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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

12
Ago20

Crónicas de assim dizer

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O Papão

 

O papão andava atrás de mim, insistia em me mostrar coisas que eu não queria ver e em me ensinar coisas que eu não queria apender. O que tenho chega-me, não quero nem preciso de mais nada. Mas ele, mais do que decidiu, determinou, que me havia de agarrar pela roupa no pescoço e arrastar-me numa visita guiada pela desordem do mundo. E quanto mais eu lhe dizia que não, mais ele insistia que sim. Alegava motivos, justificações, razões, virava do avesso as minhas premissas para tirar conclusões absurdas e apoiava a falta de lógica do seu raciocínio na minha clareza dele.

 

Parecia um filme sem som a preto e branco, onde eu teimava pôr alguma cor, não por teimosia, mas para mais depressa chegar ao fim do percurso e transformar numa curta metragem o que parecia uma eternidade. E o papão não largava o pau que lhe servia para tudo. Parecia um ex-militar, amputado, no pós-guerra. Uma granada tinha-lhe rebentado acidentalmente nas mãos e agora, só com a esquerda, tinha na direita a merda do pau com que acendia e apagava as luzes, com que se orientava e desorientava à luz do dia e pela noite adentro. E batia com aquilo no chão três vezes seguidas para se fazer notar e de cada vez que o fazia eu ouvia o Mostrengo que “… na noite de breu ergueu-se a voar… e disse: quem é que ousou entrar nas minhas cavernas que não desvendo?”

 

E eu que estava ali só por acaso, a achar que tinha, mais que o direito, o dever de libertar as correntes, porque Deus nos tinha criado homens livres, a sacudir o corpo, a apostar que o cadeado se ia libertar mesmo sem eu ter a chave, mas só porque queria muito, e quanto mais abanava o corpo mais os fios se emaranhavam à volta dos meus braços e o papão, obstinado, continuava, ignorando o sangue que começava a escorrer. Foi aqui que eu comecei a perceber que o filme era mesmo e só a preto e branco e que me encontrava numa rua sem saída, que estreitava a cada passo dado e que as paredes laterais iriam acabar por me amputar os braços de tanto nelas raspar, se eu não parasse a tempo ou não detivesse o papão que vinha na minha direcção de braços abertos.

 

Foi quando se deu o milagre: alguém dentro de mim começou a cantar uma canção de embalar, exactamente como aquelas que a nossa mãe nos cantava na infância, com uma voz tão terna, tão meiga, tão doce, que o militar da mão direita amputada começou a amolecer, a entrar num sono ou numa dormência ligeira e aos bocadinhos, step by step, caíram-se-lhe as pálpebras, encerrando a desordem do mundo e rolou pelo chão.

 

Podia-me ter dado para fugir, mas pensei que nunca se deve virar as costas a um papão, mesmo que ele esteja a dormir, porque pode de repente acordar, enfiar-nos a curva da bengala na roupa do pescoço e desatar a fazer-nos uma visita guiada pela desordem do mundo.

 

Comecei então a recuar pelo beco por onde tinha entrado, a única saída possível, porque cavar túneis nas paredes laterais ia acordar o papão que agora já estava a sonhar, provavelmente com paraísos tropicais pois que esboçava, no seu rosto negro, um ligeiro sorriso.

 

E quando as minhas costas bateram na porta da entrada, eu que não sou crente, ergui os olhos e as mãos para o céu e agradeci, humildemente agradeci a Deus. Deixei de ouvir o canto de embalar, o que significava que o papão estava longe o suficiente para me não voltar a puxar a roupa do pescoço e, muito sinceramente, se eu fosse de chorar, nesse momento tinha-me derramado em lágrimas.

 

O que nos vale é que não temos medo, ficamos só esquisitos! “Aqui ao leme sou mais do que eu...” continuava o poema de Fernando Pessoa.               

 

Cristina Pizarro

 

 

11
Ago20

Chaves D´Aurora

Crónicas

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AS AURORAS DE CHAVES

 

Ainda faltavam três semanas para findar o inverno de 2010, quando cheguei a Chaves, onde um projeto pessoal me faria apaixonar, plena e incondicionalmente, pela terra querida de meus ancestrais. Este sentimento já começara em 1974, pouco após a Revolução dos Cravos, quando viajei pelo antigo caminho de ferro, em um comboio cheio de soldados muito jovens que estavam a celebrar, com uma sadia algazarra, tanto o retorno definitivo à terrinha, quanto o facto de estarem livres, enfim, das guerras nas colónias d’África.  Tendo que voltar no mesmo dia a Lisboa, após aportar à antiga estação (hoje um centro cultural), percorri sítios ainda perdidos no tempo até à Estrada do Raio X, onde tentei, em vão, localizar a Quinta do Grão Pará, que pertencera ao meu avô paterno.

 

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Direitos de autor da imagem de Berto Alferes

 

 

Isso viria a concretizar-se apenas em 2006, quando, por uns três dias, num simpático hotel nos Anjos, a contrastar a Aquae Flaviae antiga – e que já me deslumbrava – com a então modernizante Chaves, colhi alguns dados para a construção do romance que pretendia escrever, e no qual me propunha a narrar os acontecimentos que levaram meu avô, meu pai e os mais da família para o norte do Brasil, sem jamais retornarem  –  do quê e onde resultou, afinal, meu estar no mundo.

