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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Jul19

...

1600-chavesdaurora

 

 

  1. “RAYITO DE SOL”.

 

Aquele raiozinho de sol (à falta de outra imagem original, porém tão bem apropriada) veio trazer um novo alento à vida de todos que habitavam a Quinta Grão Pará. A mãe da bebé já estava quase destinada a ver seu rebento apenas à hora de mamar, ora pois que a avó, as tias, os tios e as barrosãs se revezavam em colos, mimos e carinhos.

 

Enternecia-se Aurora, porém, a um todo só, sempre que tomava entre os braços aquele pedacinho vivo de seu inesquecível Hernando e, para fazê-la dormir, entoava antigas e bem populares canções de ninar:

 

“Minha filhinha tem sono

tem soninho, quer dormir.

Tragam os anjinhos do céu

roupinhas para a cobrir.”

 

“Quem tem meninos pequenos

sempre lhes há de cantar

Quantas vezes as mães cantam

com vontade de chorar.”

 

Ainda que, ao marido, não se lhe notasse qualquer sinal de expressa ternura, Florinda comovia-se, muitas vezes, ao perceber que ele estava a observar, primeiro de longe, depois a certa distância e, enfim, a um espaço cada vez menor, a graciosa netinha. Na verdade, admirar Fatinha era de causar muito gosto ao Papá e ele o fazia de modo bem afetuoso. Se em tal o surpreendessem, todavia, disfarçava o mais que pudesse e se afastava do recinto. Quanto a Hernando, jamais viu a filha, senão algumas vezes, de longe, quando esta passou a dar os seus pequenos passeios matinais.

 

Nos primeiros dias, os Reis evitaram que mostrassem a bebé à janela, pois algumas pessoas curiosas, entre elas as terríveis Vila-Passos, haviam resolvido de repente passear por aquelas bandas, ansiosas por verem a novidade. O que havia de novo era apenas um serzinho que ainda sabia tão pouco desse belo, feio, alegre, triste “mundo, mundo, vasto mundo”, como no poema do brasileiro Carlos Drummond de Andrade, posterior àqueles tempos e que assim se completa – “se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”.

 

 Quando os curiosos se cansaram, facultou-se, enfim, à Fatinha, registar em seus olhinhos outros sítios da vila flaviense.

 

 

  1. LÍNGUAS VICIOSAS.

 

Não só as drogas viciam, coscuvilhar a vida alheia também transtorna a existência de certas pessoas adictas a esse mal, tornando-as...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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23
Jul19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. CHAVES DA MORTE.

 

Aurora ergueu-se de novo, como se estivesse diante de um coro de anjos a entoar réquiens para si. Conforme relatou Aurélia, que então assistia a irmã, eis que a moribunda, algum migalho depois, com um ar beatífico no semblante, pendeu a cabeça para o lado e caiu, enfim, no que a Lilinha anteviu como – Ai, Jesus, o sono mortal! – e logo esta se pôs a chamar pelos mais da casa, a que todos acudissem ao desenlace.

 

Afonso pediu a Maria que fosse correndo falar aos ciganos que alguém na Quinta estava a se finar. Alguns instantes depois, novamente o silêncio dominou todo o Caneiro e o Raio X. Maria voltou da casa dos Camacho, a dizer que todos estavam a pedir mil desculpas, ora, pois que, por lá, ninguém sabia do que estava a ocorrer com a menina. Ao que João Reis pensou – Muito menos aquele que, acerca de tudo o que se passasse com Aurora e a bebé, por nada e jamais deveria ignorar!

 

 

À manhã seguinte, quando o sol exibiu de novo a sua cara, a passear pelos prés e trás os montes, Aurita acordou para uma inesperada ressurreição. Alcandorava-se, agora, apenas para o mais íntimo e esperançoso dos céus. O seu, interior. Todos da casa mostraram-se maravilhados. Florinda lembrou-lhes, porém, que continuassem a rezar. Sabe-se bem do que sói a muitos enfermos. Quando já prestes a falecer, têm o seu dia de melhora, como se lhes fosse concedida a última chance de dar um sereno adeus aos entes queridos e ao próprio mundo.

 

Na tarde desse mesmo dia, uma empregada dos Camacho veio dar um recado de dona Mariazita, a pedir desculpas pela cantoria da véspera e a desejar que a menina Aurora tivesse um pronto restabelecimento. Votos quase tardios, pois aconteceu que, algumas horas depois, após pedir que lhe mostrassem de longe a adorada filhinha, Aurora entregou a sua alma a Deus e o corpo... Bem, o corpo, ela o entregou a uma suculenta canja. Depois levantou-se, escovou os dentes com a nova pasta dentífrica Oriental, fez a toalete e, após o pequeno-almoço, tomou um longo e refrescante banho com o recém-lançado sabonete Cadum.

 

 Nos dias posteriores, esteve mais e mais a recuperar a saúde, para assombro do doutor Fagundes, do Padre Augusto e de todos os mais.

 

 

  1. “RAYITO DE SOL”.

 

Aquele raiozinho de sol (à falta de outra imagem original, porém tão bem apropriada) veio trazer um novo alento à vida de todos que habitavam a Quinta Grão Pará. A mãe da bebé já estava...

 

 

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09
Jul19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CHAVES D’ ALMA.

