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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

28
Out21

Crónicas da Quarentena

Décimo Segundo e Último Dia


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DÉCIMO SEGUNDO E ÚLTIMO DIA

Quarta-feira, 28 de Outubro de 2020

 

Regressarei esta manhã.

 

Olhando para lá da lua em quarto crescente, sinto-me perplexo perante a aparente simplicidade de todo este complexo universo cintilante, repleto de pequeníssimos grãos de mica que, em momentos de inocência, nos permitem augurar e imaginar outros universos em cada um deles.

 

Pirilampos numa noite japonesa, pétalas de cerejeira a esvoaçar, longos e ondulantes cachos de glicínias, o salto de uma rã num charco ou num poço, a singela poesia de Bashô desdobrando-se em miríades de sons e sensações.

 

Um minimalista golpe diagonal numa superfície uniformemente pintada, múltiplos salpicos espontaneamente dispostos numa tela, um quadrado negro sobre a obsessiva negrura da tinta, longilíneas e frias luzes fluorescentes, a indizível emoção das cores no testamento de Vieira da Silva.

 

A inabalável e cómica seriedade de Pamplinas competindo com o bigode e a bengala de Chaplin, um irreprimível e súbito esgar no primeiro plano de um film noir, andróides insomnes contando ovelhas eléctricas.

 

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O lento, profundo e plangente som do violoncelo de Guilhermina espraiando-se e transfigurando-se nos avermelhados tons de uma tela de Augustus John, a esquecida voz de Francisco de Andrade vibrando e rebrilhando na branca e esplendorosa figuração de um retrato de Max Slevogt.

 

Tudo isto entre um enlevado e sublime Nimrod, liberto da pomposidade de Elgar, e as hipnóticas e hieráticas composições de Pärt.

 

A magia de quem inventou a primeira escrita, ou a primeira representação dos números, ou a notação musical… Todos os mundos sonhados ou por sonhar… Toda a milagrosa desmultiplicação da senhora dos mil nomes… Todo o misterioso mistério da maternidade…

 

E a maravilhosa revelação dos avermelhados crisântemos, em esbranquiçada transfiguração, coroando a brancura da açucena que desafia o nome da rosa.

 

Talvez a visão de tudo isto me deixe regressar mais apaziguado.

 

Augusto de Sousa

 

 

26
Out21

Crónicas da Quarentena

Décimo Dia


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DÉCIMO DIA

Segunda-feira, 26 de Outubro de 2020

 

Regressarei depois de amanhã ao trabalho presencial. Não sei que esperar de mim nem daquilo que me rodeará. Um carrossel, certamente. O confinamento de outras pessoas, as angústias de eventuais contactos com potenciais infectados, o receio de ainda poder contagiar a família. Altos e baixos infindáveis, em monótonos e repetitivos percursos circulares.

 

Percursos com mais variáveis e rotações que os antigos vinis, entretanto substituídos por CDs como os que agora estão à minha frente, quase soterrando os dois velhos volumes da Etnografia Transmontana.

 

Olhando para estes discos percebo melhor a passagem do tempo, recordando produtos e marcas comerciais que contribuíram para alguns dos pilares fundamentais da minha existência – Lego, Naxos, Taschen.

 

As peças Lego desde a minha infância, em Viana, passando depois pela infância dos meus filhos e pelos meus natais já adultos, a Naxos com a sua benemérita e inultrapassável variedade de gravações musicais, apresentando invulgares registos clássicos onde até surge a música portuguesa, e a Taschen com a sua democrática e sumptuosa filantropia do livro.

 

Medito nisto sabendo que os registos em CD estão ultrapassados há muito, que já muitas décadas passaram por mim, que algumas delas se sucederam sem que eu tivesse qualquer computador, telemóvel ou acesso à internet e que, no turbilhão das redes sociais dos últimos vinte anos, até o velhinho Facebook foi preterido pelo Instagram e pelo Twitter na escolha de gerações mais novas, estando todos eles a ficar para trás perante a recente tendência Tik Tok dos adolescentes.

