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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Dez19

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

  1. BATINAS RASGADAS.

 

Certa manhã de sábado, Afonso e os companheiros partiram até às margens do Mondego, onde já todos se viam com suas batinas, a cantarem canções alegres pelas estreitas ruas de Coimbra. Levavam, como principal bagagem, muitos quilos de esperança. Poucos dias depois, já estavam de volta. Dessa vez, porém, sem ao menos poderem cantar um triste fado. É que, dentre os rapazes dessa equipa de estudos, apenas o Tomazinho Varapau, filho do dono de uma farmácia em Chaves, é que se houvera bem nos exames, e estava a ganhar, assim, a aptidão para, daqui a alguns anos, queimar as fitas e se tornar um novo bacharel flaviense.

 

Tanto o rapaz vitorioso, quanto os demais colegas de Afonso, todos disseram lamentar muito por ele, que sempre estivera a parecer muito bem preparado para os exames. Alguém, no entanto, cogitou que os insucessos da família talvez perturbassem o rapaz de tal sorte que, ao chegar o tão ansiado momento, um misto de insegurança e impotência o abateu.

 

Ao ver João Reis a esperá-lo na Estação, Afonso atirou-se aos braços de Papá e chorou, copiosamente, sem ao menos pensar nos que estavam ao redor. Era a primeira vez que chorava em público, em toda a sua vida. Reis que, de ordinário, não era dado a demonstrar qualquer carinho para com os filhos, passou os braços de modo canhestro pelos ombros do rapaz e lhe afagou a cabeça. – Deixa estar... deixa estar... hás de tentar de novo.

 

 

Algumas semanas após esse facto, o rapaz procurou o pai ao escritório da Rua Santo António, a lhe dizer que não pretendia mais qualquer tentativa de ser admitido a uma universidade, fosse a de Coimbra, do Porto, Braga ou Lisboa, pois estava a querer mesmo era trabalhar no armazém da Rua das Couraças e juntar dinheiro para emigrar ao Brasil.

 

Pelas cartas do Pará que chegavam até Afonso, João Reis e Florinda já andavam desconfiados de algo que, finalmente, agora lhes era dado conhecer. O segundo da prole estava apaixonado por correspondência (similar ao que, no século XXI viria a ocorrer entre usuários da Internet, mas, àquela altura, sem a rapidez e outras características virtuais de hoje).

 

A correspondente era a prima Inezita, filha da Tia Nazica, parenta de Mamã por parte de pai, o aveirense das famosas bengaladas. A menina, pois, nascera e habitava com os seus em Belém do Pará. As cartas trocadas pelos primos, às quais se anexavam fotos de um ao outro, com belas dedicatórias, cartões postais de lá e de cá, folhas ou flores secas e perfumadas, demoravam quase dois meses a cair nas mãos dos destinatários (e se gastavam outros tantos mais, para chegarem as respostas). Era, pois, com uma disfarçada, mas percetível ansiedade, que Afonsito esperava a chegada do comboio que lhe trazia tal correspondência, com as sempre bem-vindas palavras da amada de Além-mar, em pacotes nos quais se incluíam também, por vezes, alguns doces de compota de frutas tropicais (“feitos por mim”, dizia Inezita).

 

 

  1. SENHOR CAZARRÉ.

 

De Além-mar também chegou a Chaves, na Primavera, um velho conhecido e freguês de Reis, lá no Pará. Era o senhor...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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08
Out19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. MISSA DE ESPORAS.

 

Desde que veio a público o mau passo de Aurora, um turbilhão envolveu a Quinta do Raio X e progressivos tsunamis vieram perturbar a cabeça de João Reis Bernardes. Dia após dia, vivia enjaulado em seu canto, prisioneiro de si mesmo, a se deixar levar por um estado de depressão que muito preocupava sua Menina Flor, malgrado esta, agora, já não tivesse tempo algum para chorar, sempre às voltas com a adorável netinha, seu xodó, como se diz ao Brasil. Aliás, pela miúda Fatinha, todos do clã familiar se encantavam mais e mais, afeiçoados à sua meiguice, esquecidos do vetor macho que a gestara e dos contratempos que a própria bebé, em sua completa inocência, estivera a gerar.

 

Ao Natal desse conturbado ano, o patriarca encheu-se de brios e resolveu levar toda a família a assistir à Missa do Galo na igreja matriz, onde, até há poucos meses, Aldenora estivera a cantar no coro. Como o cocheiro tivesse retardado um pouco em livrar o landó de um atoleiro, chegaram à igreja a uma altura em que a Santa Maria Maior já estava quase lotada. Ao entrar pela porta lateral, Aurora sentiu o impacto de mil olhos, que pareciam expressar os mais variados sentimentos de reprovação, censura, ou sabe-se lá o quê.

 

Viu, de pronto, a maioria levantar-se e todos se cobrirem com os hábitos e capuzes de carrascos do Santo Ofício; estenderem os punhos fechados para os Bernardes, em grande exaltação de fanatismo e intolerância; erguerem, a seguir, enormes crucifixos fosforescentes, de cujos punhos atados do corpo do Senhor Morto saíam pregos iluminados e, como bólides, iam cravar-se especialmente em sua doce, bela, mas entristecida figura. O cochichar baixinho, entre os arautos da Moral Cristã, foi aumentando, cresceu cada vez mais de volume, até se tornar ensurdecedor aos ouvidos da filha pecadora dos Bernardes. A rapariga baixou então seus ternos olhos azuis, ocultou as faces sob o véu, ajoelhou-se e se pôs a rezar, com toda a sua fé, humildade e contrição.

