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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Jul21

Crónicas de assim dizer

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O espelho

 

 

Não foi por eu ser assim...

Havia um espelho atrás de mim!

Eu ouvia a música e queria dançar. 

Vestia as roupas para fazer melhor de conta, 

depois tirava as roupas para me sentir mais livre

e tu dizias que não gostavas!

Não eras capaz de gostar,

porque havia um espelho atrás de mim!

 

 

Eu cantava as músicas,

universais,

aquelas que toda a gente conhece a letra

porque são poemas,

a voz da alma,

a voz do coração

e tu não suportavas,

porque era cedo para acordar

e eu

num esforço enorme

para que não fosse tarde para viver!

 

 

Eu escrevia os textos num grito,

às vezes num lamento,

num sussurro,

num abrir de asas,

que não tinha,

para contrariar a tua desculpa de não poder voar!

Mas o voo era rasante e eu não era capaz,

porque havia um espelho em mim

e eu não tinha nascido pássaro!

 

 

Cristina Pizarro

 

14
Jul21

Crónicas de assim dizer

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Os pés descalços

 

Caminhavam lado a lado, descompassados, alternados, junto à beira-mar, naquela estreita linha de praia da areia molhada, entre a continuidade descontinuada da água que vem e vai. Sempre um à frente do outro, o que imprimia a ideia de movimento, de caminhada, como se houvesse uma meta, um porto, um destino, um objectivo, um fim que se pretendia. 

 

De vez em quando, interpelando esta aparente normalidade, surge um emaranhado de pegadas na areia, umas vezes caoticamente impressas e noutras transparecendo alguma ordem ou intenção disso! Umas vezes orientadas para dentro, outras vezes para fora, umas vezes sobrepostas, outras vezes de costas voltadas.

 

Este desenho, que surge de forma quase aleatória, aparece do lado esquerdo e do lado direito das marcas alinhadas que formam, conceptualmente, um caminho. Nem sempre essas formas são nítidas e nem sempre completas. Aparecem aos bocados, em bocados. Umas vezes mais profundas, como se a pessoa que por ali passou, o dono delas, pesasse mais e outras vezes a marca é superficial, quase imperceptível, como se o corpo que a deixou fosse leve, frágil, inconsequente! 

 

Não há, em nenhum ponto do percurso, nem duas pegadas paralelas nem mais de duas diferentes, dando a impressão que o caminhante nunca parou e que viaja sozinho. 

 

Seguimos de perto a sua orientação e não olhamos para trás, porque sabemos que as pegadas já lá não estão, já uma onda veio, entretanto, já o mar varreu a casa, já a água se foi embora. A areia da praia, atrás de nós, estará novamente virgem, preparada para novos passeios, de novas pessoas ou gaivotas ou caranguejos ou pulgas de água ou o que seja. 

 

A direcção das pegadas é sempre para a frente. Muito raramente, parece ter havido uma hesitação, que se nota por pegadas mais próximas, como se a marcha desacelerasse, mas instantes depois retoma o normal. 

 

Estes abrandamentos coincidem com aqueles desenhos laterais de pegadas sobrepostas e, dentro destas, das que deixam marcas mais profundas na areia, como se ali tivesse estado um deus com corpo, que os há! 

 

Insaciáveis na compreensão do mundo, debruçamo-nos sobre esse desenho mágico e percebemos que os pensamentos também deixam marcas na areia. 

 

A praia é, num mesmo tempo, extensa e curta, de algumas décadas! Quem por ali passou, se pessoa ou não, deixou marcas que não apagou, mas que se apagaram. Lentamente, muito lentamente, com o passar dos anos, dos meses, dos dias, dos minutos, dos segundos. Fugacidade.

 

Sobre a agressividade das marés, podemos pouco. No início resistimos, a bandeira que espetámos na areia tem uma haste grande, mas depois vai-se enterrando, descendo, porque a areia é pouco estável, pouco consistente, imprecisa.

