Terça-feira, 24 de Abril de 2018

Chaves D´Aurora

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  1. PRIMEIRA NOITE.

 

Seria, para o resto da vida de Aurora, a primeira noite de fortuna ou infortúnios. Apesar de toda a ansiedade, a lhe fazer o coração quase saltar por entre os seios, procurou ter calma e esperar que todos dormissem. A primeira a se entregar aos seus sonhos de adolescente fora, de pronto, a sua companheirinha de quarto. Por algum tempo, todavia, Aurora teve de aguardar até que, finalmente, Morfeu se aproximasse de todos os que, nos demais aposentos da casa, ainda estivessem a conversar. Ainda que o fizessem em tons baixos e sussurros, estes eram bastantes para magoar os delicados ouvidos das flores, no absoluto silêncio da veiga. Uma a uma, porém, as bocas foram se calando e, para já, um simples zumbido de insetos se transformava em algo mais barulhento do que um coro de miúdos, à hora do recreio, no pátio de uma escola.

 

Ao ouvir o primeiro assobio, conforme haviam concertado, a rapariga terminou de passar nas faces e no pescoço o pó “Rainha da Hungria”, agasalhou-se para o frio da noite, calçou suas pantufas ultra silenciosas e se deixou ficar, indecisa, diante da porta do quarto.

 

O coração, este palpitava como se quisesse largar-se de si mesmo e partir logo, acelerado e sozinho, ao encontro do amado.

 

Ao segundo assobio, decidiu tomar o caminho da cozinha e da aventura. Deteve-se, porém, ao ouvir alguns passos e, logo a seguir, o ruidoso despejar da urina de Papá, na sentina da casa. Não, não era o Papá, talvez Afonso. Esperou o irmão voltar ao leito, atravessou a cozinha e desceu, lenta e cautelosamente, pela escada que dava ao porão. Uma vez mais parou, entre os pulsos do coração e os impulsos da mente descontrolada. Não era medo de acordar as criadas, pois estas já deveriam estar a dormir o sono dos anjos (e até a sonhar com alguns arcanjos, rústicos e musculosos). Quanto ao cocheiro, este habitava com os seus a uma casita não muito longe, na estrada que vai dar a Bragança.

 

Era medo de si mesma, do passo que estava prestes a dar.

 

O terceiro assobio a fez correr pelas árvores do pomar, até ao portão. Ia abrir um portal e, a outros, fechá-los para sempre. Não apenas os da Quinta, mas outros, muitos outros portais de toda uma existência.

 

 

Sentados sobre uma pedra, lá fora, a falarem de assuntos triviais, logo estava o gajo, de novo, a encantar a menina com suas andanças pelo mundo. Ora, pois, que não iria falar de outras raparigas, mas se Aurora lhe perguntasse sobre as sevilhanas, bretãs, toscanas, tais e mais, dizia-lhe que, em certas coisas, as mulheres são sempre iguais por toda parte (e isso o fazia sorrir, malicioso). Afirmava, porém – Mas cuida-te, minha brasilita, que nenhuma... ai que nenhumazinha, mesmo, pode se comparar à tua beleza, à tua meiguice, a todos os teus predicados!

 

Pois que estivesse a chegar o frescor da madrugada, Hernando aconchegou-a em seus braços. A isto, Aurora deixou-se levar ternamente, sem qualquer resistência. Quando o cigano tentou roubar-lhe um beijo à boca, todavia, a rapariga falou – São horas de voltar a casa, olha que o Papá ou alguém mais pode acordar e dar por falta de mim – e correu a fechar o portão, não sem antes ouvir do rapaz a tão esperada pergunta – Quando te vejo de novo, minha bela? – ao que, ela – Deus há de concertar isso, pois é Ele quem tudo vê – e enfatizou – tudo vê, tudo ouve, tudo sabe.

 

  1. OUTRAS NOITES.

 

O Camacho não quis esperar por Deus nem por Sara Cigana, uma das santas secretárias do senhor Jeová. Sabia que ao entardecer, quando fosse com seus primos ao pasto livre da veiga, para buscar os cavalos do clã e os recolher ao estábulo, certamente Aurita estaria a uma das janelas, na ânsia de vê-lo passar, vaidoso qual sempre, garboso como um oficial da Polícia Montada do Canadá, pelo menos igual ao que ela vira, em um dos muitos filmes no Cineteatro Flávia.

 

Lá estava ela de facto, à janela, a donzela toda bela! Ao vê-la, como previsto, Hernando adiantou-se como pôde dos outros gajos e, ao passar bem rente à casa dela, descobriu a cabeça. Dentro do chapéu estava um papelinho no qual se achava escrito, com letras graúdas, uma só pergunta – Hoje? – e, ao recolhê-lo, a resposta de Aurora veio com um aceno e um sorriso de fada.

 

 

Por muitas luas, assim continuaram os encontros marcados, embora com as marcas da prudência impostas por Aurita. Valiam-se dos mais variados estratagemas, para se comunicarem e combinar os encontros. Ora deixavam bilhetes sob as pedras do jardim da Quinta, ora usavam mensagens cifradas, transmitidas graças aos favores bem pagos de Manuela, a lavadeira comum às duas famílias, quando esta vinha trazer e buscar a rouparia dos Camacho e dos Bernardes, para lavar no regato de sua aldeia.

 

Nas fantasias eróticas de Hernando, essa lavagem de peças comuns parecia um ato de sensual promiscuidade. Isso fazia o rapaz ficar bastante excitado, só em pensar que, nas águas do riacho da aldeia de Manuela, as roupas dele e de sua amada se misturavam, fosse enquanto juntas, ao se ensaboarem, ou quando, lado a lado, ficassem dependuradas nas cordas estendidas por entre as árvores. As vestes de um e de outro estariam a realizar, a essa altura, o que os corpos respetivos ainda nem sonhavam desfrutar.

 

Em geral, punham-se os dois a concertar ali mesmo, no fundo do pomar, as próximas aventuras dessas noites adentro. Aurora sabia dos riscos, mas tentava caminhar sobre a corda bamba de um circo de incertezas, temerosa e oscilante entre o seu senso de pudor e o poder de sedução do namorado. Quando só podiam encontrar-se mais cedo, ao anoitecer, sempre restritos a pouco mais do que o mero palear, Aurita se aproveitava da carinhosa dedicação da ama que lhe ajudara a crescer e lhe pedia ajuda para se encontrar com o cigano – Não te apoquentes, minha boa Zefa. Entre mim e o Hernandito, por enquanto, não há nada de mal. Apenas uma grande amizade.

 

A barrosã retrucava – “Por enquanto”... já és tu mesma a dizer e é disso que tenho medo. Não estiques a corda demais, que ela sempre arrebenta pra cima de nós, as mulheres... e esse gajo, desculpa que eu te fale assim, ele não é só um cão, como os outros, atrás de fêmea na cainça; ele, sozinho, é uma verdadeira canzoada! Cuida lá do que estás a fazer, minha menina! – e Aurora – Não te preocupes, Zefa, já não sou mais uma boba nem tonta miúda. Sei me guardar.

 

Aos poucos, Aurita ganhava mais coragem em suas saídas noturnas, ao tempo que se tomava, também, dos maiores cuidados, para que tudo viesse a dar certo e ela pudesse desfrutar de bons momentos ao lado de seu gitano. Agora já costumava levar uma colcha velha, que jogava sobre a relva do pomar. Com o namorado a trazer vinho e ela, pão e queijo, deixavam-se gozar da penúltima ceia antes do Calvário, desejosos de que este ainda tardasse bastante a chegar, embora sabedores da maldição de Anás e Caifás a lhes rondar o Horto das Oliveiras.

 

Apesar de beber apenas alguns goles do tinto, a rapariga já se deixava levar pelos eflúvios do vinho e começava a permitir alguns carinhos mais ousados do rapaz. Sabia, no entanto, o momento certo em que seu galo interior deveria cantar as horas da paragem. Então, logo se punha a fechar o portão da quinta com um “até sempre” ao amado.

 

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Terça-feira, 17 de Abril de 2018

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. BRINCAR COM O FOGO...

 

À meia-noite fizeram subir os fogos-de-artifício, com um grande rasto até ao céu. Momento apropriado para que Aurita e Hernando se aproveitassem do facto de que, finalmente, a eterna vigilância de Reis e de Florinda havia relaxado. Tal vigília se achava, pouco a pouco, limitada pelas atenções que deviam dar aos Bacelar e aos circunstantes. Quanto aos irmãos da menina, estes também estavam por aí, cada um por sua conta, a se divertirem com os mais de sua idade.

 

Foi o suficiente para que, longe da sentinela patriarcal, os namorados obtivessem maior possibilidade de trocar seus enlevos, de mãos e faces a se roçarem e, mesmo em silêncio, os olhos transmitirem, uns aos outros, mais palavras do que as contidas na Bíblia Sagrada. De qualquer forma, era esperto demais esse Casanova trasmontano. Nem mesmo os olhos e ouvidos mais atentos das coscuvilheiras presentes aperceberam-se de que, diante da fogueira e de todos em volta, alguma coisa mais forte e definitiva estava a se passar entre ele e Aurita.

 

Algumas vezes, para disfarçar, Hernando afastava-se e ia ter ao convívio com os outros rapazes. Outras vezes, punha-se a entoar antigas canções lusas e galegas, com os músicos contratados pelo dono da quinta. Outras mais, chegava até onde Aurora estivesse com as raparigas e declamava versinhos a cada uma delas, mas sempre a piscar discretamente para a sua brasilita.

