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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

01
Jul20

Crónicas de assim dizer

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Sem nome

 

 

Eu podia ir de aqui até à Lua que tu achavas que eu não tinha tirado os pés do chão! E não tinha! Eu ia e vinha, sem sequer os ter mexido. É possível viajar assim.

 

E nos dias em que me vestia de rainha e tinha a coroa de brilhantes no sítio certo, tu questionavas-me sobre a cor do meu bâton! E eu nem sequer o tinha posto!

 

E corria atrás de mim num ânimo sem direcção, porque o que me interessava era ir para a frente, desafiar o tempo, desafiar o vento… e tu só percebias, mas não gostavas nada!

 

E eu ia buscar a força que não tinha e fazia de conta, só para te arrancar um sorriso e tu emudecias! E eu via as palavras na tua cabeça em turbilhão, e lia as emoções por trás das sombras e sentia à flor da pele, como menina, os beijos recusados como castigo do que não fazia.

 

Eram sempre falhas, os meus troféus! No dia da entrega das medalhas doía-te a cabeça como às mulheres quando não querem! E eu insista e contava outra vez a mesma história até se esgotarem as interpretações possíveis, depois de inventar as impossíveis. Nunca chegava, nunca era o bastante, eu não era Deus e tu achavas-te nesse direito!

 

E o engraçado é que tinhas. Pode-se exigir tudo a um ser humano, pela simples razão de que ele é capaz disso, mas cansa sabes, sobretudo aos Domingos em que o Criador o baptizou de dia de descanso. Mas quem era o Criador para te impor regras a ti! Nomes, preconceitos, conhecimento científico… Como pode Deus eliminar dos homens o poder de se enganarem?! Não, temos direito à nossa opinião, de concordar ou discordar, sempre, em qualquer ocasião, seja qual for o assunto! Arrogância é o nosso prato principal!

 

Sim, claro que sim, todos somos vítimas do preconceito! A ideia da perfeição limita-nos e impede-nos de evoluir, castra-nos, mas depois, quando dou conta, falo comigo e convenço a menina a despir-se disso, a colocar roupa mais leve, lembrar-lhe de que é para a praia que vai. Adequação ao contexto! E ela lá vai percebendo e não lhe custa muito a mudar de opinião. Quando lhe ponho as evidências à frente, a clareza do raciocínio, a lógica da matemática, ela abre os braços e… lindo… em queda livre, nunca em voo rasante!

 

Falo comigo, é só comigo que falo, não tenho mais ninguém dentro da cabeça! Perder as balizas e o filtro, é o primeiro passo para esse caminho lindo da felicidade.

 

Mas tu interrompias-me a vida, porque o meu mundo imperfeito era o teu pior cenário. E eu ficava tão triste! Juntava os cacos da jarra partida, os estilhaços da granada lançada, os fiapos da alma em frangalhos e transgredia! Nunca tive medo da polícia! Aquela luz azul da sirene no tejadilho dos carros, em vez de me dar para fugir, dava-me para ir ter com eles e pedir-lhes para a ligar e os meus olhos brilhavam e eles sorriam da minha inocência, achavam graça àquilo. Pois se eu ainda andava na escola primária, como é que essa atitude podia ser vista como um desafio à autoridade?! Mas se calhar era, não sei, já não me lembro, foi há tanto tempo! Se calhar nessa altura eu já tinha percebido que com uma areia no sítio certo se podia levantar o mundo! Aquele Arquimedes era um génio! Eu só queria experimentar o Princípio, para ver se funcionava! Porque uma coisa era o que diziam os livros e outra, completamente diferente, era a realidade. Fiz isto a vida toda!

 

Explicar porquê?! Claro que sim, não custa nada! Nasci com um gene, um tanto ao quanto tolo, o da curiosidade! E se bem que ele me tivesse trazido uns quantos transtornos ao longo da vida e criado algumas situações delicadas, quando daquela vez caí e tive oportunidade de o largar, em vez disso, deixei-o estar, porque me pareceu saudável, porque era ele que me fazia crescer!

 

Tens toda a razão, havia uma forma tão mais simples de o fazer, tão mais fácil, tão mais agradável e reconfortante, mas, quase me esquecia de o dizer! Aqui há uns tempos assaltaram-me a casa! Não levaram nada, mas partiram-me os espelhos todos! Foi quando percebi!

 

O que é que isso importa agora?! Nada, só estou a dizê-lo!

 

Cristina Pizarro

 

 

 

24
Jun20

Crónicas de assim dizer

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Encontro com a vida (Parte II)

 

 

Afinal a minha vida não mudou! Quando cheguei ao seu encontro, ela estava com o período e com dores de cabeça; essas coisas que as mulheres têm uma vez por mês, quando não é mais.

 

Tive talvez azar no dia, era imprevisível, impossível de controlar. Sobrou para mim, vamos para a segunda hipótese: tenho de mudar eu!

 

Não fiquei propriamente desiludida. Confesso, intimamente, que não esperava outra coisa. Ela está demasiado agarrada a preconceitos, ao politicamente correcto, não quer compromissos, tem medo de arriscar, de se entregar, de se dar completamente. É uma vida lixada, tem medo dela própria. Não há instabilidade nem insegurança pior do que esta!

 

Aceitei o desafio e vou cumpri-lo. Vou mudar eu, a muito custo, com bastante sofrimento, vou deixar de ser a que sou! Embora não saiba ao certo o que isso implica a curto, médio e longo prazo.

