Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Out20

O Barroso aqui tão perto - Nogueira

Aldeias do Barroso - Concelho de Boticas

1600-sapelos (205)

1600-cabecalho-boticas

 

NOGUEIRA

 

Hoje no Barroso aqui tão perto, vamos até a aldeia de Nogueira, a terceira e última aldeia da freguesia de Ardãos e Bobadela, aqui bem pertinho de nós (cidade de Chaves), a apenas 18.3Km. Não queremos ser repetitivos, mas aquilo que dissemos sobre Ardãos e Bobadela, dada a proximidade das três aldeias, também se aplica a Nogueira, principalmente o seu enquadramento e relacionamento que tem com a Serra do Leiranco e com o vale do Alto Terva, daí os próximos capítulos são um bocadinho daquilo que já dissemos para as outras aldeias da freguesia.

 

1600-nogueira (286)

1600-nogueira (308)

 

Nogueira fica precisamente entre as duas aldeias que dão nome à freguesia, Ardãos e Bobadela, ficando a 1.800m de Ardãos e a 700m de Bobadela.  é a freguesia localizada mais a norte do concelho de Boticas e faz uma “incursão”, como se tivesse ficada entalada, entre o concelho de Montalegre e o concelho de Chaves, ficando o limite da freguesia bem próximo das aldeias de Meixide (Montalegre) e de Castelões, Calvão, Seara Velha, Soutelo, Noval, Pastoria, Casas Novas e Redondelo, estas todas do concelho de Chaves e a menos de 2Km do limite desta freguesia barrosã, com a Pastoria a menos de 500m de distância.

 

1600-nogueira (301)

1600-nogueira (291)

 

A par da aldeia de Sapelos, da freguesia de Sapiãos, é também a freguesia que se abre para o vale do Alto Terva, a acompanhar o rio Terva que, em termos de peixe só “dá bogas e às vezes trutas” e só nalguns troços do rio, mas que, desde a ocupação romana,  é conhecida pela riqueza em ouro do seu subsolo, pelo menos os romanos exploram neste vale algumas minas deste metal precioso, construíram uma cidade (Batocas) e fizeram passar por ela importantes vias romanas e/ou importantes ligações à Via Romana XVII, que ligava Bracara (Braga) a Asturica (Astorga), com passagem por Aquae Flaviae (Chaves).

 

1600-nogueira (283)

1600-nogueira (14)

 

Vale do Alto Terva onde existe um parque arqueológico, com alguns passadiços, miradouros, vestígios das antigas minas de ouro, como o poço das Freitas, ou vestígio da antiga cidade de Batocas, gravuras, castros, etc. Mas desde já fica um conselho, se não conhece o vale do Terva, não se aventures a ir para lá às cegas, que o mais provável é não encontrar nada ou mesmo perder-se. Na aldeia vizinha de Nogueira, Bobadela, junto à Igreja/cruzeiro, há um posto de informações com muita documentação, mapas, rotas (natura, das vias antigas, das gravuras, das minas, dos castros e das aldeias) e demais informações. Penso mesmo que fazem visitas guiadas ao Parque Arqueológico. Antes de se aventurar por lá sozinho, vá com alguém que conheça ou passe por este posto de informações.

 

1600-nogueira (278)

1600-nogueira (13)

 

Como já perceberam esta aldeia de Nogueira é uma aldeia bem próxima da cidade de Chaves mas nada tem a ver com a Nogueira da Montanha de Chaves. Para se ir até lá, Nogueira de Boticas, temos dois acesso possíveis, mas, curiosamente,  ambos mais ou menos à mesma distância. Um dos acessos é via EN103, estrada de Braga, passando por Curalha, Casas Novas, S. Domingos, Sapelos (já de Boticas) e a seguir a esta aldeia irá atravessar uma ponte sobre o rio Terva onde logo a seguir terá uma saída à direita (M507), por onde terá de percorrer 1,7Km para chegar a Nogueira. A outra alternativa, é com saída por Casas dos Montes, Valdanta, Soutelo, Seara Velha, Ardãos (já em Boticas), e logo a seguir temos Nogueira. Nós recomendamos este último itinerário, mas o melhor mesmo, é ir por um itinerário e regressar pelo outro, e aí tanto faz. Fica o nosso mapa para melhor poderem localizar a aldeia e ver como é mesmo perto da cidade de Chaves.

 

mapa nogueira.jpg

1600-nogueira (132)1

 

Nogueira fica implantada já em plena Serra do Leiranco, logo no início da sua encosta vira da nascente, a uma altitude a rondar os 600m, uma serra que embora muitas vezes fique vestida de branco no inverno, protege a aldeia dos ares frios vindos do grande planalto do Larouco e do restante Barroso. É uma aldeia que há muito conhecíamos das nossas inúmeras passagens, mas como sempre vamos dizendo, só passar, não nos dá a conhecer a aldeia. É preciso parar, entrar na sua intimidade, demorarmo-nos por lá o tempo que tiver de ser, e se possível, conversar com os seus residentes, só assim poderemos ficar com algum conhecimento dela, e esta aldeia, tal como as outras duas da freguesia,  surpreendeu-nos pela positiva. Sinceramente gostámos daquilo que vimos e que vamos deixando aqui um pouco em imagem. Uma aldeia com gente simpática, com que tivemos oportunidade de conversar e desfrutar das conversas e que nos levaram à descoberta de alguns pontos de interesse que sem a dica e indicação dos residentes, talvez não tivéssemos descoberto ou ficar a saber do que se tratava e da importância para a aldeia.

 

1600-nogueira (125)

1600-nogueira (67)

 

Então vamos lá entrar em Nogueira, recordando um pouco o dia 19 de julho de 2018, eram 8H00 (da manhã) quando lá chegámos, num dia coberto de nuvens que na serra do Leiranco era nevoeiro espesso, mas mesmo assim, convém recordar que estávamos numa aldeia, onde as pessoas têm por hábito levantarem-se cedo, daí já haver muita gente nas ruas, que ao saber ao que íamos, nos iam indicando as coisas bonitas para ver, a igreja, as capelas, o calvário, o cruzeiro, etc.

 

1600-nogueira (187)

1600-nogueira (194)

 

E lá fomos andando e descobrindo, mas como sempre, há pessoas mais dadas às conversas, que gostam de nos mostrar e levar até aquilo que eles acham ser do nosso interesse. Ao longo das ruas não precisamos de nos anunciar, os cães, à nossa aproximação, como estranhos que somos, dão sempre o aviso, tem aquele ladrar de dizer “anda aqui gente”, cumprem a sua missão, mas depois vêm ter connosco e dentro do seu território, até nos fazem companhia.

 

1600-nogueira (311)

1600-nogueira (153)

 

Já junto ao calvário encontrámos o Sr. Amaro, mas ao qual todos chamam Mário, perguntámos-lhes pelo que era feito do sol… “ele lá vem, hoje vem mais tarde…” por acaso até nem veio, e acrescentou “mas entra hoje o quarto-crescente e é capaz de mudar o tempo”. Pois sinceramente, para a fotografia dentro das aldeias, prefiro os dias encobertos aos dias de sol intenso, desde que haja luz. E a luz também se vai fazendo nestas conversas, como por exemplo a do Sr. dos Aflitos, que estava mesmo à nossa frente e não dávamos por ele. “Tem muita visita, gente de fora e emigrantes, quando estão aflitos, lembram-se dele…”, dizia-nos o Sr. Amaro a quem todos chamam Mário.

 

1600-nogueira (149)

1600-nogueira (146)

 

Nestas nossas andanças pelas aldeias do Barroso, sem conversas, despachamos a coisa em menos de uma hora, e em Nogueira estivemos quase a cumprir. Depois da conversa com o Sr. Amaro ao qual todos chamam Mário, demos a missão como cumprida, já estávamos de partida quando passamos por uma casa cuja decoração e pintura da fachada nos chamou a atenção. Claro que tivemos de parar para fazer o registo e, continuaríamos para Bobadela se não tivéssemos encontrado a Dona Natividade com a qual estivemos mais de uma hora na conversa.

