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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

15
Abr19

O Barroso aqui tão perto - Cabril

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Nesta rubrica do Barroso aqui tão perto,  estamos a chegar à reta final das abordagens às localidades do Barroso do Concelho de Montalegre. Das 136 localidades do Concelho de Montalegre, apenas nos falta abordar 18 localidades. Começámos as abordagens sem qualquer tipo de critério de seleção, recorríamos a uma espécie de sorteio e a que calhava, era a localidade que abordávamos. Mas havia sempre uma ou outra que embora calhasse em sortes, nós fomos adiando a abordagem, nesta reta final estamos a entrar nessas aldeias.

 

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À exceção da Portela da Vila de Montalegre à qual temos ligações sentimentais por parte da família materna,  às restantes localidades não temos qualquer ligação e a grande maioria nem sequer as conhecíamos, daí termos feito sempre uma abordagem isenta de qualquer sentimento que fosse além daqueles que sentimos quando fizemos a nossa visita e levantamento fotográfico.

 

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Sendo filho de mãe barrosã é natural que as estórias de lareira que me habituei a ouvir em criança estivessem ligadas a algumas localidades do Barroso, ainda para mais eram estórias contadas por uma geração que passou por períodos críticos da vida portuguesa, como a guerra civil espanhola e posteriormente a guerrilha, a 2ª grande guerra e os tempos de ditadura.

 

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Assim, embora eu nunca tivesse vivido no Barroso havia nomes de pessoas e localidades que sempre me foram familiares, isto para além daquelas localidades por onde amiúde tinha de passar nas minhas também frequentes deslocações a Montalegre, primeiro quando eram feitas  pela EN 103, localidades tais como o Alto Fontão, o Barracão, Gralhós e Gorda , depois via S.Vicente e mais tarde via Meixide, já pela ou depois pela M508, ou seja, todas as aldeias desses trajetos já eram minhas conhecidas.

 

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Mas ia eu dizendo que embora algumas aldeias me tivessem calhado em sorte para publicação, eu fui adiando para o final, tudo porque essas aldeias tinham qualquer coisa de especial que mereciam uma abordagem mais cuidada e mais aprofundada, uma dessas aldeias era Cabril, e digo era, porque a partir de hoje deixa de ser, pois é a nossa aldeia convidade.

 

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E qual a razão porque Cabril foi ficando para o final!?. Pois se há localidades que sei bem qual é a razão, para Cabril não tinha nenhuma razão em especial, a não ser um topónimo que me era sonante e que calhava ser mencionado em muitas das estórias que ia ouvindo em criança. Assim, a primeira vez que fui a Cabril, fui mesmo à descoberta de Cabril e desse porquê.

 

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Ora, vou ser sincero, da primeira vez que lá fui estava à espera que Cabril fosse de maiores dimensões, mas desde logo me marcou a sua localização e a presença da imponência do enorme rochedo da Serra do Gerês, da água, do verde e do calor, aliás este último tenho-o associado a todas as minhas passagens por Cabril, o que também não é de admirar por calhou passar por lá sempre nos meses de julho e agosto.

 

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Mas depois dessa primeira vez, passei por umas tantas vezes e comecei a dar-me conta que para além da marcante presença da Serra do Gerês, da água do verde e do calor, Cabril era também o centro de uma pequena região (dentro do Barroso)  com características muito singulares e que fazem da aldeia um ponto de passagem obrigatório e uma espécie de entroncamento, não só de estradas, mas também de rios e montanhas e com ponte, na apenas a de hoje, mas a de “sempre” a antiga ponte romana sobre o Rio Cabril, lindíssima, por sinal e que tive a sorte de a ver quase por completo logo na minha primeira visita a Cabril, isto em julho de 2014.

 

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Pois Cabril é o centro dessa pequena região muito singular do Barroso, não só pelas razões que já atrás deixei mas também pelos seus contrastes, senão vejamos, tal como dizia atrás é notória uma forte presença da Serra do Gerês, que atinge os 1575 metros de altitude, o que nos levará a pensar que as terras e freguesia de Cabril é território de terras altas, mas longe disso, são as terras mais baixas do Barroso, como veremos já a seguir.

