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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Mai21

A GRANDE AVENTURA

Scenas de Guerra

1024-antonio granjo

 

António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

12

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

1024-carta da guerra.png

 

Carta a uma mãe

 

Os comandantes dos pelotões são quem censura as cartas dos seus soldados. E' uma tarefa aborrecida e ingrata, cumprida por desfastio nos intervalos dos bombardeamentos, entre o almoço e a ronda, á luz duvidosa do abrigo.

 

Em regra, são cartas pequenas, noticiando o estado de saúde, mandando recados aos visinhos, lembrando festas de familia ou pedindo novas das moças da terra. Mas, ás vezes, a nostalgia aperta mais os ingénuos corações dos magalas, os olhos cerram-se-lhes, e as suas almas simples, como grandes borboletas de asas impalpáveis, deixam-se ir, para além dos horizontes, até qualquer cantinho risonho e florido das nossas províncias, onde porventura, àquela mesma hora, numa correspondência misteriosa de afectos, numa telepatia obscura de sentimentos, vozes aflitas rezam por eles, mãos trementes se cruzam sobre os peitos confrangidos e olhos turvos de lagrimas se erguem para alguma Nossa Senhora, com o filho morto nos braços, entre as flores de papel do velho oratorio. O magala chama então o cabo ou o camarada mais letrado, e vai espremendo o coração sobre o bocado de papel.

 

Algumas dessas cartas, feitas nos momentos de maior emoção, são squemas admiráveis da sentimentalidade nacional. Verdadeiramente, constituem o nosso «folk-lore» da guerra. As imagens cáem dos bicos da pena com a mesma simplicidade luminosa com que o dia cai sobre os campos e com a mesma brandura e graça com que a nascente corre da serra. O coração salta para a palma da mão, as lagrimas saltam para os cantos dos olhos e as palavras escorrem dos lábios, doces como fios de melaço, acalentadoras como o lume da lareira, tranquilas como um seio de irmã.

 

As cartas passam do comando da companhia para o comando de batalhão, daqui para a brigada, daqui para a estação postal, e daqui para a terra longínqua, como asas de andorinhas que buscam um beiral amigo, onde, emfim, possam soltar os seus gorgeios.

 

A carta que vai a seguir é talvez uma dessas. Apenas lhe puz algumas virgulas, emendei alguns erros de ortografia e introduzi um ou outro período para lhe dar tal ou qual feição literária. Ela aí vai, como uma andorinha, em procura dos regaços carinhosos das mães dos soldados portugueses:

 

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«Minha santa mãe:

 

«Estimo que ao receber desta esteja de perfeita saúde. Eu continuo bom, graças a Deus.

 

Escrevo-lhe numa hora de grande saudade. Tenho-me lembrado todo o dia das nossas coisas — da nossa horta, do nosso eirado, da nossa casinha. Véem-me á memoria, sem querer, os tempos da infancia, e parece-me que chego a sentir as caricias da sua mão adoçarem a febre que me queima esta pobre cabeça, sobre a qual, a cada hora, como pios lugubres de corujas, passam os grasnidos das granadas.

 

Ha bocadinho deixei-me adormecer. A gente não deve abandonar-se ao cançasso, nem pôde entregar-se ao sono. O descuido de um minuto, o desfalecimento de um instante pagam-se com a vida. E' preciso olhar para todos os lados, quase adevinhar as intenções das balas, ter todos os sentidos bem espertos, para a gente se poder defender da  morte. Mas o corpo é fraco, e muitas vezes deixamo-nos cair numa especie de amolecimento da carne, de quebrantamento do sangue, que nos faz bem. Que se lhe ha de fazer? O que tem de ser tem muita força.

 

Como lhe ía dizendo, ha bocadinho deixeime adormecer. E entre a roseta vermelha que o sol fazia dançar deante dos meus tristes olhos fechados, o seu rosto apareceu-me como que vindo do céu, com o mesmo sorriso que tinha no dia em que eu levei para casa o primeiro dinheiro que ganhei. As saudades matam-nos, minha mãe.

 

Num outro dia, numa tarde de chuva, estava eu dentro do abrigo comendo o rancho, e descançando um pouco, porque todo o dia tinha andando a compor uma trincheira arrombada pelos morteiros do inimigo, e ouvi distintamente, junto de mim, a sua voz. Já o rancho me não prestou e para ali fiquei, agachado, vendo pela boca do abrigo cair a chuva na passadeira, tomado de uma melancolia que me fazia arrefecer as veias. Resistiremos facilmente ao inimigo, mas não sei se resistiremos a isto.

 

Temos o coração maior que os outros. E' talvez a nossa desgraça.

 

Os franceses teem na frente da batalha todos os seus homens validos. Passa-se pelas  vilas e pelas aldeias e não se encontram senão mulheres e crianças cobertas de luto. Mas as crianças riem e brincam como se nada fosse, e as mulheres divertem-se com ingleses e portugueses.

 

Não entendo esta gente. Não, não é lá por falarmos linguas diferentes. Quase todos falamos já um pouco de francês e não nos é dificil compreendermos os proprios ingleses. Não é por isso. Os corações é que não se entendem.

 

O beijo é para as nossas mulheres um pecado. Pois aqui é um cumprimento. Uma mulher casada que aí fosse vista a beijar um homem que não fosse o seu marido ou o seu irmão, estava perdida. A mim, ainda ha dias uma mulher casada me beijou na presença do marido, que sorria com indiferença. E preparava-se para se me sentar nos joelhos, se eu não tivesse mais vergonha do que ela e não tivesse fugido, com as mãos apertadas na cabeça.

 

As raparigas d'ai teem medo de que nos deixemos ficar por cá, enamorados das «demoiselles». Que não tenham receio!

 

As longas horas de namoro, ao luar duma desfolhada, sob as ramos duma arvore, juntodo peitoril duma janela, tocando-se, não as faces, mas as almas, beijando-se, não as bocas, mas os olhos, e isto por muitos anos, até que se assente o dia das bodas e se vá pedir a Deus que abençoe aquele longo e manso amor, emquanto os sinos repicam alegres, e as raparigas esperam cá fóra, no adro, com os açafates cheios de flores, a saida dos noivos, — toda essa graça, toda essa luz, toda essa pureza da nossa terra são coisas inteiramente desconhecidas desta gente.

 

Ail minha Mãe! se me vejo em Portugal, bebendo a nossa agua fresca, comendo o nosso pão amargo, dormindo nas nossas duas tabuas, e se tiver a felicidade de, á volta, encontrar uma mulher saudavel e bonita que me queira e que me dê tantos filhos quantos forem os anos que vivamos, como eu serei feliz!

 

Mas quando será isso? Quando acabará esta maldita guerra? Quando é que os homens deixarão de se matar como bestas féras e por cima destas trincheiras as mãos se estenderão aos inimigos no gesto irresistível de irmãos que se reconhecem e que se perguntam a si mesmos porque ha tanto tempo se estão matando?

 

Eu sei lá, minha santa Mãe! se as suas orações, e as de tantas mães que ha pelo mundo e teem aqui os seus filhos, não fizerem nada, estou a ver que os dias e os anos se passarão sem que se veja o fim.