 

Mudarei de nome, de casa, de cidade, se possível for, de mundo. Vou viver para o planeta vizinho, começar uma vida nova sem passado, talvez sem futuro, só com o presente, há-de bastar-me!

 

Aprenderei novamente a ler e a escrever noutro idioma, a falar com outras palavras, em tudo novas, a rir de coisas diferentes, a sentir de outra forma, a amar o que é possível!

 

Vou-me virar do avesso, ficar irreconhecível, não transparente que isso já experimentei e não resulta!

 

Vou-me apropriar de um corpo, construir uma alma, arranjar uma bomba de eléctrodos, positivo e negativo, a substituir o coração.

 

O resto posso manter, se mudar isto, se o conseguir, é o suficiente para ser outra pessoa. Se me darei bem ou mal com ela, não o sei agora, tenho uma vida pela frente, ou parte dela, para o saber! De momento, não é premente, não é prioritário, não é o fundamental, não é o necessário, não é o imprescindível! Há outras coisas.

 

O cabelo vou escolhê-lo claro, as roupas mais leves, o rosto com menos marcas, de forma que ao olhar-se para mim não se perceba nada: nem o que me vai na alma, nem o que o corpo sente.

 

Vou transformar-me num bicho, num animal irracional, talvez encare a hipótese da “loira burra”, fazem sucesso! Num mundo repleto de gente estúpida, fazem um enorme sucesso!

 

Mas não, não consigo mudar tanto, prefiro ser uma das gatas lá de casa: são hábeis, inteligentes, têm personalidade própria, exprimem sentimentos, sabem, embora sem falar, dizer o que querem. Há poucos seres humanos que reúnam, num só, tão admiráveis qualidades!

 

E daí, pensando bem, não vou mudar. Mudei de ideias, vou crescer.

 

É engraçado isto! A gente mudar de ideias de um momento para o outro e não acontecer absolutamente nada! Poder decidir sobre nós, o que nós quisermos!

 

Acho que ser livre é isto! Poderá haver mais, mas é também isto. E é bom, não mudar nada e, no entanto, sentir-me outra. Eu já desconfiava, porque me conheço, que ia dar nisto! Por mais voltas que desse, regressaria sempre a mim.

 

Estou consciente de que não é o melhor caminho, não é ao menos o único, e que, provavelmente, não me levará aonde eu quero. Neste momento, é o possível! Mais do que isto não posso, embora queira, tenho os meus limites! Mas amanhã é outro dia e com o nascer do Sol abre-se um mundo de possibilidades. Sei lá se a vida, não está já a esta hora a embrulhar o Presente que amanhã tem para me oferecer!

 

Quanto às velas, vou deixá-las arder até ao fim. O oxigénio que elas consomem não me faz assim tanta falta; já da sua luz, eu não prescindo! É, na noite, o mais parecido que temos com a luz do pensamento.

 

Cristina Pizarro

 

17
Jun20

Crónicas de assim dizer

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Encontro com a vida (Parte I)

 

 

Hoje a minha vida vai mudar! Dei-lhe um prazo, fiz-lhe um ultimato e o prazo acaba hoje: ou muda ela ou mudo eu! Chegámos a um ponto em que já não podemos conviver! Quebrou-se a relação de confiança, a partir disso, nada.

 

Assumo que a culpa, se a há, possa ser minha! Nunca lhe perguntei donde vinha, com quem tinha estado ou a fazer o quê, quando ela chegava tarde a casa. Pensava que ela era só minha, essas perguntas não faziam sentido!

 

De repente, não sei o que se passou e provavelmente nunca vou saber, ela começou a ter uma vida própria onde eu só entrava às vezes, quando ela precisava. Não é vida que se tenha!

 

Vamos conversar, o diálogo é sempre bom, mesmo quando acaba mal! Sei que ela me vai pôr condições, ninguém dá nada a ninguém, estou preparada para isso, tudo tem um preço e, na maioria das vezes, pagamos e ficamos sem o produto.

 

Não tenho, em relação a ela, qualquer sentimento de ódio. Só assim é que o negócio será possível, a dar-se! Vivemos muito tempo juntas, temos ambas vícios, que adquirimos ao longo dos anos. À partida é sempre a mesma coisa: ninguém está disposto a ceder, mas uma coisa é certa, precisamos uma da outra! Eu sei disso e ela também sabe, porque é uma gaja esperta.

 

Nunca houve entre nós pontos de vista diametralmente opostos, pequenas colisões sim, algumas, certos desacordos também, muitos. Ambas somos adultas, temos coisas a ganhar e outras a perder, tudo na vida é assim, em todas elas, em todos nós!

 

A mudança que hoje vai ter início, não corre grandes riscos: não é para melhor nem é para pior, é para ser diferente!

 

Chegadas a este ponto, tanto ela como eu percebemos que isso é urgente. Não faz grande sentido falar em perdas e ganhos, já não temos idade para isso!

 

Há, imagino eu, um certo nervosismo e ansiedade que antecede este encontro: não sabemos no que vai dar! Tanto ela como eu estamos dispostas a ceder, em alguns pontos noutros não. O importante é que não coincidam para que haja entendimento.

