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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

22
Fev19

Discursos Sobre a Cidade

GIL

Caldo de coirato

 

Ter água canalizada em casa era um luxo quase proibido nas aldeias rurais dos anos quarenta. As fontes públicas resolviam todas as necessidades. Fossem os fontanários, ou as populares fontes de mergulho, toda a gente aí se abastecia do precioso líquido. Nos fontanários, os cântaros de barro de Nantes, e mais tarde os de folha-de-flandres, aparavam a água da bica, que nem o verão, por mais quente que fosse, conseguia escoucar! Nas fontes de mergulho recolhiam-na de uma espécie de poço onde se mergulhavam as vasilhas. Está bom de ver que nestas tanto mergulhava um cântaro limpo, como o balde dos recos que muito provavelmente teria andado aos emboleques na estrumeira! Por isso, a higiene não era um predicado destes usos ancestrais, nem tão pouco uma preocupação!

 

E assim se vivia desde os alvores da história!

 

O Carregal não fugia à regra.

 

No Prado, num recanto sombrio, olvidado, ainda lá está a dita cuja. Acedia-se à água através de uma grande janela com um parapeito de perpianho muito gasto pelo uso de séculos.

 

A fonte, há muito andava a meter nojo aos mais esclarecidos do lugar, nos quais se incluía o Ti Moreiras, antigo combatente da guerra dos dezassete. Na impossibilidade de disciplinar os hábitos da gente, por virem dos alvores da sua existência, pensou o Ti Moreiras construir poço próprio no pátio novo de sua casa, para se salvar daquela nojeira Tanto mais que na altura estava na moda o furo artesiano, encamisado a lusalite.

 

Para o efeito, contratou um artista de Serapicos. Acertado o preço, encomendou-lhe o trabalho. Semana e meia bastou para que de um furo de quarenta metros jorrasse água a rodos. O precioso líquido era conduzido à superfície por uma bomba de alavanca, um arcanho a que se dava o pomposo nome, afrancesado, de cacherelle. Abanava-se o zingarelho, para cima e para baixo, e após meia dúzia de bombadas era um regalo ver jorrar a água, aos golos, pelos queixos do ferro fundido. Funcionava que era uma maravilha! Porém, passado algum tempo, a água começou a sair tão ferrugenta e com tão mau gosto, que até os animais bitchos a rejeitavam. Seria, por’i, da ferrugem do cano que a trazia à superfície, ou, quiçá, do lusalite, quem sabe? Foi uma desilusão, gastar tanto dinheiro e ter de recorrer, de novo, à fonte do Prado para fazer o caldo!...

 

Não restava, porém, outro remédio!..

 

Naquele tempo, a iluminação das casas era fraquíssima. A candeia a petróleo ou a azeite, mesmo auxiliada pela labareda das fronças da giesta da fogueira, não permitiam, sequer, ler o jornal, quanto mais enxergar o que se jantava!

 

Ora, foi exactamente desta dificuldade que nasceu o caso que se relata.

 

Anoitecia já quando a Aida, criada da casa do Ti Moreiras, se apercebeu de que o cântaro da água estava escoucado. Como era hora de fazer o caldo havia que ir rapidamente à fonte. Chegou, de mergulho encheu o cântaro, pô-lo à cabeça sobre a rodilha e nem sequer teve tempo para dois dedos de conversa com os rapazes que aproveitavam o ensejo para cortejar as moças na fonte.

 

Directamente da vasilha encheu o pote, e quando a água fervia, juntou a batata, a couve o feijão e coirato do porco e tudo o mais que fazia gordo o caldo do lavrador. Deixou-a ferver até apurar enquanto foi dar de comer aos coelhos de que se havia esquecido. Na hora de cear, como ao tempo se dizia, era comum comer o caldo somente no final da refeição.

 

Manel Cabeça Grande, o criado, apreciava rilhar os coiratos, ainda mal cozidos, que deixava, religiosamente, para a sobremesa. Mascá-los, vagarosamente, devia dar-lhe o mesmo gozo que os chicletes dão hoje à rapaziada! Digo eu!

 

A Aida lançou-lhe o caldo na malga preta de Nantes, À luz, mortiça, da candeia tragou-o apressado pois esperava-o um serão de lerpa com os amigos.

 

Coirato na boca, trincou, mascou, voltou a trincar, mas havia qualquer coisa de diferente naquele cibo do isco do caldo.

 

O gosto não lhe era familiar!

 

Não lhe parecia mau, o problema é que o bocado não dava de si como habitualmente, à força trituradora das suas mós. Teimou, insistiu, voltou a teimar e à falta de paciência, chegou-se ao canto da lareira, onde a luz era mais forte à conta da labareda de uma fronça que ardia, e botou o petisco para dentro da malga!..

 

Horror dos horrores!...

 

Espanto dos espantos!...

 

Diabo dos diabos!...

 

Oh miséria excomungada!...

 

Era uma salamandra que entrou à socapa para o cântaro e foi cozida com os feijões e as couves!..

 

Era para esgomitar o caldo, mas, ao fim e ao cabo, soubera-lhe tão bem que era um desperdício fazê-lo!..

 

Gil Santos

 

 

25
Jan19

Discursos Sobre a Cidade, por Gil Santos

GIL

 

bota-le binho, catano!

 

Conheci o Ti Chico Milheiro já velhote.

 

Nas torreiras de agosto, juntava a mocidade à sombra da copa do negrilho do Prado e alapado na massadoura, entretinha os seus largos anos com as reações às curiosas estórias de vida que sorvíamos como a água da bica em tardes de canícula.

 

Escutei-lhe muitas!

 

Olvidaram-se-me quase todas.

 

Retenho, tão-somente, esta que vos conto.

 

O Chico Milheiro nasceu pobre em Milhais, lá para os lados de Mirandela.

 

Ficou órfão de pai e mãe muito cedo, por isso, teve de ser fazer à vida, na qualidade de moço de servir, na tenra idade dos quinze anos,

 

Tirando a fartura de bogas do Rabaçal que pescava na desova, em tempo das formigas fazerem carreira como ele dizia, dos coelhos e das lebres que caçava nos laços que armava com mestria, passou fome de rato.

 

Serviu inúmeros patrões, levou muitos pontapés no rabo, trabalhou de sol a sol, comeu o pão que o diabo amassou, mas assim aprendeu a ler nas entrelinhas da agrura da vida o que mais lhe convinha em cada momento.

 

O Chico Milheiro tinha a sapiência da coruja e a manha da raposa. E, desta forma, tão cedo se fez à vida de serviçal como a deixou.

 

Não teria ainda um quarto de século quando, proprietário de uma leira de couves, passou a servir-se a si próprio. Botou umas colmeias, únicas nas redondezas, e quase só com elas se sustentava no Carregal, onde fixou residência. Ao tempo, o mel era remédio para quase todos os males. Vendia-se bem para qualquer mezinha. Contudo, a escassez de produção, mal dava para a sobrevivência.

 

Pobre sim, mas orgulhosamente dono de si e da sua vontade!

 

Como dissemos antes, fez-se à vida pelos quinze anos, idade em que a força de crescer tonifica os músculos e dá ao corpo a forma masculina do homem bravo. Procurou trabalho por terras de Valpaços. Encontrou-o em Água Revés, na casa de um lavrador rico mas usurário. A produção de vinho era a sua principal atividade. Durante o ano, o Chico, quando não trabalhava na vinha, trabalhava no bacelo. Porém, aguentou-se pouco tempo neste patrão. O homem estava sempre com pressa de o fazer bulir e mesmo nas sagradas horas do repasto, pressionava-o com a urgência dos trabalhos. Quase não o deixava engolir o cibo!

