois se nos referirmos à água de Carvalhelhos, penso que é conhecida em todo o nosso Portugal mas também no estrangeiro e suponho que pelas suas características, haja muito boa gente a bebê-la, a a utilizá-la em tratamentos nas suas termas, sem qualquer dúvida que água de Carvalhelhos é uma boa embaixadora do Barroso.

 

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Mas Carvalhelhos vai para além da água, pois para além de também ser uma aldeia atual do concelho de Boticas, o lugar já era povoado na idade do ferro, tal como o testemunha o castro aí existente.

 

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Se às vezes na abordagem destas localidades do Barroso não sabemos como começar, principalmente por falta de informação, deixando aqui só as nossas impressões pessoais, hoje não sabemos por onde começar com tanta informação disponível para gerir e selecionar, mas para resumir, vamos dividir este post em quatro capítulos. Deveríamos seguir a ordem cronológica e começar pelo castro também conhecido como castelo dos mouros, mas vamos, antes, abordar a atual aldeia, depois passaremos para o castro, depois passaremos a Miguel Torga e aos registos nos seus diários sobre Carvalhelhos e por último abordaremos a água, as termas e o seu parque.

 

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A aldeia, sua localização e itinerário

Dizem que a qualidade da água não terá sido alheia a razão da localização do castro existente. Pois a atual aldeia também pela certa que sofreu da mesma influência, mais recente, sem dúvida, mas que também deixa marcas na atual aldeia, talvez não só por isso, mas que faz a aldeia ter características próprias, numa mistura notória da aldeia tradicional barrosã com construções mais recentes.

 

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Quanto à sua localização, situa-se na margem direita do Rio Bessa, mesmo em frente à aldeia de Bessa, na margem direita do mesmo rio. Fica a 30 km do nosso ponto de partida, a cidade de Chaves, a pouco mais de 6km da vila de Boticas e a apenas 1km da R311, a estrada que tanto utilizamos nos nossos itinerários do concelho de Boticas e que hoje tomaremos novamente a partir de Boticas, passando pela Carreira da Lebre e a cerca de 700m desta, logo após de atravessarmos a ponte sobre o Rio Bessa, temos o desvio para Carvalhelhos. Fica o nosso mapa de seguida. O Ponto de partida, como sempre é Chaves, com saída pela EN103 (Estrada de Braga) até Sapiãos, depois Boticas, etc.

 

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Os destaques para a aldeia vão para as vistas que desde ela se lançam para o vale do Rio Bessa e mais além, para o conjunto do casario da aldeia onde não faltam os tradicionais canastros (espigueiros se preferirem) alguns ainda totalmente em madeira e um tanque, com bebedouro e umas alminhas cobertas com uma espécie de cruzeiro e mais elementos no seu interior. Ainda um cruzeiro no largo, com uma base antiga, mas o restante (parece) de construção recente, e claro o Castro e as Termas e respetivo parque.

 

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Na monografia de Boticas apontam-se ainda mais alguns pontos de interesse, mas como sempre fica o aviso de que os dados já são de 2006 e alguns desses pontos de interesse poderão já não existir. Mas lá consta ainda:

 

- A festa de Sta. Bárbara, Último Domingo de Agosto;

- Mina do Alto do Coto / Coto de Carvalhelhos;

- Capela de Santa Bárbara;

- Cruzeiro e alminhas de Nossa Senhora da Conceição;

- Forno Comunitário;

- O Castro;

- As Termas;

- A estalagem;

- Cozinha da Eugénia;

- Taberna do Tio João.

 

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O Castro de Carvalhelhos/Castelo dos Mouros

 

De entre a documentação disponível, optamos por trazer aqui aquela que é oficial e está nas páginas oficiais dos monumentos.pt e do património cultural, iniciando pela dos monumentos.pt:

 

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Descrição

Povoado fortificado proto-histórico e romanizado, circundado por duas linhas de muralha, apresentando, na vertente E., uma linha de defesa exterior. As muralhas chegam a atingir c. de 3,5 m de espessura, conservam rampas interiores de acesso a estas, com uma largura de c. de 0,5 m, correspondendo a um alargamento da muralha nos pontos em que estas se inserem. O sistema defensivo está complementado por dois fossos escavados no afloramento de O. a E., embora a O., na zona de mais fácil acesso e onde se localiza a entrada principal do povoado, se tenha acrescentado um terceiro fosso, chegando estes a atingir c. de 7 m de profundidade. Registe-se também uma área com pedras fincadas de NO a O. As cristas superiores dos taludes que intermeiam os fossos apresentam igualmente pedras fincadas. A entrada no povoado faz-se por uma porta estreita, virada a O., que continua por uma passagem angular, igualmente de reduzida largura, para o acesso à plataforma superior, havendo também uma outra entrada na muralha exterior, virada a NE, sobre a ribeira do Castro. Nas plataformas interiores às muralhas encontram-se construções habitacionais de planta circular e rectangular, aparentemente organizado em bairros, em núcleos familiares, apresentando alguns pátio lajeado. Numa das construções foi detectada uma lareira com lastro em lajes e um trasfogueiro como anteparo.

 

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Observações

A reconstituição das estruturas está assinalada com uma camada de cimento. O seu espólio é constituído por fragmentos de cerâmica comum da Idade do Ferro, cerâmica comum romana, cerâmica romana de importação, vidro, cossoiros, tegula, imbrex, cossoiros, mós manuárias rotativas, abundantes elementos numismáticos, artefactos metálicos (armas, ferramentas artesanais), fíbulas, objectos metálicos de adorno, contas de colar de pasta vítrea, escória e 200 kg de cassiterite. O espólio está depositado no Museu da Região Flaviense, em Chaves, e no Museu do Instituto de Antopologia da Faculdade de Ciências do Porto. Em alguns pontos das vertentes do outeiro foram exploradas pedreiras. Tendo as estruturas visíveis sido objecto de restauro.  Embora em algumas zonas as pedras fincadas estejam derrubadas

 

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Passemos agora ao que nos diz a página oficial do património cultural:

 

Nota Histórico-Artístico

Classificado em 1951 como "Imóvel de Interesse Público", o "Castro de Carvalhelhos" (ou "Castelo dos Mouros", como também é conhecido), ergue-se no topo de um esporão sobranceiro ao vale da ribeira das Lameiras, subsidiária do rio Beça, nas imediações das conhecidas termas de Carvalhelhos.

 

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Construído durante a Idade do Ferro, o povoado dispunha de um complexo sistema de fortificação constituído por três cintas de muralha com paramento duplo revestido com blocos graníticos no exterior e de xisto no interior, completada por três fossos profundamente escavados no afloramento granítico precedido de um campo de pedras fincadas. E enquanto coordenador das campanhas arqueológicas, José Rodrigues dos Santos Júnior decidiu, em 1957, reutilizar o material pétreo derrubado na base do muralhado para reconstruir uma extensão de cerca de cinquenta metros da cinta da muralha interior.

 

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É esta primeira linha de muralha que delimita toda a área interna, de forma sub-circular, onde foi escavado um conjunto de estruturas habitacionais de planta predominantemente circular e rectangular. As campanhas arqueológicas conduzidas ao longo de trinta anos permitiram recolher um vasto espólio, do qual, para além de fragmentos de cerâmica comum da Idade do Ferro, se encontrou um depósito com duzentos quilos de cassirite, fíbulas, pontas de lança em ferro e uma quantidade expressiva de escória, a testemunharam, no seu conjunto, a actividade metalúrgica que teria lugar no interior do próprio povoado. [AMartins]

 

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Miguel Torga

 

Entalamos aqui Miguel Torga entre o castro e a água e termas precisamente porque foram estes que levaram Torga até Carvalhelhos, amante que ele era de beber água de todas as fontes, além de às vezes com elas se tratar, e amante da história mais antiga dos lugares de Portugal, do mesmo Torga que fez destas terras o “Reino Maravilhoso” , dedicando a Carvalhelhos 7 dias do seu diário.

 

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Carvalhelhos, Barroso, 17 de Junho de 1956

 

A doença tem-me dado muitas horas amargas, mas devo-lhe também uma intimidade com a pátria de que poucos portugueses se podem gabar. Obrigado a procurar a esperança em cada fonte, passo a vida de terra em terra, com as tripas na mão. E até a este Barroso vim parar! O problema, agora, é estar à altura das alturas onde me encontro. O escrúpulo dos tempos em que comungava, tenho-o presentemente quando me aproximo do povo. Estarei puro para lhe ouvir a voz?

Miguel Torga, in Diário VIII

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Carvalhelhos, Barroso, 21 de Junho de 1956

 

PASTOREIO

 

Uma cabra montesa no pascigo;

Fiel ao seu balido,

Um fauno apaixonado;

Entre os dois, um açude adormecido,

Imagem do instinto represado.

 

Corcunda como a vida,

Uma ponte arqueada de suspiros

A ligar as arribas do desejo;

E um guarda as passadiço, uma presença humana,

- O pastor, a moral quotidiana…

 

Miguel Torga, in Diário VIII

 

 

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Carvalhelhos, Barroso, 18 de Junho de 1956

 

Tarde de pesca, mas só a ver. Não sou homem de anzóis. Seja qual for o sonho que me apeteça prender, luto com eles de caras, sem isca. Entro nos matagais aos tiros, a avisar as perdizes que lá vai metralha. Agora que deve ser cómodo atirar um engodo fingindo à realidade e puxá-la depois até nós com a manivela da astúcia, deve. Enche-se o cabaz, e volta-se para casa fresco como uma alface, mesmo que se tenha chafurdado o dia inteiro – ou a vida inteira…- num baixio de águas turvas…

 

Miguel Torga, in Diário VIII

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Carvalhelhos, Barroso, 23 de Junho de 1956

 

Confesso a minha pena: tenho medo de trovoadas. Quando o rosto da natureza se começa a congestionar, começo eu a empalidecer. É que não tenho defesa. Contra o ódio dos homens, nunca o instinto se sente inteiramente desamparado: há sempre outros homens, limpos de alma, capazes de nos acudir. Mas diante da violência obtusa e cega dos elementos, parece que o mundo se despovoa, esvazia, e tudo à nossa volta se rende, abdica e acobarda. No auge da aflição – e isso aconteceu-me há pouco, no alto da serra -, chega-se a gente a um castanheiro, vegetalmente hercúleo e oficialmente acéfalo, e o desgraçado treme como nós!

Miguel Torga, in Diário VIII

 

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Carvalhelhos, 24 de Junho de 1956

 

Conhece-nos,  o sexo fraco! E tanto monta que a psicóloga seja uma requintada Madame de La Fayette, como qualquer parola de Trás-os-Montes. Esta tarde, em Vilar, povoação serrana que visitei para ver uma tábua bem bonita, porque só me apareciam velhas à porta das casas, meti conversa com uma, a tirar nabos da púcara.

- Quantas viúvas há cá na terra?

- Quarenta e duas.

- E viúvos

- Três.

Espantado com semelhante desproporção, perguntei-lhe a causa.

- É que os homens são mais aflitos…

Miguel Torga, in Diário VIII

 

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Carvalhelhos, 25 de Junho de 1956

 

Olho a serra. E diante desta natureza sem disfarces, aberta para todos os horizontes, sinto como que uma centrifugação do espírito. Ando, e parece que voo; tento localizar-me, e perco-me na indeterminação. Uma espécie de nomadismo da alma descentra-me e liberta-me das amarras mesquinhas da vida compartimentada. E compreendo de repente a força universal que impregna os gestos e as palavras destes barrosões, puros na impureza, que lavam as mãos no sangue dum semelhante e há mil anos que descobriram o cepticismo moderno. Homens para quem o absoluto é o relativo clarificado, e que por isso entregam desta maneira a filha ao namorado que lhe pede casamento:

 

Pastora é,

Gado guardou;

Sebes saltou;

Se alguma se picou,

Tal como está

Assim vo.la dou…

 

Miguel Torga, in Diário VIII

 

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Carvalhelhos, 3 de Setembro de 1989

 

Horas e horas de correria por este Barroso a cabo, num Domingo de romarias, na mira de assistir a mais uma vez uma chega de toiros. Mas não fui feliz. Em todas as aldeias visitadas, o grande acontecimento tinha já acontecido. Restavam dele apenas o doce sabor do triunfo ou o amargo da derrota. Na pega ribatejana, outra expressão da nossa virilidade e vitalidade, é o pegador que está em causa ao saltar para dentro da arena. Aqui, é a povoação inteira que se revê na luta entre o boi e o boi rival. E o desfecho do combate diz respeito a todos. Por isso, se vence, o deus testicular é festejado até ao delírio, se fraqueja e se rende, é amaldiçoado até às lágrimas.

Celebração colectiva, a turra é a mais sagrada cerimónia que se pode presenciar nestas paragens, onde cada acto tem a profundidade dos tempos primordiais e não há divindade sem terra nos pés. E eu sou uma natureza religiosa, sedenta de transcendente, que aprendeu nas grutas de Altamira que ele pode ter a figuração de um bisonte e é sempre uma resposta luminosa a perguntas obscuras do instinto.

 

Miguel Torga, In Diário XV

 

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A Água e Termas de Carvalhelhos

 

Também aqui vamos lançar mão da documentação disponível em duas páginas da internet, uma as Termas de Portugal e outra a da empresa das águas de Carvalhelhos que também gere as termas. Iniciemos pelo que nos diz a página das Termas de Portugal. As imagens são do parque das Termas e Estalagem e algumas antigas:

 

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TERMAS DE CARVALHELHOS

Situadas a 800m de altitude, no sopé de um castro pré-romano e envoltas pelo frondoso parque das serras do Barroso, as Termas de Carvalhelhos (ditas santas devido ao ser poder curativo) providenciam um descanso revitalizador.

 

As águas de mineralização mediana são indicadas para repor o equilíbrio natural do organismo e são particularmente aconselhadas para doenças de pele e patologias dermatológicas, afecções do aparelho digestivo e do aparelho circulatório.

 

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Características da água

Mineralização Total: Fracamente mineralizada.

Composição Iónica: Bicarbonatada sódica.

Temperatura: 20ºC

pH: 8

 

Época Termal

De 15 de julhos a 15 de setembro

 

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Da empresa das águas de Carvalhelhos, retirámos o seguinte:

 

Agua de Carvalhelhos

 

Aqui brotam aquelas que começaram por ser conhecidas as Águas das Caldas Santas, em prol do seu virtuoso efeito terapêutico, que diz a lenda, terá sido descoberto por uma pastora que nelas lavou seus pés em chagas e ficou curada. Esta pastora, a “Barrosinha”, ficou para sempre ligada à imagem da marca e faz parte do logotipo da empresa.

 

Passados 100 anos, as suas características mantêm-se inalteradas, demonstrando assim a qualidade e a nobreza dos seus aquíferos. Vários ensaios efetuados, permitem estimar em dezenas de anos o tempo que decorre entre a infiltração da água no solo e a sua emergência à superfície.

