Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Dez18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DIA DO CÍRIO.

 

Era dia do Círio de Nazaré e as vigilengas chegavam como cardumes na Baía de Guajará. Ancoravam no Porto do Sal, nas Docas do Reduto ou ao Ver-o-Peso, a trazer de vários vilarejos, próximos ou distantes, situados à beira de rios e igarapés (riachos largos e, muitas vezes, profundos), os romeiros para a tradicional procissão paraense.

 

foto cap-145-1.PNG

Docas do Reduto, Belém do Pará (BR). Postal antigo (1885). Autor desconhecido.

 

A catedral de Santa Maria de Belém (1771), na Cidade Velha, é um templo de especial beleza em seu interior. Dela iria sair (como nos dias atuais) o cortejo com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, a original. Essa pequena escultura foi achada, a um ribeiro, por um pescador de nome Plácido, perto de onde se ergue, atualmente, uma imponente basílica em louvor à Santa. A ela se atribuem milagres, contam-se lendas. Na véspera, havia sido trasladada para a Sé, desde a capela do Colégio Gentil Bittencourt, onde até hoje, após a quadra nazarena, a Santa volta a ser guardada pelas freiras que regem a instituição.

 

Com a placidez própria de uma santa em seu andor, resguardada em sua Berlinda, que ainda se encontrava no interior da Catedral, a veneranda Senhora esperava, pacientemente, o início da procissão. A Berlinda é um oratório revestido de flores e frisos dourados, com seus quatro lados de vidraça transparente, em cujo interior a Santa é carregada.

 

A imagem é guarnecida de um rico e trabalhado vestuário, em que sobressai um manto ornado de pedras preciosas, bordado por piedosas senhoras da elite local, especialmente para a grande procissão. O conjunto se completa com uma coroa de ouro para a Virgem, onde hábeis mãos de ourives locais incrustaram valiosas pedras da região. Na praça ao lado da Matriz, já lá estava o Carros dos Milagres, com esculturas e painéis pintados, a representarem os pretensos milagres mais conhecidos da Virgem. Entre estes, o que teria contemplado o próprio pescador caboclo que achou a preciosa imagem e o dos marujos, salvos de um naufrágio em alto mar. Adiante, o Carro dos Votos estava a carregar partes diversas do corpo humano, confecionadas da mesma cera com que se fazem as velas. Fiéis também traziam muitas casinhas de madeira ou feitas com a polpa de miriti (palmeira típica da região), além de vários outros tipos de oferendas, todas para honrar as promessas e as consequentes graças obtidas. Ao chão, estavam ainda enroladas as cordas com as quais, de um lado e de outro da procissão, homens e mulheres iriam fazer a Berlinda mover-se para adiante, circundada e, ao mesmo tempo, isolada da multidão.

 

O ato de puxar a corda é um manifesto de gratidão a Nossa Senhora de Nazaré e, ao mesmo tempo, um pagamento pelas promessas atendidas pela Santa. É um sacrifício tão árduo ou mais do que o dos penitentes, que acompanham a romaria de joelhos, ou dos que, então, ficavam a carregar pesados potes de barro com água fresca, para amenizar a sede dos romeiros, sob o forte calor tropical (substituídos, hoje, por copos e garrafas de plástico). Suados, descalços, colados uns aos outros, esses pagadores de promessas enfrentam com a corda, de facto, um ritual doloroso, mormente porque as mãos, se não forem envolvidas em panos bem resistentes, ficam geralmente muito magoadas. Os pés, doridos, cheios de calosidades, podem até mesmo ficar em carne viva.

 

foto cap-145-2.PNG

Círio de N. S. de Nazaré, Belém do Pará (BR). Postal público, antigo. Autor desconhecido.

 

Outro tipo de carne, porém, em certa época, chamou a castíssima e reverendíssima atenção de um bispo. Este denunciou à Santa Sé que muitos fiéis, ou melhor, verdadeiros infiéis estavam a profanar aquele rito votivo, pois se aproveitavam da contiguidade física para o que ele chamou de “obscenidade, depravação e sem-vergonhice”. Essa prática de puxar a corda, segundo o bispo, “jamais deveria ser permitida, menos ainda em um cortejo de santificada devoção”. Daí em diante, como é costume até hoje, os homens passaram a puxar a corda de um lado e as mulheres do oposto. Sempre suados, descalços, colados uns aos mais de seu próprio sexo, muitos a desmaiarem de insolação.