 

Um belo dia, o agiota, reparou que o Chico soprava ao caldo de vagens chitcharras que fumegava numa malga, sobre a tábua do escano onde comiam.

 

─ Despacha-te rapaz, temos a vinha da Silva para satchar!

─  O caldo escalda patrão!...

 

─ Ó home, bota-le áuga!...

Áuga?!!!.. Não, este patrão não me serve, concluiu!...

 

E tão depressa o pensou, como rumou a novo mundo à cata de melhores promessas!

 

Deu com novo patrão no Planalto, para os lados de Carvela. Um homem austero, que vivia unicamente da batata e do centeio. Sofria, porém, da mesma doença do anterior, o tempo era sempre curto para o trabalho.

 

Um certo dia, ainda no primeiro semestre do novo emprego, o Chico preparava-se para dar cabo das bentas a uma bela malga de caldo de lombarda, reluzente e fumegante. Fora lançada diretamente do pote, que à força do braseiro apurava num borbulhar de cachoeira nervosa. O Chico bem lhe bufava mas o raio do caldo não havia maneira de arrefecer.

 

─ Despacha-te, rapaz! Temos a leira dos Bagueiros para agradar esta tarde. Uma campina!...

─ O caldo está quente patrão!

 

─ Ó Chico, miga-a com pão!..

─ Pão?!!!... Ora essa, pão tenho-o eu à fartazana à minha frente, pensou o criado em silêncio.

 

Não demorou um mês a pôr a trouxa às costas e a procurar novo amo.

 

Rumou, desta feita, ao Carregal onde encontrou trabalho na casa do Ti Moreiras. Um lavrador remediado que repartia os seus dias entre o trabalho árduo da terra magra, que mal dava para a sobrevivência e o relato, apaixonado, das peripécias que viveu na Grande Guerra, onde fora combatente e prisioneiro em La Lys.

 

Também o Ti Moreiras gostava pouco de perder tempo, nomeadamente, a comer.

 

Um dia de malhada, pelo fim de um julho muito quente, criado e patrão sentaram-se à mesma mesa para repor as forças num lauto almoço de couve, toucinho e feijão vermelho. Encheram as bentas, que lá isso para comer, o Ti Moreiras, nunca deixou o crédito por mãos alheias! No final, como ainda é hábito em Trás-os-Montes, veio a malga de caldo, desta vez, de baijes.

 

Fervente!

 

O Chico bufava-lhe quanto podia, não só para a arrefecer, mas, sobretudo, para ver no que é que aquilo dava.

 

─ Apressa-te, home! A malhadeira não espera. Temos de acabar a malhada hoje!

─ O caldo está quente patrão!..

 

Bota-le binho, catano!..

─ Ah grande patrão, este é que me serve, finalmente!.. Disse para com os seus botões!

 

Laborou em casa do Ti Moreiras até desposar a Rosa, que ficou a ser Milheira também. Uma rapariga simples, mas trabalhadeira, filha da Tia Carminda da Rua, uma cabaneira pobre.

 

O empenho do Chico Milheiro foi tal que o patrão Moreiras aceitou apadrinhar o seu casamento. Prendou-o com uma pequena horta contígua ao casebre onde o Chico morava.

 

Não demorou que se despedisse.

 

A Rosa e o Chico trabalhavam à jeira. O soldo, a hortita e o mel das colmeias, sempre dava para viver, mal, mas, sequer ao menos, eram livres como passarinhos!

 

 

Tenho saudades das estórias do Ti Milheiro.

 

Alimentou muita da imaginação que me havia de fazer voar por sítios onde nunca fui capaz de ir sozinho.

 

Obrigado, Francisco Milheiro, também por reconhecer no Ti Moreiras, meu avô, as qualidades de homem bom que ele sempre foi!

 

Gil Santos

 

23
Nov18

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

A XARAGONA

 

 

Nem de riscado a Xaragona se sabia vestir!

 

Rais-te-parta que podão tamanho!...

 

Um bacamarte, como diria o povo!

 

Sobrava-lhe no corpo o que lhe faltava em miolo. E se o cérebro lhe tivesse medrado como o embrulho, haveria de ser uma das pessoas mais escorreitas do lugar. Mas a verdade é que, tirando a capacidade de se meter na vida dos outros e de retirar proventos do esforço alheio, nada mais se lhe aproveitava.

 

Uma microcéfala a Xaragona!

 

Má como um bestigo, era igualmente rancorosa, falsa e invejosa. Não podia ver um vizinho de camisa lavada que punha logo a sua à cora. E se alguém evidenciasse uma capacidade para si inalcançável, tudo fazia para a ridicularizar.

 

Cuspindo com frequência no prato que a alimentava, fazia da ingratidão lema de vida. Podiam dar-lhe a teta a vida inteira que na primeira oportunidade arrastaria pela lama a imagem de quem, cegamente, lhe alimentasse a incompetência!

 

Quando tinha que falar zurrava e fazia-o em tal registo que arrepiava até o mais incauto. Qual megafone anunciando a banha da cobra na Feira dos Santos!

 

Pior do que tudo é que conseguiu emprego na Junta de Freguesia. A pus de golpes baixos, conseguiu ludibriar o Presidente e fazer-se passar por muito competente nas coisas da coltura.

 

Ficou chefa da biblioteca da Junta!

 

Escusado será dizer que o Presidente era tão asno quanto ela, diga-se de passagem, porque quem se sujeita a ser escolhido pelo povo para o governar, tem de o conhecer bem, a não ser que finja que sim pelo poleiro, o que acontece o mais das vezes!

 

A biblioteca da Junta era a menina dos olhos da freguesia.

 

Já não havia necessidades da biblioteca itinerante da Gulbenkian todos os quinze dias. Mas se à Citröen da Gulbenkian ainda ia algum povo, à biblioteca da Junta não ia ninguém, só para não ouvir os urros da Xaragona!

 

A dita cuja transformou-se num espaço solitário, triste, cheio de teias de aranhão! Um espaço morto, bafiento que não despertava o interesse a ninguém. Parecia um jazigo de família, onde os livros dormiam um sono quase eterno! Só passar à porta já dava uma ranheira que nem o surto mais violento da pior sarna!

 

E se a biblioteca era rica!

 

Tinha até livros de estórias sobre a terra e as suas gentes, contudo, ninguém era capaz de saber que lá moravam!

 

O secretário da Junta, de nome Zebedeu, era um rapaz azadinho, que tinha andado na tropa em Mafra e que nos tempos livres se distraia a visitar a biblioteca do convento e a folhear alguns livros que lhe parecessem interessantes. Portanto, nutria pela livralhada um carinho muito especial e o facto de a sua biblioteca ser tão desprezada, andava a meter-lhe algum asco.

 

Começou a azucrinar os ouvidos do Presidente tentando convencê-lo de que tinha de pôr a Xaragona a cavar batatas que para isso ainda haveria de ter algum jeito. Custou-lhe, mas como “água mole em perda dura tanto dá inté que fura”, lá veio o dia em que o chefe ganhou, finalmente, coragem e lhe deu três meses para fazer a mala!

 

Caiu o Carmo e a Trindade!

 

Enlameou de tal forma o nome do autarca que dificilmente a reeleição seria um cenário possível. Mas o povo não é burro, pese embora muitas vezes o fingir!