 

1600-nogueira (245)

1600-nogueira (233)

 

A Dona Natividade que nos contou montes de estórias, alguma a envolver o seu nome, “o meu nome é fraco”, isto por não ser muito vulgar, era o único nas redondezas e só encontrou uma vez em Chaves um senhora com o mesmo nome. Com 88 anos, pedi-lhe para repetir a idade, pois parecia ter muito menos, e confirmou, 88 anos, e acrescentou “aqui o sossego da terra vale muito”. Pela certa que sim, bem mais sossegados que os anos que passou em França como emigrante, isto nos anos 60/70 do século passado, mas onde ainda tem filhos, netos e bisnetos. Contou-nos muitas estórias, sobretudo estórias que a sua “Vó” lhe contava, e ia-nos dizendo, “Quando eu era garota pequena os velhinhos diziam tantas coisas… a minha Vó dizia-nos: Olhai meus filhos, nada entra aqui no nosso povo, e porque Vó, perguntava eu, e ela dizia-me, olha, porque o diabo já andou para entrar na nossa aldeia, mas dizem que não conseguiu entrar, porque na “estaca do argueiro” está a N. Sr.ª do Alívio, no fundo do povo está o S. Caetano, lá em cima tem o Sr. dos Aflitos, ao pé da serra, ali em cima, tem a capela da Senhora das Graças”.

 

1600-nogueira (238)

1600-nogueira (270)

 

É o diabo não se deve dar muito bem por estas bandas, pois aqui, só nas redondezas desta aldeia, num circulo de 5km de raio, há pelo menos 5 santuários (S.Caetano, Srª do Engaranho (Castelões), Srª da Aparecida (Calvão) Srª das Neves (Ardãos), Sr. dos Milagres (Sapelos), então igrejas, capelas, nichos e alminhas, nem se fala...  “Já dizia a minha Vó”, continuava a Dona Natividade “Olhai meus filhos quando os homens andarem feitos pássaros a voar lá pelo ar e em cavalos cegos pela estrada fora, preparai-vos para o fim do mundo que está próximo… homens que matam filhos, pais que derrotam as filhas, eu às vezes até fecho a televisão…” . Aproveitámos a chegada do padeiro de Faiões, o padeiro do trigo de quatro cantos, para nos despedirmos da Dona Natividade.

 

1600-nogueira (254)

1600-nogueira (49)

 

E agora passemos ao que dizem os documentos, mais precisamente ao que encontrámos sobre Nogueira na monografia “Preservação dos Hábitos Comunitários das Aldeias do Concelho de Boticas”.

 

Castro de Nogueira

Designação: Castro de Nogueira

Localização: Nogueira (Bobadela)

Descrição: o Castro de Nogueira fica no topo dum alto cabeço cónico por cima e a NO da aldeia de Nogueira, freguesia de Bobadela.

O acesso a este castro pode fazer-se pelo estradão até à Casa Florestal, dali aos lameiros da Serra, à Salgueira, e uns 200 m acima encontra-se um caminho e carro de bois que leva ao alto, junto das muralhas do castro, quase todas alagadas, embora haja algumas porções que ainda têm 1 m de altura.

No topo do castro existem indícios de aí terem existido casas. No que se refere às muralhas, estas encontram-se muito derruídas e quase imperceptíveis, não sendo possível aferir a sua dimensão. Foram encontrados vários pedaços de cerâmica neste espaço.

Perto do castro, do lado Nascente, encontra-se um ribeiro

 

1600-nogueira (46)

1600-nogueira (34)

 

Festas e Romarias

Santa Cruz,* 03 de Maio,

São Caetano,* 1º Domingo de Agosto,

 

Património Arqueológico

Castro de Nogueira

 

Património Edificado

Calvário

Capela de S. Mamede

Cruzeiro

Forno do Povo de Nogueira

 

1600-nogueira (28)

1600-nogueira (26)

 

As Lamas / Lameiras do Povo ou do Boi

(...)

Em algumas aldeias existem lamas/lameiras do povo ou do boi, propriedade comum da aldeia. Nas aldeias onde existiu boi do povo, estas propriedades garantiam parte da sua alimentação, sendo utilizadas como pastagem e para a produção de forragens (feno). Actualmente, estas propriedades, geridas pelas Juntas de Freguesias ou pelos Conselhos Directivos dos Baldios, são arrendadas aos lavradores que delas precisem. Anualmente, ou de cinco em cinco anos, como acontece em Nogueira (Bobadela), são postas a leilão e arrematadas por quem fizer melhor oferta, pois como costumam dizer “quem mais dá, mais amigo é do Santo”.

 

1600-nogueira (25)

1600-nogueira (17)

 

A água

(…)

As aldeias de Bobadela e Fiães do Tâmega, que partilhavam água com as aldeias vizinhas (Nogueira e Veral), recorrendo a determinadas estratégias, conseguiram ficar na posse dela. Na freguesia de Bobadela, ficou na memória dos aldeãos a história do “Santo Ladrão”. Conta a história que, há muitos anos atrás, no tempo dos antigos, Bobadela e Nogueira dividiam entre si uma água que vinha da Serra do Leiranco. Os de Bobadela achavam que aquela água lhes pertencia por direito e que não tinham que partilhá-la com os de Nogueira, pois estes já tinham muita água, doutras nascentes dessa Serra. Assim, arranjaram um estratagema para ficarem com a água toda, sem que os de Nogueira pudessem contestar tal apropriação. Um dia, juntaram-se as pessoas de ambas as aldeias, dirigiram-se à Serra, ao tornadouro de divisão das águas e combinaram deitar metade da água para Bobadela e a outra metade para Nogueira. A aldeia onde a água chegasse primeiro, ficava com ela. O sinal da chegada da água era o toque do sino da capela, em Nogueira, ou da capela de S. Lourenço, em Bobadela. Ora, os moradores de Bobadela, já com ela fisgada, ainda a água vinha longe, já eles estavam a tocar o sino. Os de Nogueira aceitaram a sentença, mas, convencidos que tinha havido batota, passaram a chamar-lhe o Santo Ladrão.

 

1600-nogueira (16)

1600-nogueira (15)

 

(…)

Todos os regantes, para poderem usufruir dos seus direitos de água, estão obrigados a participar nos ajuntamentos dos regos, sob pena de não poderem regar. Na prática, isso não acontece. O faltoso, nalgumas situações, apenas se arrisca a uma reprimenda verbal; noutras aldeias, como por exemplo Nogueira, quem, por algum motivo, não possa participar nestes ajuntos pode “compensar” os regantes que o fizeram, fazendo outro trabalho a favor da comunidade, como por exemplo limpar uma fonte ou um tanque.

 

1600-nogueira (213)

1600-nogueira (12)

 

Há ainda, como acontece em Nogueira (Bobadela) aqueles que têm água e não têm terrenos para regar. Então, dão a água a um vizinho que precise e este, em troca, dá-lhe batatas, dinheiro, etc. Há alguns anos atrás, tentaram alterar o sistema de atribuição da água de rega, de forma a dividirem-na apenas entre os que tivessem terras. Todavia, os que não tinham terras não abdicaram do seu direito à água e depressa se voltou ao sistema dos antigos.

 

1600-nogueira (10)

1600-nogueira (7)

 

O Gado

(...)

Acontecia, por vezes, em algumas aldeias, como por exemplo em Valdegas (Pinho) e em Nogueira (Bobadela), as pessoas mobilizarem diferentes recursos para poderem criar gado. Existia um sistema, o chamado gado a meias, em que um era dono dos animais e o outro detinha os recursos para a sua alimentação, ou garantia o seu pastoreio. Os lucros obtidos, por exemplo com a venda de crias, eram divididos pelos dois.

 

1600-nogueira (269)

 

E ficamos por aqui, neste tão longo post, mas muito mais haveria para dizer e imagens para mostrar. Fica para uma próxima oportunidade. Agora fica o vídeo, com um resumo apenas em imagem deste post. Espero que gostem

 

 

 

Agora este e outros vídeos do Barroso e região, também podem ser vistos no MEO Kanal nº 895 607

 

Quanto a aldeias do Barroso de Boticas, no próximo domingo teremos aqui o post da freguesia de Ardãos e Bobadela, à qual também pertence a aldeia de Nogueira.

 

 

13
Set20

O Barroso aqui tão perto - Freguesia de Alturas do Barroso e Cerdedo

1600-brasao-Vilarinho-seco (688).jpg

1600-cabecalho-boticas

 

 

Freguesia de Alturas do Barroso e Cerdedo

 

Nas últimas semanas trouxemos aqui todas as aldeias da freguesia de Alturas do Barroso e Cerdedo, uma freguesia recente que resulta da união da antiga freguesia de Alturas do Barroso e a freguesia de Cerdedo, ambas extintas com a última reorganização administrativa do território, Lei n.º 11-A/2013 de 28 de janeiro. Assim os dados que possuímos, são os das antigas freguesias antes da sua união, pelo que, neste resumo, serão abordadas em separado. Mas para iniciar, fica o mapa da atual freguesia e o gráfico síntese com a população total da atual freguesia e das antigas fregiuesias.

