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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Out20

Crónicas de assim dizer

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Tu e só tu

 

Deixa. Deixa ir. Larga. Larga tudo. Coisas, pessoas, sentimentos, emoções, mágoas, ressentimentos, ofensas. Não te importes. Vê e sê! Depois começa, repara em algumas coisas, poucas, que estão ali para ti, que só estão ali para ti. Não são vistas por mais ninguém, mais ninguém pode pegar nelas, porque és só tu que as vês. Não fales delas, não partilhes, ninguém as compreende ou valoriza a não seres tu. Chamar-te-iam louco, desequilibrado, mentiroso, até parvo. Traz isso para dentro de ti, reconstrói-te em bocados, aos bocados, sem pressa nenhuma. Faz uma coisa de cada vez, em silêncio. Não anuncies, nem para ti, se falta pouco ou muito ou quanto falta. Não percas tempo nisso, embora para isso o tempo te não falte.

 

Caminha só no caminho que é feito por ti, onde tu colocaste a sinalética do excesso de velocidade, do perigo com o gelo, do derrame de óleo na estrada... Só lá está o que tu lá puseste. Não comentes se foi fácil ou difícil o percurso, se vacilaste a dada altura, se equacionaste desistir, não digas nada. Segue o teu caminho, liberta-te dos muros sem os deitares abaixo. Se lá estão, para alguma coisa devem servir, alguém os construiu, podem ser úteis a outros. Constrói tu também os teus, que hão-de ladear o teu caminho, que te hão-de proteger ao longo do percurso.

 

Depois faz pontes, constrói as tuas pontes, porque pode haver uma altura na vida em que precises de atalhos, em que um rio te surpreenda ao caminho e te pergunte o que andas tu a fazer nele, como se lhe tivesses invadido o espaço, que é só dele. Não respondas, salta para a ponte, a que tem os teus alicerces, não a outra que está ao lado e que foi construída por outro. Sabes lá tu de que essa é feita, se tem estrutura capaz de te aguentar. Bem sei, pesas pouco, mas há pontes de cartão. Podes ter sede, sim, é verdade, mas não bebas senão da água que corre debaixo da tua ponte.

 

Constrói um jardim, não é preciso que tenha muitas e variadas flores. Pouca coisa é suficiente. Que sejam verdes para te alimentarem os pulmões de oxigénio. Não, para respirar não serve qualquer ar, tens que ser tu a produzir a tua atmosfera, para que ela te seja respirável. Para além das plantas verdes, semeia outras que tenham cheiro, coisa simples, alecrim, alfazema, rosas… se achares que te vão fazer falta para ofereceres a alguém ou simplesmente para te perfumarem o dia da semana que elegeres para o teu dia especial, o de descanso disto tudo.

 

Depois encontra um sítio, não procures um sítio, encontra o sítio onde farás uma pequena casa que tenha tecto para te abrigar do frio, das tempestades, das aves de rapina e dos animais selvagens. Entra na casa, deita-te no chão, fecha os olhos, adormece sem razão e vais ver que ao acordar estás só tu dentro de ti! E é tão bom, finalmente a sós contigo, sem ninguém lá dentro, sem ninguém que te julgue, sem ninguém que te impeça.

 

Instantes depois começas a ouvir um respirar e percebes que um grande amigo, que não vias há tempo indeterminado, está ali deitado junto a ti. Com surpresa perguntas: Como é que entraste? “Eu sempre estive aqui, tu é que não me vias!” Tiras então os óculos de ver ao perto: de facto!

 

E é aí que percebes aquele estado de alma do “Quase bem!”, que para evoluir para o patamar seguinte depende mais do largar coisas -que só depende de ti fazê-lo- do que do ter coisas -que pode não depender só de ti.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

30
Set20

Crónicas de assim dizer

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O Senhor Joaquim

 

 

O homem tinha-se habituado àquilo e não prescindia disso! Se alguém lhe perguntava porque o fazia, respondia:

- Habituei-me!

As pessoas não percebiam isso, achavam que era uma não resposta. É normal, quem não tem o hábito não o entende. 

 

Havia outros que o achavam doido, porque não encontravam lógica nenhuma para uma pessoa usar uma coisa da qual não precisa. É também normal, porque a lógica é de cada um, não se partilha.

 

E depois havia outros, persistentes, que teimavam em conseguir mudar o homem:

- Ó Senhor Joaquim, pense comigo. Se o Senhor não precisa disso para nada, porque é que anda com elas?

Mas o Senhor Joaquim que pensava bastante, mas só consigo e não com os outros, respondia a pura verdade:

- Habituei-me!

 

E as pessoas continuavam:

- Faça de conta que as perde, como é que depois vai fazer?

O Senhor Joaquim não gostava muito de fazer de conta. Achava pouco real e produtivo imaginar cenários onde, embora não pudesse determinar a probabilidade exacta de acontecerem, via neles poucas possibilidades de ocorrerem e respondia:

- Até lá, ando com elas!

- E depois, se isso acontecer, o que é que faz?

E o Senhor Joaquim, já farto daquela conversa e só em jeito de a terminar, respondeu:

- Arranjo outras!

 

Estas conversas, inquisições repetidas, deixavam-no um bocado desconfortável e começou a sentir-se melhor sozinho e a ficar mais por casa, porque se cansou de responder a questões iguais em dias diferentes.

 

Um dia os miúdos da aldeia, brincadeira de mau gosto, resolveram, num momento de distração, o que só acontecia enquanto dormia, tirar-lhas. O Senhor Joaquim passou dias sem sair da cama e as pessoas começaram a perguntar-lhe:

- Ó Senhor Joaquim, porque é que não se levanta, não há nada que o impeça!