 

Como quer que seja, minha Mãe, o seu filho ha de saber cumprir o seu dever de português. Já fui louvado duas vezes, e os meus superiores falam de mim aos camaradas como um exemplo a seguir. Considero, no entanto, que pouco fiz. Uma vez, no aceso do combate, sozinho, porque os meus camaradas tinham sido feridos, salvei o meu morteiro, levando-o ás costas, sob o desabar da metralha, para uma nova posição. Outra vez, tendo um obuz rebentado no meio da posição e tendo fugido os meus camaradas, eu não me deixei tomar do medo e despejei sobre o inimigo todas as munições. No fim de contas, como vê, pouco fiz. Outros teem feito mais, e ou porque foram vitimas da propria heroicidade e cá ficaram estrumando esta terra estranha, ou porque as suas façanhas não foram do conhecimento dos seus superiores, ficaram no mais ingrato esquecimento.

 

E não sou só eu. Todos são portugueses. Todos sentem que é com o seu sacrifício que a Patria, a nossa outra e grande Mãe, conta para se salvar e engrandecer. Se era necessário para cá vir, não temos remedio senão olhar para a frente. Os olhos devem abrir-se bem para o largo, a alma deve desagarrar-se das raizes da vida até tocar o céu, e os braços, visto que sômos poucos, devem  animar-se de dobrada força e triplicada vontade.

 

Quando o Pae morreu, da doença que contraiu na Africa numa expedição, havia nos seus olhos uma luz interior que parecia iluminar tudo. Eu era ainda pequeno, mas essa luz arde dentro de mim, como se fosse a minha propria vida.

 

Entendo que a vida só é boa quando dela possa resultar uma lição, e Deus me livre de ter o coração tão pequenino que não me encha bem o peito, e não bata tão forte que todos lhe sintam as pulsações.

 

Eu sei, minha boa Mãe, que ao lêr esta carta hade chorar muito. Hade chorar de tristeza, por ter o seu filho tão longe, exposto aos maiores perigos, passando os mais árduos trabalhos, refugiado numa toca como um lobo, com os pés sempre agarrados á lama e a mão procurando sempre a espingarda. Mas sei que também hade chorar d'alegria por vêr que o leite que eu bebi dos seus seios bemditos não se corrompeu dentro das minhas veias e que as lições de honra que eu hauri da boca moribunda de meu Pae, indicando-me o sentido da vida e o caminho da gloria, se insuflaram dentro da minha carne como células vivas que fazem parte do meu ser.

 

Peço-lhe que, se tem de chorar, o faça emquanto eu estou ausente. Porque, quando eu fôr—e hei-de ir, que tenho fé na minha estrela e sinto que Deus me tem sob a sua guarda —quero vêr-lhe os olhos bem enxutos, brilhando de toda a sua luz e penetrando-me de toda a sua doçura e de todo o seu calôr.

 

Vou terminar. Com esta longa carta, soceguei um pouco a alma e a saudade é menos viva. E' quasi a hora do álerta, em que todos temos de ir para o nosso posto.

Deite-me a sua benção e até um dia. — Antonio».

 

 

 

Esta carta, publicada no Diário de Noticias, mereceu a uma senhora franceza, M.me Blanche Froment, que imaginou ser nossa intenção visar depreciativamente as suas compatriotas, uma outra carta, que veio também publicada no Diário de Noticias, e em que justamente se exalta o papel da mulher franceza durante a guerra.

 

Essa carta vae a seguir publicada, bem como a resposta. Quando respondemos a M.me Blanche Froment sinceramente julgámos que se tratava dum pseudónimo. Viemos depois a saber que não, e antes se tratava de uma senhora distintíssima, que casou com um ilustre artista portuguez, e que da nossa terra fez a sua segunda e egualmente querida Patria.

 

Entendemos que não é fora de proposito dar aqui á estampa essas cartas, taes quaes foram publicadas.

 

Eis a carta de M.rae Blanche Froment:

 

 

«Lisbonne, le 27 fevrier 1918.

Monsiur le Directeur.

 

Je vous serais três reconnaissaute si vous vouliez insèrer ces quelquer lignes dans votre journal si impartial et estimable.

 

Vous avez publié hier un article sous forme de lettre « Carta a uma mãe» qui blesse mes justes susceptibilités de femme française, et je viens protester hautement contre la littérature pretentieuse de Monsiur Antonio Granjo. Afin de faire ressortir les beautés de l'âme feminine portugaise, à laquelle je rends hommage de tout coeur, il ne craint pas de fouler sous le talon de sa botte le caractère et la dignité des femmes de mon pays. II écrit que ces femmes en deuil s'amusent et rient avec les soldats portugais et anglais et que celles qui sont marieés n'hesitent pas fi embrasser aussi les soldats et a s'asseoir sur leurs genoux même em présence de leur mari!-…

 

D'un fait auquel il a « peut être» présidé, il fait une géneralité, mais ce qu'il démontre surtout, c'est qu'il est totalement dépourvu de 1'usage et du savoir-vivre écessaires a lui faire discerner la différence existante entre la « femme à soldat», dont le type es connu ici comme lá-bas, et la femme française, quelle que soit sa position sociale; et ce n'est vraiment pas en ce moment oê elle donne et continue à donner 1'exemple des vertus familiales, du dévouement et du courage, qu'il convient de venir la dénigrer sous pretexte de littérature.

 

J'ajoute que la « Carta a uma mãe» n'est même pas un article patriotique et qu'il est loin d'apporter na coeur des pauvres rnères portugaises le courage, la résignation et l'espérance qui leur seraient si necessaires! Cette lettre ne peut servir qu'á les faire souffrir davantage (si cela est possible) et personne ne devrait chercher à ébranler leur foi dans l'avenir et leur espoir d'un jour prochain oú elles pourront serrer sur leur coeur ceux qui lá-bas vivent du même rêve.

 

Personne plus que moi ne partage les angoisses de ces meres douloureuses, et —j'ai de la peine à retenir des larmes de pitié quand je vois partir ces beaux jeunes hommes empcrtant dans leurs bagages les « saudades » de tous et les miennes aussi.

 

Nons savons tous que la vie est dure pour eux làbas... La guerre veut cela, et les pauvres mères tremblent des dangers qu'elles entrevoient pour leurs enfants; mais alors? Est-il necessaire de leur noircir encore la tableau?

 

Veuillez croire, Monsieur le Directeur, à mes sentiments de haute consideration.

Blanche Froment.»

 

E eis a resposta:

 

Snr. Director.

Agradeço a v. as palavras benévolas que encabeçam a carta, assinada Blanche Froment, que vem publicada no Diário de Noticias, de 28 de fevereiro, e que só hoje, 2 de março, ás 23 horas, pude ler. Tenho a minha vida, que me obriga a estar fora de casa alguns dias, e eis aqui está porque só hoje posso responder á dita carta. Aproveito a ocasião, já agora, para me desculpar perante v. e os leitores do seu jornal, da fórma irregular por que vou redigindo e mandando as minhas impressões de «turiste» das trincheiras.

 

Creio, sr. diretor, que o nome que subscreve a carta é um pseudónimo.

 

Uma senhora, mesmo francesa, dirigir-se-ia a um cavalheiro, quem quer que fosse, de um modo bem diferente. E quando faço esta restrição — mesmo francesa— não quero de maneira alguma discutir, ao menos por agora, a mulher francesa.

 

Atribuo ás praticas malthusiasnas e ás velas de Erbon, e similares, em grande parte, a situação em que se debate a França, mas esse tema servir-me-á porventura para um artigo que escreverei quando tiver vagar e oportunidade, e não está nas minhas intenções antecipar o estudo dessa materia.

