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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Jun20

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. ADEUS, PORTUGAL!

 

 

No Porto, ainda teriam que ficar, por uma noite e um dia inteiro, em um hotel de luxo perto da estação de São Bento, na qual todos se viram extasiados com o átrio, revestido pelos belos murais azulejados de Jorge Colaço. Ao providenciar uma estadia de lords e ladies a um hotel de alta classe, enquanto aguardava o embarque no Hildebrandt, o patriarca anuviou-se de repente ao lembrar as profecias de Totonha e os seus próprios pesadelos. Um frio lhe desceu goela abaixo. Seriam talvez, àquela altura, os últimos e raros momentos dos três erres - riqueza, requinte e regalia - que, a si mesmo e aos seus, ele ainda poderia proporcionar?

 

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Estação de S. Bento - Porto

Aurora, que dissera a Hernando o nome desse hotel, sentava-se por horas a fio na luxuosa sala de estar, contígua à receção, a fingir que folheava revistas e jornais, mas com os olhos a se dirigirem, com frequência, à rua em frente. Punha-se vigilante, com os olhos a atravessarem o vidro pelo qual se via o exterior, ou diante dos imensos espelhos verticais de cristal do recinto, nos quais também se refletia a sua ansiedade.

 

Tal ânsia, porém, ao menos àquela altura, teve de ser contida pelas circunstâncias. Foi obrigada a se retirar do salão e a se recolher ao quarto, tão logo viu o Papá adentrar o recinto, a fim de ler os jornais do dia.

 

O assunto em maior evidência era o novo governo a se instalar no país, com a insurreição militar golpista que fizera triunfar, finalmente, o conjunto de forças reacionárias contrárias à República e ao progresso social. Unidas em torno de um objetivo comum reacionário, compunha-se de várias correntes, bem diversas: militância da Igreja Católica, nos púlpitos e fora dos templos, em sua constante cruzada contra o governo republicano; alguns setores monárquicos remanescentes; uma significativa parcela do exército português, que aspirava a um governo militarizado e à instituição da ditadura; republicanos da direita, que a tudo isso apoiavam. Toda essa malta conseguira, afinal, alcançar os seus objetivos políticos e civis, aos 28 de maio de 1926 e, infelizmente, devido ao contexto histórico e, sobretudo, económico, obter o apoio da maioria do povo, religioso e conservador.

 

Deixara de vigorar a constituição de 1911 e foram suprimidas as instituições parlamentares e liberais da república democrática. Em 1928, assumiria a presidência do país o general Fragoso Carmona, cargo no qual ficaria por muitas décadas, até sua morte (1951). As mãos de ferro sobre Portugal seriam, de facto, as do verdadeiro detentor do poder central, o senhor doutor António de Oliveira Salazar (1889-1970), que interpretava os fundamentos do catolicismo a um modo bem pessoal, tão beato, reacionário e fascista quanto o do Cardeal Cerejeiras. Esse alto dignitário da Igreja em Portugal aclamava Salazar, tal como o povo em geral, por ele ter implantado importantes diretrizes na economia do país. Inicialmente bem vistas, por seus acertos emergenciais, estas vieram a se tornar depois, no entanto, bastante questionáveis, quer pelos falhanços na ampliação e exclusão das camadas mais pobres, quer pela estagnação da produtividade em geral.

 

Diante de tudo isso, João Reis lembrou-se da proclamação da República no Brasil, um evento golpista e ditatorial. Murmurou então, para si mesmo – É, Reis, estás a ver que essas políticas, no fundo, tem suas nuanças, mas são como um cardume de sardinhas. Tudo igual.

 

  1. EMBARQUE.

 

As luzes do Hildebrandt faziam-no parecer, sobre o Douro, uma imensa aldeia povoada. Após João Reis pagar...

 

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Cais da Ribeira - Porto - Fotografia de Carlos Relvas

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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02
Jun20

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. IRREVERÊNCIA, ADEUS!

 

O motorista atual de Dedé era um rapaz mais baixo, mais franzino e até alguns anos mais velho do que os valetes anteriores. Bicanço, bexigoso, era também aquilo que não se podia negar em dizer – um feio.

