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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Nov20

Vivências

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Quando é que isto acaba?

 

Esta é, certamente, a pergunta do momento na cabeça de toda a gente aqui, em Leiria, mas também em Chaves, no resto do país, na Europa e no mundo inteiro.

 

Primeiro, apareceu lá longe e nem queríamos acreditar que chegasse até nós, mas a verdade é que, como o mundo é hoje absolutamente global, ele foi avançando… e chegou mesmo. Então, assustamo-nos (não era para menos depois de vermos as imagens de outros países), fechamos as escolas e fomos trabalhar para casa (os que puderam) e esperamos. Os que não puderam levar o trabalho para casa ficaram em “lay-off” e outros (muitos, infelizmente) perderam os seus empregos. Passamos a acompanhar conferências de imprensa diárias e a ver números quase sempre a subir. De um dia para o outro, todas as nossas rotinas mudaram drasticamente: muito tempo em casa, muita gente em casa, pouco espaço em casa, muitas refeições para preparar, E-mail’s, Zoom, Teams, Google Classroom, compras online, máscaras, viseiras, álcool gel…

 

Depois, a pouco e pouco, voltamos a sair para o que decidiram chamar “o novo normal”, tentando convencer-nos a nós próprios que tudo estava bem. Mas nunca esteve, nem está ainda... Passamos a primavera, passamos o verão e estamos já a passar o outono. Primeira vaga, segunda vaga… Pela frente, agora, o inverno, frio, sombrio e tristonho, como sempre o é, mas este vai seguramente parecer ainda mais. Andamos nisto vai daqui a nada para um ano e já era altura de voltarmos à nossa vida, àquela vida a sério que tínhamos antes de tudo isto… já era altura de voltarmos a ser gente normal, de ver caras na rua, em vez de máscaras verdes ou com padrões a tentar combinar com a roupa, de ver sorrisos, de marcar jantares com os amigos, de estender a mão para cumprimentar, de abrir os braços para abraçar…

 

Quando é que isto acaba?

 

Luís Filipe M. Anjos

Leiria, novembro de 2020

 

 

27
Mar20

O Factor Humano

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Resistir para transformar

 

Em tempos difíceis, todos temos de desempenhar múltiplas funções. O enquadramento humanista deve estruturá-las a todas. Ficam dois textos distintos, um em que, como médico, abordo directamente a situação que estamos a viver. Outro em que escrevo alguns poemas sobre as mãos. Aquelas que temos de lavar uma e outra vez, mas nunca como Pôncio Pilatos. Mãos que servem também para escrever e para tanto mais como procuro deixar nestes poemas.

 

 

As responsabilidades de cada um

 

Os dias actuais são de grande preocupação perante a actual pandemia de Coronavirus (Covid-19).

 

É altura de cada um assumir as suas responsabilidades, modificar comportamentos, informar-se e informar. Sem pânico, mas respeitando uma situação grave.

 

O quadro é muito sério no Mundo, na Europa e também em Portugal. mas é possível controlar a situação e ultrapassarmos esta "curva apertada".

 

A China é a prova disso. Há um mês atrás, a sua situação parecia descontrolada. Mas, com o empenho das autoridades, dos profissionais de saúde, e de cada um dos chineses, estão actualmente a ultrapassar a situação. Para isso foi preciso investir, construir e equipar hospitais em tempo recorde, mobilizar meios humanos e materiais. Foi indispensável disciplina e persistência em larga escala. Houve empenho e respeito pelo outro.

 

É importante que rapidamente reflictamos somos a estratégia implementada, porque ela funcionou. A taxa de mortalidade da infecção por Coronavirus é mais baixa do que aparentam os terríveis números de Itália. Muito provavelmente em Itália não foi feito um despiste em larga escala na população. Já na Coreia do Sul, onde esse despiste foi feito, a taxa de mortalidade parece ser 5 a 10 vezes menor do que a de Itália.