 

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Dessa vez, porém, o carro de aluguer conduziu-me para a outra margem do Tâmega, ao aconchegante Hotel 4 Estações, próximo à Capela do Senhor do Bom Caminho, numa avenida que se prolonga até a estrada que vai dar à Galiza. Era já noitinha e, por estar cansado, comi um resto de farnel que trouxera de viagem e atirei-me ao sono. Despertei bem cedinho e, ao abrir a janela do quarto,  visualizei partes da veiga, outras tantas da estrada que seguia para o norte, e mais uma pequena amostra do início do planalto Barrosão, a oeste. Fascinante, porém, era o banho de luzes e cores que respingavam em meus olhos. A Natureza apresentava-me – muito prazer em conhecê-la! – a aurora de Chaves.

 

Infelizmente, só algumas vezes pude obter de novo esse gozo, pois, no pouco mais de cem dias em que estive a debruçar-me sobre o notebook, ou, em “pesquisas de campo”, a colher dados na Biblioteca Municipal de Chaves,  percorrer todos os sítios da cidade e conversar com os locais, entre os quais fiz bons e excelentes amigos, eu trabalhava até bem tarde da noite e raramente me podia dar à alegria de dizer  –  bom dia, aurora!       

 

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Certa vez, porém, aconteceu algo que me emocionou bastante. Os amáveis Sr. Ilídio e Dona Ana haviam-me transferido, há pouco tempo, para uma água-furtada no último andar do hotel. Esta era, a meu ver,  o que de mais romântico e charmoso poderia haver para  um escritor. O teto era em diagonal, enviesado, com uma claraboia bem acima da pequena mesa de trabalho, o que, na minha imaginação, reportava-se às mansardas de Paris, onde vários artistas escreveram, pintaram ou compuseram suas obras. Havia dormido cedo, na véspera e acordei com uma súbita inspiração para novo capítulo. Após as abluções matinais, fui até à claraboia e ergui a moldura de vidro, para entrar o ar da manhã. Pus a cabeça para fora, a fim de prover meus olhos, novamente, do orgasmo visual da aurora flaviense.

 

Cerrei o caixilho e... o melhor veio a seguir. Estava a digitar o romance, quando escutei batidas leves, mas insistentes. Abri a porta do quarto, para atender a quem tocava. Ninguém. Ao voltar à mesinha, olhei para o teto e vi o autor dos toques. Era um belo representante da Natureza, um passarinho de penugem quase toda amarela, que pinicava com insistência o vidro da claraboia. Talvez quisesse dar-me o bom dia; o mais provável, no entanto, era entrar para comer alguns nacos de pão e de queijo que, com um bom vinho trasmontano, sobraram da minha frugal ceia noturna. Esse delicioso facto levou-me a pesquisar na Internet e escrever o capítulo 221: “No último dia dos Bernardes ao Raio X, ao abrir uma janela, Aurélia deixou seus ouvidos inebriarem-se do canto dos passarinhos. Ah, os pássaros de Chaves! Eles estão por toda parte e alguns, como cantam! Tordos, toutinegras, estorninhos, rouxinóis, rolas-turcas, melros, chapins, bicos-de-lacre, piscos, ferreirinhas, cotovias, chamarizes, pintassilgos, vendilhões... e muitos outros que, àquela altura, abundavam na veiga, nos jardins, nos pomares e nas margens arborizadas do Tâmega”. Talvez Aurélia viesse a inverter, no Brasil, a geografia dos versos de Gonçalves Dias, na “Canção do Exílio”: “As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”.

 

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Embora protagonizado por minha tia Aurora (ainda que meu avô seja o antagonista e a verdadeira protagonista seja, talvez, a própria cidade), e cujo prenome no livro é o único real, não fictício, é possível, também,  terem sido as auroras de Chaves que me inspiraram o título do romance. As palavras chaves e aurora têm várias conotações. Fazem pensar em quantas portas fechadas minha tia deparou, reais ou metafóricas, e nas tantas chaves que esteve a buscar, na esperança de abrir, para si, um novo alvorecer.

 

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Conforme é exposto na página inicial de Chaves d’ Aurora: “Em que subtis cornucópias os deuses escondem as chaves da aurora, enquanto brincam, perversos, com o desespero dos pobres mortais que, ao intenso frio da madrugada, anseiam pelo amanhecer?”    

 

 

(Nota do Autor: Agradeço a imensa honra de ser convidado por esse dedicado flaviense, meu caríssimo amigo Fernando Ribeiro, a escrever em seu blog https://chaves.blogs.sapo.pt, esta e outras crónicas que virão, sobre as minhas vivências na querida Chaves. Buscarei fazer essa escrita de acordo com as grafias e acentuações de uso em Portugal, ao mesmo tempo em que seguirei o novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Como tenho dupla cidadania, mas nascido e residente no Brasil, peço apenas a compreensão dos leitores se, em razão de não dominar bastante o linguajar lusitano, houver palavras ou expressões que causem estranheza aos usuários portugueses do idioma).