 

Ainda assim, dizem que alguns puxadores, atingidos pelos descontrolos carnais que a situação lhes propicia, acabam por se deixar transportar a levitações nada místicas. A esses cuidados imprevistos, porém, não os alcançou o castíssimo e reverendíssimo bispo de antanho!

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

04
Dez18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CADAFALSO.

 

Maria Aurora Antonieta Bernardes encaminhou-se ao cadafalso e, se por fora, mostrava-se pálida e inerte, mais abatida estava em seu interior. Parecia-lhe, de repente, que o corredor a conduzi-la da Bastilha ao gabinete de Papá, nessa triste manhã, estava muito maior que o malfadado túnel de seu desatino. Enorme, infindável, tortuoso.

 

Ao passar pelo quarto dos rapazes, ouviu vozes exaltadas dos irmãos, a dizerem coisas como – Ai que vou matar esse gajo! – ou – Deviam fazer com ele, sabes o quê? Pegar-lhe com jeito os penduricalhos e ó! Nem aos leitões! – e, logo a seguir, baixou a cabeça diante do quarto das irmãs. Ali, a plebe jacobina, representada por Aldenora e Aurélia, embora não gritasse aos ouvidos de um invisível carrasco, como a rainha de copas no País das Maravilhas – Cortem-lhe a cabeça! – atirava à infeliz rapariga olhares de mágoa e reprovação.

 

Já próximo à sala íntima do pai, consolada pelo abraço à cintura que lhe dava Arminda, Mamã estava a chorar baixinho, com um lencinho de cambraia dobrado e encostado aos lábios. Ao ver a filha infortunada, abraçou-a e lhe beijou a testa.

 

Aurora entrou. Postou-se atrás da cadeira onde sentava-se João Reis, o pai que tanto amava e por quem sempre fora (e temia, a essa altura, já não ser mais) tão amada. Sentado na cadeira de balanço, voltado para a janela, cá estava aquele que o povo da terra alcunhara de brasileiro. Partira bem jovem às terras do Pará, na Amazónia e por lá fizera fortuna. Casara com uma ditosa rapariga, filha de boas gentes aveirenses que por lá andavam. Tornara depois à terrinha, com um ótimo tino comercial e muita fibra, e por cá ficara, na esperança de multiplicar, em Chaves, a fortuna amealhada no Além-mar.

 

Era nesse momento, porém, um pobre homem, alquebrado pelo desgosto repentino, que o não deixara dormir durante a noite passada. Lembrava-se, naquele momento, do dia em que Aurora nasceu e, por acaso, não fora um dia qualquer em Belém do Pará.

 

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

27
Nov18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ANUNCIAÇÃO (4).

 

Na cozinha, Maria jogava alguns verdes a Zefa, mas esta, maduros não os devolvia, malgrado sua língua ardesse de vontade em dar aos dentes, como eram, de sempre, os seus modos de ser. Quase sempre, como agora a cozinheira estava a constatar. Na sala de refeições, estavam somente os rapazes e a pequena Arminda. Os outros homens da casa, até então, de nada sabiam e muito estranharam que o Papá não viesse ter à mesa, ao desjejum. De Aurora, em seu quarto, sabiam apenas estar adoentada, ou, se calhar, em seus “dias de histórias”, com seus incómodos de rapariga, conforme Alice aventara ao seu futuro marido.

 

Ainda que não fosse de falar senão o necessário, Afonso inquiriu o irmão – Raios que o partam, Alfredo, que está a acontecer em nossa?! Acaso sabes de algo pra me contar? – mas o outro respondeu, apenas – Comigo é que já não há mais nada, então não vês que o Papá quer consertar um mau passo com outro ainda pior? E tudo o que conseguiu foi me fazer sentir como um vilão desses filmes de facínoras, um cuspo ao vento, sem direito à defesa e, logo de pronto, preso, julgado e enforcado.

 

A caçula batia com a colher no pires, acabando por chegar a irritá-los – Sossega, Mindinha, não vês que estamos a trocar umas ideias? – mas ela, finalmente, conseguiu o que almejava, chamar-lhes a devida atenção. Quando estes se voltaram para ela, mais uma vez e a uma só voz – Ora, pois, menina, o que há contigo, afinal? – sem tirar os olhos da chávena de café, ela deixou os irmãos deveras estupefactos. – Eu, tu, ele, todos nós... pra já vos digo que vamos ter um sobrinho.