 

Florinda custou a perguntar, mas não resistiu – E o Manozé? – Anda a Lisboa, casadinho com uma pretinha da Guiné Bissau – Ele era bem mais simpático do que esse, agora, não é? – Ora, pois, era e é. – ao que, maliciosa – Também tinha muito mais jeito para os outros afazeres do que esse aí, percebes, mas... esse aí também tem seus predicados. – Mamã não conseguiu disfarçar a indiscrição – Esse rapaz, nas funções da casa… serve-te bem? – ao que Dedé, a entender o alcance da curiosidade da amiga – Para os precisos dele do dia a dia, sim e até para as minhas urgências, que agora são cada vez mais raras, porque a idade me chega e já não me atiro de caixão à cova, como antigamente. Sabes como é… agora estou igual a muitas esposas flavienses: é mais servir a ele do que ele a mim, percebes?

 

Tapou a boca de lado, com uma das mãos e baixou, o mais que pôde, o tom de voz – Esse aí, apesar dessa cara feia e da falta de jeito, é de uma fúria insaciável, abana e refresca os meus calores como se fosse um vendaval, um ciclone, um furacão – sussurrou – Pena que ainda não aprendeu a ser menos rapidinho e, portanto, só na terceira viagem é que eu deixo de ficar a ver navios em pleno Tâmega! Apressado come cru, percebes, mas se o rapaz se satisfaz, assim... – tornou-se séria, de repente – Esta vida é só dois dias. Bebe-se a água conforme o pote. – e logo voltou sua alegria – Ah, minha Flor, nem te conto: o Manozé vai ser pai! E já ficas sabendo o resto: vou ser madrinha do miúdo. Desta vez, no papel e na pia de verdade. Que o pequerrucho, até chegar a se pôr… já vou eu estar sentadinha e a fazer crochê, numa cadeira de vovó – então soltou uma risada escandaleira, como era de seu feitio.

 

Florinda sorriu, a experimentar um de seus raros momentos de descontração, embora a fingir que não percebia os olhares de reprovação que, a todo momento, lançava-lhe o marido. A certa altura, porém, levou aos olhos o lencinho de cambraia. – Essas pessoas queridas, cá na estação, e mais tu, Adelaide – Voltou-se para a cunhada, um pouco adiante – E tu também, Comadre Hortênsia! Ah, isso fala à gente! Obrigadinho, a todos vós! Ainda mais depois de… de tantas agruras que me souberam mal!

 

Adelaide ponderou então, comovida – Melhor, minha Flor, que o vento nos leve o chapéu, mas nos deixe a cabeça! Coisas de ontem, curam-se amanhã. Estejas bem, minha boa Flor! – e disse, então, as palavras que, em seguida, todos estavam igualmente a proferir e que mais pareciam as frases de um réquiem – Vão com Deus, meus entes tão queridos, para todo o sempre lembrados. Cá ficamos.

 

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  1. TRÁS-OS-MONTES, ADEUS!

 

Após os últimos beijos e abraços, João Reis e os seus partiram rumo ao Porto. Assentada à cabine do comboio, Florinda...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

 

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07
Abr20

Chaves D´Aurora

ROMANCE

1600-chavesdaurora

 

 

  1. SUB JUDICE.

 

 

Ao dizer tudo isso a Lucinda, esta, com o auxílio de um dedo indicador e um polegar sobre as pálpebras da rapariga, atentou para o facto de que os olhos de Aurita deveriam ficar bem abertos, cada vez mais e sempre. Depois falou-lhe, a balançar a cabeça com descrédito – Tens que estar muito segura de que ele te ama, de facto. Quando duas almas unem seus corpos por se amarem de verdade, podem voar bem livres, até às mais altas nuvens e montanhas. Tudo pode se tornar mágico e belo, como num circo, mesmo entre as paredes de uma humilde habitação. Mas te pergunto, minha boa Aurita, será que esse gajo te ama, realmente, ao menos um tantito assim, de tudo o quanto estás a merecer? – Tornou a balançar a cabeça – Ou será que ele está apenas a querer se aproveitar de ti, como às mulheres pataqueiras?

 

Ante à previsível reação de Aurora, acalmou-a – Não, não! Estás a ver que eu não estou a insinuar coisa alguma... lá isso, não! Tal não é, nem nunca haverá de ser do teu feitio! Ah, minha rica menina! É preciso perceber se ele te ama para todas as horas e não apenas para os minutos de seu bel prazer – e tirou então, do baú de suas experiências, a assertiva de que a maioria dos homens (pelo menos os daquela época), está pouco a se importar em ver suas mulheres alcandoradas, antes, durante e após fazer amor. Quase todos querem, na verdade, apenas que elas fiquem a satisfazê-los, em seus caprichos de macho.