 

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1915 - 1948

As origens das águas de Carvalhelhos

Das águas santas de Carvalhelhos diz-se que foram descobertas em 1915, por uma pastora que nelas lavou os pés em chaga e ficou curada. Ganharam fama com um fotógrafo do Porto que chegou à região e documentou a sua própria recuperação. Nessa época, o engarrafamento era feito à mão e a água minero-medicinal era vendida em farmácias.

 

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1961

Do engarrafamento manual até à produção em série

Em 1961 é instalada uma linha de enchimento automática, considerada a mais moderna do país, com uma capacidade produtiva de 6.000 garrafas por hora. Devido à crescente procura desta água no mercado, várias linhas de enchimento foram instaladas, satisfazendo as necessidades de produção e garantindo a qualidade intocável do produto.

 

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1975 - 1982

Novo Complexo Industrial

Em 1975 é dado um grande salto qualitativo em termos de instalações industriais, tendo sido construído um complexo industrial, com uma área coberta de aproximadamente 15.000 m², que ainda hoje é uma referência no setor. Nos 7 anos seguintes, a capacidade produtiva da empresa evoluiu significativamente para 33.000 garrafas/hora, e mais tarde para as 40.000 garrafas/hora.

 

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1989 - 1995

O surgimento do plástico e as renovadas linhas de Vidro

Em 1989, depois de várias experiências com diferentes soluções, a empresa foi pioneira a introduzir em Portugal as embalagens de plástico em PET, de elevada qualidade, à qual o mercado só aderiu dez anos mais tarde.

 

Em 1995, no âmbito de uma estratégia orientada para o meio ambiente, a empresa renova as suas linhas de vidro, instalando uma nova linha de alta cadência e elevada performance, substituindo simultaneamente todo o seu parque de vasilhame.

 

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2000

A qualidade Carvalhelhos

Em 2000, a empresa implementa o sistema de gestão da qualidade, certificado pela APCER, ao abrigo das normas ISO 9002, tendo sido adaptado à norma ISO 9001 em 2003 e posteriormente atualizado às diversas revisões desta norma internacional.

 

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2002

Comercialização direta em Lisboa

Em 2002 inicializou-se a comercialização dos produtos Carvalhelhos de forma direta em Lisboa, com staff próprio de armazém e de vendedores.

 

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2004

As novas tendências do mercado

Em 2004, a empresa desenvolve um conjunto de produtos inovadores, seguindo as tendências de mercado da época, surge a Carvalhelhos Limão. Estes produtos foram sendo ajustados às expectativas dos consumidores.

 

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2011

Evolução Tecnológica

Em 2011 houve uma nova evolução tecnológica implementando um ERP na gama PHC Enterprise para substituição da plataforma tecnológica existente, com arquitetura e génese de 1989;

 

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2015

100 Anos Carvalhelhos

2015 é o ano de centenário e da nova identidade corporativa da Carvalhelhos – novo logo, logo dos 100 anos e nova imagem dos rótulos.

 

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As nascentes

A Água de Carvalhelhos brota naturalmente na serra do Barroso, na localidade de Carvalhelhos, no Norte de Portugal, na montanha, em meio ambiente preservado. Foi neste local que em meados do Sec. XIX, foram descobertas umas águas com propriedades medicinais. A existência das suas fontes, batizadas de Lucy e Stella, em homenagem às filhas do fundador da empresa, são conhecidas há mais de 150 anos.

 

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Admite-se hoje que as termas das Caldas Santas de Carvalhelhos já fossem conhecidas antes dos romanos, como o comprovou a descoberta, nos anos 50, do Castro de Carvalhelhos ou “Castelo os Mouros”, como também é designado, pelas escavações realizadas por Santos Júnior e pela sua equipa.

 

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A captação da nossa água ocorre nessas duas nascentes tradicionais de água mineral, a 750-800 metros de altitude, mas também em um poço vertical de água mineral, muito acima do nível médio do mar.

 

Principais Características do nosso Aquífero:

 

Composição Geológica: granitos e xistos;

Tipo de Aquífero: fraturado, composto por “blocos” e “fraturas”;

Fluxo de Águas Subterrâneas: profundidade em rochas graníticas fraturadas, provavelmente, também em xistos;

Parâmetros hidráulicos: transmissividade na faixa de 70-100 metros2/dia e permeabilidade média na faixa de 60-70 metros/dia;

Proteção do recurso água: totalmente assegurada por três razões principais: excelentes condições ambientais verificadas em áreas de recarga, circulação e descarga; a companhia é o proprietário dos terrenos envolvidos com as áreas de descarga; não há fontes de contaminação na área, incluindo corpos d’água superficiais.

 

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E chegamos a fim deste post, apenas nos falta deixar por aqui o vídeo com todas as imagens de Carvalhelhos publicadas até hoje no Blog Chaves.

Aqui fica o vídeo, espero que gostem:

 

 

Agora também pode ver este e outros vídeos no nosso MEO KANAL nº 895 607

 

Bibliografia:

CÂMARA MUNICIPAL DE BOTICAS, Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas - Câmara Municipal de Boticas, Boticas, 2006

 

Webgrafia:

http://www.monumentos.gov.pt/site/app_pagesuser/sipa.aspx?id=5987

http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/73697

https://termasdeportugal.pt/rede-termas/santas-de-carvalhelhos

https://carvalhelhos.pt/

http://www.cm-boticas.pt/

 

 

26
Out20

O Barroso aqui tão perto - Beça

Aldeias do Barroso - Concelho de Boticas

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BEÇA - BOTICAS

 

Hoje abrimos uma nova freguesia de Boticas, Beça, e com ela todas as aldeias desta freguesia, pela ordem alfabética, que por coincidência é a aldeia sede de freguesia – Beça.

 

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Vamos então até Beça, aldeia e sede de freguesia, do concelho de Boticas. Beça que à vezes também aparece grafado como Bessa, cujo topónimo é também o nome do rio, Rio Beça, também ele às vezes grafado como Bessa, rio este que atravessa toda a freguesia, vindo da nascente na Serra do Barroso, perto de Sarraquinhos, concelho de Montalegre, um rio todo ele Barrosão que no seu percurso de cerca de 45 quilómetros, passa por Cervos, Beça, Vilar e Canedo indo desaguar na margem direita do Rio Tâmega perto de Ribeira de Pena.

 

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Iniciemos já pela localização de Beça e o melhor itinerário para lá chegarmos a partir da Cidade de Chaves. Pois Beça fica a aproximadamente 6km de Boticas, a partir da qual podemos ir até à aldeia, mas desta vez, vamos tomar a EN103 (estrada Chaves-Braga) mas ao chegarmos a Sapiãos, em vez de virarmos para Boticas, continuamos pela EN103, mas apenas mais 6Km, aí, à esquerda, teremos o desvio para Beça, quase em frente ao desvio para a Serra do Leiranco. Mas fica o nosso mapa como uma pequena ajuda. Ao todo, de Chaves até Beça são 28,8Km.

 

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Logo ao entrámos na estrada em direção a Beça, CM1037, a cerca de 3Km, temos a aldeia de Pinhal Novo, a única aldeia de colonos que Salazar mandou construir no concelho de Boticas, mas integradas nas aldeias dos colonos do Barroso. Aldeia que também faz parte da freguesia de Beça, mas que nós já abordámos em tempo conjuntamente com as restantes aldeias dos colonos do Barroso, numa série de posts em que contámos toda a história ligada a estas aldeias. Embora Pinhal Novo também seja abordado nesta freguesia, fica aqui já adiantado o que dissemos sobre ela nas aldeias dos colonos de Salazar, que alguém com um romantismo sem equivalência real, chamou de “Aldeias Jardim”. 

 

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Mas Pinhal Novo hoje fica só como uma referência na nossa passagem para Beça, que fica logo a seguir, apenas mais meia-dúzia de retas e outras tantas curvas, abre-se a aldeia e o seu vale a descair ligeiramente para a margem esquerda do Rio Beça, mesmo em frente a Carvalhelhos, mas esta, na margem direita do rio.

 

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Pois Beça é um topónimo que já nos soa nos ouvidos há muito tempo, desde miúdo, mas a verdade se diga, já não sei porque. Sei, isso sim, que a primeira vez que lá fui, já foi em visita fotográfica com um grupo alargado de fotógrafos, isto já em 2011, aliás algumas, poucas, das fotos de hoje são desse dia (28-05-2011), as restantes são mais recentes, mas também já lá vão dois anos desde o dia em que as fizemos (1-06-2018).

 

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E ainda bem que fomos por lá segunda vez com a intenção de fotografar, pois da primeira vez apenas nos ficámos pelo largo da igreja, e dado o calor do dia, penso que passamos mais tempo no bar que a fotografar. Fica uma imagem desses momentos, já de 2011, não vão pensar que a fotografia é recente e que que está nela está a confraternizar sem os cuidados que o bicho (Corona vírus ou covid-19) nos exige.

 

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O que dizer sobre a aldeia!?, pois é uma aldeia já com dimensões para se poder considerar uma aldeia grande, não muito grande, mas grande, com um núcleo mais antigo, ainda com muitas construções tradicionais e mais antigas, algumas reconstruções pelo meio feitas com algum gosto na preservação, outras nem tanto, mas o casario novo aparece ao longo de novos arruamentos e da estrada que nos leva até à Carreira da Lebre/Boticas, ou seja, a que nós indicámos para se ir até Beça.

 

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Claro que uma aldeia quanto mais preservada estiver, mais interessante é para quem a visita e para chamar novos visitantes, principalmente agora que o turismo local se recomenda, mas para isso, já há muito que se deveriam tomar as medidas preventivas necessárias, que nem sempre são bem aceites e compreendidas pelas populações locais. Depois também é uma questão de exemplo, principalmente nestas aldeias do Barroso onde o parece bem ou parece mal, ainda se vai tendo em conta, ou seja, se um vizinho restaura uma construção e ficou bem, o seu vizinho tende a fazer o mesmo e a partir de aí, todos lhe vão seguir o exemplo, e ninguém se atreverá a construir um mamarracho novo no meio, pois vai parecer mal… e o que parece mal, é a própria aldeia que critica o “prevaricador”, mesmo que dentro da lei.

 

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Mas sejamos sinceros, os primeiros a prevaricar, muitas das vezes, são as Juntas de Freguesia e a própria autarquia, primeiro pela ausência de medidas preventivas, depois por alguns arranjos, ou construções públicas que não seguem a traça do típico na região, começando logo pelos materiais (novos) que aplicam. Mas não só, também a EDP, a PT e outras empresas de fornecimento e abastecimento de infraestruturas às aldeias, são as que mais as destroem visualmente falando, principalmente a EDP que às cegas coloca postes e armários de eletricidade (plásticos ou coisa parecida) em frente a monumentos, igrejas, capelas, nichos e outros de interesse histórico e turístico, sem o mínimo de respeito pelo que há por perto. Deixo-vos a seguir um exemplo, que até nem é dos piores, pois ali ainda cabia pelo menos mais um post e por cima do armário, uma cabina telefónica daquelas azuis que a PT agora anda a colocar nas aldeias do Barroso, que já as vimos colocadas em fachadas de capelas e dos tradicionais fornos do povo barrosões, aqueles cobertos com lajes de granito. No caso desta foto, são apenas umas alminhas, bem interessantes por sinal e que até são consideradas um dos traços da cultura portuguesa.

 

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Mas isto que tenho vindo a dizer, à exceção do último parágrafo, até nem se aplica a Beça, embora também não esteja livre de alguns, mas já vimos aldeias bem interessantes com atentados que são de bradar aos céus. Mas deixemos as desgraças e passemos às graças, àquilo que Beça tem de interessante e que é de visita obrigatória na aldeia.  

 

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Pois a primeira é mesmo a beleza do conjunto e a harmonia dos campos envolventes, com muito verde no qual o Rio Beça também tem alguma responsabilidade. Campos verdes que se estendem até às aldeias vizinhas mais próximas (Carreira da Lebre e Carvalhelhos). Em segundo lugar punha a vida que esta aldeia ainda tem. Pela certa que também muita gente já a abandonou, é quase inevitável que tal não tenha acontecido, mas a proximidade de Boticas e mesmo à cidade de Chaves, com bons acessos (embora pudessem ser melhores), com certeza que têm a ver com a preservação de alguma dessa vida.   

 

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De interesse também a Igreja da Nossa Senhora da Apresentação e a Igreja de São Bartolomeu, santo que também é o orago da freguesia. A residência paroquial também mereceu a nossa atenção.

 

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A ponte medieval da Pedrinha também é uma referência para a freguesia, mas essa, e outros pontos de interesse da freguesia irão ser tratados nos próximos posts, um deles dedicado à Carreira da Lebre que embora não conste (oficialmente) como uma localidade da freguesia, penso que já tem condições para tal, pelo menos para merecer um post nosso.

 

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E vai sendo tudo. Só nos resta dizer que que no final da abordagem de todas as aldeias da freguesia de Beça, regressaremos novamente a esta aldeia, com o post da freguesia, mas primeiro passarão por aqui todas as aldeias, sendo a próxima, a aldeia de Carvalhelhos.

 

E o vídeo com todas as imagens da aldeia de Beça que foram publicadas até hoje neste blog. Aqui fica:

 

 

Agora também pode ver este e outros vídeos no MEO KANAL Nº 895 607

 

 

04
Out20

O Barroso aqui tão perto - Bobadela

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BOBADELA – BOTICAS

 

E porque hoje é domingo, como vem sendo habitual, com algumas exceções, vamos até ao Barroso aqui tão perto. Ultimamente e até concluirmos, temos andado pelo concelho de Boticas, de freguesia em freguesia, com as suas respetivas aldeias. No último domingo andámos pela freguesia de Ardãos e Bobadela, mais precisamente na aldeia de Ardãos. Hoje vamos até Bobadela, e para o próximo domingo, para concluirmos a freguesia, iremos até Nogueira.

 

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Ardãos e Bobadela é a freguesia localizada mais a norte do concelho de Boticas e faz uma “incursão”, como se tivesse ficada entalada, entre o concelho de Montalegre e o concelho de Chaves, ficando o limite da freguesia bem próximo das aldeias de Meixide (Montalegre) e de Castelões, Calvão, Seara Velha, Soutelo, Noval, Pastoria, Casas Novas e Redondelo, estas todas do concelho de Chaves e a menos de 2Km do limite desta freguesia barrosã, com a Pastoria a menos de 500m de distância.