 

Eram trovas decoradas, plenas de lirismo e galanteios – Andava cego na vida / mas a brilhar te avistei / tão bela és, minha estrela / que a luz dos olhos ganhei – e ao lhe perguntarem se os versos eram seus e se ele era poeta, respondia, de um modo a parecer falsa modéstia, que os aprendera por aí, pelo mundo. Tudo isso fazia a bela Capuletto do Raio X se deixar encantar, cada vez mais, por seu finório Montecchio.

 

Com um pouco daquela malícia que, tal como o Alfredinho no Tâmega, só se aprende, a nadar, nadando, Aurora tentava disfarçar, perante aquele pequeno mundo de gente à volta de si, todo esse universo novo, a lhe tornar maruja de uma nau de Cabral, Vespúcio ou Vasco da Gama, intrépida navegante pelos sete mares do Desconhecido. O desejo de desvendar os mistérios de novos solos, onde nunca dantes alguém jamais pisara, descobrir américas, índias e austrálias, incertas e ainda por se darem a conhecer, tudo isso a fazia enrubescer por vezes seguidas e sentir no corpo um calor que ia muito além daquele ameno verão.

 

Quando e enquanto os da Grão Pará começaram a trocar os devidos agradecimentos e despedidas, com os Bacelar e os demais convidados, o cigano, que costumava dizer – Ora pois, portanto, seja cá ou seja lá, cigano de sorte não deixa o tempo voar! – para já deixou marcado com Aurita um encontro secreto, nos fundos do pomar da quinta de João Reis.

 

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Terça-feira, 10 de Abril de 2018

Chaves D´Aurora

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  1. FOLGUEDOS JOANINOS.

 

Dona Violeta, a mulher de Messias Bacelar, convocou as raparigas a um ritual que, em similitude com a Festa de Brotas, bem se poderia originar de algum antigo costume pagão. Consistia em saltarem as moças por cima da fogueira, para se purificarem e, no que parecia um acréscimo da dona da casa, guardarem-se limpas para o casamento. A simpática senhora ainda se preocupava, certamente, com as preciosas filhas, ainda desfrutáveis, embora já estivessem predestinadas a amadurecer nos cachos, uma vez que, dificilmente, haveria lavradores para colhê-las.

 

Ao chegar sua vez de pular a fogueira, Aurita avistou Hernando e quase caiu do outro lado. Eis que foi amparada pelo próprio cigano o qual, para esse gesto assim, tão cavalheiresco, até já parecia estar ali de propósito. Daí a mais, lá estavam os dois a trocar juras de eterna amizade, dando três voltas ao fogo e a dizerem as palavras da tradição – Por Santo António, São Pedro e São João, eu, Aurora Bernardes, juro que serei sempre amiga de ti, Hernando Camacho, até ao dia em que o bom Deus houver por bem me apagar o lume! – e ele – Também sempre serei teu amigo, Aurora Bernardes, por São João, São Pedro e Santo António, até ao dia em que…

 

Migalho seguinte, porém, no momento em que todos gritavam e corriam para ver o Jogo da Panela, os namorados secretos aproveitaram para pular a fogueira de mãos dadas e jurar, entre si, amor eterno. Por Santo António, São Pedro e São João!

 

 

Brincava-se, então, o Jogo da Panela. Diante de um pote leve de barro, cheio de prendas e suspenso a uma árvore, aquele que, em posição estratégica e com os olhos vendados, conseguisse acertar e quebrá-lo, seria o vencedor, às vezes caindo os prémios sobre si mesmo.

 

Chegou a vez do Alfredo e este, após algumas tentativas, alcançou desfazer o pote em mil pedaços. Ao invés de palmas pela façanha, ainda com a venda no rosto, o que sentiu de facto foi molhar-se todo e ouvir o povo às gargalhadas. Acontece que, ao invés de prendas, puseram no pote apenas água. Pelo mais, essa água ainda fora perfumada com cebolas, alhos e algumas ervas mal cheirosas. Para consolo, porém, trouxeram-lhe alguns brindes de verdade. De qualquer forma, Alfredo achou tudo isso uma adorável patuscada e, daí a nada, de roupa mudada, já se misturava com os graúdos a soltar fogos e, com os pequenitos, a explodir os estalinhos que sobraram do último Entrudo.

 

As meninas casadoiras invocavam Santo António, em papelitos que atiravam à fogueira – Ai meu bom Santo Antoninho / o papel pode queimar / mas guarde bem esse nome / pois é com quem vou casar! – Colocavam, também, dentro de uma vasilha com água pura, junto ao lume, papelinhos dobrados e escritos com aquilo que mais desejassem saber: com quem se casariam; com que idade isso haveria de acontecer; quantos filhos iriam gerar… No papel que abrisse primeiro, ali estaria a sua ansiada resposta.

 

Antes, porém, tinham que rezar – Com a bênção de São João / faço esta adivinhação / Com a bênção do meu santinho / o meu futuro adivinho! – e, como as outras meninas também fizessem pedidos em voz baixa, ao pé do lume, Aurora arriscou-se a rezar uma quadra que aprendera, quando criança – Ó meu rico São João / meu santinho do Cordeiro / me dê um amor para sempre / e saúde o ano inteiro!

 

Dessas práticas, excluíam-se Aldenora, por já estar noiva de Sidónio e as irmãs Bacelar, estas pelo puro snobismo, assim manifesto – Ora por quem sois! – mas se as três, já quase solteironas, não se atiravam a essas improváveis predições, é porque, em verdade, em verdade vos digo, nenhuma delas tinha um nomezinho sequer, de algum mancebo que fosse, para escrever nos papelinhos e rogar, aos santos casamenteiros, por um pretenso marido.

 

Também se faziam adivinhações do futuro, diante do lume, práticas nas quais Zefa de Pitões era mestra e maestrina, sempre bastante assediada para atender a tão mágicos misteres. O que aquelas almas ingénuas não percebiam, inclusive a própria, é que, no geral e no particular, tudo saía mesmo era da fértil imaginação da criada, diante de uns meros gravetos de pau queimado, tirados ao acaso da fogueira.

 

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Terça-feira, 3 de Abril de 2018

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. NOITE DE SÃO JOÃO.

 

 

 

Às noites amenas de verão, era frequente dormirem os Bernardes bem mais tarde do que de costume. Nas de sábados, em especial, podiam-se ver de longe, por toda a veiga, as luzes das fogueiras que ardiam diante das casas, onde as famílias punham cadeiras nas calçadas e ficavam a assar iscas de bacalhau, sardinhas ou o mais que lhes apetecesse. Tudo isso regado a um bom vinho ou a um chazinho de ervas, ali mesmo aquecido. Os vizinhos que, entre si, mantivessem vínculos de amizade, convidavam-se mutuamente para compartilhar desses serões, em que se honravam os santos de junho. Agrupavam-se em cadeiras, sentados ao chão, em pé, ou a circularem por toda parte.

 

A uma noite de junho, João Reis e todos os seus foram convidados a participar dos folguedos são-joaninos, em uma quinta de propriedade do seu amigo Messias Bacelar. Todo o descampado em frente à essa quinta, próxima ao Raio X, estava ornamentado com bandeirolas e lanternas chinesas. Junto à porta, verdejava uma Capela de São João. Consiste de um plano meio inclinado, feito de musgo e buxo, coberto por plantas rasteiras e silvestres que o tornam esverdeado, enfeitado com imagens de santos, pastores e carneirinhos. No alto, a imagem tradicional de São João Batista. Em volta, cercando a “capela”, mastros com bandeirolas, ligados por grinaldas de buxo e ramos entrelaçados, com muitas flores, que os tornam multicoloridos.

 

Lá estavam também algumas raparigas e rapazes ciganos, moradores nas casitas alugadas pelos Camacho e que trabalhavam na quinta de Bacelar. Um quintão imenso, com numerosas plantações, muitos cavalos, porcos, vacas leiteiras e até mesmo um pequeno vinhedo para a produção doméstica. Hernando, que a essa altura já andava a trabalhar na loja do pai, também lá estava a acompanhar seus inquilinos e a distribuir alegria em volta de si. Ganhou até alguns olhares das meninas Bacelar, ainda que furtivos, pois estas diziam conhecer muito bem as fronteiras entre o desejo e a razão.

 

O anfitrião tinha umas filhas mal afeiçoadas, porém muito elegantes, conhecidas pela fina educação adquirida em liceus de Paris e Londres. Já com alguns fios de areia a passar pela ampulheta dos trinta, cada uma e juntas viam o tempo escoar, como as águas do Caneiro, naqueles sítios onde viviam, à esquerda do Tâmega, sempre a esperar por um bom esponsal, com pretendentes que estivessem à altura de suas sapiências. Estes, porém, talvez só pudessem ser encontrados em outros países, durante alguma das viagens que, regularmente, elas faziam ao Exterior.

 

Sobre Hernando, por serem ajuizadas e assentes, uniam à razão o sexto sentido feminino – Ai que esse moço é muito airoso, mas bem m’o parece ser daqueles que se pode ver num piscar d’ olhos – assim falava a mais velha, enquanto dizia a Bacelar do meio – Deve ser uma boa bisca, isso sim, desses que, em matéria de amor, acende uma vela a Deus e outra ao Diabo – e a terceira das irmãs – Deus me livre se o destino calhar de me oferecer, como noivo, um marialva daquele! – ao que, logo após, viraram-se para Aldenora e lhe perguntaram se estavam certas. Esta concordou plenamente, a olhar para a irmã de modo ostensivo – Ah, esse aí... não te convém, nem às tuas manas... nem a qualquer rapariga de boa família, que tenha, ao menos, um migalho de bom senso!