 

A mulher francesa tem, sem duvida, uma moralidade e uma sentimentalidade diversas da mulher portuguesa, e, sem averiguar por ora de que lado está a inferioridade, não me parece que a qualquer senhora francesa seja legitimo julgar-se ofendida, ou sentir-se susceptibilizada, por eu fazer uma tal afirmação.

 

Os costumes portugueses não permitem que uma mulher beije outro homem que não seja o seu marido ou um seu proximo parente. E' a verdade. Os costumes franceses fizeram do beijo um cumprimento. E' também a verdade. Não ha ninguém que conheça Portugal e que conheça a França e que não saiba isto. Não é a «femme à soldat» quem usa o beijo como um cumprimento — essa criatura usa o beijo como um triste modo de vida.

 

E' esse costume francês de uma moralidade superior ou inferior ao costume português? Eu não discuti esse ponto, que aliás é perfeitamente digno de discussão, sem que a dignidade da mulher francesa possa sequer ao de leve ser atingida ou molestada.

 

Assim, uma senhora francesa jámais se podia sentir ofendida com essas minhas palavras. Desde que o beijo é um cumprimento, não ha na troca desse beijo a porção de impureza que nós, os portuguezes, lhe poderíamos atribuir. Isso será até a manifestação, por uma fórma bem gentil, duma civilização refinada e superior, que nós ainda não alcançámos, e eu desejaria que jámais alcançássemos. Por isso eu creio que se trata de um pseudónimo.

 

A carta insurge-se contra o eu dizer que as mulheres francesas, embora tenham os seus maridos e irmãos na frente, se divertem com os ingleses e os portugueses. Não quiz fazer apenas pretensiosismo literário -registei um facto. Muitas mulheres francesas chorarão, no silencio recolhido do seu lar enlutado a morte dos seus seres queridos, sem que se lembrem, de certo, de vir á imprensa fazer alarde da sua dór. Efectivamente, a dór tem os seus direitos em toda a parte; e não é porque os costumes são mais livres que as lagrimas sentidas de uma mãe, de uma esposa ou de uma irmã são menos a expressão de uma alma aflita. Mas essas pobres almas mal podem com a sua cruz, e a essas me não poderia referir eu.

 

Não precisam, essas mulheres heróicas, que em Portugal, ou noutras quaisquer paragens, venha quem quer que seja em sua defesa. Essas, conheço-as eu bem. Vi-as, nas humildes «fermes» onde acantonei, rezando e chorando, como as mulheres portuguesas. Mas a par dessas, e sem ser preciso recorrer ás lobas dos acampamentos, quantas mulheres fizeram desta hora de combate a hora alegre e despreocupada duma vida de criaturas fáceis, mais perniciosas á França do que a metralha inimiga?

 

Quanto a ver-se uma mulher casada sentar-se nos joelhos d'um soldado, na presença do marido, será, e creio bem que é, facto singular —mas vi coisas piores em França. Vi, com infinita repugnância, em quase todas as cidades da rectaguarda, mulheres venderem, na presença dos maridos, aos soldados, colecções de postais obscenos. E essas scenas despertavam em todas as almas bem formadas, e que, como eu, amavam e amam a França, a tentação de correr tudo isso a chicote, porque a França não é, e jámais será, um balcão de imundicies. Ha, porventura, alguma senhora francesa que não sinta a necessidade de purificar a França de todo esse vil comercio?

 

E' «isso» a França?  E' «isso» a mulher francesa? Quem é que o disse aqui? Eu, ao menos, não.

 

De resto, dizer que os corações portugueses não sentem como os corações francezes; que nós, os portugueses, encontramos mais poesia, mais graça e mais pureza nos costumes do nosso povo do que em qualquer outro, incluindo o francês; que as moças de Portugal escusam de recear pelos seus namorados, porque os encantos das «demoiselles» não serão bastantes para os desviar do bom caminho do lar natal — dizer isto será porventura um crime? Pôr algumas palavras, simples e honestas, angidas de amor pátrio, na bôca dum soldado português, será defeso, a nós os portugueses ?

 

Não creio, repito, que a carta em questão fosse escrita por uma senhora francesa. Mas se o foi, essa senhora deve compreender que deveres de cortezia me impedem de ir mais além. Faço justiça ás suas intenções, mas onde não houve proposito algum, nem palavra alguma que denegrisse a verdadeira mulher, francesa ou portuguesa, eu não merecia as suas recriminações. E se ha injustiça que nos fira, a nós, os  homens, é justamente a que nos vem duma mão donde supomos que só pode cair... um ramo de flôres ou um livro de orações.

 

Essa senhora não me compreendeu, como talvez me não compreenda ainda. Eu quiz, com a minha carta, espertar o patriotismo das mães portuguesas, e procurei fazê-lo duma forma que tocasse os corações. Algumas senhoras portuguesas teem-me falado da carta com as lagrimas nos olhos—lagrimas quase de agradecimento, porque as minhas palavras foram de algum modo consoladores. Mas essa senhora não compreendeu. A razão está em que nós, os portugueses, sentimos e compreendemos de maneira diferente. E' a confirmação de tudo quanto tenho dito.

 

Espero não me enganar, dizendo que se trata de um nome suposto. Se, na verdade, contra o que é de esperar, se trata de uma senhora, reconheço que é a mim que me compete pedir desculpa, e como procuro sempre cumprir o meu dever, para ressalvar essa hipótese absurda, aqui apresento, por fim, as minhas homenagens á mulher francesa, e em especial á senhora que me deu pretexto para lhas apresentar.

 

Chaves, 2—3—18.

Antonio Granjo.

 

(Continua na próxima quarta-feira.)

 

04
Mai21

Chaves de Ontem - Chaves de Hoje

Postais Antigos

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ontem-hoje

 

Na semana passada deixámos aqui o postal nº14 de uma edição de postais antigos, edição da “Sociedade de Defeza e propaganda de Chaves”, impressa por Lévy et Neurdein Réunis, 44, Rue Letellier, Paris.  Hoje deixamos aqui os postais nº12 e 13, com clichés da Fotografia Alves, respetivamente com uma vista da fachada principal da igreja da Madalena, não a totalidade da fachada, mas grande parte, e não é de estranhar, pois uma imagem frontal da mesma, é quase ou mesmo impossível de obter, a não ser com alguns truques e montagens, tudo porque dada a altura da igreja e os prédios do outro lado da rua,  impedem uma vista limpa sobre a fachada, no entanto, existe pelo menos uma imagem, também em postal, onde a fachada se vê na totalidade, tendo o fotógrafo (que desconheço) aproveitado o feliz momento em que o prédio em frente da igreja foi demolido para reconstrução. Um destes dias deixaremos aqui essa imagem.

 

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A segunda imagem, postal nº13, é do jardim público, que foi construído no início do século passado. Aparentemente pelo porte do arvoredo que se vê na foto, que foi plantado com a construção do jardim, as árvores já têm uma certa idade, mas não mais que vinte e poucos anos, e digo isto porque nesta série de postais, num deles, ainda aparece em legenda “Vila de Chaves”, ou seja, como Chaves só passou a cidade em 1929, e na falta de documentação em que possa dizer qual a data de edição desta coleção, das duas, uma, ou estas vistas são anteriores a essa data, ou então são uma edição posterior com imagens antigas.

