Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Ago19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

Viver sem

 

As pessoas têm todas um sonho, lutam por ele, choram por ele, algumas são capazes de viver só por ele, outras são até capazes de morrer por ele.

 

Há aquelas que têm sonhos pequenos e são felizes, porque o sonho está sempre ao seu alcance, têm-no na mira telescópica de pequenas armas, de fabrico artesanal, construídas à medida do sonho que têm.

 

Depois há aquelas que têm sonhos grandes e que têm dinheiro para os comprar, que trabalham como bestas para poderem, progressivamente, ter sonhos cada vez maiores. São sonhos que ocupam muito tempo e espaço: é preciso uma casa grande para os guardar, uma garagem enorme, arrecadações na cave, capacete anti-choque, equipamento de mergulho, um reboque, sinalização especial... é quase preciso ter um rio à porta e um ancoradouro! Estas pessoas também são felizes! Embora não tenham tempo para viver, têm uma coisa fundamental e determinante: um objectivo de vida, uma meta. Se no fim do mês o saldo bancário proposto é atingido, sentem-se realizadas. Fazem normalmente contas de cabeça, em que predominam as de somar. Quanto maior é o número em resultado final, mais felizes são.

 

Depois há os pobres coitados, que vivem no mundo da lua, normalmente mostrando desprezo pelo dinheiro e revolta por não conseguirem viver sem ele. Com a consciência burguesa de que sem ele nada fazem, porque dele dependem para as suas necessidades mais básicas, que de dia para dia ficam menos básicas, porque não são parvos, não é, e habituam-se depressa ao que é bom. Ao que lhes facilita a vida e se não se põem a pau acabam como os outros. E estes são normalmente uns infelizes, portadores de sonhos artísticos, que acreditam que os sonhos que realmente valem a pena são os ideais, aqueles que arrastam anos seguidos aos ombros, que carregam consigo desde tenra idade e, porque são teimosos como burros, cismam que os hão-de realizar e chegam, os mais idealistas e obstinados, a acreditar que se não for nesta vida é na outra e perseguem o sonho como a PJ à procura de escândalo público com contornos privados, que deixam de o ser mal saltam para as páginas de jornal. São farrapos humanos, normalmente com pena de si próprios, que acabam em psiquiatria com diagnósticos pouco claros de “doença mental mal-esclarecida ou idiopática” ou “síndrome atípico crónico”, os medicados, isto é, as minorias, porque os outros andam por aí a infernizar a vida dos outros, a quebrar espelhos com frequência, por causa da falta de auto-estima e outras palavras mais que nunca lhes ensinaram em crianças que existiam, porque eram palavras que não vinham nos dicionários da altura! Coisas que só mais tarde se haveriam de inventar, enfim, com o evoluir da sociedade de consumo e com o aparecimento dos hipermercados com aquelas prateleiras a lembrarem-nos constantemente que nunca temos o suficiente. E arrastam-se então, estes últimos, com os bolsos a transbordar de sonhos, que não vivem, da mesma forma que os outros, porque por mais que façam estão sempre aquém do sonho. Sempre o sonho a anos-luz. Vivem também com um objectivo, mas objectivamente não fazem nada por ele. Esperam que lhes caia do céu um meteorito cheio de planos de acção, com caminhos traçados por onde só é preciso seguir, tipo carro elétrico. São os mais infelizes de todos, porque exigem tudo de si, incluindo a perfeição. Quanto mais têm, mais querem. E enquanto os outros são assim, mas em relação a coisas materiais, coisas que se podem conseguir facilmente com trabalho e dinheiro, estes não. Disfarçados de objectivos nobres, de sentimentos sublimes, de grau de inteligência elevado, de discernimento acima da média, de lucidez invulgar, de sentido de humor próprio, de presença de espírito, de raciocínio lógico, de interpretação acutilante, de sensibilidade extraordinária… têm uma vida de merda, porque querem o impossível: mudar a ordem do mundo, as leis da física e da matemática, as marés, as orbitas planetárias… o universo em geral!

 

E é para isto que servem os sonhos, grandes e pequenos! Quando, na verdade, all we need is less!

 

Cristina Pizarro

 

07
Ago19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

O euromilhões

 

Era uma vez um menino que jogava todas as semanas no euromilhões, mas não queria que lhe saísse o prémio! Todas as semanas participava naquilo a que podemos chamar a única oportunidade que a vida lhe dava de a mudar e se, em consciência, esse fosse o seu desejo mais recôndito, tinha imensa dificuldade em o visualizar, se dessa oportunidade dispusesse! Coisas de seres humanos, de animais racionais que ninguém nos há-de conseguir explicar e que nunca havemos de entender, por mais que as coisas pareçam óbvias. Lá está, óbvias para uns, incongruentes para outros.