 

Era sábado e um facto inusitado aconteceu com Aurora. Ela ergueu-se da cama e se pôs a caminhar, deixando atónitos a todos por quem passava e não conseguiam detê-la, enquanto permaneciam imóveis, os braços inertes, olhos esbugalhados, faces sarapantadas. Abrigada em um capote bem grosso, de lã e gola de raposa, que lhe ia até aos pés, com a cabeça e o pescoço envolvidos em um enorme xaile, sob um chapéu revestido de veludo, desceu a escada externa, atravessou o pomar, galgou a estrada e atravessou por entre as veredas, até chegar à Azenha dos Agapito.

 

Não se podia definir, àquele outono, se era dia ou noite, pois tudo estava brumoso e frio. Tudo era névoa. por diante e em volta de si. À beira de uma das sendas da azenha, parou diante de uma cruz de pedra que encimava uma campa solitária. Era seu o nome de quem ali jazia, deixando-a consternada, mas os versos escritos deram enlevo a sua alma:

 

“Aqui dorme o sono da saudade. Nos céus deve ter aparecido uma nova estrela de muito brilho e, tal qual a estrela Dalva, que dela se tenha melhor visão na aurora do dia!  Com todo o teu brilho, foste a aurora de todos que te amaram”.

 

Conformada de si e de sua própria passagem para o Quem Sabe, caminhou pelas orlas do Tâmega, por entre amieiros e chorões, até um ponto mais distante da vila, um sítio onde o rio era um pouco mais profundo. Uma vez que, àquela época, não houvesse outras pontes além das Poldras e da via romana, pequenas embarcações costumavam transportar, de uma margem a outra, pessoas com cestas de roupas, animais domésticos, géneros alimentícios e o mais, de seus trazidos e levados.

 

Ao chegar ao pequeno ancoradouro, havia apenas um barco. Aurora, por única passageira, sentou-se à proa e o bote começou a deslizar sobre as águas. Como o grego Caronte, o mitológico ser da travessia no Hades, um barqueiro surgiu de repente das brumas e, com a face incógnita pelas sombras, começou a entoar uma cantoria popular de Segirei, aldeia então meio esquecida no extremo nordeste do Concelho, já na fronteira com a Galiza:

 

“Atirei com uma laranja

por cima de Chaves fora.

A laranja vai dizendo:

fica, Chaves, vou-me embora”.

 

Aurora reconheceu aquela voz e olhou para o barqueiro. Protegido do frio por um sobretudo escuro, chapéu de feltro e uma luva cor de morcela, este remava em pé como um gondoleiro veneziano. Parecia agora bem mais alto, ainda mais belo e até bem mais forte do que sempre fora o seu Hernando. O amado estava ali, diante dela, a olhar para si, sorridente e a cantar:

 

 “Dá-me um beijo, ó menina

dá-me um beijo, ó meu amor

dar beijos não é pecado

desprezá-los é que é dor”.

 

Ergueu-se de chofre, embasbacada. A voz de Hernando continuou:

 

“Pensastes por me ver rir

que já me tinhas na mão

eu não sou tão labaceiro

que colha a fruta no chão”.

 

– Ai meu bom Deus! Será que de facto morri? Há de ser mesmo tu, Hernando, ou é o Demo que está a me deixar com água na mioleira?! – Ele nada respondeu e prosseguiu a cantar, enquanto partes de seu corpo iam-se desintegrando, até sua face, por fim, sumir na densa neblina.

 

 

  1. CHAVES DO MUNDO.

 

Logo estava ela, de novo, em seu leito de extrema-ungida, sob o odor dos círios, junto ao oratório de louça e dos unguentos,...

 

 

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02
Jul19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. “DOZE PALAVRAS”.

 

 

Algo símile a uma depressão pós-parto, e tudo o mais de que Aurora se afligia, acabaram por levá-la a um estado febril e debilitado. Isso passou a preocupar seriamente a todos da casa, mesmo ao austero Papá e à bulhenta Aldenora. Convocados de novo os serviços do doutor Fagundes, este deixou ainda mais aterrados os familiares, com o seu diagnóstico definitivo. Era um caso de extrema gravidade, com alto risco de vida para a jovem puérpera. Saía por uma porta o médico, cabisbaixo e, pela outra entrava o estimado tio Augusto. Florinda resolvera pedir os ofícios religiosos ao cunhado, ao lembrar que os outros curas estavam sempre cercados por um grupo de velhas beatas.

 

Tais piedosas senhoras, como de costume, tão logo sabedoras de que o Viático ia ser levado aos enfermos, punham-se a acompanhar o untador in extremis e a cantar pelas ruas, em coro, seus réquiens populares, com suas vozes trémulas e desafinadas, similares ao grasnar dos corvos. Sempre a um alto e bom som, além de perturbarem o sossego público, extremavam-se em untar os já fracos ouvidos do moribundo, com óleos quentes de tortura medieval, ao aproximarem pouco a pouco, do pobre agonizante, essa escandalosa presença da Morte. Mormente que, desse grupo de carolas, sempre faziam parte as irmãs Vila-Passos, ávidas e aptas a colherem novos dados para os seus mexericos.

