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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

08
Jan19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

Uma noite inesquecível chegou, de repente, à memória de Aurita.

 

 

  1. VIGILANTE.

 

Papá estava com a pistola nas mãos, em companhia de Manuel de Fiães, a proteger a casa e os que nela habitavam, de algum monárquico fugitivo que estivesse a correr pela Estrada do Raio X e achasse, por bem, ou por mal, acoitar-se na Quinta.

 

Naquela noite de gritos de Viva a República ou Viva a Monarquia, em doze de Julho de 1912, a menina Aurita, quase a completar os dez anos de idade, deixou Mamã a rezar com os mais no quarto e se dirigiu ao patriarca – Que estás a fazer, Papá, com essa pistola? – e este, que não era dado a carinhos físicos aos filhos, pegou-lhe o queixinho e lhe respondeu, com a ternura expressa nos olhos e na voz – Estou a velar por todos nós, cá desta casa, minha boa menina. Especialmente por ti, a modo e à sorte que nunca, em tempo algum, homem nenhum apareça para te fazer mal!

 

 

  1. SILÊNCIO.

 

No dia seguinte, João Reis mandou chamar todos à sala de estar, inclusive Alice e as criadas, para um pronunciamento de suma importância. Ao cocheiro, não precisava convocar, porque além de leal, já era de seu feitio ser discreto, retraído, caladão.

 

Papá recolheu-se ao gabinete e, tão logo soube que todos já estavam à sua espera, foi até à sala e disse, em tom pausado e firme – Vou falar por agora, de uma só vez e basta! Durante todo o tempo que se fizer necessário, nenhum dos senhores há de abrir a boca para as pessoas lá de fora, a falar de qualquer coisa – e enfatizou – QUALQUER COISA que se passe aqui dentro, entre as paredes da quinta! – após o que falou, com mais dureza ainda – Nem mesmo aos parentes mais chegados! Não comentem nada sobre qualquer assunto que diga respeito à nossa família! – e concluiu – Estão todos a perceber o que lhes falo ou querem que lhes meta na cabeça, uma vez mais, esse voto de silêncio que todos, aqui, devem guardar? Pra já, é só. Estamos conversados!

 

A partir desse dia, as refeições passaram a ser uma hora de grande constrangimento, para aquela filha proscrita do coração paterno, mormente quando Papá dirigia-se a Florinda ou aos irmãos – Dizei a essa menina que me passe o azeite! Dizei à menina que me chegue cá o vinho! Dizei à menina que melhor faz ela em comer alguma coisa, pois não quero que se venha a estender, por sua causa, cortinas pretas às janelas! – todavia, com o passar do tempo, os mais e a própria Aurora acabariam por assumir as rotinas de suas vidas, ainda que, agora, ligeiramente modificadas.

 

 

  1. NÓS.

 

Graças à boa Zefa, Aurora concertou um encontro com Hernando, apesar de toda a vigilância familiar. Por mais que houvesse ensaiado ....

 

(continua)

 

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04
Dez18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CADAFALSO.

 

Maria Aurora Antonieta Bernardes encaminhou-se ao cadafalso e, se por fora, mostrava-se pálida e inerte, mais abatida estava em seu interior. Parecia-lhe, de repente, que o corredor a conduzi-la da Bastilha ao gabinete de Papá, nessa triste manhã, estava muito maior que o malfadado túnel de seu desatino. Enorme, infindável, tortuoso.

 

Ao passar pelo quarto dos rapazes, ouviu vozes exaltadas dos irmãos, a dizerem coisas como – Ai que vou matar esse gajo! – ou – Deviam fazer com ele, sabes o quê? Pegar-lhe com jeito os penduricalhos e ó! Nem aos leitões! – e, logo a seguir, baixou a cabeça diante do quarto das irmãs. Ali, a plebe jacobina, representada por Aldenora e Aurélia, embora não gritasse aos ouvidos de um invisível carrasco, como a rainha de copas no País das Maravilhas – Cortem-lhe a cabeça! – atirava à infeliz rapariga olhares de mágoa e reprovação.

 

Já próximo à sala íntima do pai, consolada pelo abraço à cintura que lhe dava Arminda, Mamã estava a chorar baixinho, com um lencinho de cambraia dobrado e encostado aos lábios. Ao ver a filha infortunada, abraçou-a e lhe beijou a testa.

 

Aurora entrou. Postou-se atrás da cadeira onde sentava-se João Reis, o pai que tanto amava e por quem sempre fora (e temia, a essa altura, já não ser mais) tão amada. Sentado na cadeira de balanço, voltado para a janela, cá estava aquele que o povo da terra alcunhara de brasileiro. Partira bem jovem às terras do Pará, na Amazónia e por lá fizera fortuna. Casara com uma ditosa rapariga, filha de boas gentes aveirenses que por lá andavam. Tornara depois à terrinha, com um ótimo tino comercial e muita fibra, e por cá ficara, na esperança de multiplicar, em Chaves, a fortuna amealhada no Além-mar.