 

Aurora tentou dizer – Mas o Hernando... – calou-se, porém, incerta quanto ao que ia completar, enquanto a amiga explicava – Os machos orgulham-se de seus membros viris e até se comparam, entre eles, as grossuras e tamanhos, mas troçam das partes íntimas de nós, mulheres. Alguns chegam até a demonstrar nojo de chegar a face perto de nossas partes íntimas, acham uma coisa feia de se ver e, quando se aventuram a olhar, dizem a rir que “aquela coisa sabe a bacalhau” – factos para os quais Aurita jamais atinara e tudo isso a deixou impressionada – Mas são todos assim ?! – Lucinda balançou a cabeça – Salvam-se alguns.

 

Tudo isso era o que a amiga opinava, mas, pelo menos àquela altura e até várias décadas depois, era bem real o que ela estava a afirmar e talvez pudesse, estatisticamente, confirmar-se no contexto de então. Ela prosseguiu, convicta – Aqueles que amam de facto as mulheres, sabem achar bonito qualquer cantinho do corpo de cada uma de nós; sabem beijar suas amantes de várias formas; sabem encontrar caminhos raros e carinhos intensos, que até mesmo algumas meninas não sabem existir e sequer imaginam como encontrar em si mesmas.

 

Aurora Bernardes, ainda que ficasse várias vezes a corar, chocada com a crueza da amiga ao falar de tantas coisas novas e estranhas (mormente que, ao falar disso tudo, a linguagem de Lucinda fosse bem mais rude e mais explícita do que a deste narrador) e embora muitas coisas e loisas ainda não lhe coubessem entender, guardou essas informações dentro de si, o máximo que pôde. E, dessa vez, aquém do Brunheiro e do Barrosão. Continuava a sonhar, todavia, que o amor de Hernando para consigo estava a se tornar tão grande, quanto a sua paixão para com ele. Portanto, logo tratou de pôr o seu pote com água na cabeça, sobre uma rodela de pano torcido e se afastar do poço de incertezas onde, estarrecida com as palavras de Lucinda, estava prestes a mergulhar.

 

Embora sem nutrir qualquer simpatia pelo jovem Camacho, Lucinda consentiu em procurar o rapaz e lhe expor toda a conflituosa situação em que Aurita se encontrava. Pediu então ao gajo para confirmar, uma vez mais, se ele iria ao Porto buscar sua brasilita. Ao retornar, a modista retransmitiu à amiga, afinal, o sim tão desejado. Isso gerou em Aurora uma grande alegria, ainda que melhor fora se tal palavra tivesse sido proferida, diante de si mesma, pelos lábios do próprio amante.

 

 

  1. PÁSSAROS.

 

No último dia dos Bernardes ao Raio X, ao abrir uma janela, Aurélia deixou seus ouvidos...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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24
Mar20

Chaves D´Aurora

Romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. ESPÓLIO DO CORAÇÃO.

 

 

Quanto ao mobiliário e à louçaria da Quinta Grão Pará, as transações se passaram de um modo mais entristecedor. Os móveis de nogueira, a maior parte das louças de fina faiança e as baixelas de prata, tudo isso foi vendido, a bem dizer e a mal comparar, a preço de carapaus (ou de banana, como se diz no Brasil). A cada peça que saía para as mãos do comprador, lágrimas eram derramadas pelas mulheres, em consternada homenagem aos serviços prestados por aquele bem, durante todos os anos ali vividos e a dó maior no coração era que, na verdade, pouquíssimas coisas foram salvas da pechincha geral. Apenas aquilo que pudessem acomodar nas imensas malas e baús que iriam constituir a bagagem familiar.

 

Flor sentiu o coração trespassado por mil flechas, quando Reis lhe disse achar difícil – Praticamente impossível, minha Flor! – levar de volta ao Pará a incrível obra de arte, mas de imenso porte, o oratório de jacarandá. Mamã, todavia, não consentiu de modo algum em se desfazer do seu mimo de arte. – Ainda que... – assim ela ameaçava, estoica – Tenha eu mesma de carregá-lo aos braços! – mas logo tudo se arranjou. De acordo comum, levariam consigo esse oratório e o menor, igualmente belo, mas de louça portuguesa e que, até então, estivera a adornar o quarto de Aurora. Com eles iria também o precioso relógio de madeira escura e ornamentos dourados, que o pai de Flor possuíra desde meados do século anterior.