 

Tal e qual ocorrera na véspera do falecimento da gentil Isménia, para suplício desta e de sua dedicada amiga que, de modo educado mas firme, pediu que dispensassem essas tão caridosas melopeias. Alguns dias depois das exéquias, quando começaram a se espalhar insinuações maldosas sobre Edite e a falecida, nunca antes proferidas, as Vila-Passos foram visitadas em casa por dois homenzarrões estranhos, contratados não se sabe por quem, a lhes dizerem que, caso continuassem com esse disse-me-disse, seriam sequestradas, dopadas, reclusas em um engradado especial e enviadas para um país no Oriente, onde seriam vendidas como escravas, para o desfrute sexual de um jovem sultão pervertido, cujo harém era composto apenas de mulheres idosas, como elas. Com os olhos esbugalhados e os corações aos saltos, as Vila-Passos enrolaram suas línguas respetivas, deram-lhe nós e as recolheram, goela abaixo, parando de tagarelar por vários dias. E nunca mais tocaram no assunto pelo qual estavam a ser ameaçadas...

 

 

Após dar à sobrinha a unção sacramental, Augusto saiu pesaroso daquele quarto, que estava prestes a virar uma câmara mortuária. Aceitou apenas um pouco de chá. Por estar o irmão José a se trancar em seu gabinete, cada vez mais asténico e sorumbático, o padre dirigiu-se outra vez à cunhada – Sabes que os segredos da confissão são invioláveis, mas posso dizer-te o que percebi, nos momentos em que a menina ainda não estava a se confessar. Ela está muito arrependida, por certo; mas está mais ainda por vós, do que por suas dívidas para com Deus. E saibas que ainda se vê a andar por cá esse gajo irresponsável – Ai, meu cunhado, oh Padre Augusto, o que me dizeis?! Por cá?! – Sim, minha boa Florinda, por cá, digo eu… lá nela, em seu coração – e desceu triste a escada até à rua, para assomar ao landó.

 

 

Logo a sábia e vivida Zefa de Pitões começou a recitar as “Doze Palavras Ditas e Retornadas”, enquanto passava pachos de água fria na testa de Aurora. É um rito ancestral em forma de melopeia, que a barrosã aprendera por aí, em alguma aldeia e cujo objetivo era tentar afastar o Diabo de alguém que está morrendo. Em seu formato, tem uma origem milenar, talvez druídica e pré-cristã, com outras variantes e versões, inclusive as recitadas por budistas, islamitas, judeus e os mais. A boa criada estava, pois, a orar contrita ao Anjo Custódio, dizendo frase por frase – “Uma é a casa de Jerusalém, onde Cristo morreu para o nosso bem; duas são as tábuas de Moisés, que no fundo do mar pôs os pés; três numa só entidade é a Santíssima Trindade; as quatro palavras escritas são dos quatro evangelistas; as cinco dores na cruz são as Chagas de Jesus; são de seis iluminadas, as velas bentas e sagradas; do batismo ao casamento são os sete sacramentos; oito chaves de esperança são as bem-aventuranças; nove meses Jesus nascente, Nossa Senhora traz no ventre; diz na Lei do cumprimento, que são dez os Mandamentos; onze mil santas com véu, Onze Mil Virgens no Céu; doze apóstolos da Luz, os discíp´los de Jesus; onze mil santas com véu, Onze Mil Virgens no Céu; diz na Lei do cumprimento, que são dez os Mandamentos; nove meses Jesus nascente, Nossa Senhora traz no ventre…” – até voltar à primeira frase e repetir a ordem crescente, original, em um demorado salmodiar. Eis que, afinal, concluíu – “Três raios tem o Sol, três raios tem a Lua, arrebenta, Seu Diabo, que esta alma não é tua! “

 

Maria, a outra barrosã, também rezava baixinho, a misturar alguns responsos de sua terra em um só – “Alma, ‘aspecto’ do corpo, / vai ver a ‘facia’ divina / vai dar contas ‘ó’ Senhor / da sua santa doutrina. / Ave-maria puríssima / dentro do cofre sagrado / vinde salvar esta alma / para sempre seja louvada! / Quatro cantos tem a cama / quatro círios estão a arder / quatro anjos lhe acompanhem / a quem está para morrer / quatro ‘ós‘ pés, quatro à cabeceira / Nossa Senhora na dianteira!”

 

Essa foi uma longa noite para os Bernardes. Papá começou a pensar nos preparativos do enterro. Florinda, em coser a mortalha de Santa Catarina, madrinha espiritual de sua Aurita. O sofrimento e a consternação geral se estenderam por todo o dia seguinte.

 

 

  1. CHAVES D’ ALMA.

Era sábado e um facto inusitado aconteceu com Aurora. Ela...

 

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25
Jun19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. CHAVES DA VIDA.

 

Chegou setembro. Além de tudo que lhe doía n´alma, outras dores vieram fazer Aurita sofrer bastante, ainda que por uma causa prevista e natural. Começaram a lhe apertar as contrações do parto e, como era usual em toda a Chaves, chamaram uma parteira experiente, com muitos cordões umbilicais já cortados, em seu currículo de melhor profissional do Concelho. Era a senhora Maria dos Anjos, cujo nome não condizia lá muito bem com as suas funções, mas era excelente parteira e, em todos os seus anos de aparadora de bebés, poucos anjinhos mandara ao Campo Santo.