 

A verdade é que quando ela soube que a responsabilidade do seu despedimento se deveu à insistência do secretário da Junta, não esteve com meias medidas, esperou que a aldeia fosse visitada por uma família cigana que vagueava de terra em terra e que tinha muito má fama, para encomendar um determinado serviço ao patriarca Jimenez. A troco de quinhentos marréis, por vingança, deveria partir os cornos ao Zebedeu na primeira esquina onde o encontrasse.

 

Pagou e aguardou pelo serviço.

 

Num domingo de invernia, jogava-se à lerpa na taberna do Milhais.

 

Numa das mesas estava Zebedeu e alguns amigos tentando esfolar os de Vale do Galo.

 

Páginas tantas, entrou o Jimenez acompanhado de dois farsolas, autênticos príncipes da navalha.

 

Ninguém previa que o copo de tinto que o Jimenez pediu ao taberneiro, servisse de mote à zaragata que se seguira. O cigano passou perto da mesa de Zebedeu, com o copo em riste e, como quem não quer a coisa, tocou-lhe, propositadamente, de raspão no braço para que o vinho se vertesse.

 

Tornou-lhe as culpas.

 

Após pequena discussão o pai dos ciganos pregou-lhe duas solhas no focinho. O Zebedeu, que não era para cantigas, ripostou. Os ciganos vieram em socorro do patriarca e armou-se tamanha zaragata que se não fosse a desproporção de forças tinha sido um caso sério. Os paisanos dominaram os gitanos com relativa facilidade e mais do que isso, obrigaram-nos a falar.

 

O Jimenez, apertado dos coletes, lá pôs a boca no trombone e contou tudo.

 

Ora, como as tascas na altura tinham o mesmo efeito que têm hoje as redes sociais na divulgação das notícias, o incidente fez cair a Xaragona em desgraça.

 

Doravante era desprezada por todos.

 

Caiu em tal desespero que teve de se ausentar para parte incerta sem que mais se lhe soubesse do paradouro.

 

O Presidente foi reeleito e a aldeia passou a viver na paz do senhor.

 

Xaragões agora, só mesmo os das camas de ferro forjado dos fregueses!

 

Gil Santos

 

 

 

28
Set18

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

DESGARRADAS

 

As noites do inverno em Trás-os-Montes continuam mais longas do que em qualquer outro sítio.

 

Após o ocaso começa a gear e ainda a hora da ceia vem longe já o carambelo emprenha de diamantes os galhos das árvores e os beirais dos telhados.

 

Uma melancolia álgida acompanha a cria que recolhe lusco-fusco às cortes e o homem-bicho que se esgueira para o conforto do tição.

 

Manja-se do que o outono colocou no celeiro e aguarda-se, pacientemente, que desponte um dia mais ridente do que o que pereceu.

 

O tempo transmontano insiste em correr pachorrento, ao ritmo do crescimento dos buxos dos adros das capelas, apesar da modernidade ir preenchendo os tugúrios com a tecnologia experimentada nos espaços urbanos.

 

Um privilégio cada vez mais raro que importa manter (?).

 

Há anos, não muitos, quando as candeias de azeite alumiavam, mortiçamente, essas noites gélidas, as pessoas consumiam as horas do serão tagarelando à volta de um canhoto de carvalho negral que se consumia, tranquilamente, na lareira dos casebres. Aproveitavam para botar contas à vida, os queixos a um cibo de aguardente, quem na tinha, para lamentar a má sorte ou para contar estórias, algumas delas reinventadas, mas com epílogos quase sempre felizes. Outras vezes juntavam-se na casa do forno, se o nevão o permitisse, consumindo lugares comuns e ausência de novidades.

 

Uma vida triste!

 

Na casa da Ti Joana Caçolina tudo se passava no rame-rame de sempre.

 

O Ti Antero, seu marido, era o chefe da família ia para mais de uma vintena de anos. Dedicava-se à agricultura. Contudo, tinha jeito para a carpintaria e sempre que podia não rejeitava uns magros tostões que lhe pudessem advir desta arte.

 

Tiveram filhos muito tarde.

 

A Ti Caçolina chegou a pensar-se matchorra, não fora ter convencido o marido a acompanhá-la à Misarela na foz do Regavão. Passaram lá uma noite fria, mas valeu a pena. Emprenhou de gémeos aos quarenta anos.

 

O parto não foi muito normal e se não fosse a Tia Cândida a ajudar a dilatar as carnes, ressequidas, da parideira e os gémeos não teriam vencido. Mas venceram e deram dois rapagões de estalo: O Delmino e o Delfim.

 

O primeiro, aos doze anos, já se gabava de fazer a barba, embora reconhecesse que raramente precisava de afiar a navalha!

O Delfim, com a mesma idade, já pintava!

 

Não sendo uma família abonada, nem tão pouco remediada, também não se podia dizer que fosse pobrezinha. Vivia do que a terra dava e, não sendo muito, sempre se compunha a mesa com a carpintaria que ajudava a controlar os calotes na mercearia do Magalhães.

 

Os rapazes eram dados às artes musicais.

 

De latas faziam bombos, da casca das varas de castanho flautas, das bancas de tripé concertinas e passavam as noites a oferecer grandes concertos.

 

Umas vezes cantavam à desgarrada, imitando os cantadores que observavam pelas romarias, com improvisos bem conseguidos, para gáudio da família, outras remedavam os cantores da moda, que ouviam no rádio da taberna.

 

Era uma alegria na casa da Ti Joana!

 

Uma noite, de inspiração desusada, os rapazes ajustaram, de aposta, um cartar ao desafio. Seria vencido o que primeiro perdesse a rima.

 

Quadra dum lado, resposta do outro, e a coisa foi-se amanhando, com tal sucesso que o Ti Antero soltava estridentes gargalhadas entre dois golos de maduro tinto, do de Cobaladrão, que aquecia ao borralho, na pitxorra preta de Nantes.

 

Entrementes, o Delmino, em resposta a um atrevimento do gémeo, botou a rima seguinte:

 

Boa noite meus senhores

No fundo d’um alguidar meu

O meu pai é serrador

Serrou os cornos ao teu!

 

Não havia ainda terminado e já a Caçolina, sua mãe, puxara a culatra atrás pespegando tamanho bofetão nas trombas do cantador que lhe afocinhou os queixos na cinza da lareira! O rapaz ficou tão atromelizado que precisou de muitos anos para perceber o que justificara aquela atitude marada de sua mãe!

 

Uma coisa é certa, nunca mais, a partir daí, houve noutro serão cantigas à desgarrada. Pudera, é que a Joana Caçolina tinha imenso empenho na sua fidelidade matrimonial!..

 

O Ti Antero inchou de empáfia por ter sido considerado, simultaneamente, o protagonista e a vítima.

 

Também ele precisou de muito tempo para perceber aquela atitude inesperada da sua querida esposa!...

 

Gil Santos

 

 

 

27
Abr18

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

Serafina Bajouca

 

O padre Zé estava gasto como puída estava a batina que não trocava há tantos anos. As pedras dos caminhos ermos que calcorreava para pastorear o seu rebanho, tinham-lhe moído o corpo e a alma. Poucos mais anos lhe emprestaria a vida, apesar de a ter vivido derrengando polaina, como era de esperar, neste tempo, para os sotainas.

 

Mas não havia forma de escapar à lei da vida e só lhe restava acautelar a sua herança.