 

Era nesse momento, porém, um pobre homem, alquebrado pelo desgosto repentino, que o não deixara dormir durante a noite passada. Lembrava-se, naquele momento, do dia em que Aurora nasceu e, por acaso, não fora um dia qualquer em Belém do Pará.

 

 

(continua)

 

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22
Nov18

Do Campo da Fonte até à Escola da Lapa

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O post anterior de “Flavienses por outras terras”, em que o Luís dos Anjos traz até ao blog mais uma flaviense ausente,  a Carmen Antunes, despertou em nós algumas recordações antigas, tudo porque desde criança conheço a Carmen, embora mais novinha que eu, passava-lhe à porta de casa todos os dias, além de ser colega e amigo de uma das suas irmãs,  e termos em comum, pelo menos, os nossos trajetos até à cidade, que não estava assim longe, mas que era obrigatório passarmos pelos mesmos sítios. Claro que as recordações que ela guarda desses tempos idos não serão bem iguais às minhas, mas nas suas recordações vêm à baila sítios, lugares e escolas que hoje em da já não são bem como eram nesses tempos.

 

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Pois em homenagem também à Carmen que nos brinda com algumas das suas recordações antigas, vou fazer em imagem o trajeto obrigatório que ela teria de fazer até à sua escola da Lapa, que tal como ela afirma só funcionou como tal até 1974, sendo depois transformada em Escola do Magistério Primário. Uma mescla de imagens  de vários anos passados, sendo as mais recente mesmo deste ano, mas sem grandes alterações em relação ao que o sítio sempre foi e as mais antigas, repesquei-as dos anos 90, ainda da era da fotografia analógica, e essas sim, com algumas transformações mais ou menos profundas.

 

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Pois no seu trajeto teria de passara pelo Km.0 da EN2, na época um bocadinho mais diferente, aliás, no seu tempo de escola ainda deveria aí existir o posto de Polícia de Viação e Trânsito. Logo a seguir teria de entrar na madalena e atravessar a Ponte Romana, pois duvido que utilizasse a ponte nova bem mais distante.

 

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Do outro lado da Ponte Romana teria que passar forçosamente pelo Arrabalde, o antigo Arrabalde, esse sim bem diferente daquilo que é hoje. Uma praça aberta, vistosas e luminosa ainda sem mamarrachos pelo meio. Por sinal uma belíssima praça onde se festejavam os grandes acontecimentos da cidade.

 

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Quase de certeza que seguia pela rua de Stª António acima ou então, era menina para uns dias ir pela Rua de Stª António e outros pela Rua do Olival para ver o movimento da praça antiga. Fosse por onde fosse, também quase de certeza, que passava pelo Jardim das Freiras, então ainda jardim, a sala de estar da cidade e sempre com muito movimento e vida, não confrontasse então o jardim com o Liceu, com a GNR, com os Bombeiros, com a Caixa Geral de Depósitos, Correios, Aurora e Café Sport. Alguns destes equipamentos ainda estão por lá, e no lugar dos Bombeiros e GNR ganhou-se o espaço da Biblioteca Municipal, o que faz mesmo a diferença é o jardim que existiu duas praças (das freiras) atrás.

 

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Por último seguiria pela rua de Stº. António, contornava o Liceu e subia a ladeira em direção à Capela da Lapa, mesmo ao lado do recreio da escola, apenas uma travessa pelo. Claro que também poderia ir até ao Jardim do Bacalhau e subir um pouquinho da Júlio Martins, onde a meio tinha finalmente a Escola da Lapa. Quanto ao Jardim do Bacalhau, então ainda com a forma de um bacalhau, tinha ainda a pérgula e o antigo edifício militar da antiga cavalaria a confrontar a todo o comprimento de jardim, edifício esse bem mais interessante que os dois mamarrachos que limitam os espaço do atual jardim. Enfim, mas já que deixámos a Carmen na escola, está na hora de nós partirmos.

 

Até amanhã!

 

 

 

13
Nov18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ANUNCIAÇÃO (3).

 

Mais uma vez o jantar foi de tal silêncio, que até João Reis, em geral não muito dado a conversar durante as refeições, estranhou que ninguém falasse nada, ao menos para comentar sobre o caldo verde da Mamã, sempre melhor que o de sempre.

 

À desditosa menina Aurora, indisposta no leito, Zefa levaria uma canja. Os rapazes, assim como a mais nova, ainda de nada sabiam. Aldenora remoía seus angustiados pensamentos. Alice, esta já optara em comer junto com as criadas, cheia de vergonha diante do futuro sogro. Somente Aurélia esboçava dizer alguma coisa, vez por outra e se calava, diante do olhar severo da mãe. A essa altura, Flor percebera que Nonô já se antecipara em passar à irmã a lastimável notícia.

 

Florinda esperou que o marido fosse para a salinha íntima e, como de hábito, ficasse a tomar o seu Porto, fumasse um havano e folheasse os jornais. Dirigiu-se à porta oval, encimada por vitrais coloridos e, por uns segundos, hesitou. Sentiu que havia alguém atrás de si, virou-se. Era Aldenora, que lhe tomou das mãos, beijou-as e fez, com a cabeça, um gesto de – Vá! – e foi esse, talvez, o mais crucial momento na vida de Florinda de Morais Dias Bernardes. Adentrou o aconchegante ambiente, fechou a porta atrás de si e parou, com as mãos unidas como a rezar, imóvel qual a Santa Maria em seu nicho, à Igreja Matriz.

