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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Dez18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

A história do futuro

 

 

Era uma vez... Talvez seja esta, de todas as pequenas frases, a que mais diz! Mas não o afirmo! Poderia parecer, a alguns de nós com personalidade mais redutora, uma convicção de que vivemos no passado! Assim, digamos antes: há-de ser uma vez... pode ser hoje, amanhã ou depois! Pode ser num futuro próximo ou longínquo e pode ser antes, porque não, num passado próximo ou longínquo! Esta coisa do tempo não se sabe muito bem em que sentido é contado, se para a frente se para trás!

 

Comecemos então, como se toda a história tivesse obrigatoriamente um começo. Era ou foi uma vez... e rapidamente nos apercebemos da traição da memória: o que foi para mim, foi para ti? Do que tu te lembras coincide com aquilo de que eu me lembro? Onde está a verdade? O passado não pode ter sido diferente para as duas pessoas que o partilharam, ou pode? Rectifiquemos, temos de sair daqui se queremos chegar a algum lado e nós queremos!

 

Há-de ser uma vez... façamos o exercício como se estivéssemos numa aula da escola primária. A professora diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A professora não tem paciência para perguntas primárias.

 

Rectifiquemos novamente. Façamos de conta que estamos numa aula do ensino secundário. A professora diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A professora não tem paciência para perguntas secundárias.

 

Rectifiquemos novamente. Façamos de conta que estamos numa aula do ensino superior. A professora diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A professora não tem paciência para perguntas superiores.

 

Rectifiquemos novamente. Façamos de conta que estamos numa aula de doutoramento. A professora diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A professora não tem paciência para perguntas doutorais.

 

O que é que fazemos? Façamos de conta que estamos em casa, em família! A família tem paciência para quase tudo! Se não tem, tem de arranjar. A nossa mãe diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A nossa mãe não tem paciência para as perguntas do filho!

 

Rectifiquemos. A nossa avó diz: escrevam uma história sobre o futuro. Alguns de nós não compreendem a intenção e arriscam a pergunta: se é sobre o futuro como podemos saber o como se passou? A nossa avó não tem paciência para as perguntas do neto.

 

Rectifiquemos: alguém tem paciência para as questões do futuro? Se sobre estas não, como ficou provado, as outras interessam?

 

Mudemos o tema: sobre motivação, alguém quer dizer alguma coisa? É preciso um enquadramento: escola ou família? Qual o nível de ensino, quem de entre a família?

 

Mudemos de assunto. A história da carochinha, falava sobre o quê? Emancipação da mulher! Arrisca alguém. Como, se a mulher procura alguém, de entre os homens, que sirva para pai dos seus filhos e não para companheiro dela?

 

Afinal não era sobre a emancipação da mulher! Era sobre maternidade. Mas quando a mulher tem dúvidas sobre se deixou ou não o fogão ligado, quem manda para confirmar? Em uníssono respondem: o João Ratão! E, já agora, enquanto varria a cozinha e encontrou 5 tostões, em que é que ela investiu o dinheiro? Em fitas e laços para o cabelo. Então o tema era a prostituição? Os alunos não compreendem a arrogância da professora, já estávamos na escola outra vez, e há um que pergunta: e se escrevêssemos uma história sobre o futuro? A começar assim: há-de ser uma vez... e a professora anui: que boa ideia a sua!

 

Cristina Pizarro

 

12
Dez18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

Poeira cósmica



 

Custa a dizer, mas todas as pessoas, de alguma forma, se prostituem. Seja por dinheiro, por amor ou por outra coisa qualquer. A linha que as separa, ao contrário do que possa parecer, é muito ténue! É sempre um jogo de interesses o que está em causa. Podemos dar-lhe contornos especiais à medida do que queremos provar, a nós ou à sociedade, mas é uma característica do ser humano: vender-se! Vende-se diariamente por trabalho, achando que o acto é tanto mais digno quanto mais alto for o preço por que é remunerado ou compensado. Depende das leis do mercado, da oferta e da procura.

A dignidade do ser humano está muito longe de ser isto.

 

A estrutura mantém-se e sobrevive, porque serve o objectivo e o objectivo atinge-se: manter uma família nos limites da sobrevivência. Nas camadas sociais cujo critério de catálogo é um pouco mais elevado, existe o conceito de felicidade, definido como o bem-estar dos intervenientes, físico, psíquico e social.

 

A subjectividade subjacente a tudo isto entra em confronto directo com o que cada um pensa: o que é bom para ti pode ser mau para mim! Quem se importa? Agimos, reagimos e interagimos! Tudo no mesmo saco. Compatibilizamos coisas incompatíveis e chamamos-lhe criatividade, quando muitas vezes estamos a falar é de estupidez!

 

Atingimos então o limiar de conceitos como o respeito pelo outro e a dignidade por nós mesmos, onde damos sempre relevância ao último. Quem paga mais? A nossa vida não passa de um leilão em praça pública! Ninguém se compadece!

Há uma base de licitação, que é estabelecida discretamente pelo próprio e que é calculada tendo por base a questão: compensa mais do que estar sozinho?

