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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Nov19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. FOLIÃO.

 

 

Ao passarem pela Rua do Postigo das Manas, eis que Aurora entreviu Hernando, próximo às escadas de mesmo nome, em companhia de vários gajos e moças, quase todos mascarados.

 

A grande paixão da vida de Aurita lá estava, no Postigo, a dar puxões de mentirinha nos cabelos de uma princesa com a saia esfarrapada, coberta de tiras coloridas, que trazia à cabeça uma coroa de papelão, forrada de papel dourado. A moça abrigava-se do frio com um manto de lã tingida, como se fosse púrpura, a cor preferida dos nobres e reis. O rapaz também estava em trajo carnavalesco, porém difícil de definir o que representava. Bem poderia ser o marujo Simbad ou o Pirata dos Sete Mares. Na verdade, o que parecia ser, mesmo, era um artista de circo tradicional.

 

Ao avistarem a mal camuflada Carochinha, logo reconhecida, como aliás já o fora, durante o longo percurso da caleche, por quase todo mundo, foliões do pequeno bloco de Hernando puseram-se a caçoar e a gritar motejos aos “companheiros” de Adelaide, alguns a abusarem até mesmo de gestos e palavras bem chulas. Aurélia, Arminda e Aurora começaram a chorar, mesmo que fosse a primeira por medo, a segunda por vergonha, enquanto bem diferentes eram as razões da terceira. Quanto à Aldenora, esta ficou bastante indignada, porque também reconhecera o cigano. O mesmo ocorreu com a Qu´ridedé, que ficou séria, de repente, como nunca a viram antes. Quando esta rogou ao Manozé que pusesse os cavalos a trotar, o mais rápido possível, para bem longe dali, aconteceu de Hernando, ao perceber que uma das raparigas ainda olhava fixamente para trás e para si, destacar-se da malta e correr atrás da Carochinha, devolvendo à moça a fixidez do olhar – Reconheceu-me! – pensou ela, e ele – E não há de ser ela?!

 

Atarantada com a deceção das raparigas, Adelaide implorou-lhes que não a fizesse perder a amizade e a consideração de Florinda. Prometeu-lhes, para compensar os insucessos do dia, levá-las na segunda-feira a um baile no teatro, uma diversão bem mais calma e familiar. A falar por si e pelas irmãs, Aldenora comentou que, de qualquer modo, aquilo tudo havia sido uma experiência nova e interessante para todos. Agradecia, porém, o outro convite, por achar que, para esse evento, Mamã se veria constrangida a não dar sua permissão, temerosa das recomendações de Papá.

 

Ainda bem, pois nem Adelaide sabia que a pândega iria correr solta e rasgada nesse baile público. Vissem as meninas Bernardes o que não agradou à própria Dedé, tal como foi relatada por um outro cronista anónimo, do jornal “A Região Flaviense”: (...) “Uma animação que se diria selvagem! Postadas aos camarotes, raparigas sem qualquer brio e até regateiras de má fama, como as irmãs Saldanha, umas conhecidas causadoras de tumulto que, uma vez, agrediram dois sargentos com palavras de baixo calão, apraziam-se em atirar os mais diversos tipos de objecto à cara dos cidadãos da plateia. Sem mais nada à mão, faziam das serpentinas um novelo bem considerável e alvejavam pacatos indivíduos em baixo que, surpreendidos pela violência do choque, voltavam-se para elas e estas, felizes com a façanha, mostravam-lhes a sorrir os dentes”. (O cronista explicava, então, que alguns dentinhos eram bonitos, mas outros pareciam uns meros cacos de dentina, que nem um estereótipo de bruxa ousaria mostrar).

 

Pior mesmo, só o baile em uma casa à Rua do Poço que, segundo um artigo de J. Sotto Maior, no mesmo jornal, era “com entrada a tostão, bastante rasca, onde tresandava a vinho e a pouca-vergonha. O que teve de mais chiste e mais graça foi a Murinheira, dançada no palco por um grupo de indivíduos em trajo selvagem e sertanejo. A única pequena manifestação de espírito deste ano.”

 

 

  1. BAILE DA ELITE.

 

À segunda-feira de carnaval, Flor sabia que, dentre as filhas, apenas Aurora já estava emancipada e, de acordo com a Lei, a única a poder usufruir...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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29
Out19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. ENTRUDO.

 

As meninas Bernardes adoraram conhecer o Entrudo, mas, de outro ponto de vista, ficaram aterradas. Chegaram a temer até por sua própria integridade física. Enquanto Adelaide estava a se divertir às largas, aquela novidade toda, para as meninas, não lhes parecia mais do que uma patuscada grosseira, vulgar e, sobretudo, violenta.

 

Ao Campo da Fonte, ao Jardim Público, à Madalena, seguindo pela ponte até ao Arrabalde, continuando para o Tabolado ou por toda a Santo António e o Largo das Freiras, estavam todos a brincar o carnaval, na mais plena animação.

 

ponte romana.PNG

Ponte romana, Madalena e parte do Jardim Público. Foto (cedida) de Fernando Ribeiro. Original a cores.

 

Eram maltas de miúdos e rapazes, magotes de homens e mulheres de todas as idades, provenientes da vila e das aldeias do Concelho, que estavam – Ao jeitinho que lhes gosta o Mainemigo! – assim diziam as beatas, a se benzerem, às janelas de suas casas. Essas devotas, se alguns passantes as provocassem com palavras e gestos, jogavam sobre eles baldes com água suja, ou até mesmo com outros líquidos malcheirosos, de indubitável procedência.