 

mapa freg-alt-cerd-1.jpg

grafico alturas-e-cercedo.jpg

 

Antiga freguesia de Alturas de Barroso

 

boticas-antig-freg-2.jpg

 

Localização geográfica: Situa-se em pleno coração da Serra do Barroso, na parte Noroeste do concelho.

Distância relativamente à sede do concelho: aproximadamente 18 km

Acesso viário: Pela ER 311, vira-se em direcção a Carvalhelhos e percorre-se a EM 520. Em alternativa, pode seguir-se pela ER 311, vira-se em direcção a Vilarinho Seco e percorre-se o CM 1035 até Alturas do Barroso.

Área total da freguesia: 32,8 km2

Localidades: Alturas do Barroso, sede de freguesia, Atilhó e Vilarinho Seco

População: 444 habitantes

Orago: Santa Maria Madalena

 

grafico alturas.jpg

 

Festas e Romarias

São Sebastião, 20 de Janeiro, Alturas do Barroso.

São Sebastião, Domingo a seguir ao dia 20 de Janeiro, Atilhó.

Santa Cruz, 03 de Maio, Vilarinho Seco

Sto António,* 13 de Junho, Alturas do Barroso e Atilhó

Santa Maria Madalena,* 26 de Junho, Alturas do Barroso

São Paio,* 26 de Junho, Vilarinho Seco

Santa Ana, 26 de Julho* / inicio de Agosto, Alturas do Barroso

Santa Margarida, último domingo de Agosto, Atilhó

Santa Bárbara,* 04 de Dezembro, Atilhó

Santa Luzia,* 13 de Dezembro, Atilhó

 

(*) Apenas celebração religiosa.

 

1600-s-sebastiao (808).jpg

Cruzeiro e tanque em Alturas do Barroso

 

Património Arqueológico

Castro de Vilarinho Seco / Couto dos Mouros

Castro do Côto dos Corvos

Mamoa da Pedra do Sono / Pedra do Sono

Mamoa de Chã do Seixal / Chã do Seixal

 

1600-alturas (311).jpg

Alturas do Barroso

 

Património Edificado

Capela de Nossa Sra. de Fátima (Alturas do Barroso)

Capela de Sampaio (Vilarinho Seco)

Capela de Santa Margarida (Atilhó) – Património Classificado (IIM)

Casas de Vilarinho Seco

Forno do Povo de Alturas do Barroso

Forno do Povo de Atilhó

Forno do Povo de Vilarinho Seco

Igreja Paroquial de Santa Maria Madalena (Alturas do Barroso)

Relógio de Sol (Vilarinho Seco).

 

1600-Vilarinho-seco (874).jpg

Vilarinho Seco

 

Outros locais de interesse turístico

Casas com cobertura de colmo

Miradouros Naturais da Serra do Barroso

Moinhos

Museu Rural de Alturas do Barroso

Parque de Lazer de Peade (Alturas do Barroso)

 

Aldeias da antiga freguesia de Alturas de Barroso

 

Alturas do Barroso

 

Para quem quiser rever mais alguns dados sobre a aldeia de Carvalho, basta seguir este link para o post que lhe dedicámos: Alturas do Barroso

 

1600-alturas-14 (12).jpg

1600-alturas (115).jpg

 

 

Atilhó

 

Para quem quiser rever mais alguns dados sobre a aldeia de Carvalho, basta seguir este link para o post que lhe dedicámos: Atilhó 

 

1600-atilho (182).jpg

1600-atilho (31).jpg

 

Vilarinho Seco

 

Para quem quiser rever mais alguns dados sobre a aldeia de Carvalho, basta seguir este link para o post que lhe dedicámos: Vilarinho Seco 

 

1600-Vilarinho-seco (736).jpg

1600-Vilarinho-seco (713).jpg

 

 

Antiga freguesia de Cerdedo

 

boticas-antig-cerdedo.jpg

 

Localização geográfica: A freguesia de Cerdedo situa-se no extremo Oeste do concelho de Boticas.

Distância relativamente à sede do concelho: aproximadamente 25 km

Acesso viário: Pela ER 311 até aparecer a indicação Cerdedo.

Área total da freguesia: 23,9 km2

Localidades: Casas da Serra, Cerdedo, sede de freguesia, Coimbró, Covêlo do Monte e Virtelo.

População: 176 habitantes

Orago: S. Tiago

 

grafico cerdedo.jpg

 

Festas e Romarias:

Santo Amaro,* 15 de Janeiro, Coimbró

São Sebastião, 20 de Janeiro, Cerdedo

Santo António e S. Lourenço,* Terceiro Domingo de Agosto, Cerdedo

Nossa Senhora da Saúde, Agosto, Coimbró

Senhora do Monte, 08 de Setembro, Cerdedo

 

(*) Apenas celebração religiosa.

 

1600-cerdedo (236).jpg

Igreja Paroquial de São Tiago - Cerdedo

 

Património Edificado

Assento de Lavoura

Capela da Senhora do Monte (Cerdedo)

Capela de N. Sr.ª da Ajuda (Virtelo)

Capela de Santo Amaro (Coimbró)

Casa do Morgado de Coimbró

Casario Tradicional de Coimbró - Património em vias de Classificação

Forno do Povo de Cerdedo

Forno do Povo de Coimbró

Igreja Paroquial de S. Tiago (Cerdedo)

 

 

Aldeias da antiga freguesia de Cerdedo

 

Casas da Serra

 

Para quem quiser rever mais alguns dados sobre a aldeia de Carvalho, basta seguir este link para o post que lhe dedicámos: Casas da Serra

 

 

1600-casas-serra (118).jpg

1600-casas-serra (109).jpg

 

Cerdedo

 

Para quem quiser rever mais alguns dados sobre a aldeia de Carvalho, basta seguir este link para o post que lhe dedicámos: Cerdedo

 

1600-cerdedo (44)-1.jpg

1600-cerdedo (223).jpg

 

Coimbró

 

Para quem quiser rever mais alguns dados sobre a aldeia de Carvalho, basta seguir este link para o post que lhe dedicámos: Cerdedo

 

 

1600-coimbro (177).jpg

1600-coimbro (191).jpg

 

Covêlo do Monte

 

Para quem quiser rever mais alguns dados sobre a aldeia de Carvalho, basta seguir este link para o post que lhe dedicámos: Covelo do Monte

 

1600-covelo-Monte (67).jpg

1600-covelo-Monte (321).jpg

 

Virtelo

 

Para quem quiser rever mais alguns dados sobre a aldeia de Carvalho, basta seguir este link para o post que lhe dedicámos: Virtelo

 

1600-virtelo (78).jpg

1600-virtelo (59).jpg

 

E por hoje é tudo. No próximo domingo iremos até à aldeia de Ardãos, iniciando assim a nossa ronda pelas aldeias da freguesia de Ardãos e Bobadela.

20
Jul20

O Barroso aqui tão perto - Cerdedo

Aldeias de Barroso - Concelho de Boticas - Portugal

1600-cerdedo (44)-1

1600-cabecalho-boticas

 

CERDEDO 

 

A descoberta de Cerdedo é recente. A primeira vez que lá fui, foi pela mão do Luís de Boticas, um botiquense amante do seu Barroso e também colaborador deste blog. Estávamos na festa do São Sebastião da Vila Grande, Dornelas. edição de 2016, e falou-nos desta aldeia, que tínhamos de ir lá, e lá fomos, antes de fazemos a passagem do São Sebastião da Vila Grande para o São Sebastião das Alturas do Barroso. O mesmo santo, ambas festas comunitárias, mas bem diferentes na forma de as fazer. Já agora, o Cerdedo também celebra o São Sebastião, também com uma festa comunitária, logo pela manhã, ainda antes de começar a da Vila Grande, mas sobre isso, falaremos mais à frente.

 

1600-cerdedo (383)

1600-cerdedo (355)

 

Pois mal chegámos à aldeia, quer-se dizer, mal parámos na estrada ER311 e lançamos um olhar sobre a aldeia, ficámos logo apaixonados por ela. Como era possível por entre montanhas despidas ou vestidas tons avermelhados e acastanhados escuros, existir tanto verde. Parecia coisa artificial, uma tela pintada por um artista naturalista de paisagens que tinha abusado e exagerado na exuberância verde, apenas quebrado pelo recortar dos muros de pedras e do casario que se vai dispersando no meio de tanto verde, mas tudo aquilo era real e estava ali mesmo à minha frente. Mas dessa vez ficámos apenas pelas vistas desde a estrada, mas Cerdedo ficou debaixo de olho para as próximas passagens e para uma visita com descida à aldeia, nas calmas.