 

 

 

28
Abr21

A GRANDE AVENTURA

SCENAS DA GUERRA

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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

11

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

 

 

O metralhador

 

 

Ao «a postos» da manhã recomendei novamente que a limpeza das duas metralhadoras se não fizesse à mesma hora. O inimigo podia surpreender-nos quando ambas as metralhadoras do pelotão estivessem desarmadas e não poderíamos oferecer a resistência indispensável para na segunda linha se tomarem as posições de combate e para terem tempo de acudir as forças de apoio. Levantado o «a postos», fui verificar se a ordem

tinha sido cumprida.

 

Uma das guarnições ficara efectivamente em alerta. Ao periscópio, uma sentinela vigiava a campanha. A metralhadora, com um tambor carregado, estava encostada a um ângulo do parapeito. O cano, bojudo e negro, destacava-se dos sacos de terra, como uma enorme lesma. Disse ao cabo que a dissimulasse e fui ver a outra guarnição.

 

Sôbre uma manta, junto do abrigo, os soldados tinham estendido as peças da metralhadora desarmada. Ao sol daquela manhã de princípios de agosto, os aços reverberavam. Sentado sobre um lençol impermeável, um soldado ia carregando os tambores que se haviam esvasiado nas ultimas horas da noite. O cabo escolhia os cartuchos de dentro dum cunhete e ia-os entregando ao carregador. O tic-tac dos cartuchos, entrando nos cavados, e adaptando-se entre as cavilhas, fazia cabecear de sono um outro soldado que limpava o cano.

 

As metralhadoras não fazem em regra fogo dos postos de combate. Ha posições à direita e à esquerda, donde, de vez em quando, para manter espertas as sentinelas, conservar os homens confiados e perturbar alguma patrulha inimiga que ronde a Terra de Ninguém, se fazem rajadas.

 

Chamei o cabo e fui ver essas posições. Por virtude da disposição da trincheira, os dois postos das metralhadoras eram muito próximos. Havia um ponto na linha inimiga onde, nos dias anteriores, se tinha notado algum barulho nos arames, supondo-se que os alemães andassem reparando ou reforçando as suas defesas acessórias. Esse ponto ficava um pouco afastado das posições de combate das metralhadoras. Dei ordem para se fazerem naquela noite, duma posição fonteira, algumas rajadas baixas.

 

Reparei que o cabo se mostrou um pouco enleado e se lhe crisparam levemente os músculos da face.

 

—Que é?

—0' meu alferes, esta posição é batida toda a noite por morteiros ligeiros...

—Homem, se vamos a pensar nisso...

 

Eu fui para o outro lado da linha e o cabo fez a continência e foi ganhar a sua guarnição.

 

O dia decorreu no socego já habitual. Raras, as granadas, passavam altas, para a rectaguarda; e apenas ao meio dia um combate sem resultado de dois aeroplanos, que se metralhavam a 200 ou 300 metros de altura, quebrou a tranquilidade do sector.

 

A' noite, entrei de ronda às 22 horas. A lua estava no quarto minguante. Uma claridade mortuária, com uns laivos azulados que erravam sobre os arvoredos, amortalhava a terra. O céu parecia mais profundo e as estrelas pareciam chegar-se, tiritantes, umas às outras. A estrada de Santiago estendia de lez a lez o seu imenso rasto fosforescente. Estrelas cadentes precipitavam-se de quando em quando no vácuo. Um «very-light» subiu rapidamente no ar untuoso, descreveu a sua curva luminosa, e foi cair, ainda aceso, dentro da trincheira inimiga. No céu, emquanto o foguete ardeu, projectou-se um fugaz clarão vermelho. Para a rectaguarda, o reverbero das fabricas de canhões e munições de Yzeberg fazia sonhar num incêndio enorme que devorasse uma cidade longínqua.

 

Lembrei-me de ir ao posto da metralhadora verificar se a minha ordem tinha sido cumprida. O cabo informou-me, numa voz grave, que, justamente, iam fazer naquele momento uma rajada da posição indicada. Um soldado pôs a metralhadora ao ombro e outro, com um balde de tambores, seguiu-o sem dizer palavra.

 

Acompanhei-os. Emquanto assentavam a metralhadora, debrucei-me no parapeito e inspeccionei a Terra de Ninguém. Uma vala, paralela ao parapeito, corria em baixo, antes da nossa rede de arame, como um fôsso estreito, no fundo do qual a água dormia. Adiante, a nossa rêde de arame emaranhava-se meia escondida entre as hastes tenras das gramíneas bravas e das flôres silvestres. Viam-se as cabeças dos «long-pickets», como grandes olhos de insectos pousados. Na frente, por sobre a planície sem fim, rolava o mistério. Dentro do bosque misterioso sentia-se o rodar surdo das vagonetas. Em duas crateras produzidas por morteiros pesados, e que alargavam para o luar os lábios irregulares e sujos, agitavam-se as sombras. Daquela facha de terra de alguns metros de largura, e que os maiores exércitos que ainda se tinham reunido sobre a terra disputavam ha três anos, ascendia uma fermentação de coisas pútridas que turbava a alma.

 

O metralhador premiu o gatilho e o som da rajada prolongou-se na noite calma como o rebentamento duma vaga na praia deserta.

 

— Está bem, rapazes. Daqui a uma hora outra rajada...

 

E um com a metralhadora, outro com balde, os dois soldados voltaram para a posição de combate.

 

Junto dum abrigo próximo, tinham colocado um bocado de passadeira sobre dois cunhetes vasios. Sentei-me. Procurei matar o tempo. O tempo é o grande inimigo. O segredo desta guerra está em fazer à roda do espírito uma atmosfera em que não haja cor, nem som, nem movimento e em que se vejam correr as horas como os ramos pendentes das margens vêem correr as águas do rio. O essencial é ganhar a soma de inconsciência necessária à vida animal em que se transformou a existência de toda esta gente que se mata e que range os dentes.

 

Sôbre Bethune as grauadas anti-aereas fosforejam como grandes pirilampos. Os jactos luminosos dos projectores cruzam-se. Alguns morteiros pesados caem no sector à esquerda. A passadeira toma uma trepidação violenta como se a terra fosse sacudida por uma convulsão.

 

O tempo vai-se passando. Um maqueiro dormita com os braços apoiados num través e com a cabeça encostada às mãos cruzadas. A boca fica-lhe livre, respirando brandamente o ar fresco. Disse às ordenanças que fossem a meio da trincheira morta lançar um «verylight» e fiquei contemplando, sósinho, a noite sereníssima.

 

O luar adelgaçára-se, tornára-se mais transparente, mais diafauo, como um imenso véu de tule coando a luz dos astros. Os lábios grossos do maqueiro, sôbre os quais o luar caía em cheio, mechiam-se, parecendo alongarem-se para sorverem alguma coisa distante. Talvez o pobre rapaz sonhasse com a boca da namorada...

 

Ouviu-se uma descarga de morteiros ligeiros. Uma ordenança voltou.

 

— Meu alferes, está um homem morto na trincheira...

 

Acordei o maqueiro e passámos sob os estilhaços. Atravessado de lado a lado, dobrado  sobre si mesmo, estava um soldado de borco 110 chão. 0 maqueiro foi buscar a maca. Uma das ordenanças voltou o cadáver e compôs-lhe piedosamente as mãos sobre o peito. A cabeça descaiu-lhe sobre a valeta e os olhos do morto pregaram-se nos meus. Era o metralhador, que tinha vindo à trincheira morta fazer outra rajada, em obediência às minhas ordens, e que tinha sido varado alguns passos antes da posição.

