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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Out20

Crónicas de assim dizer

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Tu e só tu

 

Deixa. Deixa ir. Larga. Larga tudo. Coisas, pessoas, sentimentos, emoções, mágoas, ressentimentos, ofensas. Não te importes. Vê e sê! Depois começa, repara em algumas coisas, poucas, que estão ali para ti, que só estão ali para ti. Não são vistas por mais ninguém, mais ninguém pode pegar nelas, porque és só tu que as vês. Não fales delas, não partilhes, ninguém as compreende ou valoriza a não seres tu. Chamar-te-iam louco, desequilibrado, mentiroso, até parvo. Traz isso para dentro de ti, reconstrói-te em bocados, aos bocados, sem pressa nenhuma. Faz uma coisa de cada vez, em silêncio. Não anuncies, nem para ti, se falta pouco ou muito ou quanto falta. Não percas tempo nisso, embora para isso o tempo te não falte.

 

Caminha só no caminho que é feito por ti, onde tu colocaste a sinalética do excesso de velocidade, do perigo com o gelo, do derrame de óleo na estrada... Só lá está o que tu lá puseste. Não comentes se foi fácil ou difícil o percurso, se vacilaste a dada altura, se equacionaste desistir, não digas nada. Segue o teu caminho, liberta-te dos muros sem os deitares abaixo. Se lá estão, para alguma coisa devem servir, alguém os construiu, podem ser úteis a outros. Constrói tu também os teus, que hão-de ladear o teu caminho, que te hão-de proteger ao longo do percurso.

 

Depois faz pontes, constrói as tuas pontes, porque pode haver uma altura na vida em que precises de atalhos, em que um rio te surpreenda ao caminho e te pergunte o que andas tu a fazer nele, como se lhe tivesses invadido o espaço, que é só dele. Não respondas, salta para a ponte, a que tem os teus alicerces, não a outra que está ao lado e que foi construída por outro. Sabes lá tu de que essa é feita, se tem estrutura capaz de te aguentar. Bem sei, pesas pouco, mas há pontes de cartão. Podes ter sede, sim, é verdade, mas não bebas senão da água que corre debaixo da tua ponte.

 

Constrói um jardim, não é preciso que tenha muitas e variadas flores. Pouca coisa é suficiente. Que sejam verdes para te alimentarem os pulmões de oxigénio. Não, para respirar não serve qualquer ar, tens que ser tu a produzir a tua atmosfera, para que ela te seja respirável. Para além das plantas verdes, semeia outras que tenham cheiro, coisa simples, alecrim, alfazema, rosas… se achares que te vão fazer falta para ofereceres a alguém ou simplesmente para te perfumarem o dia da semana que elegeres para o teu dia especial, o de descanso disto tudo.

 

Depois encontra um sítio, não procures um sítio, encontra o sítio onde farás uma pequena casa que tenha tecto para te abrigar do frio, das tempestades, das aves de rapina e dos animais selvagens. Entra na casa, deita-te no chão, fecha os olhos, adormece sem razão e vais ver que ao acordar estás só tu dentro de ti! E é tão bom, finalmente a sós contigo, sem ninguém lá dentro, sem ninguém que te julgue, sem ninguém que te impeça.

 

Instantes depois começas a ouvir um respirar e percebes que um grande amigo, que não vias há tempo indeterminado, está ali deitado junto a ti. Com surpresa perguntas: Como é que entraste? “Eu sempre estive aqui, tu é que não me vias!” Tiras então os óculos de ver ao perto: de facto!

 

E é aí que percebes aquele estado de alma do “Quase bem!”, que para evoluir para o patamar seguinte depende mais do largar coisas -que só depende de ti fazê-lo- do que do ter coisas -que pode não depender só de ti.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

07
Out20

Crónicas de assim dizer

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Postal de aniversário

 

 

É a segunda vez que fazes anos e não fazes anos! Nunca coloquei esta possibilidade, de fazer e não fazer ao mesmo tempo. Parecia-me antagónico isso, incompatível, coisas que nunca pudessem ter uma simultaneidade e aí está! Baralho-me nos tempos dos verbos. Podia talvez dizer: o dia em que fazias anos, mas não me parece bem, porque o dia em que nós nascemos tem uma eternidade que lhe é própria, não deixa de existir só porque nós não estamos. Por isso, hoje, fazes anos!

 

Ainda não te contei, mas no dia do funeral aconteceu uma coisa engraçada. Um primo nosso, depois de me dar os sentimentos pela tua perda irreparável, disse: "Eras a mais bonita das três, mas agora estás velha!" e eu sorri. Só mesmo ele! A primeira parte, a do elogio, era a opinião dele, discutível como todas e por isso agradeci; a segunda, era uma verdade insofismável: estamos todos velhos. O tempo faz-nos isto e a dor e o sofrimento fazem com que, para além de velhos, fiquemos envelhecidos. Eu nesse dia estava velha como nunca e por isso o Eduardo tinha razão.

 

Continuo com um enorme desconforto pela tua partida tão precoce! As pessoas más duram mais tempo. A maldade enrijece-lhes os ossos, não têm osteoporose, nem as doenças se metem com elas, têm-lhes medo. Começam a pensar que, mesmo sendo graves, as pessoas más podem ser capazes de lhes sobreviver e lá se ia a reputação de doença incurável. Não arriscam. E eu acho que isso é uma fraqueza delas, uma grande insegurança, porque um cancro que se preze havia de arranjar maneira. Um estragozinho aqui, um estragozinho ali... Não arriscam, por causa, digo eu não sei, daquela peculiar característica mental que normalmente as pessoas más possuem e que lhes confere um poder quase sobrenatural: serem capazes do impensável. Algumas até são capazes de fazer mal a si próprias, só pelo prazer que têm em fazer mal aos outros. Uma vez um psicólogo explicou-me isto assim: fazem sofrer e não sofrem. (Agora aqui também já não sei bem se foi “e” ou “mas” e se calhar faz diferença!). Coisas que tu e eu nunca havemos de entender!

