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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Mai19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. CINZAS.
  2.  

A essa altura dos acontecimentos, cinzentos também eram os dias e noites na Quinta Grão Pará. O clima psicológico, cada vez mais denso e glacial, contrastava com o restinho ameno de verão daquele ano. Às costas de Mamã, Aldenora e Aurélia aproveitavam todos os pequenos incidentes de cada dia para escarnecer, hostilizar, lançar enfim sobre a infeliz Aurora o peso de ser... – Culpada, sim, tu és culpada de toda a nossa desgraça! Pior se, a calhar, também vamos ficar solteiras e mal faladas, só pelo facto de sermos irmãs de uma rapariga tonta, dessas que se põem a perder num “sus” com o primeiro marialva que aparece!

 

Como sempre gentil, mas indiferente, Afonso concentrava-se apenas em estudar com seus bons companheiros e a se preparar, com afinco e muito esforço, para os exames de admissão a Coimbra. Alfredo já quase não vinha confortar sua irmã grávida, posto que agora trabalhasse o dia todo no armazém do pai. Mamã vivia sempre às voltas com a administração da casa. Quanto a Papá, cumpria e fazia cumprir as determinações que estabelecera para com Aurita, desde a última vez em que lhe dirigira a palavra e lhe dera – melhor dizendo – negara-lhe a bênção. À rapariga, portanto, só restava bordar e coser as roupinhas do bebé, algumas vezes auxiliada por Alice e pela sempre risonha Arminda, única a quem os infortúnios da casa não roubavam a alegria.

 

Aldenora, no entanto, fez ver ao pai que não era aconselhável uma adolescente ficar a conviver com uma perdida. Como o Reis calado estivesse e calado permanecesse, Nonô correu logo a dar ordens à irmã mais nova. Disse-lhe então que Papá, daquele dia em diante, proibia que Mindinha fosse ao quarto de Aurora, e, a esta, só dirigisse a palavra quando diante de Mamã ou à mesa de refeições. Isso gerou mais um vale de lágrimas nas faces de Aurita, compartilhadas com a caçulinha, na última vez em que esta foi ao quarto da irmã, para acariciar a barriga em que se guardava o sobrinho. Ao contrário de suas manas, Arminda ansiava por logo ver e mimar o bebé.

 

Nesse atormentado período, mesmo que estivesse a mais bela manhã de sol, João Reis ordenava que o landó sempre andasse com o toldo arriado, de modo a que ele não precisasse ver nem cumprimentar ninguém. No escritório de exportações, nas lojas e no armazém, todavia, os funcionários e clientes continuavam a transitar com o máximo de respeito ao dono e, se precisassem dirigir-se a Reis, faziam-no com a máxima naturalidade possível. Certo é que se perderam alguns bons clientes, mas isso se devia mais ao facto de estes fregueses ficarem constrangidos, ante a eventualidade de encarar o desafortunado pai. Apesar disso, até àquela altura, tampouco nos meses seguintes, nada parecia trazer qualquer abalo aos bens e às finanças do senhor Reis Bernardes.

 

Foi somente a um certo domingo de agosto, quando João Reis e sua família, com a óbvia exceção de Aurora, foram à missa na Santa Maria Maior, que um mal-estar atingiu a todos e nunca um sermão pareceu tão longo, pelo menos para eles, ansiosos por chegar logo o Dominum vobiscum! Ite, Missa est.

 

Ainda que os Bernardes tentassem ser discretos, à chegada e à saída da igreja, os fiéis lançavam à família uns olhares que traduziam, ora curiosidade, ora reprovação, mas que pareciam tochas de fogo inquisitórias, a se cravarem nos corpos e almas de cada uma das raparigas que acompanhavam Reis e Florinda e a tentarem distinguir, dentre elas, qual a infeliz que escondia, sob o véu da face, o triste retrato de sua concupiscência.

 

Papá falou, com firmeza, para todos se postarem sempre de cabeça erguida, em todos os sítios da cidade, a fazer de conta que nada estivessem a perceber em volta. Disse mais: pelos brios e dignidade dele e de todos os de sua casa, Reis e os seus jamais deixariam de vir rezar à igreja matriz ou a qualquer outro templo católico da cidade.

 

 

  1. AMIGOS E HORAS.

 

Nas horas más é que se conhecem as pessoas de melhor caráter. Também se diz que é nessas ocasiões que se revelam os verdadeiros amigos. A Florinda, doía-lhe mais o facto de algumas senhoras de Chaves,...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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14
Mai19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. SERENATA.

 

Para uma singela serenata às margens do Tâmega, certa noite aprazada não tardou a chegar. Aldenora valeu-se de suas próprias botinas, um sobretudo de Afonso que lhe chegava aos pés, um chapéu de Alfredo e lá se foi com os irmãos para a beira do rio, um pouco além do Tabolado e já perto do Moinho dos Agapito, onde ficava a bela moradia dos Cordeiro.