 

Essa notícia repentina fez o Alfredinho morrer em calafrios. – Sobrinho como, se eu, que sou o pai, estou sendo o último a saber?! – mas a mocinha o deixou aliviar-se do susto, para a notícia pior – Não, Alfredinho, não estou a falar da menina tua noiva. – e os irmãos entreolharam-se e logo pensaram em Aldenora, que talvez, entre uma e outra vinda do noivo a Chaves… – Mas o que é isso, miúda, que estás a dizer? Porque estás a brincar com essas coisas tão sérias, ainda mais que elas não estão a cair bem pra tua idade? – ao que Arminda, enfim – Aurita vai ter um bebé! – e Alfredo, chocado – Arminda! Não me venhas com tretas nem lérias! – ou Afonso, mais ainda – Nem por tricas e nicas me digas uma coisa dessas!

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

20
Nov18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. LADRÃO DE HONRAS.

 

 

De repente, ambos olharam-se nos olhos, a uma só cumplicidade – Olha lá que não seja quem estou a pensar. – Será? – Se calhar… – Ai meu Deus, não pode ser! – e deu um pequeno grito – Os gatunos! – correu até um pequeno armário e dele retirou o chapéu que o cocheiro lhe entregara, como se fora um butim de guerra. Na parte interna, sobressaía bordada, em maiúscula cursiva, a letra Agá. Escapara-lhe na ocasião que, além de aquele bordado representar, na verdade, uma só letra e não duas, ocorre muitas vezes uma diferença entre a inicial de um nome escrito e a do que é pronunciado. Existem letras mudas, é claro; tão impronunciáveis como certos pensamentos que nos advêm, em alguns momentos da vida e não os podemos externar. Acabam por se armazenar em nosso id e se tornam, até para nós mesmos, demasiadamente ocultos.

 

Flagelou-se então, mentalmente, a supor que, se tivesse sido um pouco mais perspicaz, poderia talvez ter cortado, em tempo hábil, as asas do vampiro, ter serrado os seus caninos e, quem sabe, impedido assim que as mordidas desse Drácula cigano prosseguissem, até chegar a esse hemorrágico desenlace – Como pôde esse maldito cão me fazer isso?! E ela, a nossa menina, deixar-se levar como as cadelas na cainçada?! – ao que Mamã, tomada de coragem, repreendeu-o – Bernardes! Vê primeiro como falas e de quem estás a falar! – E ele, murcho – É. Lá isso…

 

Galgou a saída de seu gabinete em um breve de segundos, quase a não dar tempo a que Aldenora e Lilinha se afastassem de sua escuta, atrás da porta. Encaminhou-se até ao cómodo de Aurora, mas um grito suplicante o alcançou – Por piedade, meu rico maridinho, deixa para fazer isso ao ar fresco da manhã. Como já diziam os antigos, essas coisas se fazem melhor após a noite ir embora, pois ela pode ser tão boa quanto má conselheira.

 

Sem dizer palavra alguma, o patriarca voltou à salinha, para saber apenas, a essa altura, de um charuto mofado e um Porto azedo. Trancou-se a um silêncio e melancolia que lhe seriam, doravante, a nova e triste expressão de si mesmo. Abatido, mergulhado na depressão, pousou os olhos no quadro de Nossa Senhora de Fátima, cujo rosto virginal era o mesmo de sua Aurora aos quinze anos. Um tempo que já lá se fora. Lágrimas de revolta se lhe vieram aos olhos, mas logo as enxugou, antes que os mais da casa estivessem de repente a ver um homem (e um homem como ele) chorar feito um bebé. Nesse mesmo dia, mandou que transferissem a pintura para as acomodações daquela que, involuntariamente, servira-lhe de modelo.

 

À manhã seguinte, pediu a Florinda que lhe levassem o pequeno-almoço ao gabinete, do que ela própria achou por bem se incumbir. Feito um autómato, com terríveis pensamentos a lhe martelar a alma, após mal alimentar o corpo, apenas a mordiscar vez por outra, com raiva nos dentes, uma indefesa côdea de pão, João Reis Bernardes preparou seu espírito para o mais doloroso momento.

 

– Que a nossa fi... que essa menina me venha falar!

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

06
Nov18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PUNIÇÃO.

 

Há tempos não tão distantes, iriam fazer Aurita expiar seus pecados, em companhia de outras jovens mulheres: as que deixavam de ser donzelas, sem casar; as adúlteras; as meninas que se davam a práticas íntimas com outras meninas e que, nem aos murmúrios mais privados, poder-se-iam nominar; ou, ainda, as filhas simplesmente rebeldes e sem qualquer controlo possível do poder patriarcal. Enfim, todo tipo de mulheres que o contexto social considerasse moralmente perdidas, tal como agora a ela, Aurora Bernardes, estava a acontecer.