E o ser humano não se apercebe de que a pergunta que acabou de fazer está viciada: qualquer coisa compensa mais do que isso, porque ninguém nos ensinou a ser sozinhos. Os mercados individuais entram em crash, devido à especulação que os precedeu. Era previsível se estivéssemos atentos, mas nesta corrida desenfreada por ser o melhor, perdemos a noção das etapas com índices individuais de avaliação que não se somam, mas que se multiplicam.

 

Começam então a aflorar na nossa cabeça as perguntas tolas, como se de repente começasse a Primavera: do que depende a minha vida? Quem é que eu quero ao meu lado, quando a morte vier, para me fechar os olhos? Podia ter feito mais? Foi digna a minha atitude quando rejeitei o que me era oferecido em dádiva? Fui honesto quando disse o que disse e não senti nenhuma das palavras? E porque o fiz? Quem está em mim que me domina? Porque digo não quando quero sim e sim quando não me importo? Que raio de consciência é a minha que me permite no dia-a-dia ignorar questões fundamentais, adiar sentimentos, sejam eles quais forem, e alimentar-me como um animal? Onde é que eu vou arranjar lucidez bastante para tomar por finito o que me parece eterno, quando o Universo que é imenso, poderá ser finito e eu comparado com ele sou um minúsculo crepúsculo feito de vento mais que sentimento, uma poeira cósmica que se dissipará sem que ninguém note?

Haverá alguém que pense nisto, capaz de me convencer que o nada existe para eu poder acreditar no resto?

 

E apesar de todas as minhas dúvidas e de todas as minhas certezas, a Terra move-se sempre na órbita que lhe foi prevista, mais coisa menos coisa, e não faz o mínimo desvio!

Percebo-a, mas não a compreendo! Se o fizesse por nossa causa resolvia o nosso problema e instalar-se-ia a desordem universal! Não lhe compensa! As leis do mercado também regem planetas, estrelas e galáxias! Mas experimentou fazer diferente, avaliou o impacto? O que temos é o resultado disso ou o produto de o não fazer?

 

Com esperança e sem amargura nenhuma: será que, como empresa em nome individual, não temos alternativa a essas grandes correntes, comerciais, financeiras, políticas, filosóficas, religiosas, éticas, morais, nem mesmo se começarmos hoje? E se quiséssemos? Dizem que...

 

 

 

Cristina Pizarro

05
Dez18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

Como eu me propus a educar deus e falhei

 

Em termos gerais, digamos que nesta idade, quando tropeçamos em deus e de repente Ele nos aparece à frente, só agora, quando teve a vida toda para o fazer e nunca o fez, e sabe Deus como às vezes era mesmo preciso para continuar, a nossa primeira tendência, em termos de atitude, porque a vida também já se encarregou de nos dizer que certos registos de comportamento em que teimamos insistir e não é pleonasmo literário porque o uso no sentido de reforçar a teimosia, ao limite, que às vezes temos, dizia, a nossa primeira tendência é agradar-Lhe e fazêmo-lo por vários razões: uma delas é porque Lhe reconhecemos, sabe-se lá porquê, alguma superioridade, ao menos em determinados aspectos, depois porque nos convencemos que Ele tem qualquer coisa para nos ensinar e adoptamos aquela atitude de professor e aluno: calamos quando não concordamos com Ele, fazemos que não ouvimos quando Ele divaga e começa o seu discurso do Eu, remetendo-nos, a nós, para a nossa insignificância de seres apenas humanos e quando Ele chega ao ponto, porque Ele chega com frequência a esse ponto, de se achar único e com direito a tudo, e deveres em nada, ignorando e desprezando os sentimentos que eventualmente tenhamos em relação ao que Ele nos diz, nós baixamos a cabeça!

 

Mas de repente começamos, com naturalidade, por causa daquela capacidade que temos de nos indignar e que é saudável pela característica peculiar que alguns de nós têm do espírito ou capacidade crítica, a perceber que talvez tenhamos escolha à imposição de que Ele nos quer ver reféns e de que se sente com absoluto direiro: “é assim que eu quero que faças” ou “eu não gosto disto em ti e por isso, se queres continuar a frequentar a minha igreja, vais ter de mudar, independentemente de gostares ou não, independentemente de sofreres ou não com isso, independentemente de seres ou não capaz. Eu não gosto! Eu não quero!”

 

Neste ponto começa a trabalhar em nós uma coisa que nem sempre sabemos que temos e aqui depende de sermos homens ou mulheres, porque uns temos umas e outros têm outras: as hormonas, chamemos-lhe assim só porque temos de lhe chamar alguma coisa e para que possamos avançar nesta exposição em que, arrisco dizer, o nome que damos às coisas não tem assim tanta importância, desde que a gente se entenda e se fixe mais no sentido que queremos dar às palavras do que noutra coisa qualquer. Ja percebemos, nesta altura da vida, que a questão da nomenclatura passa imediatamente para segundo plano quando temos em mãos coisas muito mais importantes como o entender das coisas.

 

Começamos então, nesta fase em que agora estamos, a equacionar diferentes formas de nos relacionarmos com Ele porque, apesar de tudo, e nós temos consciencia disso, nós queremos continuar a relacionar-nos com Ele e queremos até mais do que isso: que a relação seja saudável e que nos traga ou continue a trazer um ensinamento das coisas e uma aprendizagem da vida, sobretudo sobre aquela parte dela em que ainda não vivemos.

