Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Nov18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

O hábito faz o monge

 

 

O desespero é bom. O desencanto é bom. A desilusão é boa. Tudo graças ao forte instinto de sobrevivência que temos, como animais selvagens que somos.

Chegados aqui, estamos num ponto importantíssimo: o ponto de partida para muita coisa e não faz diferença nenhuma se temos 40, 50, 60 ou 70 anos! 

 

Começamos então a identificar, com facilidade extrema, o que nos interessa e o que não, o que é verdade e o que não, o que nos é útil e o que não, o que nos faz bem e o que não.

Um exemplo simples: ouvimos, hoje é frequente isto, muita gente a falar da gestão da expectativa, mas fazem-no em nome individual, gerem a sua, não gerem a que o outro tinha deles e se pensarmos nisto temos que achar que não fazem mal, ao contrário, fazem bem, porque as expectativas que nós criamos sobre os outros e as situações, são uma ficção nossa. A tradicional frase: Faz parte do nosso imaginário. E sobre a mesma coisa ou pessoa, há variadíssimas ficções e versões! E a quantidade e a qualidade delas, dependem de quê? Exactamente, do nosso imaginário, da nossa capacidade de efabular, do quanto criativos somos. Porque e quando o fazemos? Quando nos sentimos vazios por dentro e não percebemos que só nós é que os podemos preencher, para que o processo seja eficaz e duradouro, porque os outros dão e tiram, emprestam, quando muito! Não raras vezes dão o que não querem ou não precisam e tiram-nos o que nos faz falta, o imprescindível. Não se faz!

 

E o hábito faz o monge, não falando aqui de roupagens. O hábito é perigosíssimo, porque nos habituamos muito depressa a ele, ao nosso e ao dos outros, e perdemos a sensibilidade que funciona na nossa vida como um sensor, um barómetro ou uma bússola. Por exemplo: comecei a escrever textos no telemóvel porque me permitia escrever muito mais rápido. Utilizando a escrita automática, escrevia só o início ou metade das palavras, o que faltava delas e os acentos vinham de bónus, mas passado algum tempo, lá está, depois de me habituar, deixei de ver as palavras que me eram sugeridas pelo dicionário e comecei a escrever como se estivesse no computador, letra a letra. Ou seja, o que de início me deixou contente por me parecer uma grande vantagem, passou, uns minutos depois, a ser naturalmente ignorado! Porquê? Porque me habituei, deixei de estar atenta, e fiquei insensível a uma coisa que, vendo-a e utilizando-a, me facilitava tanto a vida.

 

Talvez que durante este processo tenha dado um salto evolutivo: o ter deixado de precisar! Estava a brincar, isso seria realmente bom, mas não foi nada disso. O que me aconteceu é que regredi: depois de adquirir o conhecimento não o interiorizei e de seguida perdi-o. É isto que nos acontece muitas vezes depois de um longo percurso, não fazemos save e perdemos o "texto" todo! É horrível, todos sabemos como é horrível, porque já nos aconteceu a todos. Voltamos ao princípio, desta vez custa bastante mais e por dois motivos: porque já não temos o entusiasmo da primeira e porque estamos constantemente a fazer um esforço para nos lembrarmos do que tínhamos inicialmente escrito. Completamente inglório e desgastante. Nunca vamos conseguir o mesmo! Se fôssemos mesmo inteligentes, fazíamos um não-esforço para esquecer o que já tínhamos escrito, que é como quem diz, o passado, e começávamos de novo, mas sem recomeçar, porque isso nos não leva a lado nenhum. A memória às vezes estraga mais do que ajuda!

 

Mas, perco-me com uma facilidade! Relativamente à expectativa, convém não nos habituarmos a ter qualquer uma sobre nada que não dominemos, que nos seja alheio; a não esperar nada de ninguém e sabem o que nos é servido numa bandeja? O paraíso!

É engraçado como, às vezes, ao imitar o defeito adquirimos a qualidade!

 

Cristina Pizarro

 

 

 

31
Out18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

 

Um desejo

 

 

Olhei para a porcaria da estrela e fiquei à espera. E ela a olhar para mim, fixamente, como se não percebesse! Disse- lhe: então, não fazes nada? Mas eu não sou cadente! Não és cadente, mas tens poderes! O poder de...? De me concederes um desejo! Mas tu não tens desejo? Não é isso, que diabo! Então é o quê? Estás aí parada a olhar para mim, como se o que eu quisesse não fizesse sentido! E, sabes que mais, pode não fazer para ti, mas faz para mim! Se fizesse para ti, já tinhas feito! Ah, então é isso! O quê? Tu não sabes o que queres, porque se soubesses, já o tinhas feito! O que vale para mim, vale para ti!

 

Pareceu-me que a estrela estava a desconversar ou a fugir àquilo que eu julgava serem as suas obrigações e emudeci. Mas ela continuou: deves ter ouvido dizer que às estrelas se pode pedir um desejo, mas não é isso que estás a fazer! Ouvi-a e continuei sem dizer nada, mas ela notou que eu estava atenta e como que expectante pela sua opinião. Continuou: o que tu queres é um conselho e isso eu não te posso dar. Porquê...? Porque eu não sou desse mundo, eu não vivo o que tu vives, eu não pertenço à tua vida! Sou uma estrela, acordo e vivo de noite e desapareço de dia, embora esteja sempre lá e tenha na mesma vida, como tu quando dormes, e essa verdade torna o nosso relacionamento incompatível! Como!?

 

Pareceu- me que a estrela estava a entrar por um caminho que a mim não me agradava, a pôr-se de fora, assim em linguagem vulgar para se perceber rapidamente e sem rodeios. Continuou no seu discurso pouco claro: eu não sou o teu espelho! Se queres um conselho porque não falas contigo? A sós, numa conversa intimista. Não me importo de servir de vela, embora a esta distância não te sirva de muito o eu estar! Aqui fiquei mesmo sem saber o que lhe dizer. Ela percebeu que eu tinha ficado desapontada e acrescentou: quando quiseres um desejo podes pedir-mo, não sou cadente, mas tenho uma amiga capaz de os conceder e que nunca me falhou, mas primeiro tens de o formular objectivamente. Já pensaste se eu o entendo mal e to concedo? É melhor não correrres esse risco e depois, se fizeres o que eu disse, vais-te surpreender! De que forma? Quando pedires claramente o teu desejo, em voz alta, vais perceber que não precisas nem de mim nem da minha amiga.