 

1600-cerdedo (38)-f

1600-cerdedo (3)-granjo8-f

 

E assim foi durante os 2 anos seguintes até maio de 2018 em que decidimos fazer a descida à aldeia para o nosso levantamento fotográfico e algumas conversas, aliás muitas conversas, pois Cerdedo é uma terra com gente nas ruas que gosta de conversar e de alguns lamentos. Contam-nos estórias, falam-nos nos filhos que estão fora a lutar pela vida, da vida na aldeia, do “trabalhar de estrela a estrela” como me dizia o Sr. Arlindo e a D. Alda, falam-nos na falta de gente na aldeia e nas aldeias vizinhas, “antigamente bastava um realejo e fazia-se logo um baile na rua, agora não há ninguém” três, filhos, todos fora, “a mais nova vive no Algarve” dizia-nos a D. Alda enquanto nos mostrava a cozinha velhas e a adega onde faziam vinho , a bold e sublinhado pois fazer vinho no Barroso é obra, mas agora já não se faz, “as pipas estão todas esbardalhadas” e se não fosse termos uma agenda a cumprir, ainda hoje lá estávamos à conversa.

 

1600-cerdedo (320)

1600-cerdedo (286)

 

Estas entradas nas aldeias do Barroso têm de ser feitas sempre como mandam as regras, primeiro com respeito por tudo e por todos, depois convém fazer as apresentações, dizer ao que vamos, quem somos, de onde vimos, para onde vamos, depois vem a conversa, saber ouvir é importante, muito importante, primeiro porque aprendemos sempre alguma coisa, depois porque nos dão dados preciosos para o conhecimento e pordemos fazer um pouco da história destas aldeias, e tivéssemos mais tempo, não fosse uma “visita de médico” para recolher imagens, e acabávamos à mesa com uns nacos de presunto, linguiças e bom vinho (este das terras onde o há do bem), tudo do genuíno, tal é a pureza e hospitalidade deste povo barrosão. Mas atenção, isto é para quem vai por bem e com boas intenções, e eles sabem quando assim é, pois para os que vão de má fé e são descobertos, o mais provável é levarem umas estadulhadas no lombo ou na cabeça, que os arruma logo, mas como agora os estadulhos já não estão à mão,  um zagalote também serve, perde-se talvez uma perdiz ou um coelho, mas não são levados por lorpas.    

 

1600-cerdedo (360)

1600-cerdedo (317)

 

Quanto à aldeia, já fora das vistas desde a ER311, agora já na sua intimidade, tem um povoamento disperso ao longo de todos os cainhos, mas com dois pequenos núcleos mais consolidados. A aldeia cabe dentro de um circulo com perto de 900 metros de diâmetro, e no seus tempos em que a população abundava, a freguesia chegou a ter 508 habitantes (Censo de 1960), mas nos últimos Censos (2011) a freguesia só já tinha 145 habitantes e Cerdedo, segundo informações colhidas na aldeia, agora tinha à volta de 70 pessoas, mesmo assim, ainda é uma aldeia com vida.

 

1600-cerdedo (313)

1600-cerdedo (273)

 

A aldeia implanta-se numa baixa entre montanhas, não em vale, mas em terras com pouca inclinação, mesmo assim a construção que se encontra no ponto mais alto da aldeia está implantada quase a uma cota de 1000 metros de altitude, enquanto que o ponto mais baixo, já junto ao rio, anda na cota dos 800 metros. Terras altas e de invernos rigorosos, mas sem a força de quebrar ou queimar o verde das pastagens cuja exuberância domina a cor da aldeia.

 

1600-cerdedo (278)

1600-cerdedo (236)

 

Para mim, ou seja a opinião é pessoal, se me pedissem para indicar 10 aldeias do Barroso de visita obrigatória, não hesitaria nem um segundo em indicar Cerdedo, não por ser uma aldeia típica do Barroso, mas pelo seu todo e pelo domínio e exuberância do seu verde.

 

1600-cerdedo (265)

1600-cerdedo (30)-f

 

E como se chega lá!? Pois é muito fácil. Para nós que saímos sempre da cidade de Chaves, basta apanhar a EN103 (estrada de Braga) até Sapiãos, depois Boticas e aqui apanhamos a ER311 em direção a Salto, depois ´se seguir sempre pela ER311 até chegar a Cerdedo. Atenção às placas de entrada na aldeia, pois embora as melhores vistas sobre Cerdedo sejam desde a ER311, indo de carro e desde o seu interior, a aldeia não é muito visível, é necessário estarmos bem na berma da estrada para a ver como deve ser. Depois de apreciá-la lá desde cima, desde a ER311, uma descida à aldeia é obrigatório, e não se preocupe se deixou a entrada da aldeia para trás, pois como a aldeia tem 4 entradas, pode apanhar a última e assim vai vendo a aldeia de vários ângulos, qual deles o mais interessante. Para ajudar um pouco na localização, fica o nosso mapa.

 

mapa cerdedo.jpg

mapa cerdedo-1.jpg

 

Para ver com mais atenção, recomenda-se uma visita à igreja do cemitério e também as vistas que desde aí se alcançam para a aldeia, mais uma vista interessante e diferente de todas as outras. Os dois pequenos núcleos de construções, também são interessantes, e uma descida ao rio, também é de não perder.

 

1600-cerdedo (253)

1600-cerdedo (250)

 

Falta-nos conhecer com mais pormenor a Festa do São Sebastião, que tal como as outras do Barroso se celebra todos os anos a 20 de janeiro. Este ano fomos lá, mas chegamos em má hora para as nossas pretensões, que seria antes ou depois da missa, mas quando chegámos estava a missa a decorrer, e como na nossa agenda estava também chegar a horas à Vila Grande, adiámos para uma próxima edição, talvez na próxima edição, isto se o raio do bicho do Covid-19 o permitir, vamos esperar que até lá tudo fique resolvido com este problema que tanto nos afeta a normalidade dos dias, das festas e do convívio onde as pessoas de ajuntam. 

 

1600-cerdedo (249)

1600-cerdedo (244)

 

Mas vejamos o que diz a monografia de Boticas – Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias de Boticas.

 

Festa de S. Sebastião em Cerdedo

 

A Festa em honra de S. Sebastião, a 20 de Janeiro, em Cerdedo, é muito antiga, como o certifica o Abade em 1758, e caracteriza-se pela sua dimensão intimista. Mantém as características genuínas de uma manifestação religiosa comunitária onde praticamente só os moradores da freguesia e alguns dos seus “filhos” emigrados que por essa altura vêm à terra venerar o Santo e cumprir com os seus votos, se juntam pelas oito da manhã na igreja em torno do pároco para celebrar a missa da festa. Após esta, parte em cortejo processional em direcção à casa do Juiz. Este, com o Santo no regaço, segue atrás da cruz, acompanhado por todos. O pároco, uma vez chegado, benze e abençoa sucessivamente o pão, a carne e o vinho, delicadamente expostos em cestos e tabuleiros, sob a presença do Santo venerado.

 

1600-cerdedo (239)

1600-cerdedo (227)

 

E continua a monografia:

 

Cá fora, no logradouro da casa ou na eira, dispõe-se a mesa coberta com toalha branca e na cabeceira, numa outra mesa pequena, coloca-se o São Sebastião que vai presidir à refeição comunitária. A mulher do mordomo aparece com tabuleiros de pão cortado em fatias, logo atrás surgem as vizinhas com travessas de carne de porco (peito) cortada em bocados. E, num movimento rápido e partilhado, um traz o vinho, outro os copos, outro os guardanapos de papel. Entretanto os devotos iniciam a refeição. Equipados com uma navalha ou uma faca pegam numa fatia de pão centeio, um pedaço de carne e vão degustando enquanto se trocam opiniões sobre o quotidiano da aldeia. Um ou outro vai entretanto pagar a esmola ao Santo que, alheio a tal burburinho, vela pelos seus devotos. Animam-se os comensais e vai-se terminando a refeição com um pouco de aguardente ou vinho do Porto, mimos com que o mordomo não deixa de presentear os seus concidadãos e amigos. Ao lado de grandes cestos de carvalho é doado a cada romeiro um quarto de broa (cerca de um quilo) que, em casa, será partilhado por toda a família e até animais. O pão santo – a mezinha – ajudará a proteger todos aqueles que o comem.

 

1600-cerdedo (223)

1600-cerdedo (210)

 

E ainda:

É hora do Leilão e o Sr. Gomes, que ambiciona ter quem lhe suceda em tarefa tão nobre e também tão alegre, lá sobe as escadas até ao pátio para do alto “cantar” o lanço mais alto para um peito de porco, uma orelheira ou meia dúzia de chouriças. Faz isto há Festa de S. Sebastião em Cerdedo mais de vinte anos. As broas de centeio, enormes, são licitadas avidamente, com alegres escaramuças, pela cerca de meia centena de convivas e devotos, todos irmanados no continuar da tradição.