 

Papá a mandaria ao convento de Santa Clara, em Coimbra, na outra margem do Mondego. Ali a irmã faria os votos e se deixaria enclausurar, passando a integrar o harém das esposas de Cristo, tão logo viesse a entregar, à roda de algum outro mosteiro, o fruto de seu amor proibido. Atualmente, porém, eram os anos Vinte. Mesmo em Portugal, ainda preso a arraigadas crenças e tradições, os tempos eram outros. Vivesse ela nessa mesma Chaves, ao tempo do convento que havia entre as colinas do Castelo e a Pedisqueira, onde, anos depois, viria a funcionar o atual Liceu!

 

Esse mosteiro fora construído, a meados do século XVII, por um fidalgo de Chaves, Francisco de Castro Moraes, a fim de enclausurar suas duas filhas em uma comunidade religiosa. Nesse convento de Nossa Senhora da Conceição, mais conhecido como o Convento das Freiras, o silêncio era absoluto. Sequer havia rótulas no locutório. Na portaria, de onde ninguém passava para o interior, senão para nele isolar-se do exterior mundano, havia a roda monástica tradicional que era, como descreve um cronista anónimo, “um cilindro oco de madeira, encaixado em estreito postigo que, abrindo, girando no seu eixo e tornando a fechar, deixava passar mantimentos ou outros objetos que as regras da Ordem permitiam ser introduzidos ou retirados do convento”.

Talvez nesse mosteiro de Chaves, como em vários outros claustros, também ocorresse o facto de muitos citadinos irem deixar à roda, tão logo acabassem de nascer, os filhos enjeitados. Era também por esse rústico artefacto que algumas freiras, as mais privilegiadas, podiam conversar com algumas senhoras da vila, sob a permanente vigilância de uma madre-rodeira. Esta tinha a rígida função de, como sentinela, jamais permitir que algum homem ousasse aproximar-se das religiosas, nem que essas irmãs e as damas de fora ficassem a cavaquear sobre assuntos profanos. Sabe-se lá se, com alguns mimos ou discreto suborno, não se trocassem mexericos sobre pessoas da vila, recadinhos amorosos de esperançosos pretendentes, mensagens de amantes ansiosos pela libertação da amada... Talvez algumas dessas “senhoras” do lado de fora da roda fossem, até mesmo, cavalheiros travestidos para os fins colimados.

 

Como tantos outros d’antanho, o convento surgira e continuara a ser, por muito tempo, uma casa de recolhimento para meninas que se rebelavam contra o jugo paterno e que, com um vultoso dote, embolsado pelas freiras, eram envia das para o claustro a fim de se confirmar o seu adeus ao mundo, onde ficariam para sempre enclausuradas em uma daquelas celas com janelas estreitas, que pareciam o óbvio: grades de uma prisão. Enterradas vivas, sobreviviam entre preces e penitências, sem que, muitas vezes, nem mesmo a família viesse a saber se a sua freira já tinha morrido.

 

Assistiam à Missa no Coro com um espesso véu ao rosto, sob iluminação fraquíssima de velas e, como diz o referido cronista, ficavam “separadas dos fiéis por estreitíssimas rótulas duplas, de modo que as pessoas de fora só viam confusas sombras, sendo impossível identificar qualquer uma delas. Quem passasse perto do convento, a algumas horas do dia, podia ouvir a salmodia diária, um cantochão monótono e fanhoso, que encobria o frescor da voz das noviças e das freiras ainda jovens, a fim de que os profanos, nem de ouvido, pudessem reconhecê-las. Se alguma esquecia de cantar pelo nariz e soltava a sua voz argentina, ao natural, as outras monjas estremeciam de pavor e a madre abadessa, na mesma melopeia do cantochão, cheia de severidade, remuneava para a insolente, num tom pseudocaridoso, o imperativo aviso: ´fanhe, minha irmã, fanhe, pois isso que estais a fazer não é da nossa regra’ ”. (Ou seja, não estava em conformidade com as regras dessa ordem monástica).

 

Ainda bem que, ao menos para as duas filhas de Castro Moraes, houve um final feliz. Não ficaram muito tempo enclausuradas e saíram para casar com os bem-amados, ainda que tal fosse contra a vontade do pai. Tantas e tantas outras jovens, porém...