 

Apesar de entregarem, a essa vivida porteira do Mundo, as chaves de uma tão preciosa vida a desabrochar, os da casa puseram-se a rezar preocupados, inclusive o Papá que, em silêncio, dizia palavras de súplica ao Bom Jesus de Matosinhos. Ao frigir dos ovos, até Aldenora e Lilinha se desfizeram em lágrimas e esqueceram todos os infortúnios que a conceção desse bebé causara a todo o clã. Desmediam-se agora em preces por ele e pela própria e desatinada irmã, para que tudo viesse a bom termo, na santa paz de Deus e a felicidade geral daquele lar.

 

Lá pelas tantas, o parto complicou-se e a dos Anjos disse a Florinda que estava a perder a mãe. Quanto à criança, nem poderia saber se ela, a parteira, não acabaria naquela noite a fazer jus ao seu nome, até então não condizente. Visivelmente nervoso, Reis instou a Maria de Tourém que corresse à casa do cocheiro e este voasse com o landó, a buscar o doutor Abel Fagundes. Enquanto isso, discretamente, a boa Zefa, conforme aprendera ainda mocinha, punha-se a defumar a parturiente por baixo da cama, com penas de perdizes e a murmurar uma oração, que trazia de cor desde sua aldeia – “Nossa Senhora a m’ ouvir, abra a porta a quem quer sair!

 

Apesar de suas vivências, ciências e experiências, o médico não se furtou algumas vezes, durante os procedimentos, a trocar ideias e a confabular com a velha parteira. Chegaram felizmente a bom termo, concedendo à parturiente o milagre pelo qual Nossa Senhora do Bom Parto, a grande dama invocada, já estava devidamente habilitada a realizar, graças aos incessantes e incómodos apelos que, diante do oratório, faziam arder com cera quente os seus delicados ouvidos.

 

Ao profundo silêncio daquelas paragens, um choro de bebé marcou sua presença em Chaves, anunciando as primeiras emoções de uma criança em sua chegada ao mundo. Espalhou-se pelo casarão, pelo pomar, pelo Raio X e por toda aquela parte da veiga já povoada.

 

Maria de Fátima, com seus encantos infantis, vinha trazer ao buraco negro do atual universo da quinta, as únicas alegrias consteladas que aquele inferno astral não poderia tragar.

 

 

 

  1. SENSAÇÕES PESSOAIS.

 

 

Mareado, em consequência de umas pândegas na véspera, Hernando acordou por alguns instantes e começou a sentir um princípio de ternura por aquela criaturinha que acabava de vir ao mundo. Logo espantou de sua mente, todavia, tais insetos sentimentais. Preocupou-se apenas em juntar o polegar ao indicador e expulsar, com um piparote, o incómodo mosquito que, a essa altura e de verdade, girava em torno de suas orelhas. Tornou a dormir, não vindo mais a se lembrar do que escutara, sonolento, ao meio da madrugada.

 

Dona Mariazita, porém, sentiu-se comover com aquele serzinho, que ela sabia ser mais um dos netos e o primeiro filho de seu amado Hernando. Desgostava-lhe que os factos fossem assim e assim tivessem de ser, de sorte (ou azar) que essa criança gajina, sangue de seu próprio sangue, não viesse a ter, de acordo com os ritos próprios, um batizado ao feitio de seu povo. Cristão sim, mas bem mais alegre, pois à moda cigana.

 

Gostava também que essa criança, ao receber a primeira mamada e por ser a mãe gajina, coubesse a ela, Mariazita, conforme a tradição, dizer ao ouvido do bebé o seu nome secreto, em Caló. Individual e único, ela nunca iria revelar essa alcunha, nem mesmo ao neto quando crescesse, nem a ninguém, mas sempre o repetiria para si mesma, quando estivesse a rezar por aquilo a que fora dado: proteger a criança dos maus-olhados e de outras adversidades.

 

Enquanto isso, na Grão Pará, todos se enterneciam em volta da recém-nascida, exceto Papá. Embora estivesse a morrer por dentro de emoção e curiosidade, não pediu que lhe viessem mostrar a neta, nem foi ter ao quarto de Aurora, ao menos para perguntar quão bem ou quão mal a filha estava. Após Florinda mandar Zefa levar um caldinho quente à recém-parida e Maria servir um bem consistente repasto à parteira e ao médico, Reis agradeceu a estes dois e os remunerou regiamente. Dava assim por cumpridos, enfim, os seus deveres de patriarca. Recolheu-se ao leito, sem ao menos esperar por sua Flor.

 

Escondeu, entre os lençóis, a alegria de tudo ter corrido bem, sob as bênçãos e os cuidados do bom Deus e também dele, o verdadeiro deus que estava ali, a administrar com pulso forte as suas lojas, seus bens e a vida de todos os seus. Isso tudo deveria ser, para os mais, algo digno de admiração e elogios, mas os outros não pensavam assim. Sobre tanto e a quanto disso, nada e ninguém se expressava. Todos achavam que ele estava apenas a cumprir com o seu dever e eram muitas as bocas que, ao menor deslize seu ou de algum dos seus, como ocorrera à infeliz Aurita, logo estariam prestes a repreendê-lo, classificando-o como um péssimo chefe de família.