 

Era bem grande o número de foliões, a maioria mascarados que, tal como os “rapazes” dessa comitiva de Adelaide, travestiam-se como pessoas do sexo oposto, mas sempre a caricaturar o outro género com as mais exageradas atitudes e trejeitos. Em um vale-tudo de gostos e inspirações, outros cobriam-se com farrapos de roupas gastas e chapéus bragueses de muito uso, alguns a se fazerem de bonitos, outros horrendos e disformes, a imitarem cegos, coxos, aleijados. Outros mais exibiam fantasias de centuriões romanos ou ciganas medievais, por sobre ceroulas, calções e outras peças de lã que os resguardassem do frio. Havia até uma Maria Mantela, com sete homens barbudos de fralda e chuchinha na boca, cada um com o nome de um pároco atual de alguma vila ou aldeia próxima, escrito no babadouro.

 

Muitos borrachos punham-se a urinar, de modo inconveniente e exibicionista, diante do primeiro muro de pedras que encontrassem. Em alguns becos, surpreendiam-se até pessoas em outros atos naturais da criação, mas que, por serem feitos em público, tornavam-se obscenos. Para sorte de Dedé, nem uns nem outros chegaram aos olhos das meninas pelas quais estava responsável e que, felizmente, só tiveram vistas para o que acharam a melhor atração da festa, a passagem dos Cabeções. Eram enormes bonecos de várias cores, feitos com papel endurecido e, por serem as suas cabeças desproporcionais aos corpos, alguns pareciam baixotes, devido à elevada cartola, outros altos demais, em um interessante “trompe d’ oeil”.

 

Certas brincadeiras estapafúrdias, porém, foram as que mais chocaram as quatro irmãs. Foliões mascarados levavam paus e bengalas a fim de se defenderem de (ou atacar) quem tentasse reconhecê-los. Provocados pelos putos, giravam seus porretes a um círculo em torno de si, podendo atingir qualquer um que não conseguisse esquivar-se a pronto. Garotos preparavam canas de sabugueiro, a fazer destas um tipo de canudo, pelas quais jogavam água colorida com beterraba nas pessoas ou até mesmo (como faziam as beatas às janelas), sabe-se lá o quê! Rapazes lançavam bombas de estoirar, que rabeavam como osgas ligeiras entre as pernas das raparigas.

 

Essas muitas ações de mau gosto, tradições perdidas no tempo e que, possivelmente, remontavam às Carnaválias romanas, constituíam a característica máxima do Entrudo. Conforme o cronista anónimo de um jornal da época, “atirava-se nos outros de tudo que pudesse sujar e, até mesmo, nem que fosse um pouquinho só, mas nem sempre de leve, magoar. De tudo se valiam, desde as inofensivas serpentinas coloridas de papel, que se dependuravam nos fios eléctricos, até graxa, carvão, pó de sapato, tinta de pintura a óleo, cinzas, farelos, sendo a preferida de todos, e a de maior desperdício, a farinha de trigo”. Ao partir para casa o último folião, as ruas e calçadas ficavam esbranquiçadas pelo cereal moído.

 

Logo o pequeno bloco de Adelaide começava a retornar à Galinheira, a pedido do próprio Manozé, enquanto a sua Qu´ridedé gargalhava, como se fosse um bandalho, por ver que o moçambicano recebera na cara uma mistura de ovos com farelo, menos provido de sorte do que as meninas e do que ela própria, todas “apenas” cobertas de farinha.

 

 

  1. FOLIÃO.

Ao passarem pela Rua do Postigo das Manas, eis que Aurora entreviu Hernando, próximo às escadas de mesmo nome, em companhia de vários gajos e moças, quase todos...

 

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22
Out19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. CARNAVAL.

 

Ao domingo gordo de carnaval, Adelaide veio convidar as meninas da Quinta para dar uma volta na Carochinha, uma vez que ficara ciente de João Reis estar ao Porto, para tratar de negócios. Mamã relutou o quanto pôde em permitir tal passeio, temerosa de que o marido viesse a saber do ocorrido. Por outro lado, não quis roubar às filhas alguns momentos de distração, mormente agora, após os últimos meses tão conturbados.

 

Aldenora sussurrou à mãe, a lembrar que Aurora não deveria ir com elas. Depois disse a Aurélia, em um aparte aos ouvidos de Florinda, mas de modo a que Aurita não deixasse de escutar – Como bem sabes, Lilinha, lugar de gata parideira é ao seu cantinho, no borralho – mas Florinda soube disso por Arminda, ralhou com Aldenora e, até mesmo com a própria Aurora, que preferia ficar em casa com os seus sapatinhos, não os de cristal do grande baile do Príncipe, mas os de reles vidro doméstico – Afinal, meninas, é apenas um passeio – e, à saída, confirmou com Adelaide – Não é, Dedé? Mas pelo amor de Jesus Cristo, pede ao rapaz que evite passar por esses sítios da vila, onde estejam a brincar o Entrudo!

 

A essa altura, o moço que servia de cocheiro, afilhado, sobrinho ou o mais que fosse da alegre viúva, era o Manozé, um preto moçambicano e, como os anteriores, igualmente jovem, forte e bonito. Ainda que, diante de terceiros, agisse de modo formal e respeitoso para com Adelaide, tratava-a apenas por Qu´ridedé. Com o toldo conversível da charrete recolhido e, portanto, ao ar livre, não escaparam às meninas, quando já estavam a ocupar todos os assentos da caleche, os modos de intimidade com que o Manozé ajudava a empurrar o corpanzil da patroa, para que esta se acomodasse junto a si, na boleia.

 

O rapaz tocou a Carochinha para a Galinheira, um sítio meio isolado na veiga, onde uma amiga da açoriana tinha uma quinta. Após a dona da casa oferecer a todos umas fatias de pão, presunto e queijo de cabra, feitos em casa, Dedé deu um gritinho e soltou uma sonora gargalhada, como era bem de seu feitio – Surpresa!!! – e levou as meninas a um quarto onde havia diversos chapéus e fatos completos de homem, já usados, mas limpinhos, que foram do dono da quinta, já falecido. Sacou de um pequeno baú algumas fitas, panos coloridos e máscaras que cobriam o todo ou apenas uma parte do rosto e, apesar de muita relutância das raparigas, Adelaide conseguiu convencê-las a se transformarem em rapazes mascarados.