E ele a responder de novo:

- Habituei-me!

 

Um dia os mesmos miúdos da aldeia acabaram por ir visitá-lo, porque sentiam saudades das histórias de vida que ele lhes contava ao fim da tarde, no quintal, e trouxeram-lhe as canadianas. E o Senhor Joaquim levantou-se da cama, apoiou-se nelas e foi para a rua contar histórias. Não fez comentários, perguntou apenas aos miúdos porque tinham sentido falta das histórias que ele lhes contava. Responderam:

- Habituámo-nos!

E o Senhor Joaquim:

- Eu já não vou para novo, se um dia vos falto como é que fazem?

Este cenário, embora o Senhor Joaquim não pudesse determinar com probabilidade exacta quando aconteceria, via nele muitas possibilidades de ocorrer e achava, por isso, muito real e produtivo imaginá-lo com alguma antecedência!

- Até lá, conta-nos histórias.

- E depois, quando isso acontecer, o que é que fazem?

- Arranjamos outro! 

 

Nesse dia o Senhor Joaquim esqueceu-se das canadianas no quintal, voltou para casa pensativo, um pouco triste, mas, encolhendo os ombros, verbalizou, em jeito de conclusão:

- Coisas de miúdos. 

 

Na manhã seguinte, não acordou.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

17
Set20

Crónicas de assim dizer

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São uns atrás dos outros

 

Sempre tive uma sensação estranha, e por isso difícil de descrever, que é a de não pertença! A nenhum lugar, a nenhuma pessoa. Estou num sítio e vem-me à cabeça: eu não sou daqui! Ou porque cheguei tarde demais e já tinha acontecido o processo de inserção, a que não assisti, ou porque cheguei cedo demais e ainda não havia ninguém com quem interagir. Esta segunda hipótese é mais compatível com o desajuste. Mesmo que a partir daí começasse a chegar gente, não tinham assistido, da mesma forma que eu, ao fenómeno que é chegar a um planeta vazio e do nada começar a fazer coisas. Os que chegam depois começam logo a questionar tudo: o porquê dessas coisas e não outras, a razão do porque assim é quando podia ser de outra forma, … não lhes importa saber se melhor ou pior, querem diferente.

 

Começa o desconforto, começa a instalar-se uma sensação de estar a mais, de não ser dali, de não estar no sítio certo, embora não saibamos se ele existe ou que caminho percorrer para o encontrar ou até, porque não dizê-lo, se isso nos faz algum sentido. Normalmente não faz. Temos as nossas convicções, os nossos propósitos, a nossa lógica de raciocínio, a nossa conformidade com as coisas, a nossa razão da percepção delas, a nossa perspectiva, o nosso entendimento. Fazer o quê?

 

Como seres sociais, que dizem que somos, começamos a estabelecer laços com uma dificuldade gigantesca em desfazer primeiro os nós e aos bocadinhos, com muito cuidado e com muita atenção, vamos entrando devagarinho. Mas chega um ponto, porque não somos de perder tempo, que percebemos que o motor chega dos zero aos cem em poucos segundos e se a potência está lá, para quê andar a 60 na auto-estrada?!

 

Reagimos, perdemos a calma inicial, a que também se pode chamar paciência, e aceleramos o processo. Começam então a olhar para nós de lado e a fazer comentários do tipo: “Mas o que é que lhe deu?”

 

E, verdadeiramente, não nos deu nada! Nem sequer podemos dizer que acordámos, porque se há coisa que nunca fizemos foi dormir ou brincar em serviço, embora às vezes brinquemos no serviço. É saudável!

 

Começamos aqui a cometer um erro, que é o de dar explicações dos nossos actos porque, enfim, há pessoas que o merecem e de quem gostamos e incluímos nessas explicações, justificações para os nossos comportamentos e atitudes, porque nos parece que assim nos vão compreender e aceitar melhor. Segundo erro, porque funciona ao contrário. As pessoas entendem que se nos justificamos é porque não estamos convencidos de estar a fazer o melhor possível! Instala-se aqui, e já é a segunda vez, sim, um sentimento de desconforto que advém de acharmos uma injustiça que alguém nos julgue mal quando a intenção, a nossa, foi boa. Terceiro erro, incomodamo-nos com isso. Ao tomar consciência que provocámos nos que nos rodeiam uma certa desilusão, cuja responsabilidade não é minimamente nossa, mas só do cérebro onde essa expectativa nasceu, que a alimentou, que a fez crescer, que a levou a andar de baloiço, à pista dos carrinhos de choque, ao parque aquático, à praia, ao safari e por aí fora. Estávamos lá? Não. Então, que culpa pode haver?! 

 

No meio de tudo isto ainda há quem nos diga: “Percebeste mal os sinais!” Os óbvios, aqueles de quem bate à porta, mas não quer entrar ou de quem pergunta se temos um cigarro só para saber se temos. Claro que o sentido de humor é uma coisa belíssima, diria até imprescindível, mas no contexto adequado, com peso, conta e medida! É aqui que começamos a fazer alergia a coisas inespecíficas. Fazemos o teste. Alimentos, nada. Químicos, nada. Pólen, nada. Qual gramíneas, qual quê?! Ácaros, nada. Pó, nada. Mas a comichão não passa, os anti-histamínicos não fazem efeito, o banho de aveia ou lá o que é, acalma, mas passa logo.