 

De tudo ou nada que elas falassem, Aurita pouco registava. Alheia a tudo em volta, embevecia-se a contemplar Hernando. Comentou, porém, mais tarde, com Aldenora – Do jeito como essas moças falam dos rapazes, vão acabar ficando para tia ou, como diz a Mamã, no caritó. Até porque os homens cá da terra parecem ter medo de qualquer mulher que eles achem instruída demais, inteligente demais... – e, a essa menção, Nonô julgou-se incluída – Então, minha irmã, sou uma privilegiada. Sabes o que mais aprecia em mim o meu rico Sidónio? Justamente isso. Tudo isso.

 

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Terça-feira, 27 de Março de 2018

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. HOMEM DE AÇO.

 

Havia algo de muito angustiante, a que a brasilita não alcançava perceber. Porque jamais conseguia ver Hernando, nem mesmo raramente, se moravam tão perto um do outro? A verdade é que o rapaz era irregular em muitas coisas, inclusive quanto às horas de sair ou de chegar a casa. Quando já fazia quase dois meses que o guarani Peri amara sua branca Ceci, no écran do Cine Teatro Flaviense, o cigano viu Aurora debruçada à janela e, saindo à rua, desdobrou um tosco e mal desenhado cartaz em papel de embrulho, onde se lia:

 

“O HOMEM DE AÇO, HOJE,

ÁS CINCO DA TARDE, NO

TEATRO SALÃO MARIA!”

 

Logo porém, ao sentir gente a passar, dobrou o anúncio rapidinho e se recolheu a casa.

 

Aurora tentou, avidamente, descobrir quem era ou o que era esse tal “Homem de Aço”. Debalde, não fosse a ideia de ler no “A Região Flaviense” sobre o “enterramento do Homem de Aço num caixão, ontem, sábado de Aleluia, de onde só será desenterrado no próximo domingo, dia 8, à mesma hora, e que pode ser visto todos os dias, no local, pela módica quantia de 50 centavos”.

 

O problema é que, se a possibilidade em sair com as irmãs já era difícil, impossível de facto era ir sozinha.

 

Uma vez mais, todavia, outro acaso veio favorecê-la. Morreu dona Isménia Lobo, uma parenta distante dos Bernardes, reconhecida como pintora e poeta – Diletante! – como ela própria dizia e que morava com a sua inseparável amiga Edite, de casa e pucarinho, desde que eram mocinhas e estudavam no Convento de Santa Clara, em Coimbra.

 

Isménia e sua dileta companheira, ambas muito afáveis, cultas e viajadas, estavam entre as raras damas de Chaves a manter de facto, com Adelaide, um vínculo de amizade. Frequentavam-se, mutuamente, a saborearem cup cakes de laranja e chocolate, em requintados chás à inglesa, enquanto se entregavam a refinadas conversações sobre a Vida, o Mundo, o Tempo, os Costumes.

 

As amáveis senhoras formavam um dos pares mais assíduos de pessoas devotas, na Santa Maria Maior. A fraterna devoção de ambas, entre si, também era tão admirada, que a poucos escapava o facto de, em todos esses anos, dormirem juntas no mesmo quarto e sob o mesmo dossel do século XVIII, com seus pilares em volutas, o seu ruço cortinado escarlate e as borlas douradas ao redor.

 

Alguns meses antes do passamento de Isménia, que deixou Edite em evidente prostração, lera-se aos jornais que, em uma das aldeias do Concelho, dois rapazes, surpreendidos quando dormiam juntos e despidos, foram surrados pelos próprios familiares, um deles até à morte. O outro, mesmo ferido, fugiu para Lisboa.

 

O que se mostra é virtude, o que se esconde é pecado.

 

Aurora disse logo que não poderia comparecer a esse funeral, por estar nos seus “dias de história”. Sorriu a si mesma, ao notar que logo mais iria encaminhar-se para outro enterro, o do Homem de Aço, embora este não fosse mais do que uma bizarra encenação teatral. O pobre homem recebera essa alcunha, por ganhar a vida a permitir que lhe espancassem a musculatura torácica e dorsal, de modo a comprovar, assim, a rijeza muscular. Agora, resolvera se deixar enterrar vivo, durante sete dias, para ganhar mais alguns tostões.

 

Tão logo se viu sozinha, vestiu-se toda de preto, como as viúvas da região. Apôs-se o enorme xaile que ia até ao chão e um típico chapéu, usado na época por muitas aldeãs, que tomara emprestado à Maria, ainda que à revelia da própria criada que, tal como a Zefa, não alcançou vê-la sair. Tomou o caminho do Caneiro, atravessou o rio por entre as Poldras e, enfim, chegou à rua onde ficava o Salão Maria. Lá dentro, mal teve tempo de ver o tão bem vivo cadáver. Hernando já lá estava, à sua espera.

 

O rapaz levou-a até um sítio deserto, junto às muralhas da torre, onde ela vivenciou momentos de total enlevo, embora cândidos, contidos, castos. Chegou mesmo a se alcandorar e voar com o amado sobre aldeias fronteiriças, como Tourém ou Segirei e de lá retornar, extasiada. Não se desligava, todavia, de sua vigilância, sempre a impedir que Hernando ultrapassasse as marcas e as raias do bom Concelho. Até que Aurora se deu conta do tempo e perguntou as horas. Ele sorriu, maroto – Não é tarde, nem cedo, brasilita, tua parenta ainda há de estar a descer à campa. – mas logo a rapariga disse que tinha de se pisgar e ele, ríspido – Se já queres ter ao borralho, vem, levo-te – mas ela – Reloucaste, meu rico? E se nos veem juntos?

 

Ele falou então com uma voz séria e fria, que nem parecia a de poucos minutos atrás – Está bem, rapariga, não convém jamais que os nossos pais, mormente os meus, saibam de nós – e, após lhe dar um beijo apressado, quase formal, sumiu para os lados de Santo Amaro.

 

 

sto-amaro.JPG

Bairro de Santo Amaro. Capela do Horto, ao fundo.

Chaves antiga (PT). Postal Foto Alves.

 

Ao voltar sozinha, pelo mesmo itinerário da ida, as palavras que escaparam do rapaz estavam, agora, a lhe revolver os miolos. Porque “jamais”, se a fé e a esperança nos fazem crer que não há nada como um dia atrás do outro? E porque “mormente meus pais”, se estes já pareciam distanciar-se, cada vez mais, de suas tradições familiares?

 

Na segunda-feira, porém, Aurora ficou a morrer de saudade daqueles breves momentos, quando leu no jornal que o Homem de Aço não pudera prosseguir em seu desafio. Após quarenta e oito horas de jejum, o próprio homem teve que suspendê-lo para que, conforme dizia a notícia, “ a morte a fingir não se tornasse, mesmo, verdadeira”. Condoídos da penúria do pobre homem, alguns sargentos da Infantaria 19 fizeram uma subscrição para completar o dinheiro que ele deveria ganhar, se prosseguisse nessa tão perigosa exibição.

 

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Terça-feira, 20 de Março de 2018

Chaves D´Aurora

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  1. LOBO MAU.

 

A uma tarde modorrenta, com a forte canícula de verão, Lilinha desceu até ao porão da Quinta, passou pelas criadas que dormitavam a sesta e se encaminhou à porta que dava para a rua. Esta se achava entreaberta, talvez para deixar passar algum súbito ar um pouco mais fresco. Na estrada, sentiu algo que não sabia explicar em sua idade, a sensação de estar por alguns momentos livre, diante do mundo, que ela tão escassamente conhecia.

 

O mundo lhe veio na figura de um simpático velhote, a dirigir pequena carroça, puxada por um só cavalo. Parou diante dela e falou, com um forte sotaque de quem não era da região – Ora, pois, bela menina, que estás a fazer aí, sozinha? Moras por cá? – e a pequena Aurélia, com medo que ele fosse contar a Mamã que ela estava fora de casa – Não, acolá. – ao que o velho – Queres que te leve até lá? Mas antes posso mostrar-te os meus coelhinhos. – Onde eles estão? – Na minha casa. – É longe, a tua casa? – Não, é logo ali. Vem, sobe até à boleia, vamos! Cuida que lá eu também tenho patinhos, pintinhos, requinhos...

 

Antes que ela pudesse recusar, já o bom velhinho a segurava e a punha na carroça. Chicoteou o cavalo com força até um pequeno desvio da estrada e logo chegaram a uma casa, fechada há muito tempo. A menina estranhou, mas tudo lhe era novo àquela tarde. – Onde estão os coelhos? – e enquanto ele amarrava o cavalo a uma árvore, Aurélia deu a volta à casa, a procura dos bichinhos.

 

Quando voltou para perto da carroça, o velho estava sentado em um degrau da escada, à frente da tapera, suspensórios arriados e camisa aberta, as banhas em volta dos mamilos, como seios de mulher, a desabarem sobre o flácido barrigão. Braguilha também aberta e a calça um pouco arriada, o homem segurava as gónadas com as mãos, cercadas por um tufo de cabelos brancos, do qual saía um falo que, mesmo intumescido e em média ereção, bem pouco ultrapassava o tamanho de um dedo polegar.

 

A menina parou, olhos fixos naquele pedacinho de carne que lhe causava asco, terror, curiosidade, uma gama de sentimentos misturados e que não alcançava decifrar. Eram, para ela, sensações até então desconhecidas. Ficou petrificada, a gelificar-se por inteiro em seu corpinho infantil. Ao velhote, porém, abriu-se lhe um riso de dentes podres e ele disse, com voz mansa e insinuante – Vem cá, minha boa menina, vem! Se fores boazinha com o ti, ele depois vai dar-te umas cerejas e um bolinho de ovos com mel.

