Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Set18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-3

 

 

Pedro e o Lobo, um outro lado da história

 

 

Esta história tem passado de uma geração para outra, transportando uma moral com a qual até ontem eu concordei e que hoje me parece falsa!

 

Pedro era um jovem solitário que passava os dias a guardar o rebanho. Os seus dias eram todos iguais: de manhã ia para o monte com as ovelhas e à noite regressava. Era magro, mal nutrido, as suas refeições eram de pão e fatias de chouriço.

 

Não tinha com que se entreter. Naquela altura não havia portáteis, iphones, ipads, … nada! Mesmo que houvesse, Pedro nunca poderia tê-los. Livros, também não podia levar consigo para ler, porque o Pedro não tinha ido à escola. O pai, lavrador, precisava dele para guardar o rebanho durante o dia, enquanto trabalhava na agricultura para poder tirar alguma coisa da terra com que pudesse alimentar a família.

 

O Pedro já não suportava a rotina, a solidão, a vida vazia que tinha e um dia, para chamar a atenção sobre si, gritou, como se grita sempre, muito alto: “acudam, vem o lobo”, de forma a que na aldeia o pudessem ouvir e alguns deles viessem para lhe fazer companhia, para lhe quebrar a rotina, para que ele não se sentisse tão sozinho.

 

Na altura não havia psicólogos nem pedopsiquiatras e então chamaram-lhe “mentiroso”!

 

Ninguém percebeu o objectivo com que ele gritou com toda a força que podia:  “acudam, vem o lobo”, e o Pedro continuou a guardar o rebanho e repetia a façanha até que alguém percebesse a solidão em que se encontrava.

 

Foi a forma de pedir ajuda que encontrou. Ninguém percebeu. E, após várias vezes repetir a proeza, a sua pobre imaginação ou o desespero não lhe permitiam inventar outra forma, as pessoas deixaram de acreditar nele. Pura injustiça!

 

Um dia veio mesmo o lobo, coisa que o Pedro não previra, e quando gritou: ”acudam, vem o lobo”, ninguém o socorreu. As ovelhas foram comidas e a culpa que durante décadas lhe atribuíram não foi dele. Não foi dele porque nunca foi sua intenção enganar as pessoas; não foi do lobo porque era um animal irracional e faminto, que precisava de se alimentar para sobreviver; não foi das ovelhas que foram, neste processo, meras vítimas. A culpa foi da aldeia inteira que não veio socorrer o Pedro quando ele pediu ajuda!

 

Não podemos deixar de acreditar nas pessoas sem antes percebermos porque é que elas fazem o que fazem e dizem o que dizem.

 

Ninguém conseguiu entender o Pedro e julgaram-no injustamente. Ele, coitado, como podia defender-se perante tantas acusações?! Calou-se e, em silêncio, assumiu a culpa que não era dele.

 

Esta história tem sido sempre mal contada, porque a moral que ela encerra não é que “é feio mentir”; o que é feio é não ajudar os outros quando eles precisam de nós. Mas, e sobretudo isto, pode haver outra razão que motivou o Pedro neste comportamento e que eu nem sequer equaciono ou prevejo, porque simplesmente não estou na sua pele!

 

Cristina Pizarro

 

 

12
Set18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-4

 

Em Tribunal

 

 

Há alturas na vida em que tomamos como fundamental aquilo que é acessório! Falo da procura da verdade. Em determinados momentos fazemos disso o sentido da vida como se isso fizesse ou tivesse algum sentido! Julgamos que há uma justiça capaz e infalível, como se alguma vez isso fosse, em realidade, possível! Mais tarde, com razão objetiva, não aparente, percebemos que a única verdade é tão só aquilo em que acreditamos, aquilo de que estamos convencidos, relegando para segundo plano o que os outros pensam, independentemente de quem os outros são! E incluímos aqui os agentes da lei, os juízes, o ministério público, os decretos-lei, etc.

 

Parece que, de repente, se abre à nossa frente uma verdade segura, ditada pela nossa experiência de vida. Factos aos quais não dávamos relevância nenhuma tornam-se, de súbito, os pilares daquilo que elegemos como a verdade absoluta, se é que este conceito tem sinónimo no quer que seja!

 

Aquilo de que tínhamos alguma dúvida passa a existir na nossa consciência como o mais provável e aquilo em que tínhamos uma fé inabalável torna-se a maior dúvida à face da terra! Quem está certo? Que premissas têm os doutores da lei para chegar às conclusões a que chegam? Quem os enganou tinha idoneidade para isso? Como é que vamos nós, meros mortais, dizer e provar que o que lhes foi dito por outrem partiu de uma mentira solidamente elaborada, ficcionada, inventada por quem tinha por objectivo provar factos contrários ao que inadvertidamente era verdade? Como é que a nossa prova, não isenta, vai valer mais em tribunal que a suposta evidência de quem se faz passar por isento, mas que o não é? Acreditar em quem, se ninguém viu, se ninguém esteve presente? Ganha o argumento mais convincente! É justo isto?