 

Está na altura de iniciarmos a retirada. Dar lentamente, sem que se note, e isto é crucial no processo, um passo a trás, gradualmente, muito gradualmente. Descalçar antes os sapatos, se forem italianos e nos derem bom andar até podemos transportá-los na mão, mas se o caso não for esse é atirá-los fora, ao rio ou ao caixote do lixo. Não valem aqui as preocupações saudáveis do reciclar ou dar a quem precisa, ninguém calça os nossos sapatos! Nunca os deixar em sítio que se vejam, estas coisas feitas assim à toa dão sempre um aspecto de abandono ou desprezo, não nos fica nada bem. É aos bocadinhos que estas coisas se fazem, vamos saindo dali até estarmos tão distantes que mesmo com as coisas à nossa frente e coladas a nós, não as conseguimos ver.

 

Só para que não desanimem nem pensem que isto não é possível, eu já consegui. No outro dia fui ao psicólogo, assim para experimentar, e a despedida, já na porta, foi esta: “A Cristina tem as coisas à sua frente e não as vê!” Se ele não tivesse dito há dez minutos: "O nosso tempo acabou", eu tinha-lhe contado como me sentia bem por essa grande vitória!

 

Cristina Pizarro

 

 

 

15
Set20

Chaves D´Aurora

Crónicas

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A vida cultural em Chaves

 

Em minhas pesquisas à Biblioteca Municipal, nos jornais dos primeiros decénios do século passado, e aproveitadas no contexto histórico de meu romance Chaves D´Aurora, chamou-me a atenção o facto de que a  –  então ainda –  Vila de Chaves tinha uma razoável e interessante vida cultural. Dos saraus familiares, muitas vezes  com pianos assassinados e poemas declamados com overdose de gestos; das apresentações da Banda da Infantaria 19 e outros concertos no Jardim Público; do Cinematógrafo e, depois, das sessões fragmentadas de filmes em rolos no Cineteatro Flávia; das apresentações teatrais de amadores do Grupo Dramático dos Bombeiros Voluntários de Chaves; das exposições, como a da História da Aviação;  às exibições de cultura popular,  notadamente no Forte de São Neutel, durante a Festa da N. Srª Brotas,  com danças e cantos de conjuntos folclóricos,  oriundos de aldeias transmontanas;  tudo isso, enfim, contribuía de algum modo para a formação cultural dos habitantes daquele pequeno vilarejo, ao centro norte de Portugal.

 

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Festa da Nossa Senhora das Brotas - Meados do Sec.XX

 

Em 2010, quando da minha estadia em Chaves para a elaboração do romance, lamentei que mal pudesse localizar onde fora o Cineteatro. Os vídeos, a exibição na TV e a Internet acabaram com a maioria dessas salas no mundo todo, mas fiquei feliz de ver que ainda resiste o cinema coordenado pelo Teatro Experimental Flaviense, no Largo do Monumento. O TEF traz, sem dúvida, uma abnegada e empreendedora contribuição artística à cidade, com suas apresentações de dança e de espetáculos teatrais com seu grupo de atores, sob a direção de Rufino Martins.         

 

Algo ainda bem recente para mim, naquela altura, o Centro Cultural de Chaves, na antiga Estação de Comboios, também contribui bastante para vida cultual flaviense, com exposições, cursos de arte e um excelente auditório. Assisti, nesse moderno e confortável espaço cénico, a interessantes apresentações de grupos teatrais e de dança, provenientes de outras cidades da região.

 

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MACNA - Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso

 

Em 2016, meu amigo Fernando Ribeiro levou-me a conhecer o edifício, já prestes a abrir, desse grandioso empreendimento cultural que é, atualmente, o MACNA - Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, além de suas exposições eventuais, está a enriquecer, cada vez mais, seu acervo de obras de artistas hodiernos.

 

Apenas senti, na ocasião, a falta de uma sala especial  –  até de pequena capacidade e que, se viável,  poderia ser no CCC ou no MACNA   –  para exibir, com oportunos debates, filmes de arte. Ou seja, aquelas obras autorais que conduzem à reflexão sobre problemas políticos e/ou sociais e/ou económicos que afligem a humanidade, frequentemente polémicos. Ou, também, películas de mera experimentação, para deleite contemplativo da arte cinematográfica.

 

Assim é o progresso: a querida cidade de meus ancestrais paternos vai adquirindo, passo a passo, a promessa de se tornar um grande centro de atividades artísticas e culturais, nesse outrora perdido e até esquecido Concelho, ao norte do país.

 

Raimundo Alberto

 

10
Set20

Vivências

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EN 2

 

Se fosse adequada às necessidades dos nossos dias ela seria a verdadeira espinha dorsal do país, desde Trás-os-Montes ao Algarve, ao longo de mais de 700 quilómetros. Mas a estrada nacional nº 2, de Chaves a Faro, não é, claramente, uma estrada dos nossos dias… É, antes, uma estrada que foi sendo esquecida ao longo de décadas, com troços perdidos para integrarem outras vias mais recentes, semáforos e rotundas nalgumas localidades, e até sentidos únicos e um troço submerso pela construção de uma barragem… Já não é uma estrada para viajar pelo país (queremos quase sempre chegar depressa a todo o lado), mas antes uma estrada que serve quase exclusivamente quem mora nas suas proximidades.

 

Mas o encanto continua lá - curvas, contracurvas, sinais antigos, marcos na berma, retiros para descansar, com boas sombras e fontes de água fresca… Num país pequeno, mas apesar de tudo tão diverso como o nosso, a EN 2 é a estrada que melhor liga toda esta diversidade de paisagens, gentes, culturas e modos de vida. Nenhuma outra estrada ou autoestrada nos consegue proporcionar esta visão de Portugal (pelo contrário, como bem sabemos, quando viajamos numa autoestrada não vemos nada…).