 

Baixei por momentos os olhos como a interiorizar o pensamento que a estrela me tinha enviado e quando reergui o olhar, ela já lá não estava! Há estrelas do arco-da-velha! A gente pede-lhe um desejo e elas dão- nos um conselho!

 

No dia seguinte, à mesma hora, porque sou teimosa como um burro, olhei para o céu. Havia muitas estrelas, mas a minha não a encontrava! Esta coisa da terra se mexer, é mesmo verdade! Desesperada, ainda perguntei por ela, a uma vizinha, julgava eu! Como, ontem o quê, falaste com quem? E veio- me, com a pergunta desta nova estrela, a consciência do significado do momento único, a percepção do irrepetível, o sentimento da perda...

 

Nos dias seguintes, à mesma hora, porque não há nenhum burro tão estúpido que não aprenda, mandei vir um céu nublado, assim como quem pede uma entrada de refeição e veio, acreditem que veio! Cheguei a pensar, Deus me perdoe, que a estrela dos conselhos tinha ido falar com a amiga, a cadente, que tinha percebido tudo mal, porque eu às vezes tenho dificuldade em me exprimir e digo: céu nublado querendo dizer céu limpo! O que me valeu depois disto foi a sapateira recheada! Há coisas mesmo boas, assim facilmente, à nossa disposição!

 

Cristina Pizarro

 

24
Out18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-3

 

 

O Planeta Erra

 

 

Era uma vez um planeta que tinha nascido com uma delecção genética. Filho de ai e ãe, era abitado por seres umanos com características especiais.

 

As essoas relacionavam-se umas com as outras por contratos não escritos de dependência mútua e organizavam-se em amílias, núcleos pequenos com características semelhantes, cuja parecença era por um lado herdada e por outro fruto do ambiente restrito em que tinham nascido e crescido.

 

Até aqui a coisa parecia normal (não se entenda, neste caso, qualquer omissão do prefixo na palavra).

 

Havia depois um planeta vizinho chamado Terra, supostamente mais evoluído, em que os seus habitantes, que conheciam muito bem os do outro, tentavam, e conseguiam, usurpar as características dos primos, chamemos-lhe assim para simplificar o entendimento, e que tinham um lema, nitidamente adaptado, que dizia: “Errar é humano”! Confundindo assim linguagens de planetas diferentes como se fosse correcto escrever Português com palavras em Espanhol. Na verdade o lema, correctamente falando, seria: “Não errar é humano”, uma vez que não era lá que moravam porque a frase, pertencente exclusivamente ao outro planeta era, em boa verdade, “Errar é umano”. Assim fazia sentido, mas só neste contexto!

 

Nunca se percebeu completamente se os habitantes do planeta Terra tinham resultado de uma colonização do planeta Erra vizinho, cujo crescimento demográfico tinha atingido tal proporção que impeliu os seus abitantes à conquista de outras terras, para onde foram viver com as suas amílias constituindo, à chegada, verdadeiras famílias por gerações e gerações.

 

Esta teoria, a ser verdade, justificaria como convivem sem viver com, ou seja, com grande dificuldade de interacção, uns e outros. É sabido que o processo de aculturação (desta vez leva mesmo prefixo) não é simples e alguns dos membros, mais adversos à mudança, mantiveram as características primitivas de especiais, envolvidos agora no seio dos outros, onde originam constantemente conflitos a vários níveis tornando, não raras vezes, os relacionamentos insuportáveis!

 

E a vida não é simples! Primeiro porque o princípio fundamental da Justiça é difícil de aplicar. Tem de haver critérios diferentes para uns e outros e custa a identificar quem são uns e quem são outros, porque a sua aparente distinção confunde-se com a sua distinção na aparência. A título de exemplo, para que se perceba: há directores, presidentes e chefes de organizações provenientes do planeta Erra que fazem leis, decretos, portarias, despachos e regulamentos para os habitantes do planeta Terra.

 

Instala-se o caos, porque os habitantes do planeta Terra com espírito crítico, questionam, contrariam, debatem e, sobretudo, indignam-se!

 

É esta característica que torna insustentável a convivência, no mesmo espaço, de seres completamente diferentes, na maioria das vezes antagónicos.

 

Há que procurar uma solução, sob pena de extermínio, para a continuidade destes seres que, não sendo perfeitos e tendo muitas limitações, são seres humanos e a presença do h, digam o que disserem, faz toda a diferença! Só para dar um exemplo simples, imaginem no que se tornaria a geração mais nova, cheia de potencial e com toda a sua capacidade de mudança e construção do futuro, se de repente lhe tirassem das maõs os iPhones e passassem a usar iPones!

 

Ai valha-me Deus! Se não fosse o nosso passado histórico...

 

Cristina Pizarro

 

 

17
Out18

Crónicas de Assim Dizer - Sua Excelência, o Imperador

arrabalde-3

 

Sua Excelência, o Imperador

 

Temos um monstro dentro da nossa cabeça a quem temos de controlar, dominar e impedir que dê cabo da nossa vida e de nós.

 

O cérebro é um maníaco, um ditador, um tirano e um traidor. É básico, um computador com escolaridade mínima e que trabalha com Excel intermédio. Tem para lá umas tabelas e umas fórmulas de cálculo com factores de conversão para apresentação de resultados que não sabemos muito bem como, onde ou quem lhas introduziu. Não consegue distinguir um Ai! de prazer de um de sofrimento, interpreta as nossas emoções segundo um padrão interno que não obedece nem à nossa lógica de raciocínio nem à nossa inteligência. Resumidamente, faz o que quer e sobra-lhe tempo! Enquanto a nós o tempo nos falta para quase tudo!