 

Julgamos, ou estamos convencidos, que vem a dar no mesmo, que mercê do título, Ele sabe mais do que nós, está mais preparado, tem mais experiência, mais sabedoria e conhecimento e até, ao ponto que nós chegamos, está seriamente preocupado connosco, supostamente seus filhos. Independentemente da metáfora ser cordeiros, somos filhos de Deus.

 

Pois parece-me agora que é exactamente aqui que nos enganamos. E não é fácil:

 

Primeiro, tomar consciência de que nos enganámos;

 

Segundo, achar que aquilo que tínhamos como perfeito tem imprecisões, algumas do tamanho do universo que Ele próprio criou;

 

Terceiro, pôr a hipótese de ser um crápula e

 

Quarto, suspeitar que, sabe-se lá por que razões ou motivos, Ele se quer vingar de nós.

 

E somos de facto engraçados neste ponto, depois da primeira reação que é o sofrimento de nos sentirmos abandonados e desprezados pelo pai, a coisa que fazemos logo a seguir é arranjar justificações para a sua atitude: talvez tenha tido uma vida difícil antes de chegar à coroação, ao altar que agora ocupa em todas as igrejas, acima de santos, anjos, arcanjos e do resto da família religiosa, dita assim, uma vez que não há em toda essa descendência o pecado da carne, a hereditariedade e a genética a justificarem o aumento exponencial dos defeitos ou a tendência para aprimorar qualidades que, de facto, não tem.

 

Percebemos, só neste ponto, que certas características ou qualidades que tínhamos como certas, estão nele não só em défice e mesmo ausentes como ainda tem a percepção de se convencer intimamente que é o único a tê-las e a considerarnos, a nós que o veneramos, como menores, incapazes e limitados, no que se refere a pensamentos, deduções, convicções e atitudes que afirma, em oração, gostar de ver em nós e que não vê! A questão que Ele nem sequer coloca, é que as temos todas, varia apenas nelas a importância que lhe damos e a forma como lidamos com elas. No nosso caso muito bem, no d’Ele incapaz de as saber interpretar porque lhe falta o resto: elasticidade mental!

 

E se há coisa que não lhe podemos perguntar, mas nunca, é: meu deus porque nos abandonaste? Só porque ele nunca nos vai dizer a verdade e vai desatar numa ladainha que nos vai fazer acreditar muito injustamente, isto não se faz a ninguém e muito menos a um filho, que a culpa é nossa. E isso é manifestamente impossível! E a razão é tão óbvia que até dá pena: nós não temos poderes!

 

Nota: Há um erro no texto de que já todos deram conta: onde se lê “Ele”, deve ler-se “ele”. Fica a nota para os não tão atentos a estas coisas da Língua.

 

Cristina Pizarro

 

 

 

28
Nov18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

T1-Duplex

 

Neste nosso pequeno mundo há de tudo um pouco.

O quarto das bonecas com estantes em toda a extensão das paredes, do chão até ao tecto. As bonecas são os nossos pensamentos. Há-as de todos os tipos: de porcelana, de trapos, de papel, de esferovite, de gesso, de barro, de vidro, de acrílico, de borracha, de plástico... todos os materiais disponíveis. Umas muito arrumadinhas e outras caoticamente dispersas. Conforme o tamanho assim é escolhido o espaço que todas elas, por mais pequenas que sejam, ocupam. Até a ranhura do parafuso que sustenta as prateleiras tem pensamentos, tudo milimetricamente aproveitado.

Depois há o compartimento das atitudes: das elementares, das mais elaboradas, das previsíveis, das arrojadas, das impensadas, das consequentes, das opostas, das supostas, das improváveis, das impostas, das declaradas, das do corpo e das da alma, das desesperadas, das mais calmas, das que operam, das que imperam e das que nada!

Depois temos o quarto escuro: o dos problemas onde uns, por resolução, vão dando lugar a outros e onde outros, sem se resolverem, se vão ultrapassando e se vão empacotando como cadeiras empilháveis, libertando assim algum espaço. Há dias em que o quarto está vazio e dias em que transborda. Há ainda outros cheios de pó e provavelmente com teias de aranha que ficaram “esquecidos” debaixo da cama, escondidos, arrumados em caixas ou pendurados como roupão atrás da porta. Há os sem importância nenhuma que nos dias de maior lucidez são colocados no início da fila e que, se for preciso espaço para algum novo, uma emergência, são os primeiros a ir para o lixo. E há os tipo cola que se agarram à gente como macacos a árvores e resistem a todas as intempéries, saltam de um ramo e logo se agarram a outro, numa acrobacia aérea que nem disfarçados de Tarzan conseguimos expulsar da selva.

Depois há o quarto de passar, o dos sentimentos, onde a roupa dobrada em cestos aguarda tempo e disponibilidade para ser passada e pendurada em cabides e onde a questão é a das prioridades: que roupa vestir hoje?!

Há também a casa de banho, de higiene mental e corporal, sempre a contra-relógio e onde descuidamos sempre a primeira em favor da segunda, porque esta vê-se e a outra não e nós somos vaidosos e importamo-nos com o parecer, antes do ser!