 

Para tornar mais afiadas as esporas do galo em sua missa solene, eis que o pregador, certamente pela coincidência de estar apenas a se referir ao parto virtual da Virgem Mãe Imaculada (pois não se pode supor que, à hora do púlpito, o cura dirigisse o sermão apenas à filha de João Reis), reportou-se muitas vezes à castidade e aos pecados da carne. A cada ocasião em que ele mencionava a luxúria, como se fosse o grande mal da humanidade (embora nós humanos continuemos a sobreviver com ela, sem ela e por causa dela), vários, dentre os presentes, voltavam-se para trás ou para os lados, a fixar os olhos na contrita rapariga.

 

Desnecessário dizer que, dentre todos aqueles fiéis e infiéis, fosse pela concupiscência ou por outros pecados capitais, pouquíssimos seriam aqueles, (só os bem miúdos, decerto, e os parvos, como nos diz Gil Vicente, em seu “Auto da Barca do Inferno”) que poderiam ter às mãos a sua primeira pedra.

 

Com a maior discrição possível, João Reis retirou-se com os seus, um pouco antes da bênção final. Aldenora adiantou-se até Papá e lhe fez ver que Aurora não deveria mais vir à igreja junto com os pais e os irmãos. Antes que Florinda lançasse à filha um olhar de reprovação, o patriarca antecipou-se – Que estás a falar, menina?! Ainda que ela tenha feito… sabes bem o quê... ainda assim, ela é e continuará sendo da minha, da tua, da nossa família! E não queiras roubar à tua irmã pelo menos isso, ao qual ela tem todo o direito como cristã – depois, virando-se para os mais – Ouçam-me todos: de hoje em diante, iremos orar somente à igreja de São João de Deus, na Madalena – um templo no qual, a essa época, a maioria dos fiéis era constituída de pessoas com uma condição financeira inferior e onde, até pelos poucos devotos de posses que moravam à vizinhança, os Bernardes continuavam a ser tratados com educação e urbanidade.

 

Afonso que, em geral, não conseguia expressar o que sentisse a ninguém, dado o seu habitual mutismo e, somente aos colegas mais íntimos com os quais estudava em equipa, falava dos sonhos em galgar os portais de Coimbra e se ver como estudante da multissecular Universidade, sentiu-se bastante abalado com o facto ora ocorrido na igreja, ainda mais que andava muito preocupado com o estado de saúde do Papá, cada vez mais taciturno e deprimido.

 

Já o Alfredinho, mais extrovertido, pôs-se a comentar com Alice, de modo a que todos em volta o pudessem ouvir, nos cás e lás do Largo dos Paços – Essa gente come pétalas de jasmim e acha que, assim, vai cagar cheiroso! – e, em tom mais baixo à Mamã – Papá devia ir com todos nós para bem longe… para a Madeira, os Açores, o Brasil ou até mesmo para Goa, Timor ou Macau! – mas, ainda que não flaviense de berço, Florinda repreendeu-o – Não digas isso, meu filho, cá é a tua terra e a de teu pai e cá é aquela que, um dia, há de nos guardar! – ao que Alfredinho completou para Alice, com o dedo a indicar aqueles que estavam a sair da Matriz – E a todos esses aí, também, com o esqueleto a feder como qualquer carniça de rato, de gato ou de cão.

 

 

 

  1. NATAL E REIS.

 

Para olvidar, em uma única noite, todo um ano de infortúnios, o Natal de 1924, com a ajuda de Aurora, Alice e Maria, foi preparado por Florinda com...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

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01
Out19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. AZEITES.

 

A sala de visitas, recentemente mobilada, tinha suas pretensões ao luxo, mas não era “nem chique nem mique”. Era de facto de um gosto duvidoso, repleta de falsas alcatifas marroquinas, misturadas com grosseiras imitações de bibelôs, vasos de cristal albergando flores de papel encerado e outros ornamentos do género, nem menos que tais. Da mesma forma que os visitantes, os anfitriões haviam sido educados para cumprir os deveres de bem receber e assim o fizeram, mas foram também secos o bastante, tal-qualmente no c.q.d. de um teorema, ou seja, como queriam demonstrar.

 

Germano, com as boas maneiras que estava a aprender. em seu exame de admissão à elite flaviense, não foi tão direto quanto o filho, à Travessa do Loureiro. Permitiu que o vizinho, claramente nervoso, tardasse em chegar até ao propósito por que viera. Foi dona Mariazita que facilitou a abordagem – E a miúda, como está? – ao que Florinda sorriu – Está boa, sim, bem calminha – Há de estar linda! – Sim, está mesmo, uma riqueza! – o que fez o Reis pigarrear – senhor Germano Camacho, dona Mariazita, bem sabem o motivo pelo qual nós cá estamos. Seu rapaz se nega a assumir compromisso com a minha menina. Bem sei que as nossas Leis a pouco ou nada lhe podem obrigar a isso, no entanto…

 

– No entanto, o quê? – A mãe do rapaz interferiu de imediato, já demonstrando perder, pouco a pouco, a fingida polidez – Vamos deixar de lérias, que é melhor. Ele não quer casar, senhor Bernardes e pronto! – e isso causou ao visitante um esforço máximo para se conter. – Mas, minha senhora, bem podemos, pra já, chegar a um acor… – e ela, de truz, virou uma leoa, a defender sua cria – Nem pra já nem pra nunca mais, senhor Reis. Meu Hernandito não casa com a menina e, como se costuma dizer… para bom entendedor, meia palavra basta.