 

Olhamos para ele e dizemos: lá está ele, sempre com o mesmo discurso, não sai daquilo. Se não fosse nosso, tínhamos pena dele!

 

Elaborou durante séculos, sim, que estas coisas herdam-se, planos de execução estratégicos, com tudo pensado ao pormenor, com avaliações periódicas, internas e externas, baseadas numa lista de critérios extensíssima, onde entravam juízos de valor, conceitos de ética e estética, apreciações, observações e consensos, eu sei lá!

 

Estabeleceu castigos, punições, prémios, recompensas, um manancial de moedas de troca, que lhe serviam, a ele, como medida do exercício de poder, da consciência que não tinha, da maturidade da qual nunca tinha ouvido falar e da inteligência que venerava como a um Deus inexistente.

 

Controlou as emoções que a custo demonstrámos, como se fossem peças de uma linha de montagem, dizendo-nos o que sentir, como sentir, por quem sentir, onde sentir e porque sentir.

 

Mas o nosso monstro é sôfrego, se lhe tirarmos os pensamentos, único alimento e do qual depende, tiramos-lhe tudo e ele não sobrevive.

 

Descobrimos-lhe a tática do jogo, chegámos nós ao poder. A partir de agora quem manda aqui somos nós e ou ele obedece ou o expulsamos de casa. Fizemos dele refém, neste momento estrebucha, agarra-se, como uma lapa às rochas, ao único que tem, o nosso passado e convence-se que com isso nos pode dominar. Engana-se, já nos libertámos dele. Temos agora pela frente um presente e um futuro que dependem apenas de nós, no presente e no futuro. Agora é ele que vive numa gaiola, enclausurado, encurralado, acorrentado. Repete como um papagaio aquilo que lhe ditarmos quinhentas vezes. Alimentamo-lo a pão e água, não merece mais. Durante anos converteu a nossa vida num inferno, apresentando-nos de aperitivo, como primeiro prato e segundo tudo aquilo com que não sabíamos lidar e reservou-nos para sobremesa a dor e a impotência de não conseguirmos realizar os sonhos que ele nos projectou, os sonhos que eram dele e a que apelidava de nossos para nos convencer a lutar por eles. Torturou-nos até a exaustão, sem dor, sem sofrimento, sem compaixão e com dolo.

 

Sacana! Fez-nos sentir culpa e remorsos pelas suas frustrações, pela sua falta de capacidade, pela sua falta de competência enquanto líder, pela sua ganância de poder!

 

E nós obedecemos, humildemente obedecemos, porque o cérebro nos fez acreditar que “queria o melhor para nós!”

 

Mas temos, felizmente e a par dele, a mente, sobredotada, a nossa menina com QI acima da média e nossa aliada. Trabalha noite e dia, chega a conclusões fabulosas enquanto dormimos, verdadeiramente única, mas raciona-nos a informação disponível. Só diz uma vez: ou estamos atentos ou lá se vai tudo e para sempre! Não dá segundas oportunidades, não perde muito tempo connosco, quem não estiver atento nem sabe que a tem! E foi com ela que se deu o inevitável golpe de estado, militar, com mobilização de todas as forças armadas, incluindo as de reserva, por terra, por mar e por ar. O cérebro foi cercado, não havia nem fuga possível nem alternativa a ela!

 

Vivemos hoje num planeta de recreio, com tranquilidade, calma e plenitude. Invertemos papéis, subvertemos funções, alterámos competências. Agora quem dita as regras somos nós. Finalmente patrões, com quase cem biliões de neurónios como criados. A nossa praia! Aos que não obedecerem, cortamos-lhe na glicose!

 

Com disciplina militar daqui a um mês já podemos ir com ele a um restaurante sem nos envergonharmos.

 

Percebemos que a quem temos de treinar é o líder, a mente, que é quem dá as ordens porque o cérebro nasceu para obedecer. O que lhe dissermos para fazer, ele faz.

 

Há pessoas que nos querem emprestar o cérebro delas para fazer connosco o que o nosso fazia, enquanto deixámos. E nós sorrimos, tranquilamente sorrimos. Agora a nossa paz é inabalável e é engraçado perceber como isso desestabiliza as intenções. Julgavam-se capazes de o fazer e a nós incapazes de o reconhecer. Acrescentam requintadamente ao que foi nosso, uma característica peculiar, a manipulação. Prato que já digerimos, a quente e a frio. A única coisa que conseguem é arrastar-nos para um café, a que vamos por curiosidade. Essa mesma, a de instinto animal que não conseguimos apagar da nossa natureza não humana. Mas é pacífico. Vamos e vimos. Vimos como fomos, em paz.

 

Maníacos? Talvez. Ditadores? Possivelmente. Tiranos? É uma hipótese a pôr, mas nunca traidores.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

10
Out18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-3

 

 

Gatos de cor

 

 

Era uma vez um gato branco e um gato preto, vizinhos, que moravam no beiral de uma casa branca e de uma casa preta, respectivamente, onde um abismo sem fundo os separava.

 

Às vezes o gato branco contava histórias sobre gatos pretos que se um gato preto ouvisse não achava piada nenhuma, mas era só em brincadeira com os amigos gatos brancos porque ele até achava que os gatos pretos eram iguais aos gatos brancos, a não ser que uns eram pretos e outros brancos, o que embora sem parecer ou ele ter consciência, era já uma grande diferença.