 

 

A tais citações de Aldenora, Mamã exclamou horrorizada – Mas o que estás a contar, minha filha? Isso lá são coisas que se diga?! Nem mesmo a pensar! – e pouco depois, mais calma, Nonô virou-se para Florinda e lhe disse, bem firme – Segredo, Mamã! Temos que guardar tudo isso no maior segredo, antes, durante e depois que essa criança venha ao mundo.

 

Ao fazer menção, porém, de se encaminhar aos aposentos de Aurora que, a partir dessa noite, passaram a ser de uso apenas da filha desonrada, Florinda impediu-a – Deixá-la em paz, menina! Ela já sofre em demasia. Arrependida já está, por certo e assim há de ficar, por muito tempo – arrematou então, com a máxima severidade – Não somos Deus nem juiz para punir ninguém!

 

(continua)

 

fim-de-post

 

23
Out18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. GRAVE AVIDEZ.

 

Grávida de alegria, Aldenora via aproximar-se, cada vez mais, o dia tão ansiado por si e por certo aluno da Universidade de Braga. Os anos que passaram haviam sido uma infinidade para Nonô. Por toda a semana, distraía-se apenas a ensaiar no coro da Igreja Matriz, para cantar aos domingos, durante a Missa das dez. Agora, porém, faltavam apenas alguns dias para tudo melhorar e estes, apenas um lapso de segundos para os deuses, eram, para os amantes, uma eternidade. Dali a alguns meses, seu noivo, já então como o senhor doutor António Sidónio Cordeiro Filho, estaria de volta a essa tão feliz Aldenora, que reabriria ao bem amado as portas da Quinta e do coração. Estas últimas, certamente, em sua constante expectativa, já se mantinham sempre abertas.

 

Ávida se havia a rapariga de que o próprio Tempo andasse mesmo a patas de lebre e não aos cascos de tartaruga, pois o que mais ansiava estava prestes a chegar. Os pais respetivos já concertavam, entre si, quando iriam começar os banhos à Cúria e começavam a pesquisar as mais fidalgas formas de oferecer aos convidados, quando se realizassem as núpcias, o melhor copo d’água. Maio do próximo ano, portanto, para a ansiosa rapariga, era um porto de venturas até onde remava o seu barco de sonhos e do qual já se previa o momento de alcançar.

 

 

Na mesma infortunada tarde da revelação do doutor Fagundes à Mamã, Nonô saíra para o curso de Datilografia, ao qual Papá lhe permitira fazer com muita reserva, por não vislumbrar nisso, até então, qualquer sentido prático para a filha, conquanto já estivesse a melhorar o futuro de muitas moças pobres. Este, decerto, não seria o caso de Aldenora, à qual só apetecia conhecer as artes do teclado para passar a limpo os poemas, em geral açucarados e pueris, que ousava enviar ao seu António.

 

Ao chegar de volta a casa, em seu quarto, abriu uma caixinha de madeira, cuja tampa encerada estava a mostrar uma colagem de reproduções de pinturas clássicas, casais em momentos de casto idílio, aos bosques ou jardins. Dela retirou as cartas de Sidónio, ao longo de todos esses anos. – Ai como são tantas! – E, ainda que mancebos não chorem, algumas se mostravam borradas, em alguns trechos, por lágrimas do rapaz, caídas em momentos de pura emoção. Ao sair do aposento, para atender a um chamado de Mamã, olhou para a mesinha de cabeceira de sua cama. Sidónio sorria-lhe, com a sua capa e batina.

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

16
Out18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. MATER PIEDOSA.

 

 

Tal-qualmente Santa Luzia, com os olhos expostos na bandeja, Mamã entrou no quarto, o coração nas mãos – Ai que a minha menina está com alguma moléstia muito grave. Algum mal, que Deus nos livre e guarde… será que a Morte está querendo vir buscá-la e nem as cruzes e os signos de Salomão da Zefa, nas portas e janelas, teriam forças de impedir? – mas ao vê-la entrar, Fagundes foi logo pronunciando – Sinto muito, minha boa amiga, sinto muito, pelo que vos tenho a dizer.

 

Florinda afligiu-se, mais e mais – Ai meu bom Jesus de Matosinhos, será pneumonia? Cancro?! Tísica?! Sífilis é que não é, por certo, nem haveria de ser, pois a menina… – o que levou Fagundes a hesitar um pouco, mas… tinha que dizer! Então, foi logo aos dois pontos – Embora não seja próprio, a considerar os factos, que eu deva me congratular convosco, nem lhe dar os parabéns – fez uma breve e constrangida pausa – A senhora em breve vai ganhar um neto, minha boa Florinda. – notícia que a levou quase ao desmaio – Ai, doutor, nem a brincar!!! – mas logo Mamã se arrependeu do que dissera. Falara assim por não lhe chegarem, àquela altura, outras palavras a balbuciar, em todo o seu pasmo. Ainda bem que o médico não entendeu – Que estais a dizer, dona Flor? – Nada, doutor, nada. Nem eu mesma sei o que digo. Nada. Mais nada.