 

 

 

05
Ago20

Crónicas de assim dizer

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Poderá ser…

 

 

 

A questão talvez seja a do talvez. Do que é que nos protegemos, do que é que nos defendemos e porque é que somos fracos?! Pode ser ainda outra, de quem é que nos protegemos, de quem é que nos defendemos e quando é que somos fracos?! Se a resposta for “dos outros”, é pacífico, acontece a todos, mas se a resposta for “de nós”, a coisa complica-se! Como é que alguém se pode defender e proteger de si próprio, se ainda por cima for fraco? Sim, também pode, eventualmente, ser através dos outros, mas nesse caso é preciso escolher muito bem as pessoas e o jogo está viciado desde o início! O que os outros sabem de nós, somos nós que lho damos a conhecer! Nós é que temos o filtro, nós é que decidimos o que deixamos ou não passar, se formos suficientemente fortes para isso! Talvez seja então o terceiro elemento, a fraqueza, que nos vai salvar! Mas até isto está viciado! Quem é que decide quando é que somos fracos? Em que circunstâncias? Obviamente, nas que nos convêm! E fecha-se novamente o círculo!

 

Resta, então, o quê? Encontrar alguém de confiança a quem nos possamos entregar e que decida isso por nós! Falha completamente, o que é mais do que previsível, inevitável! As pessoas são egoístas, até nem é preciso tanto, as pessoas são inteligentes e é claro que tendo uma vida disponível, outra para além da sua, vão subvertê-la aos seus interesses. Nem sequer lhes podemos levar a mal, faríamos ou não o mesmo, se estivéssemos no seu lugar? Aqui há duas hipóteses: ou o interesse dessas vidas é o mesmo e as coisas caminham para um bem-estar comum ou o interesse é diferente e há conflito. O mais frequente é que de início o interesse se pareça e que depois desapareça!

Quem é que depois disto se mete noutra? Há sempre quem se esqueça! Também há sempre quem se lembre disto tempo suficiente para segurar a sua vida nas mãos sozinho, custe o que custar, doa o que doer!

 

Surgem depois nestas pessoas de forma mais visível, acentuada e, às vezes, exuberante, atitudes ou comportamentos que nem sempre são explicáveis ou entendíveis! E que desatam a dizer, sem ninguém lhes ter perguntado nada, a vida é minha! E dizem aquilo como se nos estivessem a dar uma notícia em primeira-mão! Mais, dizem aquilo como se reclamassem por um direito que lhes é devido e que lhes foi tirado!

 

E nós ficamos a olhar para elas sem perceber nada, elaboramos um raciocínio, mais ou menos lógico, de acordo com a inteligência que temos, que em alguns casos reconheço que é brilhante, para adequar aquela situação, no mínimo, desajustada. E a palavra aqui faz sentido, des ajustada, sinónimo de o que não é justo, pois que o prefixo des, desfaz o sentido da palavra seguinte.

 

E os sentimentos, ou os efeitos de causalidade querendo ser mais racionais, não param aqui! Esta necessidade vital de readquirir a vida, não é apenas um salvamento do futuro, sinónimo de o que está para vir ou por vir, mas a tentativa, obviamente perdida, da ressurreição do que já se perdeu.

 

É claro que isto só faria algum sentido se a vida fosse uma nossa construção, mas a vida foi-nos dada sem nós termos pedido nada e isto que parece não ter importância nenhuma, é a razão de muita coisa. Tal como nos foi dada, também nós temos de a dar -e voltamos ao Gajo lá de cima que andou este tempo todo a dizer que nos tinha dado a vida quando afinal Ele só nos emprestou uma vida! E é por isso que o Gajo não aparece em parte nenhuma, com o cagaço de ser linchado em praça pública- e por isso, isto não passa de uma transmissão de bens! Ora aí está, temos de a transmitir e bem! Para além de não ser nossa, ainda é suposto que a melhoremos o mais que pudermos e soubermos, para depois a entregar de bandeja! Faz parte da convenção, também nos foi entregue assim.

 

Não é nada fácil conviver com a consciência disto, entendendo por consciência o conjunto de conhecimentos, sentimentos e emoções que temos aprendido, apreendido e adquirido ao longo dos anos e que nos mudam, transformam, moldam, desgastam, desesperam, moem, delapidam, cansam, cansam, cansam e quantas vezes matam!

 

Surgem depois nestas pessoas, de forma mais visível, acentuada e, às vezes, exuberante, atitudes ou comportamentos que nem sempre são explicáveis ou entendíveis! E que desatam a dizer, sem ninguém lhes ter perguntado nada, a vida é minha! E dizem aquilo como se nos estivessem a dar uma notícia em primeira-mão! Mais, dizem aquilo como se reclamassem por um direito que lhes é devido e que lhes foi tirado!

 

Onde é que já se viu!

 

Cristina Pizarro

 

22
Jul20

Crónicas de assim dizer

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Dentro de uma bolha

 

Estava à beira do colapso quando percebi que nada mais podia fazer senão desistir! As palavras que me saíam da boca eram precedidas por um “não” ou pelo prefixo “a” antes de chegarem aos teus ouvidos, acrescentado sei lá por quem ou porquê!