 

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A par da aldeia de Sapelos, da freguesia de Sapiãos, é também a freguesia que se abre para o vale do Alto Terva, a acompanhar o rio Terva que, em termos de peixe só “dá bogas e às vezes trutas” e só nalguns troços do rio, mas que, desde a ocupação romana,  é conhecida pela riqueza em ouro do seu subsolo, pelo menos os romanos exploram neste vale algumas minas deste metal precisos, construíram uma cidade (Batocas) e fizeram passar por ela importantes vias romanas e/ou importantes ligações à Via Romana XVII, que ligava Bracara (Braga) a Asturica (Astorga), com passagem por Aquae Flaviae (Chaves).

 

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Vista parcial de Bobadela desde a Serra do Leiranco

Vale do Alto Terva onde existe um parque arqueológico, com alguns passadiços, miradouros, vestígios das antigas minas de ouro, como o poço das Freitas, ou vestígio da antiga cidade de Batocas, gravuras, castros, etc. Mas desde já fica um conselho, se não conhece o vale do Terva, não se aventures a ir para lá às cegas, que o mais provável é não encontrar nada ou mesmo perder-se. Em Bobadela, junto à Igreja/cruzeiro, há um posto de informações com muita documentação, mapas, rotas (natura, das vias antigas, das gravuras, das minas, dos castros e das aldeias) e demais informações. Penso mesmo que fazem visitas guiadas ao Parque Arqueológico. Antes de se aventurar por lá sozinho, vá com alguém que conheça ou passe por este posto de informações.

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Como já perceberam esta aldeia de Bobadela é uma aldeia bem próxima da cidade de Chaves mas nada tem a ver com a Bobadela de Monforte de Chaves. Daí que em tempos e ainda hoje, às vezes se referem a ela como Bobadela do Barroso que, para se ir até lá, basta percorrer 19.6 Km, isto a partir da cidade de Chaves, com dois acesso possíveis, mas, curiosamente,  ambos à mesma distância. Um dos acessos é via EN103, estrada de Braga, passando por Curalha, Casas Novas, S.Domingos, Sapelos (já de Boticas) e a seguir a esta aldeia irá atravessar uma ponte sobre o rio Terva onde logo a seguir terá uma saída à direita (M507), por onde terá de percorrer pouco mais de 1Km para chegar a Bobadela (do Barroso). A outra alternativa, é com saída por Casas dos Montes, Valdanta, Soutelo, Seara Velha, Ardãos (já em Boticas), Nogueira e finalmente Bobadela. Nós recomendamos este último itinerário, mas o melhor mesmo, é ir por um itinerário e regressar pelo outro, e aí tanto faz. Fica o nosso mapa.

 

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Bobadela fica encostadinha à Serra do Leiranco, mesmo nas suas faldas, a uma altitude a rondar os 600m, uma serra que embora muitas vezes fique vestida de branco do inverno, protege a aldeia dos ares frios vindos do grande planalto do Larouco e do restante Barroso. É uma aldeia que há muito conhecíamos das nossas inúmeras passagens, mas como sempre vamos dizer, só passar, não nos dá a conhecer a aldeia. É preciso parar, entrar na intimidade da aldeia, demorarmo-nos por lá o tempo que tiver de ser, só assim poderemos ficar com algum conhecimento dela, e esta aldeia, na sua intimidade, surpreendeu-nos pela positiva. Sinceramente gostámos daquilo que vimos e que vamos deixando aqui um pouco em imagem. Uma aldeia limpinha e mesmo sem jardins, é uma aldeia ajardinada, cheia de ruas floridas e gente simpática, com que tivemos oportunidade de conversar e desfrutar das conversas. Penso que nas imagens que hoje vos deixo, são bem ilustrativas destas palavras.

 

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E agora passemos ao que dizem os documentos, aproveitando para a agradecer à Câmara Municipal de Boticas, na pessoa da sua Vereadora da Cultura, o ter-nos disponibilizado os mapas do concelho e muita da informação que vamos deixando por aqui, nomeadamente a que vem nos cadernos de cada freguesia, integrados na monografia “Preservação dos Hábitos Comunitários das Aldeias do Concelho de Boticas”, de onde retirámos toda a informação que deixaremos a seguir.

 

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Ainda antes de passarmos ao que se diz nos documentos, fica o aviso que as informações neles contidos poderá não estar atualizada, nomeadamente no que diz respeito ao número de população residentes e alguns estabelecimentos comerciais e outros nele referidos, pois este documento que vamos transcrever de seguida, é datado de maio de 2006.

 

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A FREGUESIA DE BOBADELA: GEOGRAFIA E PERPECTIVA HISTÓRICA

 

A freguesia de Bobadela situa-se na parte Nordeste do concelho de Boticas. Confronta com várias freguesias: a Norte Ardãos, a Este e a Sul com Sapiãos e a Oeste Cervos, do concelho de Montalegre. Ocupa uma área total de 14,7 Km2, sendo constituída por duas povoações, Bobadela, sede da freguesia, e Nogueira. Dista da sede do concelho aproximadamente 7 km. O acesso viário faz-se se-  guindo pela EN 312 até Sapiãos. Apanha-se, depois, a EN 103 na direcção de Chaves, virando-se onde surge a placa com a indicação de Bobadela e percorrendo a EM 527.

 

As aldeias de Bobadela e Nogueira encontram-se separadas entre si 1 km, aninhadas na base da encosta Este da Serra do Leiranco e protegidas a Oeste pela montanha. Os campos de cultivo estendem-se à sua volta ao longo do vale do Terva, uma zona plana e fértil.

 

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População, Economia e Sociedade

O desenvolvimento da população desta freguesia de Bobadela acompanha o movimento demográfico que caracteriza toda a região de montanha no Norte de Portugal, tipificada por uma diminuição progressiva da população, com uma pirâmide etária invertida, onde os grupos etários mais baixos são diminutos e a população envelhecida aumenta.

 

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Actualmente, tem aproximadamente 354 residentes. Esta freguesia, que à semelhança do que se verifica na generalidade das freguesias do concelho perdeu muita da sua população residente nos últimos 40 anos, é uma das freguesias em que este fenómeno atingiu proporções mais alarmantes, atingindo o valor de 73,5%, sendo que na década de 60 a 70 perdeu mais de metade da sua população. Estes valores são em parte explicados pela intensificação dos fluxos migratórios que se registaram a partir da década de 60, nomeadamente para França, Estados Unidos da América, Suíça e Alemanha.

 

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Esta é também uma das freguesias que apresenta uma maior tendência para envelhecimento da sua população residente, sendo que 72 % dos 311 residentes têm idade superior a 25 anos.

 

Os níveis de alfabetização desta população residente são baixos, acompanhando o seu nível de envelhecimento, sendo que 20% da população residente não tem nenhuma qualificação académica. Esta situação excepcional é suportada pelo elevado número de idosos, alguns deles regressados da emigração, em situação de aposentados.

 

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A área de actividade económica dominante entre a população local é a agricultura e a pecuária, seguindo os caminhos ancestrais da freguesia e visando apenas a subsistência.

 

Algumas famílias continuam a actividade tradicional de criação de gado e produção de batata e centeio, os produtos que melhor se desenvolvem e produzem nesta região de Barroso, com elevados níveis de qualidade e sabor. Também a produção artesanal de mel e fumeiro está em vias de desenvolvimento, funcionando como complementaridade no rendimento das famílias. Parte da população trabalha na construção civil, no pequeno comércio local (cafés e mercearias), em empreendimentos locais como oficinas de mecânica ou a fábrica do fumeiro (Fumeinor) e outros ainda na área dos serviços e indústria em instituições do concelho (Município de Boticas, Santa Casa de Misericórdia de Boticas, Euronete, etc).

 

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No que se refere à sociedade, esta comunidade é caracterizada pela existência de famílias de lavradores, pequenos proprietários de terras onde se desenvolve a actividade agrícola e pecuária e por pequenos empresários e comerciantes. É uma sociedade homogénea com alguns quadros médios que se dedicam à actividade comercial e desenvolvem actividade no ensino e na vida administrativa nas terras vizinhas, designadamente na sede do concelho.

 

Em termos associativos existe na freguesia a Associação Recreativa e Cultural de Bobadela.

 

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Marcas do seu Passado

Não é fácil conhecer a data da origem da maioria das paróquias e freguesias, sendo a sua origem desconhecida no tempo por não haver provas documentais. Umas mais antigas, outras de origem mais recente, sabe-se que a maioria destas aldeias foram formadas a partir do agrupamento de famílias unidas por laços de parentesco ou afinidades económicas e profissionais que se organizaram em comunidade. Muitas das aldeias de Barroso têm a sua origem histórica no movimento de reconquista e povoamento do território iniciado com a formação do Reino de Portugal, em 1143, e posterior fixação de uma ou mais famílias de povoadores. Teve particular desenvolvimento a partir do século XIII. Estes povoadores eram atraídos por contratos de aforamento cujos termos do contrato lhes eram favoráveis e se traduziam em pagamentos pouco relevantes. Estes contratos são conhecidos como o processo de enfiteuse e eram promovidos indistintamente pela Coroa e/ou pelas Casas Nobres e Senhorios Eclesiásticos.

 

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São conhecidos alguns contratos de aforamento para as terras de Barroso que nos permitem pensar que a grande maioria das suas aldeias e povoados tiveram origem neste modo de povoamento[i]. Alguns contratos de aforamento são disso testemunho, como é o caso do aforamento da "Póvoa" de Lavradas, feito no inicio do segundo quartel do século XIV, no tempo do Rei D. Dinis, e que, tudo o indica, está na origem da actual aldeia de Lavradas.

 

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De facto, por este documento fundador de Lavradas verifica-se que foi terra ocupada a partir de uma carta de aforamento passada pelo Rei de Portugal a um conjunto de povoadores que, com suas mulheres, receberam autorização de Sua Majestade para formarem 11 casais (propriedades agrícolas) que deveriam povoar, lavrar e frutificar a troco de um foro (renda), traduzido em dois maravedis e dois alqueires de pão (um de milho outro de centeio) por casal, que deveriam pagar pelo S. Martinho.

 

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Bobadela ou Bobadela de Barroso, como também era conhecida, tem, porém, vestígios que informam a presença de habitantes de época pré-romana. A paróquia de Bobadela já existiria no século XIII, altura em que foi instituída pelo arcebispo de Braga. Foi comenda da ordem de Cristo.

 

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Nos inícios do século XVI, em 1527, aparece já como terra consolidada na sua organização comunitária. No "Numeramento" mandado fazer por D. João III, Bobadela é habitada por 21 moradores e Nogueira 28 moradores, o que dá uma população aproximada de 200 habitantes[ii].

 

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Os Castros de Bobadela

No território da actual freguesia de Bobadela estão identificados dois castros que testemunham a presença humana muito antes da independência de Portugal. O castro de Nogueira, situado entre a serra de Bobadela e Nogueira, perto da ribeira das Lameiras da Serra. Este monumento, embora reduzido a um aglomerado de pedra, restos de suas construções e muralha, é uma marca da antiguidade do povoamento desta freguesia. Outra marca do passado antigo de Bobadela é o castro de Bobadela ou do Brejo. Os vestígios deste são ainda menos expressivos que os de Nogueira.

 

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O Poço das Freitas

O Poço das Freitas, também denominado pelos habitantes locais por Poço do Limarinho, constitui um local de interesse turístico da freguesia de Bobadela. Pela sua peculiaridade e raridade, constitui a maior obra produzida pelo Homem no concelho de Boticas na conquista da exploração do ouro nas minas e no aluvião, da qual resultaram admiráveis cortas e lagoas.

 

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Um Documento de 1758

No ano de 1758 o Rei D. José, através do seu ministro Marquês de Pombal, desenvolveu um inquérito a todas as paróquias do Reino de Portugal continental que hoje se encontram no IAN/TT.

 

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Este inquérito, que foi respondido pelos párocos das freguesias, era composto de três partes: a primeira respeitante à paróquia, onde se tratava de saber da sua história, produções agrícolas, população, instituições locais, igreja e cape-las com suas devoções e romagens; a segunda tratava da serra e das suas características, se tinha lagoas e nascentes, monumentos, capelas, caça e árvores; a terceira perguntava sobre os rios e ribeiros que nela existissem, assim como das levadas, represas, moinhos, pisões e culturas nas suas margens. É graças a este inquérito que se pode obter uma visão mais ou menos completa de como era a freguesia de Bobadela nos meados do século XVIII, como abaixo se pode ver. Esta memória paroquial é particularmente rica de informação, o que nos permite até imaginar como seria a vida desta comunidade paroquial.

 

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É a resposta dada pelo pároco da freguesia de Bobadela, nesse ano o Reitor António Alvares Monteiro, que adiante apresentamos. Para melhor leitura foi actualizado o Português naquelas palavras que consideramos necessário, introduzindo-se-lhe pontuação e parágrafos.

 

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  1. Fica dentro da província de Trás-os-Montes, arcebispado de Braga, comarca de Guimarães, termo da vila de Montalegre, freguesia de São Miguel de Bobadela.
  2. Pertence esta igreja à collação do ordinário deste Arcebispado de Braga.
  3. Tem cento e trinta e nove vizinhos e trezentas e setenta e oito pessoas.
  4. Está situada em campo, dela apenas se avistam a freguesia de Sapiãos e a de Ardãos, com quem parte. Dista de cada uma delas uma meia légua.
  5. O [seu] termo é somente uma légua que parte com as referidas duas freguesias.
  6. A igreja paroquial está no fim deste lugar de Bobadela. Tem somente outro lugar chamado Nogueira.
  7. O orago é São Miguel. [A igreja] tem três altares: o maior de São Miguel; os colaterais, um da Senhora do Rosário e o outro da imagem do Santo Cristo. Não há irmandades.
  8. O pároco é reitor da collação do Ordinário Braga, que renderá cento e quarenta mil reis.
  9. Apresenta a igreja de Ardãos e a de Soutelo, cada uma delas renderá uns cem mil réis. A de São Jorge renderá sessenta mil réis.

 

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  1. Não há conventos.
  2. Não tem hospitais.
  3. Não tem casa de Misericórdia.
  4. Tem três ermidas: uma de São Lourenço que fica por cima deste lugar de Bobadela, a de Santo António que fica dentro do lugar de Nogueira e a de Santa Cruz que fica por baixo do dito lugar de Nogueira; pertencem aos vizinhos que as fabricam.
  5. Não acodem a elas romagens a não ser no dia em que celebram as suas imagens.
  6. Os frutos desta terra são: centeio, milho, vinho, legumes e castanhas.
  7. Tem juiz espadaneo subordinado ao juiz de fora da vila de Montalegre.
  8. Não é couto, nem cabeça de conselho, nem honra ou behtria.
  9. Não há memória que desta terra saíssem alguns homens ilustres, em virtudes, letras ou armas.
  10. Não tem feiras.

