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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

26
Abr21

De regresso à cidade...

luz ao fundo do túnel

1600-(52005)

 

Hoje faço o regresso à cidade a partir deste local da imagem, a fazer de conta como se chegasse a este mesmo local de comboio, como em tempos idos aconteceu muitas vezes. Saudades do comboio, mesmo do velho texas, mas tenhamos esperança em tê-lo cá de novo, não o texas mas um comboio moderno e a sério, e não a este local mas a outro qualquer da cidade, pelo menos a linha do Corgo é mencionada como uma das que vai ser reativada com a restruturação da ferrovia portuguesa, só esperamos que o final de linha não fique em Vila Real…

 

 

 

17
Jun16

15 - Chaves, era uma vez um comboio

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Locomotiva

 

A ti

A primeira vez que te vi na estação,

Abafei minha grande emoção.

 

Sentida

Por grandeza maquinal,

Por existência real.

 

A tua presença

Tudo silenciava:

Gente que chegava, gente que partia,

De rostos negados pela vida.

 

Só tu existias ali.

 

Num breve instante,

A tua força férrea

Carregava vidas do nada.

 

 

Partias…

 

Então o nada era o tudo

 

E sorriam…

Para ti.

 

Rita Gonçalves

 

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 Cp0095 – Locomotiva: CP E207, Data: 1973, Local: Chaves, Portugal, Slide 35 mm

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

08
Jun16

14 – Era uma vez um comboio

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“O Nosso Comboio”

 

Tudo é negro. Os edifícios têm veias escuras que lhe escorrem pelos alçados, as crianças têm rostos enegrecidos. Tudo é negro do fumo das fábricas, do ferro utilizado na cidade, da angústia iminente que a sufoca. O ar é tão denso que mal se respira, a poluição e desgraça entra-nos pelos pulmões como uma película viscosa que asfixia. Os sons da cidade misturam-se numa cacofonia irritante que eu já não consigo reconhecer. Mas no fundo, lá bem ao fundo eu ouço. Ouço um som que reconheço. Não me traz boas memórias mas, no meio da perdição, traz-me uma lembrança. Ouço os sons estridentes, metálicos, quase sofríveis. O fumo sai negro, tenebroso, expelido de forma violenta. À medida que me aproximo vejo a velha estação ferroviária, em ferro retorcido, onde o comboio engole impiedosamente aqueles que partem.

 

Algumas crianças riem, excitadas, ansiando pela viagem. Os adultos, esses, choram em silêncio pelos que ficam e pelo que deixam. Fazem-se promessas, que sabem que ninguém vai cumprir, dão-se beijos e abraçados, tentam-se aquecer corações já há muito gelados, destinados a estilhaçar.

 

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O comboio apita, estala e geme quase obscenamente no meio de tanta dor. Os revisores correm e gritam ordem, quase tão automaticamente quanto a velha máquina metálica ruge, desejosa de partir. De olhos vidrados, num rosto apagado pela angústia, já não se permitem ver o que se passa em redor, sentir o sofrimento dos passageiros. Tudo o que veem, tudo o que ouvem, perde-se nesse vazio sentimental que todos aprendemos a ter. E é assim que continuam, dia após dia, a encaminhar os passageiros para o comboio, como se de um carrasco se tratasse. Apáticos, tristes, miseráveis como todos nós.

 

Por fim, a maquineta maquiavélica já engoliu todos os seus passageiros. Contrastando com o metal enegrecido, veem-se bracinhos alvos de crianças a acenar, rostos lívidos de quem parte e já não volta. Rostos de revolta, de sofrimento, de uma saudade ainda precoce.

 

O comboio arranca, sacudindo as suas almas fervorosamente. A paisagem desvanece-se rapidamente pela janela, sem termos tempo de a absorver nos sentidos, para que, um dia mais tarde se nos for permitido, a possa recordar. Lembro-me de ter aberto uma janela e timidamente esticar-me para sentir o cheiro dos campos, o cheiro da chuva na terra acabada de plantar, o cheiro da minha cidade.

 

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Depois fiquei, junto a tantos outros, cabisbaixo a matutar, enquanto os soluços do comboio embalava o meu próprio choro e me roubava à minha vida.

 

 

PS: O texto pretende transmitir o ponto de vista de pessoas que tiveram de partir para outras cidades e outros países de comboio. Refere-se, sobretudo, às fugas consequentes da Segunda Guerra Mundial, altura em que o medo e a opressão sugavam a felicidade das pessoas. Esta visão, pesada e triste acerca de um comboio, pretende transmitir o lado negativo de uma invenção que trouxe muitas mais-valias. No entanto, como há sempre o reverso da medalha, há que evidenciar também as coisas más para que nunca nos esqueçamos que nem tudo é perfeito.

 

Numa visão claramente exagerada, pode-se também ilustrar um problema actual e cada vez mais comum – a emigração. Retrata aqueles que trabalharam para construir uma vida, num país que amam, junto aqueles que amam e têm de abandonar tudo porque já nada é certo.

Nordeste.AL.

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

31
Mai16

13 - Chaves, era uma vez um comboio

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“… COMO SE FOSSE MEU”!

 

A primeira vez que viajei de comboio, apanhei-o na FONTE NOVA, foi para ir ser baptizado, num dia 13 de Outubro da II GG, pelo Pe. José do Nascimento Barreira, na Igreja de S. Pedro, em Vila Real.

 

A minha madrinha, irmã da minha avó materna, Conceição, tinha mais 58 anos do que eu.