 

E era tão curta a distância! Estavas ali à minha frente, os nossos ombros vergados sob o peso do mundo, ou da realidade partilhada, aproximava-nos ainda mais. Os corações em sintonia e as cabeças a quilómetros de distância.

 

Primeiro utilizei palavras que me pareceram simples, sem as escolher; depois metáforas, contei histórias pelo meio, fiz representações a três dimensões com os objectos que tinha em cima da mesa, ao meu alcance, e tu persistias no erro, no que na minha perspectiva era erro!

 

Mas erro era o meu nome de baptismo para aquela situação. Na pia de água benta havia um sem número deles e tu ias buscá-los todos, menos os que eu tinha escolhido! Eu sentia-me na posse de quilos de argumentos para te contrariar, todos inférteis. Tu estavas tão perdido de ti que eu receei, por momentos infinitos, que não voltasses!! E puxei-te para mim, para terra, abracei-te em lágrimas, quando me pareceu que estavas de volta, de repente a regressares a ti, mas não! Foi só uma pequena inflexão no terreno, uma parte do chão que abateu para logo se restabelecer o desequilíbrio. E eu de pés e mãos atadas a querer desfazer os nós, a insistir que eram laços, em que bastava puxar por uma das extremidades para libertar o fio... Mas não, eram nós cegos!

 

E deixei arrefecer o sangue quente que no início fervilhava, consegui a muito custo retomar a compostura, passar ao plano B que era pegar nos teus argumentos válidos para tirar as minhas conclusões! E tu fazias o mesmo, pegavas nos meus e tiravas as tuas. A discrepância mantinha-se, apesar da convergência. Tínhamos dado a volta ao mundo sem tirar os pés do chão, sem sair dali.

 

E eu via buracos por todo o lado, ratoeiras criteriosamente colocadas em locais estratégicos, todo um plano diabólico montado, não para falhar, mas para satisfazer o inimigo e não a ti, e tu naquela inocência tão frágil a dizeres: é por bem!

 

E eu a querer dizer-te, sem dizer para que te não assustasses, que estavas a ler tudo ao contrário, que tinhas o livro à tua frente de pernas para o ar e tu lias na mesma! E não havia incoerência no teu raciocínio, estava só do avesso, estava só do fim para o princípio, mas continuava a fazer sentido, aquele que obsessivamente querias que tivesse. E quando assim é, acredita-se que o preto é branco e que o branco é preto.

 

E eu em esforço, já quase em desespero, a alterar o léxico de forma a que as palavras ditas te fizessem algum sentido e tu a levantares-te da cadeira e a ir embora, num caminho de fuga para o abismo, pois que era só de ti que fugias. E eu a querer deter-te e tu a dizeres não com uma convicção que eu quis negar que tinhas, porque não acreditava nela, e tu a repetires que eu estava enganada, e eu na convicção crescente do oposto.

 

Senti a urgência de que era preciso tomar uma decisão, só que ela não era minha. E vem então a angústia sentar-se à minha frente com uma cara de pau, a dizer-me o que eu estava farta de saber, a bater no ceguinho, como se costuma dizer, e a instalar-se confortavelmente no sofá, como se finalmente tivesse chegado a casa, depois de um dia cansativo de trabalho. Sentou-se para ficar.

 

Foi aqui que te pedi, não para abrires os olhos porque não está em mim pedir coisas impossíveis, mas para que os não fechasses. Andar às cegas, parece-me arriscado demais. É como pôr a nossa vida nas mãos dos outros, é entregar o poder e como sei que nisso se arrisca tudo, disse: Não faças isso! Mas a tua linguagem era diferente, tinha uma interferência colada à pele. Havia uma voz dentro de ti a ditar-te, sem tu teres consciência disso, o que devias e não fazer. E a voz dizia assim, cheia de ternura enganosa: Faz isto, não faças aquilo…e tu, cordeirinho bom, a lançares-te na perdição gratuita, sem medir consequências, como um animal faminto sem distinguir o bem do mal! Por momentos cheguei a associar este estado de alucinação mental àquele que se experimenta pela ingestão de cogumelos alucinogénios! Sim, vi um documentário sobre isso!

 

Ah, se acreditasse em Deus e pudesse nesse dia acender uma vela que ardesse até ao fim! À falta disso fui à estante do escritório buscar um livro. Inacreditável isto, estavam lá dois exemplares, o que li e era meu e o que comprei para dar, quando a alguém fizesse falta!  No meio daquelas centenas deles e completamente às escuras, o meu cérebro conduziu-me à lombada do que queria em segundos, sem qualquer necessidade de o procurar, embora estivesse ali há largos anos! Sándor Márai. Talvez ele conseguisse o que eu não estava a ser capaz!

 

Claro que nada disto faz sentido, exactamente como a vida quando a queremos deter e ela nos olha lá de cima do seu trono, com a arrogância que lhe é própria e onde, na expressão do rosto, lemos, sem ela precisar de abrir a boca, aquela palavra trágica: Coitados!