 

Percebemos, na parte final deste passeio único, que nascemos descalços, vivemos descalços e morremos descalços. Nunca, pela vida fora, encontrámos sapatos na nossa justa medida. Fomos usando uns, largando outros, adaptando-nos, em esforço, aos que tínhamos, mas, sempre que nos víamos sozinhos, era descalços que nos sentíamos confortáveis.

 

A natureza à natureza.

 

 

Cristina Pizarro

 

07
Jul21

Crónicas de assim dizer

1024-cabec-isa-almeida

 

 

O improvável 

 

 

Porque é que apareceste agora

Quando eu me ia embora

Quando já tinha tudo pronto

O caos embalado

A dúvida embrulhada

A ansiedade controlada

A angústia acorrentada?

 

Porque quebraste o silêncio

Que era de ouro

Disseste a única palavra

A que acordava

Interrompeste o sono

Interrompeste o sonho

E despertaste em revelia

O sossego dos deuses do Olimpo

Todos quietos

Todos alheios

Todos entorpecidos

Todos adormecidos?

 

Porquê

Até posso entender

Há acasos para tudo

Mas para quê?

 

 

Cristina Pizarro 

 

 

 

30
Jun21

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

O que eu não sou

 

Eu não sou um boneco

nem um palhaço!

Não sou um fantoche

nem uma marioneta!

Não sou um espantalho!

nem uma boneca de trapos!

 

Eu sou um ser humano

com cabeça, tronco e membros.

 

Os membros são articulados

como os das marionetas,

às vezes tenho a cara pintada

como a dos palhaços,

outras vezes tenho os braços muito abertos

como os dos espantalhos,

outras, ainda, sou demasiado ágil

como a boneca de trapos.

Em certos momentos,

menos bons,

escondo-me dentro de roupas largas

e chego a parecer um fantoche

e noutros momentos,

mais raros,

rio de felicidade

e rolo e rebolo como se fosse um boneco.

 

Mas ser,

sou um ser humano.

 

Há quem não veja

grande diferença

entre mim

e essas personagens de ficção,

porque há bonecos,

há palhaços,

há fantoches,

há marionetas,

há espantalhos

e há bonecas de trapos

que aparentam ser humanos!

 

 

Cristina Pizarro

23
Jun21

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

Gaivotas em terra…

 

“Como é que tu permites?” Perguntava-me ele tranquilamente e eu, sem saber o que responder, a traduzir a pergunta em: Como é que eu permito?! Àquela pergunta eu não tinha de responder, mas a esta sim!  E não sabia! Equacionava-a, apelava à lógica de raciocínio, ao que faria ou não sentido naquele contexto e eram só dúvidas o que me assaltava. Razoavelmente não havia nada a apontar! Eram tudo questões subjectivas, coisas que tanto podiam ser como não, perspectivas opostas, ambas válidas, argumentos fabricados à medida para servir os propósitos que tinha, sem saber quais eram. Sempre o raio da consciência a puxar-me para terra quando a cabeça andava a rolar pelo espaço.

 

Parei, debrucei-me à janela da lucidez, mas no parapeito aterrou uma gaivota e eu distraí-me. Olhei-a, reparei no bico, nas asas, na cor das penas, no ar arrogante com que inclinava a cabeça como a demonstrar-me a sua superioridade por ter asas e eu não!