 

Reis mirou-a por algum tempo e já lá se pôs a plenos cuidados com a esposa. – Que tens, Menina Flor, estás doente? Mesmo ao jantar, reparei que não estavas boa. Oh, minha Florzinha, andaste a chorar? – e ela se lhe atirou aos braços – A chorar por nossa filhinha, meu querido Reis, nossa filha Aurora, nossa tão encantadora e amada Aurita… – e o Papá, já nervoso – Que foi, minha Flor? Fala, diz, que foi que aconteceu com a nossa menina? Ela está enferma, eu sei, disseste que por isso não vinha à mesa, mas o que se passa com ela, de facto? O que foi que disse o doutor Fagundes, alguma doença muito grave?

 

Ela afastou-se do marido, foi até à janela envidraçada e se pôs a olhar para a estrada que vai dar à Espanha. Em verdade, não se pusera a olhar para nada.

 

 – Está prenha.

 

Papá levantou-se quase a pular, o sangue a lhe subir às têmporas – Mas como?! Como é que pode ter acontecido uma tontice dessas?! Diria até que estás a fazer troça comigo, se isso fosse motivo de se brincar, ou fossem tais coisas do teu feitio! Grávida, a nossa menina?! – e logo adveio a odiosa pergunta – Mas de quem?! – Ela não me diz quem foi, apenas se põe o tempo todo a chorar.

 

Reis ficou por vários minutos a remoer as ideias e a misturar vários sentimentos, em seu redemoinho cerebral. – Mas as nossas filhas, elas nunca estão a sair sozinhas de casa, tu sempre cuidaste bem delas… Será que dormiste demais o sono dos imprudentes e deixaste a nossa menina ir ao Beco do Desvio, aquele que sempre acaba na Rua da Amargura? – lá isso feriu Mamã e ele – Não, não chores, bem sei que não tens culpa de nada… Mas quem será esse filho de uma marafona, que atirou aos porcos uma pérola tão preciosa como a nossa Aurita? Algum desses colegas do Afonso ou do Alfredinho, que nos vêm a casa e, ao invés de apenas desfrutarem de teus bolinhos e biscoitos...? Ou será que o Manuel não passa de um grande sonso e traiu a nossa...? Oh, não, minha Flor, que estou a dizer? Nem o de Fiães!

 

(continua)

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30
Out18

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ANUNCIAÇÃO (2).

 

As mulheres da época, em todas as classes sociais, tinham para com os esposos um respeito quase monástico ou militar. Ainda que em alguns lares já fosse como hoje, quando “a última palavra”, como se costuma comentar em tom jocoso, é sempre a do marido – Sim, senhora, sim, meu bem, sim, minha querida! – ou, até mesmo, como se expressa no dito popular – “Se é varão, manda ele e ela não; se é varela ora manda ele, ora manda ela; se é varunca, manda ela e ele nunca” – em termos de mando, as relações de Florinda com Reis eram bem tradicionais, ela nada e ele tudo. Chegava a se dirigir ao marido, muitas vezes, em voz baixa e temerosa, quando precisava contar algo dos filhos ou das criadas. Ainda assim, só o fazia quando tal lhe parecesse um tantinho mais grave ou impossível de ocultar.

 

Lembremos que só em 1910, mesmo ano em que o divórcio entrou em vigor em Portugal, foi que as mulheres passaram a ter autorização para trabalhar na administração pública. Só em 1918 puderam exercer a advocacia e, tão-somente, em 1931 é que lhes foi concedido o direito de votar. Este, porém, só podia ser exercido pelas mulheres que tivessem estudos de grau secundário ou universitário, enquanto que, aos homens, bastava saber ler e escrever. Já corria o ano de 1969, em plena efervescência de movimentos revolucionários por mudanças de costumes, na Europa, nos Estados Unidos da América e em vários outros países, quando se facultou às mulheres portuguesas atravessar a fronteira com a Espanha, sem permissão dos maridos. O pasmo dos pasmares, todavia, advém ao sabermos que a lei pela qual se autorizava os homens a abrir a correspondência de suas esposas, só foi abolida em 1976!

 

 Assim, àquela altura, não restava a Florinda senão dirigir-se ao oratório e rezar ao Todo Poderoso, para que este lhe desse forças, quando o Reis tornasse a casa, à hora do jantar. Como ela era, antes de tudo, um padrão de mãe amantíssima, ao sair do quarto afagou os cabelos cor de trigo da filha, agora a se esvair em lágrimas. Beijou-lhe a testa e disse com suavidade – Que o bom Deus te perdoe, minha menina… e também, com muito mais compaixão, a esse homem que te pôs a perder!