 

Às vezes, quando ia verificar a chave, elaborava uma lista, mentalmente falando, das coisas que faria a par de outras que não faria, porque tinha esta coisa estranha da necessidade de ter sempre um balanço que antecede a tomada de decisão, que não é imprescindível para se tomar a mais acertada, mas que no caso dele achava que sim. Manias, temos todos. Achamos que as dos outros são piores que as nossas só porque estamos na nossa pele e não na deles. Também se compreende. Aliás, compreende-se tudo, o que, não raras vezes, nos remete para situações delicadas e de difícil resolução porque seria sempre mais eficaz dizer: não compreendo! E uma coisa tão simples como esta, que finalizaria qualquer discussão infértil e qualquer conflito sem solução, esquecemo-nos dela no exacto momento em que a devíamos ter presente. Tolos, genuinamente tolos e mal preparados para a vida.

 

Muito menos o estamos para a morte, mas aí ela vem sem qualquer apelo e está-se nas tintas para o que nós pensamos ou deixamos de pensar. Chega, dá a notícia e vira costas!

E nós ficamos com um vazio enorme e voltamo-nos para o seu oposto, a vida, tentando salvar dela o que ainda podemos. E às vezes não podemos grande coisa, mas iludimo-nos, cheios de convicções e desatamos a acreditar em Deus quando antes não, ou a desacreditá-lo quando até tínhamos fé! Porque é que isto acontece? Porque desesperadamente queremos uma mudança na nossa vida e achamos que ela começa, ou pode começar, agora! Outra vez seres humanos, animais racionais e outras coisas que tais. A ladainha do costume!

 

Mas o menino do eurominhões ia então saber a chave e olhava fixamente para a máquina que lhe daria o prémio e onde punha toda a sua expectativa no 0€! Um dia saiu-lhe mesmo o prémio, enfim, dizem que quem anda à chuva molha-se, e ele meteu os pés pelas mãos, que era engano, que o papel que tinha nas mãos não era dele, que não era bem isso que queria, que não tinha a certeza, que precisava de um tempo, que os sonhos que tinha não eram bem os sonhos que tinha, porque embora os tivesse de verdade, não eram dele, assim como o papel com os números certeiros e por aí fora!

 

E o senhor do café a explicar-lhe que nunca lhe tinha acontecido uma coisa dessas e que agora tinha um problema sério para resolver, porque era honesto e não podia ficar com o prémio! Também não o podia dar a mais ninguém porque não era Deus para distribuir riqueza e que só via uma solução: rasgar o papel! E, em segundos, o menino rasga o papel!

 

O estranho é que ficou com uma cara tão desolada e visivelmente tão transtornado que o senhor do café, que para além de honesto era boa pessoa, dirigiu-se à prateleira atrás do balcão, pegou num rebuçado de mentol e deu-lho: para não ficar tão triste!

 

Cristina Pizarro

 

31
Jul19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

Era uma vez dois ouriços

 

A fêmea parecia ter uma delecção no cromossoma que codificava a carapaça, uma vez que não tinha, a bem dizer, espinho nenhum. Quando conheceu o ouriço, aparentemente normal, achou um exagero aquela quantidade de espinhos, mais de seis mil, que ele tinha espetados no dorso, dirigidos contra tudo e todos e aos poucos, com muito cuidado, mas nem sempre devagarinho, foi amolecendo um aqui, outro ali a ver se aquilo ficava um bocadinho mais suave, a ponto de ela se poder encostar sem se magoar e sem o ouriço achar que ela estava, sem respeito nenhum, a invadir o território dele.

 

Um dia ainda experimentou, na brincadeira, dizer-lhe: tu pareces um exército, mas não tinha resultado muito bem, porque embora sem ele o ter dito, a ouriça leu-lhe os pensamentos, que diziam: “e tu és careca!” (O ouriço pensava mais do que dizia e a ouriça dizia mais do que pensava!)

 

Aliás, esta característica da ouriça adivinhar, leia-se ler, pensamentos, que aparentemente seria uma vantagem, em circunstâncias normais e para um ouriço comum, tinha-se tornado numa fonte de problemas. O ouriço, este, que era especial, não gostava. E os motivos nem sempre eram óbvios, o que fazia a ouriça entrar em transe, porque recorria constantemente ao baú do raciocínio lógico, pouco operante nestes casos!

 

Tinha um discurso eloquente cujo primeiro ouvinte era o próprio e não achava graça nenhuma a que a ouriça o interrompesse, dizendo-lhe o que já sabia ou julgava saber. Era aqui que o ouriço hibernava por tempo indeterminado. A temperatura corporal descia de 35 para 9 graus centígrados e o ritmo cardíaco passava de 190 para 20 batimentos por minuto. Gélido!

 

Estas e outras coisas originaram uma alteração genética muito rara, mas que pode acontecer em condições desfavoráveis ou por pressão do meio ambiente: foi inactivada uma proteína repressora do gene que codificava os espinhos e eis que, lenta e gradualmente, começaram a aparecer na ouriça, primeiro uma pelugem inofensiva e depois (aqui e ali) uns espinhos de queratina, de cuja manifestação fenotípica o ouriço também não gostava. Lidava bem com a outra, genotípica, igual à dele, mas a implicação dela no comportamento da ouriça já não era pacífico, aproximando-se muito mais de um atlântico, tal era a temperatura das águas! Não estava a funcionar!