 

Mas o milagre aconteceu, uns dias depois, sem Deus, sem vela acesa, sem pia de água benta, sem confessionário! Os teus lindos olhos castanhos abriram-se, cravaram-se no coração e com as tuas ágeis mãos arrancaste-o do peito, sentaste-o à tua frente, puxaste-o para ti e deste início a uma conversa, de homem para homem, que começava assim: “Ouve lá, oh meu menino…” Foi quando se ouviu um som, difícil de definir, que parecia a rolha de uma garrafa de champanhe a saltar. A bolha tinha acabado de rebentar e alguém, ali muito perto, comemorava e brindava à vida! Tu.

 

Cristina Pizarro

 

16
Jul20

Crónicas de assim dizer

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Funerais em vida

 

 

Andamos aqui a exumar cadáveres, a prolongar decrepitudes para evitar dizer não de uma vez por todas, e são só três letras, mas que nos custa muito a juntar! Não estamos preparados para funerais em vida, despedidas sem morto, últimas vezes por opção!

 

É-nos muito mais fácil gerir consequências do que assumir responsabilidades! Dizer e interiorizar "fui eu que quis", que supostamente nos podia fazer sentir poder, o que nos causa é aflição! Já quando dizemos aconteceu-me isto, ele fez, ele agiu primeiro e eu só reagi depois; já aceitamos melhor, a “coitadice”, nem sei se isto existe, de nos enganarmos e verbalizarmos: não estava na nossa mão, apazigua-nos! Mas a verdade é que estava e está! E servimo-nos, ou a nossa mente serve-se, desses jogos, traçados dissimulados, a ver se não damos conta, mas damos! Mesmo já no interior do labirinto, o certo é que sabíamos logo de início que encontraríamos sempre uma saída. Podia ser a pouco ou a muito custo, mas tínhamos a certeza de que havia nele, inexoravelmente, uma saída. Se no fim não encontrássemos nenhuma, havia sempre a do início, e é com isto presente que vamos sempre em frente, quando a meio do percurso já tínhamos percebido que aquilo não iria ter um fim heroico!

 

Tanto o sim como o não, estão na nossa mão, mas não é fácil, nunca foi e mesmo assim conseguimos chegar até aqui, claro que à custa de muita coisa, mas sobretudo à nossa custa. Fomos racionais quando foi preciso, emotivos quando pudemos e o permitimos e é essa a "grande coisa", mais que o poder, a capacidade de decisão! É nossa sim, mas nem todos somos capazes e os que somos não conseguimos entender os que o não são e isto não é uma falha nossa, não temos necessidade nenhuma de compreender a razão dos outros. A implicação disso em nós não pode ser nenhuma! Estamos a falar de caminhos diferentes, que poderão até ter tido parte de um percurso em comum, não mais do que isso! Mas temos a mania de achar que sim! Que somos omnipotentes e que a falha dos outros é ainda nossa! Como se dentro deles houvesse um espaço a nós reservado, um lugar cativo, estacionamento privado para moradores! Mas não moramos lá, caramba!

 

Vestimos a roupa preta, pomos o véu na cara, rezamos uma Avé Maria ou um Pai Nosso e depois vimos para casa. Nem sequer temos motivo para chorar, porque ninguém morreu! Morreram coisas e mesmo assim estamos a blasfemar, porque estamos a personificar o tempo do verbo que, sem metáfora, seria acabaram coisas! Mesmo assim é um exagero, hipérbole literária, continuamos líricos a usar figuras de estilo a dar com um pau, por tudo e por nada! Porque nem as coisas sequer acabam, as coisas transformam-se. Simples, Lavoisier!

 

Custa, sim, por variadíssimos motivos, mas no meio deste circo que é a vida, o coelho branco sai do chapéu sem nunca lá ter entrado, uma espécie de magia em que o truque é: a aceitação. E a partir de aqui começa a ser tudo fácil.

 

Quando nos colocamos no nosso lugar, distantes de tudo o que só nos rodeia e que nada tem a ver connosco, ficamos com visão periférica, como se tivéssemos uma mira telescópica instalada na retina. Vemos quase tudo, o quanto basta.

 

O padre acabou de entrar, o caixão estava aberto, o morto vivo, mas calado. Estava com a consciência latente, mas aguardava que chegasse a sua vez, que o padre, o dono daquilo tudo, lhe indicaria qual o momento.

 

E foi aqui, quando o morto percebeu que lhe estavam a anunciar o tempo de antena que ele se ergueu e hirto desceu do caixão.

 

Quando olhou, olhos nos olhos, para a assembleia geral, começou a rir e nunca mais parou. Tinha, de facto, graça!

 

 

Cristina Pizarro

11
Jul20

Pedra de Toque

GOSTO MUITO DE ABRIR PORTAS

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GOSTO MUITO DE ABRIR PORTAS

 

Portas para a rua, que me levam à sociedade onde me insiro, que me conduzem ao mundo, que me aproximam dos amigos e me deixam na cidade que eu amo.

 

Nesta, as esquinas, os becos, as ruas e as ruelas, são-me familiares e estão intimamente ligadas às minhas memórias que estão vivas e são muitas.

 

Apesar dos contratempos, das maleitas espectáveis que vão aparecendo, da pandemia que nos bateu à porta e que nos vai alterar a forma de pensar o mundo, vale sempre a pena viver.

 

Nada vai ser igual dizem os experts em todos os Continentes, apesar do desconhecimento que todos têm sobre o futuro que aí vem.

 

Temos de ter a capacidade para reinventar.