 

O meu padrinho, filho de uma família muito amiga da minha madrinha, tinha mais 8 (oito!) anos do que eu.

 

Madrinha e padrinho moravam na «Bila». Ela, no Largo da Capela Nova; ele no Largo de S. Pedro, em casa anexa à Escola Comercial.

 

A madrinha era zeladora da Igreja do Carmo; o padrinho, filho de um célebre guarda-redes do Sport Club de Vila Real - o Silvino!

 

A essa primeira viagem seguiram-se outras, mais espaçadas, até à frequência do Liceu Camilo Castelo Branco, situado lá ao fundo da Avenida Carvalho Araújo e juntinho à entrada para a “Vila Velha”!

 

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CP0035  – Locomotiva: CP E209, Data: 1974, Local: Régua, Portugal, Slide 35 mm

 

A Estação da «minha vida» era o Apeadeiro da FONTE NOVA.

 

Descia as Carvalhas, atravessava o Pedrete, descia o Monte da Forca e já estava na FONTE NOVA.

 

Ouvia as últimas recomendações da Avó São, dos primos e da D. Lucindinha, guarda da linha, trepava para a varanda, arrumava as cestas das «lembranças» e acenava-lhes, qual cavaleiro triunfante a iniciar uma nova cavalgada.

 

Passada a curva que escondia a Azenha do Agapito preparava-me para dizer adeus a quem estivesse à vista em S. FraGústo. Até chegar ao apeadeiro de Curalha sentia-me como se estivesse a percorrer o meu império. Ao atravessar a ponte parecia-me estar a atravessar uma fronteira. Olhava para os moinhos, para o açude e para a encosta que sobe até à MINHA ALDEIA, e logo no peito sentia uma picada de saudade.

 

Em todas as paragens arregalava os olhos como que a catar quadros que me contassem histórias fantásticas de donzelas, cavaleiros e mouros, de gente misteriosa e diferente, de parentes afastados que numa, duas ou três aldeias desses apeadeiros ainda por lá terei.

 

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 Apeadeiro de Oura - Chaves

 

De Oura até Vila Pouca, julgava atravessar território «índio» ou de salteadores encapuzados.

 

Em Vila Pouca a paragem era, parecia-me, sempre muito mais demorada. Talvez fosse para o comboio esperar um bocadinho por uma qualquer «carreira» que viesse atrasada, desde o Alvão ou desde a Padrela!

 

Na estação da Samardã espreitava para todo o lado a ver se via rasto ou sombra de Camilo ou assistia a algum momento da «morte do lobo».

 

Na paragem de Abambres, já «estudante», na «Bila», aproveitava para fazer o levantamento topográfico de galinheiros e coelheiras, para o «assalto» do 1º de Dezembro.

 

A chegada, ou a partida, da Estação da «Bila», era sempre um «acontecimento».

 

Havia uma multidão de gente que chegava e que partia, quer para cima, quer para baixo, que é como quem diz, em direcção a Chaves ou em direcção à Régua.

 

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 CP0163  – Locomotiva: CP E205, Data: 1966, Local: Vila Real, Portugal, Slide 35 mm

 

Para se abraçar os familiares ou amigos (ou para se trocar o mais sôfrego e apaixonado olhar com o namorico!...) logo ao sair das carruagens, tinha de se pagar «bilhete de gare», na altura 1$00 (traduzo: UM Escudo) o que era uma fortuna, mesmo para os «estudantes» mais «afortunados»! Mas, de vez em quando, lá se arranjava maneira de fintar o Chefe da Estação e os «revisores».

 

De Chaves a Vila Real, e vice-versa, eram quase (ou sempre!) três horas de “truf-truf”!

 

Davam-me 20$00 (vinte escudos) para comprar o bilhete de 2ª, de Vila Real-Chaves e diziam-me:

 

- “Sobram dois tostões para qualquer eventualidade”!

 

(Era no tempo da fartura do aconchego familiar e do consolo de amigos!).

 

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 CP0055  – Locomotiva: CP E202, Data: 11 de Setembro de 1969, Local: Vidago, Portugal, Slide 35 mm

 

Às vezes, o comboio compunha-se com uma carruagem que transportava o correio.

 

O poβo dizia:

 

- “Olha, já lá vem (ou já lá vai) o comboio-correio”.

 

Às vezes, mais raras, havia um que dava saída a milhares de toneladas de “batatas de Chaves”.

 

O Poβo dizia:

 

- “Olha, lá vai (e só: lá vai!) o comboio-batateiro”!

 

Nos anos sessenta traziam e levavam gabelas de militares, que no BC 10 se preparavam para o «Ultramar». Algumas vezes, encheram-se de normando-tameganos com guia-de-marcha para os Quartéis de Recrutamento, qual deles o mais distante desta fronteira!

 

O «NOSSO» comboio também funcionava como contador do tempo: o que saía de Chaves, de manhã, avisava-nos da hora do levantar e preparar as trouxas para irmos para as aulas; o do «mei-dia» lembrava a muitas donas de casa que estava na hora de irem levar o almoço aos «homes» que andavam nas obras ou que trabalhavam nas Telheiras.

 

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 CP0126 – Locomotiva: CP E215, Data: 1973, Local: Samardã, Portugal, Slide 35 mm

 

Hoje em dia, os bebés mais apressados nascem em ambulâncias (Já houve tempo em que deixaram de nascer em casa para nascerem na Maternidade do Concelho).