 

Começou então um conflito entre os espinhos rijos, há muito tempo nascidos, e os agora recém-criados, que se engalfinhavam por dá cá aquela palha, que é como quem diz por tudo e por nada, com atribuições de culpa pouco claras e pouco sérias, com consequências desagradáveis e nada confortáveis.

 

Então a ouriça, que tinha vivido tantos anos careca e bem, na tentativa de resolver o problema, foi à depilação. Vencidas todas as contrariedades de um bicho destes ter sido aceite num gabinete de estética para humanos, a experiência não resultou: os pêlos, digo espinhos, voltaram a crescer. E embora o problema da reincidência fosse um falso problema, porque a ouriça podia lá voltar uma e outra vez, a mesma achou que aquilo dava uma trabalheira tão grande, dos diabos mesmo, que a ouriça optou por deixar estar.

 

Há problemas, mesmo grandes, que se resolvem assim: deixando estar. E o engraçado foi o que aconteceu depois. Os espinhos do ouriço deixaram de ser desconfortáveis para a ouriça. Não se percebeu se amoleceram, se desapareceram ou o que foi que lhes deu! Na realidade, deixaram de estar, pura e simplesmente deixaram de estar, pelo simples facto de que a ouriça deixou de os ver! Acontece o mesmo com as flechas disparadas que não atingem o alvo porque ele deixou de lá estar! Ninguém se magoa, acaba tudo em bem, à filme americano, mas com actores franceses. Dá que pensar.

 

Cristina Pizarro

 

PS: Correctamente escrevendo, o termo “ouriça” não existe. O termo correcto é ouriço fêmea, mas achei piada ao “ouriça”! É fofinho, e como é ficção… deixo estar!

 

 

 

24
Jul19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

Em debate

 

 

Estão todos a falar, de repente começaram todos a falar, ao mesmo tempo, sobrepondo as vozes, as vezes, os gritos, alguns o choro, outros o riso, até a gargalhada!

 

Manifestam-se todos da forma que sabem, da que não sabem e inventaram agora, da que já tinham esquecido que sabiam; mas que ainda sabiam, e da que ainda não tinham descoberto que sabiam e descobriram agora. Tudo em simultâneo. Levantam-se, sentam-se, põem-se de pé em cima das cadeiras, das mesas, penduram-se no tecto, agarram-se aos candeeiros, dão saltros, cambalhotas, fazem o pino.

 

Debatem, aparentemente debatem ideias, pressupostos, conceitos de ética, moral, respeito e honestidade, intenções lícitas e ilícitas, com legitimidade e sem ela. De repente alguém sobressai ou impõe-se e diz: nada disto faz sentido, temos de voltar ao início. E voltam ao início. Começam outra vez todos a falar, ao mesmo tempo, sobrepondo as vozes, as vezes, os gritos, alguns o choro, outros o riso, até a gargalhada!

 

Eu, supostamente a moderadora daquele debate, chamemos-lhe assim à falta de melhor palavra, não sabia o que dizer nem a quem dar a palavra:

 

- o sangue, falava por si;

 

- a alma, clara e inequívoca;

 

- o ego, fortíssimo;

 

- o superego, indeciso e confuso;

 

- o alterego, ditador e dono da verdade;

 

- o consciente, reincidente no seu raciocínio lógico e

 

- o inconsciente, o único que eu achava intimamente que devia falar e a quem daria a palavra em primeiro lugar, dormia profundamente com um sorriso nos lábios a sonhar com a intuição!

 

Era pecado acordá-lo para uma realidade infértil! Saí devagarinho, sem ninguém notar, e deixei-os todos a falar, não uns com os outros, mas sozinhos. A única coisa que me poderia interessar de toda aquela discussão era a conclusão e essa não estava em debate.

 

É claro que, antes disso, peguei no inconsciente ao colo e levei-o para casa, com muito cuidado para o não despertar. Deitei-o na minha cama, vesti aquela camisa de dormir de seda branca e afastei-me o suficiente para que ele nem sequer sentisse o meu respirar.

 

O inconsciente não estava a dormir, disse-me depois, quando já tinha entrado num sono profundo e explicou-me, em poucas palavras, porque tinha fingido! Dei uma gargalhada, de tão óbvio que era e eu, pateta, sem ter percebido; mas a acreditar que só isso fazia sentido!

 

No dia seguinte, se houvesse debate, que estas coisas não se repetem, ter-lhe-ia dado a palavra. Mesmo que ele dormisse profundamente, tê-lo-ia acordado!