 

A seguir, com o sopro de um ar triste a lhe balançar a cabeça, de um lado para o outro, o velho médico da família guardou seus instrumentos na maleta de couro, própria dos esculápios da época. Dirigiu-se, então, à rapariga – Vou acompanhar a menina por todos os meses que virão. Sua santa mãe sabe o quanto honro e sempre hei de honrar os meus juramentos. Saberei, portanto, guardar a necessária e devida discrição. – Fez outra breve pausa – Tão somente espero e desejo que tudo, ao fim e ao cabo, ainda venha a ficar bem. E que ainda venhas a ser feliz! – Após o que, apertou em silêncio as mãos de Florinda, pegou o chapéu e a valise e se encaminhou à saída, onde Manuel já o esperava com o landó.

 

Mamã sentou-se ao pé da cama, cruzou as mãos e disse, a olhar para o soalho, enquanto fazia berlindes de seus olhos, para não se desmanchar em pranto – Então era isso que estavas a querer me contar, naquele dia? Ah, meus cachinhos de ouro, como deixaste isso acontecer?! Onde é que estavas com o juízo?! – ao que, passados alguns minutos e suspiros, a pergunta fatal – Quem foi? – e, em seguida, ante a mudez da filha – Quem é que pode ter sido esse desgraçado, meu bom Jesus? – A rapariga, porém, nada disse e, em resposta, apenas aumentou os soluços, que exprimiam sua dor mais profunda.

 

– E agora, minha Aurita, como é que vou dizer tudo isso ao teu pai?

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

 

 

09
Out18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ANUNCIAÇÃO.

 

Chegou, afinal, o dia da consulta com o doutor Abel Fagundes que, por algumas semanas, estivera a andar a Vidago, para tratar de alguns clientes antigos que por lá deixara, desde o tempo em que começou a exercer as funções médicas na região. Foi recebido com muitas festas, biscoitos de nata, café e um licorzinho de tangerina. Após examinar a garganta de Aurélia e ouvir os achaques da senhora dona Flor, chegou a vez de Alice, a futura esposa de Alfredo, cujo padrinho, o Gomes, já tratara de despachar para a casa do noivo antes mesmo do casório. Apesar das apreensões de Mamã e da própria carioca, o doutor Fagundes comprovou que a menina não estava prenha.

 

O médico da família dirigiu-se então ao quarto de Aurora, onde esta, sabedora da visita que se lhe ia fazer àquela data, pusera-se de cama desde o início da manhã, dizendo-se mal, muito mal, mas que o doutor lhe viesse falar a sós. Naqueles tempos, não ficava bem que assim fosse, mesmo sendo ele um quase ancião. Fagundes, porém, era de plena confiança do Reis e, destarte, sua filha já não era uma rapariguinha impúbere. Após tocar naquele corpo, ao qual, até então, só a outro homem (e de forma bem diversa) ela deixara tocar, o bom senhor sentou-se ao pé da cama, pensativo, com as mãos a lhe cobrirem os olhos e a fronte.

 

Há palavras breves e silêncios infinitos.

 

Sem olhar para a cliente, pôs-se a refletir o quanto lastimava por vê-la assim, embaraçada, em ambos os sentidos da palavra. Enfim, perguntou – Como foi isso, menina? – e logo pensou no desgosto que havia de ferir o coração de seus pais. Levantou-se e olhou firme para a examinada – Será para o próximo outono – e quase a falar para si mesmo – Já passei por momentos assim como este, mas… como vou comunicar esse diagnóstico? Melhor seria dizer: esse prognóstico… não, não, falar ao Reis, nem que me pagassem os honorários em dobro! Mas como dizer isso à senhora tua mãe? Ou preferes que ela saiba de ti mesma?

 

Aurora não respondeu logo, pois nem sequer conseguia encará-lo. Virou a face à parede, como diante de um padre confessor e lhe contou tudo (digamos quase tudo e ao modo que pudesse contar). Reportou-se tão-somente ao milagre, sem nomear o santo (ou o nada santo, no caso). Depois pediu – Por favor, doutor, mande chamar até cá a minha boa mãe e diga a ela, o senhor mesmo, toda a verdade. Assim me vai melhor – ao que Fagundes respondeu, apenas – Cá está bem. Tem que ser!