 

A se aproveitarem do facto de que o Pedroca, o Toninho e o João, em seus santíssimos cavaqueios lá no Céu, ainda estavam a sentir e a relembrar o gostinho das suas festas, os três irmãos chegaram diante do casarão, fincaram os pés na orla fluvial, a uma certa distância, mas ainda bem próximos, de onde queriam ser vistos com facilidade e fizeram uma bela fogueira. Acompanhavam-nos dois violistas contratados, que se puseram a entoar cantigas de amor.

 

A cantoria até que começava bem, mas logo desandava para momentos de incómoda desafinação, previamente ensaiada. Tudo isso logo contribuiu para chamar a atenção das pessoas da vizinhança, cujas janelas se abriram, boquiabertas (ambas; as pessoas e as janelas). Uns riam, outros mandavam-nos se afogar no rio, outros mais gritavam – Ora que vão pentear macacos!

 

Mestre Sidónio quase perdeu a compostura. Proferindo palavras de baixo calão, como nunca antes a senhora Joaquina lhe ouvira gritar, já se havia por descer até à beira e dar uns safanões nos atrevidos cantadores. A muito custo a esposa tentou demovê-lo da ideia. Conseguiu acalmá-lo com uns dedos de água com açúcar e uma poção calmante que, há poucos dias, mandara aviar à botica. Quanto ao Sidónio Filho, menos irado do que estarrecido, a tudo assistia no andar superior, semioculto entre as cortinas do quarto.

 

Aldenora abriu um baú e atirou ao fogo, uma a uma, as cartas e manuscritos que António Sidónio lhe enviara, ao longo desse fugaz romance. A cada papel jogado, os manos cantavam, acompanhados pelos violistas:

 

Vou jogar numa fogueira

Todos os meus malmequeres

Já não sei mais quem tu és

Oh me esquece, se puderes!

 

Arde mais do que tuas cartas

A dor que ao peito padece

Vá pros raios que o partam

Quem meu amor não merece.

 

Meu amor é flor tão rara

Que não soubeste colher

Oh, me esquece, se puderes

Pois já’stou a te esquecer.

 

Também se transformaram em fagulhas os lencinhos bordados da Madeira, um ramalhete de flores aveludadas para ornar vestidos ao colo e vários outros mimos que ganhara de seu ex-noivo. Estavam a se destruir até mesmo alguns estojos e camafeus de porcelana de Sèvres, que a rapariga tanto apreciava, bem como a pequena caixa de madeira com a sua tampa de colagens enceradas. A batina de Braga e a face sorridente desse filho de Sidónio pai, ao lado de uma Nonô feliz e esperançada, desfizeram-se em segundos, ao crepitar das chamas da singular vingança.

 

 

  1. CACHUCHO.

 

Restou, por fim, uma caixinha recoberta de veludo, da qual Aldenora tirou um anel cravejado de brilhantes. Lembrou, então, um dos poucos momentos em que ficara a sós com Sidónio, quando ele cantarolara para si, com grande ternura na voz – “se esta rua, se esta rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, para o meu, para o meu amor passar”. Agora, ele mesmo estava a condenar aquele “anjo que roubou seu coração” a viver “nesta rua, nesta rua” onde “tem um bosque que se chama Solidão”.

 

 Ao lume da fogueira, Aldenora sabia que, por mais longe estivesse a janela do quarto do ex-noivo, este podia avistar e definir muito bem o que havia nas mãos da rapariga. De facto, dessa vez o jovem enfureceu-se e saiu a correr pela escada rumo à saída. Foi contido pelo pai, que já parecia conformar-se com aquela fantochada. Sidónio filho chorou de raiva e impotência, mas ficou ao mesmo tempo estupefacto, quando Aldenora pegou o cachucho de noivado e o colocou em algo que lhe parecia ser um pequeno barco de madeira, fazendo-o descer correnteza abaixo. Lá se ia o precioso anel com destino ao fundo lodoso do rio ou, em margem distante, ao bambúrrio de algum sortudo pescador.

 

Já os Sidónio Cordeiro haviam apagado as luzes domésticas e fechado todas as janelas e cortinas, quando Afonso pagou aos violistas contratados e, com Aldenora e os irmãos, relembraram os feitos da noite. Riram-se todos, aliviados. Tornaram depressinha a casa, de modo a que seus pais e ninguém mais viesse a saber da patuscada. Ora, pois que os vizinhos, por certo, viram apenas os atos, sem saber dos atores que estiveram a atuar. Quanto aos pais do ex-noivo e ele próprio, envergonhados com a zombaria, nem aos mais íntimos iriam contar o que aconteceu. Na manhã seguinte, à beira do rio, tudo era apenas carvão. Tal as cruzes que os padres põem à fronte dos fiéis, na primeira quarta-feira depois do carnaval, transformava-se em cinzas tudo aquilo que se pensara ser amor.

 

 

  1. CINZAS.

A essa altura dos acontecimentos, cinzentos também eram os dias e noites na Quinta Grão Pará. O clima psicológico, cada vez mais ...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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07
Mai19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. FUGACIDADE.

 

António Sidónio, o pai, tinha o seu nome sempre citado no jornal “A Região Flaviense”, fosse no dia de seu aniversário, na morte de algum parente, ou nas suas viagens a Coimbra e a Lisboa… Em uma dessas notas, publicada logo após esse malfadado desconcerto, constavam os nomes dos barões assinalados, filho e pai, “a uma recente viagem ao Porto, onde o insigne estudante de Braga ficará por alguns dias, para tratamento de saúde”.