 

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E novamente recuo no tempo, lembrando a primeira vez que conheci o padre Fontes, muito antes dos congressos de Vilar de Perdizes e das sextas-feiras de Montalegre, acabara ele de publicar os volumes da Etnografia, para pouco depois andar entusiasticamente, com uma maquete, a tentar convencer alguém da necessidade de recuperar ou restaurar o mosteiro de Pitões.

 

O telhado da igreja foi entretanto recuperado, apesar de tudo o resto continuar em ruínas – o claustro, as celas, a cozinha. O velho cemitério, preterido por um novo mais próximo da povoação, foi também abandonado. Sobrepujando a entrada do mosteiro, mas agora disfarçada sob o espesso mimetismo dos líquenes, conserva-se ainda a granítica e emblemática verticalidade dos ursos e da árvore de Osera.

 

Mesmo ao lado, entre os ensolarados interstícios da parede sul do templo, lembrando um milagroso sortilégio de Santo Ambrósio ou São João Crisóstomo, sobrevive também uma melíflua colmeia de abelhas, com o seu leve zunido suave e a sua interminável azáfama, dando-me a impressão de ser a mesma que há décadas vi pela primeira vez.

 

Era aquele um tempo em que já me agradava o nome Pluto, embora o meu interesse profundo pelas máquinas fotográficas e pela fotografia ainda não tivesse despertado.

 

Augusto de Sousa

 

 

 

 

25
Out21

Crónicas da Quarentena

Nono Dia


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NONO DIA

Domingo, 25 Outubro de 2020

 

Estas crónicas deveriam ser mais uma reflexão sobre a realidade actual e tudo o que nos tem afectado, mas é inevitável que se transformem antes numa janela entreaberta para o passado.

 

Uma janela que é quase uma fresta, fendendo a memória mas permitindo apenas vislumbrar fragmentos da vida e dos tempos idos. Fragmentos que, muitas vezes, são apenas reflexos de um reflexo, como num jogo de espelhos em que uma imagem reflecte outra imagem, fazendo com que a realidade nos chegue completamente alterada ou distorcida.

 

A verdade é que poderia ocupar-me apenas, obsessivamente, desta pandemia, como poderia ocupar-me também das terríveis consequências da gripe espanhola, que causou milhares de mortos, entre os quais aquele jovem e genial Amadeo, da tuberculose e das suas sanguinolentas ondas anónimas que (não sem deixarem uma indelével marca na literatura Romântica…) levaram também pintores, escritores e antepassados que nunca conheci, da arrepiante lepra que até hoje ficou na toponímia das ruas de Casas dos Montes, dos inúmeros contágios letais que levámos para as Américas ou das tenebrosas pestes medievais… Mas como poderia ir por aí, se o que quero é celebrar a vida, mesmo que seja apenas aquela que já foi vivida, no meio de todo este quotidiano que nos consome e por onde não deixam de pairar dúvidas e incertezas?

 

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Como poderia deixar de lembrar as manhãs de neblina a elevarem-se das rumorosas águas nascidas nas encostas, ora abruptas ora suaves, destas montanhas? Ou o azulado voo do gaio e o grasnido saindo do avermelhado bico da perdiz? Ou o trote ligeiro de uma esquiva raposa, acentuado pela horizontalidade da sua felpuda cauda? Ou a imutável silhueta da cidade, cristalizada em inúmeros entardeceres, sempre diferentes, mesmo quando os estorninhos não sobrevoam a veiga? Ah, e o cheiro da terra húmida, esse ancestral apelo metafísico, após uma breve chuva de verão?

 

Como poderia, enfim, esquecer a alegria da minha infância com meus pais ou a minha felicidade com os meus filhos, naqueles breves momentos em que todos parecíamos ser eternos?

 

Augusto de Sousa

 

 

24
Out21

Crónicas da Quarentena

Oitavo Dia


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OITAVO DIA

Sábado, 24 de Outubro de 2020

 

E, quando entro em mais devaneios e me perco na memória, é isto, surgem sempre os números, as estatísticas e as análises mais ou menos incertas e angustiantes.

