Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

Crónicas de Assim Dizer - A sombra de um fantasma

assim dizer

 

A sombra de um fantasma

 

Ela estava ali, mas ninguém sabia! Na dobra dos lençois, entre a fronha e a almofada, nos bolsos do casaco, na franja do cachecol, nas pregas das calças... mas ninguém sabia! E não é que se escondesse, ao contrário, fazia tudo para ser notada, mas as pessoas estavam tão distraídas, tão concentradas em si mesmas, tão atentas a tudo o que as rodeava, que não davam pela sua presença, à sua frente! E ela foi saindo, devagarinho, sem mexer muito, da dobra dos lençois, do espaço entre a fronha e a almofada, dos bolsos do casaco, da franja do cachecol, das pregas das calças... e ninguém notou! Foi quando as pessoas começaram a entrar, mas ela já lá não estava! E nem se cruzaram na saída nem na entrada, porque os caminhos eram muito diferentes, não tinham cruzamentos nem beira da estrada!

 

Não sei se se chama a isto um desencontro, foi o tempo que não coincidiu no mesmo espaço. E o espaço também não era o mesmo. Fisicamente sim, como grandeza mensurável pertencia à mesma dimensão, mas a percepção dele era desnivelada, ocupava realidades sobreponíveis, paralelas, não coincidentes. Era no mesmo tempo, mas não em simultâneo!

 

Aquilo que alimentava a sombra não alimentava o fantasma que a projectava. Podia sim, ser o ângulo de incidência da luz que se movia e ao atravessar o prisma invisível e não palpável que tinha pela frente, fazer desviar o feixe luminoso que dele saía, imprimindo-lhe uma direcção alheia, estranha, indecifrável!

 

E o fantasma contorcia-se por não se ver espelhado na sua própria sombra e questionava-a: a quem pertences? E a sombra muda, sem identidade, inquieta, a olhar à volta sem encontrar constância onde repousar o olhar! Havia ali um conflito físico de causa-efeito por esclarecer e foi então que o fantasma se ergueu de noite, numa noite sem luar, e procurou descontroladamente a sombra que julgava sua e não a encontrou! Duvidou de si, da sua real existência, da sua solidez, da sua integridade, de tudo o que julgava ser! E questionou-se: a quem pertences? E o eu do fantasma mudo, sem identidade, inquieto, a olhar à volta sem encontrar constância onde repousar o olhar!

 

Mas o dia amanheceu! Do fantasma, nada e da sombra, muito pouco!

 

Cristina Pizarro

 

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Quarta-feira, 11 de Abril de 2018

Crónicas de assim dizer

assim dizer

 

Autodeterminação

 

Um dia a Vida chegou ao pé de mim e disse-me: vou-te dar uma tarefa para os próximos 10 anos. Vais ter de a fazer o melhor que podes e o melhor que sabes. Não te admito falhas! Tendo-as, terás que assumir a total responsabilidade delas e ultrapassá-las. Independentemente do seu grau de dificuldade, tens de ser capaz de saber lidar com as suas consequências e arranjar alternativas de forma a colmatá-las completamente, resumindo, é melhor que não falhes.

 

Esta tarefa vai requerer tudo de ti, todo o teu tempo e todo o teu empenho. Cabe-te a ti gerir os periodos de descanso, mas, como advertência inicial, é bom que comeces já um processo de treino e adaptação, de forma a aumentar e dilatar as tuas capacidades para que possas resistir durante todo esse tempo com o mesmo grau de eficácia. É bom que não coloques a hipótese de desistir porque não há ninguém que faça essa tarefa por ti. Se precisares de ajuda, podes pedi-la, mas não te aconselho a fazê-lo porque isso de alguma forma te enfraquece aos teus próprios olhos, que têm de olhar para ti sempre com admiração e porque mais tarde ou mais cedo, sabes como é, terás de retribuir em dobro e não o terás!

 

Eu percebi à primeira e a Vida percebeu que eu percebi, de forma que nem eu pedi para ela repetir nem ela o fez. Também não houve questoes adicionais nem frequentes em casos destes nem sequer um comentário.

