Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Dez18

Rua Luís de Viacos - Chaves

1600-(44111)

 

Hoje trazemos aqui a Rua Luís de Viacos, que no meu entender é mais travessa do que rua, mas não é por aí que o gato vai às filhoses, pois que mais dá ser rua ou travessa, até lhe poderiam chamar atalho. Interessa-me mais o topónimo adotado, ou saber que é (foi) o Viacos. Pois segundo reza a “Toponímia Flaviense”, Luís Pires de Viacos foi o autor do Genesim da Judiaria da Vila de Chaves. Diz ainda que desde os primeiros reinados afonsinos, seis comunas judaicas se encontravam instaladas no nosso território: Porto, Guimarães, Chaves, Monforte de Rio Livre, Bragança e Mogadouro. Mais se sabe que a comuna de Chaves devia ter adquirido importância relativa, vista que o Rei Lavrador fez padrão de 3$000 réis a Luís Pires de Viacos, em satisfação do GENESIM DA JUDIARIA DA VILA DE CHAVES. Quer isto dizer que, na comuna judaica de Chaves, funcionava uma cadeira ou aula, onde se ensinavam todas as doutrinas de Moisés, contidas no PENTATEUCO. (Machado, J.T.Montalvão – Como e Porque se Imprimiu em Chaves o Primeiro Livro em Língua Portuguesa). (…) Teve-se como objectivo dar o nome do autor do Genesim a esta rua, que outro motivo não teve senão transmitir aos vindouros um facto histórico da vida judaica na Vila de Chaves.

 

E agora que já todos sabemos quem foi o Luís de Viacos, podemos dar por terminado este post, com a garantia que amanhã cá estaremos de novo com mais uma das nossas aldeias do concelho, que segundo as minhas contas, toca a vez a Sandamil.

 

 

 

06
Dez18

Ocasionais

ocasionais

 

Maryprosa”

 

 

“Dêem-me mandrágora a beber

para que possa dormir

 durante todo este tempo

em que ....

«a minha Tera natal»

estã ausente”.

-paráfrase- LF

 

 

**Lá fui por aí acima com a minha cara-metade.

 

Conheço a Régua, Pinhão, Alijó e Favaios do Moscatel, Moncorvo, Alfândega da Fé, Miranda do Douro, Mogadouro, Bragança, Mirandela, Macedo de Cavaleiros (e até o Vale da Porca!) e Vila Real.

 

Ainda não tinha visitado CHAVES.

 

Estive perto quando fui a uma Feira do Fumeiro a Montalegre. Valente Feira!

 

Por outra vez, num Dia de “Volta a Portugal”, estive nesta Vila Barrosã, e, com outros amigos, aproveitei para regressar por Sezelhe (Barragem), Paradela do Rio (Barragem), ficar ainda mais deslumbrado com uma Aldeia chamada PONTEIRA, descer até à Ponte da Misarela, virar para trás para a croa da Barragem da Venda Nova e seguir para a de Caniçada, tendo pernoitado no S. Bentinho de Porta Aberta.

 

Já tinha conhecido um OUTEIRO em Bragança; neste roteiro conheci o OUTEIRO de Paradela do Rio.

 

E, «agôra» em CHAVES, topei com três Outeiros: Outeiro Seco, Outeiro Jusão e Outeiro Machado. Falo neles porque, quando no passeio de carro pela margem direita do Tâmega, para montante, além de ter apreciado a veiga numa certa perspectiva, ter dado com os olhos em três ou quatro coisas de que nem quero falar, cheguei a um ponto em que tive de fazer um ângulo recto, à esquerda, para não seguir por um carreiro que já era «terras de Espanha»  - e quando cheguei outra vez a Outeiro Seco tinha passado por uma Vila, um Vilarinho, um Vilarelho e uma Vilela; o segundo, entendi-o melhor quando visitei o “Castro de Curalha” (que coisa maravilhosa! Até coelhos bravos nos vieram saudar! Ou seriam mouras encantadas?!...) – e achei o nome de «Jusão» muito bonito, em vez de «a jusante»; o terceiro, procurei-o por o meu amigo já me ter falado dele: afinal fica num rico vale, no Vale de Anta!

 

Não procurei um quarto Outeiro, o Outeiro Ladrão, com medo de nele ser roubado (bem, isto não é bem verdade: é que me disseram que o ladrão estava morto há muito tempo e que o Outeiro foi arrasado há pouco tempo).

 

Mas, como estava a dizer, fui por aí acima com a minha mulher   -   ó dianho! Tenho de ser moderno, estar na moda e dizer «minha namorada» (bem namorámos desde o 4º ano de Liceu e estamos casados há .... uma «porrada» de anos), que é para dar ares de «prà-frentex»!

 

Uma auto-estrada que podia muito bem ser um lindo miradouro   -  os pedaços de paisagem que se apanham assim o prometem   -   esconde mais do que aquilo que devia deixar ver!

 

Estacionei no “Jardim das Caldas”.

 

Subi a “Rua do Sol” pela sombra que me dava o passeio do lado esquerdo (o dia estava quente). Logo dei com o seu recomendado “João Padeiro”: encomendei-lhe os folares para o dia e hora do regresso.

 

Achei interessante aquele correr de casinhas baixinhas encostadas ao que julgo ser um pano de muralha. Uma viela a começar junto a um quiosque deu-me o palpite de ser entrada para a zona histórica da cidade. Meia dúzia de passadas e um cruzamento com uma rua estreita, breve para a esquerda e mais comprida para a direita. Segui por este lado, e fui dar a um parapeito.

 

Virei à esquerda e cheguei ao fundo da rua que soube ser a Rua Direita.

 

Aí, olhei para perto. Gostei do Lugar, a que disseram chamar-se “O ARRABALDE”. Veio-me à lembrança o seu “Os bearnesbaques do Arrabalde”.

 

Aí, olhei para longe. E vi uma linda cúpula de uma Igreja, uma montanha com lindos matizes a desenhar uma fronteira com o céu. À distância, pareceu-me ver espreitar a Torre de um Castelo.

 

Subi a Rua Direita. Umas Escadinhas, à esquerda, despertaram-me curiosidade. Mais acima deparei com um pequeno Largo onde está a Igreja Matriz e um edifício com interessante arquitectura.

 

Segui ao Rua Direita até ao cimo. Deu para uma descida a começar com um Largo ou pequena praceta. Disseram-me ser  “O Largo do Anjo”. Mas a estátua era a de um padreco!