 

Cristina Pizarro

 

 

 

19
Dez18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

A história do futuro

 

 

Era uma vez... Talvez seja esta, de todas as pequenas frases, a que mais diz! Mas não o afirmo! Poderia parecer, a alguns de nós com personalidade mais redutora, uma convicção de que vivemos no passado! Assim, digamos antes: há-de ser uma vez... pode ser hoje, amanhã ou depois! Pode ser num futuro próximo ou longínquo e pode ser antes, porque não, num passado próximo ou longínquo! Esta coisa do tempo não se sabe muito bem em que sentido é contado, se para a frente se para trás!

 

Comecemos então, como se toda a história tivesse obrigatoriamente um começo. Era ou foi uma vez... e rapidamente nos apercebemos da traição da memória: o que foi para mim, foi para ti? Do que tu te lembras coincide com aquilo de que eu me lembro? Onde está a verdade? O passado não pode ter sido diferente para as duas pessoas que o partilharam, ou pode? Rectifiquemos, temos de sair daqui se queremos chegar a algum lado e nós queremos!

 

Há-de ser uma vez... façamos o exercício como se estivéssemos numa aula da escola primária. A professora diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A professora não tem paciência para perguntas primárias.

 

Rectifiquemos novamente. Façamos de conta que estamos numa aula do ensino secundário. A professora diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A professora não tem paciência para perguntas secundárias.

 

Rectifiquemos novamente. Façamos de conta que estamos numa aula do ensino superior. A professora diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A professora não tem paciência para perguntas superiores.

 

Rectifiquemos novamente. Façamos de conta que estamos numa aula de doutoramento. A professora diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A professora não tem paciência para perguntas doutorais.

 

O que é que fazemos? Façamos de conta que estamos em casa, em família! A família tem paciência para quase tudo! Se não tem, tem de arranjar. A nossa mãe diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A nossa mãe não tem paciência para as perguntas do filho!

 

Rectifiquemos. A nossa avó diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A nossa avó não tem paciência para as perguntas do neto.

 

Rectifiquemos: alguém tem paciência para as questões do futuro? Se sobre estas não, como ficou provado, as outras interessam?

 

Mudemos o tema: sobre motivação, alguém quer dizer alguma coisa? É preciso um enquadramento: escola ou família? Qual o nível de ensino, quem de entre a família?

 

Mudemos de assunto. A história da carochinha, falava sobre o quê? Emancipação da mulher! Arrisca alguém. Como, se a mulher procura alguém, de entre os homens, que sirva para pai dos seus filhos e não para companheiro dela?

 

Afinal não era sobre a emancipação da mulher! Era sobre maternidade. Mas quando a mulher tem dúvidas sobre se deixou ou não o fogão ligado, quem manda para confirmar? Em uníssono respondem: o João Ratão! E, já agora, enquanto varria a cozinha e encontrou 5 tostões, em que é que ela investiu o dinheiro? Em fitas e laços para o cabelo. Então o tema era a prostituição? Os alunos não compreendem a arrogância da professora, já estávamos na escola outra vez, e há um que pergunta: e se escrevêssemos uma história sobre o futuro? A começar assim: há-de ser uma vez... e a professora anui: que boa ideia a sua!

 

Cristina Pizarro

 

12
Dez18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

Poeira cósmica



 

Custa a dizer, mas todas as pessoas, de alguma forma, se prostituem. Seja por dinheiro, por amor ou por outra coisa qualquer. A linha que as separa, ao contrário do que possa parecer, é muito ténue! É sempre um jogo de interesses o que está em causa. Podemos dar-lhe contornos especiais à medida do que queremos provar, a nós ou à sociedade, mas é uma característica do ser humano: vender-se! Vende-se diariamente por trabalho, achando que o acto é tanto mais digno quanto mais alto for o preço por que é remunerado ou compensado. Depende das leis do mercado, da oferta e da procura.

A dignidade do ser humano está muito longe de ser isto.

 

A estrutura mantém-se e sobrevive, porque serve o objectivo e o objectivo atinge-se: manter uma família nos limites da sobrevivência. Nas camadas sociais cujo critério de catálogo é um pouco mais elevado, existe o conceito de felicidade, definido como o bem-estar dos intervenientes, físico, psíquico e social.

 

A subjectividade subjacente a tudo isto entra em confronto directo com o que cada um pensa: o que é bom para ti pode ser mau para mim! Quem se importa? Agimos, reagimos e interagimos! Tudo no mesmo saco. Compatibilizamos coisas incompatíveis e chamamos-lhe criatividade, quando muitas vezes estamos a falar é de estupidez!

 

Atingimos então o limiar de conceitos como o respeito pelo outro e a dignidade por nós mesmos, onde damos sempre relevância ao último. Quem paga mais? A nossa vida não passa de um leilão em praça pública! Ninguém se compadece!

Há uma base de licitação, que é estabelecida discretamente pelo próprio e que é calculada tendo por base a questão: compensa mais do que estar sozinho?