 

Outrora até se davam ao luxo de nascer no «NOSSO» comboio!

 

Então ouçam:

 

- Uma vez….

 

Havia as «CORRIDAS de VILA REAL».

 

Alguns polícias de Chaves foram lá reforçar a segurança.

 

Uma estremosa esposa de um dos mais simpáticos e bonacheirões polícias de Chaves, já com o tempo de gravidez contado, teimou em ir à «Bila» ver as «CORRIDAS» e envaidecer-se com o marido no «exercício de tão espectaculares funções».

 

As vizinhas bem a avisaram dos perigos que corria naquele estado.

 

Mas teimou, teimou, e proclamou:

 

- “Pois ir, vou”!

 

Não se hão-de a ficar a rir de mim”!

 

E foi.

 

Meteu-se no comboio, na Fonte Nova. Assistiu às «Corridas». Apanhou o comboio de regresso. E vinha toda triunfante e regalada por «ter levado a dela avante”!

 

Mas o bebé também quis caprichar.

 

Entre OURA e VIDAGO as dores de parto provocaram um enorme alvoroço.

 

Alguém puxou o alarme.

 

O maquinista ia morrendo de susto - nunca tal lhe tinha acontecido!

 

Parou o comboio.

 

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 CP0039 – Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Desconhecido, Portugal, Slide 35 mm

 

A parturiente foi deslocada desde a Carruagem de 2ª classe, onde viajava, para uma Carruagem de 1ª classe.

 

Ao menino e ao borracho!.....

 

E não é que nessa Carruagem de 1ª classe viajava um Enfermeiro?!

 

Nasceu uma rapariga, linda de verdade. Mais linda do que a Ricardina do retrato.

 

Lá em Chaves, em criança, mal ouvisse o comboio a apitar, dizia, toda vaidosa, para quem a quisesse ouvir:

 

- “O comboio é meu”!

 

O Enfermeiro foi seu padrinho de baptismo.

 

Quantos comboios se podem gabar de terem servido de Maternidade?!

 

A última viagem, na Linha do Corgo, de que guardo lembrança fi-la nos finais dos anos sessenta, num dia de um invernio Janeiro, com uma daquelas geadas de deixar qualquer mortal feito em caramelo, desde a Régua até às Pedras Salgadas.

 

O comboio da Linha do Corgo foi, e é, sempre como se fosse meu!

 

M., 13 de Março de 2014

Luís Henrique Fernandes

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

20
Mai16

12 - Era uma vez um comboio

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Comboio

 

Primeiro, o sonho, a ousadia, a vontade de unir terras e aproximar pessoas

- “Faça-se!”

E fez-se!

Pás, picaretas, força de braços a rasgarem novos caminhos

Pontes, túneis, carris, estações e apeadeiros

Finalmente, a máquina, carruagens e vagões…

Milhares de viagens, milhares de sonhos

Histórias, peripécias, amores e desamores

Partidas e chegadas

Gente subindo, gente descendo…

Outro mundo para lá dos horizontes da terra de sempre…

A todos serviu, cruzando vales, rios e serpenteando montanhas

A todos encantou…

- “Feche-se!”

E fechou-se!

 

                                                                                               Luís dos Anjos

 

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CP0041 – Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Chaves, Portugal, Slide 35 mm

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

06
Mai16

11 - Chaves, era uma vez um comboio

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Chaves, era uma vez um comboio - Um poema de Laura Freire

 

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CP0097 – Locomotiva: CP E207, Data: 1973, Local: Pedras Salgadas, Portugal, Slide 35 mm

 

“…fumegando…”

 

28 de Agosto de 1921

 

Chegaste, fumegando…

Amodinho…

Tímido, perante a multidão que te esperava…

Enquanto os “VIVA's” eram abafados pelo repenicar do teu apito…

Incansável…

Ofegante…

Com sede de água e fome de carvão…

Rasgaste as serras para cá chegar…

Depois, foi o silêncio de todos…

De todos os que serviste…

E partiste, fumegando…

 

1 de Janeiro de 1990

 

Laura Freire

 

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 CP0046 – Locomotiva: CP E207, Data: 1971, Local: Chaves, Portugal, Slide 35 mm

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

 

29
Abr16

10 - Chaves, era uma vez um comboio

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Poema de José Carlos Barros

in O Uso dos Venenos,

edições Língua Morta,

Lisboa, Agosto de 2014

 

NO TEMPO DOS POEMAS

 

Deixávamos as moedas no carril e ficávamos à espera a

olhar com o fascínio de quem é surpreendido num fim de

tarde pela presença de naves alienígenas num espaço de

silêncio e rarefacção a ver as rodas metálicas do comboio a

espalmá-las até ficarem assim nas mãos em concha de um

de nós como se tivéssemos recolhido enfim a prova irrefu-

tável dos milagres. Foi/

há tantos anos/

a senhora da bandeirinha vermelha perguntava se nunca

tínhamos visto um comboio/

lembro-me era no tempo dos poemas/

um verso podia ser também a moeda espalmada nos carris

da estação do caminho de ferro de Vidago/

tudo se misturava na mesma nuvem volátil de irrealidade

e sobressalto.