 

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  1. Não tem correio, serve-se do correio da vila de Chaves que dista [deste lugar] duas léguas e um quarto.
  2. Dista da cidade de Braga, capital deste Arcebispado, treze léguas, e de Lisboa, capital do Reino, perto de oitenta léguas.
  3. Não tem privilégios, nem antiguidades.
  4. Não há fonte nem lagoa célebre.
  5. Fica distante do mar mais de vinte léguas.
  6. Não é murada.
  7. No terramoto de 1755, caiu apenas uma [costa] da capela mor da igreja que logo se reparou.
  8. Não há coisa alguma digna de memória.

 

1600-bobadela (19)

 

  1. Tem esta freguesia uma serra chamada Leiranco.
  2. Terá uma légua de comprimento e quase outra de largura, principia no Termo de Ardãos e finda no de Sapiãos.
  3. Não tem braços.
  4. Nasce nela um regato e algumas fontes que correm para o nascente.
  5. Não tem povoações de vilas ou lugares.
  6. Não tem fontes de propriedades raras.
  7. Não tem minas de metais, nem canteiras de pedra ou materiais de estimação.
  8. Não tem plantas ou ervas medicinais. Não é cultivada. Só tem lenha de urze e carcheijão.
  9. Não tem mosteiro, nem igreja, romagem nem imagens.
  10. É muito fria por ficar alta e quando neva fica coberta.
  11. Só cria coelhos e algumas perdizes.
  12. Não tem lagoa nem fojo.
  13. Não tem mais nada que seja digno de registo.

 

1600-bobadela (12)

 

  1. Tem um rio chamado Terva que nasce na serra da freguesia de Ardãos e de Calvão.
  2. Nasce com pequena corrente e corre todo o ano.
  3. Não desagua nele nenhum rio.
  4. É rio que não tem barca, só uma ponte que se chama Pedrinha.
  5. Só quando há tempestades é que não se pode passar a vau, o resto do tempo passa-se por ser pequeno.
  6. Corre de norte para sul.
  7. Como é de pouca água só cria algumas bogas.
  8. Não tem pescarias.
  9. Como não as há nele não podem ter senhorio.
  10. Como é pequeno, cultivam-se as terras junto ás margens. Não tem arvoredos.
  11. As suas águas não têm virtudes especiais.
  12. Sempre conserva o mesmo nome.
  13. Desagua no rio Tâmega por baixo da freguesia de Pinho.
  14. Não tem presas nem açudes.
  15. Só tem a ponte de Pedrinha de cantaria no termo deste lugar de Bobadela.
  16. Só tem alguns moinhos.
  17. Não consta que se tirasse ouro das suas áreas.
  18. Os povos usam as suas águas livremente para cultura dos campos.
  19. Terá três léguas donde nasce até onde desagua no rio Tâmega. Passa pela freguesia de Sapiãos, Granja, Eiró e Pinho.
  20. Perto da corrente deste rio, no termo do lugar de Nogueira desta freguesia, onde se chamam as Freitas há uma lagoa e [catas] ao pé dela, dizem que foram minas que os romanos tiraram delas ouro ou prata. E não há mais nada digno de memória nesta freguesia.

 

E por passar na verdade fiz esta que juro in verbo sacerdotis, Bobadela, 10 de Março de 1758, que assinei com os Reverendos párocos mais próximos.

O Reitor António Alvares Monteiro

O Pároco de Santo André de Ardãos Álvares

O Reitor de S. Pedro de Sapiãos Domingos Gonçalves.

 

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E por hoje vai sendo tudo. Hoje não deixamos por aqui algumas imagens de alguns pontos importantes fora da aldeia, como o Poço das Freitas, mas Bobadela e Ardãos ainda virão aqui de novo com o post resumo dedicado à freguesia de Ardãos e Bobadela, e nessa altura teremos aqui mais imagens. Por hoje só nos resta deixar o vídeo resumo com todas as imagens aqui publicadas, ao qual passamos de imediato. Espero que gostem.

 

 

Agora também poderá ver este, e outros vídeos,  no MEO KANAL.

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E quanto a aldeias do Barroso do concelho de Boticas, estaremos aqui de novo no próximo domingo com a aldeia de NOGUEIRA, com a qual encerraremos as aldeias da freguesia de Ardãos e Bobadela.

 

[i] BORRALHEIRO, Rogério, 2005, Montalegre, Memórias e História. Ed. Câmara Municipal de Montalegre. Pp. 80-70.

[ii] Tendo por base o índice de 4 a 5 habitantes por fogo. Arquivo Histórico Português, Vol. VII, nº7, Julho de 1909, p. 272.

 

 

27
Set20

O Barroso aqui tão perto - Ardãos

Aldeias de Barroso - Concelho de Boticas

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O nosso destino de hoje no Barroso aqui tão perto é para a aldeia de Ardãos, uma das aldeias que fica no limite do concelho de Boticas, que confronta com o concelho de Chaves, e que a par da aldeia de Sapelos, são as aldeias de Boticas mais próximas da cidade de Chaves. E com Ardãos iniciamos também hoje um périplo pelas aldeias da freguesia de Ardãos e Bobadela.

 

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Ardãos que já foi pertença do concelho de Chaves. Acontece que o concelho de Boticas foi criado em 1836, recebendo as suas freguesias do concelho de Montalegre. Apenas as freguesias Anelhe e Ardãos transitaram do concelho de Chaves. (Ambas pertenceram anteriormente ao Julgado de Barroso conforme se verifica nas Inquirições afonsinas de 1258 referentes àquele Julgado). Em 1855, Anelhe regressa ao concelho de Chaves, mas Ardãos manteve-se em Boticas.

 

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Esta de Ardãos ter pertencido a Chaves é apenas uma curiosidade do tempo em que os concelhos e freguesias davam origem a novos concelhos e freguesias, ao contrário de hoje em que a tendência é a de unir freguesias, tal como aconteceu na última reorganização administrativa  de 2013 em que Ardãos é de novo protagonista ao ver-se unida à freguesia vizinha de Bobadela, sendo hoje a freguesia de Ardãos e Bobadela do concelho de Boticas, para já, pois cheira-me que mais cedo do que aquilo que se possa pensar, teremos aí uma nova reorganização administrativa envolvendo também concelhos e não apenas freguesias tal como aconteceu em 2013, reorganização feita apenas para “inglês ver”.

 

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Então iniciemos pela localização e itinerário até Ardãos, que por ser tão perto e fácil, até dispensamos o nosso segundo mapa assinalando os pontos de passagem mais importantes. Ardãos fica a apenas 15,1km da cidade de Chaves e o melhor acesso, mais curto e mais rápido para lá chegar é via Seara Velha, saindo de Chaves por Casas dos Montes, Valdanta, Soutelo, Seara Velha e quase logo a seguir, teremos Ardãos. Fica o nosso mapa com a localização.

 

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O quase a seguir do parágrafo anterior tem a ver com uma paragem obrigatória que temos de fazer antes de entrar na aldeia de Ardãos, pois mais ou menos entre Seara Velha e Ardãos temos de visitar o Santuário de N.ª Sr.ª  das Neves, não só pela sua beleza mas também pela paz e harmonia que o local inspira, basta estar lá para se estar bem, pelo menos comigo foi assim. Mas também porque pelo caminho temos outros símbolos, não só religiosos, mas também culturais, por serem traços da cultura portuguesa – alminhas e cruzeiros. Digamos que para quem vai a Ardãos desde Chaves, pelo aperitivo, a aldeia promete.

 

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Depois de se demorar o tempo que tiver a demorar no Santuário de N.ª Sr.ª das Neves, sigamos então para Ardãos. Então logo após retomarmos a estrada entre Seara Velha e Ardãos, a menos de 1,5km teremos de atravessar a ponte sobre o rio Terva, um afluente do rio Tâmega. O rio Terva que nasce no concelho de Chaves, nas proximidades de Calvão, que atravessa o concelho de Boticas e desagua no Tâmega já no concelho de Vila Pouca de Aguiar. Embora passe em três concelhos, é um pequeno rio com uma extensão de apenas  23km, mas o suficiente para, segundo os pescadores especialistas, se pescarem por lá boas trutas, só têm é de ter sorte em encontrar os troços do rio onde as há, e este fenómeno já há muito que é conhecido, pelo menos já era referido nas Memórias Paroquias de 1758… mas sobre este assunto de haver trutas só em alguns troços do rio, nem há como ler um texto que José Carlos Barros deixou neste blog em setembro de 2014, um delicioso e divertido texto sobre as mesmas, fica aqui: As Trutas do rio Terva em 1758  

 

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Atravessado o rio Terva entramos em Ardãos, pois logo a seguir ao rio começam a aparecer as construções mais recentes a anunciar o casco velho da aldeia, por sinal de povoamento bem concentrado, com um largo logo no início da aldeia aonde convergem vários arruamentos da mesma. Mais lá para dentro, quase no centro da aldeia, um outro largo, de menores dimensões, aliás muito mais pequeno, mas onde me parece ser, ou ter sido, o coração da aldeia, pois é nele que está o forno do povo, uma fonte de mergulho um grande tanque bebedouro e um dos dois cruzeiros que vi na aldeia. Um largo bem interessante por sinal.

 

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Foi precisamente neste largo que encontrámos fortuitamente o nosso cicerone para o resto da visita à aldeia, o Sr. Baia Valença, que nos mostrou o resto da aldeia enquanto nos dizia: “- Antes de ter tido duas tromboses, escrevia e lia muito, agora já estou a enrolar, mas eu tenho isto tudo estudado”.  A manhã estava fria, aliás estávamos a meados de janeiro do passado ano de 2018, no tempo daquele frio mesmo frio de cortar, o Sr. Baia, protegia a cabeça com um daqueles bonés com proteção para as orelhas, as mãos eram protegidas com um par de meias de lã, enquanto do seu discurso fluíam ensinamentos sobre o universo, a ecologia e a ciência em geral, contrariando mesmo a Lei de Conservação das Massas do francês Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794), que ficou mundialmente conhecida como a Lei de Lavoisier que vulgarmente aprendemos como “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. No entanto o Sr. Baia Valença deixou-me a pensar com a sua teoria, a sua Lei, muito mais breve que a de Lavoisier em que contraria a sua primeira parte, e eu hoje não sei a quem dar razão, se ao Lavoisier, se ao Sr. Baia ou a ambos, mesmo com uma contradição pelo meio. Pois segundo o Sr. Baia Valença: “ O Sol é como um pai a alimentar a família, é ele que alimenta a vida na terra. Cá em baixo tudo se cria e transforma”.

 

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Ardãos é uma das aldeias que calha muitas vezes nos nossos itinerários do Barroso, por onde passamos amiúde, quer para entrarmos ou sairmos no Barroso, quer venhamos ou vamos para Boticas ou Montalegre, num dos sentidos, fazemo-lo via Ardãos, mas uma coisa é parar e outra é entrar dentro da aldeia, na sua intimidade, pois na passagem apenas nos fica na memória o grande largo da entrada e a restante estrada que não é mais que uma variante à aldeia, que passa à beira dela.

 

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Se entramos na sua intimidade, no seu casco histórico e coração, começamos logo a surpreender-nos, nem o frio daquela manhã de inverno de janeiro, com a temperatura a rondar os zero graus nos fez interromper as conversas e o tomar de fotografias, que segundo o registo das mesmas, foi feito num período que ultrapassou as duas horas, mas valeu a pena, e só temos, também pena, de não podermos deixar aqui todas as imagens, mesmo assim, hoje excedemos um pouco aquilo que vem sendo habitual. E sobre a aldeia e os nossos registos pessoais, nada mais dizemos, passemos agora à documentação, que neste caso de Ardãos e as restantes aldeias localizadas no vale superior do rio Terva, até há, ia dizer em demasia, mas se a informação é de qualidade, nunca é em demasia, digamos antes que há muita, desde teses de mestrado e doutoramento a outros documentos mais antigos, não fosse este vale superior do Terva rico em ouro, onde os romanos exploraram várias minas.

 

1600-ardaos (147)

 

Passemos então à leitura e transcrição de algum do conteúdo de um dos cadernos que a C.M.de Boticas publicou a cada freguesia com a “Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas”, neste caso com o caderno da antiga freguesia de Ardãos.

 

1600-ardaos (32)

 

Saliente-se que a publicação atrás referida é do ano de 2006,  pelo que é natural que alguma da informação esteja desatualizada, nomeadamente no que diz respeito ao número de habitantes, estabelecimentos, associações existentes e outros existentes na altura, pelo que, nalguns casos, entre [ ] deixamos alguns apontamentos nossos.

 

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A freguesia de Ardãos fica na par­te mais a nordeste do concelho de Boticas. Confronta com várias freguesias: a Norte Sarraquinhos e Meixide, ambas do concelho de Monta­legre, a Este Seara Velha e Redondelo, ambas do concelho de Chaves, a Sul Bobadela e Sapiãos e a Oeste Cervos, do concelho de Montalegre. Dista da sede do concelho aproximadamente 10 km. O acesso viário [a partir de Boticas],  faz-se seguindo pela EN 312. Em Sapiãos segue-se pela EN 103 na direcção Chaves. Virando depois em direcção a Bobadela, percorre-se a EM 527 até Ardãos. A aldeia de Ardãos, (…), encontra­-se disposta num vale. Protegida a toda a volta por serras e montes, os seus pas­tos e campos de cultivo estendem-se por uma vasta zona plana e fértil, povoada de várias ribeiras. A [antiga] freguesia [de Ardãos] ocupa uma área total de 22,4 Km2.

 

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O desenvolvimento da população (…) [da antiga] freguesia de Ardãos acompanha o movimento demográfico que caracteriza toda a região de montanha no Norte de Portugal, tipifi­cada por uma diminuição progressiva da população, com uma pirâmide etária in­vertida, onde os grupos etários mais bai­xos são diminutos e a população enve­lhecida aumenta.

 

1600-ardaos (121)

 

Actualmente [em 2006], tem aproximadamente 311 habitantes. Se da década de 60 até á de 70 a população residente não registou grandes oscilações, a partir dos anos 70, esta freguesia, à semelhança do que se verifica na generalidade das freguesias do concelho, perdeu muita da sua população residente, aproximadamente 60%. Este gradual decréscimo da população deve-se essencialmente à intensificação do êxodo populacional que a partir de então se verificou. Muitos foram os que partiram para o estrangeiro, para países como Brasil, Estados Unidos da América, França, Luxemburgo e Suíça, e para outras regiões do país, em busca de melhores condições de vida.

 

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(E)migrar continua a ser uma opção para a popula­ção mais jovem dada a limitação local de ofertas de emprego. Note-se que em 1758 (…) a freguesia de Ardãos tinha 309 pessoas, e em 1796 tinha um aumento aproxima­do de 50%, perfazendo um total de 470 pessoas", mesmo assim muito distante dos valores populacionais de 1960, altura em que atingiu o máximo de população. Depois disso tem vindo a diminuir gradualmente, atingindo valores muito próximos daqueles que Ardãos tinha nos inícios do século XVI, em 1527, cujo nú­mero de moradores cabeça de casal era de 48, o que em habitantes dá um valor aproximado de 200 indivíduos[i].