 

Quanto a Manozé, após várias negativas diante das vestes femininas que Adelaide lhe provinha, e sempre a dizer, entre risos. – Ai, minha Qu´ridedé, que estás a querer de mim?! Não faças isso comigo! – acabou, afinal, por se travestir em uma bela moçambicana. O que mais o constrangia, no entanto, ao colocar em si cada uma das várias peças femininas, usuais à época, era ficar, embora de modo involuntário, cada vez mais excitado. Se as meninas nada viam nem percebiam, a imprevista protuberância não escapava aos olhos lascivos da açoriana e isso a fazia gargalhar.

 

Só faltava um dos preparativos e o mais importante. Adelaide pediu ajuda às meninas, para embrulhar toda a caleche com um pano bem ordinário, mas colorido, de modo que a viatura ficasse irreconhecível. Após muito agradecerem e darem um até mais ver à simpática senhora da Galinheira, que ficara aos risos com as criadas, lá se foi para a folia o pequeno rancho de “rapazes” mascarados, na Carochinha camuflada, puxada por “uma estranha africana” sem máscara, mas com as faces caiadas por um creme branco. Ao seu lado, na boleia, “um gordote campónio tirolês”.

 

 

  1. ENTRUDO.

 

As meninas Bernardes adoraram conhecer o Entrudo, mas, de outro ponto de vista, ficaram aterradas. Chegaram a temer até...

 

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15
Out19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. NATAL E REIS.

 

Para olvidar, em uma única noite, todo um ano de infortúnios, o Natal de 1924, com a ajuda de Aurora, Alice e Maria, foi preparado por Florinda com muito carinho e devoção. Já pela manhã, Mamã pediu que os filhos varões fossem ao bodo no Campo da Fonte e, como em todos os anos anteriores, distribuíssem postas de bacalhau, pães de centeio, arroz, batatas e garrafas de vinho aos pobres que acorriam a esses atos de caridade das famílias locais. Alguns dias antes, enfeitara-se um pinheirinho e se armara, na sala de estar, o velho presépio franciscano.

 

À consoada, havia um ror de iguarias, de não se dar conta. Ao final da ceia, rezaram pelos falecidos e pelos vivos, os presentes e os distantes, aos quais, entre estes últimos, Florinda acrescentou o nome da boa Zefa. A olhar firme para Alfredo e Alice, rogou a Deus para que, nas próximas consoadas, o Senhor Jesus concedesse a todos a graça de continuarem juntos, ao que Aldenora acrescentou, com olhos húmidos – E mais felizes!

 

Então chegou a hora pela qual, a um só tempo, todos ansiavam e Aurora Bernardes temia. Aparentando serenidade e indiferença, Papá mantinha-se impassível. Já Mamã não conseguia esconder sua apreensão. Os irmãos se entreolhavam, em nervosa expectativa. Um por um dos irmãos iria pedir aos pais a bênção solene. Aurora seria a primeira. Eis que, por um impulso que parecia repentino, mas fora previamente calculado, quando a tímida primogénita ameaçou erguer-se, Arminda antecipou-se, a fugir da ordem tradicional – Deite-me sua bênção, meu pai – e quando se dirigia à Mamã, acotovelou Alfredo, que logo entendeu e lhe deu continuidade. Os outros passaram a acompanhar a inversão de idade. Sobrevieram Aurélia, Aldenora, Afonso e então… A mais velha dos filhos, no entanto, permaneceu sentada, a olhar suas mãos, prestes a chorar.

 

Ainda presa à cadeira, após algum tempo de embaraçoso silêncio doméstico, a suplantar a quietação noturna de toda a veiga, ainda mais acentuada por toda aquela calmaria de uma noite de inverno, Aurora pediu à mãe que a tornasse bendita. Florinda, porém, lançou um olhar de repreensão à filha, pois esta invertera também a ordem habitual da tradição, e, discretamente, indicou o patriarca, a quem, primeiramente, os filhos deveriam pedir que abençoasse. Aurita levantou-se, então e, a duras penas, balbuciou, nos penúltimos tons abaixo da escala vocal – A bênção, meu pai! – ao que este, dirigindo-se a Flor – Diga a sua filha que peça a Deus que a abençoe! E rogue a Ele, também, que lhe dê mais juízo! – o que fez a primogénita irromper em lágrimas. Como estivesse próxima de si, Florinda estendeu uma das mãos à filha, que as apertou entre as suas e adveio a bênção materna – Deus te deite todas as bênçãos, minha menina!

 

Maria, a barrosã, sentada à mesa, como era o costume, baixou os olhos, ergueu-se e logo começou a recolher os pratos e o mais da baixela, auxiliada por Alice, ambas sem conseguirem esconder os sons de seus consternados fungares, os mesmos ruídos que também se ouviam provir de Alfredo e Arminda. Aurora, de olhos fixos na toalha da mesa, não conseguia sair do lugar. Papá arrastou-se até ao seu gabinete doméstico. Ninguém viu que, a seu modo, também tinha os olhos como o Tâmega, durante uma grande parte do ano. Rasos d’água.