 

Dono de um casal de lavoura muito forte, metade da povoação pertencia-lhe, preparava o terreno para deixar tudo à sobrinha Sanfrósia que lhe aturava as teimosias e lhe enchia a mesa de iguarias há largos anos.

 

Solteirona, com uma vida também já muito gasta pela dedicação extrema à causa e à casa, Sanfrósia ainda nutria uma ténue esperança de topar quem lhe aquecesse a cama. E não havia de faltar, certamente. O catano é que ou o fazia depois do velhote fazer as contas com o S. Pedro e aí não dependia da sua vontade, ou teria de contar com o seu assentimento, o que não se adivinhava tarefa fácil!

 

Vindo de Loivos, o abade tinha em casa um criado de nomeada Ceboleiro, que não sendo mal parecido, era sério e muito dedicado ao trabalho. Não deixava, no entanto, de ser um reles criado de servir. O melro há muito se andava a atirar à Sanfrósia, mas esta, mais por decoro do que por falta de vontade, negava-se aos adiantos. A bem dizer não o rejeitava, todavia, travada pela condição do amante e pela certeza de que o padrinho lhe negaria os ensejos, limitava-se a admirá-lo desde a janela de perpianho enquanto assucava a cortinha para batatas.

 

E que bem assoviava o marlante!

 

Aqueles silvos de rouxinol enchiam-lhe o coração de esperança.

 

Um dia ganhou coragem e declarou o seu amor ao padrinho/tio que, contrariamente ao que supunha, não ofereceu grande resistência. Porém, não lhe parecendo nada bem que um criado de servir lhe partilhasse a herança, e por causa do falatório, combinou com ela que o mandariam para o Brasil de onde regressaria de fraque e cartola. Depois sim, seria prestigiante casar com um brasileiro que de ceboleiro já pouco teria. Não obstante, exigiu-lhe que se mantivesse virgem, como supunha que ainda fosse, e guardasse voto de castidade até à morte.

 

Esta exigência é que foi o catancho!...

 

Mas, logo que o padre fechasse os olhos logo se haveria de ver!...

 

O Ceboleiro foi então recomendado a um irmão que o padre Zé tinha no Rio Grande do Sul e lá foi de vapor até às terras de Porto Alegre para se lapidar.

 

Entretanto o padre finou-se e a sobrinha não demorou a mandar vir o seu futuro marido.

 

Regressou que parecia um lorde, apesar de ter passado pouco mais de um ano.

 

Combinou-se o casório na matriz de Santa Leocádia e de reles criado de servir o Ceboleiro passou a grande e respeitável proprietário de uma imensidão de leiras, carvalhais, soutos e lameiros.

 

A Sanfrósia depressa olvidou o voto que tinha feito e ia recuperando o tempo perdido como podia. Contudo, apesar do labor, nunca foi capaz de alcançar, certamente por castigo do padrinho desde o além!...

 

Os anos foram passando e os cabelos branqueando. Com os mesmos problemas com que se havia confrontado o padre se confrontavam eles gora.

 

Quem herdaria casal tão farto?

 

O Ceboleiro, tinha uma catrefada de irmãos que a extrema pobreza tinha espargido por esse mundo afora. Um deles foi parar à cidade Invicta onde arranjou emprego como guarda-freios na Carris. Casado com uma vendedeira de fruta, oriunda de Sernancelhe, tinha já duas meninas na descendência, a Isaura de 3 anos e a Serafina Bajouca de cinco.

 

Perante a incapacidade de procriarem, os lavradores lembraram-se de pedir ao irmão do Porto uma das filhas que os ampararia na velhice. Como contrapartida teria o casal de mão beijada. Os do Porto não hesitaram, escolheram a Serafina e disso deram conta numa missiva enviada para o Planalto. Logo que vieram ao Porto de comboio trataram de levar a menina com eles até Fornelos.

 

A moça foi crescendo e enrijecendo com os ares e o presunto da serra. Com o futuro garantido e a velhice dos tios acautelada, estes pensaram que seria bom que ela aprendesse a ler para lhes amainar os serões de inverno.

 

Na altura não havia escolas nas redondezas, de forma que quem quisesse aprender as letras teria de se valer de algum curioso que as soubesse juntar. Assim, contrataram os serviços da governanta do padre António que vivia em S. Cibrão. O padre António veio pastorear Santa Leocádia à morte do padre Zé. Sem embargo, foi imposta uma condição muito severa: a menina só poderia aprender a ler e a contar, estava proibida de aprender a escrever. O objetivo era claro, prevenir a possibilidade de ela se vir a corresponder com alguém que não chaldrasse a seus tios

 

E assim foi.

 

A menina casou por três vezes e em todas elas conheceu o noivo somente no altar! Do primeiro casamento teve dois filhos e do segundo quatro.

 

Morreu velhinha com o casal dividido em mil cibos, como nunca o padre Zé achava que seria possível!

 

Coisas da vida!

 

Gil Santos

 

 

 

26
Jan18

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

CALDO DE BATRÁQUIO

 

Ter água canalizada em casa era um luxo quase proibido nas aldeias rurais dos anos quarenta. As fontes públicas resolviam quase todas as necessidades. Fossem os fontanários, ou as populares fontes de mergulho, toda a gente se abastecia aí do precioso líquido. Nos fontanários, os cântaros de barro ou de folha-de-flandres aparavam a água da bica, nas fontes de mergulho recolhiam-na de uma espécie de poço onde se mergulhavam. Está bom de ver que nestas fontes tanto se utilizava um cântaro limpo, como o balde dos recos que muito provavelmente teria andado aos trambolhões na estrumeira. Por isso a higiene não era propriamente uma preocupação. E assim se vivia como nos alvores da história!

 

No Carregal não se fugia à regra. No Prado, a um canto sombrio, está ainda a fonte, a cuja água se acedia através de uma grande janela com um parapeito de granito muito gasto pelo uso de séculos. A fonte há muito andava a meter nojo aos mais esclarecidos do lugar, nos quais se incluía o Ti Moreiras, antigo combatente da guerra dos dezassete. Assim, na impossibilidade de disciplinar os hábitos de uso da fonte por serem ancestrais, pensou o Ti Moreiras construir poço próprio no pátio novo de sua casa. Tanto mais que na altura estava na moda o furo artesiano. Para o efeito, contratou um artista de Serapicos. Acertado o preço, encomendou o trabalho. Semana e meia bastou para que de um furo de quarenta metros jorrasse água a rodos. À superfície a água chegaria através de uma bomba de roda, ou de um arcanho a que se chamava cacherelle. Optou-se por esta solução por exigir menos espaço de instalação. Dava-se ao zingarelho para cima e para baixo e após meia dúzia de bombadas era um regalo ver jorrar a água aos golos. Funcionava que era uma maravilha. Porém, passado algum tempo, o líquido começou a sair tão ferrugento que nem os animais o toleravam. Era da ferrugem do cano que conduzia a água até à superfície. Uma desilusão, ter de recorrer de novo à fonte do Prado para fazer o caldo!... Mas não havia outro remédio!

 

Naquele tempo, a iluminação das casas era fraquíssima. A candeia de petróleo ou de azeite, mesmo ajudada pela labareda da fogueira, não deixava nem sequer ler o jornal, quanto mais enxergar o que se jantava! Ora foi exatamente desta dificuldade que nasceu o caso que se relata.