 

Mas hoje é o dia dos teus anos e eu ando aqui às voltas sem saber que presente te hei-de oferecer. Já sei, estou farta de saber, dizes sempre a mesma coisa, que não queres nada, e eu respondo-te também a mesma coisa: Sou eu que quero. 

 

Escolhi escrever-te. O pai acha que tu deves estar aí muito sozinha e eu sem arranjar as palavras certas disse-lhe: Acho que não! Já deve ter encontrado a nossa irmã e estão as duas a matar saudades uma da outra, há décadas que não se viam.

 

Não ficou muito convencido, calou-se. De vez em quando engana-se e chama-me o teu nome. Como eu não digo nada, ele pensa que eu não dei conta e faz-mo notar. “Enganei-me, chamei-te pelo nome da tua mãe.” E eu dou conta duas vezes. Aí já digo que dei conta e ele pede desculpa. Por nada, absolutamente por nada. Eu fico contente por ele fazer isso. Acho que se isso acontece é porque, de alguma forma, ele me acha parecida contigo e isso é bom. Mas por outro lado, começo a pensar que se uma dessas doenças fulminantes me descobre, como aconteceu contigo, vai pensar:"Ui, isto para mim é canja! Numa questão de dias, resolve-se o assunto." E eu achei e acho isto, uma grande injustiça! Apesar da vida sem ti me estar a custar imenso e de ter muitas saudades tuas, não queria nada que isso acontecesse, por causa dos meninos e do pai. Olha, estão os dois ali na sala e mandam-te beijinhos e um grande abraço. Sim, já estão grandes, mas tu perguntavas sempre “e os meninos?” Agora já percebem tudo sozinhos, já não tenho de lhes explicar nada. Agora são eles que me explicam a mim, quando eu não percebo, e às vezes não percebo logo à primeira e eles aborrecem-se e desistem, porque acham que eu não estou atenta. E se calhar a tudo não.  Começo por estar concentrada na explicação que me estão a dar, mas depois pego no início da conversa e começo logo a viajar. E é engraçado que as pessoas mais atentas dão conta! No outro dia fui almoçar com uns amigos e um deles apercebeu-se que após os 5 minutos iniciais eu me tinha ido embora, como que saído dali, e então a meio da conversa disse-me: “Ó Cristina, quando chegar avise-me”.

 

Só te estou a contar estas coisas porque já o fazia antes, ao telefone; agora é por carta, mas não me custa nada, faço-o com muito gosto e tu até dizias que eu escrevia muito bem…

 

Um grande beijo desta tua filha 

 

Cristina

 

30
Set20

Crónicas de assim dizer

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O Senhor Joaquim

 

 

O homem tinha-se habituado àquilo e não prescindia disso! Se alguém lhe perguntava porque o fazia, respondia:

- Habituei-me!

As pessoas não percebiam isso, achavam que era uma não resposta. É normal, quem não tem o hábito não o entende. 

 

Havia outros que o achavam doido, porque não encontravam lógica nenhuma para uma pessoa usar uma coisa da qual não precisa. É também normal, porque a lógica é de cada um, não se partilha.

 

E depois havia outros, persistentes, que teimavam em conseguir mudar o homem:

- Ó Senhor Joaquim, pense comigo. Se o Senhor não precisa disso para nada, porque é que anda com elas?

Mas o Senhor Joaquim que pensava bastante, mas só consigo e não com os outros, respondia a pura verdade:

- Habituei-me!

 

E as pessoas continuavam:

- Faça de conta que as perde, como é que depois vai fazer?

O Senhor Joaquim não gostava muito de fazer de conta. Achava pouco real e produtivo imaginar cenários onde, embora não pudesse determinar a probabilidade exacta de acontecerem, via neles poucas possibilidades de ocorrerem e respondia:

- Até lá, ando com elas!

- E depois, se isso acontecer, o que é que faz?

E o Senhor Joaquim, já farto daquela conversa e só em jeito de a terminar, respondeu:

- Arranjo outras!

 

Estas conversas, inquisições repetidas, deixavam-no um bocado desconfortável e começou a sentir-se melhor sozinho e a ficar mais por casa, porque se cansou de responder a questões iguais em dias diferentes.

 

Um dia os miúdos da aldeia, brincadeira de mau gosto, resolveram, num momento de distração, o que só acontecia enquanto dormia, tirar-lhas. O Senhor Joaquim passou dias sem sair da cama e as pessoas começaram a perguntar-lhe:

- Ó Senhor Joaquim, porque é que não se levanta, não há nada que o impeça!

E ele a responder de novo:

- Habituei-me!

 

Um dia os mesmos miúdos da aldeia acabaram por ir visitá-lo, porque sentiam saudades das histórias de vida que ele lhes contava ao fim da tarde, no quintal, e trouxeram-lhe as canadianas. E o Senhor Joaquim levantou-se da cama, apoiou-se nelas e foi para a rua contar histórias. Não fez comentários, perguntou apenas aos miúdos porque tinham sentido falta das histórias que ele lhes contava. Responderam:

- Habituámo-nos!

