Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Jan21

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

Os contrários

 

Estava ali a pensar nele e era como se me morresse por dentro! E por uma estupidez... continuava eu a pensar! Mas depois, pensei mais: se por uma estupidez se morre assim, é verdadeira vida o que se tinha antes? E fiquei aqui uma eternidade, talvez mesmo um dia, vá, um pouco mais, a tentar perceber se isto era mau ou bom. Há coisas complicadas, temos de admitir! Ou seja, a situação em si que levou àquela conclusão não foi de todo agradável. Quando se está a sentir na pele a agressão de alguém, e digo pele em sentido figurado e dou esta explicação por respeito às palavras porque quem lê dispensa esta explicação, nunca ficamos confortáveis. Aqui há duas hipóteses: ou temos inteligência e escolhemos a serenidade ou somos patetas e devolvemos a agressão. Sim, é verdade, umas vezes uma e outras vezes outra.

 

Eu nesse dia estava inteligente e por isso fiquei serena, como se os tiros disparados não me tivessem a mim como alvo e não tinham, obviamente não tinham e isso também o percebemos nos dias em que estamos inteligentes. Não é sempre. 

 

Assim, curvei ligeiramente os ombros, inclinei levemente a cabeça, flecti tenuemente as pernas, afastei vagamente os joelhos e nenhum dos disparos me atingiu. É engraçado que me podia ter virado para trás, para ver qual era afinal o alvo, mas não tive essa curiosidade.

 

Ainda fiquei uns tempos à espera que a situação se revertesse, sem para isso ter feito nada (aqui haverá alguém tentado a corrigir-me, achando que o correcto é “sem para isso ter feito alguma coisa”, mas hoje estou sem paciência nenhuma para este tipo de coisas e para essa espécie de gente) e a razão disso não foi outra senão (aqui o mesmo alguém ou uma sua variante poderá achar que faria melhor se escrevesse “se não”, mas continuo com a paciência de há bocado) o facto de permitir que o outro o fizesse, se isso quisesse. Ou seja, quando somos muito solícitos, pecamos às vezes sem dar conta porque não damos ao outro a liberdade de ele tomar a iniciativa. E isto pode funcionar como uma castração ou uma imposição nossa ao outro, impedindo-o de ser livre e agir de acordo com a sua consciência, supondo que a tem, e esse é o nosso limite. Não podemos ultrapassá-lo porque estamos a invadir o espaço do outro.

 

E com esta consciência, fiquei tranquilamente quieta e em paz. Mas o que aconteceu foi que o outro usou a sua liberdade de fazer, não fazendo. É um direito seu que eu respeito, embora nunca fosse o que eu escolheria. E lá esta, o relativo. Não escolheria desta vez porque a pessoa me interessava, mas já era capaz de o escolher, se a pessoa não me interessasse. E aos poucos chegámos lá, foi o que aconteceu. 

 

Ora, se me não interessava e eu estava ali a desviar-me dos disparos que não eram para mim, a conclusão era simples de tirar: eu não estava ali a fazer nada! (E os que ficaram lá atrás voltam agora: “Nada ou nenhuma coisa?” Poupem-me, que isto hoje não está católico!) 

 

De forma que o lamentável nem sempre é de lamentar. Às vezes, se analisarmos bem as situações, acabamos por dizer, como foi este o caso: Bendita estupidez! Foi pequena, mas tenho de lhe agradecer na mesma, porque o impacto dela foi gigantesco! Claro que ficamos sempre com aquela réstia de dúvida que podia ter sido diferente! Tão diferente que até podíamos ter sido nós a não ter lá estado! Considerações que nunca nos hão-de levar a lado nenhum e já se percebeu que essa é a pior forma de gastar o tempo: perdê-lo.

 

Cristina Pizarro 

 

 

06
Jan21

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

Nostalgia ou Angústia!

 

 

 

Às vezes tenho saudades do que nunca tive,

mas que podia ter tido,

não fossem uns pormenores irrisórios,

umas circunstâncias indeléveis,

acasos que aceitei como sendo

e não o eram,

destinos que julguei traçados

e não estavam!

 

 

Alturas em que disse não

sem saber porquê,

só porque não tinha um porquê para dizer sim!