 

Não durou muito, porém, o luto interior do ex-noivo, pois Sidónio filho antecipou seu retorno a Braga, onde tentou esquecer os desacertos da vida entre as pândegas com os colegas. Já logo se punha a esquecer sua Nonô aos braços de uma jovem viúva, de origem italiana, habitante a um sobrado de mui discreta localização, onde cada cómodo estava sempre de porta aberta, com uma cachopa a sorrir para os rapazes e a convidá-los a entrar, a fim de dançarem ao som de tarantellas, belles chansons ou balalaikas, conforme a nacionalidade da anfitriã.

 

Quando o rapaz retornasse a Trás-os-Montes, traria já alegre e desanuviado o semblante. O nome Aldenora começaria a se desvanecer, como uma sopa que arrefecesse e já não mais importasse se fazia mal ou bem, pois já estava a saber um gosto de pão dormido.

 

Talvez nem tanto. De qualquer forma, a todas as poucas e sofridas tentativas da ex-noiva em lhe concertar um encontro, não deu resposta alguma. Acabou, finalmente, por mandar pedir à rapariga que o não procurasse mais.

 

 

Ainda que sem resposta ao seu primeiro e urgente apelo, Aldenora continuou a enviar cartas ao jovem amado, não mais de enlevada poesia, porém cheias de suas impressas inquietações. Nelas dizia que sua mana Aurora tresloucara de vez e fora enganada por um aldrabão, mas que ela, Nonô, sabia Sidónio do quanto era pura e assim se guardaria sempre, apenas para ele. Se os pais do noivo (que por assim ainda o tinha) estivessem a proibir seu amor, poderiam ambos fugir para outro sítio qualquer, onde pudessem casar e ser felizes.

 

Os mensageiros levavam a posta, mas nada traziam de resposta, o que deixava Aldenora mergulhada em um vale de lágrimas. Quando veio aquela única e fatal correspondência, o ponto final de um conto com desfecho infeliz, como sói tantas vezes ocorrer assim ao ser humano, ela foi imprevisível. Não chorou nem um ai. Chamou os manos Alfredo e Afonso, deu-lhes a conhecer o que se estava a passar e perguntou se lhe podiam valer em um concerto com “c” e um outro tanto com “s”.

 

 

  1. SERENATA.

 

Para uma singela serenata às margens do Tâmega, certa noite aprazada não tardou a chegar. Aldenora valeu-se de suas próprias botinas, um sobretudo de Afonso que lhe chegava aos pés, um chapéu de Alfredo e lá se foi com os irmãos para a beira do rio, um pouco além do Tabolado e já perto ...

 

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30
Abr19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. DISTRATO.

 

Quando as pérfidas imitadoras do deus Hermes alaram seus pés e, para já, saíram a espalhar os novos rumores, sempre à meia voz – Sabes que não somos dadas à coscuvilhice, ainda mais que nada vimos nem estamos a saber se é verdade – dizia uma; e a outra – Ora portanto, o que andam a falar da menina e todo mundo já o dá por coisa feita, é que... – fizeram-no com tal e veloz transmissão nas redes sociais da época, de modo que o boato logo chegou aos ouvidos de dona Joaquina Cordeiro. A princípio ela não deu fé e até se mostrou aterrada, com a maldade dessas pessoas, mais sinistras do que a bruxa das histórias da Moura Torta. Sem tardar, porém, o próprio Sidónio pai veio a ter notícia dos factos, por agora consumados.

 

Ao chegar a casa e sentar à mesa para a ceia, o filho estranhou o silêncio dos comensais. Havia um pesado clima de tristeza e os seus não conseguiam ocultar os semblantes de plena consternação. À sobremesa, o jovem não se conteve e, desrespeitando os costumes, perguntou – Ora, pois, por quem sois, me digam: o que se passa? – O pai apenas respondeu – Calma aí, meu rapaz, por Deus que já te falo – e prosseguiu a comer sua Torta de Viana.

 

Ao final da ceia, Sidónio pai chamou o jovem ao seu gabinete doméstico, trancou a porta e, finalmente, contou ao filho o que, por toda a vila, estava a se comentar – Ó pai, e isso lá… já está? Confirmadinho e o mais? – Sim, a menina, daqui a nada, vai parir o bastardinho. – Fez uma breve pausa e olhou bem fundo nos olhos do rapaz – E acaso percebes o que se haverá pra ti… pra todos nós, na verdade, com as consequências disso tudo? Teu noivado acabou. Não há de haver mais casamento. – ao que o moço indignou-se – Mas senhor meu pai, Aldenora é uma rapariga direita, e vós sabeis muito bem disso.