 

1600-cerdedo (91)-1

1600-cerdedo (79)-f

 

Festa do São Sebastião com muita tradição no Barroso, no entanto a Orago de Cerdedo é o São Tiago, mas fazem festa ao Santo António e São Lourenço no terceiro domingo de agosto e em 8 de setembro à Srª do Monte, esta num pequeno santuário isolado no meio da Serra do Barroso.

 

1600-s-barroso (11)-post cerdedo

Srª do Monte

1600-cerdedo (32)

 

Quanto a património religioso e comunitário da aldeia, tem a capela da Srª do Monte, a Igreja Paroquial de São Tiago e o forno do povo.

 

1600-cerdedo (256)

Igreja Paroquial e antigo cemitério

1600-cerdedo (67)-f

 

Ainda sobre Cerdedo apurámos que foi abadia da casa de Bragança. Em 1839, pertencia ao concelho de Montalegre e judicialmente à comarca de Chaves. Em 1852 passou a pertencer ao concelho de Boticas e judicialmente à comarca de Montalegre. Segundo informação veiculada através das cartas paroquiais de 1758, nasceu e viveu neste lugar um famoso poeta popular conhecido por Pantoja, cuja obra infelizmente se perdeu no tempo

 

1600-cerdedo (219)

1600-cerdedo (247)

 

A respeito deste poeta popular Pantoja, num documento de 1758, um inquérito que Marques de Pombal mandou para resposta de todas a paróquias do Reino de Portugal, o então Abade de Cerdedo, o Abade Vicente Ferreira de Alcantra, diz o seguinte:

“ Neste sobredito lugar cresceu aquele insigne Pantoja muito conhecido pelas suas trovas, que fazia cantigas e sátiras que inventava não tendo mais ciência do que a enxada e o arado com que o pobre vivia, como tal acabou imitando os poetas e por tal ao clamado pelos moradores do lugar. Deste não ficou sucessão, nem as sua obras editadas, só ficou na memória de alguns alguma coisa burlesca.”

 

1600-cerdedo (34)

1600-cerdedo (21)

 

Ainda neste inquérito de 1758, o mesmo Abade Ferreira, dizia sobre Cerdedo:

“Tem trinta e seis fogos ou vizinhos e pessoas de sacramento cento e quarenta. Está situada em montes ásperos, a maior parte dela, donde se avistam várias montanhas como a montanha do Gerês, bem nomeada pela sua aspereza e os arredores de Montalegre, tudo para a parte do norte. Para a parte de nascente vêem-se vários montes como é o Alvão, e outros que vão correndo per de fronte a ribeira de pena, rio Tâmega, que vem da vila de Chaves para Amarante, cuja ribeira dista daqui três léguas e do Gerês três. E quanto ao eclesiástico está sujeita à Vila de Chaves, onde existe o Doutor Vigário Geral da dita comarca, a qual dista daqui seis léguas para a parte.

Tem esta freguesia cinco lugares: Cerdedo, Covelo, Coimbró, Serra e Virtelo. O primeiro tem doze vizinhos, o segundo quatro, o terceiro onze, o quarto três e o quinto dois e uma pobre e outra na do Cerdedo."

 

1600-cerdedo (403)

As montanhas a nascente, mencionadas pelo Abade Ferreira no inquérito de 1758

1600-cerdedo (419)

 

E na ausência de mais informação sobre Cerdedo, vamos caminhando para o final deste já longo post, apenas nos falta o vídeo com todas as fotografias publicadas até hoje neste blog. Espero que gostem:

 

 

E quanto a aldeias de Barroso, despedimo-nos até a próxima sexta-feira com uma aldeia do Barroso do concelho de Montalegre, Lamachã, e no próximo domingo com uma aldeia do concelho de Boticas, Coimbró.

 

BIBLIOGRAFIA

CÂMARA MUNICIPAL DE BOTICAS, Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas - Câmara Municipal de Boticas, Boticas, 2006

 

WEBGRAFIA

http://www.cm-boticas.pt/

 

 

13
Jul20

O Barroso aqui tão perto - Casas da Serra

Aldeias de Barroso - Concelho de Boticas

1600-casas-serra (118)

1600-cabecalho-boticas

 

Já estávamos no outono, mas apenas no calendário, pois bem lá na croa da Serra do Barroso, naquele dia de 6 de outubro, ainda era verão, como se fosse julho ou agosto, mesmo nos incêndios que iam manchando o azul do céu com o fumo do que ardia em terra, e a nossa volta, por onde íamos passando, não era exceção, o pouco mato rasteiro que havia para arder, ia ardendo, coisa de pastores diziam-nos, mas por ali não havia alma viva, apenas nós e a estrada, estreita, a caminho de mais uma aldeia do Barroso que nos diziam existir por ali, mas sem se avistar.

 

1600-s-barroso (3).jpg

 

Vindos de Coimbró e de Covelo do Monte, passámos por um pequeno santuário no meio do nada e continuámos por estrada virgem para nós, era a primeira vez que por ali passávamos, as curvas iam contornando pequenas elevações, muitos penedos, vegetação sempre rasteira e muito fumo, às vezes passávamos mesmo pelo meio do fogo, de ambos os lados da estrada, sem grande perigo pois as chamas iam comendo nas calmas o que restava por arder. Segundo os nossos cálculos, Casas da Serra deveria estar a aparecer-nos no horizonte, mas no entretanto apenas estrada, penedos, e o incêndio, para trás, nas nossas costas, iam ficando as grandes ventoinhas de um dos parques eólicos, um tipo de vegetação recente que agora vai cobrindo os montes altos do Barroso…

 

1600-casas-serra (52)

1600-casas-serra (31)

 

E finalmente uma pequena placa indicava Casas da Serra, e sim senhor, serra(s) havia muita(s), estávamos na Serra do Barroso e ao fundo víamos a serra do Facho e depois dela a Serra do Gerês, e uma pequena povoação na Serra do Facho, Ladrugães, parece-me, mas casas de Casas da Serra, ainda nada. A figura de um pequeno pato chamou-nos a atenção e mais um clique, um daqueles patinhos que as crianças põem na banheira enquanto tomam banho, mas este era mais um rochedo no monte,  depois de um outro grande penedo que obriga a mais uma curva na estrada, e finalmente, entre rochedos e bocadinhos de estrada, um ponto vermelho que tudo leva a crer ser um telhado das Casas da Serra.

 

1600-casas-serra (44)

1600-casas-serra (120)

1600-casas-serra (48)

 

E era. Logo de seguida, uma capela na croa de um pequeno monte e na base, uma casa branca realça no meio de uma pequena veiga amarela, por aqui não há a exuberância do verde. A terra é alta, estávamos a 1.150 metros de altitude e não me cheira a fontes de água nem as oiço a correr nas levadas, talvez de inverno o verde regresse. Vista dali as Casas da Serra parecem simpáticas, embora aquela casa branca chame toda a atenção para só, mas nota-se por trás dela o casario de pedra bem camuflando na paisagem, apenas uns poucos telhados laranja nos indicam o granito que os suportam.

 

1600-casas-serra (2)

1600-casas-serra (42)

 

Há terras onde se sente mesmo estar no teto do mundo, esta é uma delas, Casas da Serra, lá bem no alto da serra, mas a croa da serra, essa é reservada à pequena capela, mais parecendo um farol em terra para quem anda a navegar no mar de montanhas do Barroso, embora não seja essa a sua finalidade, mas na realidade, servem mesmo de faróis diurnos para quem navega no mar de montanhas do Barroso.

 

1600-casas-serra (37)

1600-casas-serra (118)-1

 

E esta das capelas nas croas de pequenos montes dentro das grandes montanhas, vão-se repetindo nas aldeias das redondezas, desde a capela de São João da Fraga no Gerês à capela de Santo Isidro nas Alturas do Barroso, desde a capela de Santa Luzia em Cela à capela de Atilhó, desde a capela da Senhora da Livração em Ormeche (Paio Afonso) à de São Domingos em Morgade ou à da capela na Nossa Senhora das Treburas em Montalegre, entre outras. Um dia, quando acabarmos esta ronda por todas as aldeias do Barroso, pode ser que surja aqui um post com todas estas capelas e igrejas das croas dos montes ou isoladas na montanha.