 

Deixou-se ficar inerte, sorumbática, durante o resto daquela tarde. À chegada de Nonô, Mamã achou por bem e por direito, mesmo antes de contar tudo ao marido, notificar logo o facto à sua outra menina, prestes a escolher o vestido das bodas e as pequenas prendas com as quais, à hora do copo d’água, iria mimar os convidados. Aldenora chorou, a quantas pudesse – Ai que a desgraçada da minha irmã não devia nunca ter feito esse desatino! Ai se, por causa disso, muitos convidados nem me forem à igreja, no dia das minhas bodas! Porque ela fez isso comigo?! – e Florinda consertou – Contigo não, minha filha, com todos nós; mas há que perdoar à tua irmã. A tentação de Satanás e de outros demónios que estão a povoar nossa mente é sempre bem forte, e nós, mulheres, nunca seremos santas o bastante para enfrentá-la, a não ser com muitas preces à Virgem Santa.

 

A rapariga, no entanto, para já prenunciava o quanto e como esse facto poderia prejudicá-la. Desandou a sacudir a mãe pelos ombros – E agora, Mamã, o que vou fazer?! – e Flor, enérgica – Não penses só em ti, menina, melhor dizeres: o que VAMOS fazer?

 

(continua)

 

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02
Out18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CERIMÓNIA DO CHÁ.

 

À noite desse mesmo dia, quando todos dormiam, Alfredinho esgueirou-se a bicos de pés para trás do biombo. Passou por um belo jardim, onde mulheres de quimono faziam a cerimónia do chá. Uma delas até sorriu, a lhe estender uma chávena de fina porcelana e ele agradeceu-lhe com um olhar maroto. Outras duas o conduziram a um ambiente ornado de lanternas e flores de cerejeira, onde o aguardava uma bela gueixa, a quem abraçou como um samurai sedento de carinhos, em uma cena de Nô ou Kabuki, porém mais picante do que os singelos roteiros originais.

 

Iniciou-se, então, uma cerimónia do chá, mas de tisanas bem outras, que se repetiria por muitas noites, pois “a gente se acostumando, já não quer senão daquilo”, até que… até que o médico da rapariguinha, pasmo em seus muitos anos de ofício, dissesse à mulher do Gomes que algo de muito milagroso estava a se passar com a cliente. Na verdade ela ficara, mui rápida e efetivamente, curada de um mal que ele sequer pudera diagnosticar – Talvez uma alergia, de causa desconhecida – pois ao clínico não alcançava ainda a existência de certos sintomas, cujos males sabemos ser, atualmente, de fundo psicossomático.

 

Quando partiu de volta a Vidago, Alice carregou na bagagem algo mais entre as suas carências de mulher. Saudades. Como Aurora, ela também mergulhava em um sentimento de amor por alguém que tinha o mesmo curso das águas do Tâmega, ou seja, uma só direção, pois quanto ao rapazote, este apenas se preocupava com o que faria o Gomes, o que diria seu pai e, enfim, que maçadas lhe trariam as consequências dessa atitude impensada. O menino dizia a si mesmo – Ora, Alfredo, só podias estar mesmo viradinho do miolo, a ponto de fazer o que não devias, te meteres nos assados com essa rapariguinha! Agora é que são elas! Mas… tinha que ser! Foi! Melhor, meu caro, é não te deixares ferver em pouca água. Espera e vê, com muito jeitinho, pra que rumo te vai soprar o vento.

 

O vento não demorou a soprar. Alfredo voltava do liceu, quando viu Papá à sua espera, ao pé da escada lateral. João Reis começou solene – Senhor Alfredo! Temos cá uns ís, para lhes pôr os pingos! – mas logo se desfez da formalidade – Ó pedaço de asno! Não achas que já estás bem crescidote para reloucares desse jeito, desonrar a casa onde vivem tua mãe e tuas irmãs, a ponto de levares à perdição uma rapariguinha que veio cá alojar-se, sob a nossa proteção e lhe dares “a esmola antes do padre-nosso”? Antes, porém, que João Reis lhe chegasse bordoadas às costas, tratou logo de dizer – Eu caso, Papá, eu caso! Oh, Papá, me perdoa, fui um tonto, eu sei, perdi a cabeça, mas pode mandar dizer ao senhor Gomes que me caso com ela, meu pai, está bem que me caso! – e para já correu até Mamã, a se refugiar no regaço da mater amorosa, mater compadecida e agora, mater inconsolada.

 

 

  1. CEIA SEM CHÁ.

 

À ceia, em silêncio, ouviam-se apenas alguns talheres a tocar nos pratos, uns de leve e intermitentes, outros nervosos e sem parança. Ao final, Papá disse baixinho, à Mamã, que logo se mandassem preparar os banhos na Madalena, convidassem somente os parentes mais chegados e, sobretudo, não se falassem em copo d’água. Tudo haveria de ser simples e rápido, apenas com os cumprimentos a se darem lá mesmo, à sacristia.

 

Antes de se recolher ao seu gabinete doméstico, Reis olhou para a filha e lhe bateu de leve nas mãos, a um gesto de carinho, tão inusitado quanto imprevisto – Ainda bem que és mulher, minha Aurora e não estás a sair por aí, atrás de uns rabos de saia e a me dar umas maçadas, como o teu irmão. Se bem que já estás à altura de arranjar um bom marido. Se não o fizeres, veremos nós o que fazer. A propósito, tua mãe m’o disse que não andas lá muito bem de saúde. Nosso querido doutor Fagundes está a voltar por esses dias a Chaves e vai examinar essa menina, a ver se já não está a chegar em breve algum outro Alfredinho por aí... Vamos pedir, ora pois, que te veja também e a todos de casa, para sabermos a quantas anda a saúde aqui na Quinta.