 

Além de outras compensações e acertos de contas, o landó e os cavalos condutores, Murici e Açaí (os da cor de ébano, foram-se a bom preço), juntamente com alguns manhuços de justa e merecida indemnização, passariam a ser propriedade do cocheiro. Este, pela primeira vez, viu-se a dizer sentenças inteiras e a expressar, mesmo com dificuldade, algumas frases que, para ele, eram como que uma torrente de palavras – Ai Se... senhor João Reis, mu... muito obrigadito, que Deus lhe pague e lhe dê... lhe dê... a toda sua boa gentinha... uma vi... viagem em paz e salvamento e que... que... que o senhor esteja a fi... ficar muito feliz e com ... com muita saúde no Brasil!

 

 

Os cómodos da casa estavam agora desnudos e as paredes já mostravam as marcas das molduras dos quadros, após se retirarem delas os óleos originais de artistas portugueses, alguns ainda do século em que Florinda e o Reis nasceram. Tanto essas pinturas, como os retratos da família, haveriam de se empacotar com jeito e os levar ao Brasil. A Quinta Grão Pará seria, obviamente, a última coisa a se desfazer. Constituiu-se uma transação imobiliária justa e correta, pois comprou-a seu amigo Gonzaga Sarmento, em pleno e feliz acordo de ambas as partes.

 

 

  1. JURAS DE AMOR.

 

À última vez em que eles se enfiaram por baixo das cobertas na hospedaria, Hernando jurou-lhe, por Santa Sara...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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10
Mar20

Chaves D´Aurora

Romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. PESADELOS.

 

 

Vivia João Reis, agora, a enfrentar horríveis pesadelos, que muito preocupavam sua Menina Flor. Fosse talvez o medo de se deixar vencer pela apatia e depressão e, no Brasil, já não ter mais todo aquele tino para os negócios, aquela energia e dedicação que o levaram a amealhar tantos bens, o facto é que Papá vivia agora a se perder pelo país do sono.

 

Via-se ricamente trajado, em frente ao palacete Bolonha, em Belém. Era rececionado por uma criadagem disposta em fileiras, de ambos os lados, todos vestidos aos moldes de um castelo inglês, os criados a formarem uma comissão de boas-vindas, com a mais explícita bajulação. As filas, porém, eram logo desfeitas e sumiam de imediato e ele saía às pressas para se ver agora ao Largo das Mercês, onde entrava em uma casa de beneficiamento de arroz, com sacos do cereal por toda parte, um género de comércio que nunca fora do seu ramo. Ali encontrava Afonso muito aflito, a dizer – Papá, Papá, o arroz está a apodrecer e olha! Os ratos, Papá, ratos por toda parte!

 

João Reis então dizia – Vou até meus sócios, na fábrica de bolachas – e lá, diante dos pães, bolos e biscoitos finos, os fregueses punham-se a gritar – Cá então não percebes que eles estão velhos, mofados?! Como te atreves a nos vender alimentos assim?! – mas logo essas pessoas, os balcões e tudo o mais eram cobertos inteiramente por baratas enormes, cascudas, a se espalharem por toda parte. O pobre homem ia até ao escritório da empresa no Pará e, logo ao chegar, via os sócios brasileiros carregarem todo o dinheiro do cofre em enormes sacos de pano e a lhe dizerem, entre sonoras gargalhadas – Tu és um trouxa, portuga, mas aqui estamos pra te ajudar... ajudar a dar cabo das pratas e dos ouros que trouxeste da terrinha! Vais acabar na maior miséria!

 

O patriarca tornava a casa, mas esta já não era mais a Quinta Grão Pará. As paredes transformaram-se em uma casita simples, de porta e janela, a um bairro bem humilde de Belém, por trás de um jardim de plantas tropicais, à qual Reis chegava debaixo de uma forte chuva, após atravessar uma rua cheia de barro enlameado. Lá dentro, sua Flor o esperava para jantar um caldo verde, ralo e sem chouriço, acompanhado de nacos de pães duros e dormidos. Corria até um quarto que talvez fosse o do casal e, ao passar no corredor, Aldenora e Aurélia estavam à porta de outro cómodo, a reclamarem de seus vestidos rotos, puídos, remendados. João acordava, entre suores e a gritar – Estamos pobres, Menina Flor, estamos pobres cá no Brasil! E tão distante do nosso querido Trás-os-Montes!

 

(O pior de tudo é que, embora não pudesse perceber o aspeto paranormal de tais sonhos, eles eram premonitórios. Antecipavam, de forma onírica e surrealista, factos que, alguns anos depois, iriam tornar-se reais ou similares, conforme se verificou em pósteros relatos).