 

 

  1. “DOZE PALAVRAS”.

 

Algo símile a uma depressão pós-parto, e tudo o mais de que Aurora se afligia, acabaram por levá-la a ...

 

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18
Jun19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. ANARQUISTA.

 

Rodrigo agora se entregara de vez às ideias do Anarquismo e estava de malas prontas para São Paulo, uma cidade brasileira que começava a se expandir e ganhar os ares de metrópole, a imensa urbe na qual, algumas décadas depois, viria a se tornar. Por lá, um companheiro italiano estava a lhe arranjar trabalho em uma fábrica de sapatos e já o esperava para compartir, consigo, a militância política, em uma célula do movimento anárquico-sindical.

 

Havia muito tempo, todavia, que deixara de fazer suas visitinhas à Quinta, quando,  muito a contragosto de Mamã, temerosa de aborrecer ao marido, ele cantarolava hinos como a Marselhesa e a Internacional, com o vinho a dedilhar em suas artérias, e proferia os seus  discursos exaltados sobre o amor livre, os novos tipos de relações familiares e sociais, a emancipação e a liberdade da mulher proletária, até que, por fim, já calmo, falava sobre assuntos mais amenos e cómicos, o que fazia as primas se divertirem, gostosamente.

 

Assim que soube da gravidez de Aurora, já noticiada no Concelho, do Zéfiro ao Simum, Rodrigo cuidou logo de ver a prima, a quem tratava como irmã. Estavam ambos emocionados, ainda mais porque esse momento era, também, o da despedida, já que ele viajaria daí a poucos dias para o Brasil. Perguntou-lhe apenas – Sofres? – Aurita se pôs a chorar, ao que ele murmurou – És mulher – e explicou – És mulher, neste sistema capitalista, misógino e machista – calou-se e deu à prima um terno e comovido abraço, enquanto deixava suas lágrimas também caírem, livremente.

Apesar de falastrão, o rapaz sabia que, em certos instantes, o silêncio diz mais do que todas as palavras do mundo.

 

 

 

  1. SOLIDÁRIA.
  2.  

Com ares de muito frescor e louçania, Adelaide acabara de chegar do Funchal, onde estivera por vários meses e de onde trouxera, a fim de passar consigo algumas semanas em sua casa, um belo, forte e muito jovem rapaz, a todos apresentado como um dileto sobrinho. Só não dizia aos da Vila é que ele era, de facto, seu parente, mas sem qualquer vínculo biológico. Na verdade, era filho do primeiro matrimónio de uma cunhada de Dedé, a que acabara de enviuvar do irmão da açoriana. Era esse rapazola que estava a dirigir, agora, os quefazeres da casa de Adelaide, a Carochinha e o mais. Sobretudo... o mais!

 

Ela cumprimentou Mamã e invadiu a Grão Pará em grande estilo, estrepitosamente, como sempre. – Onde está a minha boa menina? Ai que me deixas vê-la, minha boa Florinda! Alcanças-me falar com a rapariga? – o que fez Florinda empalidecer. Olhou para Aurélia e esta devolveu à mãe o mesmo olhar de apreensão. Ah se o marido estivesse ali, àquela altura. Saberia por certo o que fazer. Ainda tentou balbuciar alguma desculpa, mas não conseguiu, enfim, dizer não. – Tem que ser, não é? – pediu à filha que fosse chamar a irmã e – Então, Dedé, como soubeste? Quem te contou?

 

Dedé surpreendeu-a – Não soube. Quer dizer, quando estava a partir para os Açores, falava-se muito à boca pequena, cá em Chaves, sobre a ausência da menina. Então deduzi. Sabes muito bem o quanto sou vivida. – e lhe mostrou uma carta – Vês? Ela cá já me dizia que ainda continuava a gostar do gajo e nunca, jamais, ia deixar de amá-lo. Sabes que eu… eu passei duas noites sem dormir, a congeminar se devia falar-te ou não sobre essa carta, mas… – Olhou fixo nos olhos da amiga – fosse como fosse, a quem deveria trair a confiança? A ti? A ela? Ou a ambas?

 

Fez uma pausa e suspirou, teatral – Oh, dúvida cruel, percebes?! Mas logo um telegrama de minha cunhada estava a me chamar ao Funchal. Então escrevi à menina, com o melhor palavrório que pude, para dizer-lhe que... ah, me perdoa, Flor, pois sei que jamais falarias assim à tua Aurita... dizer que nós mulheres devemos ser donas do nosso próprio corpo e, nesse corpo, do nosso próprio nariz! – Dedé!!! – Calma, Flor! Logo acrescentei que, no mundo em que vivemos, ainda custaremos muito a fazer o que nos der na veneta. Disse-lhe, também, que amar é bom, mas nós, mulheres, acabamos sempre como as únicas responsáveis pelas consequências do amor. Ainda mais quando o amado é um bruto inconsciente.

 

Cuspiu com força e raiva a uma escarradeira de louça, com belos desenhos floridos e pés de aço, que ficava a um canto da sala. Após um breve silêncio, concluiu – Por isso, ou nos obrigamos a amar muito mais com a mente do que com o coração, ou, se preferirmos o contrário, estaremos mais fritas do que sardinha em óleo fervescente. Para certos seres humanos, o Amor em forma de paixão é faca a cegar, trovão a ensurdecer, sangue a empedrar nas veias, coágulos a se formarem nas artérias do próprio cerne da alma e, muitas vezes, a destruí-la.