 

Ocasionalmente, leio na Internet relatos (e são cada vez mais) de quem se fez à estrada e percorreu a EN 2 de uma ponta à outra, de carro ou em duas rodas, ao longo de vários dias. Pessoalmente, nunca a percorri mais além do que a zona centro: Vila Real, Régua, Lamego, Viseu, e pouco mais. E mesmo nesta pequena parte nunca a percorri rigorosamente no seu traçado original, pois, saindo de Chaves, bastam uma meia dúzia de quilómetros para nos apercebermos de várias alterações de traçado para eliminação de curvas ou desvio de localidades (ao chegar à subida de Outeiro Jusão, temos logo a primeira…). Mas confesso que tenho curiosidade e também muita vontade de um dia, sem pressas, me aventurar a percorrê-la em toda a sua extensão. Quando o fizer, terei, certamente, uma grande vivência para partilhar…

 

Luís Filipe M. Anjos

 

 

09
Set20

Crónicas de assim dizer

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Conversa de malucos

 

Isto podia ser tão engraçado, cómico mesmo, daquelas anedotas que nos contam na adolescência, podia dizer na infância, mas não gosto de exagerar, e que aos 56 ainda nos estamos a rir delas!

 

Tínhamos, para isso, de não ter medo e ser completamente honestos. Duas coisas muito difíceis de conseguir. Disfarçamos que não temos a primeira e que somos a segunda, mas naqueles dias que, sabe-se lá porquê, acordamos transparentes, é-nos fácil ver a verdade. Ao pressentirmos uma qualquer presença ao nosso lado, viramo-nos na cama e lá está ela, a Verdade, com a cabeça na almofada, de olhos abertos, a olhar para o tecto e a pensar. Perguntamos:

 

- Estás a pensar em quê?

 

- Porque é que achas que estou a pensar?

 

- Sei lá, estás aí parada de olhos abertos e com eles fixos num ponto…

 

- Só estava à espera que acordasses!

 

- Para…

 

- Para te dizer que hoje vamos passear à beira rio.

 

- Para…

 

- Para veres como a água corre. É um exercício. Fixas um ponto da água e segues o ponto          até ao oceano.

 

- Mas isso não é possível!

 

- Porque…

 

- Porque o ponto da água que eu escolher não está isolado, desloca-se! Para eu o seguir, tinha que correr pela margem do rio, à mesma velocidade, para o poder acompanhar!

 

- Então tu sabes isso?!

 

- Toda a gente sabe! Mas surpreende-te que assim seja?

 

- Sim, porque o exercício era esse, tomar consciência disso! E a minha questão agora é outra: se toda a gente sabe, como dizes, porque o ignoram?

 

- …

 

- Sim, estás aí deitado, a estas horas, como se não houvesse nem presente nem amanhã!

 

- Não estou a perceber o que estás a dizer!

 

- Consegues imaginar, desde que ontem te deitaste, onde vai agora a tua gota de água, aquela que podias estar a seguir na corrente nestas últimas horas?! Está no mar imenso, diluída, dispersa, nunca mais será a tua gota de água, nunca mais a conseguirás identificar como sendo tua ou pertencendo-te! Misturou-se com as irmãs, perdeu-se, foi-se.

 

- Ouve lá, amanhã vamos fazer o contrário. Inverter papéis. Eu também sei propor exercícios!

 

- E então?

 

- Hoje á noite, quando te deitares, eu fico acordado a olhar para a tua gota de água, enquanto dormes, e quando acordares tens de adivinhar o ponto do oceano onde ela está! Se acertares, continuo a chamar-te Verdade, se não acertares, passo a chamar-te Fraude.

 

- É arriscado para ti, mas aceito. Como amiga, sugiro que, entretanto, arranjes um plano B.

 

Na manhã seguinte, ao pressentirmos uma qualquer presença ao nosso lado, virámo-nos na cama e lá estava ela, com a cabeça na almofada, de olhos abertos, a olhar para o tecto e a pensar, só que não era a Verdade, era a Cobardia!

 

Seguimos o plano B.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

02
Set20

Crónicas de assim dizer

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A face da Lua

 

 

Ontem à noite, diziam as notícias, ia estar uma Lua grande e Marte do mesmo tamanho. Olhei para ela fixamente e começou a desenhar-se nela o teu rosto meigo.  Ao princípio, era uma imagem pouco nítida, como aquelas que se vêem a grande distância ou ao perto sem os óculos. Mas depois olhei para o telescópio, olhei por ele e vi, francamente vi, os contornos do teu rosto naquelas crateras cinzentas, de repente com cor. A pele morena, os olhos escuros, o cabelo preto e bâton nos lábios. Falavas e eu conseguia ouvir-te. Como é que te foste lembrar daquelas coisas todas, assim, num só momento?

 

Sorri, sem responder. As tuas perguntas tinham respostas dentro, mas eram tardias e foi isto que me fez doer a alma! Dizem que não dói, mentem! Continuei em silêncio e a pensar se seria ou não capaz de transformar em realidade aquele sonho sentido. Pensei: que diferença há? O que distingue uma coisa da outra? Ter-te e sentir-te é assim tão diferente? Em quê?