Como se isso fosse uma condição,

uma coisa necessária,

um pré-conceito

que hoje me parece,

tardiamente,

ridículo!

 

 

Não lamento,

porque não posso lamentar o ter sido eu

quando eu era o que fui!

Também não posso lamentar um presente

que não posso mudar

quando não depende de mim!

E do futuro,

que poderei eu dizer?

Nada!

Não me pertence,

não sou dona dele!

 

 

Eu sou um simples ser humano,

único como todos,

que tudo quer

e nada tem,

por isso mesmo!

Porque acredito,

aqui ingenuamente,

que tudo depende de mim,

mesmo o que depende dos outros!

Porque acredito num Deus inexistente

que é justo,

que é equilibrado,

que nos ilumina no caminho certo,

que cada um de nós deve ou tem que percorrer!

E esse Deus pouco existe!

Ninguém acredita nele,

ninguém espera que ele chegue,

ninguém está à espera que ele se manifeste!

 

 

Só os poetas doidos,

inspirados numa Deusa

envolta em tecidos brancos de linho ou organza,

acreditam que a salvação do mundo

está em cada um de nós!

Que ela não depende de ti

nem de mim!

Que está nos astros,

no Universo,

no que ele tem de infinito,

onde tudo se inclui

excepto o imprevisível ser humano!

 

 

Um dia,

acredito piamente,

vão nascer-me umas asas brancas

e atingirei um céu,

embora deserto do ser absoluto,

onde a paz é o único instrumento,

a estrela que nos guia

sem precisar que haja um destino!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

30
Dez20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

O desabamento

 

 

De repente, sem que se notasse, minto, a notar-se por todos os poros da minha pele, saíam coisas. Algumas que eu nem sabia que lá estavam, só as notando no seu jeito apertado e contorcido de saírem, com muita dificuldade, num esforço gigantesco, como se fossem expulsas, como se saíssem por obrigação, por imposição de alguém. Quem?! Não se sabe ao certo.

 

Provocava dor aquela saída em enxurrada. As coisas atropelavam-se umas às outras, umas por cima das outras, sem se respeitarem na saída, numa ânsia incontrolável de ver a luz do dia. Saíam por urgência, na impossibilidade de ficar. E eu assistia àquilo tudo, inerte, como se me empurrassem por trás, como se, aos encontrões, os meus pés lá se arrastassem ou deslizassem num chão escorregadio, movediço, alheio. Nem queria ir nem ficar, na verdade não queria nenhuma das duas porque a vontade foi das primeiras a sair, por isso mesmo, porque tinha vontade.

 

Percebi, nesta altura, que mesmo que ainda lá estivesse uma parte dela, nada faria. O processo, tendo-se iniciado, era imparável e não tinha fim à vista. Parecia um carro eléctrico sem condutor. Perguntava-me quem ia lá dentro e o que o movia! Ninguém respondeu. É certo que, verdadeiramente, não fiz a pergunta, mas se a fizesse era também certo que ninguém responderia. Fiquei a assistir, com o olhar sereno e de sorriso nos lábios. Às vezes o pânico dá-me para isto. Uma tranquilidade absoluta. Uns dizem que é estado de choque, outros que é controlo da mente e outros, ainda, pragmatismo. Ainda não acabámos! Há também quem diga que é experiência de vida ou uma capacidade inata de lidar com a adversidade. Outros, agora por fim, acham e vêem nisto um mecanismo interno de defesa. Nem sim nem não, nada disso simplifica ou atenua aquele rasgar da pele, posto que há coisas que são tão grandes que o tamanho dos poros, mesmo estando dilatados, não é suficiente para se esgueirarem e é necessário fazer cortes cirúrgicos -como aqueles que fazem aquando do nascimento dos bebés, nos partos normais, em mulheres que não têm dilatação suficiente para o momento que se avizinha, episiotomia, para evitar o rasgar aleatório e a dificuldade ou o atraso na cicatrização. A ocitocina pode ajudar neste caso, mas aqui não.