 

O Cordeirão foi categórico – Que importa que ela seja! Mas é irmã, é da família... Hão de falar sempre as más-línguas. Como se diz, quem puxa aos seus se regenera; quero dizer, quem puxa aos seus não se genera; quem puxa aos seus, não... mas em que raios cagados de língua estou a me expressar?! – e o filho, embora triste, consertou – “Quem puxa aos seus, não degenera” – ao que o pai continuou – É, só que, neste caso... Mas ora vamos, do que estou eu a falar, afinal? Oh, sim, amanhã mesmo vou mandar uma carta ao senhor João Reis, desobrigando-te dos compromissos. E tua mãe vai desfazer vários outros, que já estávamos a assumir. Ora, pois, rapaz… lastimo bastante, mas… tem que ser! E então, estamos conversados?

 

Posto que fraco o amante, ou frágil esse amor que, até então, não parecia sê-lo, António Sidónio disse apenas, em voz sumida – Sim, Papá. – Correu à casa de banho e vomitou toda a sopa de castanhas piladas, que acabara de lhe saber tão bem. Em seu quarto, atirou-se na cama aos prantos. Tantos, que nem a sua educação de “macho não chora” conseguia conter. Ao escutar do filho, aos borbotões, os mais profundos ais, emersos do mais fundo alcance de seu atormentado coração, dona Joaquina pôs-se a enxugar seus olhos de mater compungida com um lenço de flores. Estas, embora bordadas com viço, o pranto as fazia murchar, uma a uma, diante de si, de um modo inverso ao que ocorria com as rosas de pano de Hernando.

 

Não conformava a Nonô, todavia, que todo o futuro tão sonhado com seu noivo estivesse a acabar desse jeito, feito ameixa passada, ao simples truz de uma carta fria e sucinta:

 

Excelentíssimo Senhor João Bernardes,

 

À vista dos factos que vieram ter ao nosso conhecimento e foram confirmados por pessoas de nossa confiança, meu filho António Sidónio Cordeiro Filho está, a partir desta data, desobrigado de qualquer compromisso assumido com a menina Aldenora Bernardes, sua filha, a quem, não obstante, do mesmo modo que à Vossa Senhoria e Digníssima esposa, continuamos a nutrir o mais profundo respeito e consideração.

 

Esperamos que, igualmente ao que estamos a providenciar, Vossa Excelência mande avisar a todas as pessoas de seu conhecimento e familiares, que não mais se haverá de realizar a cerimónia de casamento prevista entre os dois jovens.

 

Atenciosamente,

 

António Sidónio Cordeiro.

 

Quanto a essas providências, apesar de Reis e Florinda perseguirem sempre o conceito de uma postura convencional, com muita correção e honestidade em seus atos, viram-se, dessa vez, obviamente desobrigados de avisar a quem quer que fosse sobre a anulação do contrato pré-nupcial.

 

 

  1. FUGACIDADE.

 

António Sidónio, o pai, tinha o seu nome sempre citado no jornal “A Região Flaviense”, fosse no dia de seu aniversário, na morte de algum parente, ou nas suas viagens a Coimbra e a Lisboa… Em uma dessas notas, publicada logo após...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

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26
Mar19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PRAZERES MODERNOS.

 

O mundo corria, o tempo escorria e todos acorriam ás novidades do século XX. Aos rapazes, exerciam grande fascínio os novos cavalos de metal, as motocyclettes, como a Minerva, que “com maior multiplicação, trepa melhor a todas as rampas” ou a Alcyon, que, “sólida, elegante e simples, sobe todas as rampas com grande velocidade”. Esta última era a preferida dos sonhos de Afonso, mas o rapaz, timidamente, escusava-se de pedir ao Papá tão precioso mimo e obter um NÃO de resposta, o que lhe seria bastante constrangedor.

 

Nas ruas de Chaves, alguns raros abastados já começavam a fazer aparecer automóveis como o Paicard de 7 cavalos ou o Bayard-Clément, de 7 a 8 cavalos e 2 cilindros, “baratíssimo e extremamente cómodo, que se usa com pneumáticos Michellin e Dunlop”, como diziam os reclamos nos jornais. Já havia até flavienses que sonhavam em participar de uma corrida de carros, como tinha sido a recente Volta de Portugal. Para esse percurso do Porto ao Faro, realizado em pleno fevereiro do último inverno, “o Sporting Club de Chaves mandou um representante, num magnífico Fiat, pneu Goodyear, consumindo o óleo Spidoleine, à incrível velocidade média de 35 quilómetros por hora”.

 

Um magnífico Renault, a uma ensolarada tarde de junho, deteve-se à frente da Quinta Grão Pará e dele saltou Sidónio, sem capa e batina, mas com um elegante fato de verão, a gozar suas merecidas férias de estudante. Vinha convidar Aldenora e as irmãs para um passeio, nos arredores da vila flaviense. Quando apenas três raparigas entraram no carro, o rapaz perguntou – E Aurora? – as irmãs entreolharam-se e Arminda foi prática – Ela mandou agradecer, pede muitas desculpas, mas não lhe apetece sair hoje de casa. – ao que Sidónio lamentou – Acho que ela está a perder um belo passeio.

 

Foi, especialmente para os noivos. Dentro dos razoáveis limites, as irmãs de Nonô lhes permitiram ficar bem à vontade e até guardaram, nos aprazíveis sítios onde havia muito a apreciar, conveniente distância para deixá-los a sós. Apesar da estrada íngreme e de terra batida, o que mais agradou a todos foi apreciarem, mais de perto e em seu interior, as ruínas do Castelo de Monforte.