 

 José Carlos Barros

 

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In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

19
Abr16

9 - Chaves, era uma vez um comboio…

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Os comboios também se abatem

Da memória dos comboios aos comboios da memória

 

A primeira imagem que tenho de um comboio não é bem de um comboio mas do meu querido e saudoso pai fardado de militar da GNR agarrado ao corrimão do varandim da última carruagem a sorrir e a ficar cada vez mais pequeno até se transformar numa sombra e depois num ponto e ser engolido pela escuridão do pequeno túnel que atravessa a avenida Nuno Álvares e desaparecer da minha vista enquanto uma nuvem escura de fumo subia no ar e se escutava o apito estridente do Texas a ir-se, pesado e lento, a caminho da Régua.

Depois devo ter ficado triste por algum tempo, que é o normal quando o nosso pai se vai embora e nós temos para aí três ou quatro anos e o mundo nos assusta porque está repleto de aborrecidos e incógnitos adultos e, como se isso fosse pouco, de crianças inoportunas e concorrentes em afetos e brincadeiras.

A minha saudosa e querida mãe deve-me ter pespegado um, dois ou mesmo três beijos bem repenicados e esdrúxulos nas faces, ou na testa, e eu devo ter corrido, como um pardal ferido de asa, numa tentativa de espalhar a angústia que sempre me assaltava, e ainda assalta, nestas ocasiões. Só que agora já não corro porque não fica nada bem a um homem de 56 anos pôr-se a fugir para não chorar quando se despede dos filhos, dos familiares mais chegados ou dos amigos do coração.

 

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 CP0018 - Locomotiva: Não identificada, Data: Não datado, Local: Ponte do Tâmega (Curalha), Portugal, Slide 35mm

 

A seguir devo ter ido a caminho da minha aldeia, para ao pé da minha querida e saudosa avó, brincar junto às margens do rio, sozinho ou mal acompanhado por um primo meu, estouvado de todo, naquele engano de alma ledo e cego que a infância não deixa durar muito.

Peço desculpa por estar para aqui a dissertar sobre a minha infância, que pouco vale, pois o que tenciono mesmo é falar de comboios.

A verdade, verdadinha, é que o comboio e a minha infância de facto coincidiram.

E ambos já se foram há muito tempo, tanto a infância como o comboio, para meu próprio mal e para o mal de todos os flavienses que dele nos socorríamos para nos desembaraçarmos, por algum tempo, dos montes e da nossa condição provinciana, espavorida e aflita.

A minha segunda imagem de um comboio é muito diferente, tanto na perspetiva como na intensidade afetiva. O sentimento é o oposto. Do sorriso do meu pai passa para o choro compulsivo da minha mãe.

Tudo começou em Lisboa quando a minha mãe recebeu um telegrama da família a comunicar que o seu pai, e meu saudoso e querido avô, de quem mal me lembro, estava muito doente e que se o queria ver ainda com vida, pela última vez, tinha de ir com urgência à terra.

 

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 CP0036 - Locomotiva: CP E202, Data: 1974, Local: Tâmega, Portugal, Slide 35mm

 

A notícia provocou nela um terramoto que deu origem a mais de 24 horas de choro ininterrupto.

Se uma coisa a minha mãe conseguia fazer muito bem era chorar. Podemos dizer que tinha essa obsessão. A minha mãe posta a chorar era uma fonte inesgotável de lágrimas, suspiros e lamentos.

Recebeu a dolorosa notícia sentada na mesa da sala de jantar, que partilhávamos, lá para os lados da Rua Presidente da Arriaga em Lisboa, perto do quartel das Janelas Verdes, com uma velha embirrenta, que possuía um gato que eu perseguia obsessivamente (estão a ver, a obsessão é uma herança de família) por causa de ser tão mimado e mijão que me punha os nervos em franja.

Apanhei muita porrada por causa do gato. Mas nunca deixei de o perseguir e de lhe dar alguns amigáveis pontapés sempre que conseguia aproximar-me dele. A maldade, mesmo afetuosa, sei-o agora, desabrocha na infância.

Pois foi nessa mesa que a minha mãe recebeu a trágica notícia e se pôs de imediato a chorar como uma Madalena. Escusado será dizer que também eu comecei a lacrimejar, não tanto porque a morte do meu avô me atingisse muito, pois para uma criança de três ou quatro anos a morte é quase um faz de conta, um processo reversível. Só mais tarde é que nos apercebemos que essa ida é irrevogável.

 

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  CP0004 - Locomotiva: CP E209, Data: Não datado, Local: Régua, Portugal, Slide 35mm

 

Como ia dizendo, a minha mãe começou a chorar e assim continuou toda a viagem de comboio, que, na altura, era a única forma de nos deslocarmos de Lisboa até Chaves em tempo útil.

Viajámos no comboio mais rápido que havia, pelo menos entre Lisboa e o Porto. E a minha mãe sempre a chorar. Lembro-me (Amarcord) que vínhamos sentados do lado esquerdo da carruagem. Do meu pai não me recordo.

Lembro-me (Amarcord) dos assentos de napa castanha, de o céu estar pintado de cinzento, do cheiro a carvão, dos olhos inchados da minha mãe e das suas lágrimas grossas e pesadas. Mas do meu pai não me lembro. Nem uma única imagem. E ele de certeza que vinha connosco.

É assim a memória. Traiçoeira. Seletiva. Apenas dessa forma se justifica a eliminação da imagem do meu pai. Apenas me recordo da minha mãe a chorar e a chorar e a tornar a chorar. E eu a chorar também. Sei que sempre que a minha mãe chorava eu também lacrimejava. E ela vendo-me lacrimejar, pensando que eu não conseguia aguentar a dor da morte do meu avô, pois não sabia que eu lacrimejava apenas por causa de a ver chorar a ela, chorava ainda mais.

