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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Fev20

Crónicas de assim dizer

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Lapsus

 

Afinal o cancro era benigno! Os médicos andaram ali imenso tempo, alguns anos mesmo, a fazer diagnósticos, a pedir exames, uns mais invasivos outros menos, anestesias gerais, epidurais e locais! Às vezes acordava delas como se tivesse snifado cocaína. Se bem que nunca o fiz, sabem como é, às vezes servimo-nos de imagens para ilustrar o que está claro, não vá alguém estar a dormir e acordar nesta altura, que as pessoas mais depressa acordam com o sórdido do que com o evidente.

 

O que atrasou a chegada da conclusão, foi a variedade de sintomas comuns e transversais a outras doenças e a ausência de sintomas específicos. Como é que eu hei-de dizer isto?! Por exemplo, o que é que nos faz doer a cabeça? Talvez seja mais simples fazer a pergunta ao contrario: o que é que não nos faz doer a cabeça?

 

Mas os médicos orientam-se mais pela presença dos sintomas do que pela ausência deles. Nunca perguntam: o que é que não sente? Ainda não percebi bem porquê, porque às vezes a única forma de chegarmos lá é um diagnóstico de exclusão, mas o médico pergunta: Então quando urina não sente assim um ardor…? Não, não sinto! E não vai com frequência…? Não, não vou! E o médico pensa é que somos uns gajos muito desatentos que nem a nós mesmos prestamos atenção! Mas doí-lhe, não dói, no fundo das costas, na zona dos rins? Não, não dói! Olhe, então é assim, pelo sim pelo não, vai é tomar um antibiótico de largo espectro!

 

Ninguém reparou nos sinais que, desde o início, estavam por todo o lado, escritos em todos os livros que liamos, em todas as palestras a que assistíamos, meu Deus do Céu, congressos internacionais sobre o tema e nós…, nada! Teses de mestrado e doutoramento, debates televisivos, notícia de abertura de telejornais, dias a fio em destaque… Não queríamos ver!

 

E vai daí andámos ali, para a frente e para trás, a ouvir segundas e terceiras opiniões, porque começámos a duvidar, não da primeira que nos deram, mas da nossa. A complicar o que já não era simples, surgiu o facto de que há coisas que sabemos, mas que nos recusamos a querer saber e não vamos recorrer a outros como quem angaria votos antes das eleições. Pronto, está tudo perdido! Quando começamos a campanha eleitoral já ultrapassámos a fase das dúvidas, já começámos foi a ter certezas de que, enfim, a coisa não ia dar em nada, mas se até votassem em nós, que diabo, a gente tem que fazer alguma coisa!

 

E, por estas e por outras, viciou-se um processo, que começou clarinho como a água e ia terminando em pântano! Quando começamos a pôr a nossa verdade em causa, acabámos de a assassinar, porque a verdade é que ninguém se lembra do que não existe. Sim, também é verdade que há gajos criativos como o diabo! Mesmo assim, têm sempre um fundo de verdade. Há sempre naquilo tudo uma mistura de coisas, bocadinho daqui bocadinho dali, sai-nos um rancho às vezes com um sabor inigualável! Ui, adoro rancho, mas é uma vez por outra, todos os dias cansa.

 

Tive um professor na faculdade que dizia: Às vezes o diagnóstico é lembrarmo-nos dele! E, se bem que subscreva como sábia essa afirmação, também é verdade o seu contrário: às vezes o diagnóstico é não nos lembrarmos dele! Quando partimos para o desconhecido com a convicção do que vamos encontrar, a nossa mente põe-se a trabalhar num só sentido e tudo converge. Nunca mais saímos dali! Tudo o que vemos e sentimos tem por base o que é tomado por certo, ainda que não haja nenhuma base de sustentação para isso. É assim que se forma a crença, temos o óbvio à nossa frente, alguém que nos diz: mas olha que… e nós nem deixamos que terminem a frase, interrompemos e, convictos, dizemos: Pois, mas eu acredito que… e entramos no comboio sem destino. E se dermos conta, ao fim de muitos quilómetros percorridos, que o comboio vai descarrilar porque a linha lá mais para a frente tem árvores caídas sobre ela e saltarmos dele em andamento, estamos com muita sorte!

 

Cristina Pizarro

 

05
Fev20

Crónicas de assim dizer

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Game over

 

 

O jogo nunca foi fácil de perceber, mas nós não somos de desistir. Temos esta fraqueza, confessemo-la aqui publicamente. Quando se nos mete na cabeça que somos capazes, e é muito fácil de as coisas se nos meterem na cabeça, vamos quase até ao fim. Se fôssemos mais fortes, desistíamos muito mais cedo, porque desistir é um grande acto de coragem! Mas, persistentes como somos e crentes no que não faz qualquer sentido nem tem nenhuma razão lógica para ser assim, vamos até onde podemos. E podemos sempre mais que o previsível, sempre mais que o espectável, sempre mais que o razoável; como se não houvesse um limite aceitável para as coisas e elas fossem, ridiculamente, incondicionais!

 

Chegados aqui, aceitamos - quase por inerência, aquela coisa do causa-efeito que um dia nos disseram, pessoas honestas em quem tínhamos uma confiança absoluta e uma convicção irrebatível - que é assim! Mas afinal os imprevistos acontecem! Quem é que havia de dizer que isto era possível?! Que o que tínhamos determinado que acontecesse às 10h, ia acontecer as 10h30? Afinal há coisas que não dependem de nós, que nós não controlamos, que se enrolam umas nas outras e em que o resultado pode ser um desastre e até o contrário do que era nossa intenção! E vem a voz lá de cima a fazer o comentário ridículo: o combinado era hoje...