 

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A caminho desse castelo, Sidónio falou-lhes da “pedra bolideira”. Trata-se de uma rocha de formato irregular, quase oval, achatada, com mais de 3 metros de altura e cerca de 10 nas medidas (quase iguais) de comprimento e largura, cortada ao meio e solta do chão, a integrar o conjunto de grandes blocos graníticos do maciço que se vê às encostas da serra do Brunheiro, a uns 18 quilómetros a leste de Chaves, como se fossem gigantescos e pétreos cogumelos.

 

Esse enorme pedregulho destaca-se por uma particularidade muito interessante e, quando o moço, ansioso por transmiti-la às raparigas, contou que a Bolideira, apesar de suas várias toneladas, pode ser balançada em um movimento oscilatório, por qualquer pessoa, com apenas um simples empurrão, as meninas puseram-se a rir e pediram que lhes contasse uma peta mais plausível, se é que se pode falar assim das inverdades. Ao se verem, contudo, diante da rocha, e moverem o famoso bólide de um lado para o outro, soltaram risinhos de pasmo e de alegria, como se estivessem diante da oitava maravilha do mundo.

 

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Pedra Bolideira, Trás-os-Montes (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Alguns dias depois, a se aproveitar de um inesperado e eventual relaxamento das intransigências de João Reis, em permitir às filhas (menos à desditosa Aurora, decerto) uma relativa liberdade de saírem, algumas vezes, para meras diversões, Sidónio levou a noiva, com as costas bem guardadas por Mindinha e Aurélia, a um evento inesquecível: um baile, por demais concorrido, nos vastos salões do palacete Botelho.

 

Mais uma vez o rapaz perguntou pela Aurita. Previamente concertada com as irmãs, Aldenora explicou que a menina andava bastante deprimida, a falar até em se recolher a um convento e se tornar esposa de Jesus, ao que ele sorriu – Ainda bem que é ela e não tu, a querer esse tipo de matrimónio. Não me apetecia ter que brigar por ti, minha Nozinha, com um rival assim, tão poderoso e mais forte do que eu!

 

O baile fora organizado por um grupo de raparigas da elite de Chaves, às quais um cronista do jornal “A Região Flaviense” elogiou os “tons de grande distinção, salões belamente ornamentados e com uma deslumbrante iluminação”. Todos se divertiram à farta e, apesar das preocupações, Papá não reclamou que Sidónio só trouxesse as filhas de volta após as seis da manhã, hora em que o baile terminou. O noivo ficou arrebitado de vaidade, ao ver que o velho Bernardes confiava em si. O que ele não sabia era que Reis andava a mergulhar, cada vez mais, em uma terrível apatia.

 

Sidónio levou ainda as meninas, nessas férias, a outros bailes de fundo beneficente. Mais adorável ainda foi uma soirée promovida, dessa vez, por rapazes das melhores famílias da Vila, entre os quais se incluía o noivo de Nonô, realizada nos salões da Associação Recreativa Flaviense. Dessa vez, porém, tal como em alguns outros eventos a que levou a noiva, ele não mais perguntou pela futura cunhada.

 

  1. CÁRCERE.

Aurora prosseguia em sua prisão de grades invisíveis, sem que João Reis ao menos lhe dirigisse o olhar. As irmãs do meio continuavam a...

 

(continua)

 

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29
Jan19

Chaves D´Aurora

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  1. JUDAS DE ALELUIA.

 

Para uma vingança mais fácil, mais leve e em muito boa hora, logo surgiu a ocasião.

 

A ideia de execução foi da própria Arminda e os irmãos se encarregaram do mais, ao chegar o dia de malhar o Judas, por obra e graça, gracejos e graçolas dos putos e miúdos, no Sábado (então considerado) de Aleluia. As maltas andavam à solta pelas ruas, à cata desses bonecos de pano com enchidos de palha por estripar.

 

Perto da Quinta do Caneiro, os caçadores de judas encontraram um espantalho vestido de cigano à moda tradicional e com um lenço encarnado ao pescoço, que a todos lembrava o perfil de um certo morador da vizinhança. Ao esventrarem o boneco, trajado de modo tão garrido e adornado de joias baratas, os garotos acharam vários papeizinhos que, atendo-se apenas a crimes de honra e de responsabilidades morais, expunham o quê e a quem se destinava o testamento do Judas.

 

Nestas profanas Escrituras, certo cigano era descrito como pessoa de péssimo caráter. Narrava-se a todos o seu vergonhoso comportamento de marialva e dom-joão, para com mais de cinquenta mulheres trasmontanas de boa-fé, que a todas o gajo alcançava iludir e, logo mais, já estava ele a dar às de vila-diogo. Isso era verdadeiro quanto à qualidade dos logros, mas, no que tangesse à quantidade, decerto que exageravam. Acabavam por torná-lo admirado e enaltecido por muitos machões trasmontanos, os que lhe eram da mesma laia.