O meu pai deve ter vindo toda a viagem calado. Era homem de poucas falas. Muito metido em si. A fumar, uns a seguir aos outros, os seus cigarros sem filtro. A minha mãe nem se preocupou em comprar a água fresca das bilhas de barro para bebermos, nem a regueifa de Valongo e muito menos os rebuçados da Régua. Naquela altura apenas conseguimos saborear o sal das nossas lágrimas. E aquelas eram, asseguro-vos eu, que me fartei de as provar, bem mais salgadas que as mais salgadas águas do mar.

 

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 CP0007 - Locomotiva: CP E209, Data: Não datado, Local: Régua, Portugal, Slide 35mm

 

O comboio transportou-nos, mais a nossa dor, sem um queixume. Também sem um afago. Na verdade, por muito que isso nos tivesse custado na altura, os comboios são bons é a transportar pessoas de um lado para o outro, não a evidenciar sentimentos.

O comboio não chorava, só gemia quando travava nas estações. Cada um é para o que nasce.

Quando chegámos à Torre de Ervededo já as pessoas regressavam do cemitério. O meu avô jazia dentro de uma arca de madeira debaixo de uns bons palmos de terra. Tanta pressa para nada. A minha mãe desmaiou. Dessa vez mesmo a valer. E digo isto porque ela era propensa a ter pequenos desfalecimentos estratégicos, e teatrais, para chamar a atenção. Era muito dada ao drama. Penso que teria dado uma boa atriz.

Chorava com facilidade, desmaiava em bom estilo e pronto desembaraço e também cantava muito bem o fado e outras cantigas românticas, em moda na época. E era muito bonita. Sim, digo isto com alguma vaidade, mas também com muita verdade. A minha saudosa e querida mãe era uma mulher bonita de se ver. E a quem disso tiver dúvidas, aí estão as fotografias para o confirmar.

 

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  CP0009 - Locomotiva: CP E212, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm

 

Posso afirmar, porque é inteiramente verdade, que passei uns dias entre a reza e o choro, entre a tristeza e a desilusão, entre o credo e a salve-rainha. O meu tio mais velho disso se encarregou. E com muito empenho. Por alguma coisa lhe chamavam o Reza. O povo, como todos sabemos, não emprega o seu saber em vão. Tem mais que fazer.

De uma coisa estou certo, e seguro, se forem as orações o que colocam uma alma no Céu, o meu avô está lá sentadinho nas primeiras filas a ouvir o Criador a enumerar as suas memórias eternas. Só não sei é se delas fazem parte os comboios. Mas das minhas fazem parte sim… Senhor. Esta é a prova provada.

Viajei mais algumas vezes com o meu pai e a minha mãe de comboio. Em todas elas, sem exceção, bebemos água fresca das bilhas, adquirimos regueifas de Valongo e chupámos os doces rebuçados da Régua, dos quais arrancávamos os papéis que os embrulhavam com algum custo, pois o melaço era muito pegadiço. E de seguida chupávamos os papéis e os dedos. Naquela altura não havia espaço para as boas maneiras, nem para o desperdício. Eram outros os tempos.

Jovem, e já estudante em Chaves, utilizei o Texas para ir de passeio até Vidago, ou até Curalha, tomar banho junto ao velho moinho. E ainda para me deslocar a Vila Real assistir a algumas reuniões partidárias. A revolução a isso nos convocava.

 

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 CP0013 - Locomotiva: CP E41, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm

 

De uma coisa sou testemunha, os comboios, honra lhes seja feita, eram pouco dados a ideologias: tanto transportavam os reacionários, como os revolucionários e até os indiferentes, que são sempre a maioria. Ao nosso, tal independência, de pouco ou nada lhe valeu. Foi imobilizado e mandado para a sucata sem terem isso na devida conta.

O que o matou foram os tempos modernos e o liberal argumento de que a velocidade e a economia são quem manda em tudo. Como tinha de percorrer serras e montes aos ziguezagues, a velocidade tinha que ser à moda antiga. Mas uma coisa garanto, nele ninguém enjoava. E ali para os lados de Vidago, o nosso patusco Texas até possibilitava, aos mais aventureiros, a possibilidade de irem às uvas e regressarem ainda a tempo de o apanhar novamente em pleno andamento, que era lento e disciplinado.

Na altura da minha juventude revolucionária, o comboio devia de andar um pouco nervoso, intuindo o seu futuro, que todos sabemos não ser futuro nenhum, apesar de já não se mover a carvão, mas sim a diesel e por isso um pouco mais rápido. 

Lembro-me (Amarcord) que ceifou a vida a dois jovens da minha idade, na passagem de nível junto ao Asilo dos Velhinhos, que viajavam dentro de uma carrinha que se lhe atravessou à frente no preciso momento em que ia a passar. Um teve morte imediata e até lhe andaram a apanhar as vísceras espalhadas pelas pedras da linha férrea. O outro, que era quem conduzia o veículo, morreu em pleno voo de helicóptero entre Chaves e o Porto.

 

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 CP0016 - Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm

 

O primeiro morava no Bairro Operário, que distava apenas algumas centenas de metros da passagem de nível. O segundo vivia a menos de cinquenta metros.

Mas o drama não conclui aqui. A primeira pessoa que tentou socorrer os jovens era o pai do rapaz que foi esmagado debaixo das latas da carrinha e das rodas de ferro do comboio. E a segunda fui eu que, quando comecei a ver, e a perceber o que via, tive de me virar para o lado para vomitar e chorar.