 

A cena de teatro desenrola-se à nossa frente e na nossa presença. Temos de ficar calados. Não nos é permitido, na qualidade de espectadores, dizer o que quer que seja. Não somos isentos, temos sentimentos, relações familiares ou de amizade com o arguido e isso, em tribunal, é tendencioso, isento de veracidade, autenticidade e outras coisas do tipo. Para ser considerado verdade o nosso depoimento só é válido se nós não tivermos nenhuma relação com o que ali está a ser acusado do que não fez ou do que supomos que não fez. Nesse estatuto pode-se omitir, inventar, falsear, resumidamente dizer o que nos apetece que isso é tido em conta! Embora tenhamos inicialmente jurado o contrário disso e seja considerado crime mentir no papel de testemunha! Ora, Deus não está ali e quando formos colocados à Sua frente teremos certamente arranjado atenuantes para organizar a nossa defesa, apesar de tudo Ele não deixa de ser um ser humano! Já se tivermos alguma relação com o acusado, seja ela de que cariz for, já nos fazem um desconto, proporcional ao grau de relacionamento. Se for provado que é íntimo, retira toda a verdade à prova! Porquê isto? Que lógica tem? A lógica não interessa para nada quando se está em tribunal! A lei não tem isto em conta, não o permite nem o considera como prova!

 

Claro que, neste ponto da representação, há uns mais treinados que outros e tem relevância suprema a moeda de troca: o que é que nós ganhamos com isso? Não arriscamos nada, um bocado de teatro que mal é que tem? Dizer que foi o contrário do que foi, dizer que temos a certeza absoluta de coisas que nem sequer vimos, convenhamos, que diferença é que faz? Em boa verdade não estávamos, mas podíamos ter estado! Podíamos efetivamente ter visto o que na realidade não vimos e dizer perfeitamente que isso aconteceu! E se ninguém lá estava como é que sabemos se a verdade está naquilo que estão a tentar provar? Nem sim nem não! A verdade é o quê? Sabemos lá se aquilo que estão a dizer que aconteceu não é apenas e unicamente aquilo que gostavam que tivesse acontecido? Sabemos lá se a descrição dos factos corresponde, na verdade, ao que se passou ou se é uma mera representação do que não temos a mínima ideia se aconteceu ou não! Passaram anos caramba, quem é que se lembra agora dos pormenores, fundamentais ao apuramento da verdade dos factos? Entramos no campo do relativo: o que é mais ou menos verdade, o que tem maior ou menor possibilidade de ter acontecido? Estatística agora?! Cálculo de probabilidades?! Mas não podemos ficar no limbo, é preciso apurar uma verdade, o juiz precisa de uma sentença! Vai baseá-la em quê?

 

- “Jura dizer toda e apenas a verdade?”

 

- “Sim, juro!”

 

O que entende por verdade, o que pensa que viu ou o que quer provar?, são perguntas que não se fazem! Nada disto interessa para a sentença final! Tudo isto são pormenores, complicações, handicaps, dificuldades, evasões do real!

 

- “O senhor não estava, mas se de facto estivesse presente, o que tinha visto?” Começa nesta pergunta a medida da imaginação de cada um. Nada a opor se isso não tivesse como efeito a condenação ou não do arguido. Brinca-se assim com vidas humanas, com a presumível inocência de cada um ou com a suposta culpa que se não tem! Quem justifica esta defesa ou acusação, quem a sustenta, quem a julga, que pena se aplica a esta atitude? Não está considerado em lei!

 

A lei parte de grandes princípios como a verdade, a certeza, a evidência, a irrefutabilidade dos factos, tudo coisas imaginárias! Como é que se prova que o que se diz ter vito foi o que se viu e não o que se está convencido de se ter visto?

 

O julgamento decorria com aparente normalidade. Digo aparente porque era a primeira vez que assistia a um, mas na minha cabeça os pensamentos fervilhavam!

 

De repente comecei a pensar coisas estranhíssimas! Conceitos como a culpa não me faziam sentido nenhum. Qual é a diferença entre preconceito e juízo de valor? O preconceito é nosso, o juízo de valor é dos outros, não há diferença nenhuma! Com a culpa é a mesma coisa: eu posso sentir que tenho culpa e não ter culpa nenhuma e posso achar que não tenho culpa nenhuma e estar carregada dela! Para saber a verdade era talvez preciso estar lá, presenciar os factos, mas nem isso! O ângulo de visão que eu tinha do local podia não ser o adequado, ou porque estava demasiado perto ou porque estava demasiado longe! O mais frequente é não estarmos no sítio certo.

 

Então a culpa não interessa para nada! Deste pensamento passei a outro: seja qual for a sentença, o juiz vai ser justo. Se o arguido for absolvido é justo, porque não merecia que lhe acontecesse uma coisa destas. Se for condenado é também justo, pela mesma razão, porque a vítima não merecia que lhe acontecesse uma coisa destas.

 

Na realidade o que mais me assustou foi a conclusão a que não queria chegar, mas que era inevitável: o que ficar provado como verdade é algo tão ambíguo e impalpável que tem o cheiro das coisas que não existem e não seria isto grave se não tivéssemos que viver com as consequências disso, que dependem de coisas tão arbitrárias e circunstanciais como, cito um exemplo, os pensamentos que assaltaram a cabeça do juiz durante o julgamento, quando ele olhava pela janela, para fora do tribunal! Aconteceu isto várias vezes enquanto as testemunhas de defesa faziam o seu depoimento, mas nunca aconteceu enquanto falaram as de acusação, posto que o juiz não tirava os olhos delas. Que significado tem isto? Estava a ser parcial na sua atitude? Não estava com a mesma atenção às duas metades da laranja? Favorecia uma em detrimento da outra? Porquê isso? O advogado de defesa não foi competente no seu trabalho? Foi demasiado brando? Não foi claro na sua exposição? O juiz quando começou o julgamento já tinha a decisão tomada e essa era justamente a parte que não lhe interessava, quando olhava pela janela? Ou era exactamente o contrário, ele afastava o olhar da sala para melhor se concentrar no que ouvia?