 

Florinda, que aprendera ser de bom-tom, a toda senhora bem educada, não deixar transparecer sua raiva e esconder os vibriões da cólera nas profundezas do coração, resolveu ponderar – Mas a criança… há de ser triste demais colocar nos papéis, por toda a vida, que ela é filha de pai “incógnito”… ou pior, “desconhecido”! – ao que Reis ajuntou – Ora, pois, ela também é neta dos senhores! Sangue de seu sangue!

 

A dona da casa, porém, parecia estar nos seus azeites – E que provas o senhor nos dá, para ter certeza disso?! – ao que Reis, não menos que Florinda, ficou estupefacto – Minha senhora!!! Estais a nos ofender! A nossa menina… – o que levou até Germano irritar-se com isso e lançar um olhar de censura à mulher – senhor Bernardes, perdoe à Mariazita esse jeito de falar, ela não quis ofender-vos. Nem à rapariga. De qualquer modo, o senhor há de perceber que esses jovens… eles já são por eles mesmos. É tudo lá coisa deles, desses dois, eles que se hajam pelo sim, pelo não ou pelo talvez. Que se hajam! Ora, pois, que estão a colher maduros o que deviam ser, apenas, frutos verdinhos da mocidade. Mas quem os plantou que os colha, quem fez o nó que o desfaça!

 

João Reis alterou-se – Lá isso, vírgula! Desculpem-me os senhores, mas sabem muito bem o filho irresponsável que têm. Pelo visto, ele não gosta de cultivar ao menos uma virtude fundamental, a hombridade – e tal afirmação fez o Camacho também exaltar-se – Ora, pois, a que chegamos! É o senhor, agora, que está a nos ofender. Meus rapazes são como os bodes, podem viver soltos lá pelos montes, tem que ser. Já minha filha é uma cabrita e eu, está claro, sempre me esforcei por guardá-la dos bodes, até à hora em que nós, felizmente, sob as bênçãos de Deus, entregamos a menina ao pastoreio de seu marido.

 

O pai de quatro cabritas fingiu não entender – Ah, meu senhor, juro que não percebo o que estais a insinuar! – e dona Mariazita interveio – É que a sua menina, ora veja bem, já é mulher feita… e como sói dizer, não há fumo sem fogo no braseiro – ao que Germano logo acrescentou – Forçada não foi. O senhor há de convir, certamente, que o nosso Hernando jamais usou de sua força de rapaz, para obrigar a pobre menina a lhe conceder o que não devia.

 

Reis mal podia conter sua fúria – Senhor Camacho!!! – O outro prosseguiu – Pois a Rosinda, minha filha, do mesmo jeito que a Mariazita, minha mãe e a minha sogra, todas se casaram como mandam os costumes da nossa família… e também o que mandam os preceitos da minha, da sua, da nossa Santa Igreja... – enquanto João Reis estava quase a bufar como um touro, prestes a dar uma chega no boi da outra aldeia.

 

Florinda agarrou-lhe o braço e suplicou, contendo-se para não se lavar em lágrimas – Vamos, meu velho, deixa estar! – e ele, enfim, tentando parecer mais calmo – É, minha flor... quem cospe ao vento, cuspido está. Dai a César o que é de César! Vamos à vida. Façamos de conta que nem cá estivemos. – logo ao que, sem olhar para os donos da casa, dirigiu-se à saída – Passar bem, senhores! Obrigado por nos receberem de modo tão gentil! – pois compreendera, então, que nada mais lhe restava senão meter a viola no saco e, com essa, também os aborrecimentos, esses que – Ai Santa Chaga Dorida do Ombro de Cristo! – eram tantos.

 

Ao chegar à Quinta, o patriarca dos Bernardes sentia-se, agora, ainda mais acabrunhado, contrariado, humilhado, muitos anos mais velho do que já estava, antes mesmo de ir à casa dos Camacho – Porca de vida! Com mil diabos, minha Flor, ter que tragar todas aquelas afrontas! – e, ao sentar-se em sua poltrona, cuspiu salivas de ódio na escarradeira que lhe ficava aos pés – Aquele bigorrilha! Que nem a terra o coma! Que nem seus ossos tenham o descanso eterno!

 

 

 

  1. MISSA DE ESPORAS.

 

Desde que veio a público o mau passo de Aurora, um turbilhão envolveu a Quinta do Raio X e progressivos tsunamis vieram perturbar a cabeça de João Reis Bernardes. Dia após dia,...

 

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24
Set19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. REBATE.