Depois há a cozinha, o local de preparação dos alimentos, comportamentos, que compramos em supermercados onde nunca há o que queremos e onde, não fosse a fértil imaginação que temos, ficaríamos sempre insatisfeitos e compensamos com uns a falta de outros!

E na sala, zona de ser e estar, o que é que temos? Tradicionalmente a maior área da casa, com poucos móveis para circular à vontade, com alguns quadros para contemplar quando os vemos e a televisão para nos lembrar que para lá da porta do T1-Duplex em que vivemos há um mundo sem portas a que pertencemos, onde todos os dias acontecem coisas que não controlamos, que não dependem de nós e com as quais temos de lidar a bem ou a mal ou de qualquer maneira!

Às vezes mudamos de casa por falta de espaço em vez de nos esforçarmos por arrumar a que temos e adiamos o problema, alimentamos o problema, dilatamos o problema, disfarçamos o problema, arranjando vazios para preencher, é o colapso! Agora a casa é grande, já há espaço para termos mais bonecas, mas o quarto dos adultos continua a morar na casa ao lado!

 

Cristina Pizarro

 

21
Nov18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

Era uma vez

 

 

As pessoas gostam de histórias, quanto mais metafóricas, melhor! Pergunto porquê. Começa a não metáfora! Porque têm medo da realidade nua e crua, que não nos permite acreditar noutra, que não nos deixa margem para a imaginação, que não nos dá a liberdade de acharmos que pode ser diferente do que parece ou do que é! E nós adoramos essa parte, aquela que nos dá asas ao pensamento, aquela que nos permite ser o protagonista do filme, entrar para a história sem ninguém nos ter posto lá. Ainda melhor do que isso, que nos permite ser os críticos do filme! Nós adoramos dar a nossa opinião, a nossa arrogância chega ao ponto de dizermos, quando a emitimos, "no meu conceito...", como se as nossas opiniões passassem a conceitos depois de as manifestarmos! Pomo-nos literalmente em bicos de pés! 

 

Há outra coisa que as histórias também nos permitem, que é o podermos ler nas entrelinhas! São festas à nossa inteligência: “ai tu percebeste isso?! Eu não! Eu, que sou muito mais inteligente que tu, percebi exatamente o contrário! Mas isso é possível?” É, quando se trata de histórias é! E nós amamos esse conforto, o nosso ego cresce, a nossa auto-estima aumenta... A propósito disto, nunca vi uma definição ou um significado de auto-estima que me agradasse! É, no meu conceito, ok, apanharam-me, mas eu primeiro, um convencimento, um autoconvencimento: eu acredito que... Mas pode não ser verdade! Completamente diferente de um outro conceito, este também meu, que é a autoconfiança, que é um gajo saber que é capaz daquilo que realmente é capaz. E defino estas coisas mais ou menos assim. Mas se calhar estou enganada, lá está, o de há bocado!

 

Do exposto até aqui decorre que é muito mais fácil ler histórias, são mais acessíveis, do que ladainhas de considerações, porque as considerações nos obrigam a pensar naquilo mesmo, e nós não queremos que ninguém nos imponha nada, ninguém tem paciência para isso! Então agora, para além de perder o meu rico tempinho a ler isto, ainda me querem obrigar a pensar no que eu não quero?! Não, e as histórias ainda têm outra vantagem, é que se podem contar. Então não é bom contar histórias que se lêem? Há sempre assunto de conversa: ontem li uma história que dizia assim.... Mas ninguém vai começar uma conversa: ontem li um artigo de opinião que dizia assim... Até podemos, mas...

 

O problema, há quase sempre um problema quando as coisas parecem estar a correr bem, está em que as histórias fáceis de ler são difíceis de escrever! É preciso pensar em quinhentas coisas e escrever só uma, qual?; pôr uma cadência em coisas sem relação aparente nenhuma e inventar uma; arranjar uma sequência mais ou menos lógica de enunciação; colocar pormenores a substituir o fundamental, distraindo o leitor com acessórios e adereços até ele se perder completamente no emaranhado de uma floresta densa e quando ele chega à beira do abismo aparece-lhe uma cama elástica que lhe permite saltar para a beira do próximo precipício, donde nunca cai porque se trata de uma história!

 

Nas considerações a gente cai. E o abismo está sempre mais perto e é sempre maior do que de início supúnhamos. Corremos riscos: de fazermos hematomas, de fraturar ossos, de distender tendões, de fazer rupturas musculares, traumatismos cranianos, luxações da anca, descolamento de retina, deslocação de... Ui, um sem número de possibilidades, quase todas más, mas que sobretudo dão uma trabalheira dos diabos a reparar e ninguém tem paciência para isso! Então agora para além de perder o meu rico tempinho a ler isto ainda me querem obrigam a ir ao hospital, serviço de urgência, que neste país é como sabem…

 

E isto tudo para dizer que, hoje, vou contar uma história que começa assim: era uma vez.

 

 

Cristina Pizarro

 

07
Nov18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

O hábito faz o monge

 

 

O desespero é bom. O desencanto é bom. A desilusão é boa. Tudo graças ao forte instinto de sobrevivência que temos, como animais selvagens que somos.