 

E não podemos permitir que a pandemia que nos angustia e amedronta, esconda o verde e a água que estão nos montes e nos prados e as flores com que a primavera todos os anos nos brinda.

 

E claro que também não belisque o amor que brilho nos olhos dos amantes e em todos os braços abertos aos abraços.

 

E nas bocas sequiosas terá de continuar a nascer a seiva do amor.

 

A história sempre nos apontou a arte, a poesia, a beleza e o amor como o caminho, o reduto, o baluarte, o refúgio para combatermos com êxito por um mundo melhor.

 

E temos sido capazes.

 

Com muita esperança não podemos desistir.

 

 

António Roque

 

08
Jul20

Crónicas de assim dizer

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Gaiola de chave na mão

 

 

A problemática da gaiola, não é simples de abordar. Isto porque as perspectivas são muitas. Assim de repente, vêm-me quatro: aberta e fechada, com e sem chave.

 

A gaiola está lá! Se estamos dentro, ela pode ter a porta aberta ou fechada. Poderá parecer que estando aberta, a nossa liberdade é maior. Nem sempre é assim. Se estivermos com ela fechada e tivermos a chave na mão, estamos mais protegidos. Só deixamos entrar quem nós quisermos e saímos quando tivermos vontade. Se estamos do lado de fora, é verdade que estamos mais expostos, mas quando sentirmos necessidade de nos resguardarmos, enfiamo-nos lá dentro, a uma ou a sete chaves!

 

Acontece, porém, que a simples existência física da gaiola é por si só uma prisão. Uma coisa que está ali, sempre visível à nossa mente, à nossa frente, sempre disponível para lá enfiarmos a cobardia, o medo, a mágoa, o ressentimento, a dor! Fechamos muitas vezes lá coisas como emoções ou sentimentos a que deveríamos pôr asas e deixar voar, ou incentivar até o voo ou, mesmo, a empurrar de ali para fora. Nunca é bom. Fazemos de uma coisa o nosso porto de abrigo que, muitas vezes, o que serve é para nos acorrentar, para nos deixar prisioneiros, reféns, dependentes. Assim que, estando dentro ou fora, com ou sem chave na mão, o mais produtivo e eficaz é tirá-la do nosso horizonte, eliminá-la, deitá-la ao lixo, cremá-la, para não deixar qualquer vestígio, qualquer memória, qualquer recordação, qualquer passado. O pássaro canta na mesma e ainda melhor e mais alto.

 

Eliminada a gaiola ficamos com uma chave na mão, que não serve absolutamente para nada! Mas, quem sabe se um dia mais tarde, daqui a uma eternidade essa mesma chave não abrirá uma porta trancada… Enquanto tivermos a chave guardada, não vamos encontrar porta nenhuma! Mais até, há portas abertas, há portas sem fechadura, há portas sem porta.

 

Estava exactamente aqui quando a água salgada me molhou os pés sem pedir licença, gelada primeiro, morna depois, e me despertou para um mar imenso, sem princípio nem fim, sem começo nem destino, era tudo só caminho o que eu tinha pela frente! Uma imensidão gigante, qualquer coisa nascia ali tangivelmente, antes de se infiltrar na areia que molhava e onde deixava, mais que a marca, um sinal de estar. Era a vida a despertar, uma Primavera latente, um sorriso delicioso de bem-estar, assim completamente à toa, um despropósito tão natural e sereno que provocava, francamente, o riso.

 

Parecia um sonho, não sei se era, mas se nada nele havia que o distinguisse da realidade, que diferença fazia?! Deixei-me estar, pensei que tiraria a dúvida se esperasse para ver o que acontecia a seguir: se acordava ou se adormecia. Nem uma coisa nem outra. Em vez disso, desenhou-se uma terceira: quando abri a mão fechada onde guardava a chave a sete chaves para a não perder, nem sinais dela.

 

Sorri, em silêncio a minha alma sorriu também. Por nada disso, só porque ao longe se ouvia o “Fado do Ladro Enamorado” na voz do Rui Veloso. Lindo! Levantei-me da cama e dancei, não era sonho.

 

Cristina Pizarro

 

 

 

01
Jul20

Crónicas de assim dizer

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Sem nome

 

 

Eu podia ir de aqui até à Lua que tu achavas que eu não tinha tirado os pés do chão! E não tinha! Eu ia e vinha, sem sequer os ter mexido. É possível viajar assim.

 

E nos dias em que me vestia de rainha e tinha a coroa de brilhantes no sítio certo, tu questionavas-me sobre a cor do meu bâton! E eu nem sequer o tinha posto!

 

E corria atrás de mim num ânimo sem direcção, porque o que me interessava era ir para a frente, desafiar o tempo, desafiar o vento… e tu só percebias, mas não gostavas nada!

 

E eu ia buscar a força que não tinha e fazia de conta, só para te arrancar um sorriso e tu emudecias! E eu via as palavras na tua cabeça em turbilhão, e lia as emoções por trás das sombras e sentia à flor da pele, como menina, os beijos recusados como castigo do que não fazia.