A fúria do comboio ainda se abateu mais duas vezes nessa passagem de nível sobre dois carros e os respetivos condutores. Ao primeiro, que era vizinho meu, residente no Bairro do Brasileiro, que ficava um pouco mais perto da passagem de nível do que o Bairro Operário, o comboio apenas projetou o seu carro contra um muro. O homem, aflito, mas sem nenhum ferimento, e armado da sua razão, ainda se deslocou à Estação para exigir uma indemnização à CP, ou, quiçá, um carro em condições de andar. Só que a porca saiu-lhe mal capada. Foi ele quem foi considerado culpado do acidente e obrigado a pagar os danos provocados no comboio.

Esse meu vizinho tornou a fazer-se encontrado com o comboio (a cada um a sua obsessão), só que dessa vez na passagem de nível de Vidago. A história repetiu-se: carro para o ferro velho e indemnização à CP. Todos o tentávamos consolar, ele podia dar-se por sortudo, enfim, do mal, o menos. Afinal tinha saído são e salvo dos dois duelos com o comboio. Vão-se os anéis fiquem os dedos.

O segundo abalroado pelo comboio, na passagem de nível do Asilo, foi, curiosamente, pois a história tende a repetir-se, um senhor que morava apenas a cem metros da passagem de nível. O carro também foi para a sucata, como sucedeu às duas viaturas do meu vizinho, mas este abalroado teve menos sorte, apesar de não ter sido esmagado pelo comboio, ficou sem uma das pernas do joelho para baixo. Também ele foi obrigado a pagar os poucos estragos provocados no comboio. Do mal, o menos.

 

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  CP0017 - Locomotiva: CP E205, Data: Não datado, Local: Régua, Portugal, Slide 35mm

 

As duas últimas vezes que andei no nosso extinto comboio foi quando tivemos de ir, eu e a Luzia, trabalhar para o Alentejo. Connosco também foi o João Vasco, tinha nessa altura um ano. A todos nos custou a viagem. Daqui até Alvalade Sado eram mais de 24 horas de viagem. Com esperas longas e desesperantes, pelo menos para um bebé pouco habituado a dormir fora de horas, agora obrigado a estar sem correr e brincar durante um período de tempo dilatado.

Quando chegámos ao Barreiro, o meu filho recusou-se, pura e simplesmente, a entrar de novo no comboio. Metia o pé no degrau da carruagem, recusava-se a subir e berrava como só ele o sabia fazer. Comprei-lhe uma bonita mota de coleção, a ele que naquela altura não colecionava nada, e para mim adquiri o primeiro romance de José Saramago, Levantado do Chão.

Tive de me socorrer da força. Ele, pouco habituado a tudo aquilo, sobretudo ao meu tratamento, começou a chorar e não mais se calou até chegamos perto do destino. Lembro-me (Amarcord) do meu filho vermelho de exaustão a soluçar, já sem forças, apenas envergando a proteção plástica de fraldas, no colo da mãe, também ela desesperada e chorosa.

Isto foi à ida. Na volta, nas férias do Natal, entre o Porto e a Régua, viajando em primeira classe, sobretudo por causa do nosso filho, recordo-me (Amarcord) de ter comprado o Avante, jornal que nunca li, mas muitas vezes adquiri por dever militante, em conjunto com o Bisnau, um periódico humorístico que lia com muito agrado, e de ter colocado a voz da classe operária a servir de capa enquanto lia o Bisnau, embuçado no interior, numa tentativa de provocação serôdia aos ajaezados burgueses que, enluvados com pelica preta e chapéu domingueiro, liam o Comércio do Porto. Nenhum deles, para minha desilusão, reagiu à provocação, ou se sentiu sequer incomodado, ou ameaçado, pois, estou em crer, tinham mais em que pensar.

 

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 CP0019 - Locomotiva: Não identificada, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal.

 

Depois do Natal lá fomos nós novamente de comboio até Alvalade Sado, com uma interrupção ainda antes de chegarmos a Curalha, para desentupimento da linha, por causa de um deslizamento de terras, motivado pelas fortes chuvadas noturnas.

Nas Pedras Salgadas o comboio teve mesmo de parar, porque tinha havido um descarrilamento com um comboio ascendente que transportava gado bovino. A espera foi tão longa que tivemos de alugar um táxi para nos levar à Régua, para aí podermos apanhar o comboio que nos poderia transportar ao nosso destino. A partir daí a viagem decorreu sem mais percalços.

Viajámos na companhia do meu cunhado e de um outro amigo, na altura ambos a cumprir o serviço militar. Um nos arredores de Lisboa e o outro em Beja.

Foi a esse amigo que ouvi relatar um episódio que a todos nos pôs bem-dispostos. Contou-nos a sorrir que mesmo antes de vir passar o Natal à terrinha tinha acabado de cumprir o castigo a que fora sujeito pelo seu sargento quando um dia, treinando a vara de porcos que tinha a seu cargo, exigiu aos seus subordinados a marcha e outras coisas afins.

 

CP0021.jpgCP0021 - Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal.

 

Foi quando ordenava à vara: “Atenção pelotão, apresentar armas”, que apareceu o seu superior e, assistindo em silêncio ao exercício, no final ordenou ao subordinado: “Caro recruta, pode mandar destroçar o pelotão. E de seguida não se esqueça de passar pelo meu gabinete.”

Dessa vez até o meu filho se riu, enquanto o comboio continuava o seu caminho caras a Lisboa. Passado pouco tempo o comboio que nos ligava à Régua foi extinto.