 

Ardãos é hoje [2006] habitada por uma população marcadamente envelhecida, da qual apenas um quinto tem menos de 25 anos.

 

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Os níveis de alfabetização desta população residente são baixos, acompanhando o seu nível de envelhecimento, destacando-se o número elevado de pessoas sem nenhuma qualificação académica. Esta situação excepcional é suportada pelo elevado número de idosos, alguns deles regressados da emigração, em situação de aposentados.

 

No que se refere à área de actividade, a maior parte da população local continua a dedicar-se à agricultura, essencialmente de subsistência, e á pecuária. Alguns trabalham na construção civil e no pequeno comércio e outros na área dos serviços em instituições do concelho (Município de Boticas, Santa Casa da Misericórdia de Boticas, etc.) e nos concelhos vizinhos, especialmente em Chaves.

 

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Na aldeia há um café e mini mercado com um pequeno salão de jogos onde os mais jovens se distraem. A sede da Junta de Freguesia também tem um bar que está a ser explorado pela Associação Recreativa e Cultural de Ardãos e abre aos Sábados à tarde e Domingos para os sócios. Além do bar, o edifício possui também um salão que pode ser utilizado pela população para os mais diversos fins. Nas horas de ócio e sempre que o tempo permite vêem-se pessoas nos largos da aldeia a conversar.

 

Em termos associativos, em Ardãos existe a Associação Recreativa e Cultural de Ardãos e um Agrupamento de Escuteiros do Corpo Nacional de Escutas, Agrupamento 1196 — Ardãos.

 

No primeiro sábado de cada mês realiza-se uma feira na aldeia.

 

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MARCAS DO PASSADO

Não é fácil conhecer o dia primeiro da origem da maioria das paróquias e freguesias. Excluindo uma ou outra que vem identificada nos documentos antigos, a maioria das aldeias têm origem desconhecida no tempo. Umas mais antigas, outras de origem mais recente, sabe-se que a maioria destas aldeias são formadas a partir do agrupamento de famílias unidas por laços de parentesco ou afinidades económicas e profissionais que se organizaram em comunidade. Muitas das aldeias de Barroso têm a sua origem histórica no movimento de reconquista e povoamento do território iniciado com a formação do Reino de Portugal em 1143 e posterior fixação de uma ou mais famílias de povoadores.

 

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Teve particular desenvolvimento a partir do século XIII. Estes povoadores eram atraídos por contratos de aforamento de terras incultas que se comprometiam a trabalhar e a fazer produzir, assim como a povoar e defender. Em troca pagavam o foro em géneros produzidos na terra: cereal, galinhas, ovos, carneiros, peças de porco. Estes contratos são conhecidos como o processo de enfiteuse e eram promovidos indistintamente pela Coroa e/ou pelas Casas Nobres e Senhorios Eclesiásticos. Em Ardãos já a presença humana se fazia sentir no tempo da ocupação romana, muitos séculos antes da fundação de Portugal. Não podemos é afirmar a existência de uma povoação organizada. Pelo menos os vestígios arqueológicos indicam que foi couto mineiro dos romanos, que estes exploraram a céu aberto, como o testemunham as lagoas antigas que ai existiam e sempre se afirmou serem feitas para exploração de metal no tempo dos romanos[ii]. Entretanto, com as invasões dos povos germânicos grande parte destas terras estavam desertas, vindo a ser ocupadas pelos portugueses, então liderados pelos reis da primeira dinastia, através de movimentos de povoamento.

 

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São conhecidos alguns contratos de enfiteuse para as terras de Barroso, que nos permitem pensar que a grande maioria das suas aldeias e povoados tiveram origem neste modo de povoamento[iii]. Alguns contratos de aforamento são disso testemunho, como é o caso do aforamento da "Póvoa" de Lavradas, feito nos finais do século XIII (1288 da era cristã), no tempo do Rei D. Dinis e que, tudo o indica, está na origem da actual aldeia de Lavradas".

 

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De facto, por este documento fundador de Lavradas verifica-se que foi terra ocupada, a partir de uma carta de aforamento passada pelo Rei de Portugal, por um conjunto de povoadores que, com suas mulheres, receberam autorização de Sua Majestade para formarem 11 casais (propriedades agrícolas) que deveriam povoar, lavrar e frutificar a troco de um foro (renda) traduzido em dois maravedis e dois alqueires de pão (um de milho outro de centeio) por casal, que deveriam pagar pelo S. Martinho. A freguesia de Ardãos terá tido a sua origem neste movimento povoador. Em 1527 aparece já bem consolidada no "Numeramento" mandado fazer por D. João III, com uma população composta por 48 moradores ou cabeças de casal que daria um número aproximado de 200 habitantes.

 

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OS CASTROS DE ARDÃOS

No território da freguesia de Ardãos encontram-se identificados variados vestígios de povoados fortificados, localizados nos montes à volta da aldeia. Os principais vestígios castrejos identificados são: o Castro de Malhó, o Castro da Gorda e o Castro do Muro ou Cunhas. Existem também no termo desta freguesia os vestígios da cidade de Batocas e as respectivas minas, onde em tempos idos se fazia exploração mineira.

 

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UM DOCUMENTO DE 1758

No ano de 1758, o Rei D. José, através do seu ministro Marquês de Pombal, desenvolveu um inquérito a todas as paróquias do Reino de Portugal continental que hoje se encontram no IAN/TT.

 

Este inquérito, que foi respondido pelos párocos das freguesias, era composto de três partes: a primeira respeitante à paróquia onde se tratava de saber da sua história, produções agrícolas, população, instituições locais, igreja e capelas com suas devoções e romagens; a segunda tratava da serra e das suas características, se tinha lagoas e nascentes, monumentos, capelas, caça e árvores e a terceira perguntava sobre os rios e ribeiros que nela existissem, assim como das levadas, represas, moinhos, pisões e culturas nas suas margens.

 

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É graças a este inquérito que se pode obter uma visão mais ou menos completa de como era a freguesia de Ardãos nos meados do século XVIII como abaixo se pode ver. Estas memórias paroquiais são particularmente ricas em informação, o que nos permite até imaginar como seria a vida desta comunidade paroquial. É a resposta dada pelo pároco da freguesia de Ardãos, nesse ano o padre Miguel Álvares, que adiante apresentamos. Para melhor leitura foi actualizado o Português naquelas palavras que consideramos necessário, introduzindo-se-lhe pontuação e parágrafos.

 

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Miguel Álvares, pároco nesta igreja de Santo André de Ardãos, comarca de Chaves, Arcebispado de Braga Primaz, recebi uma ordem do muito Reverendo Senhor Doutor Vigário Geral desta comarca para informar o que se pede nos interrogatórios seguintes:

 

  1. Este lugar de Ardãos pertence à província de Guimarães, Arcebispado de Braga, termo e comarca de Chaves, freguesia de Santo André.
  2. É Comenda do Almotacé mor, o senhor dela no presente.
  3. Tem esta freguesia noventa e um vizinhos, pessoas que comungam trezentas e nove e menores que não comungam quarenta e nove.
  1. Está este lugar situado num baixo, num vale. Está rodeado de serra a norte, a nascente e a poente. Deste lugar somente se avistam os lugares de Nogueira, Bobadela e Sapelos, distantes deste lugar a meia légua.
  2. Tem termo seu e não tem mais lugares nem aldeias. Os noventa e um vizinhos [vivem] todos juntos num só lugar e aldeia.
  3. A igreja paroquial está junto à residência do pároco e dos vizinhos do lugar. Não tem mais lugares ou aldeias.
  4. É orago desta igreja Santo André, tem três altares: um da capela-mor da igreja com a imagem de Santo André e da Nossa Senhora do Amparo: outro do Santo Cristo com a imagem do Senhor Crucificado e outra imagem de São Sebastião; e o terceiro altar é do Menino Deus com a sua imagem e um painel das Almas. Não tem irmandades algumas nem naves.
  5. É o pároco desta freguesia vigário colado apresentação do Reitor de São Miguel de Bobadela. Rende de um ano para o outro noventa mil reis, e os frutos para o Comendador quatrocentos e cinquenta mil reis pouco mais ou menos.
  6. Não tem beneficiados nem renda para eles nem quem os apresente.

 

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  1. Não tem conventos de religiosos ou religiosas, nem quem os apresente.
  2. Não há hospital, nem quem o administre, nem renda para ele.
  3. Não tem casa de Misericórdia, nem quem a administre, nem renda para ela.
  4. Tem duas ermidas, uma de S. Roque junto a este lugar e a outra de Nossa Senhora das Neves, no sitio da Ribeira, distante deste lugar meia légua. Fabricam-nas os fregueses deste lugar.
  5. Não acodem a elas romarias, somente, alguns sábados, vão alguns devotos à Nossa Senhora das Neves, e não são sempre uns e também nos seus dias.
  6. Os frutos comuns são na maior parte centeio, vinho ordinário, milho mediano, pouco trigo, castanha, feijão, hortas de couves, cebolas e alfaces em proporção.
  7. Tem juiz espadano, que está sob a alçada do juiz de fora e da Câmara da vila de Chaves. Não tem Câmara.
  8. Não é couto, nem cabeça de conselho, nem honra ou behtria.
  9. Não há memória que houvesse neste lugar, ou daqui saíssem homens ilustres, em virtudes, letras ou armas.
  10. Não tem nenhum dia, nem tempo determinado para feiras francas ou cativas.
  11. Não tem correio, vale-se do da vila de Chaves, que dista deste lugar 2 léguas.
  12. Este lugar dista da cidade capital de Braga catorze léguas, e da capital do Reino, Lisboa, setenta e cinco léguas, mais ou menos.
  13. Este lugar não tem privilégios, nem antiguidades, nem outras coisas dignas de memória.
  14. Não há no termo desta freguesia nenhuma fonte especial. Somente algumas fontes de água comum que nascem no povo, servem para alimento dos racionais, e outras fontelas e regatos que servem para os irracionais e se juntam à Ribeira do Brão.
  15. Não há porto marítimo.
  16. Não é praça de armas, nem tem fortalezas, nem mesmo castelos nem torres.
  17. Não sofreu nenhuma destruição no terramoto de 1755.
  18. Há nos limites desta freguesia quatro muralhas em ruínas que dizem ter sido antigamente fortalezas dos romanos. Um chama-se o muro da Murada, outro o muro do Malho, outro o muro de Cunhas e outro o muro da Ribeira. Há também umas concavidades em dois sítios, uma chama-se das Batocas e a outra das Freitas, que terão sido, antigamente, minas dos Mouros, mas não me consta que nelas se tenha achado ouro, nem prata, nem que para isso se fizesse alguma diligência. Há nestas concavidades umas lagoas de água que nunca secam e têm pouca correnteza para fora em lançar água comum.

 

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Serra

  1. Há uma serra que no meio se chama o Pindo.
  2. Tem duas léguas de comprido e meia de largo. Principia no termo do lugar de Meixide e acaba no lugar das Quintas.
  3. Os nomes dela são: as Palhaças, Fosqueira, Chão de Lexandre, Chão de João Diz [Roca] de Covas, Piomeiras, Murada, Pindo, Penices e Leiranco.
  4. Nascem nela regatos, uns secam no Verão, outros não. Não são propriedade de ninguém, nascem para o Nascente, correm para Sul e terminam no Tâmega. Este no Douro e antes forma-se um rio que se chama Terva.

 

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  1. Não há nele vilas nem ao redor. Há da parte do Nascente este Ardãos, o lugar de Nogueira, Bobadela, Sapiãos, Eiró, Boticas e Quintas, e para o poente há Cervos, Arcos, Antigo, Pedrário e no norte Meixide.
  2. Não consta que haja fontes com propriedades medicinais na dita serra.
  3. Não tem minas de metais alguns, nem canteiras de pedra, nem de outras matérias.
  4. Não consta que tenha ervas medicinais. Só lenhas como torgos e urzes, carquejas, giestas, carvalhos, ervedeiros, estevas, estevais e queirogas.
  5. Não há nela mosteiros, nem capelas nem imagens milagrosas que se saiba.
  6. A sua temperatura é mediana, às vezes tem neve. Para a parte nascente é favorável e para a do poente é fria.
  7. Criam-se nela lobos, raposas, gatos a que chamam Algaria, coelhos, perdizes, gadunhas e umas aves a que chamam bufos.
  8. Não tem lagoa nem fojos.

Não sei mais nada desta serra que seja digno de memória.

 

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Rios

  1. Rio de Ribeira de Brão nasce de diversos regatos pela serra acima.
  2. Não nasce caudaloso, porém corre todo o ano.
  3. Juntam-se-lhe outros regatos de Nogueira e Bobadela logo abaixo desta freguesia.
  4. Não é navegável, nem apropriado para embarcações.
  5. Corre com curso mediano.
  6. Corre de norte para sul.
  7. Cria umas bogas e quando há enchentes encontram-se algumas trutas.
  8. Não há nele pescarias, não há peixes senão bogas.
  9. Como não há pescarias também, não há senhor delas.
  10. Cultivam-se as suas margens e não tem arvoredos.
  11. Não têm virtudes especiais as águas.

 

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  1. Não conserva [sempre] o nome de Ribeira de Brão, logo abaixo junta-se outro regato no sítio de Sapelos que vem de Calvão e ali principia a ter o nome de rio Terva. Não há memória que tivesse outro nome.
  2. Desagua no rio Tâmega, entra nele no sítio da Seixa.
  3. Como não é navegável não tem açudes nem cachoeiras que o contenham.
  4. Tem uma ponte de três arcos entre Sapelos e Sapiãos, na estrada de Braga para Chaves ou de Chaves para Braga, por se não poder passar a vão em enchentes.
  5. Tem alguns moinhos onde somente no Inverno se pode moer. Não tem pisões, nem noras nem outros engenhos.
  6. Não consta que em tempo algum se tirasse dele ouro, nem outro metal.
  7. Os povos usam as suas águas livremente para cultura dos seus campos.
  8. Desta freguesia até ao Tâmega, onde termina, serão duas léguas. Passa pelo termo de Bobadela, Sapelos, Sapiãos e Granja.
  9. Não sei mais coisas que possa declarar mais do que o referido nos interrogatórios. E por ser verdade passei esta que assino com os párocos mais vizinhos. Ardãos, 12 de Março de 1758. I juro in verbo sacerdotis.

O Pároco de Santo André de Ardãos Miguel Álvares.