E o Senhor Joaquim:

- Eu já não vou para novo, se um dia vos falto como é que fazem?

Este cenário, embora o Senhor Joaquim não pudesse determinar com probabilidade exacta quando aconteceria, via nele muitas possibilidades de ocorrer e achava, por isso, muito real e produtivo imaginá-lo com alguma antecedência!

- Até lá, conta-nos histórias.

- E depois, quando isso acontecer, o que é que fazem?

- Arranjamos outro! 

 

Nesse dia o Senhor Joaquim esqueceu-se das canadianas no quintal, voltou para casa pensativo, um pouco triste, mas, encolhendo os ombros, verbalizou, em jeito de conclusão:

- Coisas de miúdos. 

 

Na manhã seguinte, não acordou.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

23
Set20

Crónicas de assim dizer

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Shampoo e amaciador

 

Acordo, com alguma frequência, e não sei explicar porquê, com um texto na cabeça que penso até que é o que me faz acordar, como se o despertador tivesse tocado e toca, mas não aquele que eu programei na noite anterior com esse propósito. Um outro, interior, a substituir-se àquele que seria espectável que cumprisse a função, mas que a delega ou outorga, em alternativa, entenda-se.

 

Durante vários anos instalou-se em mim, gostaria de dizer por opção, mas mentiria e por isso o não digo, a responsabilidade de ser dois. Foi como se cada um dos meus pensamentos, palavras, actos e omissões, tivesse um peso duplo que se pretendia uníssono e não contrário.

 

Para conseguir isto, ao menos bem, eu tinha de, antes de o passar cá para fora, de os pôr a conversar um com o outro e, depois de os escutar atentamente, servir de juiz imparcial ou isento. Eu, no meio deles, a gerir duas metades desiguais! Se se tratasse de heterónimos isto até podia ser, não me atrevo a dizer fácil, mas conciliável, agora quando se trata de papéis representados por pessoas de verdade, exige um esforço que se assemelha a estar em pleno campo de batalha, que é um constante exercício de ser e estar, em simultâneo, nos dois lados das trincheiras. 

 

Imaginemos uma peça de teatro em que o mesmo actor representa duas personagens. Por mais que a caracterização cénica seja genial e se esforce por fazer parecer que elas sejam duas pessoas, e por isso diferentes, os olhos do actor em palco são os mesmos e vêem, inevitavelmente, a mesma coisa. Ou seja, o esforço foi este: colocar-me sempre, durante o decorrer da peça, que foi longa, em duas perspectivas diferentes (e aqui não é pleonasmo) para que o visto não fosse o mesmo.

 

Às vezes o diálogo não era fácil, pô-los de acordo, conseguir que se ouvissem um ao outro sem se interromperem, sem se atropelarem, sem se sobreporem (parecem sinónimos, mas não são!) e gerir silêncios!

 

E no fim daquilo tudo, ponderar e tomar decisões que, às vezes, eram tão válidas essas como o seu contrário e ter a consciência ou a lucidez (aqui já como sinónimos) de que as consequências de umas e outras, sendo necessariamente diferentes, podiam chegar até a ser opostas! E a dúvida de qual escolher! A porcaria da liberdade sempre presente, esse conceito nobre que se nos cola à pele quando às vezes dava jeito que ela fosse mudando, como acontece às cobras, num intuito de renovação porque isto de ser sempre o mesmo também cansa!

 

Valeu-me, no meio disto tudo, uma coisa fantástica que todos temos e a que às vezes não damos a importância merecida: a intuição. Aquela coisa certeira que nos leva a dizer e a fazer coisas sem a gente saber muito bem porquê, mas que nos conduz, decididamente, à melhor forma de as dizer e de as fazer porque dá provas: funciona!

 

Sabe bem, no fim do espectáculo, que neste caso de que falo é a vida, retirarmo-nos para um longo, arrisco dizer merecido porque assim o sinto e deve por isso ser verdadeiro, descanso.

Relativamente às palmas, agradeço até que não as haja, para mais depressa se instalar o silêncio que, depois de um grande esforço de atenção, funciona como uma bênção! 

 

E, só para que não haja equívocos de entendimento, estou grata à vida por me ter oferecido esse desafio sem eu lho ter pedido. Entendo o gesto como um elogio: achou-me merecedora dele!

 

Mas arriscou, se não me conhecia bem, arriscou bastante! 

 

 

Cristina Pizarro 

17
Set20

Crónicas de assim dizer

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São uns atrás dos outros

 

Sempre tive uma sensação estranha, e por isso difícil de descrever, que é a de não pertença! A nenhum lugar, a nenhuma pessoa. Estou num sítio e vem-me à cabeça: eu não sou daqui! Ou porque cheguei tarde demais e já tinha acontecido o processo de inserção, a que não assisti, ou porque cheguei cedo demais e ainda não havia ninguém com quem interagir. Esta segunda hipótese é mais compatível com o desajuste. Mesmo que a partir daí começasse a chegar gente, não tinham assistido, da mesma forma que eu, ao fenómeno que é chegar a um planeta vazio e do nada começar a fazer coisas. Os que chegam depois começam logo a questionar tudo: o porquê dessas coisas e não outras, a razão do porque assim é quando podia ser de outra forma, … não lhes importa saber se melhor ou pior, querem diferente.