 

 

1600-casas-serra (56)

1600-casas-serra (61)

 

Apetecia-me ficar no discurso anterior pois o cartaz de boas-vindas à aldeia não é lá muito acolhedor, um largo, no meio um tanque vazio sem água, a maioria do casario, senão todo, está abandonado, fechado. Metade da aldeia está em ruinas, pelo menos os telhados estão todos esbarrondados, e as paredes não estão porque são de boa construção, aliás uma construção em granito maioritariamente trabalhado em perpianho que demonstra que esta aldeia quando existiu com toda a sua integridade e pessoas dentro das casas, não era uma aldeia qualquer, mas que agora parece uma aldeia fantasma. Mais uma vez a casa branca destoa no conjunto, não parece abandonada, mas também não parece habitada e, ia a quase a dizer que pessoas na aldeia não havia, mas uma alma viva apareceu, assim a modos de querer saber ao que andávamos, e tinha toda a razão, depois das apresentações e de contarmos ao que íamos, começámos a dialogar.

 

1600-casas-serra (88)

1600-casas-serra (112)

 

Pensávamos que não havia aqui ninguém, fomos-lhe dizendo, que Casas da Serra já estava como Covelo do Monte[i], mas afinal ainda há vida por aqui. E o resto do pessoal!?Sou só eu!, respondeu-nos o José da Silva Freitas, cinquenta e poucos anos… então é o dono disto tudo! Afirmámos, e a resposta foi pronta - não, só das casas com telhado… e a aquela branca não é minha. Seguiu-se um prolongado silêncio enquanto subíamos a encosta em direção à pequena capela.

 

1600-casas-serra (81)

1600-casas-serra (101)

 

Vista lá de cima a aldeia nem melhora nem piora, é aquilo que ali está. Invadem-nos sentimentos estranhos, faze-mos a nós próprios perguntas que não têm resposta porque não sabemos responder, e também não queremos perguntar. O que levou os antepassados desta aldeia a construir ali as suas casas no meio de rochas, num pequeno vale, é certo, mas metade desse vale é ocupado pelas casas. Ao contrário das outras aldeias que ergueram as suas casas nas encostas para deixarem as terras de cultivo livre, mas aqui compreende-se o porque das casas estarem no vale, pois é fácil de imaginar o que serão por aqui os invernos, a neve, o gelo e o vento, e o vale está mais protegido, principalmente dos ventos.

 

1600-casas-serra (115)

1600-casas-serra (95)

 

Tento imaginar esta aldeia com vida, com o gado, as galinhas, os cães e as pessoas na rua, as casas ainda todas habitadas e o pequeno vale cultivado com o forno do povo bem afastado da aldeia, vá-se lá saber porque, talvez com medo aos incêndios, pois hoje as casas têm telhado de telha cerâmica, mas há coisa de 40 ou 50 anos ainda eram os colmos que faziam a cobertura das casas, o coroamento das parede de topo são testemunho disso. Mas olhando lá do alto da capela, vê-se perfeitamente que os antigos habitantes não viviam da agricultura. Talvez fossem pastores com grandes cabradas e outro gado maior. Talvez fossem caçadores. Talvez fossem ambas e duas as coisas..

 

1600-casas-serra (9)

1600-casas-serra (86)

 

Tento imaginar a aldeia antiga o interessante que deveria ser. O lugar é bonito. Desde ele, basta subir até à capela, vê-se quase todo o Barroso, com vistas privilegiadas para terras do Gerês, terras de Cabril, terras de Salto, alcança-se o Larouco já bem distante e ao descer a montanha em direção a poente o rio Rabagão e os seus vales de Ladrugães na margem direita e de Vila da Ponte e Ormeche na margem esquerda, isto hoje, já depois das barragens, que há 60, 70 anos atrás era só o Rabagão.

 

1600-casas-serra (84)

1600-casas-serra (13)

 

Ainda lá em cima no alto da capela,  os sentimento continuam contraditórios, aquilo que os meus olhos veem são de uma beleza singular, ali poderia existir um pequeno paraíso, mais uma pequena pérola deste colar do Barroso, mas assim, abandonado, com apenas uma alma viva a habitá-lo, mete dó e temos pena… por outro lado, a compreensão faz-nos voltar à razão, compreendemos, oh! se compreendemos, perfeitamente, que todos tivessem abandonado, partido e vêm-me de novo as palavras de Torga à lembrança “ Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhe dá a simples proteção de as respeitar.” E esta falta de respeito continua, pois estas aldeias definham, morrem à vista de todos e ninguém faz nada para contrariar este mundo que se acaba. Assim a compreensão das partidas leva-me até um outro sentimento, o da raiva.

 

1600-casas-serra (12)

1600-casas-serra (82)

 

Quanto ao futuro desta aldeia já se sabe qual é, está a um pequeno passo disso mesmo. Quiçá daqui a 500 ou 1000, ou 10000 anos seja um dos muitos campos de arqueologia, com jovens arqueólogos a estudar uma civilização antiga que vivia o chamado comunitarismo barrosão…

 

1600-casas-serra (6)

1600-casas-serra (25)

 

Vou manter esta aldeia debaixo de olho, talvez da próxima vez que lá for me aconteça o que me aconteceu em Covelo do Monte, quando tentei ir lá a primeira vez, quando a meio do caminho uma vedação e um portão vedavam a entrada, toda a aldeia foi comprada para um empreendimento turístico que nunca passou do papel, se é que algum papel existiu. E o turismo bem poderia contribuir para o futuro destas aldeias, mas para isso, teria de ter o seu povo, hábitos e costumes a habitá-las.

 

1600-casas-serra (93)

1600-casas-serra (111)

 

Deixemos este já longo desabafo para trás e passemos à localização e itinerário para lá chegar. Já compreenderam que esta aldeia fica na serra do Barroso, lá bem no alto, mas ali, já, onde ela começa a descer para a Serra da Cabreira. Como temos andado pela Freguesia de Alturas do Barroso/Cerdedo, aliás a aldeia fica mais ou menos entre estas duas aldeias (Alturas e Cerdedo) e desde ambas se pode fazer o acesso a Casas da Serra, mas vou indicar-vos o itinerário que julgo mais interessante, com partida como sempre da cidade de Chaves, passagem por Boticas e Carreira da Lebre, até aqui nada que enganar. Logo a seguir à Carreira da Lebre, após passar o rio, vira-se em direção a Carvalhelhos, sem entrar na aldeia, pois imediatamente antes, vira-se à esquerda em direção a Atilhó e Alturas do Barroso. Nas alturas do Barroso o melhor é perguntar a alguém (há sempre gente nas ruas em Alturas do Barroso) qual a saída para Casas da Serra ou Coimbró, digo isto porque em alturas do Barroso, vindos de Atilhó, há mais duas saídas, uma para Montalegre e outra para Vilarinho Seco, não é por essas, é pela outra que fica a meio, mas vá por mim, pergunte a alguém na aldeia. Depois de estar na estrada certa, deixe-se ir até encontrar um cruzamento com umas construções (parece-me que de apoio ao parque eólico. Aí vire à esquerda e só passados 900 metros encontrar um pequeno santuário, vai pelo caminho certo, depois, logo a seguir, a menos de 3km, encontrará à direita o desvio para Casas da Serra. Mas ficam os nossos mapas com o itinerário, já é uma ajuda.

 

mapa casas da serra.jpg

mapa casas da serra-1.jpg

 

Quanto às nossas pesquisas sobre a aldeia, bem vasculhamos os nosso documentos, na interente, em tudo quanto era sítio, mas nada ou quase nada, apenas duas referências à aldeia e uma delas já ultrapassada, duas referência na monografia de Boticas onde refere pertencer à freguesia de Cerdedo (que hoje já é Alturas do Barroso/Cerdedo, e a outra que diz: “ Parque Eólico da Serra do Barroso (Casas da Serra – Cerdedo)”, e mais nada.

 

1600-casas-serra (16)

1600-casas-serra (104)

1600-casas-serra (109)

 

Mas com todo o nosso palavreado de hoje, também não tínhamos mais espaço e nem sequer um tema do Barroso, como habitualmente acontece, vamos ter por aqui. Assim só nos resta deixar aqui o vídeo resumo com todas as fotos do post de hoje.

 

1600-casas-serra (23)

1600-casas-serra (114)

 

No entanto não queria terminar sem recomendar uma visita a aldeia, o lugar é bonito e recomenda-se, quanto aos sentires, cada um é cada qual e lá sente à sua maneira, se for um misto de sentimentos, até contraditórios, também não é mau, às vezes são necessários para melhor discernimos as coisas.

 

 Agora sim, o vídeo:

 

 

 

[i] Covelo do Monte, uma aldeia vizinha, completamente despovoada.