 

Procurei a “Casa dos Pastéis”.

 

Afinal, ali, à mão de semear, ou seja, de dar ao dente, havia quatro Pastelarias de “Pastéis de CHAVES”!

 

Antes de almoço (a hora aproximava-se) provar quatro “Pastéis de CHAVES” pareceu-me demasiado.

 

Fui à “Loja dos Prazeres”.

 

Provei um. Apeteceu-me logo outro.

 

Mas saí, para não fazer a vontade ao diabo que me estava a tentar.

 

Desci uma rampita de zinco, e, ao balcão, pedi um “Pastel de Chaves”. Quentinho, avisaram-me para ter cuidado com a dentada.

 

Soprei-lhe de mansinho, convencido que ninguém daria conta. Pelo canto do olho reparei que alguém, na mesa da entrada, sorria.

 

Fiquei com vontade de outro.

 

Mas saí, para não fazer a vontade ao diabo que me estava a tentar.

 

Atravessei o Largo e segui pela Rua “1º de Dezembro”, larga, bonita, ao fundo da qual se adivinha um Jardim.

 

Entrei na alcova da “Princesa” e pedi-Lhe um “Pastel de Chaves”.

 

Não é todos os dias que se vê e se fala com uma princesa. E quando tal acontece, quem é que não fica derretido?!

 

Dei um primeiro beijinho, alto!, estou a sonhar, uma primeira dentadinha no “Pastel de Chaves” e fiquei derretido: tive a impressão que a princesa,  alto!, estou a sonhar, o Pastel se me derreteu na boca.

 

Apeteceu-me logo outro.

 

Mas saí, para não fazer a vontade ao diabo que me estava a tentar.

 

Voltei para trás e fui à procura da “Tia Maria”.

 

Meti pela Rua do “Cândido dos Caçadores e da Feijoada”, virei à esquerda, admirei-me com o Jardim do Castelo e a Torre de Menagem.

 

Não foi preciso muito para acertar com a casa da “Tia Maria”: um cheirinho especial levou-me lá direitinho.

 

Duas senhoritas cheiinhas de simpatia facilitaram-me,  com um daqueles sorrisos que até nos fazem tropeçar, a descida dos degraus de entrada.

 

- Venho conhecer e provar “O Pastel de CHAVES”.

 

Lourinho, quentinho (e nisto eu já estava avisado), foi-me servido com toda a delicadeza.

 

- Cuidado não se lhe queime a língua, disse uma das senhoritas.

 

Estive mesmo para soltar uma gargalhada: encontrei no aviso uma cúmplice duplicidade de intenção.

 

Ainda não o tinha acabado, e já me estava a apetecer logo outro!

 

Até cheguei a julgar que era o primeiro “Pastel de Chaves” que estava a provar!

 

Mas saí, para não fazer a vontade ao diabo que me estava a tentar.

 

Como o Almoço estava aprazado para um Restaurante demasiado longe para ir a pé, voltei à esquina da “Rua do Cândido”, desci umas compridas escaleiras, atravessei um parque de estacionamento, apanhei a sombra das árvores de uma Rua, e, em frente ao “João dos Folares”, bolas!, “João Padeiro”, desci para o “Jardim das Caldas”.

 

Com o meu amigo me tinha falado nas virtudes milagrosas, especialmente digestivas, das Águas de CHAVES, já andava comigo um daqueles copinhos de encaixar, e fui à fonte «proβar», como por lá se «questuma» dizer, as águas.

 

Ai! Que bem me caíram!

 

Meti-me no carro e, graças às novas tecnologias, foi fácil subir até à croa de Stº Amaro e tratar do almoço.

 

O «agente-técnico-de-restauração-e-afins», com toda a cortesia, indicou a mesa. Depois, ao apresentar a carta do Menu, sugeriu que, hoje, tinha um  prato de «vitela guizada com cabaçotes”.

 

Soou-me uma campainha cá no toutiço: “Cabaça”, “Vitela”. “Batatas”!

 

’Stouque” foi ao meu amigo que «ouβi» falar de uma receita assim como muito especial, gulosamente saborosa, deliciosamente gulosa.

 

- Ora isso mesmo!  - disse eu, com certa euforia.

 

Nem lhe digo, nem lhe conto: foi cá um dos petiscos! E a «pinga» estava a matar! E a sobremesa,  também recomendada pelo «patrão»....!

 

Almoçadinho tão bem e tão regalado como estava, voltei com o carro para o “Jardim das Caldas”.

 

Apanhei uma sombra. E fui beber mais um gole de milagre digestivo.

 

Metendo conversa com um peregrino, comentando o milagre com que eu já tinha sido abençoado antes de almoço, e as belezas deste “Jardim das Caldas”, corrigiu-me, num galego-transmontano, que, sendo ele um frequente visitante desta cidade, sabia que o Jardim se chamava “Jardim do Tabulado” e não “das Caldas”!

 

E recomendou-me, se por acaso eu quisesse ter mais um motivo de diversão nesta visita, que reparasse no nome das Ruas, vielas, avenidas ... e canelhas!

 

Aqui, fiquei como numa “estrada sem saída” (é o que dá ter nascido e crescido uma floresta de cimento armado!).

 

Fui para o Hotel esconder-me da caloraça, dormir uma sesta.

 

Depois da sesta, e para abrir apetite para o Jantar, fui de carro pela ponte de S. Roque, estacionei perto da antiga Estação e dei uma volta por aquelas redondezas. Vi o Estádio do “Depor”, apreciei as muralhas que protegiam a “Srª das Brotas”, descobri a “Panificadora do Nadir” e o «cañon» por onde outrora circulava o comboio.

 

O Monumento aos Mortos da I G.G.  achei-o com muita dignidade   -   um importante e significativo testemunho de reconhecimento dos Flavienses.

 

Chegada a «hora da janta», fui regalar-me, mais a minha namorada, ‘stá claro, a um dos mais famosos Restaurantes da cidade. Antes de sair para um passeio pela Ponte de Trajano e pela margem do Tâmega, compus-me com um  traguinho abonadinho (repetido) de geropiga!...

 

Caro amigo, assim foi o nosso, o meu e o da minha (faço por não me esquecer da modernicice, claro!) namorada, primeiro dia da conquista de CHAVES.

 

E, com este balanço, fizemos as expedições dos curtos dias de férias que fomos passar à sua «terrinha natal», e, no final, quem acabou por ficar conquistado foram estes dois, bem levados na sua cantiga!