 

Eu não lhe reconhecia essas competências ou quaisquer outras que pudessem denunciar ou justificar o motivo daquela postura ou atitude. Disse-lho, porque sou de dizer o que penso, sempre e em qualquer circunstância, mesmo naquelas em que seria muito mais prudente não abrir sequer a boca. Sorriu de uma forma estranha, distante e evasiva. E partiu sem qualquer comentário, satisfação ou desculpa. Foi ofensivo o seu comportamento, mas só para mim, porque tinha expectativas. Embora não soubesse concretamente em quê ou de quê. Notei-o apenas pela desilusão com que fiquei depois dela bater as asas e partir. Naquele momento, a pena adquiriu contornos de ódio. Chamei-lhe ingrata, baixinho, sem que ninguém ouvisse. Então agora é assim, vai-se embora e pronto? Há idades em que nos achamos no direito a tudo, que verdadeiramente não temos. Uma coisa é o direito à liberdade, que temos, outra coisa é o direito, que não temos, de ferir os outros. Mas a gaivota, nesse dia, estava-se completamente nas tintas. Lá no céu, onde vivia, havia espaço para tudo, até para o inconsequente ou para o que ela achava que era inconsequente.

 

Eu continuava à janela, só que a perspectiva foi mudando e, de repente, já não era no parapeito da lucidez que estava, mas no da curiosidade, quase indiferença! Foi aqui que caí da janela por me ter debruçado demasiado a perceber que caminho, no seu voo, a gaivota tomava.

 

Via-a então na praia, violando a rede de pescadores, fazendo nela buracos para que o peixe caísse e ela o pudesse comer sem esforço. Achei-a falsa, no carácter, abusadora da confiança das boas pessoas que ali a deixavam estar a coabitar, por lhes parecer inofensiva a sua presença e nada maléfica.

 

Um dia a gaivota chegou novamente ao parapeito da minha janela, muito tempo depois e era obviamente outra, mas eu não podia jurar e pus a hipótese de ser a mesma. Agi como tal. Quando me perguntaram: “Como é que tu permites?”, eu fechei a janela sem qualquer hesitação e virei costas sem olhar para trás. 

 

A gaivota olhou-me, reparou no contorno dos lábios, na postura das mãos, no cruzar dos braços, no movimento do corpo, no ar arrogante com que inclinei a cabeça e fechei a janela, como a demonstrar-lhe a minha superioridade por ter braços e ela não.

 

Ela não me reconhecia estas competências ou quaisquer outras que pudessem denunciar ou justificar o motivo desta postura ou atitude. Disse-mo, porque era de dizer o que pensava, sempre e em qualquer circunstância, mesmo naquelas em que seria muito mais prudente não abrir sequer a boca. Sorri de uma forma estranha, distante e evasiva. E parti sem qualquer comentário, satisfação ou desculpa. Fui ofensiva no meu comportamento, mas só para ela, porque tinha expectativas. Embora não soubesse concretamente em quê ou de quê. Notou-o apenas pela desilusão com que ficou depois de eu fechar a janela e lhe virar as costas sem olhar para trás. Naquele momento a pena adquiriu contornos de ódio. Chamou-me ingrata, baixinho, sem que ninguém ouvisse. “Então agora é assim, vai-se embora e pronto?” Há idades em que nos achamos no direito a tudo, que verdadeiramente não temos. Uma coisa é o direito à liberdade, que temos, outra coisa é o direito, que não temos, de ferir os outros. Mas eu, nesse dia, estava-me completamente nas tintas. Aqui na terra, onde vivia, havia espaço para tudo, até para o inconsequente ou para o que eu achava que era inconsequente.

 

Fosse como fosse, quando há gaivotas em terra… alguma coisa não está bem!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

16
Jun21

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

Imagens

 

A preto e branco, é uma parte da nossa vida! Sempre à procura da cor, como um artista na paleta à procura da certa com que pintar na tela o céu, o seu céu, o mar, o seu mar ou a terra, a sua terra! Umas vezes dilui outras concentra. Mas o que verdadeiramente procura é a luz, alguma luz. De fora para dentro, de dentro para fora… uma fórmula, uma qualquer forma. Esconde uma coisa e exibe outra. Protege uma parte e oferece outra. Defende uma coisa e fragiliza outra. Vive um momento e anseia por outro.