 

Um dia o gato branco encontrou, diria acidentalmente, o gato preto e perguntou-lhe se ele queria ir caçar ratos para outros telhados. Foram. Pelo caminho o gato branco disse ao gato preto que o pêlo dele era macio, mas que não era bonito e que, por mais estranho que isso lhe parecesse, não se importava que fosse assim, nem o impedia -como até aí se passava- de ir caçar ratos com ele. O gato preto, que estava farto de saber que tinha o pêlo macio, ficou triste por o gato branco não achar que o seu pêlo era bonito e quanto mais o gato branco lhe dizia que ele tinha o pêlo macio, mais o gato preto pensava que não tinha o pêlo bonito. Nem era bem isso, verdade, para esse gato nem interessava assim tanto que o seu pêlo fosse bonito ou feio, só queria que aquele gato branco, que se dizia seu amigo, achasse que o seu pêlo era bonito. Era como se ao dizer-lhe isso lhe dissesse outras coisas, era mais uma forma de lhe dizer que gostava dele. Mas o gato branco não percebia nada destas trocas de palavras e achava que se o gato preto tinha o pêlo feio lho devia dizer. E, mais uma vez, a questão nem era essa porque isto de pêlos brancos ou pêlos pretos serem mais ou menos bonitos é, como tudo, relativo e tratava-se apenas de um ser bonito para o outro e não bonito em si. De resto, que autoridade tem um gato branco para dizer que o preto é feio? São diferentes, eis tudo. E depois, pela última vez, o que magoou o gato preto foi a disparidade de conceitos, porque para este todos os gatos que tinham o pêlo macio eram de alguma forma bonitos, embora nem todos os gatos bonitos tivessem o pêlo macio, como ficou bem visto por este caso, já que um gato que se importa tanto com pêlos bonitos não tem, com toda a certeza, o pêlo macio.

 

E o gato preto ficava cada vez mais triste e cada vez mais longe até que lhe pareceu que quando as suas mãos se uniam numa só, nem era uma branca nem uma preta, era uma cinzenta e então desprendeu-se da mão do gato branco porque lá no seu íntimo parecia-lhe que o cinzento não era cor.

 

E então o gato branco quando viu que o gato preto ficou triste (e não que se preocupasse particularmente com aquele, mas porque por princípio nunca se aborrecia com gatos, fossem eles brancos, pretos ou azuis) disse-lhe que embora nunca mais fossem caçar ratos juntos, pelo menos podiam dizer-se “olá!” de um telhado para o outro. Mas o gato preto que para além de ter o pêlo feio era radical, disse-lhe que o telhado onde ele morava era muito longe do seu e que nem que este lhe gritasse o outro o ouviria. Ao que o gato branco respondeu, aparentemente sem relação nenhuma, que as pessoas gostavam dele, do preto, mais porque ele tinha o pêlo macio do que por ele ser bonito ou feio. E o gato preto, que estava farto de saber porque é que as pessoas gostavam dele, ficou ainda mais triste e pensou: Este gato não mede o que diz, nem sabe o que quer dizer, porque se acha tão branco e não repara que se fosse branco, se fosse todo branco, também os seus olhos eram brancos e quando olhasse o gato preto via-o branco e não era preciso muito para achar que o seu pêlo branco era bonito, pelo menos tão branco como o dele. E aqui está talvez a chave do problema, se o há, é que o gato branco tem os olhos pretos e o gato preto tem os olhos brancos, por isso quando se olham vêem coisas tão diferentes!

 

Cristina Pizarro

 

 

03
Out18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-3

 

 

Omelete de bacon sem bacon

 

 

Depois de provar, o meu primeiro pensamento foi: quantos casamentos haverá assim?

 

Meia hora antes do jantar pensei em fazer uma omelete de bacon, este pensamento interiorizou-se e acrescentei-lhe um outro, que não poria sal porque o bacon já o tem em quantidade mais que a necessária. Costuma dizer-se “o suficiente”, em alguns casos sinónimo, mas não neste. Quando parti os ovos reparei que tinha salsa ao lado do fogão e mudei de ideias: não, vou é fazer uma omelete de salsa e cebola. A parte do sal nunca mais pensei nela! A omelete não sabia a nada! O sabor do ovo, da salsa e da cebola pouca diferença fazia. O que não era fundamental num caso, era-o no outro!

 

Menti, omiti, cometi adultério? Tudo ridículo. Eu mudei foi simplesmente de ideias.

 

É certo que o bacon entrou na minha expectativa, mas que eu me criei a mim própria e a que não correspondi. Ou seja, o bacon entrou na minha expectativa, mas não entrou na minha omelete!  Que culpa tem o outro de eu lá ter posto o que não devia e depois querer encontrar o que não podia? Há desilusão nisso, há desconforto? O que há é falta de sal, de tempero. Sim e não! A haver, provocada pela falta de sal que o bacon supriria, mas que não era obrigatório que viesse dele. Ao comer a omelete não senti a falta de bacon, mas a falta de sal. Quem está de fora a ler isto está agora a pensar: era tão fácil resolver o assunto, bastava pôr sal refinado no final! Mas isso era se eu estivesse a falar de omeletas sem sal e eu estou é a falar de omeletas de bacon sem bacon!

 

Também há omeletes sem ovos, mas essas são fáceis de identificar, não há qualquer engano nem desengano. A gente pergunta: ouve lá, tens ovos? E mesmo que não haja resposta vê-se logo pela cor da pele. Se for clara, dificilmente terá gema! Se tiver gema, dificilmente será clara!

 

Cristina Pizarro

 

 

26
Set18

Crónicas de Assim Dizer - O Vulto

arrabalde-3

 

O vulto

 

 

Via ao longe um vulto que transportava qualquer coisa às costas e cujo peso lhe vergava a imagem vertical da silhueta. Era um ser humano. À distância a que estava, qualquer conclusão que quisesse tirar era precipitada. Vinha na minha direcção. A primeira sensação que me provocou foi uma vontade inata de o ajudar. Mesmo sem saber nada dele, não me pareceu justo que alguém carregasse fosse o que fosse, que fosse tão difícil de transportar! Logo após o meu primeiro juízo de valor vem, acto contínuo, o disparate: e se fosse o produto de um roubo ou até um cadáver?! Maldito pensamento, detesto-o quando começa a emancipar-se de mim e a pensar sozinho como se existisse independente de tudo, sem nada a elaborá-lo, contrariando teorias de filósofos de que pensa sem ninguém haver a suportá-lo! Acabo com as divagações e noto que a distância entre nós não diminui. Deduzo que deve ser, por isso, muito grande, pois que o decorrer do tempo não se torna perceptível nela, embora caminhando nós ao nosso encontro. Continuo embrenhada em juízos de valor!