 

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Cabril é sede de Freguesia constituída por 15 aldeias, a saber: Azevedo, Bostochão, Cabril, Cavalos, Chãos, Chelo, Fafião, Fontaínho, Lapela, Pincães, São Ane, São Lourenço Vila Boa, Xertelo e Chã de Moínho. Entre elas apenas Xertelo fica acima dos 700 metros de altitude, seguida por Lapela e Pincães acima dos 600m, depois São Lourenço, Chewlo Fafioão e Azevedo acimas dos 500m, Bostochão e Vila Boa acima dos 400 metros e as restantes não vão além dos 300m.

 

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E foi preciso chegar aqui a Cabril para verificar que afinal ainda me falta descobrir uma aldeia do Barroso, pois Chã do Moinho não consta dos meus levantamentos e sinceramente só hoje é que dei pela sua existência, e não constava da minha listagem de localidades do Concelho de Montalegre. La terei que ir mais uma vez por terras de Cabril, o que não será nenhum sacrifício, antes pelo contrário.

 

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Cascatas e Minas

Embora não propriamente na localidade de Cabril, mas sim no território da freguesia de Cabril, temos pelo menos três das cascatas mais interessantes do Barroso, as cascatas das 7 Lagoas, as Cascatas de Pincães e as de Cela Cavalos, estas mesmo no limite da freguesia. Também de interesse no território da freguesia temos as Minas de Carris, ou o que resta delas, mas atenção que as minas estão em território de proteção parcial tipo I e proteção total do PNPG-Parque Nacional da Peneda-Gerês que impõe limites ao número de pessoas e para as zonas de proteção total é necessária autorização do PNPG. Atenção que as cascatas das 7 lagoas estão em zona de proteção parcial (limitada a 10 pessoas). No entanto como as regras estão sempre a mudar, se for para um destes locais convém primeiro informa-se junto do PNPG (consulte a brochura do parque no final do post).

 

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Ainda antes de entrar naquilo que encontrámos nas nossas pesquisas e itinerário para lá chegar, queríamos deixar aqui ainda uma nota sobre a igreja de Cabril, que sem lhe tirar o interesse que tem, em beleza, também é contrastante, quando de perto não se confunde um pouco com o resto do casario mas ao longe ganha grande visibilidade.

 

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Passemos então ao nosso itinerário para se chegar até Cabril, por sinal um dos itinerários mais interessantes e que atravessa quase todo o Barroso de lés a lés, basta dizer que quase metade do percurso faz-se dentro do Parque Nacional da Peneda Gerês, no qual Cabril também está inserida. Pois para o nosso Itinerário optamos mais uma vez pela estrada do São Caetano até Montalegre, depois seguimos sempre junto ao Cávado até à Barragem de Paradela a qual devemos atravessar o paredão para depois continuarmos até Cabril. Fica o nosso habitual mapa para melhor localização.

 

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Então passemos às nossas pesquisas, hoje facilitadas pelo conteúdo da página na internet da Junta de freguesia de onde transcrevemos:

 

Cabril no passado e no presente...

A Freguesia de Cabril é actualmente constituída por 15 aldeias, de povoamento concentrado onde habitam aproximadamente 900 habitantes. É uma das mais belas inserida no parque nacional do Gerês. Fica situada nas margens do cávado, albufeira de verde azul de Salamonde e no sopé das fragosas penedias da serra do Gerês. Freguesia  antiga, mediaval, com pequenas aldeias de uma vida pastoril sossegada, tem também uma riqueza multifacetada. A paisagem oferece aos olhos os mais belos quadros...

Aqui também se verificou, inevitavelmente, o êxodo rural, umbilicalmente ligado à procura de melhores condições de vida.

No início desta freguesia, permanece o rasto histórico da existência de povoamentos pré-romanos como os Turodos, Esquesos e Nemetanos, povos que se dedicavam quase exclusivamente à pastorícia com a criação de cabras, o que daria o nome a Cabril.

 

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Assim sendo, e segundo os historiadores, era o gado que abastecia toda esta região, continuando ainda nos dias de hoje a existir.