 

 

(Continua na próxima quarta-feira.)

 

 

 

27
Abr21

Chaves de Ontem - Chaves de Hoje

Postais Antigos

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ontem-hoje

 

Iniciamos hoje a publicação de uma edição de postais antigos, Edição da “Sociedade de Defeza e propaganda de Chaves”, impressa por Lévy et Neurdein Réunis, 44, Rue Letellier, Paris.  Iniciamos a publicação pelo postal Nº14 (suponho que o último desta coleção) e ao longo das próximas semanas deixaremos aqui os restantes da coleção, com exceção de 2 postais que ainda não temos em arquivo, mas que no entretanto, pode ser que ainda se consigam.

 

Ficamos então com mais um postal antigo da cidade de Chaves, com uma vista sobre o Santo Amaro, tendo em primeiro plano a antiga casa da Quinta do Nicho. Santo Amaro por onde passava um dos principais acessos à cidade de Chaves do pessoal vindo de Braga e Barroso, e mais tarde a EN 103 também fazia por aí o seu trajeto, isto até a construção da  ponte Barbosa Carmona (mais conhecida por ponte nova) e das avenidas novas e rotunda da praça do Brasil, altura em que o trajeto da EN 103 é desviado para esta nova ponte, deixando de atravessar o centro da cidade e a ponte Romana. Era sem qualquer dúvida o bairro mais importante da cidade de Chaves, que hoje, com o crescimento da cidade, se pode considerar dentro do grande centro.

 

 

21
Abr21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

1024-antonio granjo

 

 

António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

 

10

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

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A primeira patrulha

 

 

Marcaram-me as 24 horas para fazer a minha primeira patrulha. Tinha como objectivo patrulhar a Terra de Ninguém e inspecionar a rêde de arame inimiga. Alguns minutos antes da hora marcada os meus homens estavam prontos e reunidos no ponto de saída — na trincheira morta, entre um posto de granadeiros e um posto de fuzileiros. Faço cruzar dois foguetes sobre a linha do itenerario e um pouco depois salto o parapeito e desço até á nossa rêde de arame.

 

A nossa primeira linha formava neste ponto um angulo reintrante, e a massa irregular do parapeito fechava-se, para dentro desse angulo, num profundo poço de sombra. Pistola na mão, fico uns instantes deitado sobre os lábios duma cratera, devassando a noite. Não se ouve o menor ruido. Por entre a herva crescida espontam as cabeças dos «longs-piquets» da nossa rêde. Um cavalo de frisa, atirado para o lado, com uma cantoneira partida e o fio de ferro bambo, dá a ideia dum cadaver abandonado.

 

Faço sinal aos meus homens para que desçam. Primeiro vem o sargento, depois os outros, em fila, escorregando pela rampa suave do talude exterior do parapeito. Um foguete despedido da primeira linha inimiga abre a sua rosa de luz, que se vai desfolhando lentamente sobre os ramos despedaçados duma linha de arvores. Os homens ficam imóveis. Um deles deixou-se ficar, agachado, sobre o pequeno fosso que acompanha o talude, e faz-me lembrar uma fera preparando o salto. O ultimo foi surpreendido mesmo em cima do parapeito, e estaca, levemente curvado para a frente, com a espingarda na mão. O colete de granadeiro reveste-lhe o arcaboiço como uma couraça, o capacete rebrilha um instante como uma escama. Passa-me pela imaginação a imagem dum guerreiro antigo, guardando uma barbacã e inclinando-se para

a frente a ouvir na noite um rumor suspeito.

 

Todos os homens se alapardam nas crateras. Dos postos, algumas cabeças estendem-se para seguirem os nossos vultos. Da linha inimiga sobem agora mais frequentemente os foguetes. Como na nossa frente não se atiram «very-lights», o inimigo presume que lançámos uma patrulha e ilumina o campo.

 

Deixo passar alguns minutos, para os meus homens se familiarizarem com a situação e para não nos denunciarmos ao inimigo. Uma brisa fresca faz ondular as gramíneas que espontaneamente nasceram nesta tira de terra fartamente adubada. Para o sector da esquerda rebentaram granadas e morteiros ligeiros. Uma rajada de metralhadoras passa alta. As estrelas parecem baixar do ceu.

 

A patrulha segue. Até ao meio da nossa rede caminhamos de gatas. Depois temos de ir de rastos. A mascara dificulta os movimentos. De vez em quando um arame solto prende-se-nos às pernas. Atravessamos o ultimo sistema da nossa rede e estamos na verdadeira Terra de Ninguém — a facha, dalguns dez metros, entre as duas redes de arame.

 

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Deixaram de se ouvir as explosões das granadas e dos morteiros. Um silencio inquietante pesa sobre nós como uma barra de chumbo.

 

A nossa linha perde-se como uma vaga tinta na escuridão. O arame inimigo emaranha-se espesso e baixo, traiçoeiramente, entre as hervas. A linha inimiga, quasi enterrada na minha frente, eleva-se para a direita, onde se adivinham alguns cestões.

 

Ouvimos, na linha inimiga, o disparo de um  foguete. Os homens cingem-se à terra. O foguete ergue-se rapidamente no ar, fica suspenso um segundo e cai com uma lentidão desesperante. Num posto inimigo, viu-se uma cabeça erguer-se, inspecionar a Terra de Ninguém e baixar-se atrás do parapeito.

 

Deslizamos para a direita, seguindo o itenerario marcado. Deparamos com uma trincheira antiga, do tempo em que o campo esteve ocupado pelos alemães. Ficamos uns minutos à escuta. Um tvery-light» despedido dum saliente da nossa linha vem cair no meio de nós. Consulto o relogio. Tenho ainda uma hora deante de mim. Uma ordenança veio-me dizer que atrás dum pequeno morro, em frente, assomou um inimigo. Arrasto-me um pouco para a frente, até dentro da rede inimiga. E' um tronco despedaçado. Continuamos. Mando o sargento com dois soldados explorar a trincheira até à nossa rede e permanecer aí até retirarmos.

 

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Uma frescura matinal começa a acariciar a terra. Para a direita, no sector dos canadianos, ouve-se agora um fogo rolante; e para a esquerda, no sector dos ingleses, cinco ou ses projectores picam o ceu de feixes luminosos.

 

De repente, uma metralhadora inimiga rompe fogo contra nós. As balas cortam as hervas cerces. Uma ou outra bala, resvalando pelos fios de arame, acende algumas faiscas, que brilham na noite latejante como pequeninas fitas de fogo. Estamos descobertos. Recuamos, de rastos, a cabeça metida nas hervas, a mascara bamboleando ao lado para o peito se apoiar firmemente na terra e assim facilitarmos a marcha.

 

Junto da nossa rede de arame paramos. As rajadas de metralhadora continuam. Os foguetes cruzam-se. Alguns tiros soltos assobiam-nos aos ouvidos. Tomo as devidas medidas de segurança, instalo-me no funil duma granada e espero. As granadas de espingarda rebentam bastante à direita. O inimigo perdeu-nos a pista.