 

O que haverá dentro do saco?

 

Culpa?! Que outra coisa haverá que pese tanto?! O que se não disse? O que se não fez? O que se disse mal? O que se fez mal? Mas isso é tudo culpa! O amor que se sentiu e se não mostrou?! Culpa ainda! A vontade que se tinha de fazer e se não fez, as palavras que subiram até aos lábios e que foram engolidas no silêncio que saiu ou o beijo que se mordeu e não se deu? Culpa ainda! As mãos que se trocaram sem se darem, os abraços que se deram sem se apertarem ou os corpos que se penetraram sem se fundirem?! Culpa também?

 

As lágrimas que não correram para o rio, mas que secaram nas faces, sendo completamente inúteis; os risos sem sorrisos ou o brilho do olhar instantâneo sem continuidade, sem permanência, sem eternidade?

 

Ainda a culpa? Ou começa agora aqui já a desilusão? O que pensávamos que era e não era, o que era naquele momento e nós queríamos para sempre, como se as coisas durassem no tempo o que o tempo não dura!

 

Ah, talvez nem tudo seja culpa! Talvez o vulto naquele saco carregue também a desilusão de ter pensado que o sonho que sonhou era a vida que vivia! Qual pesa mais? Talvez se trate de um sonhador ou de um imbecil, estas coisas não são assim tão diferentes.

 

Talvez ele tenha pensado que o que tinha dentro dele era mais do que o suficiente para ser feliz; que dando tudo de si, recebia alguma coisa dos outros. Talvez tenha aprendido, por conta própria, que há pessoas que não dão nada, embora tenham tudo lá dentro; porque têm as coisas fechadas à chave com medo que lhas roubem, e tenham tanto medo que também fecham a chave à chave e entretanto baralham-se todas e já não sabem o que abre o quê; de forma que quando é preciso abrir uma porta nunca encontram a chave certa e fica tudo por abrir e dão cabo da cabeça a quem não lhes consegue encontrar a chave, quando foram elas que a esconderam e que se calhar até a perderam ou já passou tanto tempo que a própria fechadura já se deformou e não abre com coisa nenhuma!

 

E vem a frustração, a derrota pessoal, o sentimento de incapacidade, de não conseguir coisas tão simples porque não sabemos os motivos, só conhecemos as consequências e tudo isto pesa que se farta, só porque não há a honestidade de alguém nos dizer que o problema não é nosso; porque pesa menos para eles que sejamos nós a suportar o peso!

 

E quanto mais pensava, menos percebia como é que o vulto conseguia dar um passo que fosse e cheguei mesmo a pensar se ele não estaria parado! Mas foi só por um instante porque era parvoíce da minha parte: se estivesse parado tinha o saco no chão, a não ser que fosse burro, que isto nos amantes há de tudo.

 

Eu estava cada vez mais empenhada a decifrar a carga que o vulto transportava no saco e nem por um segundo me veio à ideia que podia estar completamente enganada! Esta coisa das convicções dá-nos cabo da lógica!

 

Sim, também podia ser a memória das coisas boas, também pesa muito! Será que ele viveu uma história de amor intensa, que o arrebatou, alguém a quem ele se entregou completamente, que lhe levou o coração e lhe deixou no seu lugar um vazio que lhe causa uma dor profunda e insustentável, que o faz debruçar e curvar daquela forma mais que o peso do que transporta, que pode até ser roupa ou algodão-doce?

 

Como é que eu não me lembrei disto antes?

 

Não, uma coisa não tira as outras! Pode ser tudo, primeiro ter acontecido isto, “a causa das causas”, e depois as outras. “É isso, é isso!”, veio-me à cabeça, como se tivesse acabado de descobrir a última peça do puzzle, já sem espaço para ela!

 

Após um grande silêncio, olho novamente o vulto e noto já alguma diferença na distância que nos separa e, de repente, vem-me a pergunta fundamental que ainda não tinha feito, mas que se impunha:

Como é que eu o vou ajudar, o que é que eu lhe vou dizer quando o tiver justamente à minha frente?

 

Baixo os olhos para o asfalto, continuo a caminhar em direcção a ele e começo a pensar na resposta.

 

Digo-lhe que cada dia é um começo, que as coisas que hoje parecem más amanhã podem ter outro aspecto, que não nos conhecemos o suficiente para sabermos como nos sentiremos no dia seguinte, que somos muito mais capazes do que pensamos, que a nossa riqueza interior não tem limites, que temos muito para descobrir, que cada dia é uma surpresa, um descobrimento, que é preciso ter os olhos e o coração muito abertos para apreender a beleza das coisas, que tudo está à nossa disposição, à nossa espera, que temos de ser nós a ir ao seu encontro?! Digo-lhe ainda que para que isso aconteça temos primeiro de nos libertar do passado, de esvaziar o saco que carregamos às costas, seja o que for que ele tenha dentro?! Que o melhor ainda está para vir, que devemos começar cada dia como se fosse o primeiro, fazer como o Sol, que quando nasce é para esse dia, o outro já passou, foi ontem, houve uma noite pelo meio em que se dormiu, em que se esqueceu. No dia seguinte volta tudo a estar à nossa espera e nós temos que voltar a estar disponíveis para ir ao seu encontro, de asas soltas como uma andorinha na Primavera. Digo-lhe isto tudo?!

 

Sorri, senti a alma mais leve e levantei os olhos para ver a que distância estava o vulto: tinha desaparecido, nem sinais de culpa nem vestígios de desilusão!

 

O sol brilhava tanto que me queimaria a pele, não fosse a brisa agradável que se fazia sentir àquela hora, naquele lugar.

 

Sem perceber o que tinha acontecido e meia atordoada olhei o asfalto: notava-se por baixo dos meus pés, de forma indelével, uma marca curiosa, parecia a sombra de uma nuvem, embora ela não existisse no céu! Talvez, não sei bem, a memória de um grande amor.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

19
Set18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-3

 

 

Pedro e o Lobo, um outro lado da história

 

 

Esta história tem passado de uma geração para outra, transportando uma moral com a qual até ontem eu concordei e que hoje me parece falsa!