 

Ah, hoje havia um combinado! Como se tivéssemos encomendado ou comprado a vida numa caixa, embalada em plástico com bolinhas para se não partir no transporte! Mas a caixa não trazia nem destinatário nem remetente! Nunca percebemos se era realmente para nós, nem chegámos a nenhuma conclusão de quem a tinha enviado, embalado e remetido. Mas abrimos a porta e deixámo-la entrar. Que mal é que tem?! Nunca fomos de ter assim propriamente medo e acabámos por a deixar entrar.

 

Aqui podíamos ter suspeitado que a encomenda podia ser para o vizinho, em vez de 5º esquerdo ser 5º direito, os correios enganam-se! Quem é que nunca encontrou na caixa do correio uma carta que não é para nós?! Mas a história de não ter endereço não nos fez suspeitar de nada. Ainda pensámos que podia haver uma coisa daquelas em cada caixa do correio e que até podiam ser todas iguais, mas nunca nos passou pela cabeça que podia haver troca! Aquela ingenuidade que nos é própria e que às vezes ronda a estupidez! Dizia, deixámo-la entrar, convidámo-la a sentar-se no sofá da sala, servimos-lhe um chá, umas torradinhas com manteiga e compota de abóbora com nozes, …

 

Houve uma altura em que nos pareceu, porque estávamos atentos, que ela estava ligeiramente desconfortável, parecia ter frio. Acendemos a lareira, mas a lenha estava húmida e não acendia! Fomos buscar umas pinhas, umas aparas de lenha que tínhamos no fundo do cesto e fez-se luz, mas ela continuava com ar de desconforto, de insatisfação. Fomos buscar uma manta de pura lã virgem, não, minto, era de lã e cachemira e a coisa não mudava! Abrimos uma garrafa de Porto Vintage, já me falha a memória, mas acho que era de 83, 85 ou 87 e também não resultou.

 

A conversa fluía, mas nunca mais chegava ao ponto que nós queríamos, que era dizerem-nos, em tom de confissão, aquilo que estávamos fartos de saber! Ficámos ali a olhar para ela, tranquilamente à espera. E foi então que ela se levantou, tirou a manta dos joelhos, e nessa altura já a lenha ardia e crepitava, e disse: “Vou só comprar cigarros, venho já!”

 

Até aqui, nada que nos surpreenda, acontece a todos, a história é velha! O que nos incapacita é termos ficado na dúvida este tempo todo, e já se passaram anos, se lhe deveríamos ter dito, ou não, que a gaja deixou as chaves do carro em nossa casa! Embora, nesta altura, já não façamos a menor ideia onde as chaves estão e se eram do carro ou de casa! E pomos até a hipótese de ter sido um isqueiro em ouro, embora as probabilidades sejam escassas ou nenhumas, ficámos sempre na dúvida do que deveríamos ter feito! E isto dá-nos um desconforto tal, que até com o aquecimento central ligado, temos frio. Um comportamento completamente desajustado de que não nos libertamos, exactamente por isso, porque temos consciência dele.

 

Isto tudo para dizer que quando a semana passada nos chegou a casa uma encomenda, em tudo similar à primeira, fomos tocar à porta do vizinho do 5º direito e perguntámos-lhe: por acaso não está à espera de uma encomenda?

 

O resto da história já conhecem!

 

Cristina Pizarro

 

 

 

29
Jan20

Crónicas de assim dizer

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Vida  

 

Só há esta, queres ou não? É difícil responder! Até porque quando ouvimos perguntas destas temos sempre uma desconfiança íntima, sinónimo, no nosso caso, de convicção interior, de que, obviamente, há de certeza uma outra! Mas não há! Foi aqui que começou o nosso erro e, embrenhados nele, atolados nele, nunca mais tivemos olhos para outra coisa. Um verdadeiro casamento católico! Por falar nisso, e brincadeiras à parte, isto está efectivamente relacionado. A moral cristã! Desde pequeninos a ir à missa, com uns meses de idade já lá estávamos na pia da água benta. Ainda não tínhamos apanhado chuva da verdadeira e já a nossa cabecinha careca levava com uma molha em cima. Depois a primeira comunhão! Comunhão com quê?!

 

Depois o crisma e por aí fora! Mas antes disso já nos tinham contado a história de que houve em tempos um gajo que morreu e ressuscitou ao terceiro dia. A partir daí nunca mais levámos a coisa a sério. Generalizámos e interiorizámos o conceito de eternidade, como se aquilo fosse para todos! E não foi por estupidez, mas por sentido de justiça e igualdade social!

 

Vai daí começámos a procrastinar: se não for hoje é amanhã, se não for amanhã é depois, se não for nesta vida é na outra.

 

Até ao dia... Até ao dia em que nos começou a morrer gente, gente a sério, com quem tivemos que viver sem, e em que infindáveis vezes se repetiu a cena dos três dias e eles não regressavam! 