Chegados aqui, estamos num ponto importantíssimo: o ponto de partida para muita coisa e não faz diferença nenhuma se temos 40, 50, 60 ou 70 anos! 

 

Começamos então a identificar, com facilidade extrema, o que nos interessa e o que não, o que é verdade e o que não, o que nos é útil e o que não, o que nos faz bem e o que não.

Um exemplo simples: ouvimos, hoje é frequente isto, muita gente a falar da gestão da expectativa, mas fazem-no em nome individual, gerem a sua, não gerem a que o outro tinha deles e se pensarmos nisto temos que achar que não fazem mal, ao contrário, fazem bem, porque as expectativas que nós criamos sobre os outros e as situações, são uma ficção nossa. A tradicional frase: Faz parte do nosso imaginário. E sobre a mesma coisa ou pessoa, há variadíssimas ficções e versões! E a quantidade e a qualidade delas, dependem de quê? Exactamente, do nosso imaginário, da nossa capacidade de efabular, do quanto criativos somos. Porque e quando o fazemos? Quando nos sentimos vazios por dentro e não percebemos que só nós é que os podemos preencher, para que o processo seja eficaz e duradouro, porque os outros dão e tiram, emprestam, quando muito! Não raras vezes dão o que não querem ou não precisam e tiram-nos o que nos faz falta, o imprescindível. Não se faz!

 

E o hábito faz o monge, não falando aqui de roupagens. O hábito é perigosíssimo, porque nos habituamos muito depressa a ele, ao nosso e ao dos outros, e perdemos a sensibilidade que funciona na nossa vida como um sensor, um barómetro ou uma bússola. Por exemplo: comecei a escrever textos no telemóvel porque me permitia escrever muito mais rápido. Utilizando a escrita automática, escrevia só o início ou metade das palavras, o que faltava delas e os acentos vinham de bónus, mas passado algum tempo, lá está, depois de me habituar, deixei de ver as palavras que me eram sugeridas pelo dicionário e comecei a escrever como se estivesse no computador, letra a letra. Ou seja, o que de início me deixou contente por me parecer uma grande vantagem, passou, uns minutos depois, a ser naturalmente ignorado! Porquê? Porque me habituei, deixei de estar atenta, e fiquei insensível a uma coisa que, vendo-a e utilizando-a, me facilitava tanto a vida.

 

Talvez que durante este processo tenha dado um salto evolutivo: o ter deixado de precisar! Estava a brincar, isso seria realmente bom, mas não foi nada disso. O que me aconteceu é que regredi: depois de adquirir o conhecimento não o interiorizei e de seguida perdi-o. É isto que nos acontece muitas vezes depois de um longo percurso, não fazemos save e perdemos o "texto" todo! É horrível, todos sabemos como é horrível, porque já nos aconteceu a todos. Voltamos ao princípio, desta vez custa bastante mais e por dois motivos: porque já não temos o entusiasmo da primeira e porque estamos constantemente a fazer um esforço para nos lembrarmos do que tínhamos inicialmente escrito. Completamente inglório e desgastante. Nunca vamos conseguir o mesmo! Se fôssemos mesmo inteligentes, fazíamos um não-esforço para esquecer o que já tínhamos escrito, que é como quem diz, o passado, e começávamos de novo, mas sem recomeçar, porque isso nos não leva a lado nenhum. A memória às vezes estraga mais do que ajuda!

 

Mas, perco-me com uma facilidade! Relativamente à expectativa, convém não nos habituarmos a ter qualquer uma sobre nada que não dominemos, que nos seja alheio; a não esperar nada de ninguém e sabem o que nos é servido numa bandeja? O paraíso!

É engraçado como, às vezes, ao imitar o defeito adquirimos a qualidade!

 

Cristina Pizarro

 

 

 

31
Out18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

 

Um desejo

 

 

Olhei para a porcaria da estrela e fiquei à espera. E ela a olhar para mim, fixamente, como se não percebesse! Disse- lhe: então, não fazes nada? Mas eu não sou cadente! Não és cadente, mas tens poderes! O poder de...? De me concederes um desejo! Mas tu não tens desejo? Não é isso, que diabo! Então é o quê? Estás aí parada a olhar para mim, como se o que eu quisesse não fizesse sentido! E, sabes que mais, pode não fazer para ti, mas faz para mim! Se fizesse para ti, já tinhas feito! Ah, então é isso! O quê? Tu não sabes o que queres, porque se soubesses, já o tinhas feito! O que vale para mim, vale para ti!

 

Pareceu-me que a estrela estava a desconversar ou a fugir àquilo que eu julgava serem as suas obrigações e emudeci. Mas ela continuou: deves ter ouvido dizer que às estrelas se pode pedir um desejo, mas não é isso que estás a fazer! Ouvi-a e continuei sem dizer nada, mas ela notou que eu estava atenta e como que expectante pela sua opinião. Continuou: o que tu queres é um conselho e isso eu não te posso dar. Porquê...? Porque eu não sou desse mundo, eu não vivo o que tu vives, eu não pertenço à tua vida! Sou uma estrela, acordo e vivo de noite e desapareço de dia, embora esteja sempre lá e tenha na mesma vida, como tu quando dormes, e essa verdade torna o nosso relacionamento incompatível! Como!?