 

Um dia, diz a esperança universal e imortal, no círculo de luz da objectiva, da máquina fotográfica que o Grande Senhor traz ao pescoço, aparecerá o nosso maior sorriso, aquele que vem da alma, do coração, seja de onde for, de dentro. Estarás lá nesse momento, para fazer o clic que o registará para sempre? Sim, a cores! 

 

Mesmo assim, a luz nunca será completa. Se completa, não de todo plena. Vem em rasgos, filtrada por uns quaisquer obstáculos ou objectos que no seu percurso se interpõem. Não sei porque razão lá estão nem quem lá os colocou, sei que estão. São pedaços, pedacinhos, como pérolas de um colar que se vão alinhando, coleccionando na memória. Da pureza do primeiro instante, fica apenas um momento original, depois vai-se fabricando uma história, vai-se fazendo um guião que serve de base à peça de teatro onde várias personagens entram e saem, algumas ficam. Há monólogos, há diálogos, há silêncios, há cenários, há roupagens, há enredos, vozes, pensamentos, sonhos, rostos, sentimentos e emoções. Funcionam como um trampolim, daí partimos. Se mais para perto ou mais para longe, depende da força de impulsão, que por sua vez depende de muitas outras coisas, mas sim, começa e acaba em nós. Primeiro a cores, depois a preto e branco.

 

Vivemos em círculos, acreditando sempre, a cada início, que são espirais com dois sentidos de movimento, que acreditamos sermos nós a determinar-lhe ou a escolher a direcção. A única coisa que podemos ter por certa é que sabemos onde a linha começa, mas não onde ela terminará ou quando!

 

Atravessamos a rua fora da passadeira sem olhar para os lados, passa um comboio a cores e somos atropelados. Acordamos no momento seguinte, brevíssimos instantes depois, num mundo a preto e branco com uma luz que nos cega, agora sem filtro, sem coisas pelo meio, vem directa a nós e queima. Não temos como nos proteger nem com quê. Estamos nus, visceralmente nus. A nossa pele é agora transparente, tudo a atravessa. Estamos, como nunca estivemos, frágeis.

 

É nesta fase que alguém amigo nos aparece com o poema de Torga! E nós, sensibilizados, a gostar dele e a pensar: o “Recomeça” ainda nos faz sentido, mas o “se puderes”… põe-nos a pensar: até podemos, mas será que ainda queremos? Ou é ao contrário, queremos, mas não sabemos se ainda podemos!

 

Há dias em que pegamos na ponta da espiral, que afinal não era um círculo, e vamos desenrolando, puxando o fio, como se fosse possível ele levar-nos ao útero materno de onde saímos! E percebemos, a meio do percurso, que mesmo que lá cheguemos, já não cabemos lá! Eram outros os tempos…

 

Retomamos então o poema no ponto onde atrás ficámos, lemos o resto e diluem-se as angústias e, acreditando no tempo que ainda temos, desaceleramos a marcha e começamos a pensar que deve haver uma qualquer forma de dar a volta ao texto! Sopra então, de dentro de nós, uma voz muito baixinho, quase me atrevo a dizer em surdina, que diz: e se em vez da pedra de Sísifo empurrares uma bola de algodão-doce?

 

Podemos, queremos e, quando assim é, de certeza que conseguimos!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

09
Jun21

Crónicas de assim dizer

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Work in progress

 

A realidade bateu-me à janela e eu hesitei! O sonho era bom e costumava bater-me à porta! E eu abria sempre, a pensar na hipótese de ser uma carta registada das finanças com "data limite para pagamento"! Com gente pouco séria, todo o cuidado era pouco e o meu pai ensinou-me que os avisos para pagamento se efectuam no dia em que se recebem, para evitar pensar mais no assunto. O conselho era sábio, mas eu não o seguia! Tudo o que tinha tempo, eu esperava por ele! Fazia aquilo de que tinha urgência e os avisos de pagamento não integravam a lista.