 

Aurita tirou a bata, ajeitou os cabelos e foi ter à sala, onde se atirou nos braços de Tia Dedé, como ela e as irmãs a chamavam com carinho. Adelaide sorriu-lhe, mas não se entregou mais a nenhum riso nessa tarde, ao mesmo tempo que, à Florinda, assombravam as palavras graves e sérias com que aquela mulher aconselhava sua menina, ainda que com certos argumentos que estavam acima do alcance de uma pobre senhora conservadora, devota e cristã. Eram modos de ver a vida que estavam muitos anos adiante do tempo, até mesmo para a própria Adelaide.

 

Flor também percebia, porém, que as sábias palavras daquela mulher do mundo estavam de novo a passar por sua menina, como que, mal chegadas do Barrosão, logo a partirem para o Brunheiro. Ao vento. Em vão.

 

 

  1. CHAVES DA VIDA.

Chegou setembro. Além de tudo que lhe doía n´alma, outras dores vieram...

 

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11
Jun19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. CILÍCIO E SAMBENITO.

 

 

Bem mais do que a Cerimónia do Chá, que Alfredo celebrara com a sua gueixa brasileira, atrás do biombo japonês, sua progressiva consciência era a de que a obediência filial veio conduzi-lo a uma outra cerimónia, aquela que, por definitiva e já sacramentada, parecia-lhe merecer, agora, uma única sensação: arrependimento. Tal compreensão dos factos conseguira fazer o rapazola mergulhar no banzo de uma perda irreparável. Não tanto a perda anatómica da esposa, mas a dele, o desperdício de sua juventude, esse lapso de vida que ele próprio, por impetuosidade hormonal, ajudara a interromper.

 

Abria-se lhe, ademais, uma outra perceção, mais recente, apesar de sua pouca idade e ele não ser dado a maiores voos filosóficos. Pelo facto de ser o único do clã que continuava a manter relações normais com todo mundo, Alfredo começava a considerar (ao seu modo mais simples de pensar, não o traduzido por este narrador) que, no mor das vezes, aquilo tudo que, agora, estava a fazer da Quinta Grão Pará um verdadeiro pórtico onde se lia – “Deixai toda esperança, vós que entrais!” – era bem mais, na verdade, um delírio dantesco de perseguições dentro da mente de seu pai e das irmãs, a entronizarem a culpa de algo pelo qual nenhum deles, nem mesmo Aurita, deveria ficar tanto tempo a se flagelar como estoicos penitentes.

 

 Para Alfredo, a partir de uma conversa com o primo Rodrigo, não era senão uma pequena parte da sociedade flaviense que se comprazia em entregar aos Bernardes o cilício ou o sambenito. Não seria melhor deixar esses poucos cães sarnentos a ladrar e a beber a baba de sua raiva, enquanto a caravana dos seus familiares continuasse a passar, altaneira, com um profundo desdém por essas matilhas de imbecis? Alfredinho, porém, não alcançava que, por menos numerosos que fossem esses convictos guardiões dos códigos da Moral pública e privada, promulgados e respeitados sob o poder da religião dominante, eram sempre os mais influentes.

 

Tudo isso, portanto, já estava a deixar profundas marcas de queimaduras do Santo Ofício, cicatrizes invisíveis, que desfiguravam as faces de cada um dos membros de seu clã, inclusive as dele próprio. De qualquer forma, o temor com que Reis a todos dominava, esse outro tipo de entronização das peias sociais na mente dos oprimidos, das quais os seres humanos não conseguem se libertar, fez com que Alfredo jamais pudesse externar a ninguém, exceto ao seu politizado primo, qualquer uma dessas considerações.

 

Por falta de maiores conhecimentos dos livros e da vida, não lhe alcançava a expressão contexto histórico, que pode abranger, ao mesmo tempo, cada subcontexto político, económico, social, bem como a vigência, em cada época ou região, ou até mesmo em um espaço global, de diferentes conceções, morais, religiosas e filosóficas, ainda que as éticas tendam a ser universais.

 

Tais normas podem até se traduzir, no presente, em leis e costumes rigorosos, cuja obediência é fanaticamente exigida e vigiada, mas, no futuro, essas imposições poderão vir a ser reformuladas ou desfeitas e até mesmo, no mor das vezes, consideradas ridículas ou absurdas pelas pósteras gerações.

 

Facto é que Alfredo, ainda que de modo intuitivo, começava a perceber que, muito além dos falhanços de Aurora, havia outros fatores intervenientes nesse cachão de lágrimas, que escorriam de brunheiros e barrosões sobre os Bernardes, fatores esses que ele não conseguia definir, mas que sabia estarem a contribuir para toda aquela hecatombe familiar.

 

 

  1. ANARQUISTA.

 

Rodrigo agora se entregara de vez às ideias do Anarquismo e estava de malas prontas para ... 

 

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04
Jun19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. MORAL E SOCIEDADE.