 

10 anos depois a Vida chegou novamente ao pé de mim e disse-me: cumpriste a tarefa mais ou menos bem, aqui e ali acrescentaria alguma coisa e faria algum reparo, mas no geral não há grande coisa a lamentar, de forma que te vou poupar a apreciações e juízos de valor, até porque em alguns dos casos eu também fiquei com algumas dúvidas se fizeste mal ou bem!

 

Agora vou-te dar outra tarefa, esta por tempo não determinado. Terás, ou não, que a fazer o melhor que podes e o melhor que sabes.  Desta vez admito-te falhas, cuja responsabilidade terás, obviamente, que assumir, ultrapassá-las, saber lidar com as suas consequências e arranjar alternativas de forma a colmatá-las, resumindo, de vez em quando talvez seja melhor falhares porque o peso da tentativa de perfeição, neste caso, já é um risco elevado, não te compensa.

 

Esta tarefa vai requerer muito de ti, grande parte do teu tempo e muito empenho da tua parte. Vais ter de tomar decisões, consultar opiniões não te servirá de muito porque quem tem depois que lidar com o resultado delas és tu. É melhor que não as peças. A pior coisa que há é arrependermo-nos de ter seguido os conselhos dos outros quando eles não estão em nós e os outros nunca estão em nós, por mais próximos que estejam ou pareçam estar. Seriam dois os arrependimentos em vez de um e um já é demais para cada coisa.

 

Não adianta muito lutares contra ti própria, desta vez o resultado não vai ser como na outra, em que resultou sempre. Deves esforçar-te, porque tudo na vida merece o nosso esforço quando o bem que depois retorna supera o sacrifício. É bom que faças algum, mas sempre com a certeza de que nem sempre ele compensa, não é como da outra vez, em que compensava sempre! Esquece isso, estamos a falar de coisas muito diferentes.

 

Aqui não tens de pensar nas atitudes como sendo um investimento futuro, aqui o retorno, se o houver, é imediato e tudo o que seja pensares o contrário disso só te vai trazer desilusão, porque não vai haver maior retorno que o de investimento. Pode haver, mas não é a regra!

 

Esquece tudo o que aprendeste, desta vez tens de viver a curto prazo. Enquanto na outra missão a atitude era: tens de fazer hoje porque amanhã podes não estar e isto, tens toda a razão, era o melhor conceito de eternidade, porque caso no dia seguinte já não estivesses as coisas ficariam por fazer e isso não te era permitido. Aqui não, apenas convem para ti que faças hoje, mas se não fizeres, morreres amanhã e as coisas ficarem por fazer, não acontece nada, aqui não há consequências insustentáveis. É na mesma a sério, mas sem grandes consequências.

 

Eu assistia a toda aquela descrição com o ar de que, desta vez, eu não a estava a levar muito a sério. A filha da mãe percebeu e disse: a postura é exactamente essa, dou-te a tarefa, mas, desta vez, é só se quiseres!

 

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 4 de Abril de 2018

Crónicas de Assim Dizer

assim dizer

 

 

Vida Real

 

 

Era tudo a fingir! As pessoas, parecia mesmo que estavam ali à nossa frente, as vozes que saíam das bocas entreabertas e os sentimentos emanados de uma espécie de alma ou vindos de dentro do interior de qualquer coisa sem nome, mas que existia de facto e no entanto… era tudo a fingir! Do lado de cá, que se não via, havia holofotes, telas brancas, assessores de imagem, assistentes de comunicação, transformadores electrónicos de voz, fotógrafos, um director de produção, outro de realização, um guarda-roupa extensíssimo que parecia criteriosamente escolhido por cada um dos personagens em cena! Cenários criados artificialmente que faziam o inverosímil parecer verdade! A neve era disparada de canhões, semelhantes aos que fazem as pistas artificiais de neve nas estâncias de férias de inverno, onde a neve naturalmente não ocorre, ou ocorrendo não é suficiente, a chuva era pulverizada através da dispersão da água armazenada em depósitos e o Sol produto de uma iluminação feita por técnicos de luz!

 

Parecia que estava tudo ali, que a realidade era genuína, que a existência superava a velocidade do som e a realidade, a da luz.

 

Dos vários personagens que contracenavam o mais verdadeiro era um palhaço que entrava em todas as cenas, fossem elas dramáticas ou hilariantes! Acima de tudo fazia rir, aquilo que se espera de um palhaço! Quem é que se havia de lembrar disto, se não fosse verdade?! Que mente demente e porque motivo projectaria assim uma ficção do presente num futuro inexistente!