 

Começa o desconforto, começa a instalar-se uma sensação de estar a mais, de não ser dali, de não estar no sítio certo, embora não saibamos se ele existe ou que caminho percorrer para o encontrar ou até, porque não dizê-lo, se isso nos faz algum sentido. Normalmente não faz. Temos as nossas convicções, os nossos propósitos, a nossa lógica de raciocínio, a nossa conformidade com as coisas, a nossa razão da percepção delas, a nossa perspectiva, o nosso entendimento. Fazer o quê?

 

Como seres sociais, que dizem que somos, começamos a estabelecer laços com uma dificuldade gigantesca em desfazer primeiro os nós e aos bocadinhos, com muito cuidado e com muita atenção, vamos entrando devagarinho. Mas chega um ponto, porque não somos de perder tempo, que percebemos que o motor chega dos zero aos cem em poucos segundos e se a potência está lá, para quê andar a 60 na auto-estrada?!

 

Reagimos, perdemos a calma inicial, a que também se pode chamar paciência, e aceleramos o processo. Começam então a olhar para nós de lado e a fazer comentários do tipo: “Mas o que é que lhe deu?”

 

E, verdadeiramente, não nos deu nada! Nem sequer podemos dizer que acordámos, porque se há coisa que nunca fizemos foi dormir ou brincar em serviço, embora às vezes brinquemos no serviço. É saudável!

 

Começamos aqui a cometer um erro, que é o de dar explicações dos nossos actos porque, enfim, há pessoas que o merecem e de quem gostamos e incluímos nessas explicações, justificações para os nossos comportamentos e atitudes, porque nos parece que assim nos vão compreender e aceitar melhor. Segundo erro, porque funciona ao contrário. As pessoas entendem que se nos justificamos é porque não estamos convencidos de estar a fazer o melhor possível! Instala-se aqui, e já é a segunda vez, sim, um sentimento de desconforto que advém de acharmos uma injustiça que alguém nos julgue mal quando a intenção, a nossa, foi boa. Terceiro erro, incomodamo-nos com isso. Ao tomar consciência que provocámos nos que nos rodeiam uma certa desilusão, cuja responsabilidade não é minimamente nossa, mas só do cérebro onde essa expectativa nasceu, que a alimentou, que a fez crescer, que a levou a andar de baloiço, à pista dos carrinhos de choque, ao parque aquático, à praia, ao safari e por aí fora. Estávamos lá? Não. Então, que culpa pode haver?! 

 

No meio de tudo isto ainda há quem nos diga: “Percebeste mal os sinais!” Os óbvios, aqueles de quem bate à porta, mas não quer entrar ou de quem pergunta se temos um cigarro só para saber se temos. Claro que o sentido de humor é uma coisa belíssima, diria até imprescindível, mas no contexto adequado, com peso, conta e medida! É aqui que começamos a fazer alergia a coisas inespecíficas. Fazemos o teste. Alimentos, nada. Químicos, nada. Pólen, nada. Qual gramíneas, qual quê?! Ácaros, nada. Pó, nada. Mas a comichão não passa, os anti-histamínicos não fazem efeito, o banho de aveia ou lá o que é, acalma, mas passa logo.

 

Está na altura de iniciarmos a retirada. Dar lentamente, sem que se note, e isto é crucial no processo, um passo a trás, gradualmente, muito gradualmente. Descalçar antes os sapatos, se forem italianos e nos derem bom andar até podemos transportá-los na mão, mas se o caso não for esse é atirá-los fora, ao rio ou ao caixote do lixo. Não valem aqui as preocupações saudáveis do reciclar ou dar a quem precisa, ninguém calça os nossos sapatos! Nunca os deixar em sítio que se vejam, estas coisas feitas assim à toa dão sempre um aspecto de abandono ou desprezo, não nos fica nada bem. É aos bocadinhos que estas coisas se fazem, vamos saindo dali até estarmos tão distantes que mesmo com as coisas à nossa frente e coladas a nós, não as conseguimos ver.

 

Só para que não desanimem nem pensem que isto não é possível, eu já consegui. No outro dia fui ao psicólogo, assim para experimentar, e a despedida, já na porta, foi esta: “A Cristina tem as coisas à sua frente e não as vê!” Se ele não tivesse dito há dez minutos: "O nosso tempo acabou", eu tinha-lhe contado como me sentia bem por essa grande vitória!

 

Cristina Pizarro

 

 

 

09
Set20

Crónicas de assim dizer

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Conversa de malucos

 

Isto podia ser tão engraçado, cómico mesmo, daquelas anedotas que nos contam na adolescência, podia dizer na infância, mas não gosto de exagerar, e que aos 56 ainda nos estamos a rir delas!

 

Tínhamos, para isso, de não ter medo e ser completamente honestos. Duas coisas muito difíceis de conseguir. Disfarçamos que não temos a primeira e que somos a segunda, mas naqueles dias que, sabe-se lá porquê, acordamos transparentes, é-nos fácil ver a verdade. Ao pressentirmos uma qualquer presença ao nosso lado, viramo-nos na cama e lá está ela, a Verdade, com a cabeça na almofada, de olhos abertos, a olhar para o tecto e a pensar. Perguntamos:

 

- Estás a pensar em quê?

 

- Porque é que achas que estou a pensar?

 

- Sei lá, estás aí parada de olhos abertos e com eles fixos num ponto…

 

- Só estava à espera que acordasses!

 

- Para…

 

- Para te dizer que hoje vamos passear à beira rio.

 

- Para…

 

- Para veres como a água corre. É um exercício. Fixas um ponto da água e segues o ponto          até ao oceano.