 

 

  1. BOCA FECHADA...

 

...não entra mosquito. Apesar de Hernando dizer-se bom de briga e, quem sabe, até chegar a sê-lo, embora se conhecessem dele apenas as habilidades no Malhão, o rapaz viu, nas bofetadas de Zefa, uma pequena amostra do que lhe poderiam fazer os irmãos de Aurora. Ademais que eram vizinhos bem próximos. Havia também o hercúleo Manuel de Fiães, que lhe viera segurar as golas do paletó e fazer ameaças, com ponderáveis chances de se tornarem realidade.

 

O cocheiro fora por conta própria até ao cigano, a gastar com ele o que lhe era a única sovinice, ou seja, o verbo – A ca... casar não te po...posso... obri... brigar, seu velhaco... – e chegou a soltar a voz de enxurrada, como fazem os gagos a cantar – Mas vou deixar-te estropiado, com as minhas mãos na garganta e um chute nos colhões, se di... disseres a qualquer pessoa que ela está... tá... grá... grávida de ti, a menina Aurora! – Isso fez Hernando balbuciar, com as faces mais brancas do que as do cadáver que, ele próprio, já estava a se imaginar – Está bem, ó pá, deixa estar! – e até mesmo a tartamudear, como se estivesse, sem querer, a imitar o moço de Fiães – Des... des... desta boca, ja... ja... jamais sairão coisas que… que... que se não devam dizer!

 

Percebeu então que, muito antes de João Reis saber dos feitos, o cocheiro já desconfiava dos factos, graças a algumas imprudências dos amantes, no fortuito relacionamento que desejavam manter em segredo. Manuel nunca vira nada disso com bons olhos, mas não sabia, àquela ocasião, que atitude deveria tomar.

 

 

Hernando tratou, pois, de silenciar acerca de tudo que se passara entre ele e a filha de João Reis. Controlava-se até mesmo nas tavernas da Madalena quando, entre vários outros gajos fanfarrões, a se enfrascar de pinga, sentia ganas de contar – Oh, pá, nem sabes de uma, andei a ganhar as graças de uma rapariga e logo lhe mostrei o que é ser um garanhão dos bons! – e até à dona Mariazita, sua mãe, quando esta perguntou – Que andaste a fazer por aí, meu parvo, que estás a cismar no bestunto, feito um asno? – respondeu – São coisas da minha cachola, ó mãe, não metas cá o bedelho, pois já não te sou mais nenhum fedelho que ainda esteja por desmamar.

 

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Bairro da Madalena, Chaves antiga (PT). Postal público. Foto Alves.

 

 

  1. BUENA DICHA.

 

Só muitos dias depois de saber da prenhez de Aurora, no entanto, como sói fazerem os filhos ciganos, em momentos de grande tensão, Hernando correu a pedir à mãe que...

 

(continua)

 

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08
Jan19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

Uma noite inesquecível chegou, de repente, à memória de Aurita.

 

 

  1. VIGILANTE.

 

Papá estava com a pistola nas mãos, em companhia de Manuel de Fiães, a proteger a casa e os que nela habitavam, de algum monárquico fugitivo que estivesse a correr pela Estrada do Raio X e achasse, por bem, ou por mal, acoitar-se na Quinta.

 

Naquela noite de gritos de Viva a República ou Viva a Monarquia, em doze de Julho de 1912, a menina Aurita, quase a completar os dez anos de idade, deixou Mamã a rezar com os mais no quarto e se dirigiu ao patriarca – Que estás a fazer, Papá, com essa pistola? – e este, que não era dado a carinhos físicos aos filhos, pegou-lhe o queixinho e lhe respondeu, com a ternura expressa nos olhos e na voz – Estou a velar por todos nós, cá desta casa, minha boa menina. Especialmente por ti, a modo e à sorte que nunca, em tempo algum, homem nenhum apareça para te fazer mal!

 

 

  1. SILÊNCIO.

 

No dia seguinte, João Reis mandou chamar todos à sala de estar, inclusive Alice e as criadas, para um pronunciamento de suma importância. Ao cocheiro, não precisava convocar, porque além de leal, já era de seu feitio ser discreto, retraído, caladão.

 

Papá recolheu-se ao gabinete e, tão logo soube que todos já estavam à sua espera, foi até à sala e disse, em tom pausado e firme – Vou falar por agora, de uma só vez e basta! Durante todo o tempo que se fizer necessário, nenhum dos senhores há de abrir a boca para as pessoas lá de fora, a falar de qualquer coisa – e enfatizou – QUALQUER COISA que se passe aqui dentro, entre as paredes da quinta! – após o que falou, com mais dureza ainda – Nem mesmo aos parentes mais chegados! Não comentem nada sobre qualquer assunto que diga respeito à nossa família! – e concluiu – Estão todos a perceber o que lhes falo ou querem que lhes meta na cabeça, uma vez mais, esse voto de silêncio que todos, aqui, devem guardar? Pra já, é só. Estamos conversados!

 

A partir desse dia, as refeições passaram a ser uma hora de grande constrangimento, para aquela filha proscrita do coração paterno, mormente quando Papá dirigia-se a Florinda ou aos irmãos – Dizei a essa menina que me passe o azeite! Dizei à menina que me chegue cá o vinho! Dizei à menina que melhor faz ela em comer alguma coisa, pois não quero que se venha a estender, por sua causa, cortinas pretas às janelas! – todavia, com o passar do tempo, os mais e a própria Aurora acabariam por assumir as rotinas de suas vidas, ainda que, agora, ligeiramente modificadas.