Com a derrota dos Lusitanos (povos que habitavam a Península Ibérica sob o comando do pastor Viriato), Roma conseguiu o domínio total da Península Ibérica e de todos os povos e povoados Os habitantes das "tribos" derrotadas, foram escravizados e integrados no Império Romano, apesar de terem tentado resistir aos senhores do Universo. Cabril não foi excepção e podemos ainda encontrar um dos vestígios mais visíveis dessa data, "a ponte velha" agora de difícil visibilidade visto que se encontra a maior parte do tempo submersa pela barragem de Salamonde.A ponte foi construída com o intuito de permitir a passagem entre as duas margens que se encontravam separadas por um riacho, mas que em dias de Inverno chegava a não permitir a passagem dado o caudal gerado. Importa pois, realçar o facto de que foram os Romanos os primeiros a unir a Freguesia de Cabril, povo este que era exímio na construção de vias terrestres, ligando assim todo o seu império.

 

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A 8 Km de Cabril podemos encontrar um vestígio de grande importância, a "Ponte da Misarela", onde as tropas francesas de Napoleão em 1809, tiveram inúmeros problemas com os Barrosões. Encontra-se também neste local a estrada que ligava em tempos, Bracara Augusta a Áqua Flávia.


Com o fim do Império em 476 D.C., Cabril continuou a ser ocupado, pois existem marcos dessa ocupação, a "cilha dos ursos". Construção circular em pedra que servia para pôr a salvo as colmeias de abelhas do ataque dos ursos. Esta construção tem muitos séculos, pois os ursos foram extinguidos do Gerês há quase 800 anos.


Mais recentemente no século XVI, Cabril lançou para o mundo uma figura notável, João Rodrigues Cabrilho, natural do lugar de Lapela da casa do Americano que em 1542 ao serviço da armada Espanhola, comandou os navios "San Salvador" e "Victória", saindo do porto de Navidade em Espanha e descobrindo então a costa da Califórnia.


Presentemente a vida rural ainda permanece bem enraizada, as vezeiras e as manadas de vacas, a vegetação sempre verde dos medronhos, azevinhos e teixos, fetos, lírios do Gerês, as suas fragas enormes de figuras ciclópicas, desafiando aventuras de águias, os corços, javalis e os garranos, saltando e correndo, disputam o território sagrado de uma serra que jura perpétuar a sua pureza ecológica…


Cabril oferece-nos tudo isto, horas de regalar e comer com os olhos este misto de humano, animal e divinal da mãe natureza.

 

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Já na monografia “Montalegre” encontrámos várias referências a Cabril, algumas já mencionadas atrás nos conteúdos da página da Junta de Freguesia, assim ficámo-nos apenas por uma referência que tem a ver com o pastoreio:

 

O Pastoreio

A actividade pastoril e ganadeira, obrigatoriamente subsidiária da agricultura, é a base da economia local e deve-se a conceitos próprios de antiquíssimos regimes comunitários. A existência de ‘‘vezeiras’’ – gados apascentados sob regras democráticas próprias – indica como foi excelente a nossa coesão social, fruto duma organização jurídica específica e da qual, entre nós, restam documentos manuscritos, ainda que rudimentares, do Padre Diogo Martins Pereira, nascido em Pincães, em 1681. Esclarece-nos o reverendo sobre as fórmulas comunitárias adoptadas pelas populações cabrilenses no sentido de enriquecerem as suas casas e de melhorarem os seus termos territoriais, nomeadamente, os baldios. Entre outras coisas, descreve detidamente os diferentes lugares da freguesia de Cabril e o funcionamento das assembleias: o modo como resistiam a inimigos de fora parte, como apascentavam as suas vezeiras, como perseguiam os animais selvagens que consideravam prejudiciais, como faziam queimadas controladas para melhorar os pastos e como decidiram inçar alguns montes e corgas de outras árvores nobres e também de medronheiros com que evitavam os malefícios da erosão e de cujos frutos alimentavam os bichos e faziam aguardente.

 

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Quanto à “Toponímia de Barroso” temos o seguinte:

 

CABRIL VILA, agora, Cabril

 

Refira-se primeiro que Cabril nunca foi topónimo como agora o entendemos: não serviu de nome a qualquer lugar. Hoje começa a sê-lo, mas era o simples nome que indicava uma pequena região (de 76.6 há de extensão) através do geotopónimo “Cabril” de “Cabra+il” — região de muitas cabras, do nome latino capra, - que se compõe ainda de 15 pequenas localidades. Nos tempos que correm a “VILA” ou “ BAIXA”, como também lhe chamaram – centro cívico, administrativo e religioso da freguesia – já se vai chamando apenas Cabril!