 

Paralisada, havia um bolo de pavor a fermentar na garganta da pequena Aurélia. Este logo explodiu e, dos lábios da miúda, um primeiro grito saiu fraco, depois outro mais forte, um terceiro mais alto, enquanto a caraça do velho deixava de ser afável para tornar-se dura, cerrada, ameaçadora, quanto mais intensos se tornassem os berros da criança, a quem ele agora perseguia a correr em volta da carroça, com as faces tomadas por um sádico furor. Alguns homens que passavam na estrada do Raio X acorreram ao local e, alcançando o pervertido, que já tentava fugir, caíram-lhe de sova ao lombo, tirando-lhe sangue pela boca, nariz e o mais, a mal lhe sobrarem forças para correr até à carroça e pôr o cavalo a trotar.

 

Entrementes, Lilinha saiu da tão motivada crise histérica e se pôs a correr de volta a casa. A porta do porão continuava aberta e as criadas a cochilar. Subiu até seu quarto e se atirou à cama, a chorar, com soluços fortes e desesperados. Ninguém lhe veio acudir, estavam todos a dormitar. Ademais, a ninguém ela podia contar o facto, pois cometera duas graves infrações aos códigos do bom comportamento infantil: sair à rua sozinha e falar com estranhos. Nada lhe restou senão dormir a sesta, como os demais.

 

Assim foi que essa tarde virou segredo até para si mesma e, quanto mais esquecesse, menos mal lhe saberia aquilo tudo. Se alguma vez aquele facto lhe viesse à memória, o tempo já estaria a lhe trazer dúvidas, como se fosse aquilo tudo apenas um sonho mau, no pesadelo da vida de uma criança carente, que se julgava a de menor atenção entre os miúdos da Quinta.

 

Real ou não, contudo, marcas ficariam. Sentir-se-ia para sempre menina, a se trajar como menina, pensar como menina, sem nunca perceber que estivera a crescer. Mais grave ainda seria a sua estranha fixação por homens velhos, o que a faria desinteressar-se de qualquer jovem que lhe fizesse a corte. O piorio era que, dentre os poucos homens do Concelho a alcançarem a velhice naquele tempo, alguns ainda estavam casados; os viúvos preferiam amancebar-se com mulheres livres a cometerem, conforme diziam, “um erro pela segunda vez”; e a maioria dos solteirões, como o tio Arlindo, era constituída de homens avessos ao matrimónio.

 

Ora pois que, à terceira filha de João Reis, não restavam muitas opções casadoiras.

 

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Terça-feira, 13 de Março de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CLAUSTRO.

 

Com a casa de Bernarda Alba, a de Alba Bernardes guardava algumas semelhanças. Tal como na peça de Frederico Garcia Llorca, o poeta mártir do fascismo na Guerra Civil Espanhola, a Quinta Grão Pará transpirava uma clausura quase monástica.

 

Arminda andava às voltas com os explicadores e os deveres por eles exigidos. A essa altura, Aldenora era quem lhe dava aulas de Etiqueta Social. Monsieur Béjart resolvera desobrigar-se de tais funções, amolado com os risinhos (ainda que discretos e contidos) das pessoas da casa, durante certas lições de elegância, tais como usar os dedinhos ao segurar uma tacinha de licor ou levar aos lábios, lentamente, uma chávena de chá ou de café.

 

Nonô colecionava todas as cartas que o noivo lhe mandava de Braga e ficava a marcar, no calendário, os dias que faltavam para as férias de Sidónio ou para algumas de suas vindas eventuais a Chaves. Sempre a mergulhar nos livros, estava a ler, agora, as obras de Guerra Junqueiro, cujo falecimento recente fora muito pranteado. Logo as deixaria de lado, todavia, por não aceitar as posições anticlericais do autor.

 

Seu maior sonho, que também já estava a se refletir em Arminda, era ver todos os seus participarem da chamada elite social de Chaves, da qual viviam quase inteiramente à margem, mesmo sendo Papá um dos mais ricos homens do Concelho. Antevia que, em seu casamento com Sidónio, adviria finalmente a oportunidade de se abrirem, para ela e os seus, as portas do restrito grand mond flaviense.

 

Muito gostava que ela e as irmãs viessem a ser, por exemplo, como essas “gentis meninas de nossa terra”, das quais falava um dos jornais locais, “que estão a promover um garden party, com objetivos beneficentes”. Com uma tômbola de prémios a girar, essas “raparigas de elite” estavam a “angariar rendas em prol do Hospital da Misericórdia” e a todos os doadores de prendas, eram distribuídos malmequeres e algumas folhas de hera, nas quais estavam escritos, a bico de pena, alguns versos seletos do saudoso António Granjo.

 

 Felizes eram Alfredo e Afonso, agora às voltas com o Futebol. Muito lhes agradava assistir aos jogos no Campo do Tabolado, como naquele tão memorável dia em que a equipa do Flávia Sport Club desafiou a do Império Sport Club do Porto e muito se festejou, por toda a vila, a vitória do Flávia por 3 a 1. Mal acabara essa festa e os irmãos já estavam a torcer pelos alunos do Liceu no Jardim Público, em disputa da Taça Flávia, contra a linha formada por sargentos da Infantaria 19.

 

Aurora sentia-se entediada, por não conseguir dedicar-se a mais nada, senão a pensar em um lenço que virava rosa e esta, colocada em seus lábios, logo iria fazê-la se ferir com os espinhos da saudade. Ia com frequência à janela, o que sempre despertava a implicância de Aldenora – Que tanto fazes aí, a olhar para os bois e os carroceiros? Ou será que estás a esperar… ai, minha irmã, não sejas tonta demais! Não fiques a desejar, com essas águas paradas, mover moinhos que te não merecem!

 

À adolescente Aurélia, um pouco disso, um pouco daquilo, já lhe bastava. Distraía-se a confecionar bonecas de pano que, regularmente, enviava a um orfanato no Porto. Ninguém a namorar. Nada se conhecia do que lhe havia de mais íntimo e pessoal. Somente muitos anos mais tarde é que ela iria contar a Aldenora um incidente que lhe ocorrera, quando tinha apenas seis anos.

 

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Terça-feira, 6 de Março de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. TEATRO.

 

Até que o silêncio se desfez em cacos pela própria Adelaide – Ah, meu Deus! E não é que já estava a passar o motivo, ó Florinda, pelo qual eu vim cá te visitar?! – e entregou, então, alguns convites para os Bernardes assistirem à comemoração do aniversário da corporação dos Bombeiros Voluntários de Chaves. Constava do programa, no Cineteatro Flávia, encenado pelo Grupo Dramático da Corporação, o drama em três atos “O Bombeiro Voluntário”, “seguido de um interessante acto de variedades, com 14 números, constituídos de monólogos, recitativos, cançonetas, fados, coros etc.” A açoriana, a não caber em si de contente, era uma das atrizes convidadas.

 

Sabe-se, já, serem bem raras as oportunidades que o chefe do clã concedia à mulher e às filhas, para saírem de casa a fim de se divertir. Restringia-se a vida social daquelas mulheres aos compromissos estritamente necessários. Adelaide, portanto, nem acreditava que elas viessem a comparecer, menos ainda em companhia de João Reis e ficou muito feliz ao vê-los honrar o convite. Mais ainda, quando todos os parentes foram cumprimentá-la, ao fim do espetáculo.

 

– Ora viva! Os meus queridos Bernardes, no teatro! E para me verem representar! Bem-haja! Bem-haja!

 

Ciente das tendências histriónicas da amiga, fora ou dentro do palco, Florinda implorou às filhas que, nas cenas mais sérias, se o já conhecido e esperado viesse a acontecer – Pelo amor de Deus, meninas! Não me venham a rir! – sem deixar de lembrar que os risos discretos e comedidos, como soem ser próprios a toda rapariga de boa família, fossem liberados somente nas partes cómicas.

 

Surpreendeu-se. Primeiro, pela plateia do teatro que estava à cunha mas, ao contrário do que se ouvira falar, parecia estar agora mais educada, a assistir em silêncio, pondo-se a rir apenas diante de uma ou outra situação engraçada. Pasmou-se, mais ainda, com Adelaide, pois embora esta não fosse dotada de grande talento para os dramas e sim para as comédias, desempenhou seu papel com a maior concentração e gravidade, conforme exigia a personagem.

 

Mamã pensou o mesmo que Aurita e Aldenora. O amor, sobretudo a perda do amado, transforma a vida de qualquer ser humano. Também lhe parecia que, no caso de Adelaide, o jovem Luís Miguel fora o maior e talvez o único amor verdadeiro da açoriana, em toda a sua, nem sempre tão alegre existência.

 

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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. AFILHADOS.

 

Uma tarde, com um belo sol de início da primavera, Florinda ouviu algumas gargalhadas à porta. Desceu a escada lateral e logo viu, à frente da quinta, alguém cuja visita lhe trouxe, para já, uma enorme alegria. Há muito tempo não via Adelaide, que andava a morar fora do país, a gozar os encantos de Madrid, Paris e Berlim, no propósito de tentar amenizar as dores pela morte do seu meigo, terno e inesquecível “afilhado”.

 

Na boleia da Carochinha, estava agora um jovem tímido e desengonçado, mas trajado com certo apuro. No rosto, malgrado seus belos traços, muitos cravos e espinhas haviam deixado a sua assinatura. O corpo, todavia, era bem desenvolvido, tornando-o, em termos gerais, um beneficiado pela Natureza. Adelaide pediu a Maria que o encaminhasse à cozinha e lhe desse, por gentileza, um copito de tinto maduro, ao que Flor acrescentara – E uma talhada daquele folar que a Francisquinha nos mandou!