 

Continuavam a bater à janela, mas o prédio tinha entrado em obras de restauro da fachada traseira e todos os ruídos eram entendidos nesse âmbito! Primeiro que percebesse que podia não ser isso!

 

A realidade continuava a insistir comigo... Demorou muito tempo! Só pus essa hipótese quando a obra terminou e começaram a desmontar os andaimes! Já não tinha, visivelmente, ninguém à janela e continuava a ouvir o bater de uma mão no vidro da janela do quarto. Ainda assim, continuei sem reagir, pensando que, se fosse mesmo a realidade, ela se tinha enganado no andar! Enfim, havia a loja e sobreloja, a cave - 2 e - 3... Que garantia é que eu tinha que era mesmo no 5.Esq. o que se pretendia? Penso sempre que é engano, quando me batem à porta! Há a lavandaria, a Uber eats, a florista... Penso sempre que é engano! Há vezes em que nem sequer me levanto da cadeira da sala!

 

Mas a realidade insistia! Continuava a bater no vidro da janela e não chovia! Fui ver! Era mesmo ela e era mesmo para mim. Estava vestida de uma forma tão estranha, tinha um ar tão pesado no rosto, cruzou os braços de uma forma tão desprendida e uma postura corporal tão agressiva que a minha tranquilidade falou mais alto e por mim. Não abri a janela. Ainda hoje, e já se passaram alguns anos, pergunto a mim mesma, por mera curiosidade, o que pretendia ela! E não me arrependo de não lhe ter ligado nenhuma, porque estou plenamente convencida que não trazia nada de bom para me oferecer! Vinha roubar-me o sonho, beber-me a alegria de um só trago, levar a vida que há em mim...Tudo coisas que ela precisava e que a mim me faziam falta para continuar em paz! Fechei a persiana para silenciar o ruído e voltei para a sala! O jantar não tinha arrefecido porque o momento tinha sido breve. A conversa continuou no mesmo sentido, porque o interlocutor ali presente tinha uma calma que lhe permitia esperar sem perder o fio do raciocínio! Quando me sentei novamente à mesa não perguntou quem era! Continuou no pensamento a que tinha dado início momentos antes e retomou-o com esta serenidade: "Dizia então..."

 

E foi nesse dia que percebi, agora lembrei-me da canção, que à realidade temos de lhe pôr um travão. Primeiro que tudo, pedir-lhe que se apresente, depois que nos diga claramente o que quer e, finalmente, que nos respeite. Ter sempre presente que se pode ter enganado e não ser a nós que queira! Na grande parte das vezes, ela não o faz com um propósito. Reconheço-lhe, e não é dizer mal, sérias dificuldades no poder de orientação! GPS, nunca ouviu falar, o percurso é sempre novo, o destino fica com frequência a léguas de distância, acaba por ser normal que se perca! 

 

Até aqui, tudo bem, parece simples e inconsequente! O problema só adquire sérios contornos disso quando nós nos enganamos a respeito dela e aqui a responsabilidade já começa a ser nossa! "Então não vias logo... ? " Não, só depois! Quando ela se despiu é que eu reparei que não tinha umbigo! Fiz de conta, não mostrei surpresa e inventei, nesse momento, que estavam a bater à porta e que tinha de ir abrir. Ela, que gostava de liberdade mais que do ar que ali se respirava, aproveitou a deixa para sair!

 

Quando, pela segunda vez, regressei à sala a conversa retomou, novamente, o ponto exacto em que tinha ficado: "Dizia eu..."

 

 

Cristina Pizarro 

 

02
Jun21

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

Nos bastidores

 

Estávamos ali em frente ao espelho a prepararmo-nos para o que seria uma sucessão de estreias, anunciada na primeira infância.

 

Iniciámos o make-up, leve primeiro, nesta fase não havia grande coisa a encobrir. Um creme hidratante, quase sem cor e escolhíamos as tonalidades a dar a um rosto, que apenas se pretendia vivo. No princípio a pretensão não era grande. Deixámo-nos ir, como a corrente de um rio, sem prestar grande atenção às margens que o delimitam, ainda com a liberdade a correr-nos naturalmente nas veias.