 

Ambas sabemos o que queremos, ambas temos consciência disso, embora não saibamos a forma de o mostrar, a maneira de abordar isto que não é um problema e que por isso não carece de solução, mas é um impasse que tem de ser resolvido.

 

Tanto uma como a outra temos personalidades fortes, grandes convicções de que não podemos abdicar tais como: o respeito mútuo, a liberdade de pensamento, a aceitação pacífica das diferenças. Mais importante que isso é tomar consciência do que nos une e não do que nos separa. As armas são as mesmas, o objectivo também: darmo-nos bem.

 

A relação, a estabelecer-se, pode ser qualquer uma, o importante é que funcione para ambas. Que haja paz, serenidade, tranquilidade e, sobretudo, bem-estar. Pode ser uma relação de amizade, de amor, de paixão, de convivência social… encaro todas as hipóteses, embora haja uma que me agrade menos e essa, na verdade, não sei se me é possível: a mera relação física.

 

Mas não adianta agora fazer conjecturas, criar cenários, imaginar situações… o que for será! A minha vida é simples, a complicada sou eu!

 

Hoje, prometo a mim mesma, vou fazer um esforço sobrenatural para a deixar falar até ao fim, sem a interromper no seu discurso e sem interferir na exposição do seu pensamento.

 

Terá, como eu, tomado já algumas decisões, vou ouvi-las sem pestanejar.

 

Vou ficar calada até ao fim, tentar perceber cada palavra por ela mesma, sem lhe meter outras pelo meio, inventadas por mim e falsamente acrescentadas ao discurso, que só traz, esta forma de ser, mal-entendidos.

 

Vou ficar quietinha, sim, que o corpo também fala, vou ficar imóvel. Enquanto ela falar não direi absolutamente nada, nem com a boca nem com a cabeça nem com a expressão do rosto nem com as mãos, sem nenhuma dessas formas infinitas que temos de comunicar uns com os outros.

 

O olhar vou mantê-lo fixo, é importante que ela perceba que estou ali por ela.

 

Vou começar, se conseguir, por mudar primeiro um bocadinho eu, para que a conversa seja mais fácil, siga um percurso natural como o leito do rio onde a água corre indiferente a tudo.

 

Já estou mais calma, já me sinto mais forte, a ansiedade está a diminuir! Sei que não existem situações ideais, mas neste encontro, para mim, o ideal seria ela falar o tempo todo e no fim eu dizer que sim.

 

Boa sorte para as duas!

 

 

Cristina Pizarro

 

10
Jun20

Crónicas de assim dizer

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Mentiras grandes

 

Não sei o que me querias naquele dia! Naquele dia em que me ias mentir e eu não permiti que me mentisses, porque não queria saber que mentiras eram essas e porque me mentirias tu, assim de forma tão gratuita.

 

Se fossem mentiras grandes, daquelas que nos deixam felizes, que nos fazem sorrir por dentro, que nos enchem a alma, que nos transportam para uma praia deserta, para um mar deserto, para uma floresta deserta, para um céu azul, para um universo infinito... mas não, eram mentiras pequenas, daquelas que não interessam para nada, daquelas tão genuinamente ridículas, que nem uma criança, na sua precoce ingenuidade, é capaz de inventar, de tão pequenas que são, porque a sua criatividade e imaginação são muito maiores que isso. Eu não queria mentiras pequenas, queria mentiras gigantes, imensas, enormes, daquelas em que só podemos acreditar porque não há ninguém que invente tanto.

 

Mas as tuas mentiras eram sempre pequenas! As tuas mentiras nem sequer tinham nome, eram tão inofensivas, tão inoperantes, tão sem sentido, tão desnecessárias, tão evitáveis, tão prescindíveis, tão quase patéticas... que eu achei que não valia a pena!

 

E mesmo sem ter a certeza percebi, não te sei explicar como nem porquê, que as mentiras que tinhas para me dizer não iam mudar rigorosamente nada e eu precisava de alguma coisa, de muita coisa, que me mudasse profundamente! E tu só tinhas mentiras imberbes, mentiras que nem sequer eram piedosas, tão fáceis de adivinhar, tão estupidamente fáceis de inventar... que eu não quis! Se fossem daquelas grandes, daquelas que fazem o coração bater fora do peito, daquelas porque há motivo, daquelas que arrancam árvores, daquelas que tudo levam pela frente, que tudo dizimam, como um fogo que alastra, descontrolado, empurrado pelo vento, imparável! Mas não, eram sempre mentiras pequenas, tão pequenas que às vezes não as dizias! E eu precisava que as dissesses! Eu tinha absoluta necessidade que me mentisses e tu não percebias ou percebias e mentias!

 

E depois eu nunca acreditaria em mentiras pequenas, ninguém acredita em mentiras pequenas. Para acreditarmos, tem que ser uma mentira muito grande e eu precisava de acreditar em coisas de que nem o diabo se lembra porque das outras, lembro-me eu, às vezes repetidamente, tão repetidamente que as memorizo e acredito depois nelas. E algumas, não vais acreditar, chego a pensar que mas contaram. Alguém, nunca tu, porque tu só contas mentiras pequenas. Dezenas, centenas, milhares, de mentiras pequenas e eu só precisava de uma, mas tinha de ser grande e tu isso não sabias fazer. Mesmo que soubesses, não querias porque estavas convencido que eu nunca acreditaria numa grande mentira e eu só não acreditava era nas pequenas, embora tu acreditasses que eu acreditava, mentia!