 

Ao dia de Santos Reis, tal como de costume todos se trocavam presentes. Nesse janeiro de 1925, deram-se e ganharam-se, entre outros, “um cofrezinho para anéis; um álbum para bilhetes-postais; uma bandeja grande em majólica e níquel; uma carteirinha, com espelho e pente para bigode; um pucarinho de louça, um de vidro e outro de alumínio; uma “bombonnière” em cristal e prata; um alfinete ornado a pedras, de gravata; um estojo com duas escovas, para unhas e dentes, com guarnição de prata…

 

Ao abrir um de seus regalos, Papá gostou muito de uma caneta “Ágata”, de tinta permanente, com aparo de cristal, em um belo estojo de forro aveludado. – Por Deus que este cá me sabe aos olhos! Que riqueza! Quem m’o deu? – e eis então que, na algazarra familiar, quando todos comentavam seus mimos, um silêncio repentino se fez. O patriarca olhou para Florinda, que baixou os olhos, enquanto ele falou, a um tom mais baixo que o usual – Peço-te, Menina Flor, que digas a quem me deu este presente de Reis que gostei muito. Obrigado! – o que, de muito a demais, emocionou Mamã, ao ver, nas faces de Aurora, um discreto sorriso de felicidade.

 

 

  1. CARNAVAL.

 

Ao domingo gordo de carnaval, Adelaide veio convidar as meninas da Quinta para dar uma volta na Carochinha, uma vez que ficara ciente de...

 

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08
Out19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. MISSA DE ESPORAS.

 

Desde que veio a público o mau passo de Aurora, um turbilhão envolveu a Quinta do Raio X e progressivos tsunamis vieram perturbar a cabeça de João Reis Bernardes. Dia após dia, vivia enjaulado em seu canto, prisioneiro de si mesmo, a se deixar levar por um estado de depressão que muito preocupava sua Menina Flor, malgrado esta, agora, já não tivesse tempo algum para chorar, sempre às voltas com a adorável netinha, seu xodó, como se diz ao Brasil. Aliás, pela miúda Fatinha, todos do clã familiar se encantavam mais e mais, afeiçoados à sua meiguice, esquecidos do vetor macho que a gestara e dos contratempos que a própria bebé, em sua completa inocência, estivera a gerar.

 

Ao Natal desse conturbado ano, o patriarca encheu-se de brios e resolveu levar toda a família a assistir à Missa do Galo na igreja matriz, onde, até há poucos meses, Aldenora estivera a cantar no coro. Como o cocheiro tivesse retardado um pouco em livrar o landó de um atoleiro, chegaram à igreja a uma altura em que a Santa Maria Maior já estava quase lotada. Ao entrar pela porta lateral, Aurora sentiu o impacto de mil olhos, que pareciam expressar os mais variados sentimentos de reprovação, censura, ou sabe-se lá o quê.

 

Viu, de pronto, a maioria levantar-se e todos se cobrirem com os hábitos e capuzes de carrascos do Santo Ofício; estenderem os punhos fechados para os Bernardes, em grande exaltação de fanatismo e intolerância; erguerem, a seguir, enormes crucifixos fosforescentes, de cujos punhos atados do corpo do Senhor Morto saíam pregos iluminados e, como bólides, iam cravar-se especialmente em sua doce, bela, mas entristecida figura. O cochichar baixinho, entre os arautos da Moral Cristã, foi aumentando, cresceu cada vez mais de volume, até se tornar ensurdecedor aos ouvidos da filha pecadora dos Bernardes. A rapariga baixou então seus ternos olhos azuis, ocultou as faces sob o véu, ajoelhou-se e se pôs a rezar, com toda a sua fé, humildade e contrição.

 

Para tornar mais afiadas as esporas do galo em sua missa solene, eis que o pregador, certamente pela coincidência de estar apenas a se referir ao parto virtual da Virgem Mãe Imaculada (pois não se pode supor que, à hora do púlpito, o cura dirigisse o sermão apenas à filha de João Reis), reportou-se muitas vezes à castidade e aos pecados da carne. A cada ocasião em que ele mencionava a luxúria, como se fosse o grande mal da humanidade (embora nós humanos continuemos a sobreviver com ela, sem ela e por causa dela), vários, dentre os presentes, voltavam-se para trás ou para os lados, a fixar os olhos na contrita rapariga.

 

Desnecessário dizer que, dentre todos aqueles fiéis e infiéis, fosse pela concupiscência ou por outros pecados capitais, pouquíssimos seriam aqueles, (só os bem miúdos, decerto, e os parvos, como nos diz Gil Vicente, em seu “Auto da Barca do Inferno”) que poderiam ter às mãos a sua primeira pedra.

 

Com a maior discrição possível, João Reis retirou-se com os seus, um pouco antes da bênção final. Aldenora adiantou-se até Papá e lhe fez ver que Aurora não deveria mais vir à igreja junto com os pais e os irmãos. Antes que Florinda lançasse à filha um olhar de reprovação, o patriarca antecipou-se – Que estás a falar, menina?! Ainda que ela tenha feito… sabes bem o quê... ainda assim, ela é e continuará sendo da minha, da tua, da nossa família! E não queiras roubar à tua irmã pelo menos isso, ao qual ela tem todo o direito como cristã – depois, virando-se para os mais – Ouçam-me todos: de hoje em diante, iremos orar somente à igreja de São João de Deus, na Madalena – um templo no qual, a essa época, a maioria dos fiéis era constituída de pessoas com uma condição financeira inferior e onde, até pelos poucos devotos de posses que moravam à vizinhança, os Bernardes continuavam a ser tratados com educação e urbanidade.

 

Afonso que, em geral, não conseguia expressar o que sentisse a ninguém, dado o seu habitual mutismo e, somente aos colegas mais íntimos com os quais estudava em equipa, falava dos sonhos em galgar os portais de Coimbra e se ver como estudante da multissecular Universidade, sentiu-se bastante abalado com o facto ora ocorrido na igreja, ainda mais que andava muito preocupado com o estado de saúde do Papá, cada vez mais taciturno e deprimido.