 

Já lhe deixei umas referências a algumas expedições dos dias seguintes. Para a próxima, conto-lhe o resto.

 

Mas lá que CHAVES é um verdadeiro campo minado de tentações, de surpresas e de admirações, ai lá isso é! **

 

Num dos passeios pela fresca, na avenida junto ao mar de uma praia da Costa Verde, dei de frente com este casal, com que tinha feito amizade há ainda pouco tempo.

 

Como não podia deixar de ser, falara-lhe da NOSSA TERRA.

 

Hoje, depois das protocolares cortesias, convidaram-me para um refresco numa das esplanadas à beira-mar.

 

A dado momento, o meu amigo, a quem notei um entusiasmo de quem vai fazer uma surpresa agradável ou dar uma boa notícia, perguntou-me se eu tenho ido «à terrinha». E antes de eu lhe responder, atirou:

 

- Sabe....

 

E começou e acabou o discurso que acabo de vos dar a ler.

 

M., nove de Setembro de 2018

Luís Henrique Fernandes, da Granginha

 

15
Nov18

Ocasionais

ocasionais

 

“CABOS”

 

“É um facto sabido que

do Cabo de Stª Maria para nascente

 a abundância

 é de atum,

e do Cabo para poente,

de sardinha”

*Raul Brandão-Pescadores)

 

 

Com as palhas compridas do milho ou do centeio fazem grossas tranças entrelaçadas a acertados espaços com os grelos das cebolas.

Assim se “encaba” o «Cabo das Cebolas»!

 

As vassouras eram feitas de giestas. Mas mal duravam.

Aproveitou-se a piaçaba. Acrescentou-se-lhe um pau, redondo e leve: o Cabo da vassoura!

 

Fardados, de espingarda ao ombro e baioneta à cinta, a Guarda Nacional Republicana era distribuída por vilórias e aldeias. O comandante desse Posto era um Cabo: O Cabo da Guarda!

 

Na guerra, portou-se bem. E mal. Mas sobreviveu. Junto dos seus continuou a sua valentia. «Subiu na carreira»: é chamado Cabo de Guerra!

 

A costa é plana ou fractal. Porém, à saliência mais atrevida, a entrar pelo mar dentro ou a este lhe resistir, chamam-lhe Cabo. E ao mais famoso, o «Cabo das Tormentas»!

 

Camões disse daquele lugar: - “onde a terra acaba e o mar começa”.

Nós chamamos-lhe “O Cabo da Roca”!

 

A vida é fácil. Surge uma contrariedade: é o cabo dos trabalhos!

 

Estragou-se! Deu «cabo de tudo»!

 

Chegou-lhe a mostarda ao nariz: foi às do cabo!

 

         O “DEPOR” não ganha: dá-nos cabo dos nervos!

 

O árbitro roubou-nos (salvo seja!): há que dar-lhe cabo do canastro (salvo seja!)!

 

CHAVES não sai da cepa torta: isto dá-nos cabo da paciência!

 

Ao fim e ao cabo, lá chegou ao cabo da vida!

 

M.. onze de Novembto de 2018

Luís Henrique Fernandes, da Granginha

 

28
Ago18

Apenas um momento...

1600-(37907)-1r

 

Hoje fica apenas isto, um recorte de imagem, o resto fica para amanhã, com algumas palavras, na certeza, porém, que nada será aquilo que possa parecer,  e muito do que se poderia dizer, continuará no silêncio recatado da memória, mas haverá algumas estórias,  onde até as de amor serão possíveis, esperas, tardes longas, porto de abrigo, velhos do restelo, intelectuais do burgo e outros que tais. Hoje, o de agora mesmo, deste momento e não um hoje de hoje em dia,  não tenho mais tempo senão este…

 

Até amanhã, com o resto!

 

 

08
Jul18

Uma noite com Cuca Roseta

1600-cuca roseta (145)

 

Sozinhos, aos pares, famílias, grupos, vieram primeiro umas dezenas, depois já somavam centenas, chegou aos milhares, poucos milhares, não os contei mas eram muitos, vieram de todos os lados, de todos os bairros, das aldeias mais próximas, todos para passar a noite com a Cuca Roseta.

 

1600-cuca roseta (110)

 

Depois chegou a Cuca Roseta, com um, dois, três, quatro homens vestidos de negro, tinham instrumentos, eram músicos, tocaram e a Cuca cantou. Pelos rostos de felicidade daqueles que não contei mas eram muitos, a Cuca cantava e encantava. E todos foram muito felizes durante uma hora, hora e pico, também não sei bem, mas foi por aí.

 

1600-cuca roseta (12)

1600-cuca roseta (201)

1600-cuca roseta (262)

 

Depois a Cuca e os seus homens de negro abandonaram o palco. O povo pediu mais, mais, mais e a Cuca e os homens de negro, que eram músicos, regressaram ao palco e a Cuca cantou de novo enquanto os seus homens de negro a acompanhavam, cada um com o seu instrumento, guitarra portuguesa, outras violas, teclas e concertina ou acordeon/acordeão, não sei bem qual era, pois nunca os soube distinguir. Mas de novo saiu e desta vez o povo não pediu mais. Não sei porque fazem sempre isto, mas em todos os concertos é a mesma coisa…

 

1600-cuca roseta (328)

1600-cuca roseta (323)

 

E lá foi o povo, primeiro às centenas, desfizeram-se os milhares, depois às dezenas, uns Sozinhos, outros aos pares, algumas famílias, grupos, foram-se embora, cada uns para seu lado,  para todos os bairros, algumas  aldeias mais próximas, todos passar a noite, ou um pouco de noite com a Cuca Roseta, que também foi embora.

 

1600-cuca roseta (254)

 

Só eu fiquei por lá um pouco mais a ver como tudo se esvazia e como todos partiram aparentemente felizes, contentes, mas também todos indiferentes a quem restava no palco, incluindo os homens da Cuca vestidos de preto também partiram indiferentes aos instrumentos que deixaram sozinhos no palco, abandonados, quase às escuras. Naquele momento, em reflexão, pensava como é triste ser um instrumento musical. Também eu acabei por regressar a casa…

 

1600-cuca roseta (257)

 

 

P.S.  — Sim, fiquei sensibilizado com os instrumentos abandonados, sozinhos e quase às escuras, mas não foi por isso que ontem, excecionalmente,  não trouxe aqui nenhuma aldeia e que hoje também não vai haver nenhuma aldeia do Barroso, pois ou hei de andar a tratar do blog ou à caça de fotografias, ainda não consigo fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Assim como ontem também passei a noite com a Cuca e tive de arquivar ulas largas centenas, até milhares de fotos das últimas caçadas, durante o dia também não houve tempo para o blog e o pouco que sobrou foi para a minha horta, que só ontem arranjei coragem para tratar dela depois daquela trovoada que desfez tudo. Hoje, pois já é domingo, também vou continuar à caça de fotografias, de manhã para as cerimónias dos engravatados e à noite para a “Moura”. Assim, tenho pena, mas para o blog, só coisas breves.