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

02
Out18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CERIMÓNIA DO CHÁ.

 

À noite desse mesmo dia, quando todos dormiam, Alfredinho esgueirou-se a bicos de pés para trás do biombo. Passou por um belo jardim, onde mulheres de quimono faziam a cerimónia do chá. Uma delas até sorriu, a lhe estender uma chávena de fina porcelana e ele agradeceu-lhe com um olhar maroto. Outras duas o conduziram a um ambiente ornado de lanternas e flores de cerejeira, onde o aguardava uma bela gueixa, a quem abraçou como um samurai sedento de carinhos, em uma cena de Nô ou Kabuki, porém mais picante do que os singelos roteiros originais.

 

Iniciou-se, então, uma cerimónia do chá, mas de tisanas bem outras, que se repetiria por muitas noites, pois “a gente se acostumando, já não quer senão daquilo”, até que… até que o médico da rapariguinha, pasmo em seus muitos anos de ofício, dissesse à mulher do Gomes que algo de muito milagroso estava a se passar com a cliente. Na verdade ela ficara, mui rápida e efetivamente, curada de um mal que ele sequer pudera diagnosticar – Talvez uma alergia, de causa desconhecida – pois ao clínico não alcançava ainda a existência de certos sintomas, cujos males sabemos ser, atualmente, de fundo psicossomático.

 

Quando partiu de volta a Vidago, Alice carregou na bagagem algo mais entre as suas carências de mulher. Saudades. Como Aurora, ela também mergulhava em um sentimento de amor por alguém que tinha o mesmo curso das águas do Tâmega, ou seja, uma só direção, pois quanto ao rapazote, este apenas se preocupava com o que faria o Gomes, o que diria seu pai e, enfim, que maçadas lhe trariam as consequências dessa atitude impensada. O menino dizia a si mesmo – Ora, Alfredo, só podias estar mesmo viradinho do miolo, a ponto de fazer o que não devias, te meteres nos assados com essa rapariguinha! Agora é que são elas! Mas… tinha que ser! Foi! Melhor, meu caro, é não te deixares ferver em pouca água. Espera e vê, com muito jeitinho, pra que rumo te vai soprar o vento.

 

O vento não demorou a soprar. Alfredo voltava do liceu, quando viu Papá à sua espera, ao pé da escada lateral. João Reis começou solene – Senhor Alfredo! Temos cá uns ís, para lhes pôr os pingos! – mas logo se desfez da formalidade – Ó pedaço de asno! Não achas que já estás bem crescidote para reloucares desse jeito, desonrar a casa onde vivem tua mãe e tuas irmãs, a ponto de levares à perdição uma rapariguinha que veio cá alojar-se, sob a nossa proteção e lhe dares “a esmola antes do padre-nosso”? Antes, porém, que João Reis lhe chegasse bordoadas às costas, tratou logo de dizer – Eu caso, Papá, eu caso! Oh, Papá, me perdoa, fui um tonto, eu sei, perdi a cabeça, mas pode mandar dizer ao senhor Gomes que me caso com ela, meu pai, está bem que me caso! – e para já correu até Mamã, a se refugiar no regaço da mater amorosa, mater compadecida e agora, mater inconsolada.

 

 

  1. CEIA SEM CHÁ.

 

À ceia, em silêncio, ouviam-se apenas alguns talheres a tocar nos pratos, uns de leve e intermitentes, outros nervosos e sem parança. Ao final, Papá disse baixinho, à Mamã, que logo se mandassem preparar os banhos na Madalena, convidassem somente os parentes mais chegados e, sobretudo, não se falassem em copo d’água. Tudo haveria de ser simples e rápido, apenas com os cumprimentos a se darem lá mesmo, à sacristia.

 

Antes de se recolher ao seu gabinete doméstico, Reis olhou para a filha e lhe bateu de leve nas mãos, a um gesto de carinho, tão inusitado quanto imprevisto – Ainda bem que és mulher, minha Aurora e não estás a sair por aí, atrás de uns rabos de saia e a me dar umas maçadas, como o teu irmão. Se bem que já estás à altura de arranjar um bom marido. Se não o fizeres, veremos nós o que fazer. A propósito, tua mãe m’o disse que não andas lá muito bem de saúde. Nosso querido doutor Fagundes está a voltar por esses dias a Chaves e vai examinar essa menina, a ver se já não está a chegar em breve algum outro Alfredinho por aí... Vamos pedir, ora pois, que te veja também e a todos de casa, para sabermos a quantas anda a saúde aqui na Quinta.