 

Consegue um juiz, durante um julgamento, esquecer por completo a sua vida e estar apenas ali? O filho não tinha entrado na faculdade nesse ano, não estudava nem trabalhava, tinha-se transformado num inútil, um adulto não produtivo e a sua educação não lhe permitia lidar com isto! A mulher nos últimos dois meses andava esquisita como o raio, sempre distraída, não dava atenção aos filhos, chegava tarde sem explicação plausível e sem sequer se preocupar em arranjar uma desculpa minimamente satisfatória. A recente perda dos pais no acidente mais estúpido de que havia memória e a filha a quem tinha apanhado erva a responder com um descaramento escandaloso: “oh pai, por amor de Deus, não stresses com uma coisa normalíssima! Isto não faz mal a nada! Não faz, pelo menos, tanto mal como o cigarro que tu fumas depois de jantar. Sabes quantas substâncias sintéticas é que tem um cigarro? A erva é 100% natural!”

 

Que parte do julgamento é que o juiz ouviu?

 

Hoje mesmo ia ter de tomar uma decisão: o filho ou escolhia estudar ou trabalhar, a terceira opção era a porta de casa. A filha tinha de largar aquelas coisas, incluindo o namorado de piercings e tatuagens que não dava duas para a caixa e a mulher ia ter de confessar se tinha ou não outro. Quanto aos pais, não havia nada que pudesse fazer. A dor da perda era insustentável!

 

Voltou ao julgamento, o réu ainda lá estava, continuava à sua frente, à espera que o senhor doutor juiz lhe fizesse a segunda pergunta para esclarecimento dos factos e apuramento da verdade e ele sem vontade nenhuma de ali estar, dá por terminada a sessão sem perguntar mais nada!

 

- “A sentença será dada neste mesmo tribunal daqui a dez dias, às 16h00”. Até isto é brutal, como é que se pode deixar uma pessoa dez dias inteiros à espera de uma decisão alheia que pode modificar para sempre a nossa vida?!

 

Mas com isto o juiz podia bem, o mais difícil ia ser hoje lá em casa, à hora de jantar, quando estivessem todos presentes. Talvez a mulher tivesse uma reunião no escritório que acabasse tarde, a filha fosse ao cinema com o namorado e o filho fosse ensaiar o próximo concerto com aquela banda de inúteis convencidos de que estão a fazer música, quando podiam estar a fazer qualquer coisa de útil à sociedade, como voluntariado!

 

Às 17h00 o réu foi absolvido. A mulher nesse dia já não voltou para casa, acabou com o casamento por SMS. A filha foi viver com o namorado e o filho arranjou, finalmente, um trabalho temporário na “Entretém Produções”. Tinha razão o juiz para estar preocupado no dia do julgamento. Somos tão injustos quando julgamos as pessoas sem ter a verdade dos factos!

 

Cristina Pizarro

 

05
Set18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-4

 

Spider-Man

 

 

Eu só queria ser o teu herói e tu a tratares-me por Princesa! Eu a vestir-me de azul e vermelho e tu a achares que eu ia a uma festa de um clube de futebol ou ao cortejo da queima! Então não vias que eu não tinha idade para essas coisas e que futebol era o único assunto de que eu não falava! E eu a dizer que sim, com vontade de não ou a calar-me pela mesma razão!

 

Então as princesas aparecem assim do nada, desaparecem num ápice como se fossem de outro planeta?! Não, as princesas são deste mundo, há uma em cada esquina, bate-se numa pedra e saem de lá dez ou mais! São quase como os chapéus!

 

Quem acontece de repente são os heróis, aqueles que não podem morrer, para continuarem a dar sentido à história, ao episódio, à série, ao filme, seja ao que for, é assim que a sétima arte funciona. E não se substituem, não há um primeiro e um depois, são únicos, pertencem àquele registo. Então que graça é que tinha a meio de um filme do 007 aparecer o Drácula?! Sentido nenhum!

 

Eu queria ser esse, o herói daquele filme, aquele que nos mantém sentados sem comer nem dormir, colados à tela sem fazer intervalo ou nos põe no sofá a ver 10 episódios seguidos da mesma série, mordidos de ansiedade à espera da nova temporada!

 

E tu a repetires o Princesa e eu a querer o papel de protagonista no romance, que podia ser em tempo de guerra, de cólera, num cenário qualquer… Romance em termos literários! O amor vem depois, vem misturado, pode até não vir ou vir com outro nome.

 

Que importância é que isso tem? Agora o que é imprescindível, como princípio no narrador, é a caracterização da personagem e tem de ser, como mínimo, inequívoca. Para isso tem de ter um nome, como nos CC, que responda à pergunta, implícita ou subjacente, de identidade!

 

E tu a insistires... E eu a arriscar um bocadinho mais e a colocar por cima, desenhada, o que parecia ser uma teia! E tu a achares que eu precisava de levar o fato à lavandaria!

 

As princesas não trepam pelas paredes! Perdem estupidamente os sapatos quando regressam das festas, a caminho de casa. São coisas que não lembram ao diabo, démodé, se quisermos um pouco mais de elegância.