 

Neste contexto, até parece algo reconfortante ver, na primeira página do Expresso de hoje, que em todo o Alto Tâmega e Barroso os concelhos de Chaves e Boticas são os únicos que não fazem parte daqueles com nível muito elevado de contágio. Como se com o mal dos outros pudéssemos nós bem e esta pandemia conhecesse fronteiras…

 

Parece reconfortante porque, afinal, nem as estatísticas são absolutas nem as notícias completamente fiáveis, se os dados não forem relativizados. A verdade é que o boletim epidemiológico para o Alto Tâmega, registado até ao final de ontem, referia que o concelho de Chaves é aquele com mais casos confirmados, e mais óbitos, face aos concelhos circunvizinhos. Também é verdade que este apresenta o maior número de recuperados, mas tudo isto deve ser contextualizado numa demografia intermunicipal relativa.

 

Como sempre, os dados estatísticos são apenas dados estatísticos e valem o que valem, sendo a sua interpretação passível de diversas leituras, várias contextualizações e inúmeras relativizações.

 

Aceitá-los sem reticências seria como afirmar, com ênfase e desolada tristeza, que me queimaram, irremediavelmente, o Brunheiro.

 

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O Brunheiro sofreu já severos incêndios e certamente virá ainda a ser atingido por muitos outros fogos. Mas, enquanto houver a esperança de um feto que rebente entre as cinzas, de uma bolota que germine e dê um carvalho, ou um sobreiro, e de um castanheiro que prometa crescer durante séculos, o meu imaginário vê-lo-á sempre verdejante.

 

E por entre esse espesso arvoredo, imagino coelhos e lebres, javalis e corças, ocultando-se entre arbustos e ervas ou bebendo nos regatos. E até fugidios linces, como aquele que saiu da Andaluzia e por aqui andou a caminho do Alentejo, ou ursos, como os que, vindos da Cantábria, começam a chegar à fronteira.

 

Com um pouco mais de nostálgica imaginação e paradoxal esperança, imaginaria até a espantosa fera de Chaves, que ainda hoje permanece um mistério, como estes outros minúsculos monstros dos incertos tempos que atravessamos.

 

Augusto de Sousa

 

 

23
Out21

Crónicas da Quarentena

SÉTIMO DIA


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SÉTIMO DIA

Sexta-feira, 23 de Outubro de 2020

 

A luz exterior, reflectida no pavimento, une o quadriculado da tijoleira numa alongada faixa luminosa e orienta o meu olhar para o jardim. Abandonando as memórias africanas, que não são minhas mas as obras do José Pádua ajudam a desmultiplicar, por outras partes desta casa e por outras casas da família, penso na murta que daqui não vejo e em breve irei fotografar.

 

Levanto-me recordando, isso sim, o verde e o azul dos Açores e também o vento que por vezes soprava suavemente, parecendo amansar as águas do mar e das ribeiras. Entre a escurecida rugosidade rochosa do tempo, vem-me ainda à memória aquela açoriana que, sobre o fundo anilado das hortênsias, não sabia de que eu falava quando falava de outras montanhas, de outras rochas ou das flores de giesta.

 

Recordo também a emocionada memória que então tinha destas flores, com as suas pequenas manchas amareladas ou esbranquiçadas parecendo sustentar, e fazer crescer, as finas hastes de cada arbusto. Ainda hoje sinto o que sentia na altura acerca do seu aroma, não sabendo se o devo achar agradável ou não, mas o que então importava era que tudo aquilo me fazia atravessar o Atlântico para me vir aninhar no aconchego desta terra durante breves momentos.

 

A estranheza que a imagem das flores de giesta causava àquela açoriana é a estranheza que estas bagas da murta me causam. Parecendo mirtilos, à primeira vista, só após um olhar mais atento é que percebemos não serem estas achatadas como as do mirtilo, antes mais alongadas. Depois de abertas ou esmagadas, descobrimos que são apenas um invólucro, quase sem polpa, para as sementes.

 

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Até aquilo que nos parece familiar pode guardar segredos durante muito tempo. A mim, foi a tradição judaica associada à murta que me escapou durante muitos anos. Depois de, no Canadá, reencontrar a tradição do rapa reencarnada naquele que era, afinal, o seu conceito original, o dreidel, foi preciso aguardar por Nova Iorque para chegar aos esquecidos usos rituais da murta.