 

Pedro era um jovem solitário que passava os dias a guardar o rebanho. Os seus dias eram todos iguais: de manhã ia para o monte com as ovelhas e à noite regressava. Era magro, mal nutrido, as suas refeições eram de pão e fatias de chouriço.

 

Não tinha com que se entreter. Naquela altura não havia portáteis, iphones, ipads, … nada! Mesmo que houvesse, Pedro nunca poderia tê-los. Livros, também não podia levar consigo para ler, porque o Pedro não tinha ido à escola. O pai, lavrador, precisava dele para guardar o rebanho durante o dia, enquanto trabalhava na agricultura para poder tirar alguma coisa da terra com que pudesse alimentar a família.

 

O Pedro já não suportava a rotina, a solidão, a vida vazia que tinha e um dia, para chamar a atenção sobre si, gritou, como se grita sempre, muito alto: “acudam, vem o lobo”, de forma a que na aldeia o pudessem ouvir e alguns deles viessem para lhe fazer companhia, para lhe quebrar a rotina, para que ele não se sentisse tão sozinho.

 

Na altura não havia psicólogos nem pedopsiquiatras e então chamaram-lhe “mentiroso”!

 

Ninguém percebeu o objectivo com que ele gritou com toda a força que podia:  “acudam, vem o lobo”, e o Pedro continuou a guardar o rebanho e repetia a façanha até que alguém percebesse a solidão em que se encontrava.

 

Foi a forma de pedir ajuda que encontrou. Ninguém percebeu. E, após várias vezes repetir a proeza, a sua pobre imaginação ou o desespero não lhe permitiam inventar outra forma, as pessoas deixaram de acreditar nele. Pura injustiça!

 

Um dia veio mesmo o lobo, coisa que o Pedro não previra, e quando gritou: ”acudam, vem o lobo”, ninguém o socorreu. As ovelhas foram comidas e a culpa que durante décadas lhe atribuíram não foi dele. Não foi dele porque nunca foi sua intenção enganar as pessoas; não foi do lobo porque era um animal irracional e faminto, que precisava de se alimentar para sobreviver; não foi das ovelhas que foram, neste processo, meras vítimas. A culpa foi da aldeia inteira que não veio socorrer o Pedro quando ele pediu ajuda!

 

Não podemos deixar de acreditar nas pessoas sem antes percebermos porque é que elas fazem o que fazem e dizem o que dizem.

 

Ninguém conseguiu entender o Pedro e julgaram-no injustamente. Ele, coitado, como podia defender-se perante tantas acusações?! Calou-se e, em silêncio, assumiu a culpa que não era dele.

 

Esta história tem sido sempre mal contada, porque a moral que ela encerra não é que “é feio mentir”; o que é feio é não ajudar os outros quando eles precisam de nós. Mas, e sobretudo isto, pode haver outra razão que motivou o Pedro neste comportamento e que eu nem sequer equaciono ou prevejo, porque simplesmente não estou na sua pele!

 

Cristina Pizarro

 

 

12
Set18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-4

 

Em Tribunal

 

 

Há alturas na vida em que tomamos como fundamental aquilo que é acessório! Falo da procura da verdade. Em determinados momentos fazemos disso o sentido da vida como se isso fizesse ou tivesse algum sentido! Julgamos que há uma justiça capaz e infalível, como se alguma vez isso fosse, em realidade, possível! Mais tarde, com razão objetiva, não aparente, percebemos que a única verdade é tão só aquilo em que acreditamos, aquilo de que estamos convencidos, relegando para segundo plano o que os outros pensam, independentemente de quem os outros são! E incluímos aqui os agentes da lei, os juízes, o ministério público, os decretos-lei, etc.

 

Parece que, de repente, se abre à nossa frente uma verdade segura, ditada pela nossa experiência de vida. Factos aos quais não dávamos relevância nenhuma tornam-se, de súbito, os pilares daquilo que elegemos como a verdade absoluta, se é que este conceito tem sinónimo no quer que seja!

 

Aquilo de que tínhamos alguma dúvida passa a existir na nossa consciência como o mais provável e aquilo em que tínhamos uma fé inabalável torna-se a maior dúvida à face da terra! Quem está certo? Que premissas têm os doutores da lei para chegar às conclusões a que chegam? Quem os enganou tinha idoneidade para isso? Como é que vamos nós, meros mortais, dizer e provar que o que lhes foi dito por outrem partiu de uma mentira solidamente elaborada, ficcionada, inventada por quem tinha por objectivo provar factos contrários ao que inadvertidamente era verdade? Como é que a nossa prova, não isenta, vai valer mais em tribunal que a suposta evidência de quem se faz passar por isento, mas que o não é? Acreditar em quem, se ninguém viu, se ninguém esteve presente? Ganha o argumento mais convincente! É justo isto?

 

A cena de teatro desenrola-se à nossa frente e na nossa presença. Temos de ficar calados. Não nos é permitido, na qualidade de espectadores, dizer o que quer que seja. Não somos isentos, temos sentimentos, relações familiares ou de amizade com o arguido e isso, em tribunal, é tendencioso, isento de veracidade, autenticidade e outras coisas do tipo. Para ser considerado verdade o nosso depoimento só é válido se nós não tivermos nenhuma relação com o que ali está a ser acusado do que não fez ou do que supomos que não fez. Nesse estatuto pode-se omitir, inventar, falsear, resumidamente dizer o que nos apetece que isso é tido em conta! Embora tenhamos inicialmente jurado o contrário disso e seja considerado crime mentir no papel de testemunha! Ora, Deus não está ali e quando formos colocados à Sua frente teremos certamente arranjado atenuantes para organizar a nossa defesa, apesar de tudo Ele não deixa de ser um ser humano! Já se tivermos alguma relação com o acusado, seja ela de que cariz for, já nos fazem um desconto, proporcional ao grau de relacionamento. Se for provado que é íntimo, retira toda a verdade à prova! Porquê isto? Que lógica tem? A lógica não interessa para nada quando se está em tribunal! A lei não tem isto em conta, não o permite nem o considera como prova!