 

Então onde é que já se viu, uma princesa a voar no céu das ruas de Nova Iorque com apenas um sapato, a fada-madrinha atrás, os sete anões pela mão... Nada disso, o que eu gostava mesmo era de ser o teu herói! E nem era bem pelo boneco, era pela marca que deixa, que não se esquece, mesmo de máscara, reconhecemo-lo pela intensidade do beijo!

 

Mas, se fosse só isso… Não era! O só era outro.

 

Tu só querias ser o meu herói e eu a tratar-te por Querido! Tu a vestires-te de azul e vermelho e eu a achar que tu ias a uma festa de um clube de futebol ou ao cortejo da queima! Então não via que tu não tinhas idade para essas coisas, embora o futebol fosse um assunto de que tu, às vezes, falavas! E tu a dizeres que sim, com vontade de não ou a calares-te pela mesma razão!

 

Tu querias ser esse, o herói daquele filme, aquele que nos mantém sentados sem comer nem dormir, colados à tela sem fazer intervalo ou nos põe no sofá a ver 10 episódios seguidos da mesma série, mordidos de ansiedade à espera da nova temporada!

 

E eu a repetir o Querido e tu a quereres o papel de protagonista no romance, que podia ser em tempo de guerra, de cólera, num cenário qualquer… Romance em termos literários! O amor vem depois, vem misturado, pode até não vir ou vir com outro nome e tu sabias e eu também!

 

Um dia ainda havemos de fazer um filme! Fará sentido um filme com dois Spider-Men? Então e o vilão, deixamos para quem?

 

Cristina Pizarro

 

 

29
Ago18

Crónicas de Assim Dizer - Heteronímia

assim dizer

 

Heteronímia

 

 

Se calhar a ideia dos heterónimos, para além da descrita por Fernando Pessoa na carta a Casais Monteiro, pode ter mais uma explicação: a de pretender sobrepor uma personalidade a outra que se acha intolerável e com a qual não conseguimos lidar ou conviver! Matamos uma e damos vida a outra, mas não resolvemos o assunto, porque a personalidade abafada é demasiado forte e está sempre a interferir na agora jovem e recém-criada. Ora, está tudo estragado, porque é nesta fase de crescimento que se absorve tudo, o bom e o mau, e a anterior personalidade acaba por ser uma má companhia para esta nova, porque está sempre à espera de uma oportunidade, possibilidade, para intervir. Diria que é ainda mais nocivo, a antiga espia a vida da actual! Não é saudável nem honesto.  Foi talvez por saber isto que Fernando Pessoa fez um trabalho antes da criação de cada novo heterónimo e eu ainda não tinha percebido a razão disso ou a necessidade dele! Chamou-lhe “despersonalização”. Com quatro, para abreviar, aquilo deve-lhe ter dado uma trabalheira!

 

E isto eu não consigo fazer! Identifico, numa primeira fase, várias pessoas, mas depois não consigo ser fiel a nenhuma delas! Mantenho os traços fortes da personalidade mãe em todas elas e isto uniformiza-as e quanto mais eu as pretendo fazer ser diferentes, mais elas lutam entre si e acaba por vencer sempre aquela que de início eu pretendia assassinar!

 

Começa tudo de forma muito simples: imaginemos, só para dar um exemplo, que começo numa personagem que é homem. A poucos passos de a criar, quando ela começa a evoluir e a afirmar-se, logo vem a feminilidade do carácter, a sensibilidade à flor da pele, o pensamento díspar, a falta de lógica, a emotividade, a histeria, a versatilidade, a simultaneidade de comportamentos quase opostos e a convivência pacífica com todos eles, ao invés da intolerância! Já se me faço passar pelo sexo oposto, e este não é outro exemplo, após os primeiros passos dados nessa pele, que pretendo vestir na íntegra e completamente, vem-me logo a objectividade, a racionalização, o ser sintético, o pragmatismo, a consciência do ridículo, o rigor com que me não desvio do plano elaborado. Ou seja, se é que há relação nisto, não consigo fazer ser nada completamente, começo por ser um e acabo no outro!

 

Imagino ser, crio-me num ser. Faço com relativa facilidade a descrição do boneco, exterior e interior, e quando as coisas estão a chegar quase ao ponto de ele parecer real, atrapalho tudo e precipito-me em sentido contrário. Com a mesma realidade e convicção termino no avesso do começo! Estou numa das margens do rio, que defino, que delimito, que estabeleço, que determino, a quem empresto um corpo e uma alma e quando esse ser está quase a ser autêntico, genuíno, eu induzo nele a inversão de papéis. Não sei porque o faço! Se é um desafio a que me obrigo, se é o medo da proximidade de uma conclusão que se impõe, se é a dúvida de estar a cometer uma injustiça, a salvaguarda do que não é de todo assim ou se é apenas a falta da segurança necessária para ser capaz de estabilizar uma personalidade, definida em linhas mestras em que não acredito e nas quais tenho imensas dúvidas!

 

E há o querer, o raio do querer com um poder assustador, magnânimo, grandioso, decisor, que tudo vence, até coisas tão incríveis como a vontade, a voz que vem de dentro, impossível de calar: mas eu não quero! Ou então a outra, ainda pior: mas eu quero!