 

Quando ouviu do pai – Casas com a menina? – Hernando soprou sua negativa, como a um vento frio e seco – Não, não me apetece. Pra já, não me agrada o senhor João Reis – ao que Germano falou – Bem me chega porquê. Ele havia de querer pôr-te às rédeas, ao cabresto e a um cesto no focinho, que é de tudo isso que tu bem precisas, mas tua mãe nunca me deixou colocar. Ora, pois, tens que ver que essa criança… – e o jovem, irritado – E lá eu sei se ela é minha? – a deixar o pai realmente pasmo, com a desfaçatez do moço e, ao pensar em sua própria filha Rosinda, indignou-se – Que estás a falar, seu bandalho? Cuida que a menina é direita, só caiu na dança, que eu sei, pelas muitas cantigas tuas ao pé do ouvido – E quem te diz que eu fui o único a cantar?

 

Isso deixou o velho Camacho ainda mais estarrecido – Não sejas tão cínico, meu rapaz! Não te criamos assim! Embora não conheça de perto a menina, sei muito bem como são finas e bem criadas as filhas do vizinho! – mas dona Mariazita logo se dispôs a botar os seios para fora e dar de mamar ao Hernandito – Ora, Camacho, conheces muito bem o dito do povo: “Os filhos da minha filha, todos meus, netinhos são. Os filhos da minha nora, talvez sim e talvez não.” – no que o rapaz, todavia, para consertar a infâmia que acabara de cometer – Ela é até uma boa rapariga, havia de dar uma boa esposa, mas ainda que eu, se calhar, for mesmo o pai… não, não! Ainda gostava de ficar solteiro por muitos entrudos e consoadas, não é, ó mamacita? – e sugou, avidamente, o leite materno, pespegando às faces da mãe repenicados beijos.

 

Enquanto isso, na Quinta, após olhar para o biombo japonês, Reis estava a cometer um haraquiri. Fez das tripas uma bola e as colocou no lugar do coração. Depois jogou fora o órgão vital, porque este já estava arroxeado de orgulho ferido, vergonha e autocomiseração. Tudo sem remédio, à vista ou a prazo.

 

Partiu, afinal, até ao castelo dos Camacho, de espada arriada e indecisa na mão, a contar apenas com o escudo moral de sua querida Menina Flor. Quando Reis e a esposa penetraram na sala de visitas dos ciganos, o rapaz já tinha dado às de vila-diogo.

 

 

  1. AZEITES.

 

A sala de visitas, recentemente mobilada, tinha suas pretensões ao luxo, mas não era “nem chique nem mique”. Era de facto de um gosto...

 

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17
Set19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. EMBATE.

 

À véspera do encontro, Germano Camacho quis ter com o filho uma séria e definitiva conversa. Não desagradava de todo, ao velho, a possibilidade de um casamento de Hernando com a bela gajina da quinta em frente, pois sabia de toda a fortuna de João Reis, amealhada no Brasil e a crescer em Trás-os-Montes. À dona Mariazita, gostava que o filho casasse com Aurora, mesmo não cigana, por um só motivo: a rica netinha, a quem mal via de longe e ansiava por colocar aos braços. Preferia, no entanto, que Hernando viesse a se matrimoniar com uma rapariga de sua gente e, sobretudo, que esta ainda não fosse, como diz o povoléu, “uma leira já cultivada”.

 

De mais a mais, ao contrário do marido e dos filhos, que se distanciavam cada vez mais de suas origens, ela permanecia bastante ciosa de suas tradições. No que se refere à devoção, os Camacho comportavam-se como a maioria dos católicos, religião da qual eram devotos. Cultuavam somente algumas tradições ciganas que, em sua casa, ainda se faziam respeitar. Quanto aos costumes morais da etnia, no entanto, estes permaneciam rigidamente observados, mormente porque, naquele primeiro quarto de século, em pouco ou nada diferiam da moral vigente entre os não-ciganos.

 

Como os negócios com a loja e os cavalos estivessem a andar de vento em popa, Germano era agora um homem abastado. Naquilo, entretanto, que ele mais pretendia da vida, já não lhe podia o senhor João Reis acudir. Pois se, mesmo antes dos insucessos da filha, o dono da Quinta Grão Pará vivia recluso e à margem do resto do mundo, agora é que seria mais difícil, ou melhor, impossível, a integração dos Bernardes à sociedade flaviense. A não ser que toda essa embrulhada de Aurora e Hernando se resolvesse com a sacrossanta esponja do matrimónio cristão.

 

A inserção no grand-monde à outra margem do Tâmega, tal como já o fora também para Nonô e Arminda, era o grande sonho do velho Camacho. Para isso, como atestam jornais da época, estava sempre a colaborar com os bazares beneficentes das damas do Concelho. Já comparecia até mesmo, com dona Mariazita, a receções sociais em grande estilo, ainda mais se tal contribuísse para que, nos periódicos locais, seu nome aparecesse entre os ilustres convidados.

 

Seu planeamento para tal fim até já começara a dar frutos, pois conseguira, recentemente, graças a amizades certas e aos bons fregueses, colocar o Paulino, seu filho morgado, a um alto cargo na Câmara. Para fazer jus ao novo status, já estava a cuidar da construção de uma casa nova, na mesma Estrada do Raio X, porém mais bonita e imponente que as demais de toda a veiga. Para tão acalentado sonho, estava a despedir, progressivamente, os inquilinos gitanos.