 

 

Geralmente, as pessoas menos favorecidas de bens pecuniários, como as que então constituíam a classe nomeada pelo primo Rodrigo de “proletariado”, também obedeciam a princípios bastante conservadores, no capítulo da Moral e Bons Costumes. No quotidiano, todavia, se lhes acontecesse algo semelhante ao de Aurora, passados alguns dias da ira doméstica, logo o feito já fora, feito estivera e desfeito se faria. A rapariga, mesmo prenha, era possuidora de mais dois braços para o trabalho na leira, a quem não se podia dar ao luxo de maltratar ou exilar. Melhor: ainda que a criança viesse a ser uma boca a mais para dar sustento, logo em breve iria significar, também, outros braços para a economia da família.

 

De sorte que a menina pobre de uma vila ou aldeia do Concelho, embora não mais donzela, permanecia integrada à comunidade. Findo o tempo de comentários nas feiras, tavernas e outros locais de reunião, logo se passaria um sabão em todo o ocorrido. O que se veria ao sol, doravante, seria roupa lavada e posta para secar. Já então se poriam os linguarudos a falar sobre uma costureira de Mexide que matou o marido a tesouradas ou de um velho viúvo em Faiões, que fora pego ao manter, como suas concubinas, as três cachopas, jovens, mas já postas, que a falecida lhe deixara como enteadas.

 

Daí o facto de as pessoas do povo pobre de Chaves nunca deixarem de demonstrar, perante Aurita e os seus, uma compaixão solidária, advinda de corações dos quais, até então, nem se pudera pensar em receber tamanho apreço. Uma significativa parcela dos que eram da classe alta ou média da Vila, no entanto, sem que jogassem pedras à rapariga ou gritassem impropérios à passagem dos Bernardes, pareciam estar sempre a garatujar por toda parte, aos muros de Aquae Flavia, com um carvão invisível, uma só palavra: DESONRA. Ou a marcar, igualmente, com apenas um “D” obscuro, mas indelével, os muros e os portões da Quinta Grão Pará.

 

 

  1. CILÍCIO E SAMBENITO.

 

Bem mais do que a Cerimónia do Chá, que Alfredo celebrara com a sua gueixa brasileira, atrás do biombo japonês, sua progressiva consciência era a de...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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28
Mai19

Chaves D´Aurora

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  1. AMIGOS E HORAS.

 

Nas horas más é que se conhecem as pessoas de melhor caráter. Também se diz que é nessas ocasiões que se revelam os verdadeiros amigos. A Florinda, doía-lhe mais o facto de algumas senhoras de Chaves, que se diziam amigas, desde que ela chegara do Brasil, já não mais a convidarem ou se fazerem convidar a um daqueles chás que, para as damas, são meros pretextos para um bom palear.

 

Salvo amigos excecionais como o Mota e alguns outros, novos ou velhos conhecidos, os que agora se revelavam não serem tantos nem o quanto amigos, em uma postura igual à de alguns clientes de Reis, tratavam-no, a essa altura, com uma educação mais formal do que a de um estranho. Esses tipos encaravam-no, então, de um modo sisudo, como se estivessem diante de um painel virtual, àquela altura inexistente, onde se viam escritas na tela as bobagens que lhes vinham ao pensamento – Aí está no que dá um pai não saber colocar os devidos cabrestos em suas potrancas!

 

Os parentes, à exceção das tias Hortênsia, Margarida e Francisquinha e dos tios Arlindo e Padre Augusto, evitavam ir ao Raio X, ou mesmo cruzar nas ruas com alguém de lá. Todavia, por uma questão de bons princípios e de solidariedade familiar, uma que outra parenta mandava, de vez em quando, uma criada saber notícias e levar alguns mimos para o bebé prestes a nascer. A solidariedade aos Bernardes da Quinta Grão Pará, todavia, foi dada por meros conhecidos formais, dos quais eles nunca poderiam supor que fossem receber qualquer apoio moral.

 

 Os Alsharife, dentre os raros portugueses de origem árabe que viviam em Trás-os-Montes, a tocar seu comércio de joias com êxito, fazer seus ritos islâmicos e a respeitar as tradições, as suas e as do próximo, sabiam que tanto os flavienses natos, quanto os que ali vieram habitar, compunham uma população maioritariamente católica, mas que sempre tratava as minorias, como a eles e alguns judeus e protestantes, com gentileza e urbanidade. Quando alguns nativos cristãos estavam a conviver apenas entre si, todavia, nunca deixavam de ver os mouros como infiéis, iguais aos seus antepassados, os que ocuparam e foram expulsos da Península Ibérica há tantos séculos. Isso tudo, ainda que ocorresse à privacidade dos lares, traduzia-se em chacotas, maledicências e infames anedotas. (Quanto a alguns raros judeus, remanescentes em um país que mandara à fogueira, obrigara a se converter em “cristãos-novos” ou expulsara do solo português, há centúrias, um considerável contingente de praticantes de sua fé, era tudo similar).

 

À vista disso, embora discretamente, ao contrário dos ciganos aculturados (esses eram cristãos), os Alsharife eram colocados à margem da vida social. Reis e Florinda, porém, sempre os trataram com sincera cordialidade. Assim foi que os islamitas, à altura daquele triste e difícil período, esmeraram-se em conceder aos Bernardes, sem nem de leve mencionar por quais motivos, um apoio que se traduzia em pequenos gestos de delicadeza e de plena solidariedade.