O Reitor de Bobadela António Alves Monteiro

O Cura de S. Tiago de Seara Velha

O padre Francisco Alves

 

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Depois deste longo post, mas, ou bem que se fala da aldeia ou não, e muita coisa fica por dizer, passamos ao vídeo final com todas as imagens hoje aqui publicadas. Vídeo que também pode ser visto no MEO KANAL no nº 895607

 

Fica o vídeo, espero que gostem:

 

BIBLIOGRAFIA

CÂMARA MUNICIPAL DE BOTICAS, Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de BoticasFreguesia de Ardãos - Câmara Municipal de Boticas, Boticas, 2006

 

WEBGRAFIA

http://www.cm-boticas.pt/

 

 

[i] MENDES, José Maria Amado, 1995, Trás-os-Montes nos fins do século XVili, 2' ed., FCG/JNICT, Lisboa.

[ii] LEAL, Augusto Pinho, 1874, Portugal Antigo e Moderno, Vol. I, Lisboa, Livraria Ed. de Mattos Moreira,

[iii] BORRALHEIRO, Rogério, 2005, Montalegre, Memánas e História, Ed. Câmara Municipal de Montalegre: pp. 80-87.

 

 

 

06
Set20

O Barroso aqui tão perto - Virtelo

Aldeias do Concelho de Boticas

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O nosso destino de hoje é Virtelo, mais uma aldeia barrosã do concelho de Boticas e da união de freguesias de Alturas do Barroso e Cerdedo.

 

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Virtelo é uma aldeia do limite do concelho de Boticas que fica mesmo na raia com o concelho de Montalegre, tendo como aldeias mais próximas Pomar da Rainha a 1700m e Salto a 2 300m, as duas de Montalegre, e quase à mesma distância de Salto, mas em direção contrária, a aldeia de Cerdedo, esta de Boticas que em conjunto com as Alturas do Barroso dão nome a atual freguesia.

 

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Localizada a cerca dos 1 000 metros de altitude, nos sopés/encontro de montanhas, onde se forma uma pequena veiga fértil e verde a contrastar com o agreste das montanhas que a rodeiam.

 

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É também mais uma das aldeias servida pela E311, aliás a última aldeia do concelho de Boticas a ser servida por esta estrada, que logo a seguir entra no concelho de Montalegre e continua para o concelho de Cabeceiras de Basto…

 

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Assim, o nosso itinerário para lá chegar a partir de Chaves, vem a ser aquele que é mais habitual para as restantes aldeias de Boticas, ou seja, tomamos a EN103 (estrada de Braga) até Sapiãos, aí desviamos para Boticas, passamos esta última e entramos na E311 em direção a Ribeira de Pena, Cabeceiras de Basto e Salto. Seguimos sempre pela E311 até passarmos a aldeia de Cerdedo, logo a seguir, meia dúzia de curvas à frente, como quem diz a cerca de 2,5Km, temos à esquerda o desvio para Virtelo.

 

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Virtelo é uma aldeia pequena, penso ser mesmo a mais pequena do concelho de Boticas, onde se destaca uma grande casa agrícola, suponho que em tempos seria a única que existia, hoje convertida também em casa de Turismo Rural. Além deste conjunto da grande casa agrícola (casa mais respetivos anexos), existem mais duas moradias de construção mais recente, uma pequena capela (recente – 1989), dois ou três armazéns e pequenas construções já fora do núcleo e dispersas.

 

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A maior parte dos terrenos da pequena veiga são ocupados com pastagens, os mais próximos da aldeia, com outras culturas, principalmente o milho, onde também há árvores de fruto e videiras, mas tudo isto é mesmo numa pequena faixa de terreno, pois logo a seguir a montanha começa a subir e aí, só mesmo rochas, penedos em quantidade e entre o rochedo a habitual vegetação rasteira das terras mais altas, pequenas urzes (ou torgas se preferir), carqueja, etc. Apenas uma das montanhas, a que se encontra entre Virtelo e Cerdedo, é que tem alguma floresta de pinheiros. Mais próximo da aldeia, aí aparecem algumas espécies autóctones variadas, sobretudo junto às linhas de água e divisórias dos terrenos.

 

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Quanto a Virtelo, o topónimo, curiosamente é um nome que já ouvia em criança em Montalegre, mas penso que era o nome ou alcunha de uma pessoa, e não da aldeia de Boticas, quem sabe, se calha, às tantas, essa pessoa não seria desta aldeia. Mas não perdendo o fio à meada, a aldeia de Virtelo só a conheci em outubro de 2017, na única vez que fui lá para fazer o levantamento fotográfico para o post de hoje.

 

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Seria agora altura de passar àquilo que encontrámos em documentos e na monografia de Boticas sobre Virtelo, mas para além de uma referência à Capela de N. Sr.ª da Ajuda e outra à “Casa de Paula” de turismo rural, nada mais encontrei. Quanto à capela, penso que será a que está à entrada da aldeia, pois outra não vi por lá.

 

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Bem queria deixar aqui mais algumas palavras sobre a aldeia, mas não encontrei mais referencias sobre ela. Assim, e como (pelo menos) temos ainda mais algumas imagens para mostrar, vamos passar aos temas de Barroso, que são, ou melhor, eram, comuns e habituais em todas as aldeias do Barroso. Ficam alguns exemplos de comunitarismo agrário, que hoje em dia já caíram em desuso ou raramente se praticam ou mesmo já não existem, tal como o boi do povo. Vezeiras ainda conheço, pelo menos, a de Santo André, em Montalegre. Os fornos do povo ainda se vão usando ocasionalmente em algumas aldeias, longe das 24 horas por dia como antigamente acontecia na maioria das aldeias. Penso que, o que ainda se vai praticando entre os resistentes que ficaram, é o da entreajuda.

 

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Exemplos de Comunitarismo Agrário

Os Baldios - Propriedade comunal, localizados na parte mais distante e montanhosa, desempenham um papel muito importante para a economia aldeã. “Embora ocupando de longe a maior parte das terras mais altas e pobres da aldeia, a importância primordial dos baldios reside nas suas enormes extensões de urzes, mato e outros arbustos selvagens fundamentais para a pastorícia e para as actividades agrícolas. Os direitos comuns dos baldios são permanentes e ilimitados.” (O’Neill, 1984:67)”. Considerando que estas populações dependem das actividades agro-pastoris e dada a limitação, quer em termos de área, quer em termos produtivos das propriedades particulares, os baldios sempre desempenharam um papel muito importante na sobrevivência dos agregados domésticos. Enquanto terrenos comunais – logradouros comuns - são passíveis de serem utilizados de diversas maneiras como: área de pastagem para o pastoreio do gado ovino e caprino ao longo do ano e do gado bovino no Inverno; área de recolha de lenha e de matos (carqueja, giesta, tojo, urze, etc.). Algumas parcelas destes terrenos, as cavadas, também eram exploradas individualmente pelos aldeãos mais pobres, muitas vezes sem qualquer outro recurso fundiário para cultivo, de forma a mitigar um pouco a sua pobreza e garantir recursos mínimos de Exemplos de Comunitarismo Agrário subsistência.

 

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O Regadio Colectivo - A água de rega é um bem precioso e limitado. Há dois tipos de rega: a rega de Inverno e a rega de Verão, ou, como Orlando Ribeiro (1998) lhe chamou, a rega da abundância (destina-se a intensificar a produção, mas na realidade podia dispensar-se) e a rega da carência (que se destina a corrigir as condições do clima e sem a qual não era possível produzir).

 

A água para a rega é encaminhada das nascentes através de regos ou canais de rega até aos tanques (poças) sendo depois distribuída pelos terrenos segundo regras ancestrais bem definidas (aviação). De forma a evitar desperdícios da água de rega, o seu sistema de rotação era feito, geralmente, de acordo com a ordem dos terrenos. Os direitos de rega são transmitidos de geração em geração através da tradição oral. Por vezes acontece proceder-se ao seu registo escrito (rol).

 

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Os caminhos – espaço comunal utilizado para deslocação. O seu arranjo e manutenção era responsabilidade dos habitantes da aldeia. Assim, era convocado o ajuntamento do povo para o arranjo dos caminhos.

 

As Lamas / Lameiras do Povo ou do Boi – em grande parte das aldeias o Boi do Povo tinha as suas  próprias lamas / lameiras que garantiam parte da sua alimentação (erva e feno). Para além destes bens, em alguns sítios o boi do povo tinha também cortes epalheiros próprios.

 

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O Forno do Povo – propriedade colectiva da aldeia, edifício térreo, coberto de colmo, era o café dos pobres. A sua utilização estava sujeita a regras próprias, como a obrigatoriedade de quentar o forno. Para além disso era um espaço de convívio.

 

Os Moinhos – Em algumas aldeias havia o moinho do povo, propriedade comum dos habitantes da aldeia, onde quem precisasse ia moer os cereais (centeio e milho).

 

Associados a estes bens e equipamentos comunitários andam os trabalhos comunitários que também se denominam por hábitos comunitários. Muitos destes trabalhos extinguiram-se ou estão em vias de desaparecimento por força da alteração do modelo de produção agrícola e das mudanças do modelo demográfico. De facto, a redução da mão-de-obra e a mecanização da agricultura alteraram drasticamente os modos de vida agrícola nestas aldeias rurais de Barroso. Muitos dos trabalhos comunitários como a segada e a malhada do centeio, as sachas colectivas dos batatais, o arranjo dos caminhos e a condução de águas deixaram de ter sentido. A segada e a malhada passaram a fazer-se através de meios mecânicos, dispensando os ranchos de homens e mulheres e reduzindo o hábito da entreajuda e torna jeira. A produção agrícola da batata foi drasticamente reduzida, o boi do povo tende a ser substituído pela inseminação artificial num combate e redução das doenças transmissíveis e na tentativa do apuramento da raça, e os trabalhos de conservação dos caminhos e condução de águas, entre outros, têm vindo a ser assumidos pelas autoridades autárquicas (municipais e da freguesia) no âmbito das suas competências. Permanecem porém alguns, por interesse efectivo das populações ou recusa de perda de gestos, usos e costumes que se pretendem conservar e manter sobretudo como marca etnográfica e elemento de atracção de turistas e apaixonados pelos hábitos e tradições destas comunidades da terra barrosã. É o caso da vezeira, do Boi do Povo, da limpeza de levadas, regos e nascentes.

 

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Os Trabalhos Comunitários - A expressão trabalhos comunitários, “…compreende todas as tarefas que beneficiam a comunidade ou que se referem aos bens de propriedade comum, e para os quais se torna indispensável a organização de grandes grupos de trabalho.”(O’Neill,1984:160). Os principais eram a limpeza dos caminhos, do regadio, manutenção dos moinhos e do forno do povo. Os trabalhos nos caminhos realizavam-se durante o Inverno, geralmente aos sábados, quando havia mais bagar, o regadio era limpo, uma vez antes do início da época de rega, procedendo-se à limpeza e ao arranjo dos regos e das poças. Estes trabalhos faziam-se através dos ajuntamentos do povo, geralmente no largo da igreja à saída da missa, o regedor ou o cabo de ordens dava as ordes relativas à comunidade ou às coisas comunais. Tocava-se o sino da igreja e um elemento de cada agregado familiar comparecia ao ajunto.

 

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A Entreajuda - A entreajuda ocorria essencialmente na altura do pico dos trabalhos agrícolas: sementeiras, ceifa (segada) do feno e do centeio, malhadas, arranque das batatas, desfolhada do milho, vindimas, etc. As pessoas trocavam trabalho ou outros tipos de ajuda de forma a assegurar força de trabalho ou apoio perante uma situação semelhante. Além da troca de trabalho, há outras formas de troca como a cedência de animais, concessão de favores ou comida.

 

O Boi do Povo – Propriedade colectiva dos lavradores da aldeia que garantiam a sua alimentação e manutenção de acordo com o número de vacas que tinham. A sua função era essencialmente a reprodução. Acontecia por vezes fazerem chegas com os bois das aldeias vizinhas.

 

A Vezeira - rebanho comum de gado da mesma espécie, pertencente a várias pessoas da mesma povoação. Era pastoreada nas zonas de pasto comum – baldio – ou nas terras de restolho, à vez por cada uma das pessoas de acordo com o número de cabeças de gado que tivessem, ou entre todos pagavam a um pastor para ir com a vezeira.

 

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E por último, tal como vem sendo habitual,  deixamos o vídeo com todas as imagens da aldeia das Virtelo que foram publicadas no post de hoje. Espero que gostem.

 

 

E quanto a aldeias de Boticas, despedimo-nos até ao próximo domingo. Uma vez que Virtelo foi a última aldeia que abordámos da União de Freguesias de Alturas do Barroso e Cerdedo, a próxima publicação não será sobre uma aldeia, mas sim sobre o conjunto da freguesia.

 

 

BIBLIOGRAFIA

CÂMARA MUNICIPAL DE BOTICAS, Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas - Câmara Municipal de Boticas, Boticas, 2006

 

WEBGRAFIA

http://www.cm-boticas.pt/

 

16
Ago20

O Barroso aqui tão perto - Vilarinho Seco

Aldeias do Barroso do Concelho de Boticas

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Vilarinho Seco

 

Hoje é a vez de Vilarinho Seco vir a este blog, e para nós, com uma responsabilidade acrescida, isto porque Vilarinho Seco é uma das aldeias de visita obrigatória no Barroso, e a nossa responsabilidade é aqui acrescida porque temos de estar à altura de mostrar o porquê de ser de visita obrigatória.

 

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Ora poderia apresentar várias razões para a obrigatoriedade de uma visita a esta aldeia, poderia dizer como Miguel Torga ao respeito do Reino Maravilhoso “Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecíveis”, mas não vamos por aí, mesmo porque estas palavras de Torga se aplicam a todas as aldeias de Barroso e ao Reino Maravilhoso de Trás-os-Montes.

 

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Vilarinho Seco é de visita obrigatória pelas suas singularidades, pelos seus pormenores, pela sua vida e tradições, pela gastronomia, pela diferença e pela sua localização, mesmo no meio do Barroso e relativamente distante dos itinerários das estradas principais. É uma daquelas aldeias que se pode apresentar como uma aldeia típica do Barroso. Pois foi assim, que aos poucos, me foram descrevendo Vilarinho Seco ao longo dos tempos, o que ia aumentando a ansiedade de a conhecer.

 

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Irmos para uma terra desconhecida, rotulada com os melhores predicados, tem o seu risco, pois no nosso imaginário costumamos aumentar as expectativas para aquilo que nos espera, e muitas vezes ficamos desiludidos com o que encontramos no destino. É um bocado como quando marcamos férias para terras distantes, em que as fotografias do hotel e da envolvência são paradisíacas e quando lá chegamos vemos como as fotografias são enganosas, como transformam um deserto num oásis e sentimo-nos aldrabados…

 

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Pois eu por aqui não quero aldrabar ninguém, mas uma coisa vos digo, depois de todas as expectativas dilatadas pelo meu imaginário, quando fui pela primeira vez a Vilarinho Seco, fiquei surpreendido, pela positiva, pois o meu imaginário e espectativas tinham ficado aquém da realidade, mas atenção, e recorro novamente às palavras de Miguel Torga para esta chamada de atenção: “Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração”.