 

E foi só por isso que naquele dia te menti: para que não me pudesses mentir! Neste meu pequeno mundo, só cabem mentiras grandes, não há espaço para mais. Lamento, mas minto!

 

Ah, saber mentir é um dom...

 

Cristina Pizarro

 

03
Jun20

Crónicas de assim dizer

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Crítica literária

 

 

Um dia disseram-me que não se podia começar frases por “e”, nem por “mas”, nem por “ou”! E que eu começava muitas assim! Mas por uma falta imperdoável de conhecimento da Língua Portuguesa, que constituía um erro grave! Ou seja, como aqui se vê, fazia o que não podia ser feito. Não percebi, mas achei curioso!

 

Sempre considerei que não dando erros ortográficos, a pontuação era, como dizer, um acréscimo para nos fazermos entender, passar a nossa mensagem, defender o nosso ponto de vista ou até um simples adereço, como que um enfeite. Pois se Saramago ganhou um Prémio Nobel da Literatura prescindindo muitas vezes dela! E, confesso-o aqui, só percebi isso depois de o ler, quando entendi perfeitamente diálogos inteiros sem dois pontos nem tracinhos e sem parágrafos. Perguntas sem pontos de interrogação, exclamações sem pontos de admiração! Muitas vezes os protagonistas alternavam na mesma linha e ele, percebi também só ao lê-lo, distinguia-os porque ao mudar de interlocutor começava por letra maiúscula sem ter feito ponto antes. Era um sinal de que a voz mudava. Mas a verdade é que me tenho fartado de conhecer gente que não gosta de Saramago, porque nunca o leu ou porque ele tinha umas ideias políticas diferentes das que eles têm, embora muitas vezes não se percebam bem quais são, porque mudam muito de acordo com as circunstâncias e as pessoas presentes. Isto para dizer que nunca me passou pela cabeça dizer, ou até pensar, que Saramago dava erros... O que eu sempre achei é que ele era um génio, pois prescindir de enfeites ou adereços e manter-se elegante, as mulheres sabem, nem sempre é fácil!

 

Mas um dia destes tive de repensar a ideia: aconteceu-me que fui assistir a uma tertúlia, assinale-se aqui que é uma coisa completamente diferente de clube de leitura e isto foi-me dito por uma das palestrantes porque ela, sim, tinha “um clube de leitura a sério e isto é apenas uma tertúlia", em que disseram, pessoas de ambos os sexos, para que não se pense que isto é um pensamento de género, que “certos escritores cometeram erros que não se podem ignorar e que têm de ser assinalados em encontros deste género”, porque se contradiziam no texto e citaram, quando eu pedi exemplos, Agustina Bessa Luís, Paul Auster e por aí fora. Eu primeiro fiquei caladinha, até chegar àquele ponto em que me começa a dar uma comichão e a cadeira a ficar desconfortável e decidi, depois de decorridos, talvez tenham sido, 5 minutos que me pareceram uma eternidade, afirmar que eu nunca chamaria a isso erros, que pensaria antes que o autor o fez com um propósito, o que seria interessante discutir era, na minha opinião, o propósito com que ele o fez, pois se o cavalo tinha começado castanho no início do livro e tinha acabado em branco, algum sentido a metáfora faria! "Metáfora?" aqui ponho mesmo aspas para se perceber que não fui eu que perguntei. Ou, acrescentei sem corrigir, que talvez fosse uma provocação do autor, pois se é de ficção que estamos a falar e não de romance histórico, e se foi o autor que inventou os dois cavalos! Ou eles achariam que o escritor pára a meio do livro e faz intervalos para lhes dar de comer? Então se não são a sério, é ou pode ser uma intenção do autor tê-los posto, em simultâneo, de duas cores!.... Haverá alguém que pense que um escritor publica um livro sem o ter lido as vezes suficientes para se cansar dele? É por isso que depois o põe na rua: dá-me espaço, vai mas é chatear outro! E é depois com o espaço que esse deixa que o autor escreve outro. Parece-me uma interpretação simples e óbvia!

 

Claro que acabei por me calar, afinal aquilo, para além de não ser um clube de leitura, era um clube de arrogantes e eu até me aguentava bem se, a dada altura, não me começassem a dar uns coices nos pés, concretamente por baixo dos pés, em sinal de reprovação ou até com a intenção de me calar. E atenção que eu só estou a falar nestes termos, porque estavam no âmbito do debate os cavalos! Aquele que era castanho no início e depois se transformou em branco!

 

Era nesta altura que eu devia ter pedido licença para sair, fingindo um telefonema urgente que resulta sempre bem: para além de nos perdoarem a saída imprevista, ainda ficam preocupados connosco. Enfim, aqueles que ficam. E foi com esse pensamento que eu me apercebi que um dos participantes já o tinha feito momentos antes, saído para atender o telefone, e eu não me lembro do que na altura se discutia, mas levantou-se e saiu sem sequer fingir atender o telefone, porque, sinceramente, há idades em que já se pode prescindir de tudo isto, porque um gajo se está perfeitamente nas tintas e vai-se embora sem dizer que se vai embora. Um dia também chego lá! Se alguém no grupo fizer depois um comentário menos abonatório, o que saiu ainda tem a elegância de dizer: “foi para não interromper o interessante debate de ideias”. Mas o gajo foi-se embora e não voltou! Eu isto ainda não sei fazer, mas com a idade e atendendo aos progressos que tenho feito, tenho francas hipóteses de chegar lá ainda nesta vida!