 

Mas eis que o operador de câmara decide intimamente abandonar o filme e deixa, acredito sinceramente que num acto impensado, a câmara em Rec! É então que se veem os holofotes, as telas brancas, os assessores de imagem, os assistentes de comunicação, transformadores electrónicos de voz, fotógrafos, um director de produção, outro de realização, um guarda-roupa extensíssimo e cenários criados artificialmente que faziam o inverosímil parecer verdade!

 

Não fosse esta distracção do realizador, própria de quem leva a brincar coisas a sério e a nossa vida não teria passado, em circunstância alguma, da rodagem de um filme improvisado, sem guião, sem direcção de artistas, sem primeiros e segundos planos, sem enredo ou qualquer espécie de história!

 

Parecia mesmo a sério! As expressões no rosto das pessoas, o brilho do olhar, as crispações dos músculos ou o seu relaxamento, variando entre o quem, o como e o quando! O onde tinha apenas uma importância relativa, podia pesar de alguma forma, mas não era determinante!

 

Tudo a fingir! Os diálogos que pareciam naturais e fluentes, fruto de um sentimento à flor da pele eram decorados em horas e horas de insónia que os actores tinham e que, como pessoas inteligentes que eram, transformavam, o gasto inútil de tempo, no melhor que sabiam fazer.

 

O trabalho era levado a sério, aquilo que nós pensávamos que era a vida era unicamente um trabalho levado a sério, por pessoas sérias que levam tudo o que fazem a sério, com excepção da vida que se restringe a um filme composto por várias cenas, repetidamente filmadas, até que finalmente o realizador que carregamos dentro nos diga: ok, passamos à cena seguinte. Esquecemo-nos, nesta altura, que alguns dos personagens já estavam envolvidos, já tinham acreditado no disfarce, já tinham interiorizado a personalidade da figura que representavam e são estes depois que vão sofrer, os que não perceberam desde o início que isto era tudo a fingir! E não podemos confessar nada disto para não passar por idiotas, também, era só o que nos faltava!

 

Se isto nos fosse dito desde o início, à altura do nascimento, com as capacidades que temos, arriscar-me-ia a dizer que antes de completarmos um ano de vida já teríamos dado a volta ao texto, mas ingénuos como somos e carregando o pecado original, independentemente de sermos ou não baptizados, pensámos, até prova em contrário, que era tudo verdade! E a prova em contrário surge-nos numa altura da vida em que somos, por defeito ou à falta de melhor, francamente estúpidos!

 

Ficamos então desiludidos, pior do que isso, surpreendidos com os factos reais: então não é que nos aparece alguém, alheio a nós, a decidir por nós o que havemos de fazer da nossa vida! E nós, boas pessoas que somos, moralmente bem formados, eticamente acima de qualquer suspeita e no geral isentos, ficamos à espera para ver no que aquela coisa dá, em vez de os mandarmos passear sem receio nem ambiguidades, porque não pode haver culpa nem remorso quando alguém se apropria ilicitamente da nossa vida! E, sem dúvida nenhuma, quem se apropria da nossa vida é sempre de forma ilícita! Afinal, a nossa vida é de quem?

 

Puta que os pariu, sem ofensa para as mães que, de certeza, como todas, fizeram o melhor que puderam e souberam!

 

Mas talvez nos apareça, entre o pôr e o nascer do Sol, uma fonte onde ainda possamos beber alguma dignidade!

 

Temos um compromisso por cumprir: connosco mesmos! Quem sabe se, sem esse, se não possa cumprir nenhum outro!

 

Independentemente do que os outros esperam de nós, há uma pessoa a quem não podemos falhar: a nós!

 

Se isso implicar juízos de valor a nosso respeito, considerações públicas sobre ética, moral e personalidade, que as defenda quem quiser, nós não somos deste planeta, não nos cabe a nós responder por seres humanos que não respeitam o nosso conceito de ética, de moral e personalidade!

 

A questão é sempre a mesma: dormirmos em paz com a nossa consciência, mas isso não nos deve bastar! Será que a nossa consciência vive em paz connosco?