 

 

  1. NÓS.

 

Graças à boa Zefa, Aurora concertou um encontro com Hernando, apesar de toda a vigilância familiar. Por mais que houvesse ensaiado ....

 

(continua)

 

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04
Dez18

Chaves D´Aurora

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  1. CADAFALSO.

 

Maria Aurora Antonieta Bernardes encaminhou-se ao cadafalso e, se por fora, mostrava-se pálida e inerte, mais abatida estava em seu interior. Parecia-lhe, de repente, que o corredor a conduzi-la da Bastilha ao gabinete de Papá, nessa triste manhã, estava muito maior que o malfadado túnel de seu desatino. Enorme, infindável, tortuoso.

 

Ao passar pelo quarto dos rapazes, ouviu vozes exaltadas dos irmãos, a dizerem coisas como – Ai que vou matar esse gajo! – ou – Deviam fazer com ele, sabes o quê? Pegar-lhe com jeito os penduricalhos e ó! Nem aos leitões! – e, logo a seguir, baixou a cabeça diante do quarto das irmãs. Ali, a plebe jacobina, representada por Aldenora e Aurélia, embora não gritasse aos ouvidos de um invisível carrasco, como a rainha de copas no País das Maravilhas – Cortem-lhe a cabeça! – atirava à infeliz rapariga olhares de mágoa e reprovação.

 

Já próximo à sala íntima do pai, consolada pelo abraço à cintura que lhe dava Arminda, Mamã estava a chorar baixinho, com um lencinho de cambraia dobrado e encostado aos lábios. Ao ver a filha infortunada, abraçou-a e lhe beijou a testa.

 

Aurora entrou. Postou-se atrás da cadeira onde sentava-se João Reis, o pai que tanto amava e por quem sempre fora (e temia, a essa altura, já não ser mais) tão amada. Sentado na cadeira de balanço, voltado para a janela, cá estava aquele que o povo da terra alcunhara de brasileiro. Partira bem jovem às terras do Pará, na Amazónia e por lá fizera fortuna. Casara com uma ditosa rapariga, filha de boas gentes aveirenses que por lá andavam. Tornara depois à terrinha, com um ótimo tino comercial e muita fibra, e por cá ficara, na esperança de multiplicar, em Chaves, a fortuna amealhada no Além-mar.

 

Era nesse momento, porém, um pobre homem, alquebrado pelo desgosto repentino, que o não deixara dormir durante a noite passada. Lembrava-se, naquele momento, do dia em que Aurora nasceu e, por acaso, não fora um dia qualquer em Belém do Pará.

 

 

(continua)

 

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22
Nov18

Do Campo da Fonte até à Escola da Lapa

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O post anterior de “Flavienses por outras terras”, em que o Luís dos Anjos traz até ao blog mais uma flaviense ausente,  a Carmen Antunes, despertou em nós algumas recordações antigas, tudo porque desde criança conheço a Carmen, embora mais novinha que eu, passava-lhe à porta de casa todos os dias, além de ser colega e amigo de uma das suas irmãs,  e termos em comum, pelo menos, os nossos trajetos até à cidade, que não estava assim longe, mas que era obrigatório passarmos pelos mesmos sítios. Claro que as recordações que ela guarda desses tempos idos não serão bem iguais às minhas, mas nas suas recordações vêm à baila sítios, lugares e escolas que hoje em da já não são bem como eram nesses tempos.

 

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Pois em homenagem também à Carmen que nos brinda com algumas das suas recordações antigas, vou fazer em imagem o trajeto obrigatório que ela teria de fazer até à sua escola da Lapa, que tal como ela afirma só funcionou como tal até 1974, sendo depois transformada em Escola do Magistério Primário. Uma mescla de imagens  de vários anos passados, sendo as mais recente mesmo deste ano, mas sem grandes alterações em relação ao que o sítio sempre foi e as mais antigas, repesquei-as dos anos 90, ainda da era da fotografia analógica, e essas sim, com algumas transformações mais ou menos profundas.

 

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Pois no seu trajeto teria de passara pelo Km.0 da EN2, na época um bocadinho mais diferente, aliás, no seu tempo de escola ainda deveria aí existir o posto de Polícia de Viação e Trânsito. Logo a seguir teria de entrar na madalena e atravessar a Ponte Romana, pois duvido que utilizasse a ponte nova bem mais distante.

 

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Do outro lado da Ponte Romana teria que passar forçosamente pelo Arrabalde, o antigo Arrabalde, esse sim bem diferente daquilo que é hoje. Uma praça aberta, vistosas e luminosa ainda sem mamarrachos pelo meio. Por sinal uma belíssima praça onde se festejavam os grandes acontecimentos da cidade.