 

06
Jul18

Chaves em Festa 2018

PAGINA_WEB_CHAVES_EM_FESTA_1_1280_720 (1).jpg

 

 

Quem acompanha este blog desde o início sabe que durante uns anos, sempre que acontecia ou não acontecia qualquer coisa em Chaves, principalmente em datas especiais, eu tecia por aqui a minha opinião, o meu louvor, a minha desaprovação, a minha crítica e o meu “Repórter de Serviço”. Sempre na minha opinião, apenas a minha opinião à qual penso que tenho direito. Poucos “louvores” recebi por isso, mas recebi alguns puxões de orelhas por essas ousadias, coisa que até nem me incomodava muito, pois era sinal de que a mensagem chegava ao seu destino. A partir de certa altura “deixei de ter opinião”, quer fosse positiva ou negativa, e despedi o “Reporter de Serviço”,  tudo porque a tática e o recetor de mensagens mudou, pois em vez de me dar puxões de orelhas, ignorava-me, e dava puxões de orelhas a terceiros enquanto apontava o dedo ao causador… Se os puxões de orelhas que me deram nunca me doeram, estes últimos, passaram a doer-me e bem, apenas por uma questão de justiça ou falta dela, pois não era justo que andassem praí com as orelhas vermelhas por minha causa, alguns deles colegas e amigos. Fiz um voto de silêncio, que ainda vou mantendo, apenas quebrado com algumas exceções pelo evento ser merecedor disso, principalmente se for de âmbito cultural, pois à triste cultura já lhe chega ser esquecida por quem a deveria acarinha e promover.

 

Pois hoje é uma exceção, tudo porque Chaves está em festa, e até o título do evento é feliz, pois Chaves estar em festa não é bem a mesma coisa que a festa de Chaves, mas já é alguma coisa, e no programa, até há algumas coisas interessantes que me vão tirar de casa, uma delas, hoje à noite, pois vem aí a Cuca Roseta, que embora até nem seja das minha preferências musicais, gosto dela.

 

As outras coisas que me vão tirar de casa, vão acontecer no dia 8, a primeira, se acordar, acontecerá de manhã com as cerimónias oficiais, não pela cerimónia mas mais pelo registo fotográfico, onde se captam sempre momentos interessantes. A segunda, à noite, o espetáculo da “Moura”, que prometi divulgar e que quero ver, por me cheirar a teatro de rua com mais qualquer coisa, género de espetáculo que aprecio, principalmente por ser teatro que se faz fora do palco e fora daquilo que é convencional, mais popular, como o Teatro do Oprimido de Augusto Boal ou simplesmente teatro de rua onde o teatro se mistura com outras artes e técnicas,  como a circense. Sou fã e apreciador deste tipo de trabalho, por isso vou lá estar, e espero não sair de lá desiludido. Agora fica o programa, com as cerimónias oficiais, o mais generalista, com mais festa ou cheiro a festa e no final, um resumo do tal espetáculo da “Moura” levado a efeito pelos Grandpa’s Lab.

 

PROGRAMA CHAVES EM FESTA 2018

 

06 sexta


CONCERTO CUCA ROSETA
Jardim do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, 22h30

 

06 sexta a 08 domingo


XXVII MARATONA FUTSAL CIDADE DE CHAVES
Pavilhão Municipal Chaves, 21h00

 

 

07 sábado


CONCERTO PELAS BANDAS MUSICAIS “Os Pardais” e Vila Verde da Raia
Largo General Silveira, 21h00

 

07 sábado


CONCERTO FERNANDO DANIEL
Jardim do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, 23h00

 

08 domingo


DIA DA CIDADE E DO MUNICÍPIO


09h30 CERIMÓNIA DO HASTEAR DA BANDEIRA NACIONAL, na Praça de Camões, Guarda de Honra pelas três corporações de Bombeiros do Concelho e interpretação do “Hino Nacional” e “Marcha de Chaves” pela Banda Municipal Flaviense “Os Pardais”;


10h00 CERIMÓNIA DE CONDECORAÇÕES MUNICIPAIS, junto ao Jardim da Torre de Menagem; Atuação do Coro Infanto-Juvenil do Agrupamento de Escolas Dr. Júlio Martins; Quartetos da Academia de Artes de Chaves.


20h30 CONCERTO DAS BANDAS MUSICAIS DE LOIVOS E TORRE DE ERVEDEDO, na Alameda de Trajano;


21h30 Parada “ A MOURA”, no Centro Histórico da cidade;


23h00 “MOURA” - Espetáculo Multimédia, na Ponte Romana;


23h45 ESPETÁCULO PIROMUSICAL.

 

 

08 domingo


ESPETÁCULO MULTIMÉDIA, MOURA NA PONTE ROMANA
Concentração no Castelo/ Largo do Município, 21h00

 

Se é dos que vai a tudo e quer ver o programa completo, sem cortes,  está aqui

 

MOURA CARTAZ HORIZONTAL 16_9.jpg

 

Encenação do resgate da Moura cruza teatro de rua com video mapping e pirotecnia sincronizada

 

 

Ponte Romana de Chaves é palco de um espetáculo de multimédia

 

 

A Ponte Romana e o Rio Tâmega vão ser palco principal do espetáculo multimédia, produzido pela Grandpa’s Lab, no próximo dia 8 de Julho. A iniciativa tem como objetivo valorizar e enaltecer o património edificado, geográfico e cultural da cidade de Chaves. Envolver a comunidade local é a atividade-chave para, a curto e longo prazo, criar-se uma tradição local que se perpetue anualmente.