 

É aqui que começa um distúrbio comportamental nem sempre de fácil constatação. O que é que nós pensamos de nós? Quem nos julgamos? O julgamento que fazemos de nós é isento ou está conspurcado com aquilo que os outros acham de nós? E o que os outros acham de nós tem alguma coisa a ver com o que nós somos? Quem é responsável pela ideia que os outros formam a nosso respeito? Fomos nós? No nosso dizer, no nosso pensar, no nosso manifestar, no nosso revelar, no nosso fazer? Foi no nosso exemplificar que lhe incutimos a ideia que eles formaram a nosso respeito? E se eles perceberam tudo mal? Se são uma cambada de otários, burros, e vistas curtas que não almejam o que de mais profundo há em nós? Ficamos reféns deles? Quem são eles para se reconhecerem no direito de emitir opiniões a nosso respeito? É a liberdade de pensamento que lhes dá esse garante? Quem lho permitiu? Porque é que eles hão-de ser mais importantes do que nós? Porque é que a sua opinião há-de ser mais verdadeira que a nossa?

 

Nego, isto e aquilo, dito por ele ou por outrem! Quem nos quiser conhecer tem de, prioritariamente, saber responder à pergunta: quem somos nós e se a resposta divergir de quem nós somos, deve ser ignorada. Pode haver heteronímia, mas não ambiguidade!

 

Deve haver coerência no dizer e no julgar, tem de a haver no pensar e no sentir! Quem nisto não vê diferença, não sabe o que são as coisas, pior do que isso: não sabe porque pensa nem sabe o que é sentir! Resumindo: não interessa para nada! E falar disto é perder tempo, temos, ainda assim, esse direito! Julgo eu, com todas as limitações que tem um julgamento!

 

Será que ainda vamos a tempo de começar, aqui e agora, a viver? Pegar na câmara de filmar e…

 

Cristina Pizarro

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:30
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Quarta-feira, 21 de Março de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

 

XXVI

 

Comecei a enfrascar-me todos os dias, a procurar no álcool o que não queria encontrar na vida. Tinha medo de tudo, tinha pavor de pensar que podia ser a próxima vítima e isso deixava-me num estado de torpor que estava a atingir proporções inaceitáveis.

 

Se por um lado eu tinha consciência do que me estava a acontecer, também era verdade que não conseguia por termo àquilo, se bem que racionalmente achasse um perfeito disparate tudo o que andava a não fazer. E só parei no dia em que o meu amigo me arrombou a porta de casa, porque eu não lha abria, e me disse olhos nos olhos:

 

- Agora que eu estou curado é que tu decides adoecer!?

 

Deu-me dois pares de estalos e eu fiquei imóvel.

 

Abriu a torneira da casa de banho, despiu-me, enfiou-me numa banheira de água fria e disse:

- Acabou! Veste-te, vamos sair! Tenho uma coisa para te contar.

 

Nessa altura eu já não era bem um ser humano, tinha-me transformado numa máquina que assegurava apenas a sobrevivência, por uma necessidade básica de animal faminto. Comia pouco, bebia muito e dormia o suficiente. Quanto ao ar que respirava, estava confinado ao interior da minha casa. E quanto ao resto, nem pensar.

 

Saímos em silêncio e quando chegámos ao parque, à sombra da árvore onde brincávamos quando éramos crianças, disse-me:

- Estou apaixonado!

 

E as minhas palavras foram:

- Sabes onde ela mora?

 

Riu-se e terminou a frase:

- Desta vez, é pela vida!

 

A expressão do meu rosto foi de tal forma desprendida, alheada e distante que o meu amigo não resistiu a perguntar-me:

- O que é que tu tens?

- Nada.

 

Mas esta resposta não lhe serviu, continuou com o olhar a espiar-me e eu incomodado, sem saber o que fazer, perguntei-lhe:

- Estás a olhar para onde?

- Para o outro que há em ti.

- Ah, já o encontraste?

 

Aqui há uns tempos peguei no meu revólver de 9 mm e disparei-o. Quis “a providência divina”, em oposição ao livre arbítrio, que tivesse falhado. Não tivesse sido isso e tinha dado cabo da minha vida ou do que resta dela.

- O que é que tu tens?