 

Sabemos que é impossível reverter este processo. Aquela coisa de só conseguirmos engolir sapos depois de mastigados e nunca inteiros, põe-nos a pensar no porquê daquilo. Por um lado, é bom, distrai-nos, o que é uma forma de não sentir tanto a dor física, mas depois vem a outra, sem lirismos, menor, que é a psicológica, resultante de não entendermos nada do que se está a passar e a consciência da perda de controlo sobre o nosso corpo é algo com que não lidamos muito bem. Estranho é termos, à cabeça, a certeza de que aquilo vai passar, não sabemos quando, não sabemos como, mas sabemos que vai passar! (Aqui atrevo-me a dizer que o “mas” não faz falta nenhuma, mas deixo estar! Aqui já faz!)

 

Engraçado que, à medida que o processo avança, vamos sentindo, gradualmente, menos pena e menos dor. Como se fosse havendo, no processo, uma adaptação contínua da nossa parte a este fenómeno, que de início estranhámos…E há, de facto, porque as coisas que vão saindo abrem caminho às outras e o que de início doía como tudo, passa a doer quase nada.

 

No fim, quando já não havia mais nada para sair -e apercebi-me disso quando senti o ruído da cancela a descer- alguém me pôs na balança: pesava menos 21 grama.

 

Cristina Pizarro

 

23
Dez20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

À cause de la pluie

 

 

Chovia tanto naquele dia

lembras-te?

Naquele dia em que te foste embora de repente

como se te tivesses lembrado de alguma coisa

que tenho a certeza não te lembraste

 

Naquele dia em que saíste de repente

pela porta das traseiras

para que te não visse partir

como se fugisses

sem coragem para ficar

 

Coragem

ou outra coisa qualquer

que neste momento não me importam palavras

nem me interessam motivos

mas antes razões

 

Naquele dia em que me olhaste parado

de alto a baixo

como olhavas de outras vezes

não sei se para reter uma imagem

ou se atento a qualquer pormenor de moda

aqueles que eu inventava para que reparasses em mim

 

Chovia tanto naquele dia…

Naquele dia em que me arrancaste do peito

não sei o quê

de que sinto a falta

Hoje!

 

Chovia tanto naquele dia

lembraste?

Naquele dia em que te foste embora

embora na altura eu não soubesse

que esse seria o dia

em que te foste definitivamente embora

embora eu o pressentisse

não sei se pela chuva

que caía inexplicavelmente nesse dia

se pela forma como disseste “vou-me embora”

se pelas duas

se por nenhuma

 

Naquele dia

lembraste?

Em que não disseste adeus

que embora não sendo a primeira

eu senti que era a última vez que o fazias

 

Deve ter sido da chuva

daquela maldita chuva

que caía inexplicavelmente nesse dia

em que te foste embora

sem dizer mais nada

a não ser “vou-me embora”

e saíste pela porta das traseiras

sim

mais uma vez

que por mais que o repita

não consigo perceber porque te foste embora

nesse dia

em que chovia

talvez inexplicavelmente

 

Não chovesse daquela maneira

e nunca te terias ido embora assim

não debaixo de chuva

 

Tivesse eu um Sol em reserva

e nada disto

provavelmente

teria acontecido!

 

Cristina Pizarro

 

16
Dez20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

2º Acto

 

Estava ali a olhar para mim, como a espiar-me, e eu com receio de que chegasse a conclusões sem eu as ter tirado. Protegi-me, não interceptando o olhar, como a recusar dar o flanco. Pareceu-me, naquele momento, que se o olhar se cruzasse o coração ia deixar transparecer o que a alma lhe tinha dito em segredo. O coração não é assim lá muito de confiança! Quando lhe pedimos para guardar segredo ele não conta a ninguém, só conta a um de cada vez!

 

Mesmo sem perceber a intenção daquilo, protegi-me. O seguro morreu de velho, diz o ditado! Mas não estava muito convencida do meu disfarce. Tinha medo de deixar pontas soltas e, por isso, não direi que fingi, mas andei perto disso. Não é mau, disfarçar, na realidade, não é bem um fingimento, é forjar a realidade a ela própria, é fazer-lhe ter a noção do concreto, como dizer a um não-pássaro: Sem asas, vai-te ser muito difícil voar! Não lhe dizemos que é impossível, para não lhe destruir os sonhos, não lhe cortar as pernas pois que sem elas nem andar podia e nós não somos assim, genuinamente maus. A maioria de nós, pelo menos.