 

Anoitecia quando a criada lá de casa se apercebeu de que o cântaro da água estava vazio. Como era hora de fazer o caldo havia que ir rapidamente à fonte. Chegou e, de mergulho, encheu-o e pô-lo à cabeça sem sequer ter tempo para dois dedos de conversa com os rapazes que aproveitavam o ensejo para cortejar as moças. Diretamente da vasilha encheu o pote, e quando a água fervia, juntou a batata, a couve o feijão e coirato do porco e tudo o mais que faz gorda a sopa do lavrador. Ferveu e apurou enquanto foi dar de comer aos coelhos de que se havia esquecido. Na hora de cear, como ao tempo se dizia, era uso comer a sopa no final da refeição.

 

O Manel Cabeça Grande, apreciava trincar os coiratos ainda mal cozidos que deixava religiosamente para a sobremesa. Mascá-los, vagarosamente, devia dar-lhe o mesmo gozo que hoje os chicletes dão à rapaziada nova! Lançaram-lhe o caldo na malga e à luz mortiça da candeia tragou-o apressado para ir ao serão da lerpa com os amigos. Coirato na boca, trincou, trincou, voltou a trincar, mas havia qualquer coisa de diferente naquele cibo do coiro cozido.

 

O gosto não lhe era familiar!

 

Não lhe parecia mau, o problema é que o bocado não dava de si como habitualmente, à força de suas mós. Insistiu, insistiu, voltou a insistir e à falta de paciência, chegou-se ao canto da lareira onde a luz era mais forte à conta da labareda de uma fronça que ardia. Botou o petisco para dentro da malga!...

 

Oh horror dos horrores!... Espanto dos espantos!... Diabo dos diabos!... Oh miséria desgraçada!...

 

Era uma salamandra que entrou para o cântaro e foi cozida com os feijões e as couves!...

 

Agoniado, o Manel não foi capaz de vomitar com pena de desperdiçar o caldo!

 

Gil Santos

11
Dez17

SINCELOS - ESTÓRIAS DE CHAVES

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SINCELOS

estórias em Chaves

 

Sincelos – estórias em Chaves, mais que estórias é um presente de Natal com estórias nossas, da nossa terra,  que o Gil Santos, também ele flaviense do planalto do Brunheiro e que também faz parte da família deste blog,  nos oferece, partilhando-as connosco. Estórias de vidas de montanha, de Chaves, de leitura obrigatória, de contar à lareira, de partilhar, de oferecer como quem oferece um pouco de nós. Sem dúvida um bom presente par oferecer neste Natal.

 

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Roubámos a sinopse e as notas de abertura de SINCELOS para partilhar aqui:

 

SINOPSE

«Sincelos» oferece-nos estórias simples, retalhos humildes, tal como as hortas da minha terra que se fazem de singelos talhões de renovo.


Mal ou bem ditas, estas estórias pretendem emprestar voz aos modos de vida, mas sobretudo às falas que o turbilhão do devir força ao olvido.


Que sejam o que eu quero ser, simples e ingénuas, «cortando o real com a faca da língua»!


Desabridamente destemperadas, as estórias radicam na «franqueza absoluta de uma oralidade recolectora dos sentimentos» de um povo modesto e sofrido.


Um tributo da escrita à nostalgia do Planalto!

 

 

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NOTAS DE ABERTURA

Sincelos hão de ser preitos ao linguajar das gentes do Planalto. As palavras, navalhas amoladas pelo suão, os sentimentos tributos a um povo simples e sofrido que ama e odeia como os demais.

 

Sincelos hão de ser memoriais aos jeitos de dizer da minha terra, um lugar livre e descomprometido.

 

Sincelos serão a evocação de um passado remoto, fragilmente registado, que o resgatará do turbilhão do devir.

 

Sincelos serão asas que rasgam os ventos da imaginação em pedaços tangíveis.

 

Sincelos serão testemunhos que nos acertam a vida.

Sincelos serão viagens a um tempo outro. O saldo das contas com a

simplicidade que lhe marcará a diferença.

Sincelos serão pontes para a nostalgia.

Sincelos serão a alma gémea de um homem do povo, que assuca o torrão

com a relha da caneta. Um lavrador de courelas que não renega o berço que o pariu.

 

Aproveitem, mas botem samarra que o vento corta!

 

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Para quem estiver interessado em comprar o livro, o preço de capa é de 15€ e está à venda na FNAC, em Chaves na Rua do Olival (Livraria da papelaria Flávia Douro) ou pode ser pedido por mail ao autor para enviar à cobrança, com pedidos enviados para o seu mail pessoal: gilmmsantos@gmail.com.

 

Da minha parte um agradecimento ao Gil Santos por ter escolhido duas das minhas fotografias para compor a capa e contra-capa do livro. Obrigado Gil pelas fotos e principalmente pelas estórias.

 

24
Nov17

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

Pior a emenda que o soneto

 

No Planalto do Brunheiro, monte sobranceiro à veiga de Chaves, nada medra que não seja centeio e batata. Terra verdadeiramente fria, é varrida pelos ventos gelados que se entalam entre o Larouco e a Padrela. Mesmo o pinheiro bravo tem dificuldade em crescer naquelas terras onde Deus parece nunca ter passado. De arvoredo, só o carvalho negral e o castanheiro encontram guarida, emprestando um verde triste à paisagem.

 

Pelos Santos semeava-se o centeio que havia de se ceifar no estio. Por março, a batata que se arrancava em setembro. A atividade agrícola resumia-se quase exclusivamente a isto, não sei se por falta absoluta de condições para outras riquezas se por inflexibilidade cultural para outras oportunidades. Sei é que quase toda a vida se organizava em função do ritmo destes parcos haveres. Um tempo confrangedor mais próximo da Idade Média do que do Porto!

 

À volta do Carregal, na pujança da primavera, a paisagem desenhava-se no verde viçoso das searas centeias e na cor térrea do solo lavrado, onde irrompiam as primeiras folhitas das canibeques. Mesmo a passarada, por estas paragens, adiava quanto podia o impulso da procriação, aguardando que os carvalhos se vestissem da folhagem necessária para rebuçar os ninhos, o que só acontecia por finais de abril. Andar aos ninhos, por esse tempo, ou aos níscaros por outubro, eram os passatempos preferidos da rapaziada.

 

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A ganapada, que frequentava a escola de Adães, a cerca de três quilómetros que se venciam a pé, no regresso das lições do Mestre Matos, não perdia a oportunidade de procurar uns ninhos de gaio, de melro ou de rola. O Nano, o Gripino, o Taleta, o Marcelino, o Adérito, o Tone Fisgas e eu próprio, competíamos na busca daquelas preciosidades, guardando o segredo o mais que podíamos.

 

Em Adães morava o Ti Temporão, padrinho do Tone. Este visitava-o uma única vez no ano, nas vésperas do seu aniversário. Fazia-o porque sabia que, invariavelmente, lhe cairia uma moedita de cinco paus. Não falhava! Neste ano, vá-se lá saber porquê, em vez dos cinco marréis da praxe, choveram sete e quinhentos. Uma fortuna para o tempo. Porém, o Zé Paranhos, pai do Tone, sabendo da franqueza do compadre, extorquia o metal ao miúdo para torrar em vinho na taberna do Antero.

 

Naquela ocasião, no regresso da escola e na confusão da brincadeira, o Tone nunca mais se lembrou do tesouro que transportava na algibeira. Pelo caminho, passando no Belão, havia uma enorme leira de centeio do Ti Moreiras. Numa borda da seara, um enorme castanheiro dava guarida, todos os anos, a um casal de gaios que aí plantava um repimpado ninho. Quase sempre os gaios desaninhavam sem que a rapaziada lhes chegasse. Isso andava a fazer uma confusão danada ao brio passareiro dos mais afoitos.