 

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Quase de certeza que seguia pela rua de Stª António acima ou então, era menina para uns dias ir pela Rua de Stª António e outros pela Rua do Olival para ver o movimento da praça antiga. Fosse por onde fosse, também quase de certeza, que passava pelo Jardim das Freiras, então ainda jardim, a sala de estar da cidade e sempre com muito movimento e vida, não confrontasse então o jardim com o Liceu, com a GNR, com os Bombeiros, com a Caixa Geral de Depósitos, Correios, Aurora e Café Sport. Alguns destes equipamentos ainda estão por lá, e no lugar dos Bombeiros e GNR ganhou-se o espaço da Biblioteca Municipal, o que faz mesmo a diferença é o jardim que existiu duas praças (das freiras) atrás.

 

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Por último seguiria pela rua de Stº. António, contornava o Liceu e subia a ladeira em direção à Capela da Lapa, mesmo ao lado do recreio da escola, apenas uma travessa pelo. Claro que também poderia ir até ao Jardim do Bacalhau e subir um pouquinho da Júlio Martins, onde a meio tinha finalmente a Escola da Lapa. Quanto ao Jardim do Bacalhau, então ainda com a forma de um bacalhau, tinha ainda a pérgula e o antigo edifício militar da antiga cavalaria a confrontar a todo o comprimento de jardim, edifício esse bem mais interessante que os dois mamarrachos que limitam os espaço do atual jardim. Enfim, mas já que deixámos a Carmen na escola, está na hora de nós partirmos.

 

Até amanhã!

 

 

 

13
Nov18

Chaves D´Aurora

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  1. ANUNCIAÇÃO (3).

 

Mais uma vez o jantar foi de tal silêncio, que até João Reis, em geral não muito dado a conversar durante as refeições, estranhou que ninguém falasse nada, ao menos para comentar sobre o caldo verde da Mamã, sempre melhor que o de sempre.

 

À desditosa menina Aurora, indisposta no leito, Zefa levaria uma canja. Os rapazes, assim como a mais nova, ainda de nada sabiam. Aldenora remoía seus angustiados pensamentos. Alice, esta já optara em comer junto com as criadas, cheia de vergonha diante do futuro sogro. Somente Aurélia esboçava dizer alguma coisa, vez por outra e se calava, diante do olhar severo da mãe. A essa altura, Flor percebera que Nonô já se antecipara em passar à irmã a lastimável notícia.

 

Florinda esperou que o marido fosse para a salinha íntima e, como de hábito, ficasse a tomar o seu Porto, fumasse um havano e folheasse os jornais. Dirigiu-se à porta oval, encimada por vitrais coloridos e, por uns segundos, hesitou. Sentiu que havia alguém atrás de si, virou-se. Era Aldenora, que lhe tomou das mãos, beijou-as e fez, com a cabeça, um gesto de – Vá! – e foi esse, talvez, o mais crucial momento na vida de Florinda de Morais Dias Bernardes. Adentrou o aconchegante ambiente, fechou a porta atrás de si e parou, com as mãos unidas como a rezar, imóvel qual a Santa Maria em seu nicho, à Igreja Matriz.

 

Reis mirou-a por algum tempo e já lá se pôs a plenos cuidados com a esposa. – Que tens, Menina Flor, estás doente? Mesmo ao jantar, reparei que não estavas boa. Oh, minha Florzinha, andaste a chorar? – e ela se lhe atirou aos braços – A chorar por nossa filhinha, meu querido Reis, nossa filha Aurora, nossa tão encantadora e amada Aurita… – e o Papá, já nervoso – Que foi, minha Flor? Fala, diz, que foi que aconteceu com a nossa menina? Ela está enferma, eu sei, disseste que por isso não vinha à mesa, mas o que se passa com ela, de facto? O que foi que disse o doutor Fagundes, alguma doença muito grave?

 

Ela afastou-se do marido, foi até à janela envidraçada e se pôs a olhar para a estrada que vai dar à Espanha. Em verdade, não se pusera a olhar para nada.

 

 – Está prenha.

 

Papá levantou-se quase a pular, o sangue a lhe subir às têmporas – Mas como?! Como é que pode ter acontecido uma tontice dessas?! Diria até que estás a fazer troça comigo, se isso fosse motivo de se brincar, ou fossem tais coisas do teu feitio! Grávida, a nossa menina?! – e logo adveio a odiosa pergunta – Mas de quem?! – Ela não me diz quem foi, apenas se põe o tempo todo a chorar.

 

Reis ficou por vários minutos a remoer as ideias e a misturar vários sentimentos, em seu redemoinho cerebral. – Mas as nossas filhas, elas nunca estão a sair sozinhas de casa, tu sempre cuidaste bem delas… Será que dormiste demais o sono dos imprudentes e deixaste a nossa menina ir ao Beco do Desvio, aquele que sempre acaba na Rua da Amargura? – lá isso feriu Mamã e ele – Não, não chores, bem sei que não tens culpa de nada… Mas quem será esse filho de uma marafona, que atirou aos porcos uma pérola tão preciosa como a nossa Aurita? Algum desses colegas do Afonso ou do Alfredinho, que nos vêm a casa e, ao invés de apenas desfrutarem de teus bolinhos e biscoitos...? Ou será que o Manuel não passa de um grande sonso e traiu a nossa...? Oh, não, minha Flor, que estou a dizer? Nem o de Fiães!

 

(continua)

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