 

Naquele dia, as irmãs haviam saído e, à sala, estava apenas Aurora – Ai, que cachopa! Cuida que a tua menina está a se pôr! Cada vez mais jolie, minha cara Florinda, très jolie! – e logo Mamã, temente ao marido, fez sinal para que a filha saísse, o que não escapou à viúva – Ora deixa a menina cá estar, ó Flor! Ela já tem bastante idade para aprender sobre as coisas do mundo. Se bem que ela... ora, pois, muitas coisas não sou eu quem lh’as vai ensinar... – soltou, então, uma risada cristalina – Além do mais, tu sabes, Florinda, que eu não sou dada a conversas vis nem palavras chulas. Tento ser o que chamam os franceses de une femme d’esprit.

 

Florinda foi leal e sincera – Sim, sim, por certo, Dedé, considero-te e sempre hás de ser para mim uma dama – ao que a outra ajuntou – Claro que sim, minha Flor, sou uma dama em qualquer salão! – mas segredou aos ouvidos da amiga, tornando as faces desta mais coradas do que um pimento encarnado – Embora deixe de sê-lo, quando me apetece, em certos sítios e a certas horas – e soltou mais uma de suas estrondosas gargalhadas.

 

A cavaqueira já ia alegre de per si, quando Aurora cometeu a mais indiscreta das perguntas – Esse rapaz, esse seu novo cocheiro… ele também é seu afilhado, tal-qualmente o Luís Miguel? – no que, à menção daquele que se fora, Adelaide ficou séria de repente, tirou de sua bolsa um lenço cinza rendado de bordas negras e o levou aos cantinhos dos olhos. Não havia, nesse momento, qualquer dramaticidade da atriz diletante, nenhuma encenação teatral.

 

Fez-se um silêncio, um tanto quanto constrangedor, finalmente quebrado pela repreensão de Flor – Aurita!!! Isso são coisas que se perguntem?! – mas Dedé logo se refez – Deixa estar, minha amiga. A menina não me está a falar nada demais. – Pausou um pouco e – Ai, Florinda, jamais vou esquecer o meu putinho adorado! – então repetiu a pergunta que, a este narrador, não lembra quem, nem onde, mas que em um filme ou peça teatral, alguém já disse ou escreveu – “porque morrem os jovens”?!

 

Depois de outro silêncio pesaroso, solidário, Mamã colocou as mãos de Dedé entre as suas. Esta virou-se para a rapariga – Não, filha, este aí, para mim, é apenas um... um secretário-geral, digamos assim. Compra-me os precisos da casa, cozinha, põe a mesa, separa-me as roupas para entregar à lavadeira… – e para Flor, em tom mais baixo – Muitas vezes, é claro, também me serve como valet-de-chambre. Ah, mas quanto a esse ofício… percebes, minha Flor? Esse aí, em nada se compara ao Miguelito!

 

Dessa vez, mais por curiosidade do que em segundas intenções, quem se viu inconveniente foi Mamã, que logo se pôs a corar de pejo, assombrada pelo que, ela mesma, estava a perguntar – O Luís Miguel… batizaste-o já rapaz? – o que levou Adelaide a fixar na anfitriã os olhinhos miúdos, mas vivíssimos – Ora pois, minha amiga, o Miguelito já lá ia pelos dezasseis anos, quando o conheci. Era um dos criados da quinta onde eu estava a festejar as bodas de uma sobrinha, lá na Madeira, em… em que aldeia era mesmo? Bom, o que vale é que eu… ai minha rica saudade, quando me lembro daquele dia!

 

Como se estivesse em um Cinematógrapho, seus olhos pareciam acompanhar o filme que estava a descrever. – Havia, no meu quarto, uma janela que dava a um pequeno ribeiro, desses bem rasinhos. O Miguelito… ou melhor, o Miguelão... ele atravessou esse ribeiro e me chegou todo encharcado, da cintura pra baixo… molhadinho. Como eu que, de outro modo, também já estava... percebes? Ai, meu Deus, agora falo eu: isso são coisas que se digam?! – e sussurrou para Flor – Enfim, pra não me pôr a palavrear demais, só tenho a dizer-te que batizei o menino ali mesmo, com a água do ribeiro, sem sal, sem vela de cera, nem com os unguentos sagrados, percebes? – após o que, ao seu feitio, pôs-se de novo a gargalhar e nem escutou a repreensão da amiga – Dedé!!!

 

Logo, porém, a visitante entristeceu-se de novo e levou o lenço ao nariz – Te lembras como ele era? Ajudei-o a se tornar um cavalheiro, dei-lhe escola, ensinei-lhe as boas maneiras… nunca me haverá ninguém como ele! – enquanto Aurora e Mamã fitavam-na caladas, sem saber o que dizer. Certas dores não passam com remédios, nem se curam com o mero e vão consolo dos amigos.

 

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Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PULGA DE CINEMA

 

Hortênsia, que sempre dizia – a boa hora ainda não chegou para mim! – ou, a brincar – “Vaso ruim não se quebra” – já estava em plena forma, mas Aurora continuava a sair com a Zefa, para levar até à boa senhora os votos de saúde da Mamã e da Lilinha, a pródiga afilhada. Florinda, porém, começou a considerar que, pelo assim e pelo assado, a tia estava muito malzinha, cada vez pior e que deste ano não passava. Foi então visitá-la e, ao vê-la tão bem disposta, ficou a cismar sobre as engenhosas aldrabices da filha – Ai cabeça de flor despetalada, olha que aí... “tem mouro na costa”!

 

Zefa logo se viu posta a interrogar por Flor, mas a Mamã, como inquisidora, era uma ótima Santa Isabel, aquela generosa rainha que dava esmola aos pobres, contra a vontade do marido opressor. Este, ao que se conta, vendo-a levar alguma coisa no avental dobrado, perguntou-lhe – Que levas aí, contigo? – e ela – Rosas, meu senhor – mas o tirano – Pois mostra-m’as, portanto! – ela então, pesarosa em mostrar os óbolos proibidos, desdobrou as faldas do avental. Eis que de pronto, para surpresa dos mais e de si mesma, caiu-lhe aos pés um verdadeiro roseiral.

 

A esperta barrosã que, de resto, só sabia das idas da menina ao cinema, mas sem atinar com quem mais, nem qual menos, tratou de desconversar. Passou a contar mil pataratices acerca da criada de dona Hortênsia, cujos hábitos de higiene e as tontarias na cozinha muito deixavam a desejar.

 

A Florinda, porém, uma pulga (e dessas grandes, assíduas frequentadoras de cinema) saltou-lhe para trás da orelha, naquele inverno do início de 1923, quando foi com João Reis e as filhas assistir, no Cineteatro Flávia, a um filme que, ao marido, muito apetecia ver.

 

Era “O Guarany”, produção da “Carióca Film” do Rio de Janeiro, em 7 partes, baseada no romance de José de Alencar e na ópera homónima do famoso compositor brasileiro Carlos Gomes. Além de atraente per si, os anúncios no jornal “A Região Flaviense” registavam que, em Lisboa, sua exibição integrara as comemorações de um feito histórico, a chegada ao Brasil dos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, no hidroavião Lusitânia, ocorrida no ano anterior. Os dois patrícios realizaram juntos a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

 

Figurava-se ao Papá uma razão muito especial para ver “O Guarany”. A motivação era que certa vez, em Belém do Pará, estivera bem próximo ao Maestro, após a estreia daquela ópera no Theatro da Paz quando, em companhia de um parente que era amante da música erudita, Reis fora cumprimentar o músico e já se lhe notava a aparência enfermiça. Pouco tempo depois, em 1896, acompanhara, ao lado de milhares de pessoas, o traslado dos restos mortais do artista, desde a casa onde Carlos Gomes passara os seus últimos dias até ao Conservatório de Música (para o qual o Maestro fora nomeado diretor e hoje leva seu nome), onde seu corpo seria velado, antes de o levarem para Campinas, sua terra natal.

 

Ocorreu que, à entrada do Cineteatro, onde tantas vezes Aurita, por motivo de óbvios cuidados, sempre entrara e saíra sozinha, com um xaile da cabeça aos joelhos, quase a lhe cobrir inteiramente o rosto, o parvo e indiscreto porteiro foi todo sorrisos para a rapariga – Boa noite, menina, folgo em ver que, desta vez, não veio cá sozinha, veio com o Papá e toda a família, não é? – ao que todos os mais pararam, emudecidos, uma expetativa de segundos que, para a assustada Aurora, pareceram milénios.

 

Ela, porém, já contaminada pelas maroteiras de Hernando, aumentou o fio de voz que lhe dava um nó à garganta – Desculpe, meu senhor, mas estás a me confundir com outra pessoa, nunca pus os pés neste lugar! – o que deixou o porteiro, de pronto, a tentar remendar, com o rosto mais pálido do que defunto no caixão – Des… desculpe-me, senhorita, é que a menina... quase me dava os ares de uma rapariga que vem sempre aqui.

 

Assim acabou o namoro de Aurora com a sétima das Artes. Conformadinha como sempre, ficou só a lamentar as oportunidades perdidas de se encontrar com o seu amado. Também lastimava o facto de não poder mais assistir, como já se anunciava nos reclamos, “a verdadeira maravilha da arte nos cinemas de todo o mundo”, o filme de longa metragem “Intolerância” (exibido em duas jornadas, cada uma com 5 partes).

 

Com o frio da estação mais intenso, geadas eventuais e a temperatura a descer, por vezes, a 4 graus abaixo de zero, a rapariga permaneceu por um longo tempo sem sair de casa, dando ao Camacho, em termos de beijos roubados e devolvidos, um demorado jejum.