 

Ora, nessa manhã, o Nano afirmou a pés juntos que vira o gaio com o cibo no bico a ir para o castanheiro. Por isso determinou que tinham de topar o ninho!

 

O castanheiro era frondoso, imenso, e para encontrar o dito cujo, foi preciso pisar todo o centeio à sua volta. Foi até necessário que alguns se rebolassem pelo chão para verem melhor por entre a folhagem densa. Deu-se com o ninho, mas o pior foi o que aconteceu depois

 

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O centeio, à volta do castanheiro, ficou assobalhado de forma irrecuperável e os sete e quinhentos sumiram do bolso do Tone. Procurámos, voltámos a procurar, e das moedas de caravela nem o rasto!

 

A solução foi cortar o centeio para ver se apareciam. Ceifou-se, mas nada!

 

Em frente da leira morava a Tia Maria Simoa que, fazendo jus ao seu estatuto de cusca, apreciou toda a obra.

 

Quando o Ti Moreiras deu com o estrago e se pôs em campo, logo a Tia Maria lhe segredou o nome dos autores. O Ti Moreiras foi ter com o pai do Tone Fisgas e, confrontando-o com a realidade exigiu o pagamento dos estragos. Foi acordada a importância de quinze escudos e com desconto, uma vez que o neto do Ti Moreiras também estava envolvido!

 

Coitado do Zé Paranhos! Nesse ano não só perdeu o direito ao presente de aniversário do rebento, como ainda teve de desembolsar o que não tinha para pagar as traquinices do pimpolho!

 

Em vez de matar a sede na tasca do Antero afagou-a num estadulho da acarreta que estendeu pelo lombo do Tone.

 

Claro que não lhe daria o mesmo gozo do tintol da tasca do Antero! ao Tone muito menos, pois passou uma semana de molho!

 

Coisas da vida!

Gil Santos

 

 

27
Out17

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

NA TASCA DO RAMADA

 

Almerindo Preguiceiro era um vagabundo!

 

Nem sabia nem queria fazer nada. Passava os dias a derringar polaina de tasca em tasca, amanhando conversas de ocasião com os parceiros copofónicos ou a tainar com outros da sua igualha.

 

O bandalho nasceu com o rabo virado para a lua, como soi dizer-se. Foi plantado nas poulas do Toucedo pelo sotaina da aldeia e apesar de não o ter perfilhado, nunca lhe negou sustento para o fazer homem. Contudo, saiu-lhe a porca mal capada. O rapaz cresceu bem estrumado e bem regado, medrou, mas descambou e deu vadio. Sua mãe, uma cabaneira pobre, pasto de muitos por necessidade, não tinha dúvidas quanto à paternidade do rebento e, com propriedade, lá sabia porquê!

 

De calças de peitilho e alças, rachadas no rabo, aprendeu temperano os prazeres do non far niente e passava os dias na gandulice. Da escola retirou pouco proveito uma vez que eram mais os dias em que se baldava, roubando castanhas ou indo aos ninhos, do que aqueles em que sentava o traseiro nas velhas carteiras do mestre Matos. Ainda assim, aprendeu a juntar algumas letras, a assinar o nome e a fazer meia dúzia de contas, sobretudo de somar e de multiplicar.

 

Gargalhote, assentou praça no dezanove e aí refinou as manhas de viver à pala dos outros. Incólume a castigos mais duros, passou à peluda quase virgem. Regressou ao ninho materno ainda mais salafrário do que o havia abandonado.

 

Prestes cogitou botar casa. Carecia, para isso, de parceira que lhe aprouvesse. Havia de ser asadinha, trabalhadeira, boa parideira e com mão para a cozinha. Contudo, sendo bem conhecido pelas moças das redondezas, as mais ajeitadinhas e com dois dedos de testa fugiam-lhe como o diabo da cruz. Apesar de bem-parecido, aquela veneta de detestar o trabalho fazia com que chaldrasse somente a quem não queria. Por isso teve de topar parceira em aldeia longínqua onde ninguém lhe conhecesse o sestro.

 

Após fuçar alguns meses pelos mais recônditos lugarejos, acabou por catrapiscar a Tchica Sarilheira, também ela originária de cabaneira pobre. Todavia, a moça era dotada de algumas das qualidades que lhe convinham. Era trabalhadeira e uma aturada dona de casa, no entanto tinha um defeito de fabrico que a privara de melhor partido, nasceu com uma gâmbia mais curta e manquitava um cibo. Nada com que o sacripanta não pudesse bem.

 

A boda, suportada pelo padrinho, abade da freguesia, foi de arromba. Uma vitela no espeto, meia pipa de vinho do de Cova do Ladrão e uma fornada de pão, para que todos enchessem as bentas à conta do casório do Almerindo. Mal eles sabiam que afinal quem pagava a boda era a côngrua a que por serem católicos apostólicos romanos estavam sujeitos!...

 

A vida a dois corria bem, tanto assim que passado nove meses a terra festejava já o primeiro rebento do casal.

 

Todavia, aquele vício da calaçaria estava a encher de sofrimento a Sarilheira. Era por demais! O Preguiceiro, à ajuda, em chaldrando-lhe o patrão, ainda ia bolindo nem que fosse somente meio-dia. De tarde descansava na massadoura do prado. De resto para si não fazia nada, esperando que a mesa se compusesse com o que a desgraçada da mulher ganhava nas magras e raras jeiras que pudesse alcançar. Fome, a bem dizer, não passaria pois a mulher era diligente e paciente ao ponto de conseguir que não lhe faltasse o caldo. Agora mimos, só mesmo os das tainadas com os amigos, o mais das vezes na tasca do Ramada. Queimava, nestas andanças, os míseros tostões que pudesse juntar. E não lhe perdoava, pelo menos uma vez por mês tinha tainada e bebedeira certa.

 

Quando o peixeiro passava pelo lugar com sardinha, quase sempre recessa, a Tchica lá fazia um esforço por botar meia dúzia para o marido, no entanto tinha de lhas estripar muito bem que o biqueiro não as comia com tripas e muito menos fritas. Tinham de ser assadas na brasa e bem regadas com azeite e vinho dos mortos.

 

Ora um dia, ali pelo São João, quando o povo diz que a sardinha pinga no pão, o Ramada encomendou uma canastra delas para uma sardinhada servida ao final da tarde de um sábado, para meia dúzia de comensais dos da igualha do Preguiceiro.

 

Enquanto comiam e bebiam à tripa-forra a Tchica Sarilheira calhou de passar no caminho, de regresso da sacha de uma leira de batatas que o Sr. Prior lhe havia encomendado. Quando se apercebeu do festim, parou debaixo de um caramanchão fronteiro que a rebuçava e pôs-se à escuta dos dezeres do marido.

 

― Ó Niceto, bota aí mais uma sardinhita, que elas estão bem boas!

 

― Tu és um lambão Almerindo, comes mais do que nós todos. Pudera, não lhe comes as tripas, mamas só os lombinhos, por isso, enquanto nós comemos uma, tu lerpas três… Fosca-se, só comes mais alguma se for com as tripas!

 

Para não ficar mal,

 

Bota cá mas é a sardinha que essa vai com tripas e tudo.

 

A Tchica acabara de ouvir o que faltava para lhe tirar a biqueirice.

 

Que esperasse!