 

Pareceu- me que a estrela estava a entrar por um caminho que a mim não me agradava, a pôr-se de fora, assim em linguagem vulgar para se perceber rapidamente e sem rodeios. Continuou no seu discurso pouco claro: eu não sou o teu espelho! Se queres um conselho porque não falas contigo? A sós, numa conversa intimista. Não me importo de servir de vela, embora a esta distância não te sirva de muito o eu estar! Aqui fiquei mesmo sem saber o que lhe dizer. Ela percebeu que eu tinha ficado desapontada e acrescentou: quando quiseres um desejo podes pedir-mo, não sou cadente, mas tenho uma amiga capaz de os conceder e que nunca me falhou, mas primeiro tens de o formular objectivamente. Já pensaste se eu o entendo mal e to concedo? É melhor não correrres esse risco e depois, se fizeres o que eu disse, vais-te surpreender! De que forma? Quando pedires claramente o teu desejo, em voz alta, vais perceber que não precisas nem de mim nem da minha amiga.

 

Baixei por momentos os olhos como a interiorizar o pensamento que a estrela me tinha enviado e quando reergui o olhar, ela já lá não estava! Há estrelas do arco-da-velha! A gente pede-lhe um desejo e elas dão- nos um conselho!

 

No dia seguinte, à mesma hora, porque sou teimosa como um burro, olhei para o céu. Havia muitas estrelas, mas a minha não a encontrava! Esta coisa da terra se mexer, é mesmo verdade! Desesperada, ainda perguntei por ela, a uma vizinha, julgava eu! Como, ontem o quê, falaste com quem? E veio- me, com a pergunta desta nova estrela, a consciência do significado do momento único, a percepção do irrepetível, o sentimento da perda...

 

Nos dias seguintes, à mesma hora, porque não há nenhum burro tão estúpido que não aprenda, mandei vir um céu nublado, assim como quem pede uma entrada de refeição e veio, acreditem que veio! Cheguei a pensar, Deus me perdoe, que a estrela dos conselhos tinha ido falar com a amiga, a cadente, que tinha percebido tudo mal, porque eu às vezes tenho dificuldade em me exprimir e digo: céu nublado querendo dizer céu limpo! O que me valeu depois disto foi a sapateira recheada! Há coisas mesmo boas, assim facilmente, à nossa disposição!

 

Cristina Pizarro

 

24
Out18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-3

 

 

O Planeta Erra

 

 

Era uma vez um planeta que tinha nascido com uma delecção genética. Filho de ai e ãe, era abitado por seres umanos com características especiais.

 

As essoas relacionavam-se umas com as outras por contratos não escritos de dependência mútua e organizavam-se em amílias, núcleos pequenos com características semelhantes, cuja parecença era por um lado herdada e por outro fruto do ambiente restrito em que tinham nascido e crescido.

 

Até aqui a coisa parecia normal (não se entenda, neste caso, qualquer omissão do prefixo na palavra).

 

Havia depois um planeta vizinho chamado Terra, supostamente mais evoluído, em que os seus habitantes, que conheciam muito bem os do outro, tentavam, e conseguiam, usurpar as características dos primos, chamemos-lhe assim para simplificar o entendimento, e que tinham um lema, nitidamente adaptado, que dizia: “Errar é humano”! Confundindo assim linguagens de planetas diferentes como se fosse correcto escrever Português com palavras em Espanhol. Na verdade o lema, correctamente falando, seria: “Não errar é humano”, uma vez que não era lá que moravam porque a frase, pertencente exclusivamente ao outro planeta era, em boa verdade, “Errar é umano”. Assim fazia sentido, mas só neste contexto!

 

Nunca se percebeu completamente se os habitantes do planeta Terra tinham resultado de uma colonização do planeta Erra vizinho, cujo crescimento demográfico tinha atingido tal proporção que impeliu os seus abitantes à conquista de outras terras, para onde foram viver com as suas amílias constituindo, à chegada, verdadeiras famílias por gerações e gerações.

 

Esta teoria, a ser verdade, justificaria como convivem sem viver com, ou seja, com grande dificuldade de interacção, uns e outros. É sabido que o processo de aculturação (desta vez leva mesmo prefixo) não é simples e alguns dos membros, mais adversos à mudança, mantiveram as características primitivas de especiais, envolvidos agora no seio dos outros, onde originam constantemente conflitos a vários níveis tornando, não raras vezes, os relacionamentos insuportáveis!

 

E a vida não é simples! Primeiro porque o princípio fundamental da Justiça é difícil de aplicar. Tem de haver critérios diferentes para uns e outros e custa a identificar quem são uns e quem são outros, porque a sua aparente distinção confunde-se com a sua distinção na aparência. A título de exemplo, para que se perceba: há directores, presidentes e chefes de organizações provenientes do planeta Erra que fazem leis, decretos, portarias, despachos e regulamentos para os habitantes do planeta Terra.

 

Instala-se o caos, porque os habitantes do planeta Terra com espírito crítico, questionam, contrariam, debatem e, sobretudo, indignam-se!

 

É esta característica que torna insustentável a convivência, no mesmo espaço, de seres completamente diferentes, na maioria das vezes antagónicos.