 

- Mas isso não é possível!

 

- Porque…

 

- Porque o ponto da água que eu escolher não está isolado, desloca-se! Para eu o seguir, tinha que correr pela margem do rio, à mesma velocidade, para o poder acompanhar!

 

- Então tu sabes isso?!

 

- Toda a gente sabe! Mas surpreende-te que assim seja?

 

- Sim, porque o exercício era esse, tomar consciência disso! E a minha questão agora é outra: se toda a gente sabe, como dizes, porque o ignoram?

 

- …

 

- Sim, estás aí deitado, a estas horas, como se não houvesse nem presente nem amanhã!

 

- Não estou a perceber o que estás a dizer!

 

- Consegues imaginar, desde que ontem te deitaste, onde vai agora a tua gota de água, aquela que podias estar a seguir na corrente nestas últimas horas?! Está no mar imenso, diluída, dispersa, nunca mais será a tua gota de água, nunca mais a conseguirás identificar como sendo tua ou pertencendo-te! Misturou-se com as irmãs, perdeu-se, foi-se.

 

- Ouve lá, amanhã vamos fazer o contrário. Inverter papéis. Eu também sei propor exercícios!

 

- E então?

 

- Hoje á noite, quando te deitares, eu fico acordado a olhar para a tua gota de água, enquanto dormes, e quando acordares tens de adivinhar o ponto do oceano onde ela está! Se acertares, continuo a chamar-te Verdade, se não acertares, passo a chamar-te Fraude.

 

- É arriscado para ti, mas aceito. Como amiga, sugiro que, entretanto, arranjes um plano B.

 

Na manhã seguinte, ao pressentirmos uma qualquer presença ao nosso lado, virámo-nos na cama e lá estava ela, com a cabeça na almofada, de olhos abertos, a olhar para o tecto e a pensar, só que não era a Verdade, era a Cobardia!

 

Seguimos o plano B.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

02
Set20

Crónicas de assim dizer

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A face da Lua

 

 

Ontem à noite, diziam as notícias, ia estar uma Lua grande e Marte do mesmo tamanho. Olhei para ela fixamente e começou a desenhar-se nela o teu rosto meigo.  Ao princípio, era uma imagem pouco nítida, como aquelas que se vêem a grande distância ou ao perto sem os óculos. Mas depois olhei para o telescópio, olhei por ele e vi, francamente vi, os contornos do teu rosto naquelas crateras cinzentas, de repente com cor. A pele morena, os olhos escuros, o cabelo preto e bâton nos lábios. Falavas e eu conseguia ouvir-te. Como é que te foste lembrar daquelas coisas todas, assim, num só momento?

 

Sorri, sem responder. As tuas perguntas tinham respostas dentro, mas eram tardias e foi isto que me fez doer a alma! Dizem que não dói, mentem! Continuei em silêncio e a pensar se seria ou não capaz de transformar em realidade aquele sonho sentido. Pensei: que diferença há? O que distingue uma coisa da outra? Ter-te e sentir-te é assim tão diferente? Em quê?

 

O que faz sangrar por dentro é que da realidade acorda-se e do sonho não! E isto, que parece pouco, assim dito com esta leviandade que pretende ser leveza, mas não é, é talvez a única diferença nisto! Falta-nos o acreditar, o desejar não nos chega! E é com esta impossibilidade que não conseguimos lidar.

 

Sabemos, forma de dizer pouco correcta, desde que nascemos que nada é para sempre, mas enquanto a vida dura não há forma, aqui já correcta, de o saber! Vivemos na iminência e nem sempre temos consciência disto ou, verdadeiramente, nunca!

 

Mas ontem à noite, antes de perceber tudo isto, foi tão engraçado! Ainda não te disse, mas eu estava em Marte e assim ali ao lado uma da outra eu escutei com atenção todos os segredos que me contaste. Quer dizer, não foram bem segredos porque em nenhuma parte do teu discurso tu me pediste para eu não contar a ninguém. E digo-te que sempre achei graça a isto, porque nunca cheguei a perceber se fazias isso porque confiavas em mim ou porque te estavas perfeitamente nas tintas para o que eu fizesse com as tuas palavras! Sou mais desta opinião, querias tu lá saber! Estavas acima disso, como estavas acima de todos os contratempos que pela frente te surgissem. Mulher que nunca foi à guerra, mas que sempre esteve na frente de batalha. Que coisa poderia haver que te demovesse? Nada! Que problema poderia existir que não se resolvesse? Nenhum!  

 

Agora deu-me vontade de rir. Lembraste daquela vez em que eu te contei que o meu mundo tinha desabado e tu comentaste: “Sim, foi um pequeno deslize!” E o chão tinha abatido, caramba, a força da água tinha arrastado tudo, a tempestade não tinha encontrado obstáculos pela frente e estava a varrer-me os sonhos e eu a afogar-me e só via uma saída: fechar-lhe a porta de casa para que me não levasse mais nada do pouco que ainda me restava. E que fizeste tu? O contrário disso. Abriste-lhe a porta de casa e convidaste-a a entrar, querias sentá-la no sofá da sala e conversar com ela, para perceber os motivos e lhe demover os propósitos. Como é que uma coisa dessas te passou pela cabeça ser possível? Percebo hoje, porque acreditavas nas pessoas e no poder do querer.

 

E estavas certa, mas eu estava fraca, eu não tinha a tua força nem a tua convicção. Foi só por isso, nem mal nem bem.