 

Passado oito dias o sardinheiro voltou e a Sarilheira comprou meia dúzia delas. Preparou-as para assar mas de uma forma especial. Num almofariz esmigalhou muito bem algumas malaguetas bravas que faziam bufar o mais pintado! Misturou-lhe um pouco de azeite e encafuou a mistela na tripa das sardinhas que tocavam ao parceiro. Salgou-as e estavam prontas para a brasa.

 

Almerindo chegou para a janta, alapou-se no escano e reparou que as sardinhas assavam no braseiro com as tripas, tal como ele não gostava.

 

Reclamou.

 

― Olha lá ó estojo, num te disse já que não gosto de sardinhas com tripa! Parece que és burra!...

 

― Ó meu querido maridinho, aqui é como na tasca do Bento Ramada, comes e calas!...

 

Ele ligou os fios e percebeu a deixa!

 

Calou moreta e esperou que as sardinhas lhe caíssem no prato.

 

A muito custo lá as foi roendo.

 

Quando chegava à parte da barriga torcia-se todo.

 

Ele suava, ele bebia, ele botava a língua de fora, bufava, contudo, para não dar parte de fraco, calava-se como um rato!

 

Dali por diante deixou de ser biqueiro e fosse o que fosse que lhe caísse no prato morria! Todavia, das sardinhas nunca mais quis ouvir sequer falar!

 

Abençoada Thica!

 

E isto é o que se sabe!

 

Quantas outras biqueirices não lhe teria curado aquele pobre anjo, na intimidade das paredes de pedra solta do casebre em que viviam?

 

Uma coisa perecia certa, à medida que os anos passavam, Almerindo arrepiava caminho e se pudesse viver cem anos, haveria de ser um homem exemplar tal como seu pai que só cobrava batismos e funerais a quem se olvidasse de lhe untar as barbas pelos sarrabulhos!

 

Gil Santos

 

 

28
Abr17

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

O RACIONAMENTO

 

O Marcelino Pão e Vinho andava lazarado!

 

Ele bem escancarava a gaveta do meio da mesa de castanho da cozinha, mas do pão, que antes guardara, nem migalhas! Restava a velha faca do Palaçoulo, gastinha de o cortar.

 

A barriga andava-lhe colada às costas. Deixara há muito de roncar com a fome. Valia-lhe a pena, o Marcelino não tinha como a forrar!..

 

A única coisa que lhe ia valendo era o caldo que sofregamente engolia alapado no escano da cozinha. Um caldo sem unto, bem entendido, feito de cardos apanhados nos lameiros ou nas bordas húmidas dos caminhos.

 

Na primeira metade da década de 40, a tísica arrasou meia nação. E se isso não bastasse, ainda veio a fome negra que esterzicou meio mundo.

 

Bem razão tinha o Velho (filho de Santa Comba Dão) quando, com paternalismo irónico, afirmava:

 

― Portugueses, livro-vos da guerra, mas não vos livro da fome!...

 

A guerra mundial estoirara em 39, o mesmo ano em que tivera fim a guerra civil de nuestros hermanos que lhes impôs o generalíssimo e os colocou em agonia!

 

Perante tais factos e não estando ameaçada como em catorze — pelo menos diretamente — a posse do império colonial e nem tão pouco a independência nacional pela ganância dos castelhanos, Salazar acamaleou! Ora arreganhava os dentes aos camones, nossos parceiros seculares, interesseiros, ora piscava o olho ao Adolfo e ao Benito, já para não falar das relações, quase íntimas, que estabeleceu com Bahamonde. E assim levou a água ao seu moinho. Encheu o bornal da nação de barras de ouro, algum de proveniência duvidosa, e os cofres da finança de notas paridas pela exportação de conservas e de volfrâmio. Ao Zé Povinho castigou-o de fome e de miséria, coisa a que, a bem dizer, já estava afeito!

 

No que respeita à guerra, formalmente e a bem da nação, Portugal declarou a neutralidade a 1 de Setembro de 1939, tendo assinado com Espanha o Tratado de Amizade e Não Agressão a 17 desse mesmo ano. Desta forma permitia manter-se a Ibéria ausente da guerra.

 

Contudo,

“no Foreign Office começam a surgir duas leituras sobre a neutralidade portuguesa, decidindo-se o reexame das relações com Portugal e estudando-se medidas de retaliação económica, algumas das quais, como a suspensão de venda de carvão sob pretexto da falta de tonelagem portuguesa para o transporte, são postas em prática. É neste contexto que se insere a chegada a Lisboa de David Eccles, enviado por Londres para tentar ultrapassar as dificuldades existentes e para negociar uma nova e mais drástica versão do acordo comercial de guerra. A 13 de Julho de 1940, sob proposta do ministro de guerra Hugh Dalton, o gabinete britânico aprova a aplicação do sistema de racionamento aos dois países ibéricos. A 31 de Julho é publicado o Decreto de Represálias que institucionaliza o bloqueio do continente Europeu e o controle na fonte. Estas medidas tomadas pelos ingleses e mais tarde seguidas pelos norte-americanos inserem-se numa vasta política de guerra económica que através do bloqueio económico visava a intercepção das linhas de abastecimento ou de exportação das potências continentais sem tal suserania marítima que por sua vez provocavam a asfixia económica e derrocada do esforço militar do inimigo. Do outro lado as potências do Eixo em vez de imporem um contra-bloqueio anti-britânico precupavam-se sobretudo em furar e interceptar as linhas vitais de abastecimento das Américas para a Grã-Bretanha. (sublinhado nosso)[1]

 

Ora, este quadro forjou alguns anos de forte controlo sobre a produção agrícola, a produção industrial e o comércio. Os agricultores tinham de dar a sua colheita ao manifesto. Alguns, para não a terem rezistada, escondiam-na, ou enterravam parte dela, para depois a consumir, trocar, vender ou até mesmo oferecer. Escapando ao controlo da autoridade, este uso, para grande risco de quem o praticava, alimentava o contrabando, permitindo que alguns comessem e outros enriquecessem à tripa-forra. Para além do mais, nas cidades, vilas e aldeias, cada pessoa tinha direito a umas tantas senhas por mês que lhe permitiam levantar o sustento mínimo nos postos, criados para o efeito, ou mesmo nos comércios.

 

Muita gente ainda recorda esses tempos passados de madrugada nas intermináveis filas das quais, o mais das vezes, se regressava de mãos a abanar. Mas as necessidades eram de tal ordem que valia a pena arriscar e sofrer pela sobrevivência. Muitas vezes, sobretudo nas cidades, de que a capital era particular exemplo, as famílias com muitos filhos matavam a fome com a Sopa dos Pobres, vulgo Sopa do Sidónio. Este caldo era feito sobretudo de massa, feijão ou grão e um cheirinho de carne, evidentemente da mais reles. A Sopa do Sidónio constitui-se como a tábua de salvação dos mais pobres. Muitas vezes eram as próprias crianças que a recolhiam, carregando-a em baldes como a lavadura para os recos!

 

Porém, mesmo perante tanta penúria, o povo não perdia o humor e, como se a música enchesse barriga, ouvia-se cantarolar estas rimas pelas vielas da Ribeira do Porto:

 

Saudades tenho saudades

Em ver o azeite a brilhar

O bacalhau com as batatas

Que fugiu para não voltar

 

Saudades tenho saudades

Desses tempos em que eu ia

Por uma quarta de açúcar

Gritar à mercearia

 

Saudades tenho saudades

Desses tempos que lá vão

Que eu passava o dia inteiro

Lá na bicha do carvão

 

Saudades tenho saudades

Em ver os rapazes novos

Com uma cara de parvos

Por comerem trouxas d’ovos

 

Claro que a Princesa do Tâmega não fugia à regra. Contudo, estou que de uma forma menos severa, uma vez que sendo uma terra com marcas muitos fortes de ruralidade e uma veiga fertilíssima, sempre ia tendo pão!