 

Foi quando percebemos que nos tínhamos enganado ou que nos tinham enganado ou as duas coisas. Era preciso inverter ou mudar o paradigma, mas agora com a cabeça feita e o coração a descoberto ia ser muito mais difícil! Como é que agora reformulávamos as premissas? Como é que agora resolvíamos a equação? Como é que identificávamos as incógnitas? Não podíamos regressar ao passado e substituir o “x” por um valor que só agora tínhamos encontrado! Já sem professores, tínhamos que aprender por conta própria daí para a frente. E até conseguíamos, não sejamos exageradamente modestos, claro que conseguíamos. A dificuldade era outra, era esquecer o que tínhamos aprendido e em que tínhamos acreditado durante décadas! Pois que isso até fazia todo o sentido! Como é que vamos acreditar agora, em substituição, numa coisa sem pés nem cabeça? Que as pessoas morrem e pronto!?

 

Recusamos, temos verdadeira noção e uma consciência perfeita de que agora isso já não nos é possível. Porque tínhamos, para isso, de aceitar como certo, que é normal haver injustiça no mundo! Como é que lidamos com isto? Vamos construir, nesta idade, os alicerces, quando estávamos a um passo de acabar a casa? Já só nos faltava o telhado, caramba! Muito a custo, com dificuldade extrema, já tínhamos colocado portas e janelas, edificado paredes exteriores de betão, pladur no interior, porque não era preciso mais, já tínhamos feito os arranjos exteriores, a canalização em inox para a água e em cobre para o gás! Aquecimento central para os Invernos rigorosos, ar condicionado para os Verões quentes, iluminação indirecta para não ferir os olhos... A trabalheira que aquilo tinha dado... E percebermos, agora, que nos contaram uma história sobre a eternidade só porque se tinham esgotado as fábulas de La Fontaine!

 

É-nos proposto que deitemos a casa a baixo, "nada se constrói sobre ruínas" e as obras de restauro dão ainda mais trabalho! Neste caso a câmara municipal não nos obriga a manter a fachada! Vá, vamos lá alisar o terreno e começar com novas escavações! Desta vez até podemos construir algo mais sólido, fazer um parque de estacionamento subterrâneo, um abrigo nuclear, que os tempos mudaram...

 

Mas já não somos capazes, nesta altura, de acreditar no que nos dizem. Despedimos os operários, cancelamos a obra, seja ela nova ou de restauro, e aos poucos, muito aos poucos, agora já sem a eternidade pela frente a assombrar-nos, vamos colocando pedra sobre pedra, telha sobre telha e, para que não nos falte a coragem, basta-nos pensar numa imagem muito simples, mas muito sólida, que tem 5 mil anos: as pirâmides do Egipto. Fácil que é! Se eles foram capazes...

 

E agora, quando nos dizem: Só há esta, queres ou não?, respondemos de imediato: Claro que sim!

 

Cristina Pizarro

 

 

22
Jan20

Crónicas de assim dizer

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Estreia brevemente

 

As pessoas não perceberam nada! Estiveram ali 3h20 e nem se aperceberam que o tempo passou! Viram imagens, ouviram música, assistiram a representações, diálogos, enredos vários, mostrados uns em paralelo outros em simultâneo, mensagens subliminares, frases nas entrelinhas do texto... não deram conta de nada!

 

Umas vezes perceberam o contrário das coisas que eram óbvias, outras vezes entenderam o que lá não estava e convenceram-se disso como se se tratasse de verdades absolutas e universais.

 

Algumas vezes viram na realidade a ficção e na ficção a realidade. Misturaram tudo, sobrepuseram o interesse em coisas sem significado nenhum, através de um filtro interno que só nelas existe e do qual não têm consciência. Viram a preto e branco o que era a cores e a cores o que era a preto e branco.

 

Houve um intervalo, não se aperceberam dele! Entorpecidas numa realidade interna mais falsa do que imaginária e a que chamam sonho, viram coisas que lá não estavam e não viram outras que repetidamente foram mostradas, de vários ângulos, através de vários prismas, de muitos pontos de vista, apresentadas e explicadas, com exemplos para se perceber melhor e nem assim.

 

Foram colocados infindáveis cenários, com particularidades claras de intenção, tudo a convergir para o mesmo ponto! Não deram conta. Houve cenas que foram tão criteriosamente escolhidas que até parecia impossível que o fenómeno fosse consciente ou propositado. Era. Foi.

 

Tudo límpido e transparente como a água do mar nas ilhas Phi Phi. Via-se a areia branca, viam-se os peixes, os corais... via-se tudo, caramba!

 

Mas as pessoas estavam demasiado confortáveis nas cadeiras almofadadas do teatro recentemente reconstruído. Desta vez o arquitecto que tinha ficado encarregado da obra era de interiores e fez aquilo, não direi bem feito, mas acolhedor. O resultado foi que as pessoas valorizaram mais o bem-estar momentâneo que o ensinamento que dali poderiam tirar. Principalmente porque quando entraram não o fizeram nessa disposição, mas com a percepção assimilada de que já sabiam tudo e não havia nada para aprender. Quando se parte deste princípio, vedamos qualquer hipótese de aprendizagem porque se deixa de ouvir. Ou seja, as pessoas foram lá com uma única motivação: para se divertir! Mas o filme não era cómico, as piadas fáceis nunca mais apareciam e alguns adormeceram. Acordaram no fim, com a música do genérico. Confesso aqui que não era das melhores, mas até nisso havia um propósito ou uma intenção, que era dizer aos espectadores que estava na hora de ir para casa.