E o ser humano não se apercebe de que a pergunta que acabou de fazer está viciada: qualquer coisa compensa mais do que isso, porque ninguém nos ensinou a ser sozinhos. Os mercados individuais entram em crash, devido à especulação que os precedeu. Era previsível se estivéssemos atentos, mas nesta corrida desenfreada por ser o melhor, perdemos a noção das etapas com índices individuais de avaliação que não se somam, mas que se multiplicam.

 

Começam então a aflorar na nossa cabeça as perguntas tolas, como se de repente começasse a Primavera: do que depende a minha vida? Quem é que eu quero ao meu lado, quando a morte vier, para me fechar os olhos? Podia ter feito mais? Foi digna a minha atitude quando rejeitei o que me era oferecido em dádiva? Fui honesto quando disse o que disse e não senti nenhuma das palavras? E porque o fiz? Quem está em mim que me domina? Porque digo não quando quero sim e sim quando não me importo? Que raio de consciência é a minha que me permite no dia-a-dia ignorar questões fundamentais, adiar sentimentos, sejam eles quais forem, e alimentar-me como um animal? Onde é que eu vou arranjar lucidez bastante para tomar por finito o que me parece eterno, quando o Universo que é imenso, poderá ser finito e eu comparado com ele sou um minúsculo crepúsculo feito de vento mais que sentimento, uma poeira cósmica que se dissipará sem que ninguém note?

Haverá alguém que pense nisto, capaz de me convencer que o nada existe para eu poder acreditar no resto?

 

E apesar de todas as minhas dúvidas e de todas as minhas certezas, a Terra move-se sempre na órbita que lhe foi prevista, mais coisa menos coisa, e não faz o mínimo desvio!

Percebo-a, mas não a compreendo! Se o fizesse por nossa causa resolvia o nosso problema e instalar-se-ia a desordem universal! Não lhe compensa! As leis do mercado também regem planetas, estrelas e galáxias! Mas experimentou fazer diferente, avaliou o impacto? O que temos é o resultado disso ou o produto de o não fazer?

 

Com esperança e sem amargura nenhuma: será que, como empresa em nome individual, não temos alternativa a essas grandes correntes, comerciais, financeiras, políticas, filosóficas, religiosas, éticas, morais, nem mesmo se começarmos hoje? E se quiséssemos? Dizem que...

 

 

 

Cristina Pizarro

05
Dez18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

Como eu me propus a educar deus e falhei

 

Em termos gerais, digamos que nesta idade, quando tropeçamos em deus e de repente Ele nos aparece à frente, só agora, quando teve a vida toda para o fazer e nunca o fez, e sabe Deus como às vezes era mesmo preciso para continuar, a nossa primeira tendência, em termos de atitude, porque a vida também já se encarregou de nos dizer que certos registos de comportamento em que teimamos insistir e não é pleonasmo literário porque o uso no sentido de reforçar a teimosia, ao limite, que às vezes temos, dizia, a nossa primeira tendência é agradar-Lhe e fazêmo-lo por vários razões: uma delas é porque Lhe reconhecemos, sabe-se lá porquê, alguma superioridade, ao menos em determinados aspectos, depois porque nos convencemos que Ele tem qualquer coisa para nos ensinar e adoptamos aquela atitude de professor e aluno: calamos quando não concordamos com Ele, fazemos que não ouvimos quando Ele divaga e começa o seu discurso do Eu, remetendo-nos, a nós, para a nossa insignificância de seres apenas humanos e quando Ele chega ao ponto, porque Ele chega com frequência a esse ponto, de se achar único e com direito a tudo, e deveres em nada, ignorando e desprezando os sentimentos que eventualmente tenhamos em relação ao que Ele nos diz, nós baixamos a cabeça!

 

Mas de repente começamos, com naturalidade, por causa daquela capacidade que temos de nos indignar e que é saudável pela característica peculiar que alguns de nós têm do espírito ou capacidade crítica, a perceber que talvez tenhamos escolha à imposição de que Ele nos quer ver reféns e de que se sente com absoluto direiro: “é assim que eu quero que faças” ou “eu não gosto disto em ti e por isso, se queres continuar a frequentar a minha igreja, vais ter de mudar, independentemente de gostares ou não, independentemente de sofreres ou não com isso, independentemente de seres ou não capaz. Eu não gosto! Eu não quero!”

 

Neste ponto começa a trabalhar em nós uma coisa que nem sempre sabemos que temos e aqui depende de sermos homens ou mulheres, porque uns temos umas e outros têm outras: as hormonas, chamemos-lhe assim só porque temos de lhe chamar alguma coisa e para que possamos avançar nesta exposição em que, arrisco dizer, o nome que damos às coisas não tem assim tanta importância, desde que a gente se entenda e se fixe mais no sentido que queremos dar às palavras do que noutra coisa qualquer. Ja percebemos, nesta altura da vida, que a questão da nomenclatura passa imediatamente para segundo plano quando temos em mãos coisas muito mais importantes como o entender das coisas.