 

Foi num jantar na baixa leste de Manhattan, em casa do Darius, que juntava amizades ashkenazi da parte de Judy, a mãe, e descrentes outsiders como eu, o pai, Pheroze, a Jane e outros, que ouvi pela primeira vez falar desses ramos rituais onde a planta entrava. E foi também aí que, depois de já conhecer a água de rosas, a água de flor de laranjeira, e outras águas perfumadas, ouvi pela primeira vez falar da água-de-anjo, que se obtém destilando as folhas e flores de murta.

 

Tudo isto aprendi ao longo de uma agradável refeição, preparada por mim e pelo Darius, onde acabei sendo felicitado pelo lombo marinado, recheado de ameixas secas, espargos e outras improvisações. Um sucesso gastronómico, particularmente entre os ashkenazi, que nas despedidas me felicitaram efusivamente, elogiando o sabor e suavidade da carne e pedindo-me a receita.

 

É claro que, pesem embora as minhas prováveis origens sefarditas, nem sequer tive coragem de lhes dizer que era lombo, sim, mas de porco.

 

Augusto de Sousa

 

 

22
Out21

Crónicas da Quarentena

SEXTO DIA


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SEXTO DIA

Quinta-feira, 22 de Outubro de 2020

 

O teletrabalho, enquanto alternativa ao regime presencial, pode revelar-se como um recurso perverso.

 

Tenho vindo a descobrir que, afinal, não só estou a trabalhar mais horas como, para meu desespero, trabalho a qualquer hora, interrompendo almoço ou jantar e não tendo sequer recato ou descanso depois deste último.

 

Ironicamente, muitas vezes tem acontecido ser este trabalho, desregrado e regido por redundantes e anormais horas extraordinárias, um inglório desperdício de energia, visto que as medidas legais implementadas para se ensaiar, pela enésima vez, o controle da pandemia acabam por impossibilitar a concretização prática, in loco, do trabalho desenvolvido e de muitos eventos previamente agendados.

 

Assim acontecerá a partir de hoje, com as consequências daquelas que serão as novas medidas de restrição à circulação, entre concelhos, durante uma semana.

 

É uma contrariedade do tamanho de uma calabaza, ou talvez maior, como se diria aqui ao lado, na Galiza.

 

Por vezes, é melhor fazer como o Mico e ficar regaladamente imóvel e sereno, recordando a filosofia de não intervenção do Ricardo Reis e meditando sobre a inutilidade da acção, mesmo não estando de mãos dadas com a Lídia.

 

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Certamente será essa a filosofia subjacente ao tratamento da bela vinha que fica contígua a minha casa. Cuidadosamente podada e limpa, cada uma das suas vides entra alegre e surpreendentemente pelos olhos de quem se habituou a ver tantas e tantas terras abandonadas.

 

A meio caminho entre a veiga e o sopé do Brunheiro, as suas valas longas e ordenadas, que ora se organizam de nascente para poente ora de norte para sul, consoante o suave declive do terreno e a favorável exposição solar, oferecem abundantes cachos de diferentes castas.

 

No entanto, esta acabará por ser uma ritual oferenda aos deuses e à mãe natureza, todos os anos renovada na cada vez menos surpreendente surpresa de ver muitos desses cachos a permanecerem nas vides até bem depois de as últimas parras atingirem o solo.

 

Haja quem ainda acredite em divindades e oferendas rituais, nestes tempos em que a intercessão dos sacerdotes parece ter caído no esquecimento ou no desprezo divino.

 

Augusto de Sousa

 

 

 

21
Out21

Crónicas da Quarentena

QUINTO DIA


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QUINTO DIA

Quarta-feira, 21 de Outubro de 2020

 

Chegou a chuva, embora não tão tempestuosa como se anunciava. Tendo ainda na memória ecos da prosa que ontem encerrou o meu registo, saio para o jardim, procurando aspirar a humidade do ar, procurando identificar as suas múltiplas fragrâncias, procurando distinguir os diferentes cheiros das árvores, dos arbustos, das ervas. A tudo isto se sobrepõe o ancestral cheiro da terra molhada e das folhas que se vão entretecendo no solo. Húmus.

 

A meu lado, num prenúncio de inverno, uma roseira, despida já de rosas, ostenta entre os seus ramos uma orvalhada teia sem qualquer aranha à vista. Neste brilhante dédalo de gotículas, apenas uma pequena folha, acastanhada, está suspensa na malha, rasgada.