 

Eram sempre falhas, os meus troféus! No dia da entrega das medalhas doía-te a cabeça como às mulheres quando não querem! E eu insista e contava outra vez a mesma história até se esgotarem as interpretações possíveis, depois de inventar as impossíveis. Nunca chegava, nunca era o bastante, eu não era Deus e tu achavas-te nesse direito!

 

E o engraçado é que tinhas. Pode-se exigir tudo a um ser humano, pela simples razão de que ele é capaz disso, mas cansa sabes, sobretudo aos Domingos em que o Criador o baptizou de dia de descanso. Mas quem era o Criador para te impor regras a ti! Nomes, preconceitos, conhecimento científico… Como pode Deus eliminar dos homens o poder de se enganarem?! Não, temos direito à nossa opinião, de concordar ou discordar, sempre, em qualquer ocasião, seja qual for o assunto! Arrogância é o nosso prato principal!

 

Sim, claro que sim, todos somos vítimas do preconceito! A ideia da perfeição limita-nos e impede-nos de evoluir, castra-nos, mas depois, quando dou conta, falo comigo e convenço a menina a despir-se disso, a colocar roupa mais leve, lembrar-lhe de que é para a praia que vai. Adequação ao contexto! E ela lá vai percebendo e não lhe custa muito a mudar de opinião. Quando lhe ponho as evidências à frente, a clareza do raciocínio, a lógica da matemática, ela abre os braços e… lindo… em queda livre, nunca em voo rasante!

 

Falo comigo, é só comigo que falo, não tenho mais ninguém dentro da cabeça! Perder as balizas e o filtro, é o primeiro passo para esse caminho lindo da felicidade.

 

Mas tu interrompias-me a vida, porque o meu mundo imperfeito era o teu pior cenário. E eu ficava tão triste! Juntava os cacos da jarra partida, os estilhaços da granada lançada, os fiapos da alma em frangalhos e transgredia! Nunca tive medo da polícia! Aquela luz azul da sirene no tejadilho dos carros, em vez de me dar para fugir, dava-me para ir ter com eles e pedir-lhes para a ligar e os meus olhos brilhavam e eles sorriam da minha inocência, achavam graça àquilo. Pois se eu ainda andava na escola primária, como é que essa atitude podia ser vista como um desafio à autoridade?! Mas se calhar era, não sei, já não me lembro, foi há tanto tempo! Se calhar nessa altura eu já tinha percebido que com uma areia no sítio certo se podia levantar o mundo! Aquele Arquimedes era um génio! Eu só queria experimentar o Princípio, para ver se funcionava! Porque uma coisa era o que diziam os livros e outra, completamente diferente, era a realidade. Fiz isto a vida toda!

 

Explicar porquê?! Claro que sim, não custa nada! Nasci com um gene, um tanto ao quanto tolo, o da curiosidade! E se bem que ele me tivesse trazido uns quantos transtornos ao longo da vida e criado algumas situações delicadas, quando daquela vez caí e tive oportunidade de o largar, em vez disso, deixei-o estar, porque me pareceu saudável, porque era ele que me fazia crescer!

 

Tens toda a razão, havia uma forma tão mais simples de o fazer, tão mais fácil, tão mais agradável e reconfortante, mas, quase me esquecia de o dizer! Aqui há uns tempos assaltaram-me a casa! Não levaram nada, mas partiram-me os espelhos todos! Foi quando percebi!

 

O que é que isso importa agora?! Nada, só estou a dizê-lo!

 

Cristina Pizarro

 

 

 

24
Jun20

Crónicas de assim dizer

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Encontro com a vida (Parte II)

 

 

Afinal a minha vida não mudou! Quando cheguei ao seu encontro, ela estava com o período e com dores de cabeça; essas coisas que as mulheres têm uma vez por mês, quando não é mais.

 

Tive talvez azar no dia, era imprevisível, impossível de controlar. Sobrou para mim, vamos para a segunda hipótese: tenho de mudar eu!

 

Não fiquei propriamente desiludida. Confesso, intimamente, que não esperava outra coisa. Ela está demasiado agarrada a preconceitos, ao politicamente correcto, não quer compromissos, tem medo de arriscar, de se entregar, de se dar completamente. É uma vida lixada, tem medo dela própria. Não há instabilidade nem insegurança pior do que esta!

 

Aceitei o desafio e vou cumpri-lo. Vou mudar eu, a muito custo, com bastante sofrimento, vou deixar de ser a que sou! Embora não saiba ao certo o que isso implica a curto, médio e longo prazo.

 

Mudarei de nome, de casa, de cidade, se possível for, de mundo. Vou viver para o planeta vizinho, começar uma vida nova sem passado, talvez sem futuro, só com o presente, há-de bastar-me!

 

Aprenderei novamente a ler e a escrever noutro idioma, a falar com outras palavras, em tudo novas, a rir de coisas diferentes, a sentir de outra forma, a amar o que é possível!

 

Vou-me virar do avesso, ficar irreconhecível, não transparente que isso já experimentei e não resulta!

 

Vou-me apropriar de um corpo, construir uma alma, arranjar uma bomba de eléctrodos, positivo e negativo, a substituir o coração.