 

Começamos então, nesta fase em que agora estamos, a equacionar diferentes formas de nos relacionarmos com Ele porque, apesar de tudo, e nós temos consciencia disso, nós queremos continuar a relacionar-nos com Ele e queremos até mais do que isso: que a relação seja saudável e que nos traga ou continue a trazer um ensinamento das coisas e uma aprendizagem da vida, sobretudo sobre aquela parte dela em que ainda não vivemos.

 

Julgamos, ou estamos convencidos, que vem a dar no mesmo, que mercê do título, Ele sabe mais do que nós, está mais preparado, tem mais experiência, mais sabedoria e conhecimento e até, ao ponto que nós chegamos, está seriamente preocupado connosco, supostamente seus filhos. Independentemente da metáfora ser cordeiros, somos filhos de Deus.

 

Pois parece-me agora que é exactamente aqui que nos enganamos. E não é fácil:

 

Primeiro, tomar consciência de que nos enganámos;

 

Segundo, achar que aquilo que tínhamos como perfeito tem imprecisões, algumas do tamanho do universo que Ele próprio criou;

 

Terceiro, pôr a hipótese de ser um crápula e

 

Quarto, suspeitar que, sabe-se lá por que razões ou motivos, Ele se quer vingar de nós.

 

E somos de facto engraçados neste ponto, depois da primeira reação que é o sofrimento de nos sentirmos abandonados e desprezados pelo pai, a coisa que fazemos logo a seguir é arranjar justificações para a sua atitude: talvez tenha tido uma vida difícil antes de chegar à coroação, ao altar que agora ocupa em todas as igrejas, acima de santos, anjos, arcanjos e do resto da família religiosa, dita assim, uma vez que não há em toda essa descendência o pecado da carne, a hereditariedade e a genética a justificarem o aumento exponencial dos defeitos ou a tendência para aprimorar qualidades que, de facto, não tem.

 

Percebemos, só neste ponto, que certas características ou qualidades que tínhamos como certas, estão nele não só em défice e mesmo ausentes como ainda tem a percepção de se convencer intimamente que é o único a tê-las e a considerarnos, a nós que o veneramos, como menores, incapazes e limitados, no que se refere a pensamentos, deduções, convicções e atitudes que afirma, em oração, gostar de ver em nós e que não vê! A questão que Ele nem sequer coloca, é que as temos todas, varia apenas nelas a importância que lhe damos e a forma como lidamos com elas. No nosso caso muito bem, no d’Ele incapaz de as saber interpretar porque lhe falta o resto: elasticidade mental!

 

E se há coisa que não lhe podemos perguntar, mas nunca, é: meu deus porque nos abandonaste? Só porque ele nunca nos vai dizer a verdade e vai desatar numa ladainha que nos vai fazer acreditar muito injustamente, isto não se faz a ninguém e muito menos a um filho, que a culpa é nossa. E isso é manifestamente impossível! E a razão é tão óbvia que até dá pena: nós não temos poderes!

 

Nota: Há um erro no texto de que já todos deram conta: onde se lê “Ele”, deve ler-se “ele”. Fica a nota para os não tão atentos a estas coisas da Língua.

 

Cristina Pizarro

 

 

 

28
Nov18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

T1-Duplex

 

Neste nosso pequeno mundo há de tudo um pouco.

O quarto das bonecas com estantes em toda a extensão das paredes, do chão até ao tecto. As bonecas são os nossos pensamentos. Há-as de todos os tipos: de porcelana, de trapos, de papel, de esferovite, de gesso, de barro, de vidro, de acrílico, de borracha, de plástico... todos os materiais disponíveis. Umas muito arrumadinhas e outras caoticamente dispersas. Conforme o tamanho assim é escolhido o espaço que todas elas, por mais pequenas que sejam, ocupam. Até a ranhura do parafuso que sustenta as prateleiras tem pensamentos, tudo milimetricamente aproveitado.

Depois há o compartimento das atitudes: das elementares, das mais elaboradas, das previsíveis, das arrojadas, das impensadas, das consequentes, das opostas, das supostas, das improváveis, das impostas, das declaradas, das do corpo e das da alma, das desesperadas, das mais calmas, das que operam, das que imperam e das que nada!

Depois temos o quarto escuro: o dos problemas onde uns, por resolução, vão dando lugar a outros e onde outros, sem se resolverem, se vão ultrapassando e se vão empacotando como cadeiras empilháveis, libertando assim algum espaço. Há dias em que o quarto está vazio e dias em que transborda. Há ainda outros cheios de pó e provavelmente com teias de aranha que ficaram “esquecidos” debaixo da cama, escondidos, arrumados em caixas ou pendurados como roupão atrás da porta. Há os sem importância nenhuma que nos dias de maior lucidez são colocados no início da fila e que, se for preciso espaço para algum novo, uma emergência, são os primeiros a ir para o lixo. E há os tipo cola que se agarram à gente como macacos a árvores e resistem a todas as intempéries, saltam de um ramo e logo se agarram a outro, numa acrobacia aérea que nem disfarçados de Tarzan conseguimos expulsar da selva.