 

Uma voz angelical afirmou que a rosa é sem porquê. Talvez. E talvez a causa do seu misticismo não seja apenas a essência metafísica do seu aroma. Sem qualquer preocupação em obter resposta, pergunto-me por que razão nunca procurei cultivar rosas landora. Não sei. Não faço ideia.

 

Mais longe, alguns crisântemos começam a desabrochar. As flores dos mortos, como algumas pessoas dizem. As flores com que, no dia de Todos os Santos, honramos e reavivamos a memória dos nossos antepassados. Tradicionalmente, há gladíolos, também. Mas os crisântemos brancos encerram em si a ideia das almas purificadas. Estes são de um avermelhado tom sanguíneo que coloca à prova a versatilidade da paleta cromática da nossa língua.

 

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Recordam-me os mon japoneses de que Wenceslau fala nos seus Serões e eu reproduzi, todo pimpão, numas folhinhas fotocopiadas, inventadas por um amigo, no dealbar dos nossos vinte anos.

 

Um dos dois mon de uso exclusivamente imperial é o do crisântemo de dezasseis pétalas. Um crisântemo dourado. Um tom perfeito para combinar com os tons do momiji, o outonal esplendor das mil e uma cores que iluminam as árvores de folha caduca.

 

De novo me invade a ideia do húmus e da secreta humidade que se oculta sob o espesso manto das folhas caídas entre soutos, carvalhos e nogueiras. E também a memória daquela minúscula rã ibérica, afastada de qualquer charco ou linha de água corrente mas aconchegada sob as largas folhas, húmidas e orvalhadas, dos centenários castanheiros que pontuavam a ténue neblina de Montesinho.

 

E um avassalador apelo, telúrico e ancestral, ascende em mim.

 

Com a Feira dos Santos cancelada, talvez daqui a uma ou duas semanas esqueça a desilusão desta tradição urbana interrompida e consiga perder-me pelos montes, para ir aos cogumelos.

 

Augusto de Sousa

 

 

20
Out21

Crónicas da Quarentena

QUARTO DIA


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QUARTO DIA

Terça-feira, 20 de Outubro de 2020

 

Entre as tábuas da cerca, com a sua canina sensibilidade, o Max observa atentamente algo que me escapa e se perde no horizonte. Não sei se pressente a chuva que se anuncia com a chegada da Bárbara, se tenta pressentir e farejar, à distância, os indolentes movimentos felinos da Schnecke.

 

Por cima de nós, a deslavada palha d’aço deste céu acinzentado vai mudando de espessura e intensidade, permitindo a sul uns breves clarões luminosos que avivam ainda mais o alaranjado das telhas, dos tijolos e da chaminé da antiga telheira.

 

Nas imediações, os barreiros, nos seus desníveis, valas e lagoas, denunciam o abandono da fábrica e o declínio da própria olaria na encosta do Brunheiro, que não poupou sequer o barro negro de Vilar de Nantes.

 

Talhas, púcaros, potes, e toda a louça que Alves Cardoso registou nas suas telas transmontanas, são agora memórias de um outro modo de vida.

 

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Este tempo, comprimido entre ansiolíticos e antidepressivos, não se compadece de tal louça senão como tosca memória de outro tempo, mais rural e menos consumista, que cruza a nossa apressada vivência actual em registo português suave.

 

Símbolos, talvez, de um tempo em que a pobreza se assumia orgulhosamente na honrada essência da mera existência e se afirmava numa roupa em segunda mão, remendada mas lavada, e no interminável trabalho de sol a sol, os cacos desta olaria sobrevivem, ainda, nos fragmentos da nossa memória.

 

Talvez essa memória nos venha a servir de algo, num momento em que a vida urbana se ressente já, amargamente, de mais uma crise e o espectro da pobreza, da desesperada e miserável pobreza que se sente na pele, no quotidiano e na família, ameaça dia e noite muitas das pessoas e famílias das grandes cidades.

 

Enquanto esse espectro não se aproxima das pequenas cidades, como inevitável e indubitavelmente acabará por acontecer, dirijo-me lentamente, cabisbaixo e taciturno, para o casulo que é a minha casa e são as minhas memórias, levando comigo Raul Brandão.