 

Aqui aconteceram algumas coisas. Ouviram-se frases na sala como: “Já acabou?” “É intervalo?” O intervalo já tinha sido, mas nessa altura as pessoas dormiam! Houve também quem dissesse: "Isto deve ter sido um filme!"

 

 

À saída um dos expectadores encontrou outro que tinha saído de outra sala -no Arrábida, como sabem, há dez e alguns filmes acabam ao mesmo tempo- que contou o filme ao amigo, parte dele, a parte que percebeu e o primeiro ficou tão interessado no enredo que o parou no auge do entusiasmo: "Não contes mais, que esse filme eu quero ir ver!” e sublinhou o "esse"- “Diz-me só como é que se chama?"

 

Ups!

 

 

Cristina Pizarro

 

15
Jan20

Crónicas de assim dizer

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Ser e parecer

 

 

Às vezes as coisas não são o que parecem e às vezes quanto mais parecem, mais não são.

 

É factor determinante o quê? A crença. A partir do momento em que acreditamos, está tudo estragado! Nunca mais encontramos argumentos que contrariem o que queremos ver. A nossa mente seleciona, a partir daí e de forma autónoma - como se alguma vez lhe tivéssemos dado essa liberdade! - os pensamentos e raciocínios que traz até nós, ou seja, reprime o inconsciente e apresenta-nos o consciente como sendo a verdade! Nesta fase estamos perdidos! Ou somos muito lúcidos, inteligentes e temos espírito aberto ou passamos a viver reféns, enclausurados numa prisão cujas paredes foram construídas de forma aleatória e, pior do que isso, gratuitamente. Não houve critério algum na sua edificação; nem na construção do edifício, nem na colocação das janelas, nem no local onde foi aberta a porta. No telhado foi inventada uma claraboia com vitrais para distorcer a realidade. Perguntamos qual o propósito, mas a resposta é ridícula: “dessa forma há vezes em que a luz da lua cheia é verde, outras vezes amarela, outras vezes laranja...” Mas quem foi que pediu isso? Nós queremo-la branca, tal qual ela é! Essa mistura de cores na zona do visível que podemos, se quisermos, decompor à luz do nosso prisma, compete-nos a nós decidir! Então não somos donos e senhores? Queremos ser, mas falta-nos o poder. Temos o querer, mas temos a mão de deus sempre em cima de nós! "Mas isso é bom", dizem alguns! Não era desse que falava, valha-me Deus, era deste caramba!

 

Voltemos ao princípio que daqui já não saímos. Então e se o nosso querer for muito grande? Pois é esse o caminho, antes das bifurcações! Só que depois aparecem vários e, mais do que eles, as vozinhas cá dentro: vai por ali, vai por acolá... Quando José Régio nos apresentou o poema, nós até concordámos com ele, quando são os de fora a pedir ou a dar a ordem, até nos conseguimos impor!

 

Quem de nós não tem clarividência para dizer: "Não vou por aí!"? Mas quando as vozes vêm de dentro, a quem desobedecemos? É que essa escolha e decisão têm consequências em nós e a seguir vem o outro papão que anda sempre ao lado deste: a responsabilidade da decisão tomada e a de saber gerir aonde ela nos levou.

 

É verdade, não somos obrigados a pensar nisto! São 5 da manhã, vamos dormir mais um bocadinho. Com sorte, de manhã, ao acordar, não nos lembramos do sonho!

 

O inconsciente não dorme e trabalha a noite inteira para nos infernizar o dia. Multinacionais gigantescas registaram patentes, por décadas, com princípios activos para pôr o consciente a dormir, quando o que precisávamos era de qualquer coisita para pôr a dormir o inconsciente. De preferência um produto natural, mas eu que não sou fundamentalista e porque a gravidade do caso o justifica, não me importava nada de tomar uma porcaria sintética para pôr o tipo a dormir. Compensava depois. Nesse dia, pronto, não comia peixe com mercúrio; no dia seguinte não comia carne com hormonas e no dia depois evitava a fruta com pesticidas!

 

Não sei se está clara a ideia, mas despendemos uma quantidade enorme de energia a elaborar estratégias que mais não fazem do que distrair-nos do fundamental. Ocupam-nos o tempo, mantêm-nos entretidos, não sei se era a isto que Saramago se referia quando falava da "cegueira branca" ou se era também a isto que se referia o outro que falava do "ópio do povo"! Se calhar sou só eu a forjar argumentos ou pressupostos! A parte boa é que é consciente. 

 

Ainda não vos disse, mas hoje quando acordei ás 5 da manhã, virei-me para o inconsciente e dei-lhe um ultimato: ouve lá meu grandessíssimo estafermo, só tens duas hipóteses: ou vais dormir para o quarto ao lado ou, se quiseres ficar aqui podes, mas ficas caladinho! E não é que o gajo obedeceu?! Uma pessoa tem é de se impor e de se fazer respeitar e entender isto como uma obrigação, sem nunca a pôr a discussão! 

 

Tendo determinação, até uma criança mimada, como é este o caso, entra na linha e se consegue educar! E, lá no fundo, o inconsciente não deixa de ser um filho que criámos e a quem deixámos, tempo demais, fazer o que lhe dava na real gana, convencidos, nós, que um dia haveria de crescer e atingir a maturidade! Nah, nunca lá chegará sozinho, de forma que, quando descobri isto comecei a acordá-lo todas as noites a horas várias e dar-lhe umas aulitas de "saber estar".