 

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Claro que se é dos que detesta o interior, as aldeias e o mundo rural, então não vá a Vilarinho Seco, vai detestar ver o gado na rua, enojar-se ao ver que fazem as necessidades em cima da calçada, ruas de casas antigas e velhas todas de pedra e à vista escurecida pelo tempo, e as pessoas que, principalmente em dias escuros e cinzentos de inverno, muito frios que até fazem congelar os tin-tins, com ou neve, saem à rua cobertas com capas esquisitas, todas iguais, de uma lã castanha escura prensada, tosca e áspera que até faz arrepiar, pastagens por todo o lado, e se lançar o olhar para o horizonte, só vê montanhas e mais montanhas, adornadas em primeiro plano por giestas que dá uma flor que cheira mal e pedregulhos, que aqui pela sua dimensão são autênticos penedos… tudo um horror, que dá para qualquer um ficar deprimido p´raí um ano inteiro ou mais… Pois se é desses, é melhor ficar em casa sentado no sofá ou ir dar uma volta pelo centro comercial mais próximo, que esses são sempre interessantes, cheios de luz e cor, com gente perfumada que veste bem…

 

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Ainda para os que detestam aldeias e o mundo rural, fica ainda outro aviso, se enganados caírem no Barroso, nunca caiam na asneira de comer num restaurante, tal como o que existe em Vilarinho Seco, por exemplo, pois esta gente a comer são mesmo alarves, principalmente nos cozidos à barrosã. Esta gente como o reco todo, ou quase, só deita fora as unhas, o pelo e os olhos, o resto vai tudo para o pote, incluindo as tripas do reco, que depois de lavadas as enchem com bocados de carne crua e uns temperos que só eles sabem, poem-nas a secar à lareira com muito fumo, daquele que se entranha na roupa e que nem os melhores perfumes das melhores perfumarias de Paris lhe conseguem retirar ou disfarçar o odor, mas voltando à tripa com carne crua dentro, que depois de passar 15 dias ou um mês ao fumo, a cortam aos pedaços e a comem assim mesmo – crua com um bocado de pão. Um horror. Mas nos cozidos vem de tudo o que o reco tem, as patas, o rabo, as orelhas, o focinho as tripas com carne dentro e a acompanhar, batatas e couves das terras à volta da aldeia, que antes de as plantarem ou semearem, enchem as terras de estrume , para dar outro sabor à batata e à couve.

 

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Enfim! Mas se não é desses esquisitos da cidade ou que, embora não sendo da cidade foram lá parar e já nem sabem o que é um reco (estes pseudo-citadinos são os piores, fazem figura nos restaurante de comida gourmet e ao chegarem a casa, para matar a fome que não saciaram no restaurante, atiram-se a um pedaço de chouriça com pão da encomenda que lhe enviaram da aldeia). Mas ia dizendo, se não é desses esquisitos citadinos, se é dos bôs, então, não deixe de ir a Vilarinho Seco, pois é de visita obrigatória da qual não se arrependerá, e depois, nunca ficará a conhecer o Barroso em todo o seu ser, se não conhecer estas aldeias de referência barrosão, e Vilarinho Seco é uma delas. Ah!, e se for por lá no inverno, não deixe de comer um dos cozidos que descrevi atrás, em que comem o reco todo. Os de Vilarinho Seco dizem ser dos melhores, e se forem lá, não perguntem ou procurem pelo restaurante de Vilarinho Seco, perguntem antes pela casa do Pedro, pois é na casa dele que se come um bom cozido, isto segundo me dizem, pois nunca lá comi, mas acredito que sim, pois no mínimo será igual ou parecido a outros cozidos à barrosã que eu tenho comido por lá, e o melhor, não paga nada por entrar, só paga à saída depois de comer… Se está mesmo a pensar ir lá comer um cozido, na sua época, durante o inverno, convém marcar antes, pois pelo Barroso, nestas casas conhecidas pela sua gastronomia, só marcando com alguma antecedência é que consegue um lugar à mesa, neste caso, à mesa do Pedro.

 

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E quase poderia acabar aqui o post, deixando o resto para as descobertas de quem quiser descobrir Vilarinho Seco, mas vou continuar, pois ainda há mais algumas imagens para mostrar, das centenas de imagens possíveis, pois apenas fica uma seleção abordando um pouco de toda a aldeia, mas também da sua história, usos e tradições. Continuemos então!

 

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Passemos à localização de Vilarinho Seco e como ir até lá, com partida como sempre da cidade de Chaves. Como poderão ver nos mapas que deixo a seguir, Vilarinho Seco fica a 45 quilómetros de Chaves. Tal como acontece com a maioria das aldeias do concelho de Boticas, o nosso melhor itinerário é via estrada nacional 103 (estrada de Braga) até Sapiãos, aí abandonamos a EN103 e rumamos até Boticas. Estando em Boticas, basta seguir as placas indicativas com a saída para Cabeceiras, Ribeira de Pena ou Salto, aliás Boticas só tem três saídas, uma para Chaves e Braga (via EN103, pela qual vamos,  mas em sentido contrário), outra também para Chaves, via Vidago, pela N311, e pela mesma N311, em sentido contrário, temos a saída para Cabeceiras, Ribeira de Pena, Salto e também Braga. É por esta que devemos ir, mais acima, lá no alto, atravessamos a Carreira da lebre e continuamos em direção a Salto e Braga. A seguir, sem sair da 311, e pela ordem que vou deixar, vai andando e vendo saídas para Carvalhelhos, Vilar, Campos, Viveiro, Bostofrio, Covas do Barroso e Agrelos, a seguir a esta última aldeia que fica próxima da estrada (Agrelos) a apenas 2,3 km terá uma espécie de cruzamento com saída à esquerda para Espertina e Antigo e à direita para as Alturas do Barroso, é pela saída das Alturas que deve sair, numa segunda placa, mesmo em cima da saída, também aparece Vilarinho Seco e Coimbró.

 

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Ainda antes de vermos o que dizem os documentos que temos sobre Vilarinho Seco, recomendamos como pontos de interesse para visitar em Vilarinho Seco, logo na entrada (seguindo o nosso itinerário) onde a estrada alarga, tem um moinho, bem interessante porque é diferente de todos os que conhecemos. Mais à frente, terá de se decidir por virar à esquerda ou à direita. Vire à direita e logo a seguir verá um passadiço em arco por cima da rua, logo após o qual terá um grande tanque/bebedouro com chafariz e um cruzeiro. Este conjunto está precisamente no centro da aldeia, e que conjunto, digno de se lhe tirar o chapéu. Pare por lá o tempo necessário para apreciar como deve de ser. Depois pode ir até ao fundo da rua principal e apreciar o casario típico de “arquitetura vernacular”, não gosto do termo mas parece que é assim que se diz.

 

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Depois de vista esta parte da aldeia, regresse à casa de partida, quando teve de decidir virar à esquerda ou direita. Mas agora vindo do lado direito siga em frente e esta na casa do Pedro que ocupa todo o lado direito da rua, até ao largo da capela. Em frente à casa do Pedro, existe uma eira com bar, que suponho ser também do Pedro. Aqui é também ponto de paragem obrigatória nem que seja e só para repor forças, isto se estiver aberto, pois pode-se dar o caso de não estar. Como nós passamos por lá sempre no dia 20 de janeiro, nesse dia, quase de certeza que está aberto.

 

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Geralmente é neste último largo, já na saída para as Alturas do Barroso, que se estaciona o popó. Aí podemos ver então a Capela, também interessante, uns espigueiros e as Casas do Pedro, a tal onde se comem os cozidos e outras coisas, pois convém não esquecer  que estamos no Barroso os a vitela barrosã também é recomendada. Do outro lado da rua, o tal bar com eira, também é um lugar a visitar e simpático. Mesmo se não comer na cas do Pedro, peça para dar uma vista de olhos à casa, que eles deixam e mostram.

 

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Vamos então às nossas pesquisas, pelo que encontrámos na monografia de Boticas – Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas:

 

Castro de Vilarinho Seco

Designação: Castro de Vilarinho Seco / Mena / Couto ou Côto dos Mouros

Localização: Vilarinho Seco (Alturas do Barroso)

Descrição: O castro de Vilarinho Seco, também conhecido como Couto dos Mouros, localiza-se a cerca de 1 km da aldeia de Vilarinho Seco, freguesia de Alturas do Barroso.

Quase na base da encosta do Castro, voltada a Poente, encontra-se a habitual fiada de pedras caóticas a assinalarem o alinhamento da muralha, totalmente derruída. Esta primeira linha de defesa começa num grande penedo, no lado Norte, segue para Sul e vai entestar noutro grande penedo. Apenas 2 m de muralha ligam este grande penedo a outro semelhante. Seguem-se 17 metros de ruínas de muralhas que entestam noutro penedo. Entre 20 a 30 metros acima da primeira muralha encontra-se a segunda, também derruída, que segue a crista do monte quase no alinhamento N/S, poucos metros adiante esbarra, no alto, num grande penedo. Nele se vê uma cruz gravada em sulcos pouco fundos. Esta segunda muralha esbarra em dois grandes penedos, sobranceiros a um despenhadeiro quase abrupto da vertente do lado Leste, encosta que é toda penedia contínua, com alguns penedos grandes, com 6 ou 7 metros de altura, encostados uns aos outros.

 

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Continua a monografia com as:

Festas e Romarias

Santa Cruz, 03 de Maio, Vilarinho Seco

  1. Paio,* 26 de Junho, Vilarinho Seco

Património Edificado

Capela de Sampaio, forno do povo, casas e relógio de sol.

 

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Ainda na monografia, os:

Fornos do Povo

Noutros tempos, quando quase todas as casas das aldeias coziam no forno do povo, foram estabelecidas regras de forma a organizar a sua utilização. Em quase todas as aldeias do concelho, onde este bem comunitário existia, havia a obrigação de quentar o forno, que andava à roda pelas casas dos lavradores da aldeia, que eram quem dispunha de meios para ir buscar lenha. Como, por exemplo, acontecia em Alturas do Barroso, “Todo aquele que tivesse uma junta de vacas para fazer o transporte da lenha, para aquecer o forno, era obrigado pelo uso e costume a aquecer o forno.” Era o chamado quentador, forno de quenta, ou cantador pois ele era, também, o responsável pela marcação da vez das pessoas que coziam a seguir a ele.

Assim, quem quisesse cozer, dirigia-se ao quentador, pedia-lhe a vez, para saber atrás de quem iria cozer, e colocava um sinal a marcar a sua vez. O sinal podia ser lenha, mato, etc. e à medida que iam cozendo, cada um tirava o seu sinal de marcação, para as pessoas saberem quem ia cozer a seguir e assim prepararem a massa.

 

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E continua:

Na maior parte das aldeias este uso acabou por desaparecer, são cada vez menos as pessoas que ainda utilizam estes espaços, muitas preferem comprar o pão já feito, a um dos inúmeros padeiros que diariamente percorrem as aldeias do concelho, do que terem que andar com trabalho para fazer a massa e cozer o pão. Assim, quem quer cozer aquece o forno e coze. Em Sapiãos, as pessoas ainda têm o hábito de colocar um lareiro junto à fornalha do forno, sinal que indica que alguém vai aquecer o forno e cozer. Normalmente quando do alguém coze, as outras pessoas aproveitam a quentura do forno e cozem a seguir, pois desta forma já não gastam tanta lenha. Em Valdegas (Pinho) apesar de já não existir a obrigação de quentar o forno, quem o acender é obrigado, pelo costume, a dar a vez aos que quiserem cozer a seguir a ele, durante essa semana.

Todavia, em Vilarinho Seco (Alturas do Barroso) este uso ainda vigora[i]. De quinze em quinze dias, um lavrador, ou seja, quem tem vacas ou tractor, aquece o forno, num sistema de rotatividade pelas casas da aldeia. Antigamente esta obrigação demorava cerca de um ano a dar a volta à aldeia, actualmente demora  aproximadamente oito meses, pois apesar de existirem cerca de 30 casas habitadas na aldeia, apenas 15 é que aquecem o forno. O forno tem que ser aquecido entre segunda e quarta-feira, depois quem quer cozer vai pedir a vez a quem o aqueceu.

Fazem broas, bôlas, bôlas de carne e bicas de cereais estremos, apenas milho ou apenas centeio, mistura centeio/milho ou centeio/trigo, a que em algumas aldeias chamam o pão casado, depende dos gostos e do cereal que predomina nas diferentes aldeias. Por altura da Páscoa costumam fazer os folares com carne ou sem carne.

(…)

Em Vilarinho Seco, sempre que o forno coze os vizinhos ainda se juntam lá para conversar.