 

Ao teatro de rua, a Grandpa’s Lab procura adicionar os fascínios do “novo-circo” e construir um caminho criativo que vai guiar o espetáculo do início ao fim. A inovação é conseguida através da fusão das duas artes com as técnicas de multimédia e de tecnologia, como o video mapping.  Esta é uma das áreas de desenvolvimento em que o espetáculo recai, com destaque, ainda, para a pirotecnia sincronizada, cenografia aquática, encenação acrobática, light design e música original ao vivo com uma orquestra.

 

O enredo do espetáculo consiste numa expedição comandada por um capitão invulgar que procura vestígios e provas concretas de forma a apurar se a lenda da moura é verdadeira ou não. Chegados à ponte de Chaves, montam a estação de observação e reconhecimento de fenómenos não identificados. O percurso até à ponte estará repleto de magia, ilusão e comicidade.

 

A estação flutuante, para além de ser a casa da tripulação de investigadores, vai estar equipada com luzes de patrulha, lasers que fazem o scan da área, um balão que regista alterações de fenómenos climatéricos e diversos gadgets de reconhecimento de movimentos. Os conteúdos apresentados através das várias representações audiovisuais vão beber à lenda, aos saberes locais e à arquitetura e cenário envolvente.

 

Pelas 21h30 tem início um momento introdutório com uma parada à procura da Moura encantada. O trajeto começa na Praça de Camões, em frente à Câmara Municipal, e dirige-se até à margem do rio, passando por ruas emblemáticas do centro histórico de Chaves. Depois, pelas 23 horas, dá-se início ao Espetáculo Multimédia que conta com a organização da Junta de Freguesia Santa Maria Maior e a Câmara Municipal de Chaves e o apoio da Academia de Artes de Chaves e a Indieror.

 

Na noite de 8 de Julho, começam a surgir os primeiros registos e os habitantes de Chaves vão ser surpreendidos pela combinação surreal entre o universo das lendas e do teatro tradicional com o avanço e o sensacional da tecnologia e artes digitais.

 

Biografia | Grandpa’s Lab

A Grandpa’s Lab é um estúdio visual do Porto, constituído por uma equipa de investigadores dos mais variados campos artísticos – desde de belas artes à multimédia - que criam, em simultâneo, ambientes virtuais e tridimensionais. A equipa utiliza conta com mais de 10 anos de experiência nas áreas do Video Digital, New Media e Cenografia / Desenho de Espetáculo.  

 

O pano de fundo do seu trabalho é a convergência entre a arte, a tecnologia e o design. O processo varia desde a formação e o pensar num conceito até ao produto final, a sua instalação e apresentação. O trabalho do laboratório pode partir de instalações e performances interativas e terminar no design de palcos e espaços para certos projetos em eventos e festivais. Em termos práticos, o estúdio dedica-se à criação de Performances de Video Mapping Imersivo, Ambientes e Instalações Audiovisuais, e Stage Design Profissional.

 

Desde a sua fundação, a Grandpa’s Lab já trabalhou nos mais variados contextos, como o espetáculo de Video Mapping, no Palácio Nicolau, sobre os efeitos do aquecimento global; ou no Terreiro do Paço, sobre o passado e futuro dos costumes de Lisboa; “AV Show” no BNP Paribas Winter Wonderland, com um visor curvo de 170 metros; construção de uma parede de cartão que dividia a pista de dança e o espaço da conferência, no TFF Summit 2015 cujo tema consistia numa viagem ao espaço; entre muitos outros.  

 

09
Jun18

Outeiro Seco - Chaves - Portugal

1600-outeiro-seco (1162)

 

Em Chaves há dois Outeiros, ou melhor, há muitos, mas com Outeiro como topónimo só há dois. Outeiro Jusão e Outeiro Seco. No último sábado estivemos em Outeiro Jusão, hoje vamos até Outeiro Seco. E a respeito dos Outeiros, recordemos o que disse no último sábado:

 

Se é “outeiro” está num alto, e tendo como apelido jusão, deveria estar para baixo. Aparentemente uma contradição, pois jusão significa “para baixo”, “para jusante”, ou seja num alto para jusante, encaixa na perfeição em Outeiro Jusão, isto se tivermos em conta o Rio Tâmega,  a veiga de Chaves e a própria cidade de Chaves, ou seja o outeiro que está ao lado do rio a jusante da veiga e de Chaves, e faz sentido, não só porque o localiza como o diferencia do outro outeiro a montante de Chaves e do rio, ou seja Outeiro Seco, ambas povoações muito antigas.

 

1600-outeiro-seco (621)

 

Pois para Outeiro Seco não tenho qualquer teoria para a origem do topónimo, ainda por cima nem é muito outeiro nem muito seco, aliás até tem um riacho que passa pelo meio da aldeia. É certo que nos anos mais secos o riacho seca, mas qual é o riacho que resiste a um ano de seca? Poderá ser que a origem do topónimo tenha a ver com a localização do povoado antigo, mas isto são tudo suposições que não têm qualquer valor, por isso, passemos à frente, entremos em Outeiro Seco.

 

1600-outeiro-seco (609)

 

Outeiro Seco que já tem passado aqui no blog algumas vezes, não só pela aldeia no seu todo mas também com alguns post´s dedicados em exclusivo ao Solar dos Montalvões. Hoje também não vai ser exceção. Assim, o post terá dois andamentos, o primeiro dedicado à aldeia e o segundo dedicado ao Solar dos Montalvões. Iniciemos pela aldeia e freguesia de Outeiro Seco, que hoje em dia vem a ser a mesma coisa, embora nem sempre tivesse assim sido.

 

1600-outeiro-seco (1362)

 

Aldeia e Freguesia de Outeiro Seco

 

Não vamos ser muito exaustivos nesta abordagem, tanto mais que a aldeia já foi abordada aqui várias vezes,  onde então deixámos muita coisa sobre a aldeia. Hoje faremos uma abordagem diferente, por exemplo supondo que alguém ia visitar Outeiro Seco e nos perguntasse o que lhe aconselhávamos a ver e visitar. Pois bem, é por aí que vamos e a quem me perguntasse, recomendar-lhe-ia entrar pela clássica entrada de Outeiro Seco, a mais antiga, junto à veiga e mais ou menos paralela ao Rio Tâmega e dir-lhe-ia para logo na entrada da aldeia parar e apreciar umas alminhas que lá existem do lado direito. Quem anda comigo na recolha de imagens já sabe que eu sou fã de alminhas, não só por ser um traço do nosso ser português, mas porque realmente as acho interessantes, e estas de Outeiro Seco merecem uma vista de olhos de apreciação.