 

Já o Alfredinho, mais extrovertido, pôs-se a comentar com Alice, de modo a que todos em volta o pudessem ouvir, nos cás e lás do Largo dos Paços – Essa gente come pétalas de jasmim e acha que, assim, vai cagar cheiroso! – e, em tom mais baixo à Mamã – Papá devia ir com todos nós para bem longe… para a Madeira, os Açores, o Brasil ou até mesmo para Goa, Timor ou Macau! – mas, ainda que não flaviense de berço, Florinda repreendeu-o – Não digas isso, meu filho, cá é a tua terra e a de teu pai e cá é aquela que, um dia, há de nos guardar! – ao que Alfredinho completou para Alice, com o dedo a indicar aqueles que estavam a sair da Matriz – E a todos esses aí, também, com o esqueleto a feder como qualquer carniça de rato, de gato ou de cão.

 

 

 

  1. NATAL E REIS.

 

Para olvidar, em uma única noite, todo um ano de infortúnios, o Natal de 1924, com a ajuda de Aurora, Alice e Maria, foi preparado por Florinda com...

 

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01
Out19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. AZEITES.

 

A sala de visitas, recentemente mobilada, tinha suas pretensões ao luxo, mas não era “nem chique nem mique”. Era de facto de um gosto duvidoso, repleta de falsas alcatifas marroquinas, misturadas com grosseiras imitações de bibelôs, vasos de cristal albergando flores de papel encerado e outros ornamentos do género, nem menos que tais. Da mesma forma que os visitantes, os anfitriões haviam sido educados para cumprir os deveres de bem receber e assim o fizeram, mas foram também secos o bastante, tal-qualmente no c.q.d. de um teorema, ou seja, como queriam demonstrar.

 

Germano, com as boas maneiras que estava a aprender. em seu exame de admissão à elite flaviense, não foi tão direto quanto o filho, à Travessa do Loureiro. Permitiu que o vizinho, claramente nervoso, tardasse em chegar até ao propósito por que viera. Foi dona Mariazita que facilitou a abordagem – E a miúda, como está? – ao que Florinda sorriu – Está boa, sim, bem calminha – Há de estar linda! – Sim, está mesmo, uma riqueza! – o que fez o Reis pigarrear – senhor Germano Camacho, dona Mariazita, bem sabem o motivo pelo qual nós cá estamos. Seu rapaz se nega a assumir compromisso com a minha menina. Bem sei que as nossas Leis a pouco ou nada lhe podem obrigar a isso, no entanto…

 

– No entanto, o quê? – A mãe do rapaz interferiu de imediato, já demonstrando perder, pouco a pouco, a fingida polidez – Vamos deixar de lérias, que é melhor. Ele não quer casar, senhor Bernardes e pronto! – e isso causou ao visitante um esforço máximo para se conter. – Mas, minha senhora, bem podemos, pra já, chegar a um acor… – e ela, de truz, virou uma leoa, a defender sua cria – Nem pra já nem pra nunca mais, senhor Reis. Meu Hernandito não casa com a menina e, como se costuma dizer… para bom entendedor, meia palavra basta.

 

Florinda, que aprendera ser de bom-tom, a toda senhora bem educada, não deixar transparecer sua raiva e esconder os vibriões da cólera nas profundezas do coração, resolveu ponderar – Mas a criança… há de ser triste demais colocar nos papéis, por toda a vida, que ela é filha de pai “incógnito”… ou pior, “desconhecido”! – ao que Reis ajuntou – Ora, pois, ela também é neta dos senhores! Sangue de seu sangue!

 

A dona da casa, porém, parecia estar nos seus azeites – E que provas o senhor nos dá, para ter certeza disso?! – ao que Reis, não menos que Florinda, ficou estupefacto – Minha senhora!!! Estais a nos ofender! A nossa menina… – o que levou até Germano irritar-se com isso e lançar um olhar de censura à mulher – senhor Bernardes, perdoe à Mariazita esse jeito de falar, ela não quis ofender-vos. Nem à rapariga. De qualquer modo, o senhor há de perceber que esses jovens… eles já são por eles mesmos. É tudo lá coisa deles, desses dois, eles que se hajam pelo sim, pelo não ou pelo talvez. Que se hajam! Ora, pois, que estão a colher maduros o que deviam ser, apenas, frutos verdinhos da mocidade. Mas quem os plantou que os colha, quem fez o nó que o desfaça!

 

João Reis alterou-se – Lá isso, vírgula! Desculpem-me os senhores, mas sabem muito bem o filho irresponsável que têm. Pelo visto, ele não gosta de cultivar ao menos uma virtude fundamental, a hombridade – e tal afirmação fez o Camacho também exaltar-se – Ora, pois, a que chegamos! É o senhor, agora, que está a nos ofender. Meus rapazes são como os bodes, podem viver soltos lá pelos montes, tem que ser. Já minha filha é uma cabrita e eu, está claro, sempre me esforcei por guardá-la dos bodes, até à hora em que nós, felizmente, sob as bênçãos de Deus, entregamos a menina ao pastoreio de seu marido.

 

O pai de quatro cabritas fingiu não entender – Ah, meu senhor, juro que não percebo o que estais a insinuar! – e dona Mariazita interveio – É que a sua menina, ora veja bem, já é mulher feita… e como sói dizer, não há fumo sem fogo no braseiro – ao que Germano logo acrescentou – Forçada não foi. O senhor há de convir, certamente, que o nosso Hernando jamais usou de sua força de rapaz, para obrigar a pobre menina a lhe conceder o que não devia.

 

Reis mal podia conter sua fúria – Senhor Camacho!!! – O outro prosseguiu – Pois a Rosinda, minha filha, do mesmo jeito que a Mariazita, minha mãe e a minha sogra, todas se casaram como mandam os costumes da nossa família… e também o que mandam os preceitos da minha, da sua, da nossa Santa Igreja... – enquanto João Reis estava quase a bufar como um touro, prestes a dar uma chega no boi da outra aldeia.