 

E é estranho como isto se repete em todas as gerações e não conseguimos inverter o processo! Hoje sou eu que estou no teu lugar, a desempenhar o teu papel, que tenho a força que tu tinhas e a mesma convicção e que ao ver a tempestade a aproximar-se, lhe abro docemente a porta de casa, a convido a entrar e a sentar-se no sofá da sala para conversar com ela, para perceber os motivos e lhe demover os propósitos. E ela responde-me o mesmo que te respondeu a ti: “Obrigada, mas não!”

 

Queria-te contar isto, mas hoje já não estás. Para onde é que foste, caramba, se ainda ontem estavas aqui ao meu lado? Forma de dizer, à distância de uma pequena sucessão de lentes alinhadas dentro de um telescópio!

 

Desculpa estar outra vez a incomodar-te com esta conversa, mas, enquanto não me saíres do coração e da cabeça, isto vai estar sempre a acontecer.

 

Cristina Pizarro

 

26
Ago20

Crónicas de assim dizer

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Só bonecos

 

 

Éramos nove lá em casa. Cinco filhos, o pai e a mãe, a avó e a tia-avó. Os adultos tinham um quarto próprio, depois havia o quarto das raparigas, três, de paredes cor-de-rosa e o quarto dos rapazes, dois, de paredes azul. Também havia gatos e cães, mas esses dormiam na rua, pelo menos até se abrir de manhã a primeira das quatro portas que davam para a rua. Numa delas, no tapete, esperava, desde o nascer do dia, a Quica, a gata que tinha uma preferência absoluta pelo meu irmão mais novo e que entrava, sem que se notasse ou mesmo a notar-se por ter já conquistado a permissividade do dono, no primeiro abrir da porta. Ia ter ao quarto dele, à cama, e ali ficava até ele acordar.

 

Não sei muito bem o que se passou desde essa altura até agora. Tirando as décadas, do resto não tenho certezas.

 

A minha avó, que morreu aos seus 97 anos e que viveu sempre connosco, tinha a personalidade dos gatos, achava que nós é que vivíamos com ela. Dizia muitas vezes: “Se não fosse eu, vocês não existiam!” E, embora fosse verdade, era uma verdade que não acrescentava nada ou talvez só a ela. A nós deixava-nos em desconforto, como se tivéssemos uma dívida por pagar e fossemos uns ingratos. Calava-nos com aquilo. Ela sabia o efeito que isso nos provocava e utilizava-o em todas as situações em que estava farta de nos ouvir. Resultava sempre. Depois daquilo, emudecíamos.

 

Hoje acordei com uma memória dela que me fez sorrir! Sempre que via televisão e a apresentadora terminava o programa despedindo-se dos espectadores, dizendo: “Até amanhã”, a minha avó respondia: “Até amanhã, se Deus quiser”. Um dia, sabe-se lá porquê, resolvi explicar-lhe que nem todos os programas eram em directo, que, tirando o noticiário, nome que na altura se dava ao telejornal, a maioria deles eram transmitidos em diferido e expliquei-lhe o que isso queria dizer, que eram previamente gravados e que só uns dias ou semanas depois iam para o ar, forma de dizer, eram exibidos na televisão para nós vermos. E o comentário foi: “E eu a pensar que eles estavam mesmo ali e, afinal, são só bonecos!”

 

Hoje, ao transpor isto para a realidade, a desilusão é provavelmente a mesma que a minha avó sentiu naquela altura, a de que, afinal, nem tudo são directos!

 

As pessoas estão ali à nossa frente, no sofá da sala, na mesa ao jantar, na esplanada do café, na praia, no concerto, na cama e…  são só bonecos!

 

A gente declama um poema e dizem: “Cala-te lá com isso!”, mas depois o artista morre e as pessoas vão para “a feira das vaidades” e fazem-lhe uma “homenagem sentida”, porque fica bem. Chovem como estrelas, dezenas, centenas, milhares de gostos. Torna-se viral. Depois do que nos aconteceu, as pessoas ainda conseguem utilizar esta palavra como sendo uma coisa boa!

 

A gente canta uma canção e dizem: “Cala-te lá com isso, a esta hora da manhã, por amor de Deus!”, mas depois vão para o concerto ao vivo e soletram a letra toda que sabem de cor, porque fica bem.

 

A gente fala do livro que leu e dizem: “Esse, é um livro horrível, nem o consegui acabar!”, mas depois no clube de leitura tecem elevadíssimas considerações sobre a incrível ideia do escritor, porque fica bem. Nós até lhes tínhamos feito um resumo oral para mostrar que aquilo fazia sentido, mas nessa altura não fez nenhum! Como se o sentido das coisas dependesse de quem as diz e de quem está! Só bonecos!

 

A gente desgasta-se em esforços transcendentes para proporcionar ou fomentar uma alegre convivência entre pares, dar e tirar prazer daquilo porque, enfim, agora já somos adultos, conquistámos o direito, lícito ou ilícito, de ter um quarto próprio, como o tinham os adultos na casa da infância e pelos quais tínhamos um enorme respeito. Chegávamos a perguntar: “Posso ir ao seu quarto buscar…” , e as portas não tinham chave, caramba, mas pedíamos sempre licença para lá entrar, mesmo que lá não estivesse ninguém! Havia direitos e deveres e todos sabíamos muito bem quais eram, sem nunca nos terem sido lidos, eram-nos tacitamente incutidos e pacificamente por nós absorvidos, efeito esponja.