 

Pouco a pouco, Florinda esqueceu as desconfianças que tivera em relação à filha, ainda que, tais e mais, alguma dorzinha lhe trouxessem à cabeça. Como o Reis nunca tocara no incidente do cineteatro, talvez por acreditar na convicção e firmeza com as quais a filha se dirigiu ao atarantado porteiro, Mamã jamais comunicou ao marido as suas maternais preocupações.

 

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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. NAMORO POSTAL.

 

Maior prova de amor entre Sidónio e Aldenora seriam as cartas que se enviaram um ao outro, pela primeira vez e foram recebidas, quase ao mesmo tempo, pelos respetivos destinatários. Ela, a pedir perdão pelas grosserias, em si deselegantes, tão indignas de uma rapariga de bom-tom e, a se valer do ensejo, repetir o quanto amava o nobre rapaz. Ele, a dizer-lhe que a amava demais e, a se valer do ensejo, reiterar que não queria perdê-la, por nada neste mundo, nem em qualquer outro que, porventura, existisse além da vida, além do tempo, além do Universo.

 

Veio a se estabelecer, então, uma “via romana” postal entre Aquae Flaviae e Bracara Augusta, pela qual iam e vinham versinhos, citações e juras de amor eterno, em longas e esmeradas missivas, com as mais bem desenhadas caligrafias. As cartas preferidas eram aquelas em que ele, próximo aos feriados, anunciava que viria a Chaves para rever os familiares e a noiva, esta com quem tanto ansiava constituir, o mais breve possível, a sua nova família.

 

A primeira vez em que Sidónio apareceu de volta ao Raio X, com sua capa e batina, foi um “ai-jesus” geral. De Arminda a Zefa, todos queriam ver o académico de Braga. Até mais do que Nonô, quem se encantava com o uniforme do noivo era o mano Afonso, ávido de ver chegar também o dia de se revestir com uma batina igual. O rapaz não cansava de perguntar ao futuro cunhado sobre a vida universitária bracarense, pois, ao seu modo de ver, esta não deveria ser muito diferente, ou até mesmo aquém, das aventuras juvenis que ele sonhava experimentar em Coimbra.

 

A pedido de Aldenora, os noivos foram ao Estúdio Flavínia para tirar um retrato especial. Ela, com o seu melhor vestido domingueiro. O noivo, ora, pois, de capa e batina.

 

 

  1. ÉCRAN.

 

A um dia invernal de janeiro, mas infernal para as ânsias de Aurora, Hernando reapareceu. Por um feliz acaso, a rapariga estava à janela e ele, chegando a cavalo, estendeu-lhe a mão, envolta na luva cor de morcela e perguntou se, àquela altura, ela estava sozinha. Trocaram então breves palavras, suficientes para que ele dissesse que, à fina força, desejava revê-la. Aurora, contudo, não via onde, nem como, isso haveria de acontecer.

 

Aproveitou-se, porém, de um repentino “cair dos céus”. Alguns dias depois, a adorável Hortênsia, que raramente adoecia, estava agora acometida de uma artrose que lhe causava grandes sofrimentos. Aurélia, sua afilhada e a quem a tia tratara durante a Pneumónica, logo suplicou para se desobrigar da boa ação, por se dizer tomada de pânico, ante a possibilidade de esse mal ser contagioso.

 

Aurora já fizera 21 anos e, portanto, já era emancipada. Lei essa apenas na teoria, porquanto, nas práticas da Grão Pará, isso não era levado a sério por seu pai. A rapariga, no entanto, valeu-se dessa prerrogativa para se oferecer, junto com a Zefa, a representar Lilinha e Mamã numa visita à tia Hortência e, até mesmo, prestar alguns cuidados à boa senhora.

 

Após muito cavaquear e mimar um pouco a tia, esta dormiu e a rapariga, deixando Zefa a tagarelar com a criada da casa, pediu à de Pitões que lhe desse a cobertura estratégica para se encontrar no cinema com uma amiga, menina que conhecera ainda nos tempos da Primeira Comunhão. Zefa custou a concordar – Credo em cruz, Santo Nome de Jesus! Gostava, boamente, de estar sempre a fazer o que a menina me pede, mas isso agora… nem me rogues, Aurita! Cuida que o senhor teu pai… ai, menina, em vez de miolos, parece que tens “aranhas no toitiço”! – mas a criada acabou por dizer sim. Sempre atendia, sorrindo, a tudo que, a choramingar, a rapariga lhe pedisse.

 

“Nas garras do dragão” era o filme de aventuras e mistério, em 12 séries e 24 partes, que estavam a levar no Teatro Salão Maria e que muito agradou a Hernando e Aurita. Em algumas cenas, porém, menos atraentes, Camacho aproveitava para roubar da menina alguns beijos, cada vez mais ousados, ao que a rapariga pedia – Para, Hernandito! Não vamos colocar “a carroça adiante dos bois”! – e era salva, então, pelos sustos que ambos tomavam, quando o sexteto que estava a acompanhar as ações na tela tocava alguns acordes mais agudos e bombásticos.

 

Quando apresentaram o filme “Foot-ball Portugal-Hespanha”, deu isso origem a que os namorados tivessem a primeira briguinha, embora nada grave. É que Aurora sentiu-se um tantinho desconsiderada, durante toda a projeção, uma vez que o amado só tinha olhos para ver o que se passava no écran. Pazes feitas, marcaram outro encontro, dessa vez no Cineteatro Flávia, onde estavam a projetar a película de grande sucesso “Aos Corações do Mundo”, baseada em eventos da Grande Guerra. Prometeu-se mutuamente que, dessa vez, ficariam apenas a assistir o filme. Hernando, porém, acrescentou – Sempre se pode palear baixinho, nas partes menos atraentes... – ao que ela, por uma prudente lembrança de que, a cada mudança de rolo das fitas, acendiam-se as luzes, respondeu com firmeza – Melhor esperar os intervalos.

 

De meados do outono ao começo do inverno daquele mesmo ano, em um cinema ou no outro, enquanto perdurassem as dores de tia Hortênsia ou a rapariga as fizesse perdurar ante os ouvidos de Mamã, Aurita e Hernando viram no écran “Amor de Mãe”, em 7 partes; “Extravagância de milionário”, 5 partes; “Pencudo – Porteiro e Patriota”, cómico, 2 partes; “Matias Sandorf”, adaptação do romance de Jules Verne, em 9 capítulos e 4 partes; “A Herdeira do Rajá”, em 4 episódios e 8 partes e “com a insigne actriz Ruth Roland”; “a esplêndida fita em 6 actos ‘Ferragus, o chefe dos 13’, versão em film do romance de Honoré de Balzac”; e outros mais.

 

Aurora ficava bem triste ao perder a sequência dos filmes longos, que eram exibidos de forma seriada, em dois, três ou até mais dias, como “a grande fita histórica ‘A filha da Condenada’, 16 séries, 32 actos, com 32.000 pessoas em cena”; “O Imperador dos Pobres”, “cine-drama em 18 séries e 36 partes, que reproduz os mais notáveis acontecimentos da vida de Napoleão Bonaparte”; ou “A Bela Desconhecida”, “em 4 jornadas e 16 partes”.

 

Em todas as sessões, a fazer o acompanhamento musical das cenas, ou durante os intervalos, para a mudança de rolo das fitas, estava sempre a animar, com belas peças musicais, o apreciado Sexteto de Chaves. Exibiam-se ao vivo alguns artistas eventuais, em danças ou intermezzos cómicos, como no dia da apresentação de “Os Mistérios de Paris”, extraído do romance de Eugéne Sue, em que “os intervalos foram abrilhantados pela famosa cantora e coupletista espanhola Nita Ibañez”.

 

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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CHEGAS DE BOIS.

 

Alfredo adorava, sobretudo, passear pelas freguesias a cavalo e assistir às festas, jogos e costumes de cada aldeia, como as “chegas de bois”, a que o adolescente costumava assistir, algumas vezes, em companhia de José, um rapaz da mesma idade, irmão de Manuel, o cocheiro. As “chegas” são, até hoje, com seus atletas bovinos, um verdadeiro desporto para os jovens das aldeias trasmontanas. Eles são capazes de percorrer longas distâncias a pé, só para verem uma chega. Consiste na luta entre dois taurinos de terras diferentes, raramente da mesma região. Em geral, são do tipo “boi do povo”, sem dono particular, adquirido pela aldeia ou doado por algum fazendeiro para o usufruto da comunidade. É escolhido aquele que melhor ofereça qualidades especiais para ser treinado e se tornar um bom lutador. À época de Alfredo, alguns treinadores chegavam a praticar pequenos furtos de milho ou de centeio nas vizinhanças, ou até mesmo tirar, de seu próprio sustento ou de sua família, o necessário para bem alimentar o seu gladiador taurino, que precisava, afinal de contas, estar bem nutrido e forte para a próxima chega.

 

Muitas vezes a contenda é marcada por mera rivalidade entre pessoas ou aldeias, no desafio de que “o meu (ou o nosso) boi é mais isso, mais aquilo”. Em geral, todavia, aqueles que têm um touro no qual se veem grandes possibilidades de vitória, contratam com outra aldeia uma data e local apropriado e se encarregam de pedir ao regedor de cada freguesia a ordem de liberação oficial. Com esta, sem esta, ou antes desta, faz-se a chega em um povoado neutro, ou seja, mais ou menos equidistante das aldeias em beligerância. Ocorre em geral a um domingo ou dia santo e todos os aldeães acompanham o boi que representa sua aldeia. Partem com paus feitos de galhos descascados, como se fossem bastões, a fazerem promessas ao Altíssimo e a todos os santos para que o seu boi seja vitorioso.