 

Mudar de assunto também produz o mesmo efeito, mas nota-se mais. Se a pessoa estiver atenta, quase que é uma confissão. Quando não temos assim uma forte convicção, o melhor é deixarmos as coisas em banho-Maria. Não estamos a enganar ninguém, só nos estamos a recatar. Até aqui, tudo bem. O problema, por assim dizer, vem depois. É que começamos a acreditar naquilo que a nossa cabeça está a tentar passar como sendo verdade, só que o alvo, inicialmente, não éramos nós. Isto vem de uma característica mental, narcísica, que o nosso cérebro tem de adorar que lhe batam palmas e não distingue públicos. Neste aspecto é pouco diferenciado, do estilo: venham elas de onde vierem! Age por quantidade e não por qualidade! Mede o som em decibéis… e diz que é música!

 

Não tenho assim, propriamente, uma carteira de truques para contornar isto, mas acredito, e aqui piamente, que me saem coelhos da cartola sempre que deles precisar. E sem esforço. Farto-me de rir com isto, com esta característica, que aqui já não atribuo a sua excelência o cérebro, mas ao corpo, porque se trata de sobrevivência. As necessidades básicas da pirâmide de Maslow, se bem que vejo nela algumas incongruências. Se a virasse ao contrário, também me fazia sentido!

 

Distraí-me outra vez, estávamos lá em cima não era? Voltemos. Não há problema nenhum naquela atitude, desde que haja consciência de que ela não é sustentável. Ou seja, corre bem, mas por um período curto de tempo. Quando o esgotamos, pegamos no telemóvel sem som, ninguém desconfia disto porque, hoje em dia, com as agendas preenchidas que todos temos é normal isto, e dizemos: Desculpa, mas tenho mesmo que atender esta chamada, é importante! E depois de obtermos clara permissão -estas coisas da educação nunca se pode passar por cima delas- dizemos que vamos ter de sair, nada grave, mas urgente. Está sempre a acontecer.

 

Agora lembrei-me de um exemplo prático, sim, que até aqui foi tudo teoria e representação possível, por causa da minha paixão pelo teatro. Então uma vez, e garanto que não tinha nem tenho nada disto trabalhado, aconteceu-me uma conversa que estava a ir por um caminho que não me estava nada a interessar. E não era que aquilo me estivesse a incomodar que eu lido bem com estas coisas, mas estava a desviar-se do meu objectivo e eu com isto já não lido bem e então tirei o telemóvel do bolso, coloquei-o em cima da mesa, carreguei à sorte num ponto qualquer e disse: Podes continuar, mas a partir de agora a conversa está a ser gravada. Em segundos, retomou-se o fio à meada.

 

Isto tem tudo a ver com uma coisa, lá está, que eu colocaria na base da pirâmide de Maslow e que não está lá, o respeito pelo outro. As pessoas têm, com facilidade, respeito por si mesmas e acham que o respeito pelo outro é outra coisa, que têm, as que têm, com dificuldade e é aqui que discordamos! Porque eu, quando não vejo este segundo nos outros, perco o respeito pelos outros porque isso me é necessário para manter o primeiro. Parece-me tão simples este raciocínio! E se é lógico, poderá não ser verdadeiro?

 

Cristina Pizarro

 

02
Dez20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

Perdi o cão 

 

Quando o Agente de Autoridade me abordou, perguntando:

- O que anda a fazer, num sábado à tarde cheio de sol, depois da 13h?

Respondi:

- Vim passear o cão.

- E onde é que ele está? 

- Pois, foi isso, perdi o cão!

Demorou alguns segundos a questionar-me de novo, provavelmente a reflectir se aquilo era humor ou só verdade!

E, depois, continuou:

- E a trela?

- Também a perdi. Quando me fugiu fiquei tão desnorteada (isto foi no Porto, ok?) que desatei a correr atrás dele até me cansar, não aguentar mais e parar para descansar um bocadinho. E é aqui que estou. Provavelmente devo-a ter deixado no local onde estava sentada com ele, mas estou tão cansada, mas mesmo tão cansada, que não me lembro onde foi!