 

Funciona.

 

 

Cristina Pizarro

 

08
Jan20

Crónicas de assim dizer

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Do outro lado da rua

 

Uma das maiores capacidades que temos é vermo-nos como se fôssemos um outro, observarmo-nos de fora, vermo-nos, por exemplo, a atravessar a rua e do lado de cá, olhos nos olhos, descrever o perfil psicológico do outro que de nós se separou e que agora está, atravessada a passadeira, do outro lado da rua!

 

Seriamos capazes de lhe ver as qualidades e os defeitos, manter umas e corrigir ou melhorar as outras!? Estabelecer diálogos, usar argumentos que servem nos dois sentidos: na concordância e na oposição; e assistir, sem interferir, ao desfecho da conversa!? Ver como reagiríamos no caso de ela ser controversa ou, em oposição, assistir simplesmente ao debate de ideias, mais do que ao embate? De que lado ficaríamos? Com qual nos identificaríamos mais? Seriamos mesmo capazes de comunicar, fazer amizade?

 

É possível isto? Sairmos do corpo mantendo a alma incólume e subdividindo-a, sem a fraccionar? Levar de tudo a parte que seria precisa para reconstruir uma nova personalidade… Seriam gémeas? Falsas ou verdadeiras? Verdadeiros irmãos, digo geneticamente, filhos do mesmo pai e da mesma mãe?! Ou talvez nos surpreendessem as personagens que então se formariam e, a partir daí, se desenvolveriam! Seriam compatíveis!? Viveriam numa luta constante ou, ao contrário, partilhariam a parte que lhes fosse comum, respeitando as diferenças entre si!?

 

Assim me vi, de fora, do outro lado da rua e persegui a imagem tentando espiar ou perceber o que faria ela sem parte de mim! Deambularia, por certo, pela cidade à procura de um canto, de um recanto, onde se ou me encontrasse! Onde esconderia os medos incapacitantes, os desejos não fazíveis, os sonhos não realizáveis, as vontades não expressas, os sentimentos não assumidos, as emoções irreprimíveis e os pensamentos livres, sem dono nem mentor!? O que seria eu longe de mim? Sentiria alguma ausência, algum espaço por preencher, algum vazio no espírito que, agora, parecia livre e se arriscava em voos intangíveis, inacessíveis, como se de repente tivessem, no corpo ausente, surgido umas asas que permitiam à alma planar sem esforço, sobrevoando a terra, o mar e as sombras no imensurável céu, por cima das nuvens, onde sobeja o sol?! E o outro como se sentiria, o que não atravessou a rua e ficou do lado de cá da passadeira? Ou de lá, que eu não quero tomar partido nisto!

 

Se se perdessem nas ruas da cidade, deixando um de perseguir a curta distância o outro, conseguiriam encontrar-se, reconhecer-se, identificar-se!? Teriam, nesse momento, presente que se tratava de um reencontro ou teriam necessidade de se apresentarem como se de dois estranhos se tratasse!? Qual ou quem o faria?

 

Teria o acaso o poder de isso determinar, sem estar antes escrito? Pois como o poderia estar se a decisão, a ser tomada, teria partido de uma parte deles que o outro desconhecia? Desconhecia a decisão, mas conhecia a parte que, em parte, isso decidiu. É possível, pelas circunstâncias, reconhecer-se o interior das coisas, fora delas?

 

Parece arriscado o exercício! E arriscado dizê-lo sem se conhecer do que dele resultaria. Mas temos o quê a perder, objectivamente qual é o risco que corremos? Pois não sabemos e quando não sabemos, o ser irrequieto que há em nós experimenta, quase sempre, porque tem a expectativa de vir daí alguma coisa mais.

 

Assim fiz, deixei que o outro atravessasse a rua e, de propósito, enquanto ele escolhia a direcção que iria tomar, virei-me de costas. Quando retomei a direcção do anterior olhar, ele já lá não estava!

 

Percorro hoje as ruas da cidade sem propósito consciente, consciente de não precisar que haja um, embora tenha a lucidez de perguntar constantemente: o que procuro eu? E não sei, como tudo o que há em mim para ser: não faço nenhuma ideia do que seja!

 

É importante isto? Talvez não seja, mas cresce em mim a convicção de que nunca o encontrarei, embora tenha ao mesmo tempo a certeza de que se, por um acaso ou sem ele, nos cruzarmos um dia, ah sim, eu vou reconhecê-lo no primeiro olhar. Sei também que vou sorrir, mas já não tenho a certeza se o vou abraçar!

 

Pensando bem, o que é sempre difícil de fazer, talvez seja melhor ideia não o perder de vista. É ao menos mais seguro e o não saber é sempre um desconforto para a alma e para o corpo.

 

Estava exactamente a tirar esta conclusão quando, por escassos segundos, o olhar se desviou irrefletidamente no empenho do pensamento e quando retomou o lado de lá da passadeira, ele, já lá não estava. Aconteceu o que já tinha acontecido, primeiro sem pensar, depois com a consciência disso!