 

Aurita ficou imóvel, lívida, sem saber como disfarçar. Salvou-a, em boa hora, a intervenção de Arminda – Papá, Papá, olha cá, olha só que lindo mimo a Tia Adelaide me deu! – e mostrou um estojo com guarnições de prata na tampa e um forro aveludado no interior, contendo pentes e escovas de madrepérolas.

 

(continua)

 

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25
Set18

Chaves D´Aurora

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  1. POMADA MARAVILHA.

 

O Gomes havia pedido ao Papá que acolhesse na Quinta, por uns dias, uma afilhada sua e de sua ex-esposa. A rapariguinha, chegada recentemente do Rio de Janeiro, estava a morar com ele e sua atual companheira em Vidago. Já entradinha nos 24 anos e sem casar, Alice parecia, no entanto, menina que mal deixara de ser. Era muito calada e, aos dizeres de seu padrinho, bem comportadinha. Não daria, portanto, nem um ai aos Bernardes, caso viesse a passar alguns dias na Quinta Grão Pará, a fim de se tratar em Chaves de uma doencinha na pele, que se estava a mostrar muito renitente. A menina já havia experimentado de tudo e nada lhe dava jeito. Nem mesmo a famosa pomada que o Gomes sempre mandara aviar, ao preço de 310 réis, na Pharmácia Pereira, em Chaves e assim anunciada em um jornal da região:

 

“A Pomada Vegetal Alemã faz curas milagrosas de males como varizes, erisipela, eczema, furúnculos, queimaduras, frieiras ulceradas, herpes, impigens, hemorróidas, úlceras extremas e dermatoses de toda natureza. Composta unicamente de raízes e sucos de plantas medicinais, não contém nenhuma espécie de banha. Esta pomada só por si extrai o pus, elimina a carne esponjosa, desinfecta e cicatriza qualquer ferida. Há dezenas de casos de curas, comprovadas com atestados devidamente reconhecidos”.

 

Apesar dessa mazela que, além da menina, só o clínico e a amásia de Gomes sabiam em que parte do corpo era acometida, Alice era muito graciosa, miudinha, jeitosinha, toda certinha, que dava um gostinho de olhar. Era, porém, muito tímida, embora isso talvez escondesse, no fundo, uma grande dissimulação de menina sonsa e namoradeira. Quem sabe por isso, ou quiçá porque a administração doméstica não desse à Mamã muito tempo para outras preocupações, ou, ainda, porque confiasse bastante no comportamento moral de seu ai-jesus adolescente, Mamã não havia notado o que Aldenora logo lhe veio chamar à atenção – Mamã, esteja a ficar de olhos abertos, pois cuide que o Alfredo está a arrastar as asas para a carioca.

 

Desde quando chegara à quinta, a menina vivia colada ao belo Alfredinho, cujos paleios estavam sempre a diverti-la. Passaram depois aos cochichos e risinhos. Ao se encontrarem fora das vistas de todos, beijinhos e algumas outras pequenas liberdades já eram trocados entre os jovens. Só vinham a se largar quando sentiam gente por perto.

 

Alice dormia a um canto da sala de estar, em um cómodo improvisado, por trás de um biombo japonês, onde Mamã colocara para a hóspede um colchão e todas as comodidades que estivessem ao seu alcance. Um dia, Alfredo, que era o único alegre, extrovertido e brincalhão do clã dos Bernardes, perguntou à menina – Mas afinal, de que estás a tratar com os médicos? – E achas que te vou dizer? – Eu sei o que é. Na pele, não é? Mas como é lá isso? – Parece urticária – E passa? – Diz o doutor que não. E há certos dias, como hoje, que só tem um pouquinho – Onde é? – Não posso contar!

 

– Mostras-me? – Alfredinho, isso lá são modos?! Olha o respeito comigo! Porque achas que te vou mostrar?

 

Mostrou.

 

(continua)

 

 

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21
Ago18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. SENHOR MORTO.

 

Na Sexta-feira Santa, a procissão do Senhor Morto saía da igreja matriz até ao Horto do Calvário, uma pequena elevação da vila, em Santo Amaro. João Reis e todos da família dirigiram-se à Santa Maria Maior, para acompanhar o sacro cortejo. Aurita sobrepôs-se com algumas peças de vestuário que não chegassem a dar à vista, encheu os bolsos com as moedas de seus alfinetes e de tudo o mais que lhe fosse preciso de imediato, o que ensejou Maria a comentar, em alto e indiscreto bom som – Ai, menina Aurora, como estás gordita!