 

Ele continuava a olhar para mim pensativo e julgo que na mesma reflexão. Aquela que está lá atrás, do se era humor ou... 

Continuei:

- Eu sei que isto não é o seu trabalho e que não se enquadra no “A bem do Serviço Público”, mas se me ajudasse a procurá-lo...

É que já passaram 2 horas e eu só ainda não desisti porque se trata de um membro da minha família!

 

O Agente aceitou a proposta, pareceu-me naquela atitude de: deixa ver no que isto dá! Palavra puxa palavra, pouco tempo depois, e não sei explicar como, já estávamos a falar da ordem do mundo, dos princípios de ética e moral do ser humano, do sentido de justiça e do que era afinal isto do respeito por nós mesmos e pelo outro e do estabelecer que limites e onde e quando os devemos colocar.

 

Da minha parte, a única de que posso falar, nada disto me estava a parecer estranho, acontece-me com frequência. Cumprimentar alguém pela manhã, dizendo: Olá, bom dia! e 2 horas depois ainda estar ali, de pé, no meio da rua ou na entrada do prédio, a falar sei lá do quê, mas interessante a esse ponto, ou seja, não dar pelo passar do tempo.

 

A coisa corria com verdadeira e fluente normalidade, mas depois o Agente da Autoridade interpelou-me novamente e, desta vez, fez uma introdução:

- O Sol está quase a pô-ser e, depois desta agradável conversa, acaba o meu turno e eu vou ter de voltar para casa. Mas, diga-me só uma coisa:

E o cão? 

- Qual cão?

 

Foi aqui que tirámos as máscaras e desatámos numa gargalhada que até as lágrimas nos saltaram dos olhos e quando, finalmente, me consegui recompor, acabei por dizer:

- O cão deve andar à procura da trela e quando a encontrar vai de certeza voltar para casa. Já aconteceu mais vezes. Há dias em que até me traz o jornal!

Ele olhou-me fixamente e sorriu, mas desta vez de um jeito que não me vou esquecer: para além da boca, usou o olhar.

 

Saímos dali. O Sol tinha acabado de se pôr e, nestes dias de Inverno, fica logo noite e o risco é maior, dizem!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

25
Nov20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

Um grito na noite

 

Já foi há tanto tempo... aquele dia de Novembro... Nunca vi tanto nevoeiro junto. Demorámos 5 horas a percorrer 150 km, mas naquela altura eram mais! As curvas da estrada duplicavam a distância. E não se via nada. Misturava-se o escuro da noite com a luz dos faróis do carro, as gotículas de água com o silêncio do taxista. Ninguém abriu a boca e nenhum de nós dormiu.

 

As nossas cabeças dilatavam pela quantidade de pensamentos que tinham dentro, pelo medo das conclusões, e a forma que arranjámos de as não tirar foi não falar. Funcionou. E conseguimos sustentar o que, embora absurdo, era ainda possível, pela falta de evidência. Mas tínhamos consciência, velada sim, de que esse adiar tinha um prazo curto. Não era um despertar, era um abrir e fechar de pálpebras, como se uma pestana nos tivesse entrado nos olhos e lutássemos com a impossibilidade de os manter abertos e a mesma de os manter fechados. E, enquanto isso, os nossos corações tremiam e batiam descompassadamente pela enxurrada de sangue que nele entrava e saía. Um atropelo, era o que era.

 

Quando chegámos perguntei por ti, mas dei apenas duas hipóteses para estares, a minha cabeça não me permitia outras! E quando me responderam: “Nem num sitio nem noutro”, eu verbalizei que em algum deles tinhas de estar! Mas que disparate era aquele?! E quando me disseram "Na igreja!" eu disse que não acreditava, pois que farias tu numa igreja à noite, em pleno Inverno, com 21 anos! Era um grandessíssimo disparate. Como é que alguém, no seu perfeito juízo, pode dizer uma barbaridade dessas?! Quis confirmar aquela conversa de elevador, embora não tivesse repetido a pergunta, mas quando cheguei a casa e a porta estava aberta... àquela hora da noite… com pessoas lá dentro que eu não conhecia… percebi que o disparate, embora surreal, não tinha como ser negado. E são estas coisas, sabes, que nos tiram as certezas! São estas coisas que nos arrancam do peito a fé. “Oh, tu já não a tinhas!” Tinha sim, a fé de que há coisas inconcebíveis, não possíveis por irracionais que são. Mas isso era no tempo em que eu vivia com a convicção de que tudo tinha uma explicação. E vê como é simples, fazia sentido para mim um disparate destes! Que as coisas para serem, para acontecerem, têm sempre uma razão, um porquê, e se ela existe eu posso conhecê-la, porque tenho direito a isso, porque isso me é devido e se não me for dado eu não desisto enquanto não o encontrar!