 

E não sei se é por isto que não consigo, que não sou capaz de manter uma personagem coerente, que transmita uma identidade inequívoca.  Quando estamos quase a acreditar que é assim, vem-nos o contrário disso. É desconcertante! Há quem goste, há quem não goste. Nada disto é grave. O que me parece não grave, mas assustador, é que me estou perfeitamente nas tintas para isso. Pura e simplesmente: tanto me faz. É talvez esta a única coisa que tanto me faz! Lido com isso tão naturalmente que chego a pensar que se calhar não sou eu, que é antes aquela personagem a quem fiz nascer, criei e eduquei para que se estivesse perfeitamente nas tintas! E desta vez não só para isso, mas para tudo o resto! E é esta que vence, a desgraçada! E eu não me importo nada com isso, porque me estou perfeitamente nas tintas, para isso e para tudo o resto!

 

Cristina Pizarro

 

 

 

22
Ago18

Crónicas de Assim Dizer

assim dizer

 

 

Vida de papel

 

 

Cada vez mais tenho a consciência nítida, com uma lucidez que quase embacia a realidade, de que vivo num mundo de papel. De vez em quando, não estaria errado dizer: com frequência -os dois termos estão correctos e são aceites na 7ª edição do Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora- visito o mundo encantado dos brinquedos do Continente. Desmonto, sem desfazer, alguns deles. Nunca o faço para ocupar o tempo ou gosto de destruição nem até por aquela curiosidade inata das crianças, para saber como são feitos! Faço-o por uma única razão: para saber se sou capaz de os voltar a montar, se têm outra hipótese de construção que sirva o mesmo propósito e que agilize a tarefa. Isso, sou preguiçosa, não gosto de construir de forma difícil uma coisa que é fácil de fazer! Também, sim, sou trapalhona, quando as peças encaixam facilmente penso logo que acertei e digo: que sorte, como uma criança que mete a bola no cesto de basquete à quarta tentativa, quando podia na realidade só o ter conseguido na oitava vez que o tentasse!

 

Neste meu mundo de papel, sou eu que faço as vozes, as vezes, as perguntas e as respostas. Mesmo quando, por imprecisão ou desatenção, não há objectividade nelas, volto atrás e corrijo. Ninguém se magoa, ninguém é enganado, não há qualquer dor, sofrimento ou fingimento, o que há é honestidade. Conheço os contextos, as circunstâncias, as razões, as feridas, estejam elas abertas ou fechadas, sei lidar muito bem com isso e não culpo ninguém por isso, sou uma pessoa séria. Também tenho medos e também são verdadeiros, tanto que até dá medo e que são, também eles, de papel!

 

Viver assim é fácil, é mesmo muito fácil. Mesmo quando me confesso e denuncio publicamente, sempre por sinceridade e nunca por fraqueza, e me dizem: olha o que eu faço com o teu mundo de papel, rasgando-o, eu faço outro. Aproveito para o melhorar, escolho um papel mais forte, mais resistente, mais liso, menos rugoso, menos susceptível a fracturas, a danos, a interferências, a intromissões, a juízos de valor, a críticas que não acrescentam nada, a comentários infrutíferos, a opiniões inférteis, a conclusões vazias, a comportamentos desajustados, a violências gratuitas, a certezas infundadas. E continuo, leal e fiel a mim mesma, mudando de ideias e de opinião e, de forma natural e saudável, crescendo sempre com e em todas as situações.

 

Não me espanta absolutamente nada que isto seja incompreensível e que haja até quem considere insustentável e insuportável viver assim. São pessoas que, na realidade, não existem. Existe apenas o mundo em que elas vivem, mas elas não existem nesse mundo e eu preciso com necessidade absoluta de existir, independentemente de o mundo à minha volta ser ou não real, eu tenho um, é de papel, mas existe e é tão bom viver assim, com a perfeita noção da importância das coisas, ainda que temporária, fundamental!

 

Cristina Pizarro

 

15
Ago18

Crónicas de Assim Dizer - Pinóquio, como deve ser

assim dizer

 

Pinóquio, como deve ser!

 

 

As pessoas querem-nos pinóquios, bonecos, artificiais, de madeira.

 

Um toque de verdade fica bem, como o do Pinóquio que quando mentia lhe crescia o nariz! Não exagerar nos detalhes para manter o sonho, a magia ou a fantasia de que é feita a vida e o objectivo das pessoas.

 

Um sorriso nos lábios, um risco preto nos olhos, uma maquilhagem muito leve para esconder a flacidez dos músculos e as poucas rugas que ainda temos, mas tudo em equilíbrio. A demasia propicia a que nos achem palhaços. E, embora gostando de circo, a ideia das pessoas é dizer que não gostam, porque o circo é o espectáculo dos pobres.

 

As pessoas inteligentes e cultas gostam de teatro, ter os artistas ali à sua frente para tornar mais real o palco da vida. No circo é tudo a fingir!

 

As roupas querem-nas sóbrias, mas sem serem simples; descrição quanto baste, mas pensada, adequada ao tempo, ao contexto e às circunstâncias.

 

Tudo deve ser pensado ao pormenor, embora tudo de forma muito disfarçada porque as pessoas gostam de se enganar sem terem consciência disso.

 

O cabelo deve estar sempre impecável, com ar selvagem, sem laca, sem espuma ou gel, mas imaculadamente limpo, com perfume a rosas ou jasmim.

 

As unhas não demasiado curtas nem excessivamente compridas para não parecer que somos fúteis ou desprovidos do cérebro que sustenta os cabelos selvagens e imaculadamente limpos.

 

Os sapatos devem parecer sempre que é a primeira vez que os usamos, com brilho mate para não parecer que vamos a um casamento ou baptizado, o que seria um despropósito, mas também não devem parecer que foram os mesmos que usámos ontem ou a semana passada.