Anda por aí muita gente a tentar criar associações de defesa disto e daquilo e a tentar salvar as espécies em vias de extinção. Do comboio ninguém se lembrou. Com o abate do nosso comboio ninguém se escandalizou.

 

Deixamo-lo morrer sem apelo nem agravo.

 

Para sempre.

João Madureira

 

*****************************

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

29
Mar16

8 - Chaves, era uma vez um comboio…

800-texas

 

Texas  o comboio   kimvoio

 

Vi-o a primeira vez  ainda na penumbra dos amanheceres,  a passar no fundo do estradão, a minha mãe de futuro em riste, levava a Zé por volta das sete e tal da manhã  à estação das Pedras, para ir para o colégio de Vila Pouca estudar, grande feito à época, bem  admirado bem invejado  o andar, andar a estudar e andar de comboio.

 

Lembro-me da ternura da Sra. Albertina  que morava no figueiredo e dizia que a mãezinha, a d. Aninhas tinha ido buscar a Zeizinha ó Kimvoio… E era assim… Como se o comboio,  além das pernas rodas nos carris, tivesse também braços e desse às mães vindos de um abraço ou colo qualquer,  os filhos sempre em segurança, num devagar se vai ao longe…

 

Sempre me fascinaram as rodas nos carris, num movimento para mim espiral que quase me fazia trocar os olhos por conseguirem  ir todas ao mesmo tempo, a meu ver eram elas  a voz e o instrumento  da orquestra que geravam o som tac a tac a tac o tal pouca terra pouca terra pouca  terra, gerando nas carruagens um movimento de samba folclórico ou de risadinhas constantes por cócegas.

 

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 CP0029 – Locomotiva: Não identificada, Data: 1977, Local: Vidago, Portugal, Slide 35 mm

 

Depois das rodas, a máquina, ora altiva cheia de soberba por ir à frente e puxar as carruagens como quem traz de arrasto os filhos distraídos, ora histérica em guinchos ensurdecedores  a exigir atenção de algum incauto que saia desgarrado  e ocupe a sua linha. Fumadora compulsiva, na altura, creio, mata ratos ou definitivos,  carvão direto aos pulmões   deixando no percurso lufadas de fumo, ambulantes nuvenzinhas de sonho esvaído num implacável céu.

 

À conta da sua falta de pontualidade a Nélia a Kika e o Nelo ainda levaram uma boa reprimenda, a Nélia umas boas chineladas no rabo, por assustarem as pessoas nas madrugadas dentro de um lençol com uma pilha, além de colocarem cartazes escritos das caixas de papelão, nas portas das pessoas fazendo jus às suas alcunhas.

 

Ouvia falar dele com frequência sazonal aquando de passeios de grupos , algumas criticas à sua lassidão.

 

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 CP0005  – Locomotiva: CP E209, Data: Não datado, Local: Régua, Portugal, Slide 35 mm

 

Um dia aí para uns  35 anos , vim da régua  com ele, trouxe-me direitinha com calma que mais valia chegar tarde neste mundo, que mais cedo ao outro, cheguei  a casa meio fusca com algumas faúlhas que se escaparam para nos enfarruscarem à socapa, sabendo que só dávamos conta quando chegássemos a casa, pois não dispúnhamos de espelhinho ali à mão.O balanço foi positivo, gostei, mas naquele tempo eu não sabia ainda o seu valor acrescentado , eu só tinha pressa, ele não estava ara aí virado para as pressas.

 

Lembro-me sempre com um arrepio na espinha de um senhor desesperado que decidiu atirar-se à linha quando ele passou, além das sistemáticas ameaças de senhoras que no auge da deceção pensavam alto em matar-se com a ajuda dele do kimvoio , do texas.

 

Às vezes era o bode expiatório para justificar a presença de indigentes na cidade , dado ser  em Chaves o fim da linha, os viajantes peregrinos tinham de sair e ficar à espera ,surgindo por uns tempos como estranhos na cidade.

 

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 CP0037  – Locomotiva: CP E209, Data: 1973, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35 mm

 

O Mestre Nadir a propósito do meu apelido Seixas contou-me que no seu tempo de estudante  de faculdade quando regressava do Porto, o revisor de nome Seixas mandava sair as pessoas nas subidas do comboio texas e pedia ajuda aos homens para empurrar, entrando  todos os passageiros novamente nas descidas. Foi sempre algo incompreendido, talvez por  deixar tempo aos passageiros para irem às frutas e  às vinhas do caminho  buscar uvas para comer, enquanto brincavam às corridinhas  com o texas que se deixava facilmente apanhar, ainda foi protagonista de excursões a Vidago levando miúdos e graúdos a ver a paisagem  numa alegria intemporal…

 

Depois com o tempo envelheceu, reformou-se e jaz nas memórias, além da carruagem atrás da antiga Estação e da máquina recuperada por algum saudosista perto da linha de Curalha.

 

E a nós deixou-nos  o  memorando  de o lembrar aos nossos filhos e netos se os tivermos…

 

Isabel  Seixas

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

18
Mar16

7 - Chaves, era uma vez um comboio…

800-texas

 

As noites eram todas semelhantes…

 

Muitas vezes, acabados de deitar, éramos acordados sempre com a mesma pergunta:

 

- “Querendes ir ó contrabando?”