 

Há que procurar uma solução, sob pena de extermínio, para a continuidade destes seres que, não sendo perfeitos e tendo muitas limitações, são seres humanos e a presença do h, digam o que disserem, faz toda a diferença! Só para dar um exemplo simples, imaginem no que se tornaria a geração mais nova, cheia de potencial e com toda a sua capacidade de mudança e construção do futuro, se de repente lhe tirassem das maõs os iPhones e passassem a usar iPones!

 

Ai valha-me Deus! Se não fosse o nosso passado histórico...

 

Cristina Pizarro

 

 

17
Out18

Crónicas de Assim Dizer - Sua Excelência, o Imperador

arrabalde-3

 

Sua Excelência, o Imperador

 

Temos um monstro dentro da nossa cabeça a quem temos de controlar, dominar e impedir que dê cabo da nossa vida e de nós.

 

O cérebro é um maníaco, um ditador, um tirano e um traidor. É básico, um computador com escolaridade mínima e que trabalha com Excel intermédio. Tem para lá umas tabelas e umas fórmulas de cálculo com factores de conversão para apresentação de resultados que não sabemos muito bem como, onde ou quem lhas introduziu. Não consegue distinguir um Ai! de prazer de um de sofrimento, interpreta as nossas emoções segundo um padrão interno que não obedece nem à nossa lógica de raciocínio nem à nossa inteligência. Resumidamente, faz o que quer e sobra-lhe tempo! Enquanto a nós o tempo nos falta para quase tudo!

 

Olhamos para ele e dizemos: lá está ele, sempre com o mesmo discurso, não sai daquilo. Se não fosse nosso, tínhamos pena dele!

 

Elaborou durante séculos, sim, que estas coisas herdam-se, planos de execução estratégicos, com tudo pensado ao pormenor, com avaliações periódicas, internas e externas, baseadas numa lista de critérios extensíssima, onde entravam juízos de valor, conceitos de ética e estética, apreciações, observações e consensos, eu sei lá!

 

Estabeleceu castigos, punições, prémios, recompensas, um manancial de moedas de troca, que lhe serviam, a ele, como medida do exercício de poder, da consciência que não tinha, da maturidade da qual nunca tinha ouvido falar e da inteligência que venerava como a um Deus inexistente.

 

Controlou as emoções que a custo demonstrámos, como se fossem peças de uma linha de montagem, dizendo-nos o que sentir, como sentir, por quem sentir, onde sentir e porque sentir.

 

Mas o nosso monstro é sôfrego, se lhe tirarmos os pensamentos, único alimento e do qual depende, tiramos-lhe tudo e ele não sobrevive.

 

Descobrimos-lhe a tática do jogo, chegámos nós ao poder. A partir de agora quem manda aqui somos nós e ou ele obedece ou o expulsamos de casa. Fizemos dele refém, neste momento estrebucha, agarra-se, como uma lapa às rochas, ao único que tem, o nosso passado e convence-se que com isso nos pode dominar. Engana-se, já nos libertámos dele. Temos agora pela frente um presente e um futuro que dependem apenas de nós, no presente e no futuro. Agora é ele que vive numa gaiola, enclausurado, encurralado, acorrentado. Repete como um papagaio aquilo que lhe ditarmos quinhentas vezes. Alimentamo-lo a pão e água, não merece mais. Durante anos converteu a nossa vida num inferno, apresentando-nos de aperitivo, como primeiro prato e segundo tudo aquilo com que não sabíamos lidar e reservou-nos para sobremesa a dor e a impotência de não conseguirmos realizar os sonhos que ele nos projectou, os sonhos que eram dele e a que apelidava de nossos para nos convencer a lutar por eles. Torturou-nos até a exaustão, sem dor, sem sofrimento, sem compaixão e com dolo.

 

Sacana! Fez-nos sentir culpa e remorsos pelas suas frustrações, pela sua falta de capacidade, pela sua falta de competência enquanto líder, pela sua ganância de poder!

 

E nós obedecemos, humildemente obedecemos, porque o cérebro nos fez acreditar que “queria o melhor para nós!”

 

Mas temos, felizmente e a par dele, a mente, sobredotada, a nossa menina com QI acima da média e nossa aliada. Trabalha noite e dia, chega a conclusões fabulosas enquanto dormimos, verdadeiramente única, mas raciona-nos a informação disponível. Só diz uma vez: ou estamos atentos ou lá se vai tudo e para sempre! Não dá segundas oportunidades, não perde muito tempo connosco, quem não estiver atento nem sabe que a tem! E foi com ela que se deu o inevitável golpe de estado, militar, com mobilização de todas as forças armadas, incluindo as de reserva, por terra, por mar e por ar. O cérebro foi cercado, não havia nem fuga possível nem alternativa a ela!

 

Vivemos hoje num planeta de recreio, com tranquilidade, calma e plenitude. Invertemos papéis, subvertemos funções, alterámos competências. Agora quem dita as regras somos nós. Finalmente patrões, com quase cem biliões de neurónios como criados. A nossa praia! Aos que não obedecerem, cortamos-lhe na glicose!

 

Com disciplina militar daqui a um mês já podemos ir com ele a um restaurante sem nos envergonharmos.