 

De qualquer forma, o cenário de atingirmos milhões de infectados na Europa é o mais provável. mas tal não é motivo para desistirmos de controlar a propagação do vírus. Assim a contenção nos contactos físicos, o respeitar a "etiqueta respiratória" em relação à tosse e aos espirros, evitar contactos próximos para além do estritamente necessários é importante.

 

E lavar as mãos frequentemente, com água e sabão, lavar as mãos, lavar as mãos... (ou desinfectá-las com solução alcoólica).

 

Em Portugal temos um população muito envelhecida e debilitada, parte importante dela em lares de terceira idade. Serão eles principalmente os mais frágeis perante a contaminação.

 

É necessário ouvir as recomendações da Direcção Geral de Saúde (DGS) e também é importante que estas recomendações sejam adequadas à situação e sejam feitas no momento certo.

 

É importante que a DGS ouça os profissionais de saúde que estão no terreno.

 

Os profissionais de saúde tem de ser protegidos, pois eles são indispensáveis neste processo e são também os mais expostos ao risco de contaminação.

 

Felizmente temos um Serviço Nacional de Saúde (SNS), que apesar da desnatação e do empobrecimento que sofreu nos últimos anos, é público, está ao serviço de todos e permite uma articulação directa com as estruturas de decisão política em saúde.

 

O nosso SNS tem profissionais tecnicamente competentes, de uma grande dedicação e com grandes qualidades humanas. É necessário dar-lhes meios materiais e financeiros, de forma a uma rápida decisão e uma rápida actuação. A situação vai ser crítica, provavelmente, na área dos cuidados intensivos, onde a resposta poderá estar limitada por falta de instalações, de equipamentos e de recursos humanos Tal era o alerta há muito tempo dos profissionais de saúde, dos sindicatos de médicos e de enfermeiros e da própria Ordem dos Médicos.

 

Mas o SNS tem de responder ao mesmo tempo a todas as outras necessidades de saúde da população, adaptando-se, como é evidente, a uma situação de excepção. Senão muitos serão os sofrimentos e muitas serão as mortes mesmo daqueles que não contactarem com o vírus.

 

As responsabilidades são também do lado do Governo não pode haver mais atrasos na definição de estratégias. Não pode haver mais erros. Tem de haver um ágil, rápido e eficaz apetrechamento a todos os níveis dos hospitais públicos. As cadeias de comando têm de incluir profissionais com experiência e com capacidade de liderança. Temos de saber ouvir de saber esvaziar conflitos desnecessários, porque esta vai ser uma maratona, não vai ser um sprint.

 

 Há muito que eu e outros temos alertado para os perigos do enfraquecimento do SNS.

 

Agora não há margem para adiamentos.

 

Mas o período que atravessamos não é para divergência, é para convergência. Na sociedade tem de predominar a solidariedade e o humanismo. E estou convicto que não vamos falhar.

 

 

 

As Mãos (1)

 

Há mãos que se dão

E mãos que nos dão

Toma a minha mão

Não digas que não

 

Há mãos que são mães

Outras que são pão

E estão quando vens

E nunca se vão

 

 

As Mãos(2)

 

Há mãos que ao fazer

Brotam dignidade

Orgulho de ter

Tal capacidade

 

Há mãos que nos dedos

Têm tal talento

Que rasgam sem medos

Caminhos pro vento

 

 

As Mãos(3)

 

Há mãos pra sonhar

E pra proteger

Mãos para encantar-me

Ao adormecer

 

Mas mesmo sem mãos

Teremos carinhos

Dedos da emoção

De estarmos juntinho

 

 

As Mãos(4)

 

Vidas miseráveis

De dedos que sofrem

Das mãos que são hábeis

Toquem no que toquem

 

Ao darmos as mãos

Nós somos mais fortes

Rompemos as rimas

Sem medo da morte

 

 

Manuel Cunha (pité)

 

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