- Nada, absolutamente nada. É só isso.

 

Levou-me ao médico, desta vez a um médico que nunca tinha tido anoxias cerebrais, nem durante o sono nem nos momentos de vigília.

 

Fiquei internado oito dias sem diagnóstico, passando mais tempo a dormir do que acordado, até que o médico me deu alta dizendo ao meu amigo o que só me confessou anos mais tarde:

- O seu amigo não tem nada, absolutamente nada. É meio marado dos cornos, mas isso até eu e estou aqui a fazer diagnósticos, como o senhor vê.

 

Foi assim que me curei de um estado patológico que nunca se definiu, mas de que todos padecemos: o medo de sermos enganados e percebi que só há uma forma de evitarmos isso! Andar pelo nosso próprio pé, decidir apenas com a nossa cabeça e compreender que só é imperativo que haja uma pessoa a gostar de nós, o próprio.

 

Tendo isto por princípio, vive-se relativamente bem.

 

É claro que estas palavras só podiam ter saído da boca do meu grande e sincero amigo que, talvez esteja na altura de vos dizer, é meu irmão gémeo!

 

E, como tal, sempre houve entre nós muita cumplicidade, como em todos os irmãos gémeos. Se só nos verdadeiros ou também nos falsos não sei, em qualquer caso gémeos, em qualquer caso cumplicidade. O que um sente, o outro tem.

 

Dos dois, só um sobreviveu. O segundo disparo não falhou. Quis a “providência divina”, em concordância com o livre arbítrio, que no sítio errado e na hora errada estivesse a pessoa errada. Desta vez escreveu torto por linhas tortas! Até eu fazia melhor!

 

Cristina Pizarro

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Quarta-feira, 14 de Março de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

XXV

 

E o que parecia estar resolvido para o meu amigo, estava agora por resolver para mim!

Como é que a partir desse dia, eu ia encarar a injustiça da vida ou o que ela faz connosco ou o que nós fazemos com ela!

Porque é que as coisas acontecem desta maneira?!

Como é que permitimos que alguém que não tem nada a ver connosco nos lixe completamente a vida ou o que nos resta dela, se por acaso já alguém se atravessou nela primeiro e no-la lixou também?!

 

E começo a pensar naquelas teorias esotéricas, no carma, de que as pessoas atraem para si um padrão que se repete, para nos ensinar qualquer coisa que morremos sem aprender.

Vêm-me então à cabeça uma série de merdas em que nunca acreditei, a que no limite dava o benefício da dúvida quando mas contavam, porque era adepto da frase nem sempre nem nunca.

Mapas astrais e o caralho, perdoem-me a expressão, mas estou fodido como um peru na véspera de Natal, os signos do zodíaco, horóscopos e ascendentes de signos, ler as cartas do Tarot, o oráculo e a puta que o pariu! Será que essas merdas tinham algum sentido?!

 

Comecei a deambular pelas ruas e a ficar com medo de encontrar alguém que me fodesse a vida como tinha acontecido ao meu amigo. Mantinha os olhos fixos no chão e só me lembrava que tudo o que me pudesse acontecer podia ser excessivamente perigoso. Comecei a temer as coisas mais rotineiras e insignificantes e a fazer associações impensáveis. Por exemplo, só de pensar que o meu amigo tinha encontrado a gaja quando ia a sair da garagem onde tinha deixado o carro a fazer a revisão, fazia-me ter pânico das garagens de automóveis e andava a adiar a mudança de óleo mais do que a entrega do IRS nas finanças, pois que neste último caso todo o mal do mundo era uma multa que me imputavam e tudo o que se podia pagar com dinheiro tinha um grau de importância relativo. Agora a sério, foi sem querer, não estava a fazer nenhuma alusão à menina do bar, nesta segunda parte do meu raciocínio!

 

Comecei a ficar o que acho que se chama paranóico. Não saía praticamente de casa, consumia livros como havia gente que consumia droga e saía apenas para comer ou ir ao supermercado abastecer a despensa.

Recusava todos os convites em que entrava alguém que eu não conhecesse e uma vez, quando questionado por um amigo, chegou mesmo a sair-me a frase “não gosto de pessoas”.