 

Antes de marrar, cada animal é encerrado oito dias em seu curral para, no dia da chega, mostrar-se o mais bravio possível. Àqueles tempos, para ficarem bem contundentes, os chifres eram afiados com navalhas e cacos de vidro não limados. No dia aprazado, chicoteavam o animal ou lhe davam cerveja e vinho, para ficar mais enraivecido. Alguns tratadores chegavam a colocar pontas de aço nas extremidades dos cornos. Como, àquela altura, o importante era tentar de tudo que estivesse ao alcance, a fim de que um dos turrões pusesse em fuga o adversário, que é o princípio básico da chega, outros chegavam a colocar a pele de uma vitela ensanguentada no lombo do boi, para que o cheiro causasse temor ao inimigo.

 

Toca o sino na igreja da aldeia marcada para a chega e todos levam seus bois para o local já pré-escolhido entre as partes. As pessoas fazem um círculo natural, a fim de deixar bem livre a área descampada onde, ao centro, as turras vão começar. Soltam-se, portanto, os turrões nesse coliseu, já devidamente postos em fúria para marrar o adversário. Os gladiadores bovídeos pegam-se de frente, com violência, cada um procurando rasgar e ferir o outro, enquanto os circunstantes incitam o seu favorito ao ataque. Os torcedores de cada lado insultam-se mutuamente e fazem apostas.

 

Não mais do que alguns minutos depois, após se medirem bem as forças, um dos bois vai recuando até ao lugar por onde entrou no círculo e foge. Os partidários do boi vitorioso atiram paus, chapéus, lenços e xailes ao alto, dão vivas ao vencedor e enfeitam o campeão com fitas, ramos e flores. Assim adornado, ele vai desfilar em sua aldeia, onde haverá bailes com muito vinho, queijo e presunto para todos. Quer dizer, menos para o ruminante, um vegetariano convicto, que fará jus apenas a uma generosa ração especial.

 

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94 . CHEGA DE HUMANOS.

 

Alfredo sempre fora muito amigo de animais. Jamais gostara de usar as fisgas para caçar passarinhos e vivia sempre a brincar com a Patusca e com o Mocho, o gatinho de Arminda. Por isso, na primeira vez em que foi a uma chega, ficou o tempo todo a pensar no quanto os taurinos podiam se magoar. Só suspirou aliviado quando, afinal, viu os atacantes saírem da luta apenas com alguns ferimentos, mais ou menos leves. Consolou-se mais ainda quando o irmão de Manuel lhe asseverou que, realmente, nas chegas, é raridade a morte de um boi.

 

Por ocasião de uma feira em Montalegre, quem estava a se divertir com uma “chega de bois” era o rapaz da casa em frente à Quinta Grão Pará. Alfredinho já o vira de longe, certa vez, a jogar o Malhão, na festa da padroeira de Sant’Aninha de Monforte. Dessa vez, Hernando acercou-se do puto com um ar simpático, a jeito de estabelecer com ele um princípio de camaradagem. Perguntou-lhe se estava a gostar do que via e qual era sua opinião sobre a chega. Alfredo falou rápido e de modo cortês das suas reais considerações, pediu licença e se afastou com o Zé.

 

O Camachito não se conformou com essa atitude e o seguiu. – Ô pá, porque me odeias tanto assim, se não te fiz nenhum mal? – e como o outro ficasse calado, arriscou – Sabes muito bem que tua irmã é uma bela e boa menina. Pois saibas, também, que estou a gostar muito dela. Cá me vai algum mal, nesse gosto? Se for pelo facto de eu ser cigano... – Alfredo encarou-o com firmeza e respondeu – Pois saibas, também, que eu tenho alguns amigos como tu na Galiza e os prezo muito. Estou a julgar, outrossim, que não há mal nenhum em gostares da minha irmã.

 

Essas palavras fizeram o gitano sorrir, mas isso logo se desfez quando o rapazola concluiu – O que havia de ser um mal, e de muito mau gosto, é se ela gostasse de ti! – ao que, então, pôs-se a galope de volta a Chaves no Azeviche, em parelha com o cavalo do Zé. Não sem antes ouvir os vaticínios de Hernando – Não adianta lutar contra o Destino! Ela ainda há de ser minha! Está escrito nas linhas de nossas mãos, nas cartas do baralho, nas estrelas desse enorme céu. Alfredo preferiu jamais falar sobre isso à irmã. E a nenhuns.

 

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Terça-feira, 30 de Janeiro de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. MOINHOS.

 

Na quinta Grão Pará, a vida girava como se fosse o Moinho dos Agapito, à beira do Tâmega. Para deceção de Aurita, Hernando parecia ter ido embora de vez, naquele primeiro comboio, pois se passou muito tempo sem que ela tivesse dele qualquer notícia. Sabia apenas que ele não estava ao Raio X e isso era, por certo, motivo de muita angústia para ela. Teria voltado o cigano a viver com a rapariga de Valpaços?!

 

agapitos.JPG

Moinho dos Agapito, Chaves antiga (PT). Postal Foto Alves.

 

Afonso, após concluir os estudos secundários, começara a trabalhar no escritório do pai, mas continuava a perseguir o seu maior ideal. Via-se, o tempo todo, a sonhar de olhos abertos e, tal como Sidónio, a gozar também das festas e patuscadas próprias de rapazes, entre as maltas de estudantes, pelos becos e ruelas de Coimbra. Já se lhe vestiam as batinas e tinha as capas dobradas sobre os ombros, cheias de apliques bordados, brasões e outros símbolos coloridos, em contraste com a negrura dos uniformes. Entrevia até seu Papá e sua Mamã a se deleitarem com ele, por altura da queima das fitas. Atirava-se então aos estudos e, do mundo em volta, bem pouco estava a se interessar. De mais a mais, quando pensava em raparigas, sempre se lembrava do Popó.

 

Também Aurélia, ainda voltada para o seu mundo de infância, apesar de já passar dos dezasseis, não parecia pensar em qualquer namorado. Passava horas a brincar de bonecas e jogos infantis com Arminda.

 

Mindinha, porém, já crescera. Começava a querer se dar por rapariga madura e não mais uma menina, o que forçava Lilinha a amadurecer também, junto com ela.

 

Alfredo prosseguia com os estudos no Liceu. Ainda que fosse bem ao Português, ao Latim e à História, estudar não lhe era um dos melhores prazeres da vida. Assim, pois, ainda que inteligente, estava sempre a se ver em malabares com Ciências, Matemática e até mesmo outras matérias menos exatas. Se as férias ainda estavam longe de chegar, o rapazola ansiava pelos feriados. O que lhe apetecia bastante, aos sábados à tarde, era folgar com os rapazes de sua idade, sentados a algum café do Largo das Freiras ou à Confeitaria Flaviense, então o ponto chique da elite de Chaves.

 

Punham-se os jovens ali, à sombra, para ver e serem vistos pelos alegres buquês das raparigas em flor, que passavam ao sol, mas cujos pais, migalho a menos, migalho a mais, eram tão severos quanto Reis. Se deixavam sair as filhas com as amigas era porquê, na verdade, algumas delas iam sempre com alguma tia solteirona a lhes servir de dama de companhia. Como astuta Mata Hari dos costumes, essa matrona agia como vigilante, ao mesmo tempo, não só de sua monitorada pupila, quanto das coleguinhas que a acompanhassem, embora todas fossem consideradas meninas direitas, atadas aos férreos liames dos conceitos e padrões da época.

 

Papá vivia às turras com o Alfredinho, por este só querer estar às pândegas. O rapazote corria então a se refugiar nas bordas da saia de Mamã, com quem trocava afetuosos carinhos, sendo impossível a Florinda ocultar que ele, para todos os efeitos e consequências, era o seu “ai-jesus”. Com frequência, porém, mesmo à amorosa Flor estavam a desgostar suas preocupações com o traquina, que sumia por horas, algumas vezes por um dia inteiro.

 

Mal saído da puberdade, o puto era um verdadeiro traga-mundos, dentro daquele universo entre o Brunheiro e o Barrosão. Quando o pai perguntava – Por onde andaste, seu maroto? – ele respondia com um sorriso que aborrecia ao Reis, mas desarmava aquele sempre disponível advogado de defesa, o coração materno – Meu querido Papá, minha queridíssima Mamã… estava por aí, de lés a lés, pelo mundo. Estava por aí, a estudar a vida.

 

Por aí, por acolá, era Vidago, Vila Real e as aldeias do Concelho, ou mesmo Verín e Ourense, que ficam logo ali, além da raia, na Galiza, para onde o Alfredinho, com o seu Azeviche, movia-se com um grupo de rapazolas, descomprometido de tudo. Acampavam a céu aberto no verão ou na primavera, com vinho, guitarra, castanhas assadas na fogueira e a eventual e bem-vinda companhia de algumas raras, alegres e liberadas raparigas.

 

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Terça-feira, 23 de Janeiro de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ESTAÇÃO DE COMBOIOS.

 

Hernando e sua brasilita voltaram a se encontrar, no dia da inauguração do caminho de ferro até Chaves. Nesse ano, à mesma data, comemorava-se o décimo aniversário dos combates pela República em Trás-os-Montes. Tal episódio histórico sempre fazia lembrar à Zefa e à Maria aqueles dois jovens aldeães, inimigos até à noite anterior, mas que já lá estavam, na manhã seguinte, a sair abraçados pela estrada, a caminho da Paz.

 

Na estação recém-construída, às proximidades do Forte de São Francisco, Florinda e as filhas apreciavam o comboio e, enquanto Alfredo e Afonso paleavam com algumas raparigas, João Reis e um velho conhecido comentavam sobre o que toda a gente estava a reclamar, segundo o jornal “A Região Flaviense”: a febre atual do rapazio de Chaves pelo “Foot-ball” – Ora, meu caro Reis, esses putos ficam a jogar com bolas de pano por toda parte, a prejudicar o trânsito e, às vezes, até causando pequenos acidentes – ao que Reis concordava – São uns palermas, valdevinos, irresponsáveis. Isso devia ser permitido apenas no campo do Tabolado!