 

Confesso aqui, porque não me permito mentir-me, que a distracção não foi de propósito, embora eu faça muitas vezes isso. Desta vez não. Foi sem querer que perdi o outro de vista, das duas vezes! E vem talvez daí este sentimento ou sensação de que anda sempre alguém atrás de mim ou comigo e vem daqui o inconformismo, este não aceitar, esta quase culpa de ter perdido uma parte de mim por não me levar, o quanto devia, a sério.

 

Mas lido bem com isso, nesta fase há poucas coisas com que não lido bem. Fica, no entanto, o alerta de que pode ser perigoso experimentar isto em casa!

 

Cristina Pizarro

 

01
Jan20

Crónicas de assim dizer

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Meu querido Pai Natal

 

 

É a segunda vez que te escrevo no intervalo de pouco mais de uma semana, mas não me trouxeste o que eu te pedi e eu estranhei! Pensei que, por algum motivo, te tinhas atrasado e resolvi esperar mais alguns dias até me convencer que o meu desejo não tinha mesmo sido cumprido.

 

Na primeira noite foi fácil! A expectativa com que avidamente aguardamos por que as coisas nos aconteçam acaba por fazer passar o tempo mais depressa.

 

No dia seguinte mantive a esperança como uma criança que, quando deseja muito uma coisa, sabe que ela necessariamente acontecerá. Mas ao segundo dia comecei a achar estranho.

 

Desculpa meu querido Pai Natal, mas chamei-te alguns nomes feios. Não digo quais, não que não queira assumir o que disse, mas porque me envergonho de os repetir.

 

Comecei a ficar tão triste, mas tão triste, que me começou a doer o ar dentro do peito, ao respirar. Não te sei explicar muito bem, mas sabes de certeza do que estou a falar: quando uma criança vê alguém adulto a aproximar-se com uma prenda e depois não é para nós, sabes? É para alguém que está atrás de nós! Uma ilusão desfeita que é sempre maior quando passa a ser uma desilusão. Raio de desproporcionalidade! E doeu-me tanto ver as outras crianças a abrir as prendas e eu que só tinha pedido uma, sem nenhuma! Não é que seja invejosa, mas era Natal caramba e eu escrevi-te com tanta antecedência... Como é que foste capaz? Eu que até sou de exageros e só te pedi uma prenda!

 

Já tinham passado alguns dias e eu continuava sem perceber como podias ser tão mau Pai Natal, que me deixaste sem o meu presente e a pensar que, se ainda fosses o Menino Jesus da minha infância não tinha acontecido nada disto, porque ele era responsável e dava sempre conta dos recados todos! E eu acreditei sempre nele, ano após ano, embora nunca conseguisse apanhá-lo naquelas incursões que fazíamos os cinco, à vez, na noite do dia 24 para 25, ao fogão da cozinha onde estavam os sapatinhos.

 

Foi então que percebi -esta coisa do raciocínio lógico, já me avisaram, ainda me vai matar- que não era de ti uma coisa destas e que eu tinha entregado a carta a um amigo, mas não lhe disse que era para ele pôr no correio, porque era tão óbvio... Já percebeste, não foi? O meu amigo esqueceu-se dela no carro porque nem sequer estava atento quando eu disse: vou-te deixar aqui a carta que escrevi ao Pai Natal! O Porto tinha jogado nesse dia e estava a dar o resumo do jogo, sabes como é, o futebol sobrepõe-se a tudo porque dá a uma hora certa que se não pode adiar!

 

É por isso que hoje estou aqui para te pedir desculpa, por ter pensado mal de ti. Como é que eu fui capaz? Mas acho que percebes. Quando se gosta de alguém é normal confiar sem grandes explicações! E agora estou assim desencantada, com um sabor amargo como se tivesse confiado uma coisa importante a alguém e essa pessoa não tivesse dado importância nenhuma! Mas ao mesmo tempo nada está perdido. Se me prometeres hoje que trazes para o ano, eu vou ser feliz todos os dias porque por cada um que passar é menos um que falta para eu ter o que te pedi.

 

Vale, sinceramente, a pena!

 

Já pus a carta no correio, tinha ficado com um rascunho porque quando a escrevi, a primeira, passei a limpo para fazer a letra mais bonita! Desta vez já não fiz isso, mas tu percebes!

 

Cristina Pizarro

 

25
Dez19

Crónicas de assim dizer

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Gravidade

 

Há quem diga "força gravítica"; cientistas, físicos, mas não é disso que falo! É mesmo gravidade. Não tem nada a ver com aquela coisa dos astronautas dentro das naves espaciais!  Tem a ver com seres terrenos, não verdadeiramente seres humanos. Uma qualquer falta de oxigenação cerebral. A irrigação sanguínea que não chega a certas partes. Uma espécie de estase venosa ou arterial, pequenos trombos na circulação.

 

Insistimos no debate, na argumentação, na perspectiva, mas… falta o bom senso.

 

Sem tapete e com os pés a um palmo do chão, continuamos a acreditar no equilíbrio e persistimos no erro.

 

Um dia cai-nos a ficha, abrimos os olhos, cruzamos os braços e encolhemos os ombros. Estranho é o que então acontece: nada! A terra continua a girar, o dia sucede-se à noite e no dia seguinte, a mesma coisa, o Sol volta a nascer.

 

Refletimos sobre o tempo dos verbos: passado, presente e futuro. Mas há os irregulares que se conjugam sempre de forma diferente. Metemo-nos num caminho sem saída: como se faz plurais? Se a palavra for simples, é simples. Mas há muitas com hífen: dois substantivos, substantivo e adjectivo, substantivo e verbo, verbo e adjectivo...