 

E foi neste dia que percebi que, na escrita, se pode fazer praticamente tudo e que talvez venha daí a sensação de liberdade que ela nos provoca. Uma liberdade responsável, porque a gente diz e desdiz, afirma e contraria, muda de opinião e agrada-se por mudar de opinião! E não entendo isto como falta de coerência nem como um erro, nem como um engano, nem como um esquecimento. É assim tão difícil perceber que quem faz desta brincadeira uma profissão ou desta profissão uma brincadeira, está completamente a leste de toda e qualquer crítica?!

Tentei dizer isto ou sugerir que podia existir esta possibilidade, mas... A idade não perdoa! Se por um lado ficamos mais conhecedores com a experiência de vida também ficamos menos flexíveis. Aqui não resultou nada bem.

 

Foi nesse momento que me lembrei de duas situações de um livro da Rosa Montero, que já não retenho o nome: uma delas era a repetição integral de uma página com 60 de intervalo da outra! Passou-me tudo pela cabeça, menos o facto de ela se ter esquecido que já a tinha escrito uma hora antes! A outra situação era a descrição do elevador de um arranha-céus em Madrid, que numa das referências era quase um comboio de alta velocidade e na outra o elevador do rés-do-chão só dava acesso até meio do prédio, tendo os moradores do 51º para cima, de mudar de elevador para entrar noutro que começava aí. Na altura aquilo não me fez muito sentido, mas havia um propósito nesta dupla descrição. Fiz a minha interpretação disso, consciente de que havia muitas outras, tantas quantas os leitores. Isto tudo para dizer que quando encontro este tipo de coisas nos livros acho imensa piada aos autores e penso: este gajo tem uma imaginação! Nunca, mas nunca assumiria isto como um erro, ou descuido, porque estou perfeitamente consciente que os autores podem até levar a vida a brincar, mas, no que toca à escrita, levam-na muito a sério! Eles nunca se enganam e nunca têm dúvidas! Como qualquer pessoa, quando o que faz, faz com gosto. Estou a falar de livros de ficção (eu sei que já o tinha dito! Não é erro, ok? Há um propósito nisto.)

 

E ao pensar neste exemplo, esclarecedor do meu raciocínio ou interpretação para o que ali se afirmava, e no insulto velado que faziam a escritores consagrados, sorri interiormente e fiquei calada. Soube-me tão bem perceber em que momento exacto devemos ficar calados, porque aquilo que possamos dizer não acrescenta nada quando as pessoas têm a mente enclausurada!

 

Cristina Pizarro

 

 

27
Mai20

Crónicas de assim dizer

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Em Confissão

 

 

Tenho a cabeça cheia de histórias! Com dez, vinte, trinta, algumas quarenta, anos. Os meus amigos acham graça a isso, porque quando me começam a contar uma história eu sorrio, porque em parte já a conheço, já lhe sei ou adivinho o fim! Às vezes é ligeiramente diferente daquele que eu tinha previsto e então acrescento-lhe a “minha” variante. Também acham graça a isso, porque começam a pensar que se calhar há outra hipótese para o fim da história que tinham como certa e única.

 

De há alguns anos a esta parte, que não me acontece não ter história nenhuma para contar, seja sobre o que for e só tive consciência disso no dia em que um amigo de infância me disse: “Eu gosto de falar contigo porque tens sempre uma história para contar, seja qual for o assunto.” Foi nesse dia que me comecei a sentir velha! Tenho a certeza que o meu querido amigo, de quem gosto mesmo muito, me disse aquilo com intenção de elogio. Não foi assim que funcionou em mim! Aliás, em mim as coisas funcionam todas ao contrário, até os medicamentos. E agora deu-me francamente vontade de rir! O pai dos meus filhos, com quem estive casada 20 anos, brincava com isso. Quando me receitavam um medicamento ele dizia: “Lê lá bem para o que é que isso dá, porque em ti vai-te dar para o contrário!” E era verdade. O simples extracto de valeriana, produto natural, receitado como sedativo ou tranquilizante, a mim fazia-me trepar pelas paredes! Indicado para tomar à noite, em vez de me pôr a dormir, despertava-me. Ou seja, eu usava-o de manhã. Quando acordava mais caída, tomava uma coisinha daquelas e arrebitava.

 

Desculpem, distraí-me completamente, que é outra coisa também frequente nas idades mais avançadas, sobretudo nas mulheres: primeiro que digam o que querem… E agora, deu-me outra vez vontade de rir, mas isto é tão verdade que não resisto a contar-vos um dito do meu irmão mais velho. Quando começo a falar, poucos minutos depois interrompe-me e diz: “Cristina, abrevia!” E eu acho-lhe uma graça, porque se ele não me põe esse travão de início, eu era bem capaz de me esquecer do que tinha para lhe dizer!