Cabril é um corónimo (nome de região) como Chã, Vilar de Vacas ou Barroso.

 

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Quanto à “Toponímia Alegre”, parte integrante da “Toponímia de Barroso” temos:

 

Se fores a Cabril leva pão

Que vinho lá to darão

 

Vou-me Casar a Cabril,

O sítio do meu degredo:

É terra de muito padre

Canta lá o cuco cedo!

 

- Cabril (Memórias Paroquiais de 1758):

Colhem alguns frutos, “porém, como de tudo é pouco pela aspereza da terra para passarem a miserável vida a maior parte deles vivem de fazer carvão”.

Abade Domingos dos Santos

 

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E muito mais haveria para dizer sobre Cabril, a sua freguesia e região. Já o fomos dizendo nos vários posts dedicados a cada uma das aldeias da freguesia (exceção de Chã do Moinho que desconhecíamos a sua existência) e que poderá consultar na barra lateral deste blog ou no menu na parte superior do blog. Mas também a ideia destes post são deixar a nossa experiência pessoal na descoberta desta aldeias do Barroso e deixar um convite para visitar estas localidades onde poderão fazer outras descobertas, pois também estamos conscientes que houve coisas que nos passaram ao lado.

 

Só nos resta mesmo fazer a referência às nossas consultas.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

WEBGRAFIA (Consultas em 14-04-2019)

- https://www.cm-montalegre.pt/

- http://www.jf-cabril.pt/

- Brochura do PNPG: https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=PNPG+zonas+de+prote%C3%A7%C3%A3o

 

 

23
Dez18

O Barroso aqui tão perto - Cavalos, Chãos e Vila Boa

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Hoje no “Barroso aqui tão perto” não vamos para uma aldeia ou localidade, nem duas, mas para três que até poderiam ser mais ou apenas uma. Vai ser difícil de explicar e justificar em palavras esta decisão, e vai-me obrigar a uma introdução explicativa que talvez não explique nada em particular, mas um todo que é real, de um Barroso feito de Barrosos, aqui e hoje a uma escala mais pequena que se vai ficar pelas três localidades que hoje vamos aqui, e que são elas:  Vila Boa, Cavalos e Chãos.

 

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Umas palavras em jeito de introdução

Seguindo o terreno, sem olhar a estradas e caminhos, de Norte para Sul, temos Vilas Boas, a seguir Chãos e depois Cavalos, mas tudo isto, no terreno, é muito confuso. Se não fossem as placas indicativas da estrada e sabermos que estas três localidades existiam, eu diria que estava em Cabril, ou bairros de Cabril. Não é por nada, mas entre Vilas Boas e Cabril são apenas 800 metros e é entre estas duas localidades que se localizam Cavalos e Chãos.

 

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Já perceberam que estamos num outro Barroso dentro do Barroso, é o Barroso de um povoamento mais disperso que se vai desenvolvendo em linha, no caso, numa linha paralela ao Rio Cabril, em terras baixas com cotas entre os 250 m de altitude junto ao Rio Cabril, ou seja, e só para termos uma ideia e uma comparação, são 100m abaixo da cota do Vale de Chaves, mas como aqui não estamos a falar de vales mas de localidades adossadas à encosta da montanha com pendente para o Rio Cabril, Vila Boa (lá muito mais no alto) atinge a cota dos 390m  (idêntica à cota das terras mais baixas de Vilar de Nantes ou Samaiões, ainda do Vale de Chaves).

 

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Claro que o que deixo atrás em nada corresponde à realidade que se vive in loco, pois quem ler as palavras que deixei vai ficar com a ideia que andamos por outras paisagens, mas não é assim. Como disse estas aldeias ou localidades situam-se numa encosta de montanha com pendente para o Rio Cabril, na sua margem esquerda, mas mesmo em frente, a outra pendente da montanha na margem direita do rio, vai acima dos 1400m de altitude, é que mesmo em frente temos a grande muralha e imponência da Serra do Gerês. Isto é complicado de explicar e descrever em palavras, há mesmo que ir ao local para ver e sentir este ambiente e como o verde vivo da vegetação da margem direita do Rio Cabril se vai transformando numa paisagem sem vegetação onde os grandes rochedos são reis e senhores assumindo um colorido próprio com vários matizes ténues que terminam ou não a confundir-se com o próprio céu, dependendo da luz e da meteorologia do dia, havendo dias de chuva em que a grande serra nem se deixa ver. Há portanto que ir por lá várias vezes e em várias épocas do ano.