 

 

Eram tantas as preocupações e desacertos que, certa ocasião, ao se olhar no espelho, viu seus cabelos ficarem, além de brancos, bastante desfalcados, a um progresso de calvície cada vez mais rápido e não hereditário. Mamã o aconselhou a usar o Petróleo Natura, o qual, segundo um reclamo de jornal, era um “novo produto que tira caspa, vitaliza os bolbos capilares, saneia o couro cabeludo, cura a calvície e é absolutamente isento de doses metálicas, tudo isso atestado pelas análises do célebre professor Dr. Charles Lepierre”.

 

Papá sorriu, ante o esponsal conselho, mas logo lhe veio um ar de súbita tristeza. Mal chegara aos sessenta. Sentia-se, no entanto, cada vez mais envelhecido, alquebrado, buscando extrair, do fundo de sua anima, o ânimo que lhe faltava. Falou então à sua querida companheira de tantos anos – Deixa estar, minha Flor! Não vale a pena gastar vela com defunto ruim. As águas que o rio leva não voltam mais às fontes. O que me faz os cabelos ficarem assim, não tem cura nem remédio.

 

 

  1. ESPÓLIO DOS VIVOS.

 

Acionar os procedimentos necessários para aquele exílio, ainda que voluntário, não veio a ser assim tão fácil. Nem tão rápido, pelo menos...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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03
Mar20

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. CHAVES DA LIBERDADE.

 

 

Foi a esse tempo de encontros clandestinos com Hernando, entre as encardidas e remendadas enxergas da tal hospedaria, que Mamã reportou à menina Aurora as próximas intenções de Papá. Essa decisão apressava, é claro, os concertos que já estavam a se fazer, entre ela e o amado, de se transmigrarem ao sudeste brasileiro.

 

Dos tempos de escola, o rapaz conhecia a extensão territorial do Brasil. Sabia também, por meio de “brasileiros” retornados, que a isolada Amazónia só se comunicava com o resto do país por meio de navios a circundarem o litoral (como na canção póstera, de Dorival Caymmi – “Peguei um Ita no Norte e vim pro Rio morar, adeus meu pai, minha mãe, adeus Belém do Pará”). Não pareceu abalar-se, portanto, com tal novidade e, como já era de plena ciência da rapariga, gostava ao rapaz o traslado para São Paulo. Ali ficariam bem longe do senhor João Reis, por quem achava impossível nutrir, mesmo em um futuro distante, um mínimo qualquer de simpatia. (Ora, pois, quanto a isso e ao Bernardes, era tudo vice-versa).

 

Aurita, porém, em razão da obediência que achava dever ao seu pai, até à morte, ainda mais por causa do sentimento de culpa eterna, que a fazia passear de benito pelas ruas de sua Inquisição interior, sentia-se agora insegura para transgredir o que lhe fora ordenado, chegar até ao patriarca e dizer – Papá, estou a me transportar com Hernando e a minha filha para o Brasil – ciente de que João Reis jamais a perdoaria, menos ainda ao cigano, ainda que a sua humildade, aliada ao sentimento de culpa, não a impedisse de analisar outros modos de ver os factos e toda a realidade de sua atual situação doméstica. Vivia a se esfalfar no borralho. Sabia que, no Brasil, pela passividade dos pais ante as imposições de Aldenora e as intriguinhas de Aurélia, haveria de continuar como serva do feudo familiar, sem férias, sem domingos, sem remuneração.

 

Assim é que, mais e mais, empenhou-se em concertar com seu amado a fuga para alguma Terra Prometida, ainda que tivesse, qual Moisés, de dividir em dois flancos um oceano, para ela e o seu amor passarem. Rogava ao Senhor dos Navegantes para que não lhe aparecesse no caminho, como às cantigas de roda que a Mamã cantava, ao se lembrar de sua infância no Brasil, um barqueiro que, diante das súplicas – “Bom Barqueiro, Bom Barqueiro, dá licença de passar” – respondesse, na mesma cantoria – “Passarás, passarás, mas alguém há de ficar, se não for o da frente, o de trás é que será” – e, de pronto, determinasse que o de trás haveria de ser, nem mais nem menos, o seu adorado Hernando.

 

 

  1. PESADELOS.

 

Vivia João Reis, agora, a enfrentar horríveis pesadelos, que muito preocupavam sua Menina Flor. Fosse talvez o medo de...

 

 

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25
Fev20

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. CHAVES DA PAIXÃO.