 

Claro que, neste ponto da representação, há uns mais treinados que outros e tem relevância suprema a moeda de troca: o que é que nós ganhamos com isso? Não arriscamos nada, um bocado de teatro que mal é que tem? Dizer que foi o contrário do que foi, dizer que temos a certeza absoluta de coisas que nem sequer vimos, convenhamos, que diferença é que faz? Em boa verdade não estávamos, mas podíamos ter estado! Podíamos efetivamente ter visto o que na realidade não vimos e dizer perfeitamente que isso aconteceu! E se ninguém lá estava como é que sabemos se a verdade está naquilo que estão a tentar provar? Nem sim nem não! A verdade é o quê? Sabemos lá se aquilo que estão a dizer que aconteceu não é apenas e unicamente aquilo que gostavam que tivesse acontecido? Sabemos lá se a descrição dos factos corresponde, na verdade, ao que se passou ou se é uma mera representação do que não temos a mínima ideia se aconteceu ou não! Passaram anos caramba, quem é que se lembra agora dos pormenores, fundamentais ao apuramento da verdade dos factos? Entramos no campo do relativo: o que é mais ou menos verdade, o que tem maior ou menor possibilidade de ter acontecido? Estatística agora?! Cálculo de probabilidades?! Mas não podemos ficar no limbo, é preciso apurar uma verdade, o juiz precisa de uma sentença! Vai baseá-la em quê?

 

- “Jura dizer toda e apenas a verdade?”

 

- “Sim, juro!”

 

O que entende por verdade, o que pensa que viu ou o que quer provar?, são perguntas que não se fazem! Nada disto interessa para a sentença final! Tudo isto são pormenores, complicações, handicaps, dificuldades, evasões do real!

 

- “O senhor não estava, mas se de facto estivesse presente, o que tinha visto?” Começa nesta pergunta a medida da imaginação de cada um. Nada a opor se isso não tivesse como efeito a condenação ou não do arguido. Brinca-se assim com vidas humanas, com a presumível inocência de cada um ou com a suposta culpa que se não tem! Quem justifica esta defesa ou acusação, quem a sustenta, quem a julga, que pena se aplica a esta atitude? Não está considerado em lei!

 

A lei parte de grandes princípios como a verdade, a certeza, a evidência, a irrefutabilidade dos factos, tudo coisas imaginárias! Como é que se prova que o que se diz ter vito foi o que se viu e não o que se está convencido de se ter visto?

 

O julgamento decorria com aparente normalidade. Digo aparente porque era a primeira vez que assistia a um, mas na minha cabeça os pensamentos fervilhavam!

 

De repente comecei a pensar coisas estranhíssimas! Conceitos como a culpa não me faziam sentido nenhum. Qual é a diferença entre preconceito e juízo de valor? O preconceito é nosso, o juízo de valor é dos outros, não há diferença nenhuma! Com a culpa é a mesma coisa: eu posso sentir que tenho culpa e não ter culpa nenhuma e posso achar que não tenho culpa nenhuma e estar carregada dela! Para saber a verdade era talvez preciso estar lá, presenciar os factos, mas nem isso! O ângulo de visão que eu tinha do local podia não ser o adequado, ou porque estava demasiado perto ou porque estava demasiado longe! O mais frequente é não estarmos no sítio certo.

 

Então a culpa não interessa para nada! Deste pensamento passei a outro: seja qual for a sentença, o juiz vai ser justo. Se o arguido for absolvido é justo, porque não merecia que lhe acontecesse uma coisa destas. Se for condenado é também justo, pela mesma razão, porque a vítima não merecia que lhe acontecesse uma coisa destas.

 

Na realidade o que mais me assustou foi a conclusão a que não queria chegar, mas que era inevitável: o que ficar provado como verdade é algo tão ambíguo e impalpável que tem o cheiro das coisas que não existem e não seria isto grave se não tivéssemos que viver com as consequências disso, que dependem de coisas tão arbitrárias e circunstanciais como, cito um exemplo, os pensamentos que assaltaram a cabeça do juiz durante o julgamento, quando ele olhava pela janela, para fora do tribunal! Aconteceu isto várias vezes enquanto as testemunhas de defesa faziam o seu depoimento, mas nunca aconteceu enquanto falaram as de acusação, posto que o juiz não tirava os olhos delas. Que significado tem isto? Estava a ser parcial na sua atitude? Não estava com a mesma atenção às duas metades da laranja? Favorecia uma em detrimento da outra? Porquê isso? O advogado de defesa não foi competente no seu trabalho? Foi demasiado brando? Não foi claro na sua exposição? O juiz quando começou o julgamento já tinha a decisão tomada e essa era justamente a parte que não lhe interessava, quando olhava pela janela? Ou era exactamente o contrário, ele afastava o olhar da sala para melhor se concentrar no que ouvia?

 

Consegue um juiz, durante um julgamento, esquecer por completo a sua vida e estar apenas ali? O filho não tinha entrado na faculdade nesse ano, não estudava nem trabalhava, tinha-se transformado num inútil, um adulto não produtivo e a sua educação não lhe permitia lidar com isto! A mulher nos últimos dois meses andava esquisita como o raio, sempre distraída, não dava atenção aos filhos, chegava tarde sem explicação plausível e sem sequer se preocupar em arranjar uma desculpa minimamente satisfatória. A recente perda dos pais no acidente mais estúpido de que havia memória e a filha a quem tinha apanhado erva a responder com um descaramento escandaloso: “oh pai, por amor de Deus, não stresses com uma coisa normalíssima! Isto não faz mal a nada! Não faz, pelo menos, tanto mal como o cigarro que tu fumas depois de jantar. Sabes quantas substâncias sintéticas é que tem um cigarro? A erva é 100% natural!”

 

Que parte do julgamento é que o juiz ouviu?