 

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É, o Barroso é assim, não lhe chegava pertencer ao Reino Maravilhoso que Torga tão bem descreve, como tem de ter todo um colar de pérolas matizado, isto quando à natureza não lhe dá para cobrir tudo com um manto branco, como se Deus fizesse um intervalo na vaidade destas pérolas coloridas para descansar a vista na pureza do branco. Da maneira como vou pintando esta tela do Barroso, quase parece que se vive no paraíso, mas não é bem assim, pois são terras de vida difícil que chegam a doer, onde sobretudo se sobrepõe um sentimento telúrico, com uma vida fortemente ligada ao chão, à terra que os viu nascer e os fez para a vida de viver o Barroso onde cada habitante é um Barrosão e não um Barrosinho,  ou como Torga diz no “Reino Maravilhoso”: “Homens de uma só peça, inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão.”

 

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Cavalos, Chãos e Vila Boa

Vamos então às nossas três localidades de hoje.

 

Esta descoberta do Barroso que há anos me propus fazer, foi feita em muitas etapas, com roteiros previamente definidos e mais ou menos pensados para um dia completo. Passei por estas localidades algumas vezes, ainda antes de fazerem parte do roteiro do dia. Numa dessas passagens, uma placa da estrada chamou-me a atenção, é que a mesma nunca me tinha aparecido nos meus mapas de estudo nem nos mapas turísticos de Montalegre. Cavalos, era o que estava escrito na placa e fui andando à espera que a aldeia surgisse mas quando dei conta estava em Cabril. Isto, segundo o registo da fotografia que então tirei à placa, aconteceu em julho de 2016.

 

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Passado 1 ano, mais precisamente em agosto de 2017, finalmente Vila Boa, Cavalos e Chãos, entre outras, calharam no roteiro do dia. Parámos em Vila Boa, coisa breve, pois a vila é boa mas pequena e de seguida tocámos o carro para Cavalos, mas a placa de Chãos fez-nos sair da estrada para fazermos primeiro o seu registo, e lá fomos até Chãos, igualmente pequena, a uns escassos 200 ou 300 metros abaixo de Vila Boa. Registámos algumas imagens e bota de novo para trás, para Cavalos. De regresso à estrada mais principal, fomos registando o que fomos vendo com interesse para a nossa objetiva. Passados uns escassos 200 a 300 metros estávamos em Cabril. Voltamos atrás, voltamos à frente e era mesmo assim. Cheguei à conclusão que Cavalos é assim como o efluente de um rio, desagua em Cabril.

 

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Assim, as nossas imagens de hoje são apenas destas três localidades correndo o rico de algumas delas já serem mesmo de Cabril, o que por aí nem há mal nenhum, pois todas estas localidades pertencem à freguesia de Cabril, mas paramos na sua entrada, pois Cabril irá ter aqui o seu próprio post, e para breve, pois já são poucas as aldeias do concelho de Montalegre que nos faltam abordar.

 

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Itinerário e localização

Quanto à localização o assunto já está mais ou menos abordado. Sabemos que as três aldeias ficam juntas a Cabril, já é uma boa referência, mas indo pela habitual referência dos rios e das barragens, as três aldeias ficam também próximas do Rio Cabril, na sua margem esquerda, imediatamente antes deste rio, teoricamente,  desaguar no Rio Cávado, pois na prática já desagua na barragem de Salamonde.

 

Quanto ao itinerário para chegarmos a esta três aldeias, como sempre a partir de Chaves, é via estrada de S. Caetano/Soutelinho da Raia, depois Montalegre, aqui desce-se ao campo de futebol e continua-se sempre por esta estrada até à aldeia e barragem de Padrela. Aqui atravessa-se o paredão da barragem para a outra margem e seguimos sempre por essa estrada, a única que existe até chegarmos As nossas aldeias de hoje, mas antes terá de passar (sempre ao lado) de Sirvozelo, Cela, Lapela, Azevedo, Xertelo, Chelo e Bosto Chão, logo a seguir será Vila Boa, uma das nossas aldeias de hoje, as outras duas, são logo a seguir. Mas fica o nosso habitual mapa.