 

O que faz sangrar por dentro é que da realidade acorda-se e do sonho não! E isto, que parece pouco, assim dito com esta leviandade que pretende ser leveza, mas não é, é talvez a única diferença nisto! Falta-nos o acreditar, o desejar não nos chega! E é com esta impossibilidade que não conseguimos lidar.

 

Sabemos, forma de dizer pouco correcta, desde que nascemos que nada é para sempre, mas enquanto a vida dura não há forma, aqui já correcta, de o saber! Vivemos na iminência e nem sempre temos consciência disto ou, verdadeiramente, nunca!

 

Mas ontem à noite, antes de perceber tudo isto, foi tão engraçado! Ainda não te disse, mas eu estava em Marte e assim ali ao lado uma da outra eu escutei com atenção todos os segredos que me contaste. Quer dizer, não foram bem segredos porque em nenhuma parte do teu discurso tu me pediste para eu não contar a ninguém. E digo-te que sempre achei graça a isto, porque nunca cheguei a perceber se fazias isso porque confiavas em mim ou porque te estavas perfeitamente nas tintas para o que eu fizesse com as tuas palavras! Sou mais desta opinião, querias tu lá saber! Estavas acima disso, como estavas acima de todos os contratempos que pela frente te surgissem. Mulher que nunca foi à guerra, mas que sempre esteve na frente de batalha. Que coisa poderia haver que te demovesse? Nada! Que problema poderia existir que não se resolvesse? Nenhum!  

 

Agora deu-me vontade de rir. Lembraste daquela vez em que eu te contei que o meu mundo tinha desabado e tu comentaste: “Sim, foi um pequeno deslize!” E o chão tinha abatido, caramba, a força da água tinha arrastado tudo, a tempestade não tinha encontrado obstáculos pela frente e estava a varrer-me os sonhos e eu a afogar-me e só via uma saída: fechar-lhe a porta de casa para que me não levasse mais nada do pouco que ainda me restava. E que fizeste tu? O contrário disso. Abriste-lhe a porta de casa e convidaste-a a entrar, querias sentá-la no sofá da sala e conversar com ela, para perceber os motivos e lhe demover os propósitos. Como é que uma coisa dessas te passou pela cabeça ser possível? Percebo hoje, porque acreditavas nas pessoas e no poder do querer.

 

E estavas certa, mas eu estava fraca, eu não tinha a tua força nem a tua convicção. Foi só por isso, nem mal nem bem.

 

E é estranho como isto se repete em todas as gerações e não conseguimos inverter o processo! Hoje sou eu que estou no teu lugar, a desempenhar o teu papel, que tenho a força que tu tinhas e a mesma convicção e que ao ver a tempestade a aproximar-se, lhe abro docemente a porta de casa, a convido a entrar e a sentar-se no sofá da sala para conversar com ela, para perceber os motivos e lhe demover os propósitos. E ela responde-me o mesmo que te respondeu a ti: “Obrigada, mas não!”

 

Queria-te contar isto, mas hoje já não estás. Para onde é que foste, caramba, se ainda ontem estavas aqui ao meu lado? Forma de dizer, à distância de uma pequena sucessão de lentes alinhadas dentro de um telescópio!

 

Desculpa estar outra vez a incomodar-te com esta conversa, mas, enquanto não me saíres do coração e da cabeça, isto vai estar sempre a acontecer.

 

Cristina Pizarro

 

26
Ago20

Crónicas de assim dizer

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Só bonecos

 

 

Éramos nove lá em casa. Cinco filhos, o pai e a mãe, a avó e a tia-avó. Os adultos tinham um quarto próprio, depois havia o quarto das raparigas, três, de paredes cor-de-rosa e o quarto dos rapazes, dois, de paredes azul. Também havia gatos e cães, mas esses dormiam na rua, pelo menos até se abrir de manhã a primeira das quatro portas que davam para a rua. Numa delas, no tapete, esperava, desde o nascer do dia, a Quica, a gata que tinha uma preferência absoluta pelo meu irmão mais novo e que entrava, sem que se notasse ou mesmo a notar-se por ter já conquistado a permissividade do dono, no primeiro abrir da porta. Ia ter ao quarto dele, à cama, e ali ficava até ele acordar.

 

Não sei muito bem o que se passou desde essa altura até agora. Tirando as décadas, do resto não tenho certezas.

 

A minha avó, que morreu aos seus 97 anos e que viveu sempre connosco, tinha a personalidade dos gatos, achava que nós é que vivíamos com ela. Dizia muitas vezes: “Se não fosse eu, vocês não existiam!” E, embora fosse verdade, era uma verdade que não acrescentava nada ou talvez só a ela. A nós deixava-nos em desconforto, como se tivéssemos uma dívida por pagar e fossemos uns ingratos. Calava-nos com aquilo. Ela sabia o efeito que isso nos provocava e utilizava-o em todas as situações em que estava farta de nos ouvir. Resultava sempre. Depois daquilo, emudecíamos.

 

Hoje acordei com uma memória dela que me fez sorrir! Sempre que via televisão e a apresentadora terminava o programa despedindo-se dos espectadores, dizendo: “Até amanhã”, a minha avó respondia: “Até amanhã, se Deus quiser”. Um dia, sabe-se lá porquê, resolvi explicar-lhe que nem todos os programas eram em directo, que, tirando o noticiário, nome que na altura se dava ao telejornal, a maioria deles eram transmitidos em diferido e expliquei-lhe o que isso queria dizer, que eram previamente gravados e que só uns dias ou semanas depois iam para o ar, forma de dizer, eram exibidos na televisão para nós vermos. E o comentário foi: “E eu a pensar que eles estavam mesmo ali e, afinal, são só bonecos!”