 

1600-outeiro-seco (422)

 

Pois a partir das alminhas recomendar-lhe-ia ir a pé para logo a seguir parar na Igreja Românica da Srª da Azinheira. Aqui para parar com tempo, apreciar os seus pormenores tipicamente românicos, como as imagens esculpidas nos beirais, mas também a porta principal, e no seu interior, deixar-se invadir pela frescura do espaço enquanto aprecia os frescos das paredes e toda a intimidade da igreja. Mesmo que não seja lá muito católico, aproveite o espaço para meditar em qualquer coisa e deixe-se lá ficar um tempinho. Valerá muito mais que uma sessão de psicólogo ou psiquiatra, suponho eu, pois nunca fui a nenhuma…

 

1600-outeiro-seco (1338)

 

Depois da Srª da Azinheira é só atravessar a estrada e subir o pequeno outeiro (se calha é daqui que vem o topónimo a aldeia) e aí encontrará uma pequena capelinha cheia de história, a Capela de Stª Ana, construída em cima de um altar rupestre. Para ver mais pormenores sobre a história destes locais recomendar-lhes-ia que dessem um vista de olhos ao post completo sobre a aldeia, publicado em 30.10.2010 (https://chaves.blogs.sapo.pt/552520.html).

 

1600-outeiro-seco (1306)

 

Pois de seguida recomendaria que seguisse a Via Sacra até ao seu final, a terminar num outro outeiro, já após a Escola de Enfermagem, que há pouco tempo atrás era também Polo da Universidade de Trás-os-Montes, que hoje é só Universidade de Vila Real. Mas dizia eu que recomendaria atravessar toda a aldeia seguindo a Via Sacra, com muitas paragens pelo caminho, quer para apreciar algum casario ainda tipicamente transmontano e rural que foi resistindo à modernidade, mas também para apreciar a Igreja Paroquial com torre sineira dupla e construída com pedra à vista, mas também a Capela da Senhora do Rosário e a Capela de Nossa Senhora da Portela e também recomendaria visitar a Capela de Santa Rita, se ainda existisse, pois foi vandalizada e de capela pouco restou, ou nada mesmo.

 

1600-outeiro-seco (788)

 

Pelo caminho recomendaria ainda visitar as ruinas do Solar dos Montalvões, com um lamento, que foi igualmente vandalizado com a sua capela (Santa Rita) e o tempo, desprezo e falta de manutenção, encarregou-se de tornar ruinas aquilo que foi um solar- Mas mais à frente falaremos disso. Pelo caminho há ainda umas inscrições curiosas e bem interessantes em padieiras de portas e janelas, em casas particulares. Tanques e fontes também há, uma casa de Turismo Rural, e o largo da Mesa de Pedra onde há sempre alguém que poderá contar a história da mesa e do largo.

 

1600-outeiro-seco (1358)

 

Claro que pelo caminho há sempre gente para conversar, que felizmente Outeiro Seco ainda é uma aldeia com gente e vida. A proximidade da cidade e bom acesso à mesma, facilitou que a sua população não abandonasse, mas também que surgissem novas construções que também levou gente nova para Outeiro Seco. Já dos investimentos municipais que por lá se fizeram – Escola de Enfermagem e Parque Empresarial, com Plataforma Logística, Mercado Abastecedor e Parque Industrial, pouco ou nada mexeram com a aldeia, a não ser o terem ficado sem os terrenos onde tais empreendimentos foram construídos, e depois há que dizer a verdade, tal como muitos previam, a grande maioria dos lotes do Parque Industrial não foram ocupados, e quanto Ao Mercado Abastecedor e Plataforma Logística nunca entraram nem nunca irão entrar em funcionamento como tal, mas sabemos que tem outras funcionalidades, mesmo estando à margem de empreendimentos e economias…

 

1600-outeiro-seco (783-2)

 

Para além  da modernidade, que não é sinónimo de progresso, Outeiro Seco vai mantendo e bem a sua ruralidade e algumas tradições, o cultivo dos campos mas também alguma pecuária vão alegrando os campos e vestindo de verde as terras, mas não só, pois na primavera vai sendo um regalo para a vista ver alguns prados floridos. De tradição, destaca-se a sua festa anual de 8 de setembro, ainda com toda a sua tradição e importância, sendo uma das maiores festas populares do concelho, que, todos concordarão comigo, mete as festas da cidade de Chaves num bolso.

 

01-800-1 solar de outeiro seco.jpg

 

 

Solar dos Montalvões

 

O restante texto irá ser acompanhado de imagens do solar que eu fui tirando ao longo dos anos. Infelizmente só iniciei essa recolha em 2006, no entanto consegui algumas imagens da família Montalvão de datas anteriores.

 

Como todos os solares, este, também estava ligado a uma família, no caso, a família Montalvão, daí, ser o Solar dos Montalvões. Na sua descrição, conforme consta na página de património arquitetónico do governo (http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=35397)  e registada com a referência IPA.00035397 é a seguinte:

 

02-Imagem01 - Cópia.jpg

Data desconhecida

 

Solar dos Montalvões

IPA.00035397

Portugal, Vila Real, Chaves, Outeiro Seco

 

Casa nobre de planta quadrangular irregular, com pátio central, composta por alas construídas em diferentes épocas do séc. 17 e 18, resultando numa planimetria e volumetria irregular, com nítidas diferenças de tratamento e má articulação espacial. O núcleo mais antigo corresponde, provavelmente, ao corpo da cozinha, a sul, a que se acrescentou, na primeira metade do séc. 18, a ala este e norte, dando origem a casa de planta em U. Este foi fechado pela ala oeste, com zona residencial, já construída em 1762, data em que o proprietário pede licença para construir a capela, no ângulo sudoeste, só concluída pela viúva, em 1784. A ala poente transforma-se assim na fachada principal, com ala residencial tardo-barroca, evoluindo em dois pisos e mezanino superior, com pilastras marcando três panos, rasgados por vãos abatidos, o central com portal, sobreposto por brasão, e janela de sacada e os laterais com janelas de peitoril, sendo o mezanino aberto por óculos. O portal brasonado acede ao pátio central, o piso térreo era destinado a lojas e o segundo aos salões nobres, não existindo, contudo, escada interior de interligação ou exterior de acesso a esse espaço mais público da casa, o que exigia ser acedido a partir da cozinha ou pela zona dos quartos, atravessando toda a parte privada. A capela tem já linguagem rococó e maior riqueza decorativa, com a fachada terminada em frontão de lances, e portal de verga reta entre duplas pilastras, suportando o entablamento e frontão curvo interrompido por vão. No interior, possuía retábulo em talha policroma e dourada, de planta côncava e três eixos, de estilo rococó, com influência da Escola de Braga. As restantes alas são mais irregulares e mais baixas, com vãos retilíneos ou abatidos, possuindo escadas de acesso no topo da ala norte e na ala sul, nesta por sul e pelo pátio, onde a guarda é decorada com aletas. No interior, o piso térreo era destinado a lojas e o andar nobre a habitação, com tetos de apainelados de madeira, e cozinha. O vão decorado e datado de 1782, aberto virado ao pátio na ala oeste, pertenceria a uma janela de varandim ou de sacada ou a um portal, à frente do qual não se construiu a escada.