 

O olhar deve ser algo vivo, para mostrar acuidade na percepção dos factos, mas nunca deve parecer curiosidade desmedida, pois que isso é interpretado como falta de educação e intromissão na vida alheia.

 

O andar deve ser compassado, firme, mas nunca parecer uma luta contra o tempo nem  que estamos atrasados para o que quer que seja. Personagens como o coelho da “Alice no país das maravilhas”, deve ser evitado. Também não pode ser lento, mostrando indolência ou falta de motivação. No equilíbrio está o equilíbrio.

 

A atitude a ter nas conversas é de expectante, se houver perguntas a fazer, depois de colocadas, entregar o microfone. Não entrar em diálogo é fundamental. Aceitar como resposta o que nos é dito, mesmo que nos respondam a outras coisas. A resposta a quase tudo está dentro de nós. O que ficar por satisfazer será respondido em outras alturas ou por outros interlocutores. Não devemos esperar tirar todas as dúvidas no mesmo dia ou com a mesma pessoa. Ninguém sabe tudo!

 

Quando houver surpresa ou indignação perante comportamentos alheios, nunca o denunciar. Nós somos iguais ou piores. A não compreensão dos outros, quando ela é expectável, funciona sempre contra nós: ou não somos conhecedores da natureza humana ou não tão inteligentes como a pessoa que se acabou de manifestar.

 

Aceitar os contrários como sendo iguais, se reflectirmos um pouco a diferença não é assim tão grande. O universo em que nos movemos é demasiado pequeno para conter em si a existência de contrários. Nunca perder de vista o relativo, a noção de perspectiva ou os erros de paralaxe.

 

Quando alguém se substituir a nós, aceitar pacificamente a noção distorcida que disso têm. A paz só é fundamental dentro de nós nem a outra devemos aspirar.

 

Nunca mostrar inquietação quando é previsível tê-la. Esta atitude transmite maturidade e saber estar.

 

Se tivermos que mentir a alguém, que seja aos outros, eles depois vão para casa deles e nós vimos para a nossa.

 

Não devemos dizer ou fazer nada que nos perturbe o sono. Se for manifestamente impossível que isso ocorra, que seja antes do meio-dia. Depois dessa hora tudo deve ser concordante com o que tiver de ser. Nada que nos tire o sono vale a pena.

 

Quando as questões forem fundamentais, devemos abster-nos de emitir opiniões. Nunca conseguimos agradar a gregos e a troianos e o desconforto de nos acharem rebeldes não compensa a tranquilidade de pensarem que quem cala consente. Mesmo que estejam errados são eles que erram, não nós. Que diferença é que isso nos faz?! Se a vida fosse um tribunal em que jurássemos, sobre a Bíblia, dizer toda a verdade e nada mais que a verdade, havia um motivo! Na ausência desse, não há outro.

 

Nunca ninguém se arrependeu de ter dito o que não disse. Existindo alguma dúvida de cariz ético, é nisto que devemos pensar.

 

Por mais complicada que a nossa vida seja, nunca e sob pretexto algum, esteja quem estiver presente, o devemos admitir ou confessar. Não precisamos disso, quando for impreterivelmente necessário, temos a sombra. Para que raio pensamos que ela existe senão para aguentar connosco quando nós já não aguentamos mais com nada nem sequer com ela?! Às vezes parece até que não pensamos.

 

No que ao Pinóquio diz respeito, é um boneco, artificial, de madeira e, como se isso não bastasse, ainda lhe cresce o nariz quando mente, tendo uma forma tão fácil de o evitar!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

08
Ago18

Crónicas de Assim Dizer

assim dizer

 

O encanto que desencanta e volta a encantar

 

 

Faz parte do nosso imaginário! A alguns de nós não chega a realidade, efabulamos! O processo é, em alguns casos, consciente. Sabemos no que nos metemos. Fazemos um esforço, não muito grande, para acreditar em imagens que construimos, em raciocínios que deduzimos.

 

Inventamos, fazemos o filme todo. Criamos personagens, cenários, diálogos, tiramos conclusões, argumentamos... até aqui tudo bem. Somos criativos, pegamos em realidades mal explicadas, com pouca lógica e emprestamos-lhes alguma, é saudável. Afinal quem é que consegue viver num mundo onde não há causa e efeito, onde só vemos pontas soltas, onde as coisas existem sem haver uma razão que as suporte? Gente sem interesse nenhum! E nós somos diferentes, então o que é que custa?, temos lucidez que chegue para pôr alguma lógica no que não a tem.

 

Mas, e começamos a falar da parte má, há coisas que por mais que pensemos nelas não lhe conseguimos arranjar um motivo. Passamos por elas e não as entendemos, dormimos sobre elas e não lhes encontramos qualquer explicação. As que arranjamos não servem. Começamos então a partir de pressupostos que façam, na medida exacta, parecer real o que não é. Há coisas em que isso é uma questão de tempo. Para essas é pacífico o anteciparmo-nos a elas, mas há coisas que por mais que nos contorçamos nunca hão-de ser o que nós projectámos que fossem. É aqui que começamos a passar mal. Começa tudo a fugir-nos ao controlo, de que gostamos; começamos a descobrir coisas em nós de que não gostamos, como o não ser capazes de mudar o mundo, como o não conseguirmos que os outros sejam como nós gostaríamos que fossem. E isto do “gostaríamos” é já uma nuance porque o termo certo seria: “queríamos” que fossem.