 

Hoje, ao transpor isto para a realidade, a desilusão é provavelmente a mesma que a minha avó sentiu naquela altura, a de que, afinal, nem tudo são directos!

 

As pessoas estão ali à nossa frente, no sofá da sala, na mesa ao jantar, na esplanada do café, na praia, no concerto, na cama e…  são só bonecos!

 

A gente declama um poema e dizem: “Cala-te lá com isso!”, mas depois o artista morre e as pessoas vão para “a feira das vaidades” e fazem-lhe uma “homenagem sentida”, porque fica bem. Chovem como estrelas, dezenas, centenas, milhares de gostos. Torna-se viral. Depois do que nos aconteceu, as pessoas ainda conseguem utilizar esta palavra como sendo uma coisa boa!

 

A gente canta uma canção e dizem: “Cala-te lá com isso, a esta hora da manhã, por amor de Deus!”, mas depois vão para o concerto ao vivo e soletram a letra toda que sabem de cor, porque fica bem.

 

A gente fala do livro que leu e dizem: “Esse, é um livro horrível, nem o consegui acabar!”, mas depois no clube de leitura tecem elevadíssimas considerações sobre a incrível ideia do escritor, porque fica bem. Nós até lhes tínhamos feito um resumo oral para mostrar que aquilo fazia sentido, mas nessa altura não fez nenhum! Como se o sentido das coisas dependesse de quem as diz e de quem está! Só bonecos!

 

A gente desgasta-se em esforços transcendentes para proporcionar ou fomentar uma alegre convivência entre pares, dar e tirar prazer daquilo porque, enfim, agora já somos adultos, conquistámos o direito, lícito ou ilícito, de ter um quarto próprio, como o tinham os adultos na casa da infância e pelos quais tínhamos um enorme respeito. Chegávamos a perguntar: “Posso ir ao seu quarto buscar…” , e as portas não tinham chave, caramba, mas pedíamos sempre licença para lá entrar, mesmo que lá não estivesse ninguém! Havia direitos e deveres e todos sabíamos muito bem quais eram, sem nunca nos terem sido lidos, eram-nos tacitamente incutidos e pacificamente por nós absorvidos, efeito esponja.

 

E é isto que eu agora não percebo, como é que eu encontro pessoas na minha vida, certamente com uma educação diferente, tem de haver uma explicação para isto, que me entram pelo “quarto” adentro, cheias de direitos, sem nenhum dever e desatam a dizer-me o que é que eu tenho que fazer, o que é que eu devo fazer, o que é minha obrigação fazer, o que esperam que eu faça e eu fico completamente sem reacção! Claro que depois, quando as pessoas sérias me perguntam: “Mas como é que tu permites…” , eu acho-me um bocado estúpida, porque era facílimo ter fechado a porta à chave, só que nunca me passou pela cabeça que isso fosse preciso, por uma razão muito simples que já contei: na casa dos 5 quartos não havia chaves, e nunca faltou o respeito de uns pelos outros!

 

Voltando à ideia inicial, a minha avó é que tinha razão: “E eu a pensar que eles estavam mesmo ali e, afinal, são só bonecos!”

 

E atenção que eu aprecio muito os bons actores, eu só lido mal é quando eles faltam aos ensaios e depois se apresentam em público nestas circunstâncias, convencidos de que decoraram bem o texto.  Às vezes faço de conta que não estou atenta, quando não me quero aborrecer e escolho ter paz. Mas há vezes em que decido cruzar os braços e concentrar-me na peça, olhos nos olhos, e aí cai-lhes tudo ao chão. É quando depois me retiro sem bater palmas. Não gostam, acham-me estranha e eu só não sou é parva!

 

Cristina Pizarro

 

25
Ago20

Chaves D´Aurora

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Chaves e o Progresso

 

                A primeira vez que estive em Chaves, em 1974, era ainda um jovem  perto dos trinta, a viajar pela Europa com a minha recém esposa Betty, de férias das funções de funcionário do Banco do Brasil e, nas horas vagas, dramaturgo (então, com apenas uma peça encenada). Ainda não estava nos meus projetos experimentar outros géneros literários, menos ainda escrever uma obra que exigisse tanta dedicação e pesquisas, como  Chaves d´Aurora.  Minhas tias Alda e Áurea (Aldenora e Aurélia, no romance), ao saberem dessa viagem, instaram-me  que fosse até à saudosa terrinha e tentasse localizar a Quinta Grão Pará, na Estrada do Raio X.  Somente em 2006, já com um pré-roteiro na cabeça, a partir de conversas com a minha prima Lourdinha (Fátima, no romance),  é que resolvi “meter a mão na massa”, ou seja, no teclado.

 

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Chaves, anos 70 do Séc. XX

 

                Quanto à Quinta, sem nenhuma ideia onde ficava, perguntei em vão a muitas pessoas e busquei alguém que recordasse José Brás, meu avô (João Reis, no romance). Restou  apenas a emoção de ter pisado no solo natal de Alberto, meu pai (Alfredo, no romance). Como passei ao largo da parte antiga de Aquae Flaviae  e  caminhei  até o Raio X,  da antiga estação de comboios, pela ponte Engenheiro Barbosa Carmona (e não pela histórica Ponte de Trajano, ou Romana), a ideia que trouxe comigo de Chaves, ainda que atraente,  foi a de uma vila empobrecida e perdida no tempo. Entre lapsos de memória, recordo lavadeiras no rio, o Ribeiro do Caneiro e uma simplíssima feira de frutas e legumes,  ao ar livre.  Tudo me parecia tão antigo quanto o velho comboio que me levara até lá. Lembremos que Portugal acabara de concretizar sua Revolução dos Cravos e, embora com um povo ansioso de sair da austeridade económica fascista (que tinha lá suas exceções, para as classe sociais coniventes com o regime) ainda não se antevia o que pudesse acontecer, nos anos seguintes,  à minha segunda pátria.