 

A impressão de segurança é absoluta. Deixamo-nos ficar, de bruços, os onvidos aplicados à terra, os olhos espreitando, entre as hastes tenras, a frente inimiga, penetrados do mistério da noite, moídos do imenso esforço daquela marcha de larvas. Um soldado vê reluzir qualquer coisa que lhe parece um capacete boche. Estende a mão e encontra um craneo com filamentos de carne podre.

 

A noite começa a adquirir a claridade leitosa da madrugada. Seguimos a nossa rede, procurando uma entrada. Numa volta, dou com o arame calcado e as estacas de ferro derrubadas. E' certamente um dos pontos por onde as patrulhas inimigas conseguem acercar-se da nossa linha.

 

Sinto o ruido dum corpo caindo na agua. E' um soldado que caiu ao poço duma antiga «ferme», da qual nenhum outro vestígio existe. Dois soldados pegam nas mãos do camarada, para o ajudarem a subir. Mas dentro do poço entrelaçam-se os fios de arame farpado e o pobre rapaz grita, porque as farpas enterram-se-lhe na carne. Com a bengala liberto do arame as pernas do soldado e os dois camaradas içam-no. Espalha-se um cheiro fétido. Aos pés do soldado vem agarrado um montão de farrapos.  A ponteira da bengala bate num osso. No poço apodrecia (ha quanto tempo?) tranquilamente um cadaver.

 

O pobre rapaz está horrivelmente pálido, e o fétido da água choca e da carne podre revolvida é insuportável.

 

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Procuro uma rampa para trepar ao parapeito.

 

Uma voz, como um murmurio, pergunta-me:

 

—Quem vem lá?

—Oficial português.

—Senha?

—Almeida.

 

Fico de pé, na base do talude, até que o ultimo dos meus homens entre. Depois, salto,

e fico um minuto sentado na banqueta, descançando.

 

Pergunto ao sargento:

 

— Falta alguém?

—Não falta ninguém, meu alferes.

 

Uma parpalhaça, a meio da Terra de Ninguém, canta. As estrelas, como o cadaver do poço, parece que apodrecem. O ceu ganha livores cadavéricos. Um pequeno nevoeiro começa a esconder as linhas inimigas. A brisa torna-se cada vez mais fresca.

 

O canto da parpalhaça eleva-se mais alto. Como nma voz de bom agoiro, esse canto acorda a atmosfera quieta, como um grito de vitória.

 

Sim, é necessário vencer!.

 

 

Continua na próxima quarta-feira.

 

 

20
Abr21

Chaves de Ontem - Chaves de Hoje

Postais antigos

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Mais um postal antigo, bem antigo, inícios do século passado, com a zona das caldas e as suas "Nascentes D'Aguas Thermaes" ainda com o Rivelas a passar por baixo da sua ponte e por cima das ditas nascentes, no espaço onde hoje se localiza a buvete e a casa onde vivia António Granjo, possivelmente nessa altura ainda estava vivo.  O postal nº 8, made in Chaves (Tipografia e Papelaria Mesquita), numa edição de Adelino Pereira, colorida artificalmente (pintada).

 

 

13
Abr21

Chaves de Ontem - Chaves de Hoje

Postais antigos

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ontem-hoje

 

Neste Chaves de ontem, Chaves de hoje, vamos mais uma vez até ao nosso rio Tâmega, em dois momentos, quando o nosso rio era navegável de barca, as famosas barcas que faziam a travessia entre o S. Roque e as hortas da canelha das Longras e um outro momento, quando de verão, o rio se transformava num imenso areal com “parque infantil”.

 

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Quanto ao momento do imenso areal do rio, com as crianças a brincar bem lá no meio, é anterior a 1910 (as coroas ainda estão em cima dos padrões da ponte. Quanto ao momento das barcas, poderia ter sido registado até (pelo menos) os anos 70 do século passado, pois nessa altura fui testemunha de muitas travessias de barca, no entanto a imagem é bem mais antiga, pois dá ainda para ver que que entre o casario de ambos as margens do rio havia apenas rio, portanto ainda antes das obras que estreito o leito do rio por baixo da ponte romana, mas para sermos mais precisos, a imagem é anterior a 1929, pois segundo o que consta na descrição de em ambos os postais, Chaves ainda era vila.

 

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O momento que fica em imagem da barca é o mesmo momento que curiosamente foi aproveitado para ser incluído em duas edições diferentes de postais.

 

 

 

06
Abr21

Chaves de Ontem - Chaves de Hoje

Chaves - A nova Praça do Caminho de Ferro

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ontem-hoje

 

Um curioso postal de um projeto para a nova praça do caminho de ferro, que pela autoria é anterior a 1942, eu estive mesmo tentado a dizer que seria anterior ao projeto da estação da CP, da era da Ditadura Nacional (1926 a 1933), mas pelo que se pode ver no verso do postal, penso que já é do tempo do Estado Novo de Salazar, isto por causa de ser um postal cuja edição é da Sociedade de Defeza e Propaganda de Chaves, à boa maneira do SPN (Secretariado da Propaganda Nacional) de Salazar, talvez da mesma época em que zelosos flavienses lhe deram o título de “Cidadão Flaviense” [i] 

 

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Mas uma coisa é certa, temos pena que tal edifício se tivesse ficado apenas pela propaganda e não sido construído, pois seria mais um digno edifício em Chaves de alguém com nome na arquitetura nacional, pois o Arquiteto, ou Mestre José Luiz Monteiro (1848-1942) é autor de alguns dos mais emblemáticos projetos de arquitetura portugueses, tal como a Estação do Rossio ou o Parque Eduardo VII, entre muitos outros.

 

 

[i] Só para que conste, Salazar continua a ser cidadão de Chaves, pois tal decisão nunca foi revogada.

 

 

 

 

31
Mar21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

7

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

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A noite de Santo Antonio

 

12 de Junho de 1917.—18 horas. — Saio do comando do batalhão, acompanhado do segundo comandante, que me vai conduzir ao abrigo da 2." companhia, onde fui colocado. Atravesso uma estrada, a que os ingleses deram o nome duma artéria de Londres e passo pelo Posto de Socorros para entrar na trincheira de comunicação. Ha ainda no chão alguns vestígios do sangue de dois granadeiros que foram mortos na vespera; e ainda, dentro dum abrigo, dois homens atordoados pelas explosões dos morteiros esperam que as suas faculdades mentais e os seus nervos destrambelhados regressem à normalidade.

 

A trincheira desce. Os meus passos, batendo a passadeira, perdem-se molemente nos taludes, onde as papoilas e os malmequeres se debruçam galantemente. Um aeroplano inimigo plana alto. Uma ordenança passa em sentido contrario.

 

—Ha alguma novidade?—pergunta o comandante.

— Nada, meu comandante... — e a ordenança segue o seu destino.

 

Um «decauville» atravessa a trincheira, depois ha uma linha de água e desembocamos na segunda linha.

 

Sobre toda a superfície da terra reina uma paz absoluta. O sol agarra-se aos caules tenros das ervas como um oleo gorduroso. Uma cotovia ergue-se a toda a altura, e, depois descrever sobre as linhas alguns círculos concêntricos, começa cantando o seu hino da tarde. O canto como que faz vibrar a atmosfera luminosa, a que uma brisa leve dá a amenidade das nossas lindas tardes de outono. Uma fila de amieiros espreita por cima do parapeito da segunda linha.

 

Os soldados repousam nos abrigos. A sentinela dum posto de metralhadora, para matar o tempo, faz um catavento, ao qual dá a semelhança dum aeroplano.