 

Era em tudo isso que Germano refletia, quando lhe chegou o Hernandito, acompanhado da mãe. Tal qual Florinda com o seu Alfredinho, ele era, para a mamã cigana, o seu rico “ai-jesus”.

 

 

  1. REBATE.

 

Quando ouviu do pai – Casas com a menina? – Hernando soprou...

 

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10
Set19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PRECONCEITOS.

 

A um domingo de dezembro, de raro sol e frio mais ameno, após muitos rogos de sua Menina Flor, João Reis levou-a com as filhas e a pequena Fátima a passear. Aurora, como previsto, ficou sozinha em casa. Alfredo e Alice tinham ido até à casa do Gomes, em Vidago, enquanto Afonso fora visitar uma rapariguinha na Raposeira, com quem estava a namorar e que, a essa altura, criava gatos. Portanto, o que lhe havia de mais agradável... nenhum Popó.

 

O passeio correu tranquilo, com o semovente clã a receber de todos, à passagem, educados cumprimentos. À altura do Largo do Bacalhau, todavia, calhou de Arminda retardar-se um pouco diante da Capela de Santa Catarina. Amigos e familiares de alguém da Vila, recém-falecido, lá estavam, contritos e pesarosos, a velar os restos mortais de seu defunto. Entrementes, o morto esboçava um sorriso de Mona Lisa para expressar o que, intimamente, ainda o divertia no espírito, ora prestes a se desfazer no éter. Tentava, ainda, filosofar sobre a hipocrisia de uns e a cara de canastrão de outros.

 

Eis que Mindinha ouviu então, de uma senhora de rica aparência, que estava a chegar à capela, as terríveis palavras pronunciadas à meia voz e à meia distância dos Bernardes – Que tristeza há de ser isso! Ver o falhanço de uma menina trazer a desonra de uma família! – e a outra dama que a acompanhava – Ora, pois, e lá se vão os pobres avós a carregar a bastardinha!

 

Mindinha reintegrou-se aos seus e, desse momento em diante, amuada, não falou mais com ninguém. O resto do passeio lhe perdera toda a graça. Ao chegar de volta à Quinta, pediu para falar a sós com o Papá. Contou-lhe tudo, enfim, do que ouvira sair das bocas de tão elegantes, mas tão ferinas senhoras. Reis apenas respondeu – Deixa lá estar, menina, deixa lá estar. Essas coisas, é melhor esquecer, deitá-las para bem longe dessa tua nobre e leal cabecinha! – Ele, porém, não esqueceu e o que mais lhe doía era essa maldita palavra proferida sobre a netinha que, em sua pureza e inocência, jamais deveria merecer o opróbrio de ninguém, muito menos daqueles que se diziam humanos e cristãos.

 

 

Foi então que João Reis, a uma real demonstração de quanto amava a pequerrucha, decidiu-se a fazer uma última tentativa de salvar a dignidade, se não a da filha, ao menos a da neta, que ora estava a começar por descobrir o mundo, ignorante de qualquer mal. Iria fazê-lo, sim, ainda que tal resolução viesse despi-lo de todo o resto de autoestima possível. Mandou um aviso por Manuel, o cocheiro, de que, na tarde do próximo sábado, pedia que o senhor Germano Camacho e dona Mariazita os recebessem, a si e à sua esposa, dona Florinda, para tratar de um assunto de real interesse para ambas as famílias.

 

 

  1. EMBATE.

 

À véspera do encontro, Germano Camacho quis ter com o filho uma séria e definitiva conversa....

 

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03
Set19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. BORRALHO.

 

Ficara, ao lugar de Zefa, uma rapariga da mesma aldeia de Maria, a Celestina. Bajuladora, ante as primeiras orelhas que lhe dessem guarida, suas adulações caíram nas graças de Aldenora e, por tal motivo, negava-se a fazer qualquer coisa à bebé e à pós-parturiente. Aliás, de forma discreta, a modo que Mamã não escutasse, estava sempre a transmitir as duras mensagens que, passado o resguardo e a enfermidade de Aurita, Nonô e Lilinha enviavam à irmã, regularmente. 

 

Aurora enfrentava cada instante da vida com paciência e resignação, decidida a expiar sua culpa ancestral judaico-católico-apostólico-romano-portuguesa e, para isso, muito contribuíam as pequenas maldades das manas, que até recrudesceram, com o apoio da pérfida criada. Insuflada por aquelas, apesar de sua carinha de santa barrosã, Celestina também se dava muitas vezes às funções de carcereira, sempre a lembrar que a menina Aurora não podia mais fazer isso, não podia mais almoçar aquilo, nem beber daquilo outro... – Mas, ó senhora dona Aurora! – a frisar bem maliciosa o “senhora” e o “dona” – Que estás a fazer?! – e acentuava ainda mais a nova condição da rapariga – Só quem pode fazer isso são as suas irmãs, que ainda não são paridas nem desfrutadas. Olha que isso aí não vai saber bem aos ouvidos do senhor teu pai! 