 

Na rua do Sol havia uma padaria cuja proprietária também tinha forno de cozer. Mas apenas estava autorizada a fazê-lo duas vezes por dia, uma de manhã e outra à tarde. Por isso, constituíam-se longas filas à sua porta até que o pão se esgotasse. Raro era o dia em que não havia zaragata e um ou dois esmoucados! Mas o forno também cozia à socapa, desde que houvesse farinha! Depois, pela porta do cavalo, à calada, serviam-se duas espécies de pessoas: as muito pobres por caridade, e as muito ricas por ganância! Daí que na sua casa ao Postigo, a Marquinhas da Mó tivesse, sob o sobrado, numa espécie de cave secreta, reservas clandestinas de farinha para cozer fora da mãe!

 

Perante tanta penúria, conseguia a farinha através de um esquema, bem urdido, que o marido Carlão cozinhou. Carlão, um emigrado que tomou o nome do lugar de berço, era um homem bom e honesto, dado a boas e mui úteis relações com os agricultores da veiga e da montanha. Eles dependiam da sua forja nas Longras para aguçar as relhas dos arados, as ceitouras e os gadanhos, bem como as sacholas do arranque. Assim, nos dias de feira, com as encomendas deixavam coleiros de centeio ou de trigo para a paga do serviço. Esse cereal, escapado ao controlo dos fiscais, era rilhado a desoras nas mós da azenha do Agapito e alimentava a masseira e o forno da Marquinhas.

 

O negócio andava de vento em popa até que o Zé da Pinta, um sacripanta de maus fígados a quem Marquinhas teria negado um casqueiro, deu com a língua nos dentes. Não demorou uma semana que o casal não tivesse os fiscais à perna. Foram-se à residência e meteram o focinho nos mais recônditos cantos. Felizmente não toparam o alçapão que dava acesso à cave e que se encontrava sob os seus pés quando entraram pela porta principal. O dito cujo estava tão perfeito que nem às tábuas se encontrava emenda! Também foram cheirar à padaria. Mas aí toparam apenas rapaduras de massa e alguns alguidares de Nantes com fermento para a levedura da próxima fornada! Porém, esta ação de fiscalização teve os seus efeitos. Carlão temeu pela sua liberdade e deixou de arriscar tanto, pelo menos nos moldes em que o fazia.

 

A uma das famílias pobres que o casal ajudava pertencia o tal Marcelino Pão e Vinho. Ele era conhecido pelo acrescento não porque tivesse a ver com o filme que os espanhóis haviam de rodar em 1955, baseado na obra de José María Sánchez, mas porque o moço, com os seus dezasseis anos, se gabava de sobreviver tão-somente com uma côdea de pão e um caneco de tintol. Carlão tratou de o empregar para engendrar uma outra maneira, mais segura, de continuar o tal negócio. Falou com seus pais. O que Marcelino teria de fazer era andar de noite pelas aldeias, recolhendo o cereal negociado por baixo de mão com os lavradores nos dias de feira. A única condição que lhe impunha era a de que nunca dissesse, caso fosse apanhado, para quem trabalhava. Como paga encher-lhe-ia a casa de pão cozido e oferecia-lhe a montada no fim da campanha.

 

Aceitaram!

 

Ao lusco-fusco seguia para as aldeias, visitando os clientes que o patrão lhe indicasse. Chovesse que nevasse, pela madrugada regressava com os alforges cheios. Durante o dia ajudava na panificadora e em casa. Peneirava, amassava, tendia, aquecia o forno, enfornava e até debulhava as batatas se preciso fosse!

 

Andava como um sino naquele mester! Papo cheio, d’acavalo para aqui e para acolá. Que mais queria?! A mula fartava-a nas bordas do Tabolado. Depois do serviço acomodava-a nos fundos da oficina de mestre Carlão. A coisa estava a correr bem para ambos os lados. O forno da Marquinhas da Mó fumegava noite e dia. Saía tanto pão pelas senhas do racionamento como pela tal porta do cavalo. Mas, como não há bem que sempre dure, um dia a coisa deu no olho!..

 

Anoitecia com a promessa de chuva grossa anunciada por nuvens negras trazidas pelo vento galego. Corria o mês de março de 43. O Tâmega ia grosso pelo inverno chuvoso daquele ano. O Marcelino aparelhou a mula. Nessa noite tinha muito caminho para calcar e íngreme. Mestre Carlão havia negociado cinco arrobas de trigo com o senhor Antoninho Moreiras do Carregal. Dezassete quilómetros Brunheiro acima e outro tanto ó p’ra baixo esperavam o coiro do Marcelino e os cascos do muar. Para o caminho, botou ao bornal um carolo de centeio e pendurou às costas uma bota de viño do de Anelhe. Para riba foi montado na besta, para baixo à pata. Chegou pela meia-noite a casa do Ti Moreiras. Ajeitou o saco de serapilheira sobre a albarda da mula e à pressa mastigou uma lisca de presunto. Botou abaixo uma pichorra do de Cova do Ladrão e ala que se faz tarde, Brunheiro abaixo!

 

Chegou à cidade pela aurora. Fez-se à ponte de Trajano. Estava deserta. Quando ia a meio do tabuleiro aproximaram-se, a galope, vindos do Arrabalde, dois Guardas da Nacional Republicana. Cercaram-no, perguntando-lhe:

 

 Que leva bocência em cima da albarda dessa mula?!

O Marcelino, habituado às curvas da vida, não se intimidou e respondeu com ar de desprezo:

 

― São rosas senhores, são rosas!

 

Os Republicanos, não gostando da brincadeira, preparavam-se para apear de cassetete em punho para umas arrochadas. A mula do Marcelino, imobilizada junto às grades da ponte, derriçava nas ervas da borda do passeio. Antes que os guardas se arreassem dos cavalos, o Marcelino, vendo a sua boa, vai-se à mula e espeta-lhe a ponta da navalha antre coxas. A coitada, quando sentiu a naifada, protestou num arraial de cracóvios, de zurros e de parelhas! E tinha razão! As montadas dos Guardas assustadas, levantaram-se nas patas da frente e espetaram os ditos cujos com os cornos no rio. Livres do contrapeso, fugiram daquela alma do diabo, à toda, para os lados da Madalena!

 

Dos guardas nunca se avezou qualquer notícia! A última vez que Marcelino os viu arfavam como sapos à tona da corrente do Tâmega, agarrados aos ramos dos amieiros das bordas do Jardim Público. Estou que para além da molha e do cagaço, nada de mal lhes teria acontecido!..

 

Sei é que o saco do trigo foi parar, direitinho e intacto, à cave do Carlão!

 

Sei também que o Marcelino, montado na mula, pôs-se ao fresco para Tamaguelos, ainda nessa manhã. Por lá se quedou até que o incidente foi esquecido.

 

Regressou já muito depois do fim da guerra para nos contar a sua estória!

 

Gil Santos

 

[1]Cf. http://migre.me/vXMLF, em janeiro de 2017

 

 

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    • Anónimo

      Se fosse culpa do "inglês" não havia o Teixeira do...