 

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E continua a monografia com as tradições:

 

Mas em muitas outras aldeias existia a tradição dos motes do galo[ii], como por exemplo em Vilarinho Seco, cujo testamento do galo transcrevemos a seguir:

Testamento do Galo

Eis aqui o testamento

Que fez elegante galo

Quando tinha no pescoço

Aguda faca para matá-lo

Não haverá quem me console

Venham todos venham ver

O que fez um pobre galo

Quando estava para morrer

Já que estou em meu juízo

Testamento quero fazer

Para meus bens eu deixar

A quem melhor me parecer

Porém antes que se escrevam

As .......... derradeiras

Quero também despedir-me

Das amadas companheiras

Galinhas minhas amigas

Com quem sempre acompanhei

Vinde ver e compreendereis

O estado a que eu cheguei

Estou tão atribulado

Nesta nossa despedida

Que deixar-vos nesta hora

Decerto me custa a vida

Um conselho quero dar-vos

E vos falo bem sisudo

Que fujas quanto puderes

Dessas festas do Entrudo

E se acaso vos chamarem

Pila pila vos disserem

Não vades lá que é engano

Que apilar vos querem

Erguei-vos de madrugada

E a casa não torneis

Ficai estes dias fora

Para a Quaresma vireis

E se vires que há doença

Vede bem como andais

Que também vos pilarão

Quando menos vós cuidais

Daqui a sete semanas

Quando entrar o mês de Abril

Eu já estou a adivinhar

Que morrereis mais de mil

E aquelas que escaparem

Alegres passais os dias

Retirai-vos quanto puderes

Das funções de tais folias

Afirmaivos vede bem

Esta cor da minha crista

Nesta tão triste sorte

Esta noite se escreveu

A minha sentença de morte

Em nome da benta hora

Talvez seja a última vez

Que vós lhe poreis a vista

De mim pena não tenhas

Aos mais galos dai ouvidos

Que assim fazem as mulheres

Quando lhe morrem os maridos

Em tudo quanto vos disser

Tomai sentido e atento

Que eu principio agora

A fazer meu testamento

Deixo a voz da garganta

Aos galos meus companheiros

Para que cantem de noite

Em cima dos seus poleiros

Deixo mais a minha crista

Vermelhinha e tão bela

Ao galo mais lambareiro

Que puder ficar com ela

Deixo as penas do pescoço

De várias cores pintadas

Às meninas desta terra

Para andarem enfeitadas

Deixo as penas do corpo

Que são todas as mais honestas

Para as biatinhas da moda

Se enfeitarem pelas festas

Deixo as penas do rabo

Por serem as mais brilhantes

Para as meninas solteiras

Darem aos seus amantes

Deixo as unhas dos pés

Para as mulheres viúvas

Se arranharem à noite

Quando lhes morderem as pulgas

Deixo as pernas

Por serem cor amarela

Para todos os cães tomarem

Uma grande atacadela

O bico que me ia esquecendo

Deixo ao galo mais fraco

Para quando travar bulha

Fazer mais um bom buraco

O fígado e a moela

E a minha vontade inteira

Que as coma logo assadas

Quem for minha cozinheira

O papo que toda a vida

Me serviu de bom celeiro

Deixo ao homem mais honrado

Para a bolsa do dinheiro

Deixo o miolo das tripas

E toda a mais demasia

À mulher mais rabugenta

Que houver na freguesia

Ainda agora me lembrou

Já me ia esquecendo

Que das barbas não disponho

Mas deixá-las pretendo

E as deixo de boa vontade

Vermelhinha e tão belas

Àqueles mais desbarbados

Que quiserem servir-se delas

E os móveis da casa

Deixo ao meu testamenteiro

Que no meu falecimento

Fique dono do poleiro

Deixo por uma só vez

Que este meu corpo defunto

Não esqueçais de lhe juntar

Boa porção de presunto

Deixo por advertência

Aos mais galos machacázes

Se desviem ser vizinhos

Da escola dos rapazes

E se por acaso desprezarem

O conselho que vos dou

Daqui a vinte anos se verão

No estado em que agora estou

Deixo mais que o meu enterro

Seja feito com carinho

O que hão-de gastar em esmolas

O gastem antes em vinho

Deixo que todo o estudante

Que andar nesta lição

Dê um galo como eu

Que morra nesta função

E se um galo não derem

Dêem um bom coelho

E nenhum seja tão néscio

Que despreze o meu conselho

Agora torno a lembrar-me

E já me ia sendo erro

No nome da sepultura

No lugar do meu enterro

Deixo é minha vontade

Seja minha sepultura

Dentro dos corpos humanos

Que é melhor que na terra dura

Dos mais galos que morreram

Peço a todos em geral

Que não façam testamento

Que este p’ra todos vale

E vós meus estudantinhos

Já que assim o quereis

Degolai-me bem depressa

Que é favor que me fazeis

Todo o pai que tiver filhas

E dote para lhes dar

Meta-as todas num convento

Eu trato de as casar

Agora por nossos pecados

Estamos vendo em cada canto

Que todo o pai que tiver filhas

Logo se lhe faz o cabelo branco

 

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E estamos a chegar ao fim deste post dedicado a Vilarinho Seco. Muito mais haveria para dizer, mas ficará para uma próxima oportunidade, tanto mais que Vilarinho Seco continuará a fazer parte dos nossos itinerários do Barroso, com paragem obrigatória, nem que seja, e só, por alturas das celebrações do São Sebastião, nos dias 20 de janeiro. Esperemos que no próximo 20 de janeiro a pandemia do corona vírus já seja coisa do passado e permita continuar esta tradição que tanto enriquece o Barroso.

 

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E damos por terminado este post, que como de costume termina com um vídeo com todas as fotografias de Vilarinho Seco publicadas até hoje neste blog, mas também com excertos  de alguns vídeos das nossas passagens pela aldeia.

 

Aqui fica, espero que gostem:

 

 

E quanto a aldeias do Barroso de Boticas, Chaves, despedimo-nos até ao próximo domingo com a aldeia de Virtelo, mas entretanto, sexta-feira, teremos aqui mais um vídeo da aldeia de Lodeiro D’ Arque, esta do concelho de Montalegre.

 

BIBLIOGRAFIA

CÂMARA MUNICIPAL DE BOTICAS, Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas - Câmara Municipal de Boticas, Boticas, 2006

TORGA,  Miguel, O Reino Maravilhoso – “Portugal”, 1950 .

 

WEBGRAFIA

http://www.cm-boticas.pt/

 

 

[i] Nota do blog Chaves – Não apurámos se este uso ainda se mantém na atualidade, pois o documento de onde transcrevemos esta informação é de 2006, e nestes últimos anos, em termos de tradições, muita coisa se perdeu.  

[ii] A tradição dos motes do galo e carro do galo, é uma das brincadeiras de entrudo e consiste em juntam-se três rapazes no principal largo da aldeia, um coloca-se no forno do povo, outro no cruzeiro, seguram uma corda com o galo preso no meio e tentam acertar com ele ao que está a ler os motes de forma a atirarem-lhe com o chapéu ao chão. Este, enquanto lê os motes, com uma espada tenta afastar o galo da sua cabeça. No final oferecem o galo e o restante conteúdo do carro do galo. Carro este, um carrito de mão, que é enfeitado com flores levando as suas ofertas que, como manda a tradição, são compostas por um coelho, uma galinha, vinho do porto, doces e um galo. Depois fazem um cortejo com o carro pelas ruas da aldeia.  Esta tradição era dedicada ao professor da aldeia pelos alunos da escola primária. Tradição esta que com o encerramento das escolas primárias e ausência de professor, penso que também já não se realiza.

 

 

02
Ago20

O Barroso aqui tão perto - Côvelo do Monte (totalmente despovoada)

Aldeia do Barroso - Concelho de Boticas

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Sempre que partimos para o Barroso desconhecido, fazemos previamente o trabalho de casa, principalmente estudamos bem o nosso itinerário, tomamos anotações de pontos de referência e de passagem obrigatória, anotamos possíveis atalhos e fazemos contas ao tempo que necessitamos para percorrer distâncias e paragens nos locais.

 

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Mas como sempre uma coisa são os mapas e outra é a realidade,  e se para alguns locais partimos mais despreocupados, pois há sempre uma aldeia por perto e pessoas a quem perguntar no caso de estarmos enrascados com a orientação, para outros destinos mais ermos, temos mesmo de estudar bem a lição antes de sairmos de casa,  que foi o caso de Côvelo do Monte.

 

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 Na partida para Côvelo do Monte, tínhamos como referência a central do parque eólico de Casas da Serra. Sabíamos que no entroncamento onde se encontra a central, no encontro de estradas, uma delas nos levava até Alturas do Barroso e na direção contrária para Coimbró e a terceira estrada, perpendicular à primeira, nos levava até Cerdedo. Seria nesta última que bem próximo do entroncamento, deveria existir um caminho em terra batida, e ele lá estava. Fácil, bastava seguir o caminho e Côvelo do Monte lá haveria de aparecer. Fica o nosso mapa que também serve para melhor localizar a aldeia

 

mapa covelo

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Mas o que parecia fácil depressa se complicou, pois percorridos poucos metros o caminho bifurca e passamos a ter dois caminhos. Nos nossos apontamentos apenas tínhamos um caminho, mas a escolha foi fácil, tomámos o que estava em melhores condições, pois só poderia ser esse, e lá fomos, montanha adentro, quase sempre a subir, passámos por uma eólica, depois outra, mais uma, outra ainda e finalmente a última, pois o caminho terminava aí, bem lá no alto, mas olhando em redor, nada de aparecer Côvelo do Monte, mas sabíamos que não deveria estar longe.

 

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Desde essa última eólica, 100 metros abaixo em direção a poente, passava o outro caminho pelo qual não tínhamos optado. Embora bem próximo de nós, era impossível passar para ele, pois esses 100 metros eram de uma ribanceira bem acentuada e pejada de rochas, mas agora visto dali, não havia dúvidas que seria esse o caminho para Côvelo do Monte. Seguimos-lhe visualmente o traçado até o perder de vista, mas nada de Côvelo, com ajuda da teleobjetiva da câmara fotográfica, que também nos vais servindo de monóculo, tentamos perceber o que era uma pequena mancha, de cor ligeiramente diferente que havia ao fundo no encontro das duas montanhas, et voilá, eram telhados, os telhados das casas de Côvelo do Monte. Tal como no jogo do monopólio, depois de termos caído na casa da última eólica, tivemos de voltar à casa de partida percorrer todo o outro caminho que inicialmente tínhamos desprezado.

 

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Mas felizes e contentes por finalmente termos descoberto a aldeia, e lá fomos andando e indo, devagar, devagarinho, pois o piso do caminho a isso recomendava e umas cambalhotas pela encosta da montanha abaixo, pela certa que não seriam muito agradáveis, e num de repente, o mundo caiu-nos aos pés, a nossa felicidade terminou ali, já avistávamos a aldeia quando o caminho nos foi interrompido por uma cancela fechada.

 

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Sabíamos que a aldeia estava abandonada e que casa a casa e prédio a prédio, alguém a tinha comprado para fazer dela um empreendimento turístico, que com o tempo, talvez pelos custos, ou falta de “subsílios” acabou por abandonar, e era mesmo este o verbo que ali, pasmados a olhar para a cancela, íamos conjugando. Aldeia abandonada, projeto abandonado e nós também abandonados ao destino da nossa má sorte do dia. Ainda pusemos a hipótese de saltar a vedação e fazer o que restava do trajeto a pé, mas eram 13H00, daquele dia 6 de outubro de 2017, num dia ainda quente, mesmo estando na croa da montanha e as nossas barriguinhas já pediam assistência e com uns bons quilómetros para fazer até ao restaurante mais próximo, desistimos…

 

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A paisagem por ali é do mais agreste que há, aquele agreste que eu conhecia do Barroso desde criança, muito antes de conhecer o Barroso verde genericamente conhecido no Baixo Barroso, mas lá de cima, dava para notar que lá no fundo, onde estava o que restava de Côvelo do Monte, existia uma pequeníssima veiga, verde, com algumas árvores igualmente verdes, mas em tons mais escuros. Mas a descoberta teria que ficar para mais tarde, nem que fosse a última aldeia a ir e mesmo que tivéssemos de fazer o percurso todo a pé, era aldeia à qual tínhamos de ir, era obrigatório, pois era a primeira aldeia da era atual a estar completamente abandonada, mas teria de ser noutro dia.

 

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E não demorou muito tempo a fazermos a segunda tentativa, sete meses depois, em 24 de abril de 2018, aí já com uma viatura de todo o terreno, por volta das 11h30 lá estávamos nós em frente à cancela do caminho. Desta vez acertámos no caminho à primeira tentativa e a cancela embora ainda lá estivesse, estava aberta, e desta vez é que foi… fomos até à aldeia

 

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Desde a cancela até a aldeia são cerca de 800 metros, sempre a descer na mesma terra agreste, isto,  até chegarmos a uma pequena linha de água que dava origem a uma pequena veiga, a grosso modo aí com uns 700 metros de comprimento por 100 metros de largura, e no limite, por um lado ao longo da linha de água e do outro ao longo do caminho que atravessa a aldeia, algum arvoredo que transformam o local num pequeno, lindíssimo e apetecível oásis, só que em vez de ser no meio da areia do deserto, está no meio da aridez das encostas da montanha e quase a 1000 metros de altitude.

 

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Mas de pouco vale esse oásis, pois a aldeia está totalmente despovoada, abandonada e com metade do seu casario metade em ruínas e o restante para lá caminha, mas não nos surpreendeu, pois previamente já sabíamos que a aldeia estava assim. Não fomos surpreendidos, mas começou aí aquela mescla de sentimentos que sentimos quando vemos assim as aldeias, mas até essa altura, apenas aldeias que caminham para o despovoamento total, como a aldeia vizinha de Casas da Serra, mas esta era a primeira que víamos completamente abandonada, sem vida, apenas com o casario da antiga aldeia.

 

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E lá fomos entrando na aldeia, com o tal misto de sentimentos a invadirmos, às vezes mesmo contraditórios, como o de não compreendermos como a aldeia chegou ao despovoamento total, mas por outro lado a compreender perfeitamente que tal tivesse acontecido, pois é uma aldeia quase no meio do nada, apenas com a sua pequena veiga, que quando muito poderia dar para subsistir, como deu quando tinha pessoas para habitar as casas.

 

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Os tempos hoje são outros, e também muito mais exigentes, em que só a terra, já não chega para viver, e depois, viver a 1000 metros de altitude, isolados, sem estrada e distantes do que hoje se quer por perto, como a saúde e a educação, e já deixo de parte o tempo de lazer e a cultura, ao qual todos temos direito, mas que só é para uns tantos…

 

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Contudo Côvelo do Monte é uma aldeia, que pelas suas características, localização, isolamento e ambiente natural que a rodeia, também poderia ser bem interessante, desde que fosse para viver lá por opção, sem ser obrigado a. Bem poderia ser um pequeno paraíso e desfrutar do seu pequeno oásis. Aliás é uma aldeia interessante, mesmo em ruinas e despovoada, continua a mostrar o seu encanto, e bastaria ter um bom acesso à R311, com 2 km de boa estrada, e a música seria outra.

 

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Quanto às nossas pesquisas sobre a aldeia, vai aparecendo no mapa, e pouco mais, apenas vimos uma referência à capela, que diz estar fora de culto, mas ter sido de devoção a Santa Bárbara. Já é alguma coisa, pois quanto à capela, dela, hoje só existem as 4 paredes, e uma delas também ameaça ruir.

 

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As outras referência que encontrámos, até como notícia de TV nacional, é a de que a aldeia está à venda, toda ela, pois hoje é de um único proprietário. Segundo a notícia, está à venda por 4 milhões de euros, que feitas bem as contas, e somando o investimento necessário para fazer da aldeia alguma coisa, dá para perceber que a aldeia vai continuar abandonada, e temos pena…

 

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Assim, sem mais para contar sobre a aldeia, está na altura de nos despedirmos e de deixar aqui o vídeo com todas as fotografias do post. Espero que gostem.

 

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Mas antes do vídeo, apenas uma nota quanto à forma como grafei a aldeia, como Côvelo. Vá-se lá saber porquê, pois as referências que há à aldeia, em mapas e outros documentos em que diz que a aldeia pertence à freguesia de Cerdedo, aparece grafada de 3 maneiras, como Covelo, sem qualquer acento, Covêlo com acento no “e” e Côvelo com acento no “o”. Eu optei pelo último, e está a justificação dada para que achar estranho vê-la assim.

 

E agora sim, o vídeo:

 

 

Quanto a aldeias do Barroso, teremos aqui na próxima sexta-feira mais uma Barroso de Montalegre. A próxima aldeia de Boticas, virá por aqui no próximo domingo.

 

 

 

 

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