 

Mais séria e mais grave ficaria a situação, se, ainda a tempo, Arminda não tivesse colocado Mamã ciente de tudo o que se passava por trás de suas asas protetoras. Vale dizer que a caçula bem pouco atendera e já não cumpria a lei criada por Nonô. Continuava a mimar sua mana Aurita e a sobrinha com o máximo de carinho. 

 

Após passar uma severa repreensão nas outras filhas, Florinda resolveu falar sobre tudo isso ao senhor seu marido. Este, de imediato, chamou a senhora Celestina às falas e, após ressarci-la de tudo que lhe fosse devido, indicou-lhe um seco “passe bem”, mas cujo tom explícito queria dizer “porta da rua, serventia da casa”. 

 

Começou a transitar então, pela Quinta, uma sucessão de criadas exportadas pelas aldeias, pois, como fossem rústicas demais na higiene e nos atos, acabavam por durar apenas algumas semanas ao serviço doméstico. Outras vinham a sair por si mesmas, por não estarem a suportar os humores de Nonô, agora cada vez mais instáveis, ainda que a rapariga fizesse um grande esforço para não fugir aos padrões rígidos de sua educação familiar e cristã. 



Passado o tempo do resguardo ao qual, naqueles tempos, a parturiente deveria respeitar, seriamente, Aldenora observou que Aurora estava a entremear os cuidados da filha, compartilhados a bom gosto por Mamã, com o ato de prestar uma ajuda não solicitada, mas de bom grado aceite, na cozinha e na limpeza geral. Aproveitou certa vez, ao jantar, em momento que Flor não estivesse à mesa, para dizer ao Papá que, a essa altura, tendo Aurita uma boca a mais a criar, a irmã deveria assumir, em definitivo e a mais tempo de jor nada, a obrigação de auxiliar Maria nos serviços da Quinta. Omitiu, é claro, o facto de Reis se encontrar em excelentes condições financeiras, para contratar quantos criados quisesse. O patriarca lançou-lhe um olhar perplexo e reprovador, mas como calado estivesse e calado ficasse, o suposto consentimento transformou-se em “ordens do Papá” e logo foi transmitido pela postulante a Florinda e à própria irmã. 

 

Começaram, então, os dias de borralho de Aurora Cinderela, mormente porque suas irmãs Aldenora e Lilinha se empenhavam no piorio de martirizar, mais ainda, a infeliz Borralheira, com as mais inoportunas ordens e as mais desagradáveis reclamações. Eram de atordoar – Aurora, me limpa as botas de camurça! – Já puseste graxa aos sapatos do Afonso? – Olha que não passaste direito este vestido! – Não vês que rasgaste a minha camisa de dormir?! – Vê se aprendes com a Mamã a cerzir os buraquinhos das peúgas! – Ontem, a casa de banho estava um chiqueiro! – Não tens vergonha de deixar o Papá entrar lá assim, com essa sujeira de mercado público? – e, afinal, o xeque-mate – Ora, pois, sua mandriona, que porca me estás a sair! – com o evidente preconceito – Até parece coisa de cigano! 

 

Felizmente, não estarem Arminda e os irmãos a tratá-la dessa forma; que o Papá ainda estivesse vivo, embora cada vez mais indiferente; e que, no lugar de madrasta, Aurora Cinderela ainda tivesse uma santa fada mãezinha, embora esta, agora, só andasse ás voltas com a Fatinha, o seu novo ai-jesus.



 

  1. PRECONCEITOS.

 

A um domingo de dezembro, de raro sol e frio mais ameno, após muitos rogos de sua Menina Flor, João Reis levou-a...

 

 

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27
Ago19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. GARRAS DA LEI.

 

 

Certa manhã, anos após a Zefa ser demitida, um polícia veio procurá-la em Bragança, onde e quando a rapariga de Pitões já vivia, em união estável com um simpático alfaiate, sessentão e viúvo, com o qual estava sempre a compartir muitas alegrias na sala, na cozinha, no quarto e em toda parte. O da Lei chegou e foi logo instando a que a barrosã, de pronto, fosse com ele até ao quartel.

 

Até chegar ao Comissariado de Polícia, a baixinha, que estivera a sair para o mercado com um vestidinho de mulher rica e trazia, nas orelhas, enormes brincos de prata, seguiu o polícia com ancestral submissão, a espalhar por todas as ruelas da capital do Distrito, suas lágrimas torrenciais. Estas eram como as migalhas de pão de João e Maria, na floresta da bruxa; ou, pior ainda, como as pérolas falsas de seu colar, cujo fio se tivesse rompido. Ao tempo todo, balbuciava sem parança – Ai minha Nossa Senhora de Fátima, mas o que foi que eu fiz, que nem um migalhito... nem um nadinha sequer eu percebo, do que me possa haver de tudo isso?! Estão a me levar presa e condenada, quem sabe até se não me vão pôr à forca, no meio da praça, com todos a gritarem – Enforca!

Enforca essa desgraçada! – como se a pobre Zefinha fosse uma dessas amigas do alheio e do pega dinheiro fácil!