 

 

 

22
Jan17

O Barroso aqui tão perto - Festas do S.Sebastião

1600-dornelas-17 (325)

o b tao perto

Como já vem sendo habitual nos últimos anos, o 20 de janeiro é dedicado às festas do S.Sebastião no Barroso, daí hoje incluirmos esta reportagem na habitual rubrica dos domingos de “O Barroso aqui tão perto…”, que até aqui tem sido dedicado ao Barroso do Concelho de Montalegre , mas hoje, excecionalmente, vamos até ao Barroso de Boticas com os festejos do S.Sebastião, antecipando um pouco a nossa entrada nas aldeias de Boticas. Assim, hoje, apresentamos também aquele que irá ser o cabeçalho de “O Barroso aqui tão perto…” com uma imagem do concelho de Boticas,  para a abordagem que futuramente faremos a todas as suas aldeias.

 

1600-dornelas-17 (51)

 

Então hoje vamos até aos festejos do S.Sebastião da Vila Grande da freguesia de Dornelas e o S.Sebastião das Alturas do Barroso, mas também com uma abordagem à aldeia da Gestosa e Vilarinho Seco, como também um pouco da história do S.Sebastião (Santo) e da mesinha do S.Sebastião (lenda), por partes.

 

1600-dornelas-17 (66)

 

1 - S. SEBASTIÃO

São Sebastião nasceu em Narvonne, França, no final do século III, e desde muito cedo  que os seus pais se mudaram para Milão, onde ele cresceu e foi educado. Seguindo o exemplo materno, desde criança São Sebastião sempre se mostrou forte e piedoso na fé.

Atingindo a idade adulta, alistou-se como militar, nas legiões do Imperador Diocleciano, que até então ignorava o facto de Sebastião ser um cristão de coração.

A figura imponente, a prudência e a bravura do jovem militar, tanto agradaram ao Imperador, que este o nomeou comandante de sua guarda pessoal.

Nessa destacada posição, Sebastião tornou-se  no grande benfeitor dos cristãos encarcerados em Roma naquele tempo.

Visitava com frequência as pobres vítimas do ódio pagão, e, com palavras de dádiva, consolava e animava os candidatos ao martírio aqui na terra, que receberiam a coroa de glória no céu.

Enquanto o imperador empreendia a expulsão de todos os cristãos do seu exército, Sebastião foi denunciado por um soldado.

Diocleciano sentiu-se traído, e ficou perplexo ao ouvir do próprio Sebastião que era cristão. Tentou, em vão, fazer com que ele renunciasse ao cristianismo, mas Sebastião com firmeza  defendeu-se, apresentando os motivos que o animava a seguir a fé cristã, e a socorrer os aflitos e perseguidos.

O Imperador, enraivecido ante os sólidos argumentos daquele cristão autêntico e decidido, deu ordem aos seus soldados para que o matassem a flechadas.

Tal ordem foi imediatamente cumprida: num descampado, os soldados despiram-no,  amarraram-no  a um tronco de árvore e atiraram contra ele uma chuva de flechas. Depois  abandonaram-no para que sangrasse até a morte.

À noite, Irene, mulher do mártir Castulo, foi com algumas amigas ao lugar da execução, para tirar o corpo de Sebastião e dar-lhe sepultura. Com assombro, comprovaram que o mesmo ainda estava vivo. Desamarraram-no, e Irene escondeu-o na sua casa, cuidando das suas feridas.

Passado um tempo, já restabelecido, São Sebastião quis continuar o seu processo de evangelização e, em vez de se esconder, com valentia apresentou-se de novo ao imperador, censurando-o pelas injustiças cometidas contra os cristãos, acusados de inimigos do Estado.

Diocleciano ignorou os pedidos de Sebastião para que deixasse de perseguir os cristãos, e ordenou que fosse espancado até a morte, com pauladas e golpes de bolas de chumbo. E, para impedir que o corpo fosse venerado pelos cristãos, jogaram-no no esgoto público de Roma.

Uma piedosa mulher, Santa Luciana, sepultou-o nas catacumbas. Assim aconteceu no ano de 287. Mais tarde, no ano de 680, as suas relíquias foram solenemente transportados para uma basílica construída pelo Imperador Constantino, onde se encontram até hoje.

Naquela ocasião, uma terrível peste assolava Roma, vitimando muitas pessoas.

Entretanto, tal epidemia simplesmente desapareceu a partir do momento da transladação dos restos mortais desse mártir, que passou a ser venerado como o padroeiro contra a peste, fome e guerra.

As cidades de Milão, em 1575 e Lisboa, em 1599, acometidas por pestes epidêmicas, viram-se livres desses males, após atos públicos suplicando a intercessão deste grande santo.

 

1600-dornelas-17 (70)

 

2 - A LENDA DA MESINHA DE S.SEBASTIÃO

 

Reza a lenda,  que há muitos, muitos anos, houve nesta região um ano de muita fome e peste, que também atingiu os habitantes do “COUTO”.

Foram tantos os mortos, que os mais crentes apelaram a S. Sebastião para que os protegesse de tal flagelo:

“Se a doença se afastasse, se os doentes melhorassem e os animais escapassem, prometiam realizar anualmente, a 20 de Janeiro, uma festa onde não faltasse carne e pão para quantos a ela comparecessem.”

 

Como o Santo não faltou, cumpriu-se o prometido e assim se fez ao longo dos tempos, mas, com o passar dos anos, o povo foi ficando esquecido, desleixado e possivelmente mal agradecido. Um ano, não se sabe por que motivo, a festa não se realizou. O povo ficou assim, sem a proteção do santo, advogado da fome, da peste e da guerra registando-se graves problemas nesta localidade.

Conta ainda a lenda, que em 1809 (ano em que Napoleão, imperador de França, mandou invadir pela segunda vez Portugal) as tropas entraram por Chaves, a caminho do Porto, passando pelas terras do “Couto”. A má fama dos invasores já tinha chegado às nossas gentes, que atemorizadas pela eminente invasão e suas consequências (pilhagens, mortes, violações, etc.) saíram às ruas com a imagem de S. Sebastião e acolhendo-se à sua proteção, renovaram a promessa: «… Se os invasores não entrarem no Couto faremos todos os anos, dia 20 de Janeiro, uma festa em tua honra, onde não faltará comida a toda a gente que a ela vier…»

Diz a lenda que caiu tal nevão à volta do Couto, que obrigou os invasores a desviarem-se do seu caminho deixando em paz estas “gentes”.

 

1600-dornelas-17 (103)

 

3 - Mesinha de S.Sebastião na Vila Grande

 

As fotos que têm ficado até aqui são da mesinha de S.Sebastião da Vila Grande, da freguesia de Dronelas. A introdução com a história do Santo e da Lenda apenas se deve a que muitos populares, incluindo da Vila Grande, associam o início destes festejos às segundas invasões francesas. Ora na deslocação deste ano um natural da aldeia puxava o assunto à baila, onde afirmava que teve acesso a documentos em que provavam que os festejos da Vila Grande já se realizavam muito antes das Invasões Francesas. Dada a história do santo, a sua data de nascimento e ao ser venerado como padroeiro contra a peste, a fome e a guerra, entre outros, é natural que os festejos já venham de há longa data, como também é natural que lhe dessem mais significado e importância a partir das segundas invasões francesas.

 

1600-dornelas-17 (111)

 

Quanto à mesinha de S.Sebastião da Vila Grande já nos anos anteriores deixei por aqui o seu funcionamento, mas eu volto a repetir num breve apontamento.

 

Ao longo da rua principal da aldeia é colocada uma mesa com mais de 500 metros de comprimento, que é coberta com uma toalha de linho onde são colocados um pão, uma caçarola de arroz e um naco de carne de porco, distanciados de aproximadamente um metro. Antes da distribuição há uma missa, depois a bênção do pão e só depois começa a distribuição da comida, antecedida pelo pedido de “esmola” ou ajuda para as despesas (cada um dá o que quer) e o beijar do S.Sebastião.

 

1600-dornelas-17 (360)

 

No entanto o preparar da festa pelas gentes da aldeia começa muito antes. O Pão começa a ser cozido no forno com 4 dias de antecedência, cozendo ininterruptamente durante esses 4 dias fornadas de 35 a 40 pães de cada vez até atingirem os 1200 pães necessários para a festa, dos quais 400 pães são para colocar na mesinha de S.Sebastião e os restantes para vender aos visitantes, pão esse que é composto por uma mistura de milho, centeio e trigo. . Quanto ao arroz, 110 Kg,  e à carne, mais de 400 postas,  são cozinhados durante toda a noite para começarem a ser distribuídos a partir do meio-dia. A cozedura do pão é feito por turnos de 7 a 8 pessoas durante os 4 dias.