 

mapa.jpg

 

Quanto aos topónimos, vejamos o que nos diz a “Toponímia de Barroso”:

 

Cavalos

O topónimo chega-nos de “cavalo” (pelo latino popular caballu) mas com outros significados. Assim, pode o nome dever-se ao facto de se tratar de sítio de pedras cavaleiras ou penedos encavalados; Pode também referir-se a muitos animais dado que a categoria social dos habitantes o exigia. Com efeito,

- 1258 «se algum destes habitantes tiver cavalo, escudo e lança, defenda o seu tributo…» como como se afirma nas INQUIRIÇÕES de 1258. Tanto uma como outra explicação, ambas se ajustam ao topónimo e estão em consonância com os topónimos anteriores e seguintes. A zona cabrilense é cheia de penedos sob os quais os seus habitantes fazem ainda hoje as suas adegas de verdinho e aguardentes afins.

 

Chãos

Plural de chão – por planu. É adjectivo e pressupões o substantivo campos, prados.

 

Vila Boa

Villa < Vila e Bona < Boa. Não aparece nas inquirições nem no Arquivo Histórico Português (1531). Esta Vila Boa pertence a Cabril.

 

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Quanto à “Toponímia Alegre”, temos:

 

“Apelidos” de Cabril

 

Moeda falsa de Lapela,

Vinho-azedo de Azevedo,

Cava-touças de Sertelo,

Escorricha-picheis de S. Lourenço,

Rabões de Chelo,

Bufos de Vila Boa,

Lagartos de Fontaínho,

Cinzentos de Chãos,

Carrapatos de Cavalos,

Paparoteiros da Vila

Dente-Grande da Ponte,

Pousa-fois na Chã de Moinho,

Raposos de Busto-Chão,

Esfola-vacas de São Ane,

Ferra-bestas de Pincães,

Putaria de Fafião.

 

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 Na Etnografia Transmontana I, de Lourenço Fontes,  aparecem os “apelidos de Cabril”, lá intitulados como “Alcunhas da Freguesia de Cabril” e com algumas variantes, uma delas diz respeito a Chãos e Cavalos não aparece:

 

Alcunhas da Freguesia de Cabril

 

Moeda falsa de Lapela,

Vinho-azedo de Azevedo,

Cava touça de Xertelo,

Escorricha capichés de S. Lourenço,

Rabões de Chelo,

Lagartos de Fontaínho,

Bufos de Vila Boa,

Cinzeiros de Chãos,

Dente grande da Ponte,

Esfola vacas em Soane,

Pousa fois em Chão de Moinho

Ferra bestas em Pincães,

Putaria de Fafião.

 

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E o livro “Montalegre” o que nos diz sobre as nossas aldeias de hoje!?

 

Em relação a Vila Boa e Cavalos,  apenas a referência de pertencerem à freguesia de Cabril e à sua altitude, mas isso já nós o dissemos atrás.

 

Quanto a Chãos, temos uma referência ao Penedo do Touro, mas como são abordados outros penedos na região, transcrevemos todo o parágrafo:

 

São igualmente célebres por serem incomuns: o penedo do Esporão (S. Lourenço Cabril), a Laje dos Bois (Lapela-Cabril) o Penedo da Pala (Cela-Outeiro) o Penedo da Caçoila (Pedrário-Sarraquinhos) A Casa dos Mouros ( Morgade), o Penedo Sagrado (Salto) A Mesa do Galo (Borralha-Salto), o Penedo da Caldeira (Vila da Ponte), o Castelo (Fervidelas), A Fraga, os Cornos da Fonte Fria, Altar de Cabrões (Pitões), o Altar da Moura (Frades-Cambezes) A Pedra Bolideira (Ponteira – Paradela), o Penedo do Touro (Chãos-Cabril) “ ao abrigo dele se podem defender das inclemências do tempo mais de duzentas cabras”, os Pedralhos (Vila da Ponte) onde escreviam o nome os emigrantes para o Brasil, alguns dos quais nunca regressaram à terra, a Pedra da Gola Furada e a Pedra que Tine (Seselhe), o Penedo Buraco da Serpe (São Ane - Cabril) e uma infinidade de outros mais ao longo do concelho de Montalegre.

 

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Ficamos por aqui, mas antes ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1974.

 

 

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