 

E é isto que eu agora não percebo, como é que eu encontro pessoas na minha vida, certamente com uma educação diferente, tem de haver uma explicação para isto, que me entram pelo “quarto” adentro, cheias de direitos, sem nenhum dever e desatam a dizer-me o que é que eu tenho que fazer, o que é que eu devo fazer, o que é minha obrigação fazer, o que esperam que eu faça e eu fico completamente sem reacção! Claro que depois, quando as pessoas sérias me perguntam: “Mas como é que tu permites…” , eu acho-me um bocado estúpida, porque era facílimo ter fechado a porta à chave, só que nunca me passou pela cabeça que isso fosse preciso, por uma razão muito simples que já contei: na casa dos 5 quartos não havia chaves, e nunca faltou o respeito de uns pelos outros!

 

Voltando à ideia inicial, a minha avó é que tinha razão: “E eu a pensar que eles estavam mesmo ali e, afinal, são só bonecos!”

 

E atenção que eu aprecio muito os bons actores, eu só lido mal é quando eles faltam aos ensaios e depois se apresentam em público nestas circunstâncias, convencidos de que decoraram bem o texto.  Às vezes faço de conta que não estou atenta, quando não me quero aborrecer e escolho ter paz. Mas há vezes em que decido cruzar os braços e concentrar-me na peça, olhos nos olhos, e aí cai-lhes tudo ao chão. É quando depois me retiro sem bater palmas. Não gostam, acham-me estranha e eu só não sou é parva!

 

Cristina Pizarro

 

19
Ago20

Crónicas de assim dizer

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A Astronomia em balão

 

Andava há que tempos à procura da ordem do mundo ou à procura da ordem no mundo, da lógica das coisas ou da lógica nas coisas. Uma espécie de nostalgia que me tolhia por dentro, como se fosse imperativo que houvesse um sentindo nas coisas, como se tudo fosse uma dedução de uma fórmula matemática a que nos obrigavam no liceu aqueles bons professores que diziam que o importante era perceber e não decorar: “Têm de saber deduzir as fórmulas!” E nós, ávidos de conhecimento e sabedoria, a achar que aquela atitude fazia todo o sentido.

 

Fomos andando e crescendo assim, à procura, sempre à procura, e quanto mais andávamos e crescíamos mais procurávamos e mais os pés se nos enterravam na areia. Areias movediças, correntes fortíssimas, a maré a subir cada vez mais e nós num esforço inglório de atingir a outra margem, porque era lá que estava o mar e nós éramos de grandes objectivos, de grandes sonhos, de grandes destinos, de grandes metas. E o nosso corpo debatia-se, em vão, contra aquilo que nos pareciam demónios e que não passavam de fenómenos naturais, bem estudados e previsíveis.

 

Foi quando começámos a perceber que nos podia acontecer o improvável, por uma razão simples, só porque era possível, só porque isso estava na sua própria definição, porque o improvável nada exclui. É só estatística caramba, noções básicas! E nós ali, no meio do rio, com as teorias todas na cabeça, da física, da matemática, até da química, pois que de repente os nossos músculos começaram a tremer, os dos braços e os das pernas, e nós confundidos e baralhados sem perceber se aquilo era a adrenalina, se um choque hipoglicémico, se o efeito dos ácidos produzidos pelo metabolismo acelerado ou interrompido dos alimentos recentemente ingeridos! Sim, tínhamos acabado de almoçar quando nos metemos a atravessar o rio a pé, na maré vaza. Uma coisa tão fácil, tão simples, que se consegue sem qualquer esforço, quando não se pensa. Era atravessar daqui para ali, qual era a dificuldade?

 

Faço um intervalo. Veio-me aqui à cabeça aquela pergunta que às vezes me fazem à chegada, e que não sei bem classificar, quando vou ao encontro marcado, por um percurso feito dezenas de vezes: “Para onde é que foi desta vez? Chegou direitinha aqui?” É um facto que me perco muitas vezes, repetidas vezes, infinitas vezes; porque nunca vou com atenção ao percurso. Aproveito sempre as viagens para escrever mentalmente, não leio as placas, ler e escrever ao mesmo tempo, com a mesma atenção, é difícil. Quando me aparece a saída da auto-estrada, à velocidade a que vou, não dá tempo para sair sem pisar o traço contínuo. Acabo por percorrer, muitas vezes, o dobro da distância, às vezes até me questiono se não vou em sentido inverso! Mas, se ao chegar finalmente ao destino me pusessem um papel à frente, saía-me de jacto a crónica da próxima semana. Claro que sim, agora com o GPS, este problema está ultrapassado.

 

Voltando à travessia, foi preciso estar no meio de um rio para perceber que a única coisa que temos na vida, como certa, é a corda de um barco ancorado.

 

Andamos aqui a preencher vazios como quem enche balões. Metemos-lhes ar a mais e eles depois rebentam e é só estilhaços! Um fogo de artifício no Céu da noite, no Céu à noite, com uma luz tão forte que encandeia, que não permite que se veja mais nada à sua volta a não ser aquela luz gigante, que transborda. E vem outra vez o vazio e nós voltamos a encher balões! Numa altura destas ainda andamos às voltas com o Mito de Sísifo! Pensamos nisto e achamos imperdoável. Que continuemos às apalpadelas, tentativa e erro, com experiências não científicas! Subir e descer, num eterno cansaço, sem nunca lá chegar! Começa a nostalgia.