 

1600-dornelas-17 (247)

 

Claro que na noite que antecede a mesinha de S.Sebastião,  grande parte da população da Vila Grande envolve-se com os trabalhos da festa para logo de madrugada começar a receber os primeiros peregrinos.

 

1600-dornelas-17 (370)

 

Peregrinos que vêm de todo o lado, principalmente do Norte de Portugal, com maior participação da gente do Barroso e do Minho, individualmente, em grupos de amigos ou mesmo em excursões que aos poucos vão enchendo toda a rua ao longo da Mesinha de S.Sebastião, ao longo da qual vão reservando lugar e petiscando nas merendas que vão trazendo.

 

1600-dornelas-17 (144)

 

Também o pessoal da imprensa nacional e estrangeira (jornais e televisões) não são alheios à festa, mas também um elevado número de fotógrafos amadores individuais ou de associações, como é o caso do nosso grupo de Associados Lumbudus que marcámos sempre presença ou elementos da Associação Portografia do Porto, este ano com pelo menos 5 associados.

 

1600-dornelas-17 (182)

 

Quanto aos preparativos da festa, tal como dissemos, começa pelo menos com 4 dias de antecedência com o cozer do pão. Quanto à Mesinha do S.Sebastião, comido o pão, o arroz e as postas de carne, o pessoal destroça e quase como num milagre, desaparece num instante, tanto que por volta das 2 da tarde a mesa está completamente vazia, mas claro que há uma razão para tal, é que o S.Sebastião não se comemora só na Vila Grande, pois na aldeia vizinha das Alturas do Barroso também há festa e em Salto, um pouco mais à frente, idem aspas. Mas estas com características diferentes.  Claro que nós também não somos exceção e acabada a festa na Vila Grande também rumámos  os nossos destinos até as alturas do Barroso, mas por etapas.

 

 

4 – Gestosa

 

A caminho das Alturas do Barroso passa-se ao lado da Gestosa. Todos os anos parámos lá num alto onde a aldeia se vê juntinha ao lado de um verdejante vale. Todos os anos ficamos com o apetite de a visitar, mas este ano não resistimos e fizemos o desvio para uma visita breve mas também para ir adiantando trabalho de levantamento fotográfico da aldeia como memória futura para um devido post dedicado à aldeia.

 

1600-gestosa (62)

 

Para já fica a informação de que gostámos daquilo que vimos, pois se lá de cima é interessante, o seu interesse aumenta quando lhe entramos na intimidade, mas descrições ficam para o tal post futuro. Mas gostámos tanto que lhe dedicamos a nossa imagem de arte digital

 

1600-gestosa-art (12)

 

5 - Vilarinho Seco

 

Vilarinho Seco é de paragem obrigatória para repor forças, nem que seja só com um café que é sempre bem acompanhado, quer pelos amigos do costume quer pelos improvisados concertos de cantares acompanhados pelas concertinas dos vários grupos minhotos que invadem estas festas.

 

1600-vil-seco-17 (21)

 

Mas claro que não resistimos a tomar mais umas fotos daquelas que é uma das aldeias mais interessantes de todo o Barroso, também para memória futura de um post que surgirá quando passarmos definitivamente para o Barroso do Concelho de Boticas. Mas desta vez, além das imagens registámos também em vídeo a improvisada atuação de um duo que tanto quanto entendi era a primeira vez que tocavam juntos.

 

 

Claro que a paragem por Vilarinho Seco é sempre breve pois o destino é mesmo Alturas do Barroso par terminar o dia, que ainda só vai a meio.

 

 

6 – Alturas do Barroso

 

Aqui os festejos em honra do S.Sebastião são outros. Em conversa com uma natural das alturas, perguntava-me de qual das festas gostava mais, se a da Vila Grande ou das Alturas. A resposta foi a politicamente correta – Gosto das duas. Mas além de politicamente correta também foi sincera, pois ambas as festas são interessantes, apenas são diferentes, mas há sempre coisas que gostámos mais numa festa do que na outra, mas já lá vamos.

 

1600-alturas-17 (16)

 

Desde criança que oiço falar das Alturas do Barroso e dos Cornos do Barroso, curiosamente só há anos soube que a aldeia das Alturas está juntinha aos Cornos do Barroso e daí, suponho, a proveniência do topónimo, pois de facto, a aldeia implantada a quase 1200 metros de altitude é a mais alta que se localiza na Serra do Barroso.

 

1600-alturas-17 (6)

 

 

Mas como se não bastasse ouvir falar da aldeia desde miúdo, quando comecei a ler a obra de Miguel Torga tropeço com dois momentos registados por torga nessa aldeia, o primeiro data de 1956 que passo a transcrever:

 

Alturas do Barroso, 27 de Junho de 1956

 

Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhe dá a simples proteção de as respeitar.

 

Miguel Torga in “Diário XI”

 

1600-alturas-17 (51)

 

 

O segundo momento de Torga, mais recente, data de 1991:

 

Alturas do Barroso, 1 de Setembro de 1991

 

Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da Igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repetidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro.

 

Miguel Torga, in Diário XVI

 

1600-alturas-17 (24)

 

E faço minhas as palavras de Torga, principalmente estas: - “Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha”, sim, é verdade e tal como Torga – “Não por mim, que venho cheio de boas intenções,” mas por medo a que as pessoas pensem que as minha intenções não são boas, mas ainda   – “Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso” o que também é verdade, pelo menos desde que descobri esta aldeia, é sempre com gosto que regresso a ela, nem que seja e só por altura do S.Sebastião, mas passo por lá mais vezes.

 

1600-alturas-17 (101)

 

Pois além da curiosidade que tinha desde miúdo, Torga aguçou-me o interesse em conhecer também esta aldeia e também como ele apreciei a aldeia, o seu povo, o casario e a festa do S.Sebastião.

 

1600-alturas-17 (162)

 

Pois quanto à festa só lhe conheço o lado profano, aquele do comer e beber, pois nunca tive a honra de assistir à parte religiosa, que suponho que obrigatoriamente existira.  Tudo porque os da Vila Grande, como já atrás referi, só têm festa da parte da manhã e assim vamos deixando as Alturas para a parte da tarde, mas fica a promessa que numa das próximas vezes invertemos a ordem.

 

1600-alturas-17 (183)

 

Pois quanto à parte que assistimos, é em quase tudo diferente da festa da Vila Grande. Começando que a das Alturas é feita debaixo de teto e a ementa é servida em prato. Uma feijoada da boa, um copo de vinho e um pão. Segundo consta, pois nunca estivemos até ao fecho, a festa prolonga-se pela noite adentro, enquanto houver peregrinos com vontade de comer.

 

1600-alturas-17 (168)

 

Mas claro que a parte do comer é só um breve momento, pois a festa esta lá dentro mas também à porta ou nas ruas da aldeia. Os improvisados concertos de cantares ao som da concertina são uma constante onde menos se espera ou melhor, em todos os lugares.

 

1600-alturas-17 (148)

 

Uma visita, passeio, pelas ruas da aldeia também é obrigatório e se houver um pouco de conversa com as suas gentes, tanto melhor, e desta vez até fomos felizes nesta parte, pois além de fotos consentidas ainda tivemos direito a uma demonstração de como se lança o peão e uma história das antigas, também com direito a imagens, mas também estas ficam para um post futuro dedicado à aldeia, com o S.Sebastião de parte, embora a referência seja obrigatória.

 

1600-alturas-17 (194)

 

E quase a terminar há que referir a simpatia das pessoas das Alturas, não só as que estão envolvidas no trabalho de dar de comer e beber a tanta gente mas também da aldeia em geral.

 

1600-alturas-17 (102)

 

E não só, pois a aldeia também surpreende pela gente jovem, coisa que já vai sendo raro nas aldeias barrosãs e em geral do interior transmontano. Pelo menos do dia de S.Sebastião assim é.

 

1600-alturas-17 (217)

 

E por fim, ficam as fotos prometidas e consentidas, ah! e já ia esquecendo, este ano o S.Sebastião aconteceu em plena vaga de frio polar, talvez por isso não havia neve como em alguns dos anos anteriores e o sol apareceu com a sua alegria do costume…

 

E quanto às festas do S.Sebastião, até pró ano!

 

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

15-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Obg António Roque. Os irmãos são isso mesmo!

    • Anónimo

      Ainda há pessoas que podem dizer e contar a sua fe...

    • Anónimo

      Que bela surpresa. Força Fernando a gente agradece...

    • Ana D.

    • Anónimo

      Caro Fernando Ribeiro,Com um abraço parabéns, com ...

    FB