Depois há o quarto de passar, o dos sentimentos, onde a roupa dobrada em cestos aguarda tempo e disponibilidade para ser passada e pendurada em cabides e onde a questão é a das prioridades: que roupa vestir hoje?!

Há também a casa de banho, de higiene mental e corporal, sempre a contra-relógio e onde descuidamos sempre a primeira em favor da segunda, porque esta vê-se e a outra não e nós somos vaidosos e importamo-nos com o parecer, antes do ser!

Depois há a cozinha, o local de preparação dos alimentos, comportamentos, que compramos em supermercados onde nunca há o que queremos e onde, não fosse a fértil imaginação que temos, ficaríamos sempre insatisfeitos e compensamos com uns a falta de outros!

E na sala, zona de ser e estar, o que é que temos? Tradicionalmente a maior área da casa, com poucos móveis para circular à vontade, com alguns quadros para contemplar quando os vemos e a televisão para nos lembrar que para lá da porta do T1-Duplex em que vivemos há um mundo sem portas a que pertencemos, onde todos os dias acontecem coisas que não controlamos, que não dependem de nós e com as quais temos de lidar a bem ou a mal ou de qualquer maneira!

Às vezes mudamos de casa por falta de espaço em vez de nos esforçarmos por arrumar a que temos e adiamos o problema, alimentamos o problema, dilatamos o problema, disfarçamos o problema, arranjando vazios para preencher, é o colapso! Agora a casa é grande, já há espaço para termos mais bonecas, mas o quarto dos adultos continua a morar na casa ao lado!

 

Cristina Pizarro

 

21
Nov18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

Era uma vez

 

 

As pessoas gostam de histórias, quanto mais metafóricas, melhor! Pergunto porquê. Começa a não metáfora! Porque têm medo da realidade nua e crua, que não nos permite acreditar noutra, que não nos deixa margem para a imaginação, que não nos dá a liberdade de acharmos que pode ser diferente do que parece ou do que é! E nós adoramos essa parte, aquela que nos dá asas ao pensamento, aquela que nos permite ser o protagonista do filme, entrar para a história sem ninguém nos ter posto lá. Ainda melhor do que isso, que nos permite ser os críticos do filme! Nós adoramos dar a nossa opinião, a nossa arrogância chega ao ponto de dizermos, quando a emitimos, "no meu conceito...", como se as nossas opiniões passassem a conceitos depois de as manifestarmos! Pomo-nos literalmente em bicos de pés! 

 

Há outra coisa que as histórias também nos permitem, que é o podermos ler nas entrelinhas! São festas à nossa inteligência: “ai tu percebeste isso?! Eu não! Eu, que sou muito mais inteligente que tu, percebi exatamente o contrário! Mas isso é possível?” É, quando se trata de histórias é! E nós amamos esse conforto, o nosso ego cresce, a nossa auto-estima aumenta... A propósito disto, nunca vi uma definição ou um significado de auto-estima que me agradasse! É, no meu conceito, ok, apanharam-me, mas eu primeiro, um convencimento, um autoconvencimento: eu acredito que... Mas pode não ser verdade! Completamente diferente de um outro conceito, este também meu, que é a autoconfiança, que é um gajo saber que é capaz daquilo que realmente é capaz. E defino estas coisas mais ou menos assim. Mas se calhar estou enganada, lá está, o de há bocado!

 

Do exposto até aqui decorre que é muito mais fácil ler histórias, são mais acessíveis, do que ladainhas de considerações, porque as considerações nos obrigam a pensar naquilo mesmo, e nós não queremos que ninguém nos imponha nada, ninguém tem paciência para isso! Então agora, para além de perder o meu rico tempinho a ler isto, ainda me querem obrigar a pensar no que eu não quero?! Não, e as histórias ainda têm outra vantagem, é que se podem contar. Então não é bom contar histórias que se lêem? Há sempre assunto de conversa: ontem li uma história que dizia assim.... Mas ninguém vai começar uma conversa: ontem li um artigo de opinião que dizia assim... Até podemos, mas...

 

O problema, há quase sempre um problema quando as coisas parecem estar a correr bem, está em que as histórias fáceis de ler são difíceis de escrever! É preciso pensar em quinhentas coisas e escrever só uma, qual?; pôr uma cadência em coisas sem relação aparente nenhuma e inventar uma; arranjar uma sequência mais ou menos lógica de enunciação; colocar pormenores a substituir o fundamental, distraindo o leitor com acessórios e adereços até ele se perder completamente no emaranhado de uma floresta densa e quando ele chega à beira do abismo aparece-lhe uma cama elástica que lhe permite saltar para a beira do próximo precipício, donde nunca cai porque se trata de uma história!