 

O resto posso manter, se mudar isto, se o conseguir, é o suficiente para ser outra pessoa. Se me darei bem ou mal com ela, não o sei agora, tenho uma vida pela frente, ou parte dela, para o saber! De momento, não é premente, não é prioritário, não é o fundamental, não é o necessário, não é o imprescindível! Há outras coisas.

 

O cabelo vou escolhê-lo claro, as roupas mais leves, o rosto com menos marcas, de forma que ao olhar-se para mim não se perceba nada: nem o que me vai na alma, nem o que o corpo sente.

 

Vou transformar-me num bicho, num animal irracional, talvez encare a hipótese da “loira burra”, fazem sucesso! Num mundo repleto de gente estúpida, fazem um enorme sucesso!

 

Mas não, não consigo mudar tanto, prefiro ser uma das gatas lá de casa: são hábeis, inteligentes, têm personalidade própria, exprimem sentimentos, sabem, embora sem falar, dizer o que querem. Há poucos seres humanos que reúnam, num só, tão admiráveis qualidades!

 

E daí, pensando bem, não vou mudar. Mudei de ideias, vou crescer.

 

É engraçado isto! A gente mudar de ideias de um momento para o outro e não acontecer absolutamente nada! Poder decidir sobre nós, o que nós quisermos!

 

Acho que ser livre é isto! Poderá haver mais, mas é também isto. E é bom, não mudar nada e, no entanto, sentir-me outra. Eu já desconfiava, porque me conheço, que ia dar nisto! Por mais voltas que desse, regressaria sempre a mim.

 

Estou consciente de que não é o melhor caminho, não é ao menos o único, e que, provavelmente, não me levará aonde eu quero. Neste momento, é o possível! Mais do que isto não posso, embora queira, tenho os meus limites! Mas amanhã é outro dia e com o nascer do Sol abre-se um mundo de possibilidades. Sei lá se a vida, não está já a esta hora a embrulhar o Presente que amanhã tem para me oferecer!

 

Quanto às velas, vou deixá-las arder até ao fim. O oxigénio que elas consomem não me faz assim tanta falta; já da sua luz, eu não prescindo! É, na noite, o mais parecido que temos com a luz do pensamento.

 

Cristina Pizarro

 

06
Mai20

Crónicas de assim dizer

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A sala de seis paredes

 

 

Pela segunda vez, entro na mesma sala! A sala era outra, mas para os grandes efeitos era como se fosse a mesma. Lá dentro os inquisidores mantinham a anterior postura, arrogante e altiva; o rosto inerte, inexpressivo, frio, distante, sem transparecer qualquer emoção. Corria-lhes tudo menos sangue nas veias.

 

Estavam ali inequivocamente para me carimbar. Eu sabia-o, eles também. A única diferença é que eles não sabiam que eu sabia. Por isso adiava o tempo, embora consciente de que à medida que ele passava, as paredes se moviam, aproximando-se umas das outras, encurtando gradualmente o espaço útil.

 

O oxigénio respirável na sala ia também diminuindo, mas eu sabia e eles, novamente, não, que quando ele acabasse eu respiraria o dióxido de carbono. Eu aguentaria ali até à exaustão, só me faltaria o ar quando eles saíssem da sala ou quando saísse eu. Enquanto os tivesse na minha presença eu respiraria qualquer atmosfera, sem mostrar qualquer dificuldade. Embora ela fosse crescente, eu sabia que nunca asfixiaria e isso tinha o efeito de me dilatar os pulmões e aumentar a sua capacidade respiratória.

 

Por mais desagradáveis que fossem as palavras, por mais surpreendentes, por mais desajustadas, por mais equivocas; eu ia engoli-las todas e nunca, mas nunca, as vomitaria nos tapetes de Arraiolos, nem cuspiria nas taças Vista Alegre que decoravam as mesas ao lado dos sofás de veludo camel!

 

A realidade deles era completamente diferente da minha! Nem sei se se chama realidade àquilo em que eles viviam, a mim parecia-me mais um limbo! Eu entendia a deles, eles não entendiam a minha.

 

E foi por causa desse estado desnivelado em que nos encontrávamos, facilmente assumido por mim porque a convicção era forte, que muito naturalmente -e foi exactamente isto que os levou ao choque- quando me estenderam o papel com a sentença escrita, eu pedi uma esferográfica -que obviamente não tinha, posto que eu não tinha ido lá para isso, na verdade eu não sabia ao que tinha ido e o fator surpresa cai-me como uma luva- e, em vez de assinar, comecei a fazer correcções ao texto, sem sequer olhar para os rostos daquelas abomináveis criaturas que conhecia ruga a ruga. Claro que adivinhei a perplexidade que de imediato neles se instalou e foi nessa altura que eu perguntei, como se não tivesse dúvidas: isto é um draft para eu agora corrigir, certo? Só há uma resposta para uma situação destas: ”Claro!” e foi a que tive, por unanimidade, depois de olharem uns para os outros em concordância velada.

 

Confesso aqui, que nesse preciso momento a sala deixou de ter paredes, era agora um campo aberto e lá no fundo senti-me francamente feliz, não sem uma certa “vergonha”, por eles; e muito baixinho, sem ninguém ouvir, quase como se o dissesse apenas em pensamento, saiu-me a frase do poeta: “Parvos, se algum deles soubesse que escrevo versos às escondidas!”.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

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