 

Já percebeste não é, isso era no tempo em que uma série de disparates em cadeia, era a minha lógica do mundo. Era a própria ordem dele! Acreditava que sem ela, ele não faria sentido! E não faz, mas isso não o impede de existir e eu pensava que sim! Que era aquela merda do latim: condição sine qua non. Traduzida mais tarde, pouco tempo depois, por: sem a qual sim! Trágica tradução!

 

Acho que a partir desse dia nunca mais consegui fechar completamente os olhos! Durmo, é claro que sim, mas não fecho completamente os olhos. Foi também a partir desse dia que tudo passou a ser possível, e foi, e é! Ainda hoje é frequente ao pequeno almoço o inverosímil vir sentar-se à minha frente e sabes que o anormal nem sequer diz bom dia?!

 

Décadas depois, ainda mora em mim o sofrimento. E não sei, nem nunca vou saber, o que é que te deu naquele dia para resolveres ir dar a volta ao mundo, assim a meio da noite, sem motivo e sem bilhete de regresso! Umas notas escritas, uma prenda enviada por correio, um desenho... nem roupa levaste, caramba. Claro que tinhas esse direito, temos todos, ou quase todos. A chatice é que se fica à espera, percebes? É a porcaria da porta que não se fecha, as coisas em que se não toca porque não sabemos o que fazer com elas, os poemas, os versos, as fotografias, o acordar a meio da noite porque parece que alguém entrou em casa! E é um sobressalto íntimo, constante, aflitivo.

 

Nunca pensei que sobrevivesse e… eis-me aqui! 

 

Olha, fazemos assim: Quando chegares, vem ao quarto dar-me um beijo e, por favor, traz a mãe.

 

 

Cristina Pizarro

 

18
Nov20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

A brincar, a brincar... 

 

 

A princípio era uma brincadeira, assim de improviso, sem pensar muito. Eu disse que ia imitar uma pessoa. Sabes o que quer dizer imitar? Não esperei pela resposta e acrescentei: É fazer de conta que sou outra pessoa e tu tens de adivinhar quem é que eu estou a imitar. Repeti a palavra sem querer e sem saber se ela, com 3 anos, tinha percebido ou não. "E agora a Cristina quem é, mamã? Não é ela!"

 

Fiquei ali algum tempo, e como ela não respondia, tentei ajudar: Posso estar a imitar a Dóris! "A Dóris não, porque é um cão e os cães não falam!" E após um curto silêncio: “E se brincássemos antes às escondidinhas?” Aceitei.

 

Mas depois aquilo passou, a brincadeira, o jogo, e o consciente começou a acordar lentamente, devagarinho (é diferente!) e a perguntar lá do fundo do corredor: E agora eu quem sou? E percorria a casa e eu atrás dele a tentar descobrir de onde vinha a voz e ele a brincar comigo, a aproximar-se e a fugir de seguida. E eu a insistir, a procurar atrás das cortinas, debaixo das almofadas, entre as folhas dos livros, dentro das gavetas, por baixo dos armários... em algum sítio tinha de estar!

 

Primeiro achei divertida aquela coisa do esconde-esconde, parecia-me que via uma parte dele e quando chegava lá, não era. Cheguei a entusiasmar-me a ponto de fazer mentalmente a lista dos locais prováveis e, depois de todos em vão fiz a outra, a dos improváveis e enquanto não chegava ao último andei ali com uma motivação inesgotável. Cada sítio onde me dirigia e o não encontrava, em vez de me fazer desistir ou ir perdendo o ânimo, era ao contrário, uma injecção de energia, aquela sensação de trabalho realizado, do pior já passou, agora também falta pouco! E então continuava, numa dinâmica em que todos os obstáculos eram ultrapassados e, alguns, até derrubados, para ser assim completamente honesta.