 

 

Um tremor intenso de trovão percorreu o corpo de Aurora e algo novo como um raio caiu sobre a espinha dorsal. Foi quando, a uma de suas saídas para as compras domésticas, logo ali, na Madalena, reviu Hernando, todo sorrisos e bem perto de si. – Como estás? – Vai-se indo e muito bem – respondeu ela, com altivez. – E a menina? – Que menina? – Minha filha. – ao que Aurora cravou nele os olhos azuis – Não é tua filha – e o gajo foi tomado de surpresa. – Ora que raios, mulher! Como então que não é minha? – Não é. Se calhar, é daquele basco magricela que vende bugigangas às portas, ou mesmo de algum galego que estava a passar pelo Raio X. Quem mo dera ser a Virgem Maria e ter a minha miúda por obra e graça do Espírito Santo! – Porque me falas assim, brasilita? – Porque tu mesmo disseste, ou já não lembras, que não podias crer, totalmente, nem afirmar, de facto, que eras o pai da miúda.

 

Alguns dias depois, tornaram a se encontrar. Dessa vez, Aurora não conseguiu demonstrar qualquer hostilidade. Amor, paixão, perdição, por maior que fosse a fortaleza buscada para tentar esquecê-lo, o que ainda sentia por Hernando era mais forte do que ela. Quanto a ele, que fora sempre um gajo matreiro e parlapatão, sempre disposto a tirar da cartola quantos coelhos fossem necessários para conseguir os seus intentos mágicos, especialmente a satisfação de seus desejos, era difícil saber se estava ou não a falar a verdade.

 

 Ao terceiro encontro, Hernando jurou pensar no que ela propunha com tanta seriedade, ou seja, emigrar para São Paulo, onde já lá estava o primo Rodrigo muito bem de vida, com o pai dele e os irmãos arredor e onde o progresso do café e das indústrias prometia, aos emigrantes, muitas facilidades de acomodação e trabalho, em um país que somente há três décadas havia acabado de firmar a sua Lei Áurea, abolindo a escravidão (com o demérito ainda maior de ser o último das Américas). Com a postura de quem iria tomar, de facto, uma atitude das mais dignas e sinceras e após citar uns versos tirados do Almanaque do Porto, o jovem Camacho disse à rapariga, com ares de uma seriedade não habitual – Ah, minha rica brasilita, somente agora estou a perceber o quanto te amo! Pela vida de minha santa mãezinha, jamais quero, a esta altura da vida, perder-te de novo!

 

Quando Aurora formulou o convite, claro e definitivo – Estás a dizer, então, que vais comigo? – ele disse que sim e, antes de tudo – Sou um cigano, brasilita e sabes qual é o essencial na vida de um cigano? O amor à liberdade, o desejo de caminhar sem amarras pela Terra, pois há um lema de nosso povo que diz “em cima, o céu; em baixo, a terra; no meio os ciganos”. – Empolgava-se – E há outro que nos ensina: “a terra é minha pátria, o céu é meu teto, a liberdade minha religião” – ao que a rapariga o fez lembrar outro mais – “cão que não anda, não come” – ao que ele arrematou – Isso, minha rica, isso! Nem mais! Portanto, mesmo que eu tenha de fazer de ti uma cigana em meu carroção, ah, minha linda gajina, vamos juntos, tu e eu, até ao fim do mundo!

 

Daí em diante, passaram a matar as saudades que ele, agora, tentava assinalar serem mútuas, ao quartinho de uma hospedaria de má fama, em um sítio discreto que, naqueles tempos, ainda existia à Madalena. Por certo que, pelo facto de estarem a segredo, faziam isso com as maiores precauções, além de régios pagamentos aos beltranos e sicranos da hospedaria, a fim de que se mantivesse a total discrição possível. Após se entregarem aos entrelaces da paixão, teciam planos de fuga, de sobrevivência futura e, sobretudo, de como juntar dinheiro para a longa travessia.

 

Aconselhada por Lucinda, Aurora também se prevenia de surpresas desagradáveis, tomando todos os cuidados que à época ensinavam-se, embora saibamos hoje que os preservativos e tabelas menstruais de então não eram nada confiáveis. Completava essas prevenções com as preces a Deus, para que Ele não só lhe perdoasse os pecados, como também não lhe enviasse mais nenhuma outra semente inesperada ao ventre, uma vez que já lhe bastava o fruto tão bendito, alvo de sua maior afeição, ainda que estivesse a dividir esse amor com o eterno ladrão de seus sonhos, aquele que o semeara dentro de si.