 

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Imagem de arquivo do Blog Chaves

                Em 2006, já tudo estava diferente. Os comboios, agora,  dormiam em algum museu ferroviário; cheguei de Lisboa, por autobus,  a uma estação rodoviária cercada de prédios novos;  a Torre de Ménage estava cercada de jardins, com flores e grama verdinha;  e havia, nas ruas antigas, um comércio modernizado. Mais ainda, admirei-me ao conseguir, em poucos minutos, num Cartório informatizado,  a certidão de nascimento de meu pai (em diversas cidades do Brasil,  ainda não era possível com tal rapidez). Fiquei nos Anjos, em uma aconchegante pousada.  Infelizmente, três dias eram um tempo exíguo demais para pesquisar. Colhi apenas alguns dados na Biblioteca Municipal de Chaves, que ainda situava-se próximo à Torre, e,  na Galeria Antígona, a Senhora Maria Isabel Viçosa me doou os livros Etnografia Transmontana (volume I) e Crenças e Tradições do Barroso (volume II),  do Padre António Lourenço Fontes, que foram de extrema utilidade para o romance. O melhor de tudo, no entanto, com base num croquis que meus familiares tinham levado para o Brasil, foi localizar, finalmente, a Quinta de meu avô.  Algum tempo depois, tive o prazer virtual de conhecer o blog Cidade de Chaves, de Fernando D. C. Ribeiro, onde recolhi vários outros dados preciosos sobre a cidade e a região,  e que me deram mais subsídios para a concretização da obra.

 

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                Em 2010, ao chegar a Chaves, disposto a passar  o tempo necessário para as pesquisas e a escritura do romance ( o que fiz de março a maio daquele ano), a cidade modernizara-se bem mais  e revelava-se  ainda mais encantadora. Na Biblioteca, agora no Largo General Silveira, a Boa Sorte me bafejou com os jornais “O Flaviense” e “A Região Flaviense”, do período 1912-1926, o mesmo em que ocorreram os factos inspiradores do livro. Eram poucos e remanescentes,  mas suficientes e  disponíveis. Naqueles papeis amarelados,  já lá estava –  como se costuma dizer, “de bandeja” –  toda uma época de vida às margens do Tâmega, com os costumes, eventos, o modus vivendis,  enfim,  daqueles tempos em que por lá viveram meu pai e os mais da família. Fotos dessa época, de Alberto Alves, somaram-se às de Fernando Ribeiro e a algumas que eu fiz, como importantes registos para o livro.

 

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Imagem de arquivo do Blog Chaves - Ao fundo, antigas instalações do Bombeiros, atual Biblioteca Municipal

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                Ao constatar e analisar os contrastes entre o antigo e o moderno, ficava impressionado em como, ao contrário de numerosas cidades com um porte similar no Brasil, havia uma profusão de  cafés e restaurante de excelente qualidade.  Perambulava por becos, vielas e veigas; caminhos rurais, como a silenciosa Rua da Solidão; entornos do Forte São Francisco e sua pousada contemporânea;  o Forte de São Neutel;  as Caldas; o Jardim Público; o Tâmega, rio abaixo, rio acima; as Poldras;   o Moinho abandonado (um crime de omissão, pois, restaurado, e com a instalação de um bar ou café, com mirante para o rio, poderia oferecer mais uma bela atração turística para a cidade);  o Centro Cultural, onde era a antiga estação de comboios; o Cinema e a sede do Teatro Experimental Flaviense; o Cemitério...  Posso dizer, enfim,  sem bazófia, que conheci a minha querida Chaves de sítio a sítio – ou quase. E tudo o que eu conferia já estar lá desde os anos dez a vinte do século passado, colocava  como cenários do romance, integrados aos factos e  vivências dos personagens.

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Imagem de arquivo do Blog Chaves Antiga - Estação do comboio anos 70 do Séc. XX

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Antiga estação do comboio, atual Centro Cultural de Chaves

                Em 2016, à altura da apresentação do livro na Biblioteca Municipal, ouvi de Paula Chaves, que me honrava como apresentadora do evento, achar interessante eu falar de sítios, como a Capela do Senhor do Calvário, num Horto de Santo Amaro, orto, em Santo AamroHortoHHHHHHque não eram (re)conhecidos por muitos flavienses natos. Aliás, não posso mencionar Paula sem fazê-lo,  também, a Hugo Marceneiro e ao Bar Grão Bago, charmoso bistrô do casal, com decoração Art Nouveau, chegadinho à Ponte Romana, onde eu pousava todas as tardes, ao vir de minhas pesquisas, e que foi importante demais para os venturosos e inesquecíveis dias que vivi em Trás-os-Montes. 

 

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Imagem de arquivo do Blog Chaves - Antigo Grão Bago e esplanada (2009)

 

                  Sobre o Grão Bago, com seus encontros de poetas e poesias às quartas-feiras, falarei numa próxima crónica.