 

Depois fomos acrescentando coisas, continuando sem verdadeiramente dar conta do que fazíamos. Mas entretanto começámos a conversar com os pescadores que, de cana em riste, atiravam o anzol às águas, também eles sem dar grande atenção ao que faziam. Pesca desportiva, apanhavam o peixe e devolviam-no, instantes depois, ao leito de onde o tinham retirado. O peixe já não era exactamente o mesmo nem a mesma a água que o recebia.

 

A seguir perdemo-nos nas histórias infindáveis que nos contavam. Olhávamos, víamos e reparávamos. Crescíamos com isso. Lentamente, muito lentamente. Aquelas pessoas solícitas que connosco se cruzavam na rua, vinham ao nosso encontro para nos indicarem o caminho, julgando-nos perdidos, quando nós só estávamos era atentos a pormenores que ninguém via!

 

Ensaiámos que nos fartámos, porque a cena nunca mais estava como queríamos. Se estava o actor, não estava o cenário; se estava o cenário não estava o actor. Às vezes parecia que já estava tudo bem, não perfeito, mas próximo disso e então vinha alguém dizer-nos: “Tu consegues fazer melhor” e o “tu”, no início da frase, era uma rasteira. Vaidosos como éramos, aquilo motivava-nos até ao limite, que não conhecíamos! O “tu” referia-se a nós e ecoava: Eu sou capaz de fazer melhor… ele acredita e confia que eu seja mais capaz… e então voltávamos, pela vez sem conta, ao início! Sem perceber que cometíamos os mesmos erros, as mesmas falhas, os mesmos vícios, os mesmos julgamentos…e insistíamos naquilo, anos a fio, espectáculo a espectáculo.

 

Com o passar do tempo, tudo ia ficando mais exigente: nós e o público! Cada ensaio era um começo, um recomeço! E nós cada vez mais exaustos, a acreditar no inverosímil, convictos de que a perfeição era agora possível, que o momento de glória estava já próximo e à nossa espera, que o público, a qualquer momento, se iria levantar em uníssono e aplaudir o nosso desempenho como se se tratasse de um momento único.

 

Interiorizávamos, julgávamos interiorizar, as falhas, conscientes delas e sentíamo-nos cada vez mais lúcidos, cada vez mais confiantes, cada vez mais próximos do momento final em que tudo faria um sentido derradeiro, em que o desajuste das peças já não era perceptível por a vida lhes ter já limado as arestas. Finalmente o esforço pago e, mais do que isso, compensado. E aqui pensámos alto e saiu-nos a frase. Agora sim!

 

Ainda com a iluminação do palco por acender, mas o espectáculo quase a dar início, uma voz eloquente sobrepõe-se a tudo o que é ruido:

“Estamos aqui hoje reunidos, junto deste nosso irmão...”

 

E os nossos olhos abertos, dentro do caixão, fechado como tínhamos pedido e a pensarmos, com uma curiosidade mórbida: quem estará? E a dúvida a ficar para todo o sempre, sem qualquer resposta à questão, que nunca se esclarecerá! 

 

Conheceríamos as vozes, se falassem, mas não era agora o momento! Os risos, se ousassem libertar-se, mas não era adequado! Os choros, se fossem capazes de se desprender! Mas em alguns eles não têm som, só as lágrimas correm pela face e noutros nem isso, apenas os olhos se humedecem! E nós para ali sozinhos, encarcerados, acorrentados, numa luta inglória de não querer ir para o nosso destino sozinhos, porque de súbito o que nos apetecia era abraçar toda aquela gente que fez, e sempre fará, parte da nossa vida!