 

Tal divisão, contudo, ela agora fazia de um modo mais prudente, pois não lhe escapavam os conselhos de Lucinda, especialmente o de ficar sempre de olhos bem abertos e ouvidos aguçados, quer diante de Hernando ou de qualquer outro homem. Nunca mais se deixar encantar enfim, maruja, pelo canto envolvente, enganoso e aliciador de qualquer sereia macho.

 

 

  1. CHAVES DA LIBERDADE.

Foi a esse tempo de encontros clandestinos com Hernando, entre as encardidas e remendadas enxergas da tal hospedaria, que Mamã reportou à menina Aurora as próximas intenções de Papá ...

 

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18
Fev20

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. ASSÉDIOS.

 

A essa altura, competia à mais atarefada das filhas, muito mais do que apenas atender às necessidades internas da casa. Era-lhe dado, agora, ir ao mercado do Arrabalde, às vendedeiras do Campo da Fonte, à botica da Madalena ou a qualquer outro sítio quando, nesse momento, não se pudesse valer dos serviços de Manuel.

 

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Mercado do Arrabalde. Chaves antiga (PT). Postal público. Foto Alves.

 

Eis que, então, alguns homens, tanto dentre os mais simples quanto os de posição abastada, ao lhe saberem não mais donzela, ficavam a lhe lançar olhares gulosos, de explícita concupiscência e, muitas vezes, quando passavam por si, sussurravam-lhe frases sugestivas ou, até mesmo, convites formulados de um modo mais direto. A tudo isso, Aurita, ora fingia não estar a perceber, ora baixava a cabeça, calava-se e seguia em frente, a tentar salvar sua dignidade.

 

Com o tempo, a seguir os conselhos de Lucinda, uma rapariga do povo que se fizera sua amiga, desde quando lhe viera em socorro ante os assédios de um bêbado que a importunava, passou a andar de cabeça erguida e a assumir um ar de superioridade. Ainda que alheio ao seu feitio, tal veio lhe conferir, realmente, mais respeito e segurança. Isso arrefecia, em geral, a mínima ousadia de qualq´uns ou qualqueres importunos.

 

 

Coisa rara para os de sua origem social, de baixos recursos financeiros, Lucinda, mulher de meia idade, morava à Madalena, tinha seus bens próprios. Dentre estes, os mais preciosos eram alguns estudos e leituras, que amealhara por ter sido amante de um escultor, em Évora.

 

Jamais escondeu de Aurora o facto de que, antes de sua vida com o escultor, havia-se prostituído em Lisboa. Agora, todavia, de volta a Trás-os-Montes, orgulhava-se de ganhar o seu pão a um modo mais seguro e, socialmente, mais aceite. Embora árduo, muito apreciava seu labor junto a uma máquina de costura, onde confecionava primorosos vestidos para as “muito importantes pessoas” do outro lado do Tâmega, as quais, em lamentável maioria, eram muito menos providas de erudição do que a modista.

 

 

  1. CHAVES DA PAIXÃO.

 

Um tremor intenso de trovão percorreu o corpo de Aurora e algo novo como um raio caiu sobre a espinha dorsal. Foi quando,...

 

 

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28
Jan20

Chaves D´Aurora

Romance

1600-chavesdaurora

 

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  1. MATER DOLOROSA.

No começo de outubro, uma camioneta levou o jovem casal até à estação de comboios, onde já o esperavam Papá, Afonso e as irmãs, exceto Aurora que, acompanhada de Maria, despediu-se dos emigrados, à porta da casita onde estes dormiam. A essa altura, a barrosã, calada como de feitio, já molhara de lágrimas todo o avental.

 

Florinda não quis acompanhar os dois à estação, momento que lhe seria de profunda comoção. Disse-lhes um – Até loguinho, meus filhos, até bem os ver! – à frente da Quinta, abraçando-se ao rapaz por longos momentos e, depois, um pouco à nora, a quem já estava a se afeiçoar. Entregou ao seu ai-jesus de sempre alguns escudos, tirados de seus alfinetes, subiu a escada de acesso lateral e foi ter ao quarto. Ajoelhou-se diante do oratório, a pedir a todos os santos (e à Virgem de Fátima, em especial), que Alfredinho e Alice tivessem uma ótima viagem, chegassem sãos e salvos à Argentina e fossem muito felizes.