 

03-SIPAImage-arq-fam-mon-1990.jfif

Fotografia da família Montalvão - 1990

 

Ficou atrás a descrição do que era o Solar dos Montalvões, pois hoje são apenas ruinas, na prática apenas se mantêm as paredes de pedra exteriores e algumas, as interiores mais espessas, também de pedra, tudo o resto ruiu, graças a uma série de razões que só nos podem deixar envergonhados, tais como atos de vandalismo de vândalos, falta de manutenção por parte dos proprietários e indiferença, também por parte dos proprietários, da Junta de Freguesia e da população.

 

04-solar montalvoes 2006.jpg

Solar dos Montalvões - Alçado Sul - 2006

 

A história do seu declínio conta-se em meia dúzia de palavras.

 

Após a morte do seu último proprietário habitante, os herdeiros da família Montalvão, em 31 de julho de 1987,  venderam o solar à Câmara Municipal de Chaves por 20.000 contos (aproximadamente €100.000,00 na moeda atual). Um bom negócio para a Câmara Municipal ainda para mais tendo em conta os fins a que se destinava, pois o Solar e a quinta destinar-se-ia a receber as instalações de um Polo da UTAD-Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro, e penso que a intenção era real, pois em 27 de junho de 1997, solar e quinta foram doados UTAD. O facto é que desde a compra do solar, que à altura da compra estava em bom estado de conservação, o mesmo fechou as suas portas e nunca mais as abriu, fosse para o que fosse, nem sequer para a necessária manutenção que todas as construções exigem, sobretudo se estiverem desabitadas. E dia a dia, o edifício ia-se degradando, e dado que “aquilo” deixou de ter dono que cuidasse dele, as coisas agravaram-se com atos de vandalismo aos quais Câmara Municipal, Junta de Freguesia e população assistiam impávidos e serenos a situação.

 

05-solar montalvoes 2006-1.jpg

Solar dos Montalvões - Alçado Sul - 2006

 

A Universidade viria aí e encarregar-se-ia de reconstruir aquilo tudo. Só que não veio, nunca veio e por parte dos políticos da terra também não houve força e se calha também interesse, em que a Universidade viesse. Vai daí, em 13 de setembro de 2007, o doado foi dado por não doado e o Solar regressa a propriedade da Câmara Municipal de Chaves. A partir de aí a pedra instalou-se definitivamente no sapato da CMC. O que fazer com o Solar? Vai para sede disto diziam uns, para isto diziam outros, para aquilo, diziam outros tantos. Fizeram-se levantamentos, estudos, planos, promessas e o Solar continuou na sua de caiar aos bocadinhos, primeiros as telhas, depois vandalizaram a capela, as silvas invadiram a escadaria e cobertura e acabaram por derrubá-la, a estrutura de madeira das coberturas ruiu sobre os soalhos, os soalhos ruíram sobre o chão e as silvas invadiram o interior do Solar. O que fazer do Solar?

 

06-solar montalvoes 2007.jpg

 Solar dos Montalvões - Alçado Sul - 2007

 

 A questão continuava, ideias muitas, projetos a avançar nenhum. Venda-se! Entretanto alienou-se parte da quinta para a Escola de Enfermagem, para um campo de futebol, para a construção de não sei que que ficou quase pelos alicerces e o resto da quinta para lixeira municipal, que em tempos, segunda informação dada neste mesmo blog pelo Presidente da Junta ou Ex-Presidente (já não sei bem), aquilo não era lixo, mas sim depósito de materiais para futura reutilização… Venda-se! E em 2012, “O Solar”, apenas o solar, pois a quinta já tinha ido à vida,  foi a hasta pública pelo valor de €260.500,00, para a qual apareceu uma proposta de €100.500,00 abaixo da base, e daí ter sido excluída. Nesta fase do campeonato, ao Solar, apenas lhe restam as paredes estruturais de pé, que a continuarem assim, nem estas resistirão. Na ausência de ideias para o imóvel, ponha-se de novo à venda! E em 14 de fevereiro de 2014, a Câmara Municipal  delibera de novo por o Solar à venda por €236.600,00, com a aprovação da proposta por maioria, com a abstenção do vereador do Partido Socialista, o qual apresentou uma declaração de voto, a saber:

Sobre o assunto em apreciação, usou da palavra o Vereador do Partido Socialista, Senhor Eng. João Adérito Moura Moutinho, tendo apresentado, por escrito, a seguinte declaração de voto: Somos de parecer que o lote A (Q.ta dos Montalvões) não deve ser vendido, pelos seguintes motivos:

 

07-solar montalvoes 2010.jpg

Solar dos Montalvões - Alçado Sul - 2010

 

  1. Valor histórico do edifício.
  2. Localização do mesmo e dimensão do prédio rústico.
  3. Património imobiliário presentemente com baixa valorização.
  4. Haver perspetivas de aí poder ser instalado o Pólo Universitário de Chaves, através da celebração de parcerias com outras instituições para além da UTAD. - Este último ponto para nós é de extrema importância, pois ainda continua no nosso horizonte, dotar esta cidade com um Pólo Universitário de excelência, nos diferentes domínios do saber, focado principalmente na área da engenharia. É de referir que a nossa cidade é das poucas que não têm um Pólo Universitário, digno desse nome, possuindo o concelho e região do AT um elevado número de estudantes na área da engenharia, que têm de sair da sua região. Esperamos que este executivo autárquico não desista da prossecução deste objetivo.

 

Palavras e sonhos bonitos que de nada adiantaram, pois a proposta já estava aprovada.