 

Se calhar está na altura de arranjar alguns heterónimos. Acredito que esse desmultiplicar de personalidades pudesse mudar a agulha e resolver, em parte, o meu problema e sinto-me bem capaz de o fazer; se bem que não é só dividir e compartimentar, porque uma competência, depois de adquirida, desenvolve outras e… não tenho espaço na memória! Pior do que isso, aquilo que eu faria com uma intenção, ia sair-me com outra, o normal em mim. Ou seja, de início deixaria algum espaço livre, mas logo a seguir ia precisar de muito mais do que tinha libertado! Onde é que os punha a nascer, que profissões lhes daria, com que idade os poria? Todos vivos ainda? Algum deles já teria falecido? Iriam os outros ao funeral dele? Que conversas teriam entre si? Inventava-os desconhecidos uns dos outros, só conhecidos, amigos, teriam algum laço familiar, próximo ou distante?

 

E paro aqui, porque o meu irmão mais velho deve ter sentido que eu não tinha fim para o texto e acabou de me telefonar, a pedir desculpa por no outro dia me ter dito: “Cristina, abrevia!” e eu parti-me a rir, pela terceira vez ao escrever este texto; que lhe li de imediato. Se não se tivesse passado comigo diria que é surreal!

 

Cristina Pizarro

 

20
Mai20

Crónicas de assim dizer

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Terminal de camionagem

 

Estávamos ali na paragem do autocarro a olhar uma para outra, como se não tivéssemos nada para dizer, com tanta coisa para dizer! A porcaria das lágrimas a quererem soltar-se e nós com a força toda que arranjávamos a contê-las, só porque havia muita gente a ver e não ficava bem. Podia alguém perguntar do que precisávamos e nós não precisávamos de mais nada, a não ser de nós. E mesmo assim subiste aqueles degraus e eu deixei-te ir! Não sei o que pesou mais: se a determinação com que subiste aqueles degraus ou se a inércia com que te deixei ir! Mas nenhuma destas coisas foi verdade. Tu foste porque não conseguiste ficar e eu permiti que fosses porque não dependia de mim.

 

Demos um abraço, assim para quem não percebesse nada destas coisas até podia pensar que era uma despedida consentida, mas quando me deste um beijo no braço e as lágrimas se me soltaram, eu percebi que aquilo era uma despedida como que imposta pela vida a quem prestamos vassalagem! E foi aí que reagi, com esta teimosia de achar que devo fazer dela a minha escrava e não o meu patrão!

 

Disseste que não, repetiste que não, calaste que não! O que me custou mais ouvir foi este último! Os outros foram da boca para fora, hoje é assim, amanhã pode ser diferente. Mas o que se cala fica para sempre. É a única coisa que fica para sempre, o que não se diz! Tudo o resto é fugaz, a vida é fugaz, não devíamos permitir que alguma coisa se sobrepusesse a ela. Mas permitimos, porque não temos consciência disso. Achamos tudo eterno, até o fugaz julgamos eterno! “Foram momentos que duraram uma eternidade...” Os momentos só duram momentos! Não percebemos, não conseguimos perceber coisas tão simples como esta! E, entretanto, a vida sobe os degraus, apanha a porcaria do autocarro sem destino e nós ficamos ali a deixá-la ir, como se não fosse nossa, como se fosse qualquer vida alheia que nada nos diz e ficamos ali sem sequer dizer adeus, porque insistimos que o silêncio é uma resposta, quando respostas só há duas: sim e não. O resto é um disfarce colectivo, um carnaval diário, uma inconsciência deambulante.

 

“Não é bem assim, as coisas nem sempre são lineares, não é tudo ou nada...” ai não que não é! No dia da nossa morte, que não sabemos se tarda ou se está só à espera de uma distracção nossa, pergunta-lhe se não é assim. E nesse dia vais finalmente perceber que por mais que desejemos um sim ou um não, a gaja é bem capaz de nos lixar e emudecer e quando nós insistirmos com ela: então, não dizes nada?, vais perceber o que é ter como resposta: o silêncio, desta vez o nosso.

 

Mas talvez não seja grave, porque o que não aprendemos nesta vida, aprendemos na outra. Estas coisas, para o bem e para o mal, nunca se repetem, são como os momentos e tudo são momentos! A vida sabe e nós também, só que fazemos de conta, mais nós que ela.

 

É, no entanto, cedo para tirar conclusões, porque é também possível que isto seja um sonho! Um dia acordamos e não nos lembramos de nada. Acordamos numa outra vida, numa outra realidade, numa outra dimensão, num outro Universo! Somos outras pessoas e o que fomos não interessa para nada: nem fez nem desfez! E há ainda o sonho dentro do sonho. Um dia acordamos de um e entramos noutro, o autocarro que nos levou pode trazer-nos de volta. E por mais que tarde, nunca é tarde. O sonho que temos dentro continua lá, à nossa espera.

 

Nada é certo e há bom nisto.

 

 

Cristina Pizarro

 

13
Mai20

Crónicas de assim dizer

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Aniversário

 

Não sei como é que te hei-de dizer isto, mas não te cheguei a contar e, como o tempo ainda não passou, conto agora. Quando estavas lá deitada na UCI, o teu neto percebeu, a 8200 km de distância, que não ia conseguir ver-te mais e precisava disso, de se despedir de ti. Eu estava ali ao teu lado, mas não era possível fazer um vídeo. Naquela altura ainda não havia mentalidade COVID e as pessoas não se podiam despedir assim dos familiares, só atravessando o mar, como acabou por fazer; mas ele queria fazê-lo em vida e não dava tempo, por causa das 10h de vôo. Os médicos disseram 24, no máximo 48, mas quando dizem isso, é dali a pouco. Insistiu comigo, mesmo depois de eu lhe explicar que não era permitido. E foi tão engraçado, ias sentir, como sempre sentiste, orgulho nele. Disse-me: “Vou desligar o telefone e daqui a 2 minutos ligo-te por videochamada para ver a Avó. Tu não precisas mais do que isso para o conseguir”. De facto.