É claro que eu estava com uma fobia qualquer, trauma ou sei lá o quê, e tinha de resolver o assunto antes que endoidecesse de forma irreversível! Também tinha fobia a esta palavra e a muitas, muitas outras, como todas as mentiras de que o meu amigo tinha sido alvo.

 

Eu era um gajo de mentalidade aberta e o que mais me tinha chocado na história do meu amigo não era o facto de ele ter descoberto que ela era uma prostituta, o que me revoltava era o facto de ele nunca ter dado conta que ela era uma puta! Esta era a grande diferença, é que as primeiras têm uma morada e as segundas não!

 

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 7 de Março de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

XXIV

 

No dia seguinte quando acordei, passava do meio-dia e a cabeça pesava-me como chumbo sobre os ombros. Sabia a razão, tinha uma decisão séria a tomar, posto que o médico a tinha, como uma batata quente, colocado nas minhas mãos.

Mal pensei nela, em décimos de segundo os meus neurónios sensitivos conduziram o estímulo, articularam-se nas sinapses e a informação chegou ao cérebro.

Decisão tomada.

Comi qualquer coisa ligeira e fui ao hospital. O dia estava muito agradável, o Sol brilhava lembrando que, apesar de tudo, continuava a ser a estrela que nos aquecia e nos iluminava!

 

- Francas melhoras!

Pedi ao médico para conversarmos um pouco, num local mais privado e disse-lhe:

- Não diga nada à família sobre o estado de saúde ou falta dela, como quiser, do meu amigo. Eu próprio me encarrego de lho comunicar. Sou um amigo de longa data, íntimo de toda a família e sei exactamente como lhe transmitir o que o senhor doutor me disse ontem.

 

Até hoje, não disse nada. Conheço alguma coisa da natureza humana e não suportaria a ideia de o meu amigo ser tratado como o coitadinho.

Era inevitável que nos convívios sociais, jantares e outras coisas, quando alguém contasse uma anedota e ele não percebesse à primeira, iam pensar: pois, as lesões cerebrais.

Também não disse nada ao próprio, pois que quando nos dão uma coisa como aceite ou verdade absoluta, não há depois forma de a combater. Acabamos por ficar reféns dela e desistir de a contrariar ou de a vencer.

A última coisa que eu queria era que o meu amigo se sentisse uma vítima.

E depois a medicina não era como a matemática, dois mais dois nunca eram quatro.

O que é que o médico sabia do que me tinha dito?

 

“Neste momento não podemos avaliar a extensão das lesões”.

Nem naquele momento nem nunca! Ele não o conhecia antes, não passou a conhecê-lo depois. O seu grau de conhecimento não passava de um episódio. Tinha-o conhecido no serviço de urgência, provavelmente há mais de 24h sem dormir, por causa das prestações da casa, da mota e do barco, das férias no estrangeiro…

Trabalhava como um doido, para dar resposta aos sonhos que tinha projectado, muito acima do seu limite de sobrevivência. Naquela noite tinha, provavelmente, atendido já centenas de pacientes e agora, exausto, em vez de pedir a um colega que o viesse substituir, levava para além do limite humano a capacidade de trabalho, que achava que tinha.

 

“Sequelas irreversíveis”! De irreversível havia a morte e o meu amigo tinha escapado a ela, fosse por milagre ou pelo que raio fosse, nem me parecia nada que tivesse sido por isso. Foi porque era quem era, com uma força interior inabalável, com uma determinação vincada, com uma assertividade invejável e uma personalidade voluntariosa, solícita.

Apostaria que, naqueles 15 minutos de anoxia, a morte lhe tinha aparecido à frente e ele a tinha, literalmente, mandado à merda! E ela foi, como íamos todos, sempre que ele fazia isso connosco. Nem melhor nem pior, tal e qual.

 

É claro que não pude deixar de ser assaltado pela dúvida de se estaria a ser egoísta, por ser o único a ter conhecimento do que tinha acontecido. Mas o que é que, exactamente, tinha acontecido? Alguém sabia?

Dúvida tirada.

 

Nos meses que se seguiram, e porque eu estava atento, apercebi-me de algumas situações pontuais em que poderia identificar uma falha, se assim posso falar, nas atitudes ou no comportamento do meu amigo. Imediatamente as ultrapassava, fazendo-o perceber de que acontecia a toda a gente. E não lhe estava a mentir, acontecia a muitos e com muita frequência, a única diferença é que os outros não tinham um diagnóstico médico. Haveria ele, por ter esse privilégio, de se sentir menos capaz?