 

Entrementes, Tristão Camacho e Isolda Bernardes refugiavam-se em um sítio que julgavam recôndito às vistas de João Reis, do outro lado dos trilhos, onde poderiam conversar livremente e até ensaiar os primeiros beijos, não fossem os passageiros que já assomavam às janelas do comboio.

 

– Às vezes, meu ciganito, me dá um medo bem forte, que me não sai do pensamento. Que estou a fazer cá, junto a ti, tão parva de mim, a esquecer o que bem sabemos? Ora, portanto, que o meu pai…

 

O rapaz mostrava-se tranquilo. Ora deixa estar, brasilita, os outros que se governem! “Tem mais Deus a nos dar que o Diabo a tirar”! – Respondeu-lhe ela com outro adágio – Tens razão, “casamento e mortalha, no céu se talha” – e ele completou – Como se diz, “essa vida são dois dias”. Por enquanto, o que importa é “trazer água para o nosso moinho”.

 

Tiveram, porém, que deixar essa água para alguma incerta hora, dia, mês ou ano. O comboio deu o último sinal de partida e já se punha a correr nos trilhos em sua marcha inaugural… Pronto! João Reis e todos os mais, do outro lado da linha, iriam vê-los ali, juntinhos e, pior ainda... A SÓS!

 

comboio.JPG

 Estação de comboios. Chaves (PT). Foto de jornal antigo. Data e autor desconhecidos.

 

Ao mesmo tempo, foi neste oito de julho e na mesma estação de comboios, aos incómodos calores do verão, que uma nuvem escura apareceu de repente a esconder, entre raios de temores e relâmpagos de deceção, o céu e o sol da felicidade de Aldenora. António Sidónio desapontou-a profundamente, ao lhe comunicar, de modo abrupto e desajeitado, que o copo d’água havia de se adiar por alguns anos, pois em breve o noivo estaria a entrar em um vagão daqueles e andar até Braga, a fim de estudar na Universidade. Isso era algo a que ele gostava muito, pois até já estava a sonhar com as capas e batinas negras, a queima das fitas, as alegres patuscadas com os colegas... e que ela não se desatinasse por causa disso, porque, afinal de contas, eles dois ainda eram muito jovens... e blá-blá-blá.

 

Aldenora logo se confessou enganada, vítima de uma imperdoável desatenção, fora do trilho certo e a lhe trilhar a alma, pois ele não falara sobre isso no dia do noivado. O rapaz então contestou, em rimas involuntárias – Mas sim, meu querubim, cuida que estive a falar sim, tu é que não prestaste atenção a mim, nem ao que eu te disse, enfim, a ti e a todos, por fim. Não alcançaste àquela altura, meu rico alfenim, que eu estava a falar que só depois de... – e ela cortou – Estás a me chamar de aluada?! – mas ele – Não, minha Nonô, nem pensei em tal despautério!

 

Tentou consolar a amada – Mas cuida que te amo demais, é só um tempinho de ficares a esperar que eu me forme, é o melhorio de nosso futuro! Pensa no quanto vão se orgulhar as nossas famílias, que em breve estarão aparentadas, com a indizível honra de terem, no seio de ambas, um – e encheu a boca, para um melhor arredondamento da palavra – um bacharel!

 

Nem ela! De pronto se mostrou amuada e pediu a Sidónio que, se essas eram mesmo as suas vontades, não lhe viesse mais ter à Quinta na semana vindoura. Ou, se calhar, não lhe viesse mais ter a casa, nunca mais – Ora vá com Deus! – disse ela, a lhe virar as costas.

 

O último vagão do comboio já estava quase a passar por Hernando e Aurora. Diante de tal aperreio, a rapariga sentiu-se aterrar da cabeça aos pés. Quando o comboio começou a sumir de vez, entre vivas e palmas, ninguém se pôs a entender porque uma bela rapariga, com um ar de toupeira tonta quando sai à luz do sol, estava sozinha e perdida ao outro lado da via-férrea. Felizmente, a menos do acender de um fósforo e a jeito de saltar logo adiante, o rapaz subira ao veículo, no intervalo entre vagões.

 

Semanas depois, no dia da indesejada partida do noivo, Aldenora não foi dizer-lhe nem mesmo até breve. Isso o deixou muito triste, pelo tanto que a queria presente, conforme lhe mandara dizer em um carinhoso bilhete. Entretanto, quando o Texas se pôs a apitar rumo ao Porto, antes de se distanciar para sempre, Sidónio pendurou-se à janela e pôde retribuir aos acenos de Nonô. Amparada por Aurita e Aurélia, a um sítio próximo da estação, a rapariga valia-se do próprio lencinho branco de rendilhados em volta, com o qual ele a mimara no dia do noivado e que trazia ao centro, com muito esmero na arte de bordar, as iniciais A. & A..

 

 

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Terça-feira, 16 de Janeiro de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PEDIDO.

 

O clima ansioso do encontro pôs-se ainda mais acentuado após a sobremesa, antes que os homens passassem ao pequeno escritório doméstico e as mulheres à sala de estar, a fim de lhes saberem bem o vinho do Porto, os licores e o café.

 

Enquanto Aldenora dirigia seus olhos à alvura da toalha, os mais entreolhavam-se, curiosos. Ao presumível noivo, dirigiam-se os demais olhos ali presentes, com discreta intermitência.

 

Eis então que o rapaz, a suar bem mais, naquela fresca primavera trasmontana, do que um pescador no verão das colónias d’África, após um olhar de soslaio para o sisudo dono da casa, levantou-se de chofre e – Exlecentíssimo... Extelentíssimo... Ex-ce-len-tís-simo senhor João Reis Bernardes, Ex-ce-len-tís-sima senhora dona Florinda, senhor meu Papá, senhora Mamã, me...me...menina Aldenora e todos que estão cá... cá... ne...nesta noite es... especial, a com... compartilhar connosco o vinho e o cão...digo, o vinho e o pão... eu... eu...faz favor, senhor meu pai! Gostava que por mim falasses...

 

Após alguns pigarros teatrais, o pai do pretenso noivo tomou a palavra – Deixa estar, meu rapaz, vou falar por ti, mas, por certo, não vou falar por teu coração, ora pois que esse.... ô meu prezado João Reis, vamos andar com isso de uma vez. Ora pois, pois! Já todos estão a saber por que raios de motivo é que nós todos cá viemos. Meu menino pede a mão de tua filha, a bela e prendada Aldenora, para...para... mas por agora, que fales tu, de novo, e por ti mesmo, ó António Sidónio!

 

O rapaz, ainda mais nervoso – Eu...eu peço a sua bênção, senhor João Reis Bernardes, para que eu... eu quero um sincero compromisso com a menina Aldenora e, portanto… – fez uma pausa e, na ocasião, por estar muito emocionada, a noiva não atentou para o resto – assim que eu… que eu concluir meus estudos, vamos dar corrida aos banhos na Cúria e aos preparos de nosso... nossa futura união, pelos laços sagrados do matrimónio. Ufa! – sentou-se e o pai arrematou – Ufa, digo-te eu. Mas ora pois que falado foi e, portanto, falado está. Tem que ser! Ouçamos agora o que diz a rica menina e o venéreo... ai que me perdoem... o venerável senhor seu pai!

 

A um ato cénico previamente estudado, João Reis deixou passarem correndo, em maratonas pela sala, alguns segundos de silêncio. Enfim – Gostava que me respondesses, ó filha, se te afeiçoas a este menino, filho de nosso prezado Professor António Sidónio de Castro Cordeiro – e a rapariga respondeu, quase em um sussurro – Sim, Papá – e ele – Ora pois… não digo menos disto. Estamos concertados – e, a brindar – Cá vai! À saúde dos noivos! – ao que os mais ergueram suas taças e copos – E de todos nós! – enquanto os manos de Nonô e sua futura cunhada, a baterem com as colheres nos pratos, faziam ecos da alegria geral. Só então a noiva ergueu, enfim, os olhos para o amado. Já que os lábios ainda eram, àquela altura, reprimidos pela sharia cristã, as pupilas de um e de outro, a quem nenhuns podiam negar a liberdade, trocaram entre si muitos, muitos e muitos beijos, molhados de emoção.

 

Aos dias que se seguiram, Aldenora era uma ansiedade só a que chegasse cada sábado, o dia autorizado para que o rapaz visitasse a noiva. Eram tardes ansiosamente esperadas por Nonô, a se esmerar nos melhores vestidos e, quando não fosse o xaile habitual à cabeça, ornava os cabelos com laçarotes ou flores, além de outros adornos próprios das raparigas. Nesses encontros, como já vimos ser de praxe e assim mandarem os bons costumes, os pombinhos jamais eram deixados a sós. Fosse Mamã ou uma das filhas, alguém sempre estava a servir de guardião da moral familiar.

 

À noiva, gostava que sempre fosse Aurora a cumprir tais funções. Com esta irmã, apesar das constantes briguinhas e competições que mantinham entre si, desde miúdas, Aldenora sempre conseguia alguma cumplicidade, a lhe favorecer ao menos um entrelaçar de mãos e alguns rápidos beijinhos às faces. As outras manas também fechariam os olhos, mas não as bocas. Correriam a reportar tudo que ali se passasse à Mamã, menos por maldade, mais por falta do que fazer. As cândidas carícias, porém, eram para os dois jovens o motor que os fazia vislumbrar, cada vez mais, as sendas para o ungido e abençoado leito conjugal...

 

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