 

Percebemos que a quem temos de treinar é o líder, a mente, que é quem dá as ordens porque o cérebro nasceu para obedecer. O que lhe dissermos para fazer, ele faz.

 

Há pessoas que nos querem emprestar o cérebro delas para fazer connosco o que o nosso fazia, enquanto deixámos. E nós sorrimos, tranquilamente sorrimos. Agora a nossa paz é inabalável e é engraçado perceber como isso desestabiliza as intenções. Julgavam-se capazes de o fazer e a nós incapazes de o reconhecer. Acrescentam requintadamente ao que foi nosso, uma característica peculiar, a manipulação. Prato que já digerimos, a quente e a frio. A única coisa que conseguem é arrastar-nos para um café, a que vamos por curiosidade. Essa mesma, a de instinto animal que não conseguimos apagar da nossa natureza não humana. Mas é pacífico. Vamos e vimos. Vimos como fomos, em paz.

 

Maníacos? Talvez. Ditadores? Possivelmente. Tiranos? É uma hipótese a pôr, mas nunca traidores.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

10
Out18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-3

 

 

Gatos de cor

 

 

Era uma vez um gato branco e um gato preto, vizinhos, que moravam no beiral de uma casa branca e de uma casa preta, respectivamente, onde um abismo sem fundo os separava.

 

Às vezes o gato branco contava histórias sobre gatos pretos que se um gato preto ouvisse não achava piada nenhuma, mas era só em brincadeira com os amigos gatos brancos porque ele até achava que os gatos pretos eram iguais aos gatos brancos, a não ser que uns eram pretos e outros brancos, o que embora sem parecer ou ele ter consciência, era já uma grande diferença.

 

Um dia o gato branco encontrou, diria acidentalmente, o gato preto e perguntou-lhe se ele queria ir caçar ratos para outros telhados. Foram. Pelo caminho o gato branco disse ao gato preto que o pêlo dele era macio, mas que não era bonito e que, por mais estranho que isso lhe parecesse, não se importava que fosse assim, nem o impedia -como até aí se passava- de ir caçar ratos com ele. O gato preto, que estava farto de saber que tinha o pêlo macio, ficou triste por o gato branco não achar que o seu pêlo era bonito e quanto mais o gato branco lhe dizia que ele tinha o pêlo macio, mais o gato preto pensava que não tinha o pêlo bonito. Nem era bem isso, verdade, para esse gato nem interessava assim tanto que o seu pêlo fosse bonito ou feio, só queria que aquele gato branco, que se dizia seu amigo, achasse que o seu pêlo era bonito. Era como se ao dizer-lhe isso lhe dissesse outras coisas, era mais uma forma de lhe dizer que gostava dele. Mas o gato branco não percebia nada destas trocas de palavras e achava que se o gato preto tinha o pêlo feio lho devia dizer. E, mais uma vez, a questão nem era essa porque isto de pêlos brancos ou pêlos pretos serem mais ou menos bonitos é, como tudo, relativo e tratava-se apenas de um ser bonito para o outro e não bonito em si. De resto, que autoridade tem um gato branco para dizer que o preto é feio? São diferentes, eis tudo. E depois, pela última vez, o que magoou o gato preto foi a disparidade de conceitos, porque para este todos os gatos que tinham o pêlo macio eram de alguma forma bonitos, embora nem todos os gatos bonitos tivessem o pêlo macio, como ficou bem visto por este caso, já que um gato que se importa tanto com pêlos bonitos não tem, com toda a certeza, o pêlo macio.

 

E o gato preto ficava cada vez mais triste e cada vez mais longe até que lhe pareceu que quando as suas mãos se uniam numa só, nem era uma branca nem uma preta, era uma cinzenta e então desprendeu-se da mão do gato branco porque lá no seu íntimo parecia-lhe que o cinzento não era cor.

 

E então o gato branco quando viu que o gato preto ficou triste (e não que se preocupasse particularmente com aquele, mas porque por princípio nunca se aborrecia com gatos, fossem eles brancos, pretos ou azuis) disse-lhe que embora nunca mais fossem caçar ratos juntos, pelo menos podiam dizer-se “olá!” de um telhado para o outro. Mas o gato preto que para além de ter o pêlo feio era radical, disse-lhe que o telhado onde ele morava era muito longe do seu e que nem que este lhe gritasse o outro o ouviria. Ao que o gato branco respondeu, aparentemente sem relação nenhuma, que as pessoas gostavam dele, do preto, mais porque ele tinha o pêlo macio do que por ele ser bonito ou feio. E o gato preto, que estava farto de saber porque é que as pessoas gostavam dele, ficou ainda mais triste e pensou: Este gato não mede o que diz, nem sabe o que quer dizer, porque se acha tão branco e não repara que se fosse branco, se fosse todo branco, também os seus olhos eram brancos e quando olhasse o gato preto via-o branco e não era preciso muito para achar que o seu pêlo branco era bonito, pelo menos tão branco como o dele. E aqui está talvez a chave do problema, se o há, é que o gato branco tem os olhos pretos e o gato preto tem os olhos brancos, por isso quando se olham vêem coisas tão diferentes!

 

Cristina Pizarro

 

 

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