 

Gravidade é então o quê? Do nosso ponto de vista, na nossa opinião, a nossa intuição diz-nos que, o nosso sentido crítico dita-nos que, sentimos que, pensamos que, achamos que...

 

Encontramo-nos tardiamente num labirinto com entradas e saídas várias; nenhuma a certa, ninguém acerta. 

 

No início não pusemos esta hipótese, a de nos perdermos! Tínhamos o fio de Ariadne no bolso, mas nunca o tirámos de lá, não achámos que fosse preciso e era, afinal, vital.

 

Entretanto os arbustos transformaram-se em árvores de troncos esguios e esbeltos -havia um jardineiro que tratava e podava o labirinto de arbustos como se fosse o jardim de sua casa- e, sem percebermos bem como, sentados no chão, víamos, através ou por entre os troncos, a imensidão das entradas e saídas. Tínhamos acabado de adquirir visão periférica, 180 graus, para mais e não para menos, e ficámos novamente sem chão ao descobrir que o Arquitecto paisagista tinha feito aquilo com esquadria, geometricamente traçado, apenas rectas, paralelas e perpendiculares, ou seja, depois de entrar naquele imbróglio, para sair dele bastava ir em frente. Foi por isso que quando lhe pediram para reformular o projecto ele recusou, dizendo: "Reformular para quê? Da forma como este está desenhado, é impossível as pessoas perderem-se!"

 

Mas o tempo passou e os troncos esguios e esbeltos das árvores de então, transformaram-se em troncos grossos e enrugados. Ao contrário do previsto, a visão periférica passou -há quem não entenda muito bem este fenómeno natural e até o negue- de 180 para 360 graus! Embora às vezes não saibamos muito bem onde temos a cabeça apoiada, vemos tudo.

 

O Arquitecto já não está em condições de reformular projectos. Morreu a semana passada convencido que tinha deixado um legado extraordinário!

 

Pontos de vista, é claro!

 

Cristina Pizarro

 

18
Dez19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

Querido Pai Natal

 

 

Estamos naquela época do ano, festiva ao que parece, em que as crianças te escrevem uma carta, como antigamente se fazia na altura em que não havia esta tecnologia actual, em que para se comunicar se dispensa tudo, até uma ida aos correios. Mas a evolução e o progresso não andam obrigatoriamente a par, já se percebeu, e a lógica e o bom senso também não e por isso estou tranquilamente aqui para fazer aquilo a que se chama: escrever uma carta ao Pai Natal.

 

Para te dizer a verdade acho que nunca fiz uma coisa destas, nem mesmo em criança! Nunca me ensinaram a fazer isso, nem na escola nem em casa. Na escola porque naquela altura não se usava e em casa, acredito hoje, por se notar que nunca tive competência para acreditar em patranhas, embora seja ingénua como tudo e acredite piamente em coisas inverosímeis e seja capaz de dar a vida por verdades em que ninguém acredita ou por ser estúpida que nem uma porta ou por ter uma íntima e feroz convicção. Sou mais deste último tipo, mas tenho das outras à mistura. Outra coisa completamente diferente era o menino Jesus, mas não é disso que vamos falar agora.

 

Não sei se percebeste, mas isto era uma introdução.

 

Penso, já li algumas, que nessas cartas que as crianças te escrevem, te pedem coisas que estão completamente fora das tuas possibilidades e das tuas competências, fazer. Embora sejas um ser sobrenatural, foste inventado por seres humanos, cheios de angústias, ansiedades, limitações, frustrações e por isso és, feitas bem as contas, um de nós. Assim que não te vou pedir nada de que tu não sejas capaz e se, de alguma forma achares que é um bocadinho complicado satisfazeres este meu desejo, podes sempre apelar para um dos teus inúmeros conectes a quem, imagino eu, que não deves favor nenhum, mas que o contrário já não é verdadeiro.

 

Não sei se percebeste, mas isto continua a ser uma introdução.

 

Não é que eu esteja a ganhar tempo, nunca fui de fazer isso, nem sequer a preparar-te ou a amolecer-te para tu me dizeres que sim. Meu caro amigo ou tu és Pai Natal ou não e se fores, a mim que nunca te pediu rigorosamente nada, vais ter que dizer que sim, até porque o meu pedido é muito modesto para um ser tão poderoso, capaz de vencer o tempo pois que numa só noite viaja pelo mundo inteiro.

 

E então é muito simples: quero que me tragas a minha mãe de volta, pelo tempo que entenderes. Pode ser um ano, um mês, uma semana, um dia, uma hora… menos do que isso podes ficar quieto, porque isto não é nenhuma brincadeira e sabes perfeitamente que o que ficou por dizer e por fazer também, por mais rápida e sucinta que eu seja e tu sabes perfeitamente que não sou, não era nesse tempo que o conseguiria fazer.

 

Acredita que tenho perfeita consciência do que te estou a pedir e só o faço porque acredito piamente que em toda a lista que tens de desejos, este é daqueles que para mo satisfazeres, basta tu quereres, não precisas absolutamente de mais nada.