 

Apetecia-nos cancelar o espectáculo, sem culpa nem remorso, alegando um qualquer motivo, que inventaríamos válido, e prometendo reembolso a quem comprou bilhete, mas na entrada o cartaz dizia: “Entrada livre”…

 

E assim partimos, desamparados. Nem um bilhete deixámos escrito.

 

Cristina Pizarro

 

 

 

26
Mai21

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

Um palhaço sem máscara

 

O palhaço está hoje no camarim e está indeciso. Não sabe como se remaquilhar. Sobre a sua pele enrugada, já tantas vezes pintada, custa-lhe hoje desenhar novos traços. A sua mão está pesada, sente-a pesada. Se bem que dantes o sangue lhe fluía facilmente nas veias, hoje as células quase pedem licença umas às outras para passar, num atropelo que às vezes dói.

 

Olha para o espelho e vê um palhaço. Ainda não se pintou e já vê um palhaço!

 

Pega no seu nariz postiço e apercebe-se de que, naquele momento, lhe era mais preciso uma máscara de oxigénio. “Um palhaço nos cuidados intensivos!”, pensa e tem um arrepio.

 

Já não consegue fazer rir as crianças, porque já não consegue rir de si próprio. Já não se acha graça. Rir de quê?

 

O palhaço está triste, carrega consigo anos de ficção passados a fio, consumidos numa realidade que, de repente, lhe parece alheia. A sua vida, povoada de personagens a quem ele deu vida, esqueceu a mais importante: a sua própria.

 

Desempenhou, sem dúvida nenhuma bem, cada papel que lhe entregaram, em diversos cenários que alguém, alheio a si, lhe construiu.

 

Improvisou, é certo, em alguns casos mais por consequência lógica que por criatividade nata.

 

Forjou sentimentos, adequou-os a cada interpretação, foi brilhante. Representou melhor do que se achava capaz, superou as expectativas de toda a gente. Fez rir muito, distribuiu momentos de felicidade como rebuçados embrulhados em papel brilhante.

 

E agora, quem o fará rir a ele? Quem lhe desenhará na boca um sorriso de orelha a orelha? Comprará a felicidade no quiosque da esquina com o dinheiro que, entretanto, juntou? Conseguirá assumir-se como homem, realizar-se como pessoa, inserir-se tal como é em sociedade? Levá-lo-ão a sério? Quem o reconhecerá?

 

Cristina Pizarro

 

******************************  ******************************

 

Nota do Blog Chaves

 

premio galaxia.PNG

 

Aproveitamos a oportunidade da publicação da crónica de hoje,  para anunciar e dar os parabéns à autora, Cristina Pizarro, por ter sido recentemente premiada com PREMIO INTERNACIONAL DE POESIA INÉDITA GALAXIA” 2021 - “GALAXIA INTERNATIONAL AWARD FOR UNPUBLISHED POETRY” 2021, tendo obtido o 2º Prémio na secção “ POESÍA EN LENGUA EXTRANJERA”.

 

A cerimónia de entrega dos prémios terá lugar no próximo sábado, dia 29 de maio de 2021, às 10 horas (hora do Chile) com retransmissão via Zoom em direto - The Awards Ceremony will take place next Saturday, May 29, 2021, at 10.00 a.m. (Chile), via live broadcast via Zoom.

 

Parabéns Cristina!

 

 

 

12
Mai21

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

Um arco-íris

 

 

Hoje apetecia-me ser um arco-íris! Começar numa cidade e acabar na outra, sem um verdadeiro começo, assim mais em jeito de nascer de um lado e atravessar o céu num semi-círculo, para não pedir muito…

 

Cavalgar um rio, as pontes sobre ele e atingir o céu de dia! Esperar lá por ti, sentir o teu cheiro, a tua pele macia, lembraste? Do cheiro do creme no teu corpo, que eu espalhei e tu permitiste e a satisfação plena no teu rosto: “Sinto-me tão bem, tão limpa!”… nem tu nem eu sabíamos que era o teu último banho… desculpa se não te cobri de beijos, pensava que tinha tempo. Dei-tos depois, quando já não tinha quase tempo. Tarde, sim.