 

Florinda agarrou-lhe o braço e suplicou, contendo-se para não se lavar em lágrimas – Vamos, meu velho, deixa estar! – e ele, enfim, tentando parecer mais calmo – É, minha flor... quem cospe ao vento, cuspido está. Dai a César o que é de César! Vamos à vida. Façamos de conta que nem cá estivemos. – logo ao que, sem olhar para os donos da casa, dirigiu-se à saída – Passar bem, senhores! Obrigado por nos receberem de modo tão gentil! – pois compreendera, então, que nada mais lhe restava senão meter a viola no saco e, com essa, também os aborrecimentos, esses que – Ai Santa Chaga Dorida do Ombro de Cristo! – eram tantos.

 

Ao chegar à Quinta, o patriarca dos Bernardes sentia-se, agora, ainda mais acabrunhado, contrariado, humilhado, muitos anos mais velho do que já estava, antes mesmo de ir à casa dos Camacho – Porca de vida! Com mil diabos, minha Flor, ter que tragar todas aquelas afrontas! – e, ao sentar-se em sua poltrona, cuspiu salivas de ódio na escarradeira que lhe ficava aos pés – Aquele bigorrilha! Que nem a terra o coma! Que nem seus ossos tenham o descanso eterno!

 

 

 

  1. MISSA DE ESPORAS.

 

Desde que veio a público o mau passo de Aurora, um turbilhão envolveu a Quinta do Raio X e progressivos tsunamis vieram perturbar a cabeça de João Reis Bernardes. Dia após dia,...

 

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24
Set19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. REBATE.

 

Quando ouviu do pai – Casas com a menina? – Hernando soprou sua negativa, como a um vento frio e seco – Não, não me apetece. Pra já, não me agrada o senhor João Reis – ao que Germano falou – Bem me chega porquê. Ele havia de querer pôr-te às rédeas, ao cabresto e a um cesto no focinho, que é de tudo isso que tu bem precisas, mas tua mãe nunca me deixou colocar. Ora, pois, tens que ver que essa criança… – e o jovem, irritado – E lá eu sei se ela é minha? – a deixar o pai realmente pasmo, com a desfaçatez do moço e, ao pensar em sua própria filha Rosinda, indignou-se – Que estás a falar, seu bandalho? Cuida que a menina é direita, só caiu na dança, que eu sei, pelas muitas cantigas tuas ao pé do ouvido – E quem te diz que eu fui o único a cantar?

 

Isso deixou o velho Camacho ainda mais estarrecido – Não sejas tão cínico, meu rapaz! Não te criamos assim! Embora não conheça de perto a menina, sei muito bem como são finas e bem criadas as filhas do vizinho! – mas dona Mariazita logo se dispôs a botar os seios para fora e dar de mamar ao Hernandito – Ora, Camacho, conheces muito bem o dito do povo: “Os filhos da minha filha, todos meus, netinhos são. Os filhos da minha nora, talvez sim e talvez não.” – no que o rapaz, todavia, para consertar a infâmia que acabara de cometer – Ela é até uma boa rapariga, havia de dar uma boa esposa, mas ainda que eu, se calhar, for mesmo o pai… não, não! Ainda gostava de ficar solteiro por muitos entrudos e consoadas, não é, ó mamacita? – e sugou, avidamente, o leite materno, pespegando às faces da mãe repenicados beijos.

 

Enquanto isso, na Quinta, após olhar para o biombo japonês, Reis estava a cometer um haraquiri. Fez das tripas uma bola e as colocou no lugar do coração. Depois jogou fora o órgão vital, porque este já estava arroxeado de orgulho ferido, vergonha e autocomiseração. Tudo sem remédio, à vista ou a prazo.

 

Partiu, afinal, até ao castelo dos Camacho, de espada arriada e indecisa na mão, a contar apenas com o escudo moral de sua querida Menina Flor. Quando Reis e a esposa penetraram na sala de visitas dos ciganos, o rapaz já tinha dado às de vila-diogo.

 

 

  1. AZEITES.

 

A sala de visitas, recentemente mobilada, tinha suas pretensões ao luxo, mas não era “nem chique nem mique”. Era de facto de um gosto...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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17
Set19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. EMBATE.

 

À véspera do encontro, Germano Camacho quis ter com o filho uma séria e definitiva conversa. Não desagradava de todo, ao velho, a possibilidade de um casamento de Hernando com a bela gajina da quinta em frente, pois sabia de toda a fortuna de João Reis, amealhada no Brasil e a crescer em Trás-os-Montes. À dona Mariazita, gostava que o filho casasse com Aurora, mesmo não cigana, por um só motivo: a rica netinha, a quem mal via de longe e ansiava por colocar aos braços. Preferia, no entanto, que Hernando viesse a se matrimoniar com uma rapariga de sua gente e, sobretudo, que esta ainda não fosse, como diz o povoléu, “uma leira já cultivada”.

 

De mais a mais, ao contrário do marido e dos filhos, que se distanciavam cada vez mais de suas origens, ela permanecia bastante ciosa de suas tradições. No que se refere à devoção, os Camacho comportavam-se como a maioria dos católicos, religião da qual eram devotos. Cultuavam somente algumas tradições ciganas que, em sua casa, ainda se faziam respeitar. Quanto aos costumes morais da etnia, no entanto, estes permaneciam rigidamente observados, mormente porque, naquele primeiro quarto de século, em pouco ou nada diferiam da moral vigente entre os não-ciganos.

 

Como os negócios com a loja e os cavalos estivessem a andar de vento em popa, Germano era agora um homem abastado. Naquilo, entretanto, que ele mais pretendia da vida, já não lhe podia o senhor João Reis acudir. Pois se, mesmo antes dos insucessos da filha, o dono da Quinta Grão Pará vivia recluso e à margem do resto do mundo, agora é que seria mais difícil, ou melhor, impossível, a integração dos Bernardes à sociedade flaviense. A não ser que toda essa embrulhada de Aurora e Hernando se resolvesse com a sacrossanta esponja do matrimónio cristão.