 

Nisso também os imitavam alguns vizinhos próximos ao Raio X, como os Bacelar e suas filhas. Por mais estranho que parecesse a Aldenora e aos mais da Quinta, as três raparigas, quase destinadas à solteirice eterna e, por consequência, talvez a nunca ouvirem um grito de bebé ecoar no casarão dos pais, faziam constantes visitas à jovem embaraçada e levavam preciosos mimos para o miúdo que se estava a esperar.

 

 

  1. MORAL E SOCIEDADE.

Geralmente, as pessoas menos favorecidas de bens pecuniários, como as que então constituíam a classe nomeada pelo...

 

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21
Mai19

Chaves D´Aurora

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  1. CINZAS.
  2.  

A essa altura dos acontecimentos, cinzentos também eram os dias e noites na Quinta Grão Pará. O clima psicológico, cada vez mais denso e glacial, contrastava com o restinho ameno de verão daquele ano. Às costas de Mamã, Aldenora e Aurélia aproveitavam todos os pequenos incidentes de cada dia para escarnecer, hostilizar, lançar enfim sobre a infeliz Aurora o peso de ser... – Culpada, sim, tu és culpada de toda a nossa desgraça! Pior se, a calhar, também vamos ficar solteiras e mal faladas, só pelo facto de sermos irmãs de uma rapariga tonta, dessas que se põem a perder num “sus” com o primeiro marialva que aparece!

 

Como sempre gentil, mas indiferente, Afonso concentrava-se apenas em estudar com seus bons companheiros e a se preparar, com afinco e muito esforço, para os exames de admissão a Coimbra. Alfredo já quase não vinha confortar sua irmã grávida, posto que agora trabalhasse o dia todo no armazém do pai. Mamã vivia sempre às voltas com a administração da casa. Quanto a Papá, cumpria e fazia cumprir as determinações que estabelecera para com Aurita, desde a última vez em que lhe dirigira a palavra e lhe dera – melhor dizendo – negara-lhe a bênção. À rapariga, portanto, só restava bordar e coser as roupinhas do bebé, algumas vezes auxiliada por Alice e pela sempre risonha Arminda, única a quem os infortúnios da casa não roubavam a alegria.

 

Aldenora, no entanto, fez ver ao pai que não era aconselhável uma adolescente ficar a conviver com uma perdida. Como o Reis calado estivesse e calado permanecesse, Nonô correu logo a dar ordens à irmã mais nova. Disse-lhe então que Papá, daquele dia em diante, proibia que Mindinha fosse ao quarto de Aurora, e, a esta, só dirigisse a palavra quando diante de Mamã ou à mesa de refeições. Isso gerou mais um vale de lágrimas nas faces de Aurita, compartilhadas com a caçulinha, na última vez em que esta foi ao quarto da irmã, para acariciar a barriga em que se guardava o sobrinho. Ao contrário de suas manas, Arminda ansiava por logo ver e mimar o bebé.

 

Nesse atormentado período, mesmo que estivesse a mais bela manhã de sol, João Reis ordenava que o landó sempre andasse com o toldo arriado, de modo a que ele não precisasse ver nem cumprimentar ninguém. No escritório de exportações, nas lojas e no armazém, todavia, os funcionários e clientes continuavam a transitar com o máximo de respeito ao dono e, se precisassem dirigir-se a Reis, faziam-no com a máxima naturalidade possível. Certo é que se perderam alguns bons clientes, mas isso se devia mais ao facto de estes fregueses ficarem constrangidos, ante a eventualidade de encarar o desafortunado pai. Apesar disso, até àquela altura, tampouco nos meses seguintes, nada parecia trazer qualquer abalo aos bens e às finanças do senhor Reis Bernardes.

 

Foi somente a um certo domingo de agosto, quando João Reis e sua família, com a óbvia exceção de Aurora, foram à missa na Santa Maria Maior, que um mal-estar atingiu a todos e nunca um sermão pareceu tão longo, pelo menos para eles, ansiosos por chegar logo o Dominum vobiscum! Ite, Missa est.

 

Ainda que os Bernardes tentassem ser discretos, à chegada e à saída da igreja, os fiéis lançavam à família uns olhares que traduziam, ora curiosidade, ora reprovação, mas que pareciam tochas de fogo inquisitórias, a se cravarem nos corpos e almas de cada uma das raparigas que acompanhavam Reis e Florinda e a tentarem distinguir, dentre elas, qual a infeliz que escondia, sob o véu da face, o triste retrato de sua concupiscência.

 

Papá falou, com firmeza, para todos se postarem sempre de cabeça erguida, em todos os sítios da cidade, a fazer de conta que nada estivessem a perceber em volta. Disse mais: pelos brios e dignidade dele e de todos os de sua casa, Reis e os seus jamais deixariam de vir rezar à igreja matriz ou a qualquer outro templo católico da cidade.

 

 

  1. AMIGOS E HORAS.

 

Nas horas más é que se conhecem as pessoas de melhor caráter. Também se diz que é nessas ocasiões que se revelam os verdadeiros amigos. A Florinda, doía-lhe mais o facto de algumas senhoras de Chaves,...

 

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