 

Sabes que eu nunca faria uma coisa dessas sem autorização e então pedi à enfermeira que estava 24h a olhar para aquele monitor onde se via se tu precisavas de alguma coisa, porque não podias falar, se podia. E ela disse que não era permitido. Então eu expliquei-lhe os pormenores: que não apanhava nenhum outo doente, nenhum familiar dos doentes que ali estavam e nenhum profissional de saúde; que só te filmava mesmo a ti porque o teu neto no Brasil insistia muito para.... Respondeu que não. Perguntei-lhe se o telemóvel ligado lá dentro podia interferir com algum equipamento médico que estava a suportar a tua vida e a daqueles outros 4 doentes, os teus últimos vizinhos; disse que não.

 

Faltavam 30 segundos, o teu neto estava quase a ligar, tu sabes o que é ser mãe, e então eu voltei a perguntar, desta vez como se implorasse: Mas se eu filmar não chama a policia, pois não? E a enfermeira Mariana respondeu que não. Era o terceiro ou quarto não que ela dizia e este soube-me tão bem! Porque foi um “não” tranquilo, como se me tivesse dito: Oh mulher pare de me fazer perguntas, o que eu não posso é dizer-lhe que sim, mas faça o que tiver vontade! Durante o telefonema olhou, zelosa, profissionalmente zelosa, uma ou duas vezes para mim. Em nenhuma delas disse que já chegava. Fingiu esquecer-se que eu estava ali e permitiu que se realizasse o desejo do teu neto e que ele se despedisse de ti. Há momentos tão únicos na nossa vida que os guardamos para sempre!

 

Olha sabes, agora lembrei-me doutro! Havia lá um enfermeiro que andava sempre com um sorriso nos lábios e naquela tarde, quando percebi que as coisas, enfim, não estavam a correr nada bem pedi-lhe se podia passar a noite lá no Hospital, não em permanência ali onde tu estavas, mas assim de forma a poder fazer-te algumas visitas durante a noite. E ele com um sorriso tão bonito, tão aberto, tão feliz, a dizer-me: “Eu percebo o que me está a dizer, mas não, não é possível”. E sabes que aquele sorriso contagiante fez-me sorrir também e não resisti a perguntar-lhe: Como é que faz isso? “Isso o quê?” Dizer que não com um sorriso nos lábios, como se faz normalmente quando se diz que sim! O senhor é especial! E ele respondeu: “Se olhar bem à sua volta, nenhum de nós aqui é normal, nem podia ser de outra forma!” Sorriu outra vez para mim. Eu sorri também e voltei a dizer-lhe: O senhor é especial! Nunca mais me vou esquecer daquele sorriso, porque era um rastilho para outro, não se podia conter.

 

Hoje era só para te dizer isto, como foi bonito aquele momento e que faz um ano que não te vemos, que estamos todos cheios de saudades e que continuas a latejar, bater em silêncio, no coração de todos nós.

Também te queria contar uma pequena vitória: hoje consegui sorrir ao pensar em ti. As lágrimas correm-me na mesma pela cara a baixo, mas consegui sorrir e eu sei que tu gostas disso.

 

Fica bem! Agora despedimo-nos assim, com esta coisa que está a acontecer fomos buscar ao baú da Língua palavras básicas, mas pouco utilizadas.

 

Cristina Pizarro

 

 

 

06
Mai20

Crónicas de assim dizer

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A sala de seis paredes

 

 

Pela segunda vez, entro na mesma sala! A sala era outra, mas para os grandes efeitos era como se fosse a mesma. Lá dentro os inquisidores mantinham a anterior postura, arrogante e altiva; o rosto inerte, inexpressivo, frio, distante, sem transparecer qualquer emoção. Corria-lhes tudo menos sangue nas veias.

 

Estavam ali inequivocamente para me carimbar. Eu sabia-o, eles também. A única diferença é que eles não sabiam que eu sabia. Por isso adiava o tempo, embora consciente de que à medida que ele passava, as paredes se moviam, aproximando-se umas das outras, encurtando gradualmente o espaço útil.

 

O oxigénio respirável na sala ia também diminuindo, mas eu sabia e eles, novamente, não, que quando ele acabasse eu respiraria o dióxido de carbono. Eu aguentaria ali até à exaustão, só me faltaria o ar quando eles saíssem da sala ou quando saísse eu. Enquanto os tivesse na minha presença eu respiraria qualquer atmosfera, sem mostrar qualquer dificuldade. Embora ela fosse crescente, eu sabia que nunca asfixiaria e isso tinha o efeito de me dilatar os pulmões e aumentar a sua capacidade respiratória.

 

Por mais desagradáveis que fossem as palavras, por mais surpreendentes, por mais desajustadas, por mais equivocas; eu ia engoli-las todas e nunca, mas nunca, as vomitaria nos tapetes de Arraiolos, nem cuspiria nas taças Vista Alegre que decoravam as mesas ao lado dos sofás de veludo camel!

 

A realidade deles era completamente diferente da minha! Nem sei se se chama realidade àquilo em que eles viviam, a mim parecia-me mais um limbo! Eu entendia a deles, eles não entendiam a minha.