 

Esperava por ti não sei quem, não sei aonde, não sei porquê… e tu foste, sem quereres. Partiste sem saberes, sem ninguém saber… na hora que o relógio não devia ter, no dia do mês que não devia existir, naquele maldito ano…

 

E hoje aqui ao olhar o céu, à espera que a noite te traga, apetecia-me, enquanto tarda, ser um arco-íris e partir ao teu encontro. Saltar de cor em cor como se jogava à macaca nos primeiros anos de escola, a entreter-me, a matar o tempo, enquanto a noite não chega!

 

Depois andar pelo Universo todo à tua procura. Em algum sítio tens de estar. O Lavoisier dizia… e acho que ainda ninguém provou o contrário, por isso ainda deve ser verdade.

 

À noite é mais fácil, olho aquelas estrelas todas e, não contes a ninguém, mas há dias em que me parece que todas elas estão a olhar para mim, a brilhar para mim e eu, como sei que tu só és uma delas, começo a brincar com cada uma. É tão fácil! Ao fim de poucas palavras percebo logo: Não, esta não é! E vou eliminando, assim, uma a uma. Num instante corro o céu às escuras e lá apareces tu a dizer-me aquelas coisas que eu tenho de guardar só para mim. Quem é que ia acreditar?! E, pensando bem, não é preciso, mas às vezes sabia-me bem partilhar!

 

Hoje está-me a custar mais esperar por ti! Foi por isso que me lembrei do arco-íris, de apanhar boleia nele e ir direitinha a ti, para te ver mais cedo, hoje, que estou com mais saudades. Mas ele não é assim lá muito seguro, aparece e desaparece num instante e antes que eu atravessasse de um lado ao outro, ia largar-me e eu estatelar-me no chão. Tu não ias gostar e, se pudesses, nem consentir. Ias dizer, como quando não achavas bem uma pessoa para meu namorado: “Pássaros de arribação!”, lembro-me tão bem. Onde raio foste buscar a metáfora? Mas tinha graça. E eu percebia o que querias dizer: gente que tanto está como não. Que está hoje e já não está amanhã. Umas vezes tinhas razão, outras não. Às vezes era eu que batia as asas, outras vezes nem lá estava. Nem sempre há regras. Disto já não percebias muito. No teu conceito, havia sempre. Devia haver, mas a realidade é sempre só uma parte da ficção.

 

Distraí-me outra vez! Enquanto estava aqui à espera que chegasse um arco-íris, parou de chover, o Sol abriu e empurrou as nuvens todas. O céu está agora completamente azul e, para ser sincera, não te sei dizer se chegou ou não a haver arco-íris, mas dá no mesmo. Ele nunca aceitaria levar-me ao colo! Misturavam-se-lhe as cores todas e ele só sabe ser assim, com aquelas linhas paralelas… sem qualquer interacção entre elas. É bonito, mas não é assim lá muito esperto! Pouca flexibilidade, não me agrada.

 

Vou esperar pela noite, é mais seguro. E eu hoje tenho mesmo de falar contigo por causa de uma pergunta que anda aqui a contorcer-me, a minar-me por dentro, a flamejar-me a alma, ruidosa, que não me dá sossego! Assim em jeito de te preparar para a resposta, eu sei que não precisas disto, nunca precisaste, mas é para mim que o faço, a questão é: Como é que eu te sobrevivo?

 

Se passaram dois anos sem que se tenham passado dois dias… com que palavras te vou explicar isto, eu que não tenho mais nada a não ser isso?

 

Não, as lágrimas não me têm ajudado em nada, só atrapalham. Lavam-me os olhos, mas não me lavam a alma! E o coração é sempre o mesmo, ali a sangrar sem que ninguém lhe valha!

 

Cristina Pizarro

 

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