 

Augusto de Sousa

 

 

 

 

19
Out21

Crónicas da Quarentena

Terceiro Dia


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TERCEIRO DIA

Segunda-feira, 19 de Outubro de 2020

 

Cem mil.

 

Estatisticamente, um número relativamente irrisório face à nossa demografia. Menos de um por cento da população portuguesa.

 

Simbolicamente, uma sombria avantesma pairando sobre o país, anunciando a previsível e inevitável chegada da centena seguinte. Um avejão que recorda os hiperbólicos seis mil, que nem metade seriam, atribuídos pela imaginação popular ao topónimo da pequena aldeia de Sesmil.

 

Seis mil, que afinal estariam acampados mais para S. Pedro de Agostém, preparando-se para cercar a pequena vila medieval, legitimar pela força o novo rei e a nova dinastia e testar a honra e a palavra de um alcaide. Cem mil para cercar o nosso imaginário, inquietar o nosso quotidiano e testar o nosso âmago e os nossos medos.

 

Pessoalmente, um número do qual já faço parte. E a serenidade com que aceito esta realidade surpreende-me. É como se estivesse assintomático de angústias, ansiedades ou sentimentos.

 

Saio para respirar um pouco deste ar de outono e ver a robusta verticalidade odorífera do loureiro, tendo o Leiranco por fundo. Ali, por entre fragas de ciclópica memória, a escassa vegetação, que nunca terá tido silvestre espessura, é agora encimada por aerogeradores que procuram escravizar o poder das antigas divindades eólicas.

 

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A meu lado, descansando calmamente numa folha de figueira, aquecida pelo sol do final da manhã, uma estática borboleta procura prolongar a cálida amenidade da primavera e do verão.

 

Mas a imobilidade desta borboleta deixa-me inquieto, fazendo-me temer que o seu próximo bater de asas venha a causar um cataclismo, iniciado num outro hemisfério mas extensível a todo o mundo.

 

Assaltado por atávicos medos medievais, receio começar a ver prodígios celestes, aves de mau agouro e outros sinais do fim do mundo.

 

Os corvos marinhos que habitualmente sobrevoam a veiga, seguindo a linha do rio, surgem-me agora como velozes manchas, esguias mas aziagas, aguardando apenas a chegada dos exóticos e inusitados papagaios urbanos de Lisboa, verdes, estridentes e mais periquitos de colar que papagaios, de diurnas corujas e outros arautos do inominável, para criarem uma apocalíptica corte celestial.

 

Entre a serenidade e a inquietação, pareço desenvolver uma esquizofrenia, como se mudasse não apenas as lentes com que registo estas imagens mas as próprias máquinas fotográficas. Como se visse uma parte da realidade através de toda a complexa designação da Canon EOS 5D Mark III e outra através da desarmante simplicidade alfanumérica que a Nikon D800 tem no seu nome.

 

Talvez deva deixar de ver a realidade apenas através destas lentes fotográficas.

 

Augusto de Sousa

 

 

17
Out21

Crónicas da Quarentena

Primeiro dia


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Quarentena

 

Eu sabia que mais dia, menos dia, o corona vírus me iria entrar em casa, transportado por mim ou, o mais provável, transportado por um membro da família que na primeira linha lidava com ele. A probabilidade passou a suspeita num elemento da família no dia 12 de outubro de 2020. Dia 13 passou-se ao teste e no final do dia 15 vinha a confirmação – positivo. Por precaução, enquanto se aguardava o resultado do meu teste, tal como recomendava a DGS, no dia 14, já tinha ficado confinado em casa, e dia 16, vinha a ordem oficial da DGS para ficar confinado até dia 28 de outubro.

 

No entretanto, um amigo, quando soube da possibilidade do meu confinamento, fez-me uma proposta de, caso passasse a confinamento obrigatório, lhe enviar duas fotografias do dia para um texto, e assim aconteceu, com início em 17 de outubro de 2020, precisamente há um ano, saíam do confinamento as duas primeiras imagens para o primeiro texto, dos quais resultaram doze crónicas de reflexões e memórias, ficcionalizadas e cruzadas, correspondentes a três diferentes pessoas... com imagens do confinado e texto de Augusto de Sousa.