 

Talvez esteja na altura de parar com isto e começarmos a pensar. Que nome tem esta prática? Fuga, não mais do que isso e se for é pior, distorção! Acorrentamonos a certezas que são apenas nossas, de certeza têm pouco!

 

Façamos uma experiência. Vamos abrir as asas, que as temos, e sobrevoar o presente finito, o de hoje. Quem sabe se quando no balão de ar quente se esgotar o combustível não aterraremos numa realidade possível, com a qual possamos conviver, deixando de lado, sem matar, a criança que temos dentro de nós! É bonito, mas já não temos idade para isso, crescemos entretanto. Temos que aceitar isto. As histórias infantis faziam sentido e provavelmente ajudaram a formar os adultos que hoje somos, mas continuar com elas presentes num cérebro que já viveu depois disso, é desajustado.

 

E talvez fiquemos agradados com a viagem e com a paisagem, agora vista de cima! Talvez nos surpreenda a dimensão das coisas. As pequenas desaparecem e as grandes ficam pequenas. Questões de altitude, de perspectiva. Somos bons nisso, aproveitemos. Talvez possamos, desta forma simples, afastar os contornos inúteis, os detalhes supérfluos, as arestas excessivas...

 

Estamos novamente, pela vez sem conta, a construir um mundo virtual, encantado. É uma coisa que fazemos bem e com agilidade, já nos habituámos a isto. Se é iludirmo-nos outra vez, que mal é que tem? Quem é que disse, quem foi que escreveu, que a vida tinha de ser real? Ora, falavam da deles, não da nossa e porque razão haveríamos de seguir ensinamentos que nos são alheios? É como se tentássemos vestir uma roupa que não é nossa. Ou nos fica apertada ou nos fica larga, mas não nos fica bem e, se ficar, não é nossa! E nós percebemos tanto de corta e cose. A quantidade de coisas que já fizemos nessa área!  Não serviu de muito, é certo, mas ficou-nos o jeito! Fazendo bem, importa o quê?

 

 

Cristina Pizarro

 

01
Ago18

Crónicas de Assim Dizer - A luz do túnel

assim dizer

 

 

A luz do túnel

 

 

No meio de toda aquela escuridão eu via lá no fundo, a uma distância que não conseguia medir com os meios que tinha, uma luz. Era uma luz muito pequena, como se fosse um olhar de um felino, que de vez em quando se apagava como um piscar de olhos.

 

Seria um gato?! Um gato cego?! Eu só via uma luz e não duas, mas àquela distância como é que eu podia ver o olho de um gato?! Seria um leopardo?! Um leopardo cego?! Uma pantera negra?!

 

Fosse como fosse eu aproximava-me da luz como se fosse, e era, o meu único ponto de referência.

 

Andei durante vários quilómetros, talvez uns 80 ou 100 e a luz permanecia do mesmo tamanho, como se a distância por mim percorrida não me aproximasse nem um centímetro dela! Seria que à medida que eu caminhava na sua direcção, a luz ia diminuindo, proporcionalmente, de intensidade de forma a parecer, ilusoriamente, que eu não me deslocava? Ou seria que à medida que eu me aproximava dela, ela se afastava de mim à mesma velocidade? Seria que era o chão sob os meus pés que se movia? Que eu andava como num tapete rolante de ginásio ou aeroporto, percorrendo uma distância enorme, sem sair do mesmo sítio?

 

Era estranho. A luz continuava ali e eu não sabia onde estava! Parecia um túnel, mas na verdade eu não podia afirmá-lo porque fisicamente eu não tinha visto nem tocado, nem tinha tido, sob nenhuma forma, acesso às suas paredes ou limitações. Era uma simulação: a presença da escuridão e a luz num ponto fixo, faziam-me ter a ilusão de estar num túnel.

 

Mas eu nem sequer podia, em rigor, afirmar que a luz era fixa! Ela podia até ser móvel e recuar à medida que eu me aproximava, mantendo assim sempre a mesma distância entre nós.

 

Eu queria atingi-la, sem nenhuma razão aparente, mas com todas elas presentes. Em primeiro lugar eu queria sair da escuridão e essa era, logo à cabeça, a razão porque eu perseguia a luz. Talvez ao atingi-la ela me queimasse, de momento isso não era uma preocupação para mim, tinha outras mais urgentes: sair daquela penumbra. E a razão, o motivo porque o queria não era medo. Em todo o percurso nunca tive medo, eu queria ver era qualquer coisa, algo que me dissesse que era eu que estava ali, que não era um sonho, que não era um pesadelo, alguma coisa que me fizesse acreditar que aquela era, justamente, a realidade onde eu me encontrava, tivesse ou não significado!

 

A luz era atraente, tinha um brilho natural, azulado, parecia mesmo o olho de um felino ou uma estrela longínqua que cintilava, inacessível, mas presente. Dando-me a esperança de a poder tocar e ao mesmo tempo intangível!

 

Podia até estar no céu e não no fundo do túnel e por isso, pela distância a que estava, a minha aproximação não interferia no seu tamanho, a tal ponto era desproporcional o tamanho dela à distância por mim percorrida.

Fosse como fosse, ela estava lá e era o único ponto de referência, de orientação que eu tinha, embora eu não conseguisse perceber em que sentido se efectuavam os meus movimentos: se eram em frente, se para trás, se para os lados, se até em círculo e que talvez por isso é que eu não saía do mesmo ponto!