 

Não é por acaso que encontramos, nesse dia, uma criança de 7 anos a quem perguntamos: Gostaste de me conhecer? (Estas perguntas não se fazem a ninguém, muito menos a uma criança de 7 anos, porque é o ego a falar por nós e o que deveríamos fazer, nestas alturas, era tapar-lhe a boca!) E quando ela responde, encolhendo os ombros, sem tirar os olhos do jogo do telemóvel, nós pedimos: Explica-te melhor! E ela, desta vez, verbaliza: “Era (só) menos uma pessoa que conhecia”. Aqui já não nos apetece dizer explica-te melhor, porque aquilo nos parece uma verdade absoluta. Lemos o “só” na frase, mas ele não foi dito, fomos nós que o pusemos lá (o superego a falar por nós, ninguém sossega estes gajos!) com uma carga negativa, que provavelmente a criança não colocou. O significado era talvez; “Que diferença é que isso faz? Uma pessoa a mais, uma a menos... é sempre de uma pessoa que se trata, não mais do que isso”! E nós ficamos a pensar naquilo, porque para alguns de nós as pessoas representam todas um mundo, um planeta inteiro com satélites em órbita, sejam eles naturais ou artificiais, num Sistema Solar, dentro de um Universo infinito e o que aquela criança nos estava a dizer, sem ter dito, foi: “Tu não percebes nada de Astronomia”! E não.

 

Estava nestas conjecturas quando me apareceu no telemóvel uma notícia, daquelas que nos aparecem por causa do histórico, que falava num alarme, uma espécie de sensor, para o limite de ar no enchimento de balões. Abri a notícia, li-a, instalei a aplicação e... 5 estrelas, nunca mais me rebentaram nas mãos, nem nos dias de festa nem nos outros!

 

Cristina Pizarro

 

12
Ago20

Crónicas de assim dizer

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O Papão

 

O papão andava atrás de mim, insistia em me mostrar coisas que eu não queria ver e em me ensinar coisas que eu não queria aprender. O que tenho chega-me, não quero nem preciso de mais nada. Mas ele, mais do que decidiu, determinou, que me havia de agarrar pela roupa no pescoço e arrastar-me numa visita guiada pela desordem do mundo. E quanto mais eu lhe dizia que não, mais ele insistia que sim. Alegava motivos, justificações, razões, virava do avesso as minhas premissas para tirar conclusões absurdas e apoiava a falta de lógica do seu raciocínio na minha clareza dele.

 

Parecia um filme sem som a preto e branco, onde eu teimava pôr alguma cor, não por teimosia, mas para mais depressa chegar ao fim do percurso e transformar numa curta metragem o que parecia uma eternidade. E o papão não largava o pau que lhe servia para tudo. Parecia um ex-militar, amputado, no pós-guerra. Uma granada tinha-lhe rebentado acidentalmente nas mãos e agora, só com a esquerda, tinha na direita a merda do pau com que acendia e apagava as luzes, com que se orientava e desorientava à luz do dia e pela noite adentro. E batia com aquilo no chão três vezes seguidas para se fazer notar e de cada vez que o fazia eu ouvia o Mostrengo que “… na noite de breu ergueu-se a voar… e disse: quem é que ousou entrar nas minhas cavernas que não desvendo?”

 

E eu que estava ali só por acaso, a achar que tinha, mais que o direito, o dever de libertar as correntes, porque Deus nos tinha criado homens livres, a sacudir o corpo, a apostar que o cadeado se ia libertar mesmo sem eu ter a chave, mas só porque queria muito, e quanto mais abanava o corpo mais os fios se emaranhavam à volta dos meus braços e o papão, obstinado, continuava, ignorando o sangue que começava a escorrer. Foi aqui que eu comecei a perceber que o filme era mesmo e só a preto e branco e que me encontrava numa rua sem saída, que estreitava a cada passo dado e que as paredes laterais iriam acabar por me amputar os braços de tanto nelas raspar, se eu não parasse a tempo ou não detivesse o papão que vinha na minha direcção de braços abertos.

 

Foi quando se deu o milagre: alguém dentro de mim começou a cantar uma canção de embalar, exactamente como aquelas que a nossa mãe nos cantava na infância, com uma voz tão terna, tão meiga, tão doce, que o militar da mão direita amputada começou a amolecer, a entrar num sono ou numa dormência ligeira e aos bocadinhos, step by step, caíram-se-lhe as pálpebras, encerrando a desordem do mundo e rolou pelo chão.

 

Podia-me ter dado para fugir, mas pensei que nunca se deve virar as costas a um papão, mesmo que ele esteja a dormir, porque pode de repente acordar, enfiar-nos a curva da bengala na roupa do pescoço e desatar a fazer-nos uma visita guiada pela desordem do mundo.

 

Comecei então a recuar pelo beco por onde tinha entrado, a única saída possível, porque cavar túneis nas paredes laterais ia acordar o papão que agora já estava a sonhar, provavelmente com paraísos tropicais pois que esboçava, no seu rosto negro, um ligeiro sorriso.

 

E quando as minhas costas bateram na porta da entrada, eu que não sou crente, ergui os olhos e as mãos para o céu e agradeci, humildemente agradeci a Deus. Deixei de ouvir o canto de embalar, o que significava que o papão estava longe o suficiente para me não voltar a puxar a roupa do pescoço e, muito sinceramente, se eu fosse de chorar, nesse momento tinha-me derramado em lágrimas.

 

O que nos vale é que não temos medo, ficamos só esquisitos! “Aqui ao leme sou mais do que eu...” continuava o poema de Fernando Pessoa.               

 

Cristina Pizarro

 

 

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