 

Quanto ao confinamento, confesso que nos dois primeiros dias até lhe achei piada, mas a partir de aí o sentimento mudou, pareceu-me ser aquilo que seria o mais próximo de uma prisão domiciliária, em que a casa se transforma numa cela e, com a sorte de ter um espaço ajardinado ao ar livre, se transforma em pátio de recreio, e tão real parecia essa prisão, que até a polícia (PSP), me batia à porta para verificar se estava ou não “preso”, tudo isto, com a agravante de poder a vir contrair a doença do Covid, que felizmente acabou por não acontecer.

 

Assim, iniciamos hoje a publicação diária dessas doze crónicas, precisamente um ano após elas terem sido escritas e ilustradas com duas imagens do dia.  

Fernando DC Ribeiro

 

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PRIMEIRO DIA

Sábado, 17 de Outubro de 2020

 

Aguardo, ainda, o resultado do teste que fiz há dois dias. Como entretanto se intrometem o sábado e o domingo, apenas saberei o resultado quase uma semana depois de o ter solicitado. A lentidão de todo este processo recorda-me o absurdo da guerra de 1908, que tinha horas para abrir e fechar.

 

Será que o processo infeccioso também vai de fim-de-semana?

 

Recolho preventivamente ao domicílio. Entre o Brunheiro e a veiga, aconchego-me no casulo que é a casa, quase não saindo sequer para o jardim. Aqui descubro ainda um outro casulo, dentro de mim próprio e das minhas memórias.

 

Olho este tosco camiãozinho, que comprei nos Santos, com a desculpa que todos os pais dão, de ser para um filho, e recordo as pranchas de pinho empilhadas nas serrações, com o seu cheiro fresco a resina e madeira.

 

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São memórias que me vêm como se estivesse no interior dessas pilhas quadradas e as visse através das frinchas de cada prancha alternadamente sobreposta – agora vejo, agora não vejo.

 

Sim, agora entrevejo a Rua da Muralha, os camiões da Exportadora e a figura maciça do Pipa, que de guarda-redes do Desportivo passou a temerário e periclitante condutor de camiões.

 

E logo me ocorrem, também, histórias do Matateu em fim de carreira, na pensão da Dorinha, com cama, comida, roupa lavada e uma grade de cervejas, que ele fazia questão de consumir na esplanada do passeio fronteiro, evidenciando o cumprimento de uma das cláusulas do contrato.

 

Penso no actual contexto pandémico e sinto-me como um jogador de futebol que estivesse já em campo, preparado para iniciar um jogo nocturno, com os holofotes ligados, as câmaras televisivas a transmitir em directo, mas tão perplexo com a inusitada e longa pausa que antecedia a partida como o próprio árbitro que, sem saber muito bem o que fazer, percebia que não dependia dele, afinal, o início ou o fim daquele jogo.

 

A angústia de todo este interregno de fim-de-semana não reside tanto no tempo que o resultado do teste levará a ser-me comunicado, mas no facto de não saber quando o jogo poderá voltar a ser jogado, de não saber se as regras voltarão a ser as mesmas ou de não saber, sequer, se voltará a haver jogo.

 

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E sinto que algo me falta, que algo me foi retirado sem meu consentimento e sem que eu o pudesse evitar. Como se olhasse para todas aquelas ferramentas penduradas na parede e sentisse que nenhuma delas é a adequada. Que só aquelas que ali deixaram o seu contorno vazio seriam, agora, as imprescindíveis para enfrentar estes tempos.

 

Olhando mais atentamente, percebo a falácia e acabo por me interrogar – de que me serviria hoje uma catana? Indubitavelmente, estes tempos requerem outras ferramentas, que ainda teremos de inventar e às quais teremos de nos adaptar.

 

Não podendo sair à rua, para honrar o meu contrato de vida e beber umas cervejas em público, descubro simplesmente que, a partir de agora, a essência da nossa existência ou da nossa felicidade, e até mesmo de uma suprema afirmação da nossa liberdade individual, poderá assentar apenas na renovação e revalorização de insuspeitos e menosprezados detalhes do nosso quotidiano…

 

Augusto de Sousa

 

 

 

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