 

Dobramos à esquerda. A linha vai seguindo em ziguezage. Surgem dois soldados, detraz dum través, com um pequeno caldeiro suspenso dum pau que seguram aos ombros. E' o chá. Pousam o caldeiro em cima de uma banqueta e os soldados do pelotão vão-se chegando, com os copos e os cantis. Um deles traz uma lata com algumas sopas de pão no fundo; outro engrunha os ombros, olhando desdenhosamente o grupo.

 

— Se fôsse vinho... — e encosta-se ao travez, assobiando, e olhando melancolicamente a paisagem untada de sol, a qual se estende para a rectaguarda em notas bucólicas de arvoredo.

 

Mais uns passos, atravessamos uma estrada, por cuja berma corre uma linha de abrigos, e estamos no comando da companhia.

 

Fazem-se as apresentações e fico instalado. Não dormi nada na vespera. Estou a cair de sono.

 

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20 horas. — Enfia-se para o abrigo por uma estreita abertura, em rampa, escavada no terreno. O abrigo é uma abobada canelada de ferro, protegida por sacos de terra. Há uma pequena janela para receber a luz e o ar. De cada lado, dois leitos—quatro travessas de madeira, às quais se prendeu uma rêde de arame, e o sistema alteado meio palmo do chão por uns pés arrancados aos troncos das arvores visinhas. Por baixo da janela, uma mesa feita de madeira de caixotes.

 

Trocam-se algumas palavras. Contam-se episódios. Detalha-se o serviço. E' a hora comovida da iniciação. Mas os olhos cerram-se-me irresistivelmente, e a voz lenta do segundo comandante da companhia, que me está dando as instruções necessárias, e que já m'as repetiu duas ou três vezes, embala-me como uma velha cantiga.

 

Um dos meus camaradas acordou estentoricamente os ecos do abrigo perguntando, com as mãos em porta voz, para a boca da caverna, se o jantar estava pronto. Ouvi umas palavras confusas, que presumi serem a resposta, e deixei-me estupidamente adormecer.

 

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21 horas menos 15 minutos. — Oiço um estampido enorme e sinto abalar o abrigo. Acordo. Estou só. Uma granada explode, faz oscilar o leito e um jacto de terra entra pela janela. Consulto maquinalmente o relogio. São 21 horas menos 15 minutos. Saio. Uma ordenança agacha-se atraz do abrigo.

 

Os últimos raios de sol, horizontalmente, babam a terra de uma espécie de espuma doirada. Uma andorinha perpassa, como tomada de pânico. O bombardeamento rebenta sobre as nossas cabeças com a maxima violência.

 

As granadas caem perto e vêem-se os «shrapnells» cobrirem toda a segunda linha. E' a barragem. As metralhadoras varrem as estradas e as detonações sucedem-se sobre as trincheiras de comunicação. Um estilhaço revoluteia no ar e vem cair sôbre o paracostas, fumegando ainda.

 

O comandante e o segundo comandante foram para o abrigo do telefone. Estou um minuto com êles e vou assumir o comando do meu pelotão.

 

21 horas.—Os meus homens estão já a postos. Os morteiros pesados desabam, num estrondo de derrocada, à frente da linha e os estilhaços assobiam em roda, como enormes vespas. Um sargento que comanda as guarnições das metralhadoras, abrigou-se atraz dum travez. Mando-o para o seu posto. Um minuto depois um obuz destrói o travez. Um maqueiro vem-me avisar de que ha um homem ferido. Mando uma ordenança acompanhá-lo ao Posto de Socorros.

 

A noite vai crescendo. O céu mantém ainda alguns reflexos do dia, mas pela superfície da terra as trevas rolam já como novelos de tinta. Os clarões das explosões rasgam no crepúsculo moribundo os seus caminhos de destruição e de morte. As estrelas principiam a aparecer, como pequenas lampadas palpitantes.

 

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Percorro toda a segunda linha. De roldão um posto da primeira linha invade a trincheira.

 

— 0 que ha?

 

— A primeira linha foi já evacuada e há já muitos mortos e feridos... —e o olhar do soldado, dilatado de espanto, parecia rebuscar ainda um refugio por onde se escapasse áquelle inferno.

 

Ordeno-os e ficam guarnecendo uma banqueta de combate que tem um bom campo de tiro.

 

Efectivamente, confirmando a informação do soldado, alguns foguetes luminosos sobem para a extrema direita, já da segunda linha.

 

22 horas. — Subo a uma banqueta e perscruto a noite. Na frente a rede de arame emaranha-se entre as hervas. Atrás de uma árvore parece-me ver um vulto. Desloco dois sacos de terra para abrigar a cabeça e fico uns instantes debruçado no parapeito. E' um galho mexendo-se debilmente ao sopro da brisa.

 

Começam a vir os reforços. O comandante da companhia de reserva passa, informa-se comigo da situação e segue para o comando da minha companhia. As granadas da nossa artilharia passam baixas, batendo a primeira linha inimiga e a nossa primeira linha. Uma metralhadora pesada inglesa vem tomar posição junto do meu pelotão. Por cima do crepitar das metralhadoras e do assobiar dos «schrapnells», o fragor rouco e arripiante das explosões dos obuzes e dos morteiros apodera-se da noite, que se cerra tragicamente em volta como a cortina dum abismo.

 

Chega a primeira companhia do batalhão de apoio. A trincheira povôa-se de sombras. Um soldado fuma um cigarro, resguardando a chama dentro do chapéu metálico.

 

Doem-me os musculos das pernas, de percorrer continuamente a linha. Encosto-me a um travez e olho uns minutos para a rectaguarda. Línguas chamejantes, das posições da artilharia pezada, saem do horizonte. As trincheiras de comunicação enchem-se de murmúrios, de choques de metais, de passos abafados. São as tropas de apoio, que continuam chegando.

 

Uma granada explode com um rumor surdo e sinto uma sufocação na garganta.

 

— Gaz alarme!

 

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Ponho a mascara. Os chocalhos começam a badalar. Corre pela noite, como um grito de mau presagio, a voz das trombetas, e pela linha fora as espingardas que se abandonam, para se porem as mascaras, caem pesadamente nas passadeiras, produzindo o som cavo dum corpo moribundo que tomba.

 

Depois, os soldados imobilizam-se e a trincheira parece deserta.

 

23 horas. — Os oculos da mascara embaciam-se e a cada passo preciso de os limpar, esfregando com os polegares o fole de encontro à mica. Os foguetes iluminam toda a linha.

 

Os soldados, com as mascaras, acotovelam-se nos postos, como figuras satânicas de um círculo dantesco ou resvalam entre os taludes como fantasmas sinistros dum mundo subterrâneo. Um maqueiro, às apalpadelas, procura um caminho. Largo o bocal da mascara.

 

— Que ha?

 

A minha voz sôa, aos meus proprios ouvidos, dentro da mascara, como vinda do fundo dum tumulo.

 

Ouve-se um susurro de palavras dentro da mascara do maqueiro. Consigo perceber que à direita, na companhia de reserva, uma granada incendiaria matou quatro homens.

 

A violência do canhoneio começa a decrescer sensivelmente. Não ha a menor noticia dos alemães. Nem a segunda linha foi atacada, nem qualquer posição de morteiro ou metralhadora foi assaltada.