 

Nas considerações a gente cai. E o abismo está sempre mais perto e é sempre maior do que de início supúnhamos. Corremos riscos: de fazermos hematomas, de fraturar ossos, de distender tendões, de fazer rupturas musculares, traumatismos cranianos, luxações da anca, descolamento de retina, deslocação de... Ui, um sem número de possibilidades, quase todas más, mas que sobretudo dão uma trabalheira dos diabos a reparar e ninguém tem paciência para isso! Então agora para além de perder o meu rico tempinho a ler isto ainda me querem obrigam a ir ao hospital, serviço de urgência, que neste país é como sabem…

 

E isto tudo para dizer que, hoje, vou contar uma história que começa assim: era uma vez.

 

 

Cristina Pizarro

 

07
Nov18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

O hábito faz o monge

 

 

O desespero é bom. O desencanto é bom. A desilusão é boa. Tudo graças ao forte instinto de sobrevivência que temos, como animais selvagens que somos.

Chegados aqui, estamos num ponto importantíssimo: o ponto de partida para muita coisa e não faz diferença nenhuma se temos 40, 50, 60 ou 70 anos! 

 

Começamos então a identificar, com facilidade extrema, o que nos interessa e o que não, o que é verdade e o que não, o que nos é útil e o que não, o que nos faz bem e o que não.

Um exemplo simples: ouvimos, hoje é frequente isto, muita gente a falar da gestão da expectativa, mas fazem-no em nome individual, gerem a sua, não gerem a que o outro tinha deles e se pensarmos nisto temos que achar que não fazem mal, ao contrário, fazem bem, porque as expectativas que nós criamos sobre os outros e as situações, são uma ficção nossa. A tradicional frase: Faz parte do nosso imaginário. E sobre a mesma coisa ou pessoa, há variadíssimas ficções e versões! E a quantidade e a qualidade delas, dependem de quê? Exactamente, do nosso imaginário, da nossa capacidade de efabular, do quanto criativos somos. Porque e quando o fazemos? Quando nos sentimos vazios por dentro e não percebemos que só nós é que os podemos preencher, para que o processo seja eficaz e duradouro, porque os outros dão e tiram, emprestam, quando muito! Não raras vezes dão o que não querem ou não precisam e tiram-nos o que nos faz falta, o imprescindível. Não se faz!

 

E o hábito faz o monge, não falando aqui de roupagens. O hábito é perigosíssimo, porque nos habituamos muito depressa a ele, ao nosso e ao dos outros, e perdemos a sensibilidade que funciona na nossa vida como um sensor, um barómetro ou uma bússola. Por exemplo: comecei a escrever textos no telemóvel porque me permitia escrever muito mais rápido. Utilizando a escrita automática, escrevia só o início ou metade das palavras, o que faltava delas e os acentos vinham de bónus, mas passado algum tempo, lá está, depois de me habituar, deixei de ver as palavras que me eram sugeridas pelo dicionário e comecei a escrever como se estivesse no computador, letra a letra. Ou seja, o que de início me deixou contente por me parecer uma grande vantagem, passou, uns minutos depois, a ser naturalmente ignorado! Porquê? Porque me habituei, deixei de estar atenta, e fiquei insensível a uma coisa que, vendo-a e utilizando-a, me facilitava tanto a vida.

 

Talvez que durante este processo tenha dado um salto evolutivo: o ter deixado de precisar! Estava a brincar, isso seria realmente bom, mas não foi nada disso. O que me aconteceu é que regredi: depois de adquirir o conhecimento não o interiorizei e de seguida perdi-o. É isto que nos acontece muitas vezes depois de um longo percurso, não fazemos save e perdemos o "texto" todo! É horrível, todos sabemos como é horrível, porque já nos aconteceu a todos. Voltamos ao princípio, desta vez custa bastante mais e por dois motivos: porque já não temos o entusiasmo da primeira e porque estamos constantemente a fazer um esforço para nos lembrarmos do que tínhamos inicialmente escrito. Completamente inglório e desgastante. Nunca vamos conseguir o mesmo! Se fôssemos mesmo inteligentes, fazíamos um não-esforço para esquecer o que já tínhamos escrito, que é como quem diz, o passado, e começávamos de novo, mas sem recomeçar, porque isso nos não leva a lado nenhum. A memória às vezes estraga mais do que ajuda!

 

Mas, perco-me com uma facilidade! Relativamente à expectativa, convém não nos habituarmos a ter qualquer uma sobre nada que não dominemos, que nos seja alheio; a não esperar nada de ninguém e sabem o que nos é servido numa bandeja? O paraíso!

É engraçado como, às vezes, ao imitar o defeito adquirimos a qualidade!

 

Cristina Pizarro

 

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • sandra sofia

      O que custa é começar,para acabar,acaba-se a qualq...

    • Anónimo

      Se Chaves fosse justo com os seus e com os amantes...

    • Anónimo

      CHAVES merece.“Ó vós que buscais o mais alto e bel...

    • Fer.Ribeiro

      Meu caro AB, isto também é Barroso, mas tem razão,...

    • Fer.Ribeiro

      Belo mas sofrido, toda a manhã debaixo de chuva e ...