 

Sobressaltou-se e palrou, aos borbotões – Será que esses brincos que comprei na feira são roubados mas o que vão fazer de mim ai que me mandam para uma prisão nas colónias e nem o meu rico maridinho ninguém nunca mais vai saber desta pobre Zefa e ai se pensam que ele também está na bandidagem comigo o que há de ser que vão fazer com o meu pobre marido mas ora pois que nem eu nem ele nem nós ai que nós não fizemos na... – até ser interrompida pelo guarda pachorrento – Cala-te, mulher, cuida bem que ainda não estás presa, nem o doutor Juiz está a te condenar. O que sei, pra já, é que foi o próprio senhor Comissário que mandou chamar-te.

 

A tremer, como se estivesse com o frio da maleita, a de Pitões foi colocada, afinal, diante do Chefe do Comissariado – Que tendes, minha senhora? Sente-se, faz favor. Calma, não há motivo algum para se haver assim! Aldemenos que eu saiba, não há nada contra si nesta chefatura, nem em qualquer outra. – e Zefa, então, o reconheceu. Era o senhor Mota, que fora gerente do escritório de exportações do senhor Reis. Graças ao diploma de advogado, até então pendurado a uma parede do lar, eis que, por intervenção do próprio Bernardes, junto a um amigo de boa influência em Lisboa, fora indicado ao posto que agora ocupava.

 

Enfim acalmada, Zefa considerou que estavam até a tratá-la como se fosse uma dama, ao lhe servirem café e um copo d’água. – É que um velho amigo me pediu que lhe passasse às mãos esta carta. Melhor que abra logo, Dona Zefa, pois está a conter coisas muito importantes, assim disse ele, ao mo entregar o envelope. Pois vá com Deus e fique em paz! – ao que Zefa se desfez em mil sorrisos e repetidos – Obrigadita, senhor doutoire, obrigadita, obrigadita, muito

obrigadi... – tudo isso entre mesuras e salamaleques, que fizeram o Mota rir-se bastante, por dentro.

 

 Logo ao sair do Comissariado de Polícia, Zefa sentou-se no banquinho de uma praça, para descansar do susto que levara. Entre nervosa e plena de ansiedade, abriu afinal o envelope. Junto com as fotos de uma linda miúda e um cachinho de cabelos, atado com uma fita cor-de-rosa, havia uma carta de Florinda. Como calhasse de passar por ali o mesmo guarda que a levara até ao Mota, pediu-lhe para lhe decifrar o que dizia a missiva. Além de várias notícias boas e ruins que, ao tempo decorrido, sucederam aos Bernardes, dona Flor lhe suplicava, em nome do senhor seu marido e a pedido deste, que por todos os santos o perdoasse pelas calúnias com que ele a ofendera, pois, como todos os mais, agora tinha certeza de ser a Zefa inocente.

 

Também pedia, em seu nome e do próprio ex-patrão, que a barrosã aceitasse, como se fora um mimo de Maria de Fátima, a razoável quantia de dinheiro que acompanhava a referida carta. Acabada a leitura, Zefa agradeceu ao bom leitor, estalou-lhe um beijo na face e saiu pelas ruas, como que a dançar e a dar muitos e cómicos saltitos de alegria. Por mais incrível que possa parecer, o que lhe alegrava, mais do que o dinheiro e o próprio pedido de desculpas do senhor João Reis, era o facto de saber notícias de Aurora e da Fatinha. Saber que a miúda estava a crescer meiguinha e bem louçã.

 

 

  1. BORRALHO.

 

Ficara, ao lugar de Zefa, uma rapariga da mesma aldeia de Maria, a Celestina. Bajuladora, ante as primeiras orelhas que lhe dessem guarida, suas adulações caíram...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

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20
Ago19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

 

 

  1. EXPIAÇÃO.

 

 

Reis se pôs a pensar por alguns segundos, mas logo se dirigiu ao pequeno cofre inglês e dele sacou um apreciável maço de notas – Aí está, não sei se é pouco para expressar a nossa gratidão por todos esses anos, mas creio que tens aí o bastante para tocar de novo a tua carroça em outros caminhos. E se quiseres morar com outra família, onde possas servir, cá está uma carta de recomendação. Nela estou a falar que és uma rapariga de bons costumes e uma excelente serviçal.

 

A criada estava a um só tempo hirta e trémula, enquanto Reis lhe estendia os envelopes – Vamos, toma! Quero dizer também que, apesar do que fizeste, não te quero mal. Arranja-te para sair agora mesmo (e acrescentou a si próprio – antes que Florinda volte da Santa Casa, onde levou Alice a se consultar e me venha com suas súplicas de bondade). Que Deus te acompanhe!

 

Até que um fio de voz, afinal, escapou da garganta de Zefa – Ah, senhor João Reis, o senhor está a ser tão injus… Não é nada disso que eu quero! – disse, a olhar para o dinheiro – O que eu gostava mesmo era de ficar nesta casa e de estar sempre a serviço de todos vós, pois juro que eu… juro por Deus... – mas não conseguiu completar.