 

Raimundo Alberto

 

19
Ago20

Crónicas de assim dizer

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A Astronomia em balão

 

Andava há que tempos à procura da ordem do mundo ou à procura da ordem no mundo, da lógica das coisas ou da lógica nas coisas. Uma espécie de nostalgia que me tolhia por dentro, como se fosse imperativo que houvesse um sentindo nas coisas, como se tudo fosse uma dedução de uma fórmula matemática a que nos obrigavam no liceu aqueles bons professores que diziam que o importante era perceber e não decorar: “Têm de saber deduzir as fórmulas!” E nós, ávidos de conhecimento e sabedoria, a achar que aquela atitude fazia todo o sentido.

 

Fomos andando e crescendo assim, à procura, sempre à procura, e quanto mais andávamos e crescíamos mais procurávamos e mais os pés se nos enterravam na areia. Areias movediças, correntes fortíssimas, a maré a subir cada vez mais e nós num esforço inglório de atingir a outra margem, porque era lá que estava o mar e nós éramos de grandes objectivos, de grandes sonhos, de grandes destinos, de grandes metas. E o nosso corpo debatia-se, em vão, contra aquilo que nos pareciam demónios e que não passavam de fenómenos naturais, bem estudados e previsíveis.

 

Foi quando começámos a perceber que nos podia acontecer o improvável, por uma razão simples, só porque era possível, só porque isso estava na sua própria definição, porque o improvável nada exclui. É só estatística caramba, noções básicas! E nós ali, no meio do rio, com as teorias todas na cabeça, da física, da matemática, até da química, pois que de repente os nossos músculos começaram a tremer, os dos braços e os das pernas, e nós confundidos e baralhados sem perceber se aquilo era a adrenalina, se um choque hipoglicémico, se o efeito dos ácidos produzidos pelo metabolismo acelerado ou interrompido dos alimentos recentemente ingeridos! Sim, tínhamos acabado de almoçar quando nos metemos a atravessar o rio a pé, na maré vaza. Uma coisa tão fácil, tão simples, que se consegue sem qualquer esforço, quando não se pensa. Era atravessar daqui para ali, qual era a dificuldade?

 

Faço um intervalo. Veio-me aqui à cabeça aquela pergunta que às vezes me fazem à chegada, e que não sei bem classificar, quando vou ao encontro marcado, por um percurso feito dezenas de vezes: “Para onde é que foi desta vez? Chegou direitinha aqui?” É um facto que me perco muitas vezes, repetidas vezes, infinitas vezes; porque nunca vou com atenção ao percurso. Aproveito sempre as viagens para escrever mentalmente, não leio as placas, ler e escrever ao mesmo tempo, com a mesma atenção, é difícil. Quando me aparece a saída da auto-estrada, à velocidade a que vou, não dá tempo para sair sem pisar o traço contínuo. Acabo por percorrer, muitas vezes, o dobro da distância, às vezes até me questiono se não vou em sentido inverso! Mas, se ao chegar finalmente ao destino me pusessem um papel à frente, saía-me de jacto a crónica da próxima semana. Claro que sim, agora com o GPS, este problema está ultrapassado.

 

Voltando à travessia, foi preciso estar no meio de um rio para perceber que a única coisa que temos na vida, como certa, é a corda de um barco ancorado.

 

Andamos aqui a preencher vazios como quem enche balões. Metemos-lhes ar a mais e eles depois rebentam e é só estilhaços! Um fogo de artifício no Céu da noite, no Céu à noite, com uma luz tão forte que encandeia, que não permite que se veja mais nada à sua volta a não ser aquela luz gigante, que transborda. E vem outra vez o vazio e nós voltamos a encher balões! Numa altura destas ainda andamos às voltas com o Mito de Sísifo! Pensamos nisto e achamos imperdoável. Que continuemos às apalpadelas, tentativa e erro, com experiências não científicas! Subir e descer, num eterno cansaço, sem nunca lá chegar! Começa a nostalgia.

 

Não é por acaso que encontramos, nesse dia, uma criança de 7 anos a quem perguntamos: Gostaste de me conhecer? (Estas perguntas não se fazem a ninguém, muito menos a uma criança de 7 anos, porque é o ego a falar por nós e o que deveríamos fazer, nestas alturas, era tapar-lhe a boca!) E quando ela responde, encolhendo os ombros, sem tirar os olhos do jogo do telemóvel, nós pedimos: Explica-te melhor! E ela, desta vez, verbaliza: “Era (só) menos uma pessoa que conhecia”. Aqui já não nos apetece dizer explica-te melhor, porque aquilo nos parece uma verdade absoluta. Lemos o “só” na frase, mas ele não foi dito, fomos nós que o pusemos lá (o superego a falar por nós, ninguém sossega estes gajos!) com uma carga negativa, que provavelmente a criança não colocou. O significado era talvez; “Que diferença é que isso faz? Uma pessoa a mais, uma a menos... é sempre de uma pessoa que se trata, não mais do que isso”! E nós ficamos a pensar naquilo, porque para alguns de nós as pessoas representam todas um mundo, um planeta inteiro com satélites em órbita, sejam eles naturais ou artificiais, num Sistema Solar, dentro de um Universo infinito e o que aquela criança nos estava a dizer, sem ter dito, foi: “Tu não percebes nada de Astronomia”! E não.

 

Estava nestas conjecturas quando me apareceu no telemóvel uma notícia, daquelas que nos aparecem por causa do histórico, que falava num alarme, uma espécie de sensor, para o limite de ar no enchimento de balões. Abri a notícia, li-a, instalei a aplicação e... 5 estrelas, nunca mais me rebentaram nas mãos, nem nos dias de festa nem nos outros!

 

Cristina Pizarro

 

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