 

A rapariga esperou que a procissão seguisse até ao Horto, para aguardar os fiéis se distanciarem da igreja e, assim, chegar até ao ponto combinado com Hernando. Ao seguir com os demais fiéis, Aurita fingia-se contrita com o terço e as orações. Cada vez mais, porém, afastava-se dos familiares, até chegar às últimas fileiras. Esgueirou-se até aos fundos do templo, seguiu pela Rua da Ordem Terceira e foi até à Rua da Misericórdia, ao beco onde Hernando já haveria de estar à sua espera.

 

Passaram-se minutos, muitos, mais até do que lhe dava conta a ansiedade, enquanto ouvia soar, cada vez mais longe, os cânticos da procissão que se afastava, até as vozes dos fiéis sumirem de vez. Perto de si, porém, aproximaram-se apenas alguns cães vadios a ladrar e uma velhota, muito apressada, que lhe lançou um olhar entre curioso e inquisidor. Deu-se conta, então, de que ele não vinha. Não viria, talvez, nunca mais.

 

Tremeu então de pavor, ao lembrar que o corpo morto de Nosso Senhor já estaria a chegar ao seu jazigo no Horto. Tentou cortar por atalhos que nem bem conhecia e, felizmente, ao correr até ao Largo de Santo Amaro, onde a procissão estava começando a galgar a ladeira do pequeno Calvário flaviense, chegou a tempo de se unir aos seus. Lá no alto, à volta da capela, Papá e os mais estavam a procurá-la por entre os fiéis que já se espalhavam por toda parte. Por enquanto, supunham apenas que esse extravio fosse acidental, como sói acontecer nas romarias.

 

Ao subir para onde eles estavam, escutou de pronto os ralhos de Papá – Por onde andavas, menina, que já estavas a preocupar tua mãe? – o que estava igualmente subentendido: e a mim próprio, também. Ela respondeu, então, com a humildade de sempre – Ora, pois, portanto... estava por aqui mesmo, me perdi um pouco lá atrás – e, erguendo o terço – A rezar por mim, pelo Papá, por todos nós – que de rezas, ela andava a precisar e muito, ainda que, aos santos e ao Senhor Deus Misericordioso, não parecessem importar, nem um pouco, os seus rogos desesperados.

 

 

 

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Capela do Horto, em Santo Amaro. Chaves (PT). Foto de Raimundo Alberto, 2010.

 

(continua)

 

 

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14
Ago18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. REGRAS DO MACHO.

 

Como naquela despedida, aos quinze anos de idade, a rapariga pediu a Zefa que corresse até Hernando e o instasse a procurá-la. Havia de ser nessa mesma noite, ao sítio de sempre. Deixou aberto o portão dos fundos e, ao ver o moço, atirou-se lhe aos braços – Mas o que tens, brasilita? – e ela, direta – Estou prenha. Prenha de ti, ai que me socorras senão morro, eu e o ciganito que me puseste cá dentro. – ao que ele afastou-a de si, bruscamente – Ah, rapariga, não sei o que faria, se pudesse, para que essa asneira nunca tivesse acontecido! Portanto, que estás a querer que eu faça? – Fala ao meu Papá, caso-me contigo. – Mas casar-me agora, a essa altura da vida?! Estás a ver que nem contigo, nem com qualquer outra!

 

“Nem com qualquer outra”! – Isso lhe doeu mais do que a própria negativa, mas suplicou – Então foge comigo, vamos viver a Ourense, a Santiago de Compostela ou até mesmo, por Deus, junto aos teus parentes na Andaluzia! – Estás louca, mulher! Aqui é a minha vida, o Paulino está a noivar e já segue carreira na política do Concelho; a minha irmã tem o marido e os filhos para se haver com eles; só me resta a mim de filho para cuidar da mãe, da casa e ainda ajudar meu pai na loja e nos cavalos.

 

Essa resposta deixou-a mais desesperada – Então me diz o que hei de fazer, Hernando, que já nem sei de mim e a minha cabeça… – sua cabeça estava a ponto de estoirar, como se fossem as salvas de canhão do Forte de São Neutel. E eis então que o rapaz, de repente, embora ainda se mostrasse carrancudo e resmungão, concertou consigo que, na Sexta-feira Santa, haveriam de fugir durante a procissão do Senhor Morto. Depois haveriam de se acoitar em algum lugar seguro, onde não lhes soubessem de pronto, tanto os dela quanto os seus.

 

Abraçou-a bem forte e a beijou, como se o coração dele continuasse a arder, junto com o dela, ao crepitar da paixão. Isto a fez voltar a crer – Ainda me amas, não é? – ele acenou com a cabeça e desapareceu, por entre os chorões do terreiro vazio que margeava a Quinta, enquanto Aurora punha-se a lembrar a conversa que tivera com Adelaide, a uma das visitas da viúva, depois que esta retornara de Paris.

 

 

 

  1. REGRAS CIGANAS.

 

A ocultar milagres e a falar só do santo, a rapariga contou à açoriana de seu intenso amor pelo cigano e ela – Conheço esse tipo! – a omitir também que, por uma única vez, o gajo lhe adentrara a casa pelos fundos, para com ela jogar cartas, mas ela o pusera no rol daqueles que em nada a impressionaram. Apesar das tentativas em mostrar suas habilidades no carteado, o enfatuado rapaz saía-se melhor nos bluffs do pôquer, o quê, de resto, sabia fazer muito bem na vida e com as mulheres – É um bon vivant , não há de casar tão cedo. E de mais a mais, se o fizer, há de ser com uma rapariga da mesma tradição.