 

E foi por causa desse estado desnivelado em que nos encontrávamos, facilmente assumido por mim porque a convicção era forte, que muito naturalmente -e foi exactamente isto que os levou ao choque- quando me estenderam o papel com a sentença escrita, eu pedi uma esferográfica -que obviamente não tinha, posto que eu não tinha ido lá para isso, na verdade eu não sabia ao que tinha ido e o fator surpresa cai-me como uma luva- e, em vez de assinar, comecei a fazer correcções ao texto, sem sequer olhar para os rostos daquelas abomináveis criaturas que conhecia ruga a ruga. Claro que adivinhei a perplexidade que de imediato neles se instalou e foi nessa altura que eu perguntei, como se não tivesse dúvidas: isto é um draft para eu agora corrigir, certo? Só há uma resposta para uma situação destas: ”Claro!” e foi a que tive, por unanimidade, depois de olharem uns para os outros em concordância velada.

 

Confesso aqui, que nesse preciso momento a sala deixou de ter paredes, era agora um campo aberto e lá no fundo senti-me francamente feliz, não sem uma certa “vergonha”, por eles; e muito baixinho, sem ninguém ouvir, quase como se o dissesse apenas em pensamento, saiu-me a frase do poeta: “Parvos, se algum deles soubesse que escrevo versos às escondidas!”.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

29
Abr20

Crónicas de assim dizer

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Ladrões

 

“Minha senhora, leva a mala aberta!"; dizem-me com frequência na rua. Eu agradeço, esboço o meu melhor sorriso, franco e aberto, e penso: porque é que me estão sempre a dizer isso? Nunca tive verdadeiramente medo dos ladrões de dinheiro, do que eu tenho medo é dos ladrões que me tiram coisas que são minhas! O dinheiro nunca é nosso. Hoje está nas nossas mãos, amanhã na de outros, depois volta, não sabemos se o mesmo ou outro, nunca havemos de saber nem isso interessa, o dinheiro apenas circula. Digamos que estes são os ladrões bons, aqueles que roubam porque precisam. Estes são pacíficos, chega até a ser um acto de solidariedade deixarmos que nos roubem! Depois há os outros, os que roubam por vício, por compulsão e que nos tiram coisas que são verdadeiramente só nossas, coisas que demorámos anos a conquistar e que são impossíveis de substituir porque são únicas, ninguém tem para a troca, como a nossa alegria de viver, a nossa paz de espírito, a música que trazemos dentro e que nos faz dançar às escondidas, a energia com que no dia a dia vencemos tudo e nos deitamos bem, no fim dos dias.

 

Vivemos num país em que a pena de morte não existe para crime algum e isto acaba por ser justo, seja qual for o crime ou delito cometidos. Vejamos a coisa nesta perspectiva: quem morre não sofre muito tempo nem aprende com os erros e as pessoas que cometem crimes graves devem viver muitos anos com uma pena aplicada, proporcional à gravidade da falha cometida!

 

É, de facto, pecado roubar a felicidade dos outros, assaltar-lhes a alma, deixá-los nus na sua essência, pôr em causa os seus princípios, as suas conquistas, o seu mérito, o seu valor, roubar-lhes os sonhos, tirar-lhes o tapete vermelho, o alimento que os sustenta e que os mantem vivos, a serenidade que conquistaram a preço de ouro, o bem-estar, o conforto emocional, a riqueza interior, o Sol do dia-a-dia, as fases todas da Lua, o florir da Primavera, o perfume das flores...

 

O pior de tudo é que estes ladrões o fazem sem razão, sem objectivo, sem uma meta nobre a atingir, sem qualquer propósito. Fazem-no gratuitamente, por maldade, pelo prazer de destruição, por sentimentos rascas como a inveja ou a cobardia! São vampiros humanos que nos sugam a alma, lentamente, até nos deixarem sem um pingo de energia, predadores emocionais que nos perseguem até quando dormimos, que nem sequer nos deixam desistir quando é essa a nossa vontade porque só existe a deles, numa sobrevivência ilegítima, egoísta, narcísica.

 

E eu gostava que nestas alturas alguém me dissesse: "Minha senhora, leva a alma aberta!". Tem as mesmas letras! E acreditem, sentir-me-ia da mesma forma grata, sorriria com a mesma intensidade, de forma franca e aberta, mas acrescentaria um sentimento mais: sentir-me-ia protegida!

 

Mas chega sempre um dia, por mais que tarde, em que desce do Sol um raio de luz que nos trespassa sem queimar e começamos a ter visão noturna e quando o animal selvagem vem ao nosso encontro, ainda a anos-luz de distância, damos conta que temos a alma aberta mesmo sem ninguém nos avisar. Entramos a correr pelo banco a dentro e dizemos ao nosso gestor de conta: tenho aqui uma coisa que vale mais do que ouro e ele levanta-se de imediato sem fazer perguntas, leva-nos ao cofre forte, aquele onde se guardam os segredos de Estado, entrega-nos a chave e diz a sorrir: “Leve-a consigo, guarde-a num local seguro e não diga a ninguém!”

 

Há pessoas tão solidárias, tão inteligentes e tão disponíveis para nos ajudar! Estão lá no momento certo, em horário contínuo e dão sem pedir nada em troca. É tão bom!

 

Cristina Pizarro

 

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