 

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O cabo do gaz vai avisando os postos:

 

— Tirem a mascara. Já não ha gaz!

 

Respira-se. Os pulmões, o coração, as veias dilatam-se. As estrelas parecem arder duma luz nova e a propria treva parece abrir-se em luz aos olhos ansiosos. Faz-se-me mais profunda a impressão de que a guerra descambou na mais aviltante miséria e de que é necessária uma sanção para tão horríveis crimes. O sangue referve num cachão de odio e de revolta contra aqueles que rebaixaram a existência humana até a fazerem descer à atmosfera mefítica dos canos de esgoto.

 

24 horas. — Cessou o fogo rolante. Algumas granadas rebentam ainda, como os últimos rugidos da fera, mas não pode haver duvida de que passou esta primeira hora de prova. O que ha a fazer é preparar o espirito para as intermináveis e terríveis horas que se vão seguir.

 

Vou até ao comando da companhia. Ao chegar ao abrigo do telefone passa o comandante da minha companhia, o capitão Celestino Soares, acompanhado de uma ordenança.

 

— Onde vai, capitão?

 

— Ao Posto de Socorros. Estou «gazofilado»...

 

E o rosto lívido do pobre rapaz desaparece na volta da trincheira.

 

Um soldado atacado de gazes contorce-se na estrada. Agitam-se sombras na boca da trincheira de comunicação que serve a companhia da esquerda.

 

0 segundo comandante, na sua voz lenta, diz-me que ha perto de 100 baixas, que um reconhecimento lançado sôbre a primeira linha não encontrou o inimigo, e que aos primeiros alvores da madrugada se fará a reocupação pela primeira companhia, ficando o meu pelotão de apoio.

 

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1 hora. — A' esquerda, o horizonte pontua-se de chamas e a noite vibra de novo sob o canhoneio. São os ingleses que, para desafogarem a nossa frente, fazem um «raid» em grande estilo.

 

2 horas.—O canhão calou-se. A treva é já menos espessa. Distingue-se já o fundo da trincheira. Começam a vir as noticias do que se passou na primeira linha. Um pelotão, comandado pelo alferes Vilhena, desligado da companhia, manteve-se até receber em forma a ordem de retirada; um posto de granadeiros foi inteiramente aniquilado; a guarnição duma metralhadora ficou soterrada sob os destroços e as ondas de terra levantadas pelos morteiros, mas conseguiu desenterrar a metralhadora e os tambores e ganhar a segunda linha; um homem tinha endoidecido e vagueava pelas trincheiras.

 

3 horas.— A noite ia-se fundindo ao bafo da madrugada. Desenhavam-se já os ângulos das trincheiras e as filas das arvores começavam a delinear-se, além da rêde de arame. 0 nascente principiava a tiugir-se de purpura, por traz do bosque, cuja massa sombria tapava a rectaguarda inimiga como uma muralha misteriosa.

 

É para a direita, agora, que o canhão troa, bruscamente, como se o horizonte se possuísse duma convulsão epilética. É, provavelmente, um «raid» simulado dos ingleses para nos facilitar a ocupação da primeira linha.

 

4 horas. — O meu pelotão está pronto à "primeira voz. Uma ordenança vem comunicar-me que a ocupação se fez sem incidente e que é dispensada a cooperação do meu pelotão.

 

É dia claro. Meio disco do sol está já acima do horizonte. As azas das andorinhas tracejam de negro o azul ferrete do céu. Através da terra, por onde ainda parecem errar umas sombras indecisas que se vão precipitando nas ravinas ou fugindo pelas linhas de água, a luz esparge-se como um leite luminoso que os primeiros raios do sol pincelam ligeiramente de oiro. Uma nuvem, pela forma e pela côr, traz-me à lembrança o manto de Sant'Ana duma cópia de Murillo que vi em qualquer parte.

 

5 horas.—Distribue-se o café. Os soldados deixam-se adormecer nas banquetas. É ainda a hora do alerta, mas deixo repousar essas almas simples e heróicas. Um deles deitou-se ao comprido e pôs o capacete sôbre os olhos. Uma borboleta pousou-lhe um momento nos lábios, que se contraíram num instintivo movimento de repulsa, e seguiu a linha da trincheira.

 

Fui também andando. No sítio em que caíra a granada incendiária, o paracostas ficára esbarrondado e a passadeira partida. Longas pastas de saugue atestavam sôbre a banqueta e as grades de revestimento que ali tinham morrido alguns heróis obscuros. Uma papoula vermelha, que irrompera entre as travessas da grade, parecia debruçar-se sôbre a banqueta para chupar o sangue.

 

A terra espreguiçava-se num imenso bocejo de mulher que acordou após uma noite inteira de deboche. As cabeleiras verdes das arvores, acariciadas pela brisa, ondulavam brandamente sobre as terras abandonadas às ervas daninhas.

 

Um sargento contemplava fixamente as manchas de saugue. Tinha posto a espingarda a um canto e os lábios grossos de ribatejano tremiam-lhe. Os nossos olhos encontraram-se.

 

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— O' meu alferes!... Emquanto tantos aqui morreram, sem ao menos terem o consolo de enterrar a baioneta no corpo dum inimigo, em Portugal toda a noite se passou em danças e descantes...

 

Um aeroplano inglês passou, em reconhecimento, para as linhas inimigas.

 

Fitei o rapaz. Perguntei-lhe:

 

— V. deixou lá a namorada?

 

Uma lagrima apontou-lhe nos olhos negros, virou costas, pegou na espingarda e retirou-se para o abrigo.

 

6 horas.—Levantei o álerta. A lagrima do sargento como que borbulha dentro de mim. Uma onda de saudade me toma docemente o coração. Lembro-me da linda capela que os meus oito anos erigiram ao grande santo, por baixo das janelas da minha casa, sob o sorriso indulgente e o olhar vigilante de minha mãe. A linda capela! Renques de buxo emolduravam o largo; na rampa de musgo todos os santos do calendário nacional; e no alto o Santo Antonio com a sua careca luzidia, o seu capuz de franciscano, os seus sagrados pés nus metidos nas humildes sandálias, e o Menino Jesus na palma da mão, tão pequenino como o meu coração de criança...

 

Cheguei ao abrigo, tomei umas goladas de café e deixei-me cair pesadamente, como um cepo, na cama.

 

Continua na próxima quarta-feira…

 

 

23
Mar21

Chaves de Ontem - Chaves de Hoje

Postais antigos de Chaves

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ontem-hoje

 

Neste Chaves de ontem, Chaves de hoje, deixamos duas imagens de postais antigos que retratam trechos da cidade de há mais de 100 anos, numa, a da ponte romana, quase tudo se mantém como então, as construções que aparecem na imagem apenas foram restauradas, exceção para as coroas em cima dos padrões, os candeeiros e o pavimento da ponte.

 

1024-ca (170).jpg

 

Já nesta última imagem, vemos como com desculpas de neste espaço se construir um largo, foi demolido um edifício público, por sinal um edifício cheio de história e dos mais interessantes que a Madalena tinha, a casa dos arcos. Mas o tempo foi passando e o prometido largo foi hipotecado com a reconstrução do último edifício deste quarteirão. Não é caso único na cidade em que futuros largos, muralhas, espaços e equipamentos públicos são demolidos ou libertados a favor de privados, e tal como vemos a coisa já não é recente, antes, vai passando de geração em geração.

 

 

 

 

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