 

Adelaide explicou, então – As mulheres ciganas obedecem a rígidas normas de comportamento. Após as bodas, as recém-esposadas têm que passar pelo teste de virgindade, quando senhoras idosas do clã vão comprovar se há sangue nos lençóis ou na camisa de dormir da rapariga. Os casamentos são marcados para um tempo que coincida com o provável período fértil da noiva, pois a propagação de seu povo é fundamental. – Concluiu – Portanto, os pais dele jamais vão gostar de ver o filho casado com uma gajina. E sabes porquê? – ela própria respondeu – Terias muitas dificuldades para transmitir, aos miúdos, ao menos o essencial das tradições de sua gente. Ora, pois, que essas coisas... quem é que as transmite, afinal?

 

Aurita completou – As mães ciganas! – ao que Dedé vaticinou, solene e teatral – E ai de vós, minha menina, se puserdes o anel ao dedo antes que o padre benza as vossas mãos! Os rapazes ciganos são bem livres para se entreterem com as mulheres – e olhou incisiva para a rapariga – principalmente as não-ciganas. Eles podem “pôr a carroça adiante dos bois”, o quanto quiserem, mas quando uma rapariga de seu clã não conserva a virgindade até casar, ela perde toda a possibilidade desse casamento. E mais, perde todo o respeito da família.

 

Aurora argumentou – mas não é assim, também, entre nós, os não ciganos? – e Adelaide – Sim, estás a ver que sim, ao menos aqui em Chaves, neste cárcere de grades invisíveis em que vive a maior parte das mulheres. – Exaltou-se então, como nunca – A começar pela nossa Santa Madre Igreja: as mulheres são obrigadas a cobrir de véu a cabeça para ir à Missa, os homens, não; os homens celebram missa, podem ser bispos, papas, enquanto as mulheres... Os curas podem ter suas “comadres” e “afilhados”, mas saibas que mataram Joana, a única papisa da História, quando ela se revelou fêmea e deu à luz um bebé, em plena procissão no Vaticano!

 

A açoriana suspirou – Ah, os homens! São eles que fazem as leis, que fazem cumprir as leis, são eles que se consideram, enfim, os donos do mundo! – Chegou-se mais ao ouvido da rapariga – Embora eles sejam, em outras demandas, os nossos “ai-jesus”! Mas esse louvor, realmente, nós só podemos dar àqueles que aprenderam, desde cedo, de preferência com alguma de nós, mais velha e experiente, como se deve plantar e colher melhor, na horta de uma mulher! – E, a baixar ainda mais o tom, ao sentir Florinda aproximar-se – Em nossa sociedade, minha Aurita, as mulheres só são um pouco mais livres em algumas poucas condições: solteironas órfãs e sem família, a viverem do seu trabalho; viúvas sem peias e com algumas posses deixadas pelo marido; algumas atrizes e bailarinas, quando vivem restritas ao seu mundo de artistas; e as meretrizes, é claro. – o que fez Aurora enrubescer – Tia Dedé!!!

 

Adelaide concluiu – É a vida, menina! Digo-te mais, as meretrizes só são livres enquanto não aparecem os rufiões. E as solteironas e as viúvas, melhor ficarem sozinhas, como eu. Pelo menos aos olhos da sociedade. Na rua, tento sempre me comportar como manda o catecismo, mas assim que entro na minha casa, sou eu que dou a bênção para o meu rico lar. E sou eu que a mim mesma me abençoo – o que completou a rir, gostosamente – sob a santa proteção de um fradinho maroto, no pátio lá da entrada e sempre com um sacristãozinho de carne e osso, à disposição, para as minhas missas profanas... – frases que levaram Mamã a exclamar, chocada, pelo que acabara de ouvir – Dedé! Que sacrilégio!!!

 

(continua)

 

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07
Ago18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. REGRAS DA VIDA.

 

Com um grito baixo, contido, deixou o pretume do café ainda quente escorrer pelo chão da cozinha e… olhou, por entre névoas d’água, para Zefa de Pitões, ainda estarrecida pelo que a boa ama acabara de confirmar. Abraçou a ama, súplice e desamparada – ai, minha boa Zefa, que hei de fazer de mim?

 

Estavam apenas ela e a barrosã, com a criada a preparar o desjejum da família, ao som matinal do crepitar da lenha, no imenso fogão de ferro da casa. – Ai que eu já desconfiava de tudo, menina Aurora, se não sou eu mesma que estou sempre a lavar os teus paninhos, naqueles dias em que estás com histórias! – A boa criada lhe disse, então, que já estava de muita sorte se pudesse esconder, ao menos por alguns meses mais, a sua desventura. A que não lhe descobrissem o segredo nas lavagens do enxoval da casa, especialmente a Mamã que, às vezes, dava-se aos cuidados de ver se as filhas estavam desreguladas, distúrbio comum a numerosas donzelas!