 

08-1600--outeiro-seco (1290)-2011.jpg

Solar dos Montalvões - Alçado Sul - 2011

 

Então venda-se o Solar  €236.600,00 em hasta pública, só que ninguém se chegou à frente, não houve interessados e a hasta pública ficou deserta. Segundo a Lei vigente, nos termos do disposto na alínea c), do nº2 do Artigo 81º do decreto-Lei nº 280/2007, de 7 de agosto – Regime do Património Imobiliário Público -, pode ser adotado o ajuste direto, para a realização da venda, quando a praça da hasta pública tenha ficado deserta. Pelo que, mediante a Proposta nº 60/GAP/2014, aprovada pelo executivo camarário na reunião de 09 de junho de 2014, o Presidente da Câmara ficou legitimado a entabular, institucionalmente, diligências em vista a serem encontrados potenciais interessados na aquisição dos imóveis objeto do procedimento público que ficou deserto.

 

09-capela-do blog velharias doluís.jpg

Altar da Capela já propriedade da CMC, ainda com o altar 

Data desconhecida - Foto da Família Montalvão

 

Tudo bem se não fosse a data dos acontecimentos, pois esta deliberação é tomada em pleno fim de mandato e na prática já em campanha eleitoral autárquica e aconselharia o bom senso e até talvez a ética que tais decisões não se tomassem em períodos de campanha eleitoral. Mas enfim, se a Lei o permite, esteja correta ou não, há que acatá-la e vai daí que o Sr. Presidente da Câmara António Cabeleira, para o efeito, ao abrigo do disposto no nº 2, do Artigo 105º do citado regime jurídico, com as necessárias adaptações, remeteu convite, no dia 06 de abril de 2016, para apresentação de proposta, nos precisos termos das normas disciplinadoras do procedimento de alienação, aprovadas pelo competente órgão municipal, à sociedade “Flavigrés, S.A.”, com sede em Chaves, e a Mário Manuel Garcia, residente em Vallorbe, Suíça, para apresentação de proposta tendente à aquisição dos imóveis. Azar do c, da coisa, “Durante o prazo concedido para o efeito, nenhum dos agentes económicos convidados apresentou proposta para a aquisição dos ditos imóveis”.

 

10-1600-outeiro-seco (516).jpg

Altar da Capela - 2016

 

 

Volta tudo à estaca zero, mais eis que o Sr. Presidente, num ato de magia, saca de um trunfo da manga, não sei como, mas descobre o Dott. Matteo Arthur Colombo me Bresso, na Itália e faz-lhe um convite para aquisição do Solar. Assim, no dia 04 de setembro de 2017, ao abrigo da credencial administrativa que lhe foi conferida, foi, mais uma vez, encetada diligência tendente à alienação dos aludidos imóveis, mediante a expedição de convite para apresentação de proposta de aquisição ao agente económico Dott. Matteo Arthur Colombo, com morada na Via del Molino, 29, 20091 Bresso (Milão), Itália, nos termos oportunamente definidos. No prazo definido para apresentação da proposta – 13 de outubro de 2017 -, veio o empresário convidado, sócio e gerente único da sociedade “SOLAR INVESTMENT – Imobiliária, Lda.” – NIPC 514567520, responder ao convite formulado, apresentando proposta global de aquisição, dos ditos imóveis, pelo valor de €221 220,00 (duzentos e vinte e um mil, duzentos e vinte euros), a qual veio a ser registada nos serviços municipais sob o nº 2017, DCG, E,G, 7507, de 22-09-2017. 8. Tal proposta, consubstanciando a intenção de adquirir os imóveis sitos em Outeiro Seco, e conhecidos por “Solar de Outeiro Seco e “Eira”, inscritos na respetiva matriz predial urbana sob o artigo 123º e na matriz predial rústica sob o artigo 4945º, descritos na Conservatória do Registo Predial sob os números 504/19870728 e 3519/20090311, iguala o valor base da “hasta pública”.

 

11-800-outeiro-seco (519).jpg

Altar e teto da Capela - 2016

 

Embora no documento se diga que a proposta iguala o valor base da hasta pública, na verdade, nas condições de alienação dos bem imóveis definidos em fevereiro de 2014, tal valor era de €236 600,0, a diferença não é grande, apenas de €15.380, e talvez, dado o estado lastimável em que se encontravam os restos do Solar, tivesse sido considerado um pequeno desconto.

 

12-solar montalvoes 2016.jpg

Solar dos Montalvões - Alçado Sul - 2016

 

Facto: O Solar foi vendido ao  Dott. Matteo Arthur Colombo que a sociedade SOLAR INVESTMENT – Imobiliária comprou.

 

Diz-se p´raí: Que vão la fazer uma unidade hoteleira de luxo.

Pois Deus queira que sim, que se faça alguma coisa digna naquele espaço e daquele solar, no entanto, na venda do imóvel não havia nenhuma cláusula que obrigue o novo proprietário a fazer o que quer que seja, se quiser até o pode reconstruir e por uma luzinha vermelha na porta de entrada… ou pôr pratos prontos a comer do tipo “El Rancho a la transmontana”, com estacionamento privativo…

 

12-11600-solar-16 (63).jpg

Solar dos Montalvões - Interior - 2016

 

 

Alguns post’s blogs que ao longo dos tempos foram dando conta do que se passava em Outeiro Seco e com o Solar dos Montalvões:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/outeiro-seco-solar-dos-montalvoes-nos-1340988

http://ruinarte.blogspot.com/2014/08/solar-da-familia-montalvao-outeiro-seco.html

http://velhariasdoluis.blogspot.com/2009/10/outeiro-seco.html

https://andanhos.blogs.sapo.pt/reino-maravilhoso-patrimonio-em-46837

https://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt/ruinas-do-solar-dos-montalvoes-765443

https://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt/arte-ou-vandalismo-ruinas-do-solar-742033

http://velhariasdoluis.blogspot.com/2010/05/como-era-interior-da-capela-do-solar.html

 

As fotos que não são de nossa autoria, são ou foram retiradas do blog “Velharias” de Luís Montalvão.

 

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Sim este é o S. Lourenço de Chaves"Eu sei que há m...

    • José Pombal

      Com o devido respeito, o nome destas localidades, ...

    • Anónimo

      Caro Fernando Ribeiro. Agradeço as suas diligência...

    • Anónimo

      (Esta (só?!...) placa não merece «Re-qua-li-fi-ca-...

    • Fer.Ribeiro

      Não sei mas vou tentar saber. Abraço.