 

Ainda tinha mais algumas coisas para te pedir, poucas, mas podem ficar para o ano. Não é nada de muito urgente, nada que não possa esperar, e um ano, nesta idade, passa depressa. Também quero manter em aberto a hipótese de para o ano te pedir a mesma coisa e só te digo isto agora para estares preparado e, caso seja preciso, tomares desde já algumas medidas que te possam ser úteis e facilitar o teu trabalho no próximo ano.

 

Dito isto, não precisas de fazer absolutamente mais nada, não te tomo mais tempo, não te ponho condições, não te peço que me informes da hora prevista de chegada nem que me avises se te atrasares. Estarei toda a noite à tua espera, e se, entretanto, me deitar, enfim por cansaço, deixarei a porta aberta, aquela história da chaminé parece-me de tão mau gosto! Não te preocupes, quando chegares acordarei ao primeiro passo teu no corredor e, se quiseres ver o rosto da felicidade, podes entrar no quarto que eu não me importo.

 

Cristina Pizarro

 

04
Dez19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

Eu e o ego

 

Eu estava numa fase mais ou menos estável da minha vida e vem-me o ego com os seus problemas existenciais e eu sem paciência nenhuma para histórias de crianças, mas ao mesmo tempo com a consciência de que aquilo era uma coisa séria para ele e lá fui ouvindo aqui e ali para depois, enfim, lhe poder dar a minha simples e sincera opinião.

 

Que o tinham empurrado por um desfiladeiro por onde ele tinha descido aos trambolhões, sem corda à cintura ou tapete por baixo, como têm os acrobatas no circo e que se tinha estatelado no chão, sem dó nem piedade e eu com uma estranha vontade de rir e dizer: Oh homem, levante-se mas é do chão, “sacuda a poeira e dê a volta por cima", aludindo à música da Betânia, mas não disse nada disso, não fosse ele pensar que eu não estava a levar a sério aquela queda abrupta, aquele suicídio lento, aquela vitimização, aquela autoflagelação e decidi decompor o problema em partes para ele ficar com a sensação de que eu o estava a levar a sério!

 

Vem-me então com a ladainha do costume: que se tinha exposto perante os outros, quem?, se os outros não existem!; que se tinha despido de preconceitos, quais?, se ainda ficou com alguns fez mal!; que tinha confiado a sua alma a Deus e que lha tinham vendido ao diabo!, e eu que não era especialista na área a achar aquela conversa, passo a expressão, de conversa de ir ao cu, como muito bem diz um amigo meu, mas a esforçar-me por estar atento e não me distrair com raciocínios lógicos e matemáticos que era sempre a minha tendência!

 

E ele continuava com interjeições, baseadas em estados de espírito, que aprofundava com exemplos que eu achava tão ridículos ou mais do que aquilo que queriam provar e perguntava-me, o ego, o que faria eu no seu lugar, se me dissessem o que a ele lhe disseram, em contextos por que eu nunca passaria porque egos não são comigo nem eu permitiria que alguém me dominasse a esse nível!

 

E eu a tentar pôr-me no lugar dele e a dificuldade a ser cada vez maior e a achar que aquilo tudo tinha por base uma enorme falta de sexo e que ele nunca compreenderia isso porque nem sequer sabia do que eu estava a falar, tal como eu não sabia o que ele me estava a tentar dizer, mas que uma coisa era certa: é que não tinha importância nenhuma. Coisa que nunca lhe podia dizer para não lhe ferir o ego, pois que era exatamente isso que ele já tinha a sangrar, só porque tinha dito a não sei quem que estava apaixonado e o outro ego lhe tinha dito que não sentia o mesmo!

 

Ora estas coisas que se resolvem de duas formas muito simples, com um “vai à merda” ou “vai-te foder”; constituíam na cabeça deste meu ego um problema do fim do mundo, só porque não conseguia articular estes dois fantásticos palavrões para os quais não há sinónimo! Está completamente fora de hipótese a terceira, de que já todos se lembraram, que é um simples “vai pró caralho!” Qualquer psicólogo a iniciar funções sabe que estes problemas do ego é assim que se resolvem! Sai-se de casa bem vestidinho, não vá a gente encontrar o Papa, depois de se ter convidado a pessoa para um jantarinho à luz das velas, com música de fundo e antes que chegue a comidinha sai-nos a frase! Regra número dois: é levantarmo-nos da mesa, depois de dizer isto, e abandonar o local sem olhar para trás. Simples que é! Mas como é que eu ia dizer isto ao ego? Não podia e não devia!

 

Ouvi-o até ao fim, deixei que se lamentasse, fazia parte da terapia, deixei que chorasse no meu ombro, limpei-lhe as lágrimas, passei-lhe a mão no pêlo, pelo ombro, pelo dorso, olhei-o nos olhos, sorri-lhe e foi então que ele exigiu mais de mim e me disse: “Então, não dizes nada?”

Pensei, pensei, pensei e as únicas palavras que me vieram à cabeça foi as que me saíram:

- Sexo oral, já ouviste falar?

E, surpresa das surpresas, o ego mandou-me primeiro à merda, depois foder e no fim pró caralho! Aqui sem aspas porque não foi pensado, o gajo disse-o mesmo! Faltou o “puta que te pariu!” Disse-o eu, porque achei que vinha a propósito, então não?!

 

Os egos são lixados, quando a gente finalmente os leva a sério porque, enfim, todos merecem uma oportunidade, os gajos ainda se riem na nossa cara! É por isso que eu, egos, não os levo muito a sério!

 

Cristina Pizarro

 

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