 

Já perto do tempo previsto para as próximas regras, Aurita poderia valer-se da carne de porco, de coelho ou de outro bicho qualquer e empapar, com o sangue do animal, os paninhos daqueles dias, peças de uso individual, onde sobressaíam os monogramas de cada uma das meninas da casa, bordados por elas mesmas. Agora, porém, já lá se aproximava o terceiro mês e o terror lhe sacudia a alma e o ventre. Zefa, então, foi perentória – Ai, minha menina, se tens que contar aos teus pais, anda logo a falar com eles, antes que o tempo se venha a minguar! Mas conta primeiro à senhora dona Flor, que o coração de mãe sempre escuta melhor e, quem sabe... ai Jesus, perdoa mais depressa!

 

Nesse instante, Florinda ouviu aqueles sons de infelicidade provindos do borralho e veio até à cozinha, onde se deparou com uma cena de ópera. – Que tragédias são essas que estou a ver nesta cozinha, como se cá fosse um palco de teatro? – Não, nada se havia de ribalta, era a vida real que, em silêncios de soprano e suspiros de contralto, estava a se encenar sobre aquele tablado, por duas atrizes amadoras. Ditas assim porque ambas, cada uma ao seu modo, já haviam conhecido o Amor.

 

Sem esperar pela resposta – Porque estão a chorar, ó raparigas? Que está a se passar por cá? Ainda que eu não saiba de quê, já estou a perceber que se trata de algo muito sério. Mas o que pode estar a se passar assim, de tão sério, a uma menina como tu, minha Aurita? – e Mamã já se perguntava, então, que mal fizera o mundo à sua querida filha. Aurora enxugou os olhos, sentiu o ar lhe faltar por uns segundos, mas respondeu baixinho – Mamã, uma desgraça! – o que levou Florinda a sentir algo apertar-se entre os seios, forte e dolorido como os punhais cravados ao coração de Maria, nas representações da Mater Dolorosa – Ai meu bom Jesus! Diz-me logo o que tens, pois já estou a desesperar!

 

Aurora, após alguns segundos de hesitação – Eu... eu tenho uma coisa muito grave pra vos dizer, mas sem que vos faça sangrar o peito, nem que me deixeis, em nome de Deus, de perdoar. – então Mamã tremeu em cada uma de suas células, nutridas pelas hemácias da preocupação e os leucócitos do pressentimento – Vem cá, ó menina, vem ter comigo então à sala de estar. Se tiveres algo de ruim a dizer, que o digas logo, antes que volte a casa o senhor teu pai.

 

Encaminharam-se à sala aconchegante, onde, a uma parede, sobressaíam os azulejos pintados por um artista de Sintra e, nas outras, os tapetes com cenas bucólicas, trazidos de Madrid. Lá estavam também a máquina de costura (agora a White, “maravilha do século XX, em solidez e velocidade”, segundo os reclamos) e todos os demais instrumentos necessários para as artes e prendas que, às meninas de boa família, era de bom-tom aprender. A um canto, em destaque, o belo piano em que Aurora tocava as árias preferidas do patriarca, para o deleite deste e de todos os seus.

 

A mãe fez a filha sentar-se diante de si, ambas nessas cadeiras de embalo de cana-da-índia, com assentos almofadados, em padrão xadrez da Escócia. Estendeu-lhe as mãos ternas e pôs sobre a rapariga os plácidos olhos azuis, a um olhar que os azulados de Aurora não ousavam retribuir – Diz-me, filha, o que te dói? Sei que andas com o estômago aos frangalhos. Fala! O que há de tão grave a te afligir?

 

Dona Coragem chegou perto da rapariga, deu um adeusinho e se foi. Aurita pôs-se a passear os olhos pelo recinto, até pousá-los sobre um pequeno baú de madeira, desses embutidos de Mafra, com desenhos e arabescos na tampa, recamada com filetes de prata. Ali se guardavam as linhas de coser, os novelos para crochê, os círculos de encaixe para os panos a bordar, as agulhas de fazer tricô, os dedais e os ovos de madeira para cerzir as peúgas.

 

Respondeu, afinal – Não sei lá o que seja, Mamã, não estou boa. Parece que andei a comer alguma coisa que não me soube bem – Ora, minha filha, isso não há de ser nada. Até pareces a Adelaide, a fazer dramas. Mas não, não chores! Com essas coisas de saúde, nunca se brinca. Vou falar com o teu Papá, a ver se o bom doutor Fagundes vem te examinar.

 

Aurora suplicou, quase a gritar – Não, não, ele não! Quer dizer... faz-me um chá de camomila. Não precisa chamar o doutor Fagundes! – Mas que é isso, filha? Há que chamá-lo, sim, estás a ver! – e logo saiu a pensar em como mandar recado ao velho médico, amigo da família, o único a quem o Papá se deixava confiar, para que visse e, se necessário, tocasse o corpo das filhas e de sua Flor, ainda que ao nível da ginecologia da época.

 

Pobre Aurita! O caldo da vida, que já não era verde e até madurava, com amargos jilós ao invés de batatas, estava prestes a entornar.

 

(continua)

 

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