 

A inserção no grand-monde à outra margem do Tâmega, tal como já o fora também para Nonô e Arminda, era o grande sonho do velho Camacho. Para isso, como atestam jornais da época, estava sempre a colaborar com os bazares beneficentes das damas do Concelho. Já comparecia até mesmo, com dona Mariazita, a receções sociais em grande estilo, ainda mais se tal contribuísse para que, nos periódicos locais, seu nome aparecesse entre os ilustres convidados.

 

Seu planeamento para tal fim até já começara a dar frutos, pois conseguira, recentemente, graças a amizades certas e aos bons fregueses, colocar o Paulino, seu filho morgado, a um alto cargo na Câmara. Para fazer jus ao novo status, já estava a cuidar da construção de uma casa nova, na mesma Estrada do Raio X, porém mais bonita e imponente que as demais de toda a veiga. Para tão acalentado sonho, estava a despedir, progressivamente, os inquilinos gitanos.

 

Era em tudo isso que Germano refletia, quando lhe chegou o Hernandito, acompanhado da mãe. Tal qual Florinda com o seu Alfredinho, ele era, para a mamã cigana, o seu rico “ai-jesus”.

 

 

  1. REBATE.

 

Quando ouviu do pai – Casas com a menina? – Hernando soprou...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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03
Set19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. BORRALHO.

 

Ficara, ao lugar de Zefa, uma rapariga da mesma aldeia de Maria, a Celestina. Bajuladora, ante as primeiras orelhas que lhe dessem guarida, suas adulações caíram nas graças de Aldenora e, por tal motivo, negava-se a fazer qualquer coisa à bebé e à pós-parturiente. Aliás, de forma discreta, a modo que Mamã não escutasse, estava sempre a transmitir as duras mensagens que, passado o resguardo e a enfermidade de Aurita, Nonô e Lilinha enviavam à irmã, regularmente. 

 

Aurora enfrentava cada instante da vida com paciência e resignação, decidida a expiar sua culpa ancestral judaico-católico-apostólico-romano-portuguesa e, para isso, muito contribuíam as pequenas maldades das manas, que até recrudesceram, com o apoio da pérfida criada. Insuflada por aquelas, apesar de sua carinha de santa barrosã, Celestina também se dava muitas vezes às funções de carcereira, sempre a lembrar que a menina Aurora não podia mais fazer isso, não podia mais almoçar aquilo, nem beber daquilo outro... – Mas, ó senhora dona Aurora! – a frisar bem maliciosa o “senhora” e o “dona” – Que estás a fazer?! – e acentuava ainda mais a nova condição da rapariga – Só quem pode fazer isso são as suas irmãs, que ainda não são paridas nem desfrutadas. Olha que isso aí não vai saber bem aos ouvidos do senhor teu pai! 

 

Mais séria e mais grave ficaria a situação, se, ainda a tempo, Arminda não tivesse colocado Mamã ciente de tudo o que se passava por trás de suas asas protetoras. Vale dizer que a caçula bem pouco atendera e já não cumpria a lei criada por Nonô. Continuava a mimar sua mana Aurita e a sobrinha com o máximo de carinho. 

 

Após passar uma severa repreensão nas outras filhas, Florinda resolveu falar sobre tudo isso ao senhor seu marido. Este, de imediato, chamou a senhora Celestina às falas e, após ressarci-la de tudo que lhe fosse devido, indicou-lhe um seco “passe bem”, mas cujo tom explícito queria dizer “porta da rua, serventia da casa”. 

 

Começou a transitar então, pela Quinta, uma sucessão de criadas exportadas pelas aldeias, pois, como fossem rústicas demais na higiene e nos atos, acabavam por durar apenas algumas semanas ao serviço doméstico. Outras vinham a sair por si mesmas, por não estarem a suportar os humores de Nonô, agora cada vez mais instáveis, ainda que a rapariga fizesse um grande esforço para não fugir aos padrões rígidos de sua educação familiar e cristã. 



Passado o tempo do resguardo ao qual, naqueles tempos, a parturiente deveria respeitar, seriamente, Aldenora observou que Aurora estava a entremear os cuidados da filha, compartilhados a bom gosto por Mamã, com o ato de prestar uma ajuda não solicitada, mas de bom grado aceite, na cozinha e na limpeza geral. Aproveitou certa vez, ao jantar, em momento que Flor não estivesse à mesa, para dizer ao Papá que, a essa altura, tendo Aurita uma boca a mais a criar, a irmã deveria assumir, em definitivo e a mais tempo de jor nada, a obrigação de auxiliar Maria nos serviços da Quinta. Omitiu, é claro, o facto de Reis se encontrar em excelentes condições financeiras, para contratar quantos criados quisesse. O patriarca lançou-lhe um olhar perplexo e reprovador, mas como calado estivesse e calado ficasse, o suposto consentimento transformou-se em “ordens do Papá” e logo foi transmitido pela postulante a Florinda e à própria irmã. 

 

Começaram, então, os dias de borralho de Aurora Cinderela, mormente porque suas irmãs Aldenora e Lilinha se empenhavam no piorio de martirizar, mais ainda, a infeliz Borralheira, com as mais inoportunas ordens e as mais desagradáveis reclamações. Eram de atordoar – Aurora, me limpa as botas de camurça! – Já puseste graxa aos sapatos do Afonso? – Olha que não passaste direito este vestido! – Não vês que rasgaste a minha camisa de dormir?! – Vê se aprendes com a Mamã a cerzir os buraquinhos das peúgas! – Ontem, a casa de banho estava um chiqueiro! – Não tens vergonha de deixar o Papá entrar lá assim, com essa sujeira de mercado público? – e, afinal, o xeque-mate – Ora, pois, sua mandriona, que porca me estás a sair! – com o evidente preconceito – Até parece coisa de cigano! 