 

Numa das vezes até me ri sozinha, quando achei que ele estava dentro da taça de vidro fosco do candeeiro do tecto. Acendi-o, vi uma sombra e pareceu-me ver a fita amarela da meta. Agora era só cortar. Fui buscar o escadote, não era suficiente. Fui buscar um banco à cozinha, daqueles que nos dão acesso à loiça nos armários mais altos, para colocar no degrau superior do escadote. Insuficiente. Fui buscar a caixa das ferramentas, desapertei os parafusos para tirar o vidro e, quando vi lá dentro o vazio, olhei para o sítio onde tinha os pés apoiados e pensei: e agora, como é que eu desço daqui? A subida tinha sido simples, fácil mesmo, por causa do entusiasmo, mas agora, sem entusiasmo nenhum, os meus pés pesavam como chumbo e eu não via a forma de descer dali sem ser aos trambolhões! Sentei-me, que isto do corpo tem limites, e às vezes temos de descansar um bocadinho e ganhar fôlego para retomar o voo. Ou então pôr a cabecinha a trabalhar e arranjar nova estratégia, que aqui até acabamos por esquecer que o corpo tem limites, e atiramo-nos lá de cima sem pára-quedas, cheios de confiança. 

 

Fui por aqui e, de repente, pareceu-me ouvir a voz da Dóris! Mas não podia ser porque a Dóris é um cão e os cães não falam! Quer dizer, não é bem assim porque a Dóris é uma cadela. Mas a miúda só tinha três anos! Valeria a pena estar a explicar-lhe uma coisa destas para ela me dizer depois: Mas é a mesma coisa, Cristina! E não era!

 

 

Cristina Pizarro 

 

05
Nov20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

A vida foge-nos

 

 

A vida foge-nos por entre os dedos,

porque não dizemos o que pensamos,

porque não fazemos o que podemos

e porque não mostramos o que sentimos!

 

Enquanto esperamos que a vida se defina,

a vida foge-nos.

Enquanto ansiamos pelo que queremos,

a vida foge-nos.

Enquanto acreditamos que a quem amamos

venha a sentir o mesmo,

a vida foge-nos.

 

E por mais que insistamos em vivê-la

e nos agarremos de forma desesperada

ao tempo e ao espaço que nos resta e nos consome,

há sempre quem diga: Podes fazer mais e temos tempo!

 

E por mais que nos dediquemos a ela ou a alguém

é sempre um nada ou um muito pouco

comparado com o que podemos e sabemos!

 

E,

embora eu diga o que penso,

faça o que posso

e mostre o que sinto,

a vida foge-me.

 

Para onde ela iria se eu não fosse assim!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

28
Out20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

A 4 pés

 

 

Hoje calcei os teus sapatos e fomos andar a pé, dar um passeio. É-te fácil imaginar para onde! Sim, junto ao mar porque sei que tu gostavas. O do lado direito está-me um bocado largo e o pé sai-me do sapato ao andar.

Também te acontecia? Ou a ti era o esquerdo? Não me parece nada que tivesses os pés ao contrário dos meus! Devia ser o direito que te estava largo!

E agora que penso nisso, fico na dúvida: também me pode estar largo a mim porque como te estava apertado a ti, foi alargando. Nunca sabemos a verdade por causa das variáveis todas. O certo é que fazem os sapatos iguais, mas os pés são diferentes! Também não interessa assim muito não é, se estivéssemos a falar de sapatos!

 

O mar hoje está calmo. Quer dizer, calmo calmo não está, porque é da sua natureza ser irrequieto. Mas percebes o que quero dizer, não está bravo. 

 

O céu está completamente limpo. Quer dizer, completamente não, mas quase não tem nuvens. Uma coisinha branca aqui outra acolá... Nem sei se são bem nuvens! Sabes quando as coisas são tão pequenas que nós ficamos na dúvida se existem ou não? Pois estão assim! O importante é que o céu está em tons de azul. Digo isto porque tem várias cores, mas andam todas ali à volta do azul. Sabes como é, entre o claro, o clarinho e o mais escuro.