 

(Conforme pósteros relatos, Alfredo não se houve lá muito bem em sua breve passagem pela Argentina e acabou por se fixar com Alice em Belém do Pará, onde viria a trabalhar na bela e aristocrática loja de tecidos Paris n´América. Pouco tempo depois, ficou viúvo, com uma filha pequena e casou com uma paraense, que lhe deu mais dois herdeiros. Herança quase nenhuma, pois Alfredo, embora sempre afetuoso e cheio de ternura para com os seus, jamais soube administrar bem os empregos, dinheiro, lar, nem a própria vida).

 

 

No dia seguinte à partida, Mamã viu-se diante de uma cova bem funda que lhe apareceu de repente e várias mãos, com unhas feito garras enormes e pontiagudas, puxaram-na para o fundo do poço. Ali, nas profundezas da fossa onde caiu, ela iria permanecer doravante, para tristeza de Papá e de todos os do clã familiar.

 

 

  1. BOA SAMARITANA.

Em consequência da enfermidade de Flor, Aurora teve que...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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21
Jan20

Chaves D´Aurora

ROMANCE

1600-chavesdaurora

 

 

  1. BONS ARES.

 

Alfredo decidiu partir com Alice para Buenos Aires, onde um amigo galego, ex-companheiro de pândegas a Verín, estava a lhe conseguir um emprego atraente e promissor.

 

Florinda, até àquela altura, evitara cair em prostração por qualquer outro problema de ordem emocional que a pudesse alcançar. Ainda mais que via seu marido, cada vez mais, entregar-se à melancolia, chegando mesmo, em várias noites de tormento, por ambos vivenciadas, a precisar de tisanas especiais para dormir. Ao se aproximar o dia de Alfredo partir, todavia, também ela começou a cair em profunda depressão. Não chorava só pelos cantos, fazia-o em todos os sítios da casa, a se conter apenas às refeições ou diante do filho emigrante.

 

Ao saber de tais circunstâncias, por intermédio de sua mulher, Alfredo passou dias e dias a remexer os neurónios da emoção, mas, afinal, desabafou com Alice – Sim, vou-me sim, parto sozinho ou contigo, porque já não aguento mais essa atmosfera sombria que se espalha por toda a nossa quinta, onde, há tão pouco tempo, todos nós ainda éramos… ou pelo menos parecíamos ser… mais alegres, mais felizes.

 

Sentiu-se aliviado quando Mamã lhe pareceu mais conformada com a partida. O que ocorria de facto, entrementes, era que estava a se aproximar o dia do aniversário e do batizado de Maria de Fátima e a dedicada avó passava os dias sem atinar para mais nada, senão a tudo que era preciso aviar para a singela festinha de sua querida neta, ainda que restrita aos parentes e amigos mais íntimos do clã. Nesse afã, acabou esquecendo, por umas semibreves de tempo, mais essa estocada cruel no sempre louvado coração materno, punhalada que a Vida lhe estava prestes a cravar.

 

 

À véspera da partida, Alfredo contratou um carro de aluguel, com motorista à disposição e convidou apenas Aurora para sair com ele pelas ruas de Chaves. Percorreram vários recantos da vila, como o velho liceu onde estudara; a Galinheira, onde começara a nadar; o Moinho dos Agapito, perto de onde, às vezes, namorava com raparigas humildes que, antes, já tinham sido liberadas para o sexo, em geral por algum tipo de gajo egocêntrico e machista, ou por impulsos do falo descerebrado de algum jovem irresponsável, como acontecera entre ele e Alice.

 

Os irmãos saltavam do carro e ficavam a contemplar, em silêncio, aqueles sítios que lhe eram memoriais. Tudo aquilo, enfim, que ele estaria a ver, quem sabe, pela derradeira vez; e ela... até quando? Ao retornarem, conversaram longamente, sobre os seus mútuos insucessos. Alfredo falou, em especial, sobre não entender porque as pessoas estavam sempre a buscar tormentas, em sua própria vida ou na dos outros, a transformar em tempestades alguns factos que, após um certo tempo, acabavam por não passar, afinal, de meros pingos sobre copos d’ água. Por conhecerem, no entanto, apenas a moral de seu tempo e de seu país, a qual não era assim tão diversa, então, dos costumes de outras partes do mundo, restava-lhes apenas uma só palavra: desilusão.

 

À frente da Quinta, antes que Aurora subisse para os seus aposentos, os manos se abraçaram e choraram, comovidos.

 

 

  1. MATER DOLOROSA.

 

No começo de outubro, uma camioneta levou o jovem casal até...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

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