 

Felizmente, não estarem Arminda e os irmãos a tratá-la dessa forma; que o Papá ainda estivesse vivo, embora cada vez mais indiferente; e que, no lugar de madrasta, Aurora Cinderela ainda tivesse uma santa fada mãezinha, embora esta, agora, só andasse ás voltas com a Fatinha, o seu novo ai-jesus.



 

  1. PRECONCEITOS.

 

A um domingo de dezembro, de raro sol e frio mais ameno, após muitos rogos de sua Menina Flor, João Reis levou-a...

 

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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27
Ago19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. GARRAS DA LEI.

 

 

Certa manhã, anos após a Zefa ser demitida, um polícia veio procurá-la em Bragança, onde e quando a rapariga de Pitões já vivia, em união estável com um simpático alfaiate, sessentão e viúvo, com o qual estava sempre a compartir muitas alegrias na sala, na cozinha, no quarto e em toda parte. O da Lei chegou e foi logo instando a que a barrosã, de pronto, fosse com ele até ao quartel.

 

Até chegar ao Comissariado de Polícia, a baixinha, que estivera a sair para o mercado com um vestidinho de mulher rica e trazia, nas orelhas, enormes brincos de prata, seguiu o polícia com ancestral submissão, a espalhar por todas as ruelas da capital do Distrito, suas lágrimas torrenciais. Estas eram como as migalhas de pão de João e Maria, na floresta da bruxa; ou, pior ainda, como as pérolas falsas de seu colar, cujo fio se tivesse rompido. Ao tempo todo, balbuciava sem parança – Ai minha Nossa Senhora de Fátima, mas o que foi que eu fiz, que nem um migalhito... nem um nadinha sequer eu percebo, do que me possa haver de tudo isso?! Estão a me levar presa e condenada, quem sabe até se não me vão pôr à forca, no meio da praça, com todos a gritarem – Enforca!

Enforca essa desgraçada! – como se a pobre Zefinha fosse uma dessas amigas do alheio e do pega dinheiro fácil!

 

Sobressaltou-se e palrou, aos borbotões – Será que esses brincos que comprei na feira são roubados mas o que vão fazer de mim ai que me mandam para uma prisão nas colónias e nem o meu rico maridinho ninguém nunca mais vai saber desta pobre Zefa e ai se pensam que ele também está na bandidagem comigo o que há de ser que vão fazer com o meu pobre marido mas ora pois que nem eu nem ele nem nós ai que nós não fizemos na... – até ser interrompida pelo guarda pachorrento – Cala-te, mulher, cuida bem que ainda não estás presa, nem o doutor Juiz está a te condenar. O que sei, pra já, é que foi o próprio senhor Comissário que mandou chamar-te.

 

A tremer, como se estivesse com o frio da maleita, a de Pitões foi colocada, afinal, diante do Chefe do Comissariado – Que tendes, minha senhora? Sente-se, faz favor. Calma, não há motivo algum para se haver assim! Aldemenos que eu saiba, não há nada contra si nesta chefatura, nem em qualquer outra. – e Zefa, então, o reconheceu. Era o senhor Mota, que fora gerente do escritório de exportações do senhor Reis. Graças ao diploma de advogado, até então pendurado a uma parede do lar, eis que, por intervenção do próprio Bernardes, junto a um amigo de boa influência em Lisboa, fora indicado ao posto que agora ocupava.

 

Enfim acalmada, Zefa considerou que estavam até a tratá-la como se fosse uma dama, ao lhe servirem café e um copo d’água. – É que um velho amigo me pediu que lhe passasse às mãos esta carta. Melhor que abra logo, Dona Zefa, pois está a conter coisas muito importantes, assim disse ele, ao mo entregar o envelope. Pois vá com Deus e fique em paz! – ao que Zefa se desfez em mil sorrisos e repetidos – Obrigadita, senhor doutoire, obrigadita, obrigadita, muito

obrigadi... – tudo isso entre mesuras e salamaleques, que fizeram o Mota rir-se bastante, por dentro.

 

 Logo ao sair do Comissariado de Polícia, Zefa sentou-se no banquinho de uma praça, para descansar do susto que levara. Entre nervosa e plena de ansiedade, abriu afinal o envelope. Junto com as fotos de uma linda miúda e um cachinho de cabelos, atado com uma fita cor-de-rosa, havia uma carta de Florinda. Como calhasse de passar por ali o mesmo guarda que a levara até ao Mota, pediu-lhe para lhe decifrar o que dizia a missiva. Além de várias notícias boas e ruins que, ao tempo decorrido, sucederam aos Bernardes, dona Flor lhe suplicava, em nome do senhor seu marido e a pedido deste, que por todos os santos o perdoasse pelas calúnias com que ele a ofendera, pois, como todos os mais, agora tinha certeza de ser a Zefa inocente.

 

Também pedia, em seu nome e do próprio ex-patrão, que a barrosã aceitasse, como se fora um mimo de Maria de Fátima, a razoável quantia de dinheiro que acompanhava a referida carta. Acabada a leitura, Zefa agradeceu ao bom leitor, estalou-lhe um beijo na face e saiu pelas ruas, como que a dançar e a dar muitos e cómicos saltitos de alegria. Por mais incrível que possa parecer, o que lhe alegrava, mais do que o dinheiro e o próprio pedido de desculpas do senhor João Reis, era o facto de saber notícias de Aurora e da Fatinha. Saber que a miúda estava a crescer meiguinha e bem louçã.

 

 

  1. BORRALHO.

 

Ficara, ao lugar de Zefa, uma rapariga da mesma aldeia de Maria, a Celestina. Bajuladora, ante as primeiras orelhas que lhe dessem guarida, suas adulações caíram...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

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