 

Sabíamos não ser uma pergunta, por isso, sem responder, levantávamo-nos e lá íamos nós em direcção ao ponto de recolha. Habitualmente, um curral em Vilarinho da Raia. Aí eram-nos distribuídas as nossas tarefas para essa noite de acordo com as capacidades que já tivéssemos demonstrado.

 

Sabíamos também haver sempre algum perigo inerente a estas actividades, pois nem todos os guardas-fiscais estavam a “dormir”, mas o dinheiro dava-nos jeito para as nossas pequenas coisas.

 

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 CP0107 – Locomotiva: CP E205, Data: 1973, Local: Chaves, Portugal, Slide 35 mm

 

As noites eram todas semelhantes…

 

Eram noites de Inverno e, por serem mais longas, permitiam, quando necessário, fazer mais do que uma viagem.

 

Eram noites frias, escuras, que serviam para disfarçar as nossas silhuetas e combiná-las com as sombras da vegetação que ladeava os caminhos por onde passávamos.

 

Mas, sobretudo, eram noites sem luar. O único brilho permitido era o pálido e suave tremeluzir das estrelas.

 

Para mim, as noites preferidas eram as de chuva. É certo que não tínhamos as estrelas, mas não restavam dúvidas quanto às noites serem mais frias, mais escuras e muito, mas muito mais silenciosas.

 

O som da chuva abafava os nossos passos. Também o “martelar” dos cascos dos animais e algum balido ou relinchar, que escapasse ao cansaço que se acumulava, deixavam de ecoar no vazio da noite.

 

Essencialmente, trazíamos ovelhas e cabras velhas, mas também cavalos, machos e burros, todos estes também com um longo percurso de vida ou com graves mazelas que os impedia de continuar a cumprir as suas funções.

 

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  CP0117 – Locomotiva: Não identificada, Data: Não datado, Local: Chaves, Portugal, Slide 35 mm

 

As noites eram todas semelhantes…

 

Tal como a passagem obrigatória pela nossa Aldeia – Outeiro Seco. Aqui, já os caminhos que percorríamos variavam. Ou para não utilizarmos sempre o mesmo, ou porque sabíamos que um deles estava a ser guardado, ou para dividirmos a “carga” para o caso de sermos apanhados pela Guarda Fiscal.

 

Nessa altura, os caminhos da nossa Aldeia eram transitáveis, não como hoje em dia, onde nem uma pessoa passa. Das nascentes brotavam águas límpidas, cristalinas, puras, onde qualquer Ser Humano ou animal podia saciar a sua sede sem receio, não como hoje em dia, em que tanto as nascentes, como as linhas de água estão poluídas pelos esgotos (provenientes dos parques empresariais) que correm a céu aberto e tudo infestam.

 

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  CP0165 – Locomotiva: CP E205, Data: Outubro de 2001, Local: Azpeitia, Espanha Slide 35 mm

 

As noites eram todas semelhantes…

 

Saíamos de Vilarinho da Raia com um destino muito preciso: a estação dos comboios em Chaves, onde carregaríamos o gado nos vagões com destino aos matadouros do Porto (ou pelo menos era o que se constava).

 

De Vilarinho da Raia seguíamos em direcção a Vila Meã e dali ao Cotrão. Ao chegar ao Cotrão, caso ainda não nos tivessem sido dadas indicações, deveríamos seguir um de dois itinerários ou dividir o gado pelos dois.

 

Aquele que mais utilizávamos era o que seguia pelo Alto Silveira, Almeirinho, Senhor dos Desamparados e Mina.

 

O outro vinha pelo caminho da Teixugueira, Caminho da Torre, Moucho e Mina.

 

A partir da Mina, o percurso era o mesmo: seguíamos em direção ao Papeiro, Mãe d'Água, Poços de Volfrâmio, Santa Cruz, Forte de São Neutel, Bairro Verde e, finalmente, estação dos comboios.

 

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  CP0123 – Locomotiva: CP E205, Data: 22 de Julho de 1976, Local: Vila Real, Portugal, Slide 35 mm

 

As noites eram todas semelhantes…

 

A estação estava sempre envolta em vapor, fumo e, porque não dizê-lo, mistério, que se acentuava com a escuridão da noite. Nunca vimos lá ninguém. Embora não tivéssemos interesse nenhum, presumo que o motivo fosse o de assim não poderem ser identificados. Os únicos ruídos que se distinguiam claramente eram os das caldeiras e do espezinhar do gado que, talvez por adivinhar o seu destino, se recusava a entrar nos vagões.

 

Havia rampas já colocadas para carregar as ovelhas e cabras nos vagões de bordas baixas (abertos) e outras para carregar nos vagões fechados os cavalos, machos e burros. O gado era encartado como sardinhas em lata. Diziam que o que interessava era o número de cabeças que chegava ao destino e não o estado em que estivessem.

 

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  CP0131 – Locomotiva: CP E202, Data: 1965, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35 mm

 

As noites eram todas semelhantes…

 

Já de regresso a casa, às vezes a-modos de despedida, ouvia-se o apito estridente e o som metálico da locomotiva que assim anunciava a sua partida. A aurora já se renovava, dando início a um novo dia e, talvez, a mais uma noite semelhante a tantas outras.

 

A verdade é que nunca viajei no nosso comboio, mas sinto muito a sua falta e lamento que todas as infra-estruturas tenham sido abandonadas ou destruídas por quem dirigia ou dirige os destinos da nossa Região, amontoando num espaço exíguo meia-dúzia de objectos, destruindo com elas as memórias de uma linha.

Humberto Ferreira

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

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