 

Precisava, para o saber, de ter uma outra referência, mas não a tinha, tirando aquela pequena luz, tudo à minha volta era escuro. Até dentro de mim a luz da vela se tinha apagado por ter já respirado todo o oxigénio ali presente. Agora, o que havia dentro de mim era dióxido de carbono a intoxicar-me gradualmente, a deixar-me tonta, em desequilíbrio até cair no chão e ficar horizontalmente estendida.

 

Ninguém veio buscar-me, ninguém se aproximou, ninguém se apercebeu da minha ausência! Teve de ser o nascer do Sol a dar comigo ali, estendida, inerte, só, abandonada e triste, sem saber de onde vinha e para onde ia. Em qualquer dos casos levantei-me e dirigi-me não sei para onde! Agora, com a luz do dia, nem a luz do túnel eu tinha como referência, mas sorri. Também, agora que era de dia, já não precisava dela para nada!  

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

25
Jul18

Crónicas de Assim Dizer

assim dizer

 

O bom de uns e de outos

 

O que as pessoas têm de bom é:

 

O espírito crítico e a inteligência, que nos permitem analisar situações de vários pontos de vista com isenção e racionalidade. A questionar tudo e todos sobre os usos e as crenças, evitando os vícios.

Aceitar pacificamente o que lhes é dado, ordenado ou imposto, de forma a viverem em harmonia com o mundo, em paz consigo e com os outros e tranquilamente as suas vidas.

 

Amar-nos com prioridade absoluta, sem termos de hipotecar a nossa felicidade a agradar aos outros e ao seu bem-estar, por compreendermos que só estando de bem connosco é que podemos ajudar alguém.

Amar o próximo como a si mesmas, sendo solidárias com o outro, pondo-se no seu lugar e compreendendo as diferenças no que parece inconciliável e inaceitável.

 

Defender com argumentos sérios, justiça e determinação a nossa forma de pensar e ser, exigindo para nós o que queremos alcançar e a que temos direito.

Aceitar os outros como são, respeitando os seus pensamentos e aquilo em que acreditam.

 

Tentar mudar o mundo para que o futuro dos nossos filhos seja melhor que o presente de hoje numa luta contra o tempo, escasso que é.

Deixar que o mundo siga o seu percurso normal e natural, ao seu ritmo, porque a natureza é sábia e faz com que as coisas sigam o curso que forças superiores a elas determinam.

 

Proporcionar e incentivar, alimentar até, o confronto de ideias, permitindo alargar o conhecimento e que ele evolua sem qualquer fronteira.

Evitar o conflito em qualquer situação, nunca antagonizando nem extremando posições que sabemos antecipadamente não serem da concordância do outro.

 

Não deixar que influências externas interfiram no nosso comportamento, nos nossos valores, éticos e morais, defendendo-os em todas as ocasiões, fazendo-os respeitar com autonomia e soberania como se se tratasse da bandeira ou da língua de um país.

Ter espírito aberto, de forma a apreender com humildade a experiência e sabedoria dos outros, mudando velhos conceitos, abandonando preconceitos, sendo livres e flexiveis com as atitudes alheias.

 

Há pessoas que têm umas coisas de bom e outras que têm outras. Umas agradam a uns e outras agradam a outros, mas o que as pessoas têm de bom não existe! 

O que existe é o que nós temos de bom, para nós e para os outros, mas sempre do nosso ponto de vista!

 

Cristina Pizarro

18
Jul18

Crónicas de Assim Dizer - Alice nos país das ilhas

assim dizer

 

 

Alice no país das ilhas

 

 

Flutuavam como palmos de terra à superfície das águas, mas não estavam verdadeiramente plantados nas profundezas do mar. Eram placas móveis, placas de esferovite, semelhantes àquelas com que, nas piscinas, as crianças aprendem a nadar.

Com pouca consistência, suportando pequenos pesos, não serviriam de nada a quem se sentisse aflito e não soubesse nadar.

 

E ela a teimar que aquilo era um arquipélago!

 

Estavam dispersas, simultaneamente perto e longe, com forças inexplicáveis a uni-las, flutuavam ao sabor do vento e da ondulação, que no mar alto é perigosa e imprevisível. Pareciam mais destroços de um naufrágio do que verdadeiras ilhas.

 

E ela a teimar que aquilo era um arquipélago!

 

Nadava entre elas, segura de que a suportariam quando se cansasse de nadar e quisesse, calmamente, deitar-se nelas e deixar que o sol banhasse, alternativamente à água, o seu corpo frágil de eterna criança.

 

Cansou-se, experimentou uma a uma todas as placas flutuantes daquele mar agitado que pareciam ilhas, mas não eram e todas submergiram ao seu peso, escorregaram por baixo de si e fugiram, continuando a flutuar, criando a ilusão, não a si que a perdera, mas a outros que as observassem de longe, de que eram verdadeiras ilhas.

 

E ela a concluir, tarde de mais, que aquilo não era um arquipélago!

 

O seu corpo flutua hoje sobre as águas, não o sente, à procura de terra firme que, sem grande esperança, teima em acreditar que existe, não muito longe dali.

 

 

Cristina Pizarro

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • JM Naturopatia

      Fantástico trabalho de recolha e divulgação de um ...

    • Anónimo

      gostaria muito de um dia poder conhecer. meu pai v...

    • Anónimo

      Não me admiraria se esta fotografia fosse «roubada...

    • Anónimo

      Sou alfacinha de gema, mas gosto de vos ler; olham...

    • Joaquim Ferreira

      Tantos anos passados, tantos sonhos por realizar.Q...