 

Aurita ficou imóvel, lívida, sem saber como disfarçar. Salvou-a, em boa hora, a intervenção de Arminda – Papá, Papá, olha cá, olha só que lindo mimo a Tia Adelaide me deu! – e mostrou um estojo com guarnições de prata na tampa e um forro aveludado no interior, contendo pentes e escovas de madrepérolas.

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

25
Set18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. POMADA MARAVILHA.

 

O Gomes havia pedido ao Papá que acolhesse na Quinta, por uns dias, uma afilhada sua e de sua ex-esposa. A rapariguinha, chegada recentemente do Rio de Janeiro, estava a morar com ele e sua atual companheira em Vidago. Já entradinha nos 24 anos e sem casar, Alice parecia, no entanto, menina que mal deixara de ser. Era muito calada e, aos dizeres de seu padrinho, bem comportadinha. Não daria, portanto, nem um ai aos Bernardes, caso viesse a passar alguns dias na Quinta Grão Pará, a fim de se tratar em Chaves de uma doencinha na pele, que se estava a mostrar muito renitente. A menina já havia experimentado de tudo e nada lhe dava jeito. Nem mesmo a famosa pomada que o Gomes sempre mandara aviar, ao preço de 310 réis, na Pharmácia Pereira, em Chaves e assim anunciada em um jornal da região:

 

“A Pomada Vegetal Alemã faz curas milagrosas de males como varizes, erisipela, eczema, furúnculos, queimaduras, frieiras ulceradas, herpes, impigens, hemorróidas, úlceras extremas e dermatoses de toda natureza. Composta unicamente de raízes e sucos de plantas medicinais, não contém nenhuma espécie de banha. Esta pomada só por si extrai o pus, elimina a carne esponjosa, desinfecta e cicatriza qualquer ferida. Há dezenas de casos de curas, comprovadas com atestados devidamente reconhecidos”.

 

Apesar dessa mazela que, além da menina, só o clínico e a amásia de Gomes sabiam em que parte do corpo era acometida, Alice era muito graciosa, miudinha, jeitosinha, toda certinha, que dava um gostinho de olhar. Era, porém, muito tímida, embora isso talvez escondesse, no fundo, uma grande dissimulação de menina sonsa e namoradeira. Quem sabe por isso, ou quiçá porque a administração doméstica não desse à Mamã muito tempo para outras preocupações, ou, ainda, porque confiasse bastante no comportamento moral de seu ai-jesus adolescente, Mamã não havia notado o que Aldenora logo lhe veio chamar à atenção – Mamã, esteja a ficar de olhos abertos, pois cuide que o Alfredo está a arrastar as asas para a carioca.

 

Desde quando chegara à quinta, a menina vivia colada ao belo Alfredinho, cujos paleios estavam sempre a diverti-la. Passaram depois aos cochichos e risinhos. Ao se encontrarem fora das vistas de todos, beijinhos e algumas outras pequenas liberdades já eram trocados entre os jovens. Só vinham a se largar quando sentiam gente por perto.

 

Alice dormia a um canto da sala de estar, em um cómodo improvisado, por trás de um biombo japonês, onde Mamã colocara para a hóspede um colchão e todas as comodidades que estivessem ao seu alcance. Um dia, Alfredo, que era o único alegre, extrovertido e brincalhão do clã dos Bernardes, perguntou à menina – Mas afinal, de que estás a tratar com os médicos? – E achas que te vou dizer? – Eu sei o que é. Na pele, não é? Mas como é lá isso? – Parece urticária – E passa? – Diz o doutor que não. E há certos dias, como hoje, que só tem um pouquinho – Onde é? – Não posso contar!

 

– Mostras-me? – Alfredinho, isso lá são modos?! Olha o respeito comigo! Porque achas que te vou mostrar?

 

Mostrou.

 

(continua)

 

 

fim-de-post

 

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Sim este é o S. Lourenço de Chaves"Eu sei que há m...

    • José Pombal

      Com o devido respeito, o nome destas localidades, ...

    • Anónimo

      Caro Fernando Ribeiro. Agradeço as suas diligência...

    • Anónimo

      (Esta (só?!...) placa não merece «Re-qua-li-fi-ca-...

    • Fer.Ribeiro

      Não sei mas vou tentar saber. Abraço.