 

O Sol está mesmo bom, quente, não parece nada Outubro e se calhar não é! Estas referências cada vez me fazem menos sentido. Nomenclatura! Serve para quê? Para podermos comunicar, para estarmos a falar do mesmo e nos podermos entender! E são estas as explicações! Nós nunca estamos a falar do mesmo! Mesmo que utilizemos as mesmas palavras. O mesmo não existe. O que existem são conceitos sobre o mesmo. Muitos conceitos, imensos conceitos, infinitos conceitos. E se calhar até é só por isso que não nos entendemos uns e outros e uns com os outros. Mas deixa lá, isto não interessa para nada. 

 

Há 3 barcos. Estão tão longe que parecem parados e se calhar estão, embora isso não faça grande sentido, mas as coisas sem sentido nenhum às vezes existem mais que as outras.

 

Eu só te estou a falar assim porque sei, desde o princípio, que me estás a acompanhar e que não te perdes por entre as palavras. Aliás, nem por entre os silêncios tu te perdes e é por isso que eu falo todos os dias contigo, nem que seja só um bocadinho. Faz-me bem, estar contigo, és uma boa companhia. Oh, não é nada disso! O facto de não responderes só me dificulta o trabalho. Nem imaginas o esforço que faço para escolher, de entre as alternativas que me coloco, a tua resposta. E é um conflito permanente, porque dependendo de qual escolho para ti, a minha é outra e quem escolhe as duas sou eu! Não me parece nada bem, este diálogo assim.

 

Ando aqui a dar voltas à cabeça para arranjar uma solução para isto! Eu sei que tu pensas isso, mas nem sempre estás certa. Uma coisa é eu resolver dificuldades neste meu mundo outra, completamente diferente, é resolvê-las num mundo a que não pertenço! Também tens razão e é exactamente isso que eu tenho feito, brincar ao faz de conta. Mas começo a cansar-me. Acho que percebes que é um desgaste enorme, este monólogo a dois. E depois isto não tem um guião prévio. Eu escrevo e interpreto os dois papéis, e já vamos em três, em simultâneo. O que me safa no meio disto tudo é que não há público, ninguém que aprove ou desaprove, ninguém que goste ou nem por isso, ninguém que se detenha a analisar, a denunciar e a reprovar pormenores que não interessam para nada, sem reter o que é relevante! Liberdade absoluta, nisso tens toda a razão! E às vezes, tu sabes como sou distraída, esqueço-me das falas porque começo a pensar ou a reparar noutra coisa e fixo nesta segunda a atenção. Outras vezes estou numa personagem e digo a fala que pertence à outra e outras vezes encarno o realizador e ele cruza os braços e põe aquele pé esquerdo de lado, como se dissesse: O que é que lhe deu a esta, agora? É engraçado porque ele não se aborrece comigo, deixa-me ir por ali fora até eu dar conta e parar. Aí olho para ele, que é quando me diz: Esteja à vontade, o palco é seu. E rimo-nos.

 

Mas nem sempre estes diálogos correm bem. Às vezes cai-me uma lágrima assim sem pedir licença, atrevida a menina! E eu acho que se calhar está na altura, se concordares é claro, de mudarmos esta forma de conversação. Proponho que passemos a falar em silêncio, tu pensas para ti e eu para mim. Dá muito menos trabalho, não temos que andar à procura das palavras que nem sempre estão disponíveis, e não é que agora estou a ficar preguiçosa! Explico melhor: se encontrar uma forma mais fácil de fazer a mesma coisa, é por aí que vou e como nós nos entendemos perfeitamente em silêncio… que te parece?

Tinha a certeza disso.

 

 

Cristina Pizarro

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Meu caro, gostei do post sobre os lápis das Casas ...

    • FJR Barreiro

      Este foi mais um assassínio feito à nossa terra. E...

    • Anónimo

      O porque e qual a razão de fazerem estas aberraçõe...

    • Anónimo

      Lindíssima esta sua foto. Espero que o texto não a...

    • FJR - Barreiro

      Tantas idas a pé eu fiz. E era tão feliz ao fazê-l...

    FB