 

Saiu correndo a chorar até à cozinha e só depois pediu à de Tourém que lhe fosse buscar a carta e o manhuço de notas. Amparou-se ao ombro amigo de Maria, tomou alguns goles d’água com açúcar, desceu até ao porão e reuniu, em uma velha maleta, os seus parcos possuídos. Dirigiu-se depois ao quarto de Aurora – Ai-jesus, que ao menos de ver a minha menina e a Fatinha, antes de partir, isso o patrão não tem poderes de m’o impedir! – e a rapariga, sabedora de tudo por Maria, já estava à porta do quarto, a esperar pela ama. Abraçaram-se, com a Zefa em lágrimas torrenciais – Não fui eu, minha boa menina! Não fui eu quem abriu a boca do Dianho, minha Aurita, bem sabes que não fui eu! Mas por qualquer outra coisita mais, perdoa a esta pobre Zefa, que sempre só quis o teu bem!

 

Aurora também estava a se banhar em lágrimas – Não há nada a te perdoar, minha Zefinha, porque sei que sempre me fizeste somente o bem. Apenas saudade, muita saudade é que me vais deixar – e enquanto punha a bebé ao colo, a barrosã falava de quanto era difícil se conformar com o sucedido. – Mas o que mais me dói, menina Aurora, é estar hoje assim, tão escorraçada por vosso pai a deixar esta casa, a essa altura, quando mal acabaste de parir a tua menina! Tão belazinha, a nossa miúda! Pena que seja mulherzita como nós. Mais uma a sofrer neste mundo de Deus – e Zefa concluiu, a expor os seus mais sofridos ressentimentos – e do Diabo! – suspirou – Pois as mulheres, ao menos em nossas paragens, sofrem mais do que os varões.

 

Após muitos abraços e prantos, Zefa partiu rumo ao Tabolado, onde ia pegar uma carroça que a levasse até à casa de uma parenta, na aldeia de Nantes.

 

Tão logo chegou a casa e Maria lhe deu as tristes novas, Florinda teve ímpetos de chamar o Manuel, para que o cocheiro a levasse até ao escritório da Rua Santo António. Conteve-se, porém, ciente da máxima de São Paulo – “Que as mulheres sejam submissas aos seus maridos” – a cujos princípios conjugais estabelecidos não poderia transgredir, devendo contentar-se apenas em chorar pelos cantos da casa, com seu lencinho de cambraia ao canto da boca ou a mascar seus charutos.

 

Ora pois que, a fim de mitigar um pouco as suas angústias, desde então se entregara a esse hábito secreto, que só alguns anos depois, em sua viuvez, passaria a manifestar sem pejo diante das filhas e dos mais íntimos. A Flor, apreciava mordiscar e mascar os puros de Cuba ou do Brasil, cujos primeiros instrumentos de pecado foram alguns havanos, surripiados ao esposo. Desse pequeno furto entre os pares, João Reis não dera o menor tento, cada vez mais tristonho e macambúzio, desligado de quaisquer ninharias da vida, que não fossem aquelas que são essenciais a um patriarca.

 

 

  1. GARRAS DA LEI.

 

Certa manhã, anos após a Zefa ser demitida, um polícia veio procurá-la em Bragança, onde...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

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30
Jul19

...

1600-chavesdaurora

 

 

  1. “RAYITO DE SOL”.

 

Aquele raiozinho de sol (à falta de outra imagem original, porém tão bem apropriada) veio trazer um novo alento à vida de todos que habitavam a Quinta Grão Pará. A mãe da bebé já estava quase destinada a ver seu rebento apenas à hora de mamar, ora pois que a avó, as tias, os tios e as barrosãs se revezavam em colos, mimos e carinhos.

 

Enternecia-se Aurora, porém, a um todo só, sempre que tomava entre os braços aquele pedacinho vivo de seu inesquecível Hernando e, para fazê-la dormir, entoava antigas e bem populares canções de ninar:

 

“Minha filhinha tem sono

tem soninho, quer dormir.

Tragam os anjinhos do céu

roupinhas para a cobrir.”

 

“Quem tem meninos pequenos

sempre lhes há de cantar

Quantas vezes as mães cantam

com vontade de chorar.”

 

Ainda que, ao marido, não se lhe notasse qualquer sinal de expressa ternura, Florinda comovia-se, muitas vezes, ao perceber que ele estava a observar, primeiro de longe, depois a certa distância e, enfim, a um espaço cada vez menor, a graciosa netinha. Na verdade, admirar Fatinha era de causar muito gosto ao Papá e ele o fazia de modo bem afetuoso. Se em tal o surpreendessem, todavia, disfarçava o mais que pudesse e se afastava do recinto. Quanto a Hernando, jamais viu a filha, senão algumas vezes, de longe, quando esta passou a dar os seus pequenos passeios matinais.

 

Nos primeiros dias, os Reis evitaram que mostrassem a bebé à janela, pois algumas pessoas curiosas, entre elas as terríveis Vila-Passos, haviam resolvido de repente passear por aquelas bandas, ansiosas por verem a novidade. O que havia de novo era apenas um serzinho que ainda sabia tão pouco desse belo, feio, alegre, triste “mundo, mundo, vasto mundo”, como no poema do brasileiro Carlos Drummond de Andrade, posterior àqueles tempos e que assim se completa – “se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”.

 

 Quando os curiosos se cansaram, facultou-se, enfim, à Fatinha, registar em seus olhinhos outros sítios da vila flaviense.

 

 

  1. LÍNGUAS VICIOSAS.

 

Não só as drogas viciam, coscuvilhar a vida alheia também transtorna a existência de certas pessoas adictas a esse mal, tornando-as...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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