 

Hoje mesmo ia ter de tomar uma decisão: o filho ou escolhia estudar ou trabalhar, a terceira opção era a porta de casa. A filha tinha de largar aquelas coisas, incluindo o namorado de piercings e tatuagens que não dava duas para a caixa e a mulher ia ter de confessar se tinha ou não outro. Quanto aos pais, não havia nada que pudesse fazer. A dor da perda era insustentável!

 

Voltou ao julgamento, o réu ainda lá estava, continuava à sua frente, à espera que o senhor doutor juiz lhe fizesse a segunda pergunta para esclarecimento dos factos e apuramento da verdade e ele sem vontade nenhuma de ali estar, dá por terminada a sessão sem perguntar mais nada!

 

- “A sentença será dada neste mesmo tribunal daqui a dez dias, às 16h00”. Até isto é brutal, como é que se pode deixar uma pessoa dez dias inteiros à espera de uma decisão alheia que pode modificar para sempre a nossa vida?!

 

Mas com isto o juiz podia bem, o mais difícil ia ser hoje lá em casa, à hora de jantar, quando estivessem todos presentes. Talvez a mulher tivesse uma reunião no escritório que acabasse tarde, a filha fosse ao cinema com o namorado e o filho fosse ensaiar o próximo concerto com aquela banda de inúteis convencidos de que estão a fazer música, quando podiam estar a fazer qualquer coisa de útil à sociedade, como voluntariado!

 

Às 17h00 o réu foi absolvido. A mulher nesse dia já não voltou para casa, acabou com o casamento por SMS. A filha foi viver com o namorado e o filho arranjou, finalmente, um trabalho temporário na “Entretém Produções”. Tinha razão o juiz para estar preocupado no dia do julgamento. Somos tão injustos quando julgamos as pessoas sem ter a verdade dos factos!

 

Cristina Pizarro

 

05
Set18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-4

 

Spider-Man

 

 

Eu só queria ser o teu herói e tu a tratares-me por Princesa! Eu a vestir-me de azul e vermelho e tu a achares que eu ia a uma festa de um clube de futebol ou ao cortejo da queima! Então não vias que eu não tinha idade para essas coisas e que futebol era o único assunto de que eu não falava! E eu a dizer que sim, com vontade de não ou a calar-me pela mesma razão!

 

Então as princesas aparecem assim do nada, desaparecem num ápice como se fossem de outro planeta?! Não, as princesas são deste mundo, há uma em cada esquina, bate-se numa pedra e saem de lá dez ou mais! São quase como os chapéus!

 

Quem acontece de repente são os heróis, aqueles que não podem morrer, para continuarem a dar sentido à história, ao episódio, à série, ao filme, seja ao que for, é assim que a sétima arte funciona. E não se substituem, não há um primeiro e um depois, são únicos, pertencem àquele registo. Então que graça é que tinha a meio de um filme do 007 aparecer o Drácula?! Sentido nenhum!

 

Eu queria ser esse, o herói daquele filme, aquele que nos mantém sentados sem comer nem dormir, colados à tela sem fazer intervalo ou nos põe no sofá a ver 10 episódios seguidos da mesma série, mordidos de ansiedade à espera da nova temporada!

 

E tu a repetires o Princesa e eu a querer o papel de protagonista no romance, que podia ser em tempo de guerra, de cólera, num cenário qualquer… Romance em termos literários! O amor vem depois, vem misturado, pode até não vir ou vir com outro nome.

 

Que importância é que isso tem? Agora o que é imprescindível, como princípio no narrador, é a caracterização da personagem e tem de ser, como mínimo, inequívoca. Para isso tem de ter um nome, como nos CC, que responda à pergunta, implícita ou subjacente, de identidade!

 

E tu a insistires... E eu a arriscar um bocadinho mais e a colocar por cima, desenhada, o que parecia ser uma teia! E tu a achares que eu precisava de levar o fato à lavandaria!

 

As princesas não trepam pelas paredes! Perdem estupidamente os sapatos quando regressam das festas, a caminho de casa. São coisas que não lembram ao diabo, démodé, se quisermos um pouco mais de elegância.

 

Então onde é que já se viu, uma princesa a voar no céu das ruas de Nova Iorque com apenas um sapato, a fada-madrinha atrás, os sete anões pela mão... Nada disso, o que eu gostava mesmo era de ser o teu herói! E nem era bem pelo boneco, era pela marca que deixa, que não se esquece, mesmo de máscara, reconhecemo-lo pela intensidade do beijo!

 

Mas, se fosse só isso… Não era! O só era outro.

 

Tu só querias ser o meu herói e eu a tratar-te por Querido! Tu a vestires-te de azul e vermelho e eu a achar que tu ias a uma festa de um clube de futebol ou ao cortejo da queima! Então não via que tu não tinhas idade para essas coisas, embora o futebol fosse um assunto de que tu, às vezes, falavas! E tu a dizeres que sim, com vontade de não ou a calares-te pela mesma razão!

 

Tu querias ser esse, o herói daquele filme, aquele que nos mantém sentados sem comer nem dormir, colados à tela sem fazer intervalo ou nos põe no sofá a ver 10 episódios seguidos da mesma série, mordidos de ansiedade à espera da nova temporada!

 

E eu a repetir o Querido e tu a quereres o papel de protagonista no romance, que podia ser em tempo de guerra, de cólera, num cenário qualquer… Romance em termos literários! O amor vem depois, vem misturado, pode até não vir ou vir com outro nome e tu sabias e eu também!

 

Um dia ainda havemos de fazer um filme! Fará sentido um filme com dois Spider-Men? Então e o vilão, deixamos para quem?

 

Cristina Pizarro

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Boa noite! Alguém me sabe dizer quem foi o autor d...

    • Eduardo Camara

      Sou Eduardo neto de Maria Otilia portuguesa nascid...

    • Tudo Mesmo

      Tenho que ir a Chaves para o próximo ano.

    • Anónimo

      “OUTONICE”Porra! Porra! Porra!Como se já não me ba...

    • Tudo Mesmo

      Linda mesmo.