Quantas anoxias cerebrais teria o médico tido ao longo da sua vida, enquanto dormia? Ninguém estava lá para ver, para testemunhar e devia ser adepto da frase “eu só vejo quando acreditar”. Ora aí está, tal como eu, quando olhava para o meu amigo não acreditava em nada do que o médico me tinha dito. Ver o quê?

Cristina Pizarro

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Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

 

XXIII

 

Na realidade, as coisas não se passaram exactamente assim! No dia seguinte ao do internamento do meu grande e sincero amigo, voltei lá, ao bar, que todos conhecíamos menos ele. Desta vez sozinho e não fiquei na sala de cadeiras forradas a veludo vermelho, não tomei nenhum whisky e não falei com ninguém, a não ser com a “Madrinha”. Era tratada assim a dona do bar, uma mulher sexagenária, alta e muito gorda. Cada traço do rosto escondia uma história para contar, a maioria delas nunca as contaria a ninguém. Bonita, mas sofrida.

Fui directamente ao primeiro andar. Isso mesmo, costas contra costas, como fazíamos na caça, como fazíamos na guerra, protegendo-nos uns aos outros.

 

A decisão foi fácil de tomar e tinha por cenário a sala de espera da urgência do hospital. Ficou-me gravada a expressão do rosto, que o médico trazia quando me veio dar a notícia:

- O seu amigo já saiu da sala de recobro e está nos cuidados intensivos. Vai sobreviver, mas teve uma anoxia cerebral de quinze minutos e isso vai deixar-lhe sequelas irreversíveis.

- Que sequelas?

- Neste momento não podemos avaliar a extensão das lesões. É um milagre, estar ainda entre nós.

 

Nunca, em toda a minha vida, tinha sentido o que senti nesse momento. Um estado de confusão mental, com pensamentos descoordenados, com uma vontade lancinante de pôr termo ao que tinha causado aquela amputação ao meu amigo. E sentia a palavra irreversível, a latejar na minha cabeça.

Até esse dia, eu pensava que irreversível só era a morte! Tudo o mais se podia, de uma forma ou de outra, contornar, mas não era assim.

- Penso que poderá continuar a exercer a sua actividade profissional, mas com algumas limitações.

- Limitações?

- Sim, digamos que guardará do passado todo o seu passado e isso permitir-lhe-á continuar a desempenhar aquilo de que o seu cérebro tem memória, mas já será mais complicado se quiser iniciar um novo projecto. Percebe o que lhe estou a dizer?

 

O que ele me estava a dizer é que o meu grande e sincero amigo tinha parado no tempo, sem que isso lhe trouxesse de presente a imortalidade.

- É difícil lidar com estes doentes e até decidir o que devem ou não saber sobre o seu grau de deficiência…

- Grau de deficiência?

- Talvez não seja a palavra mais correta, dizendo melhor, grau de insuficiência…

Por momentos deixei de ouvir a voz do médico, aquela conversa despoletava em mim sentimentos que eu nunca tinha tido e com os quais eu não estava a saber lidar.

- … em termos de raciocínio, por exemplo, pode levar mais tempo a processar a informação e chegar mesmo a não entender alguma que lhe é dada.

 

Para além de parar no tempo, o meu amigo ia ficar lento! Fui então assaltado por um pensamento mórbido: o meu amigo tinha andado a fazer de otário sem o ser e sem o saber, e agora que finalmente tinha tomado consciência disso e lhe ia pôr termo, ia ficar otário!

- O senhor está-me a ouvir? Há decisões que, nós médicos, não podemos tomar, tem de ser a família. Eu só estou a falar consigo porque foi o senhor que o trouxe ao hospital e porque ainda não conseguiram contactar a família.

- Que decisões?

- Por exemplo essa de que lhe falei, se é preferível o doente estar completamente esclarecido sobre o que lhe aconteceu, de forma a preparar-se melhor para a vida ou se, ao contrário, é melhor omitir-lhe o seu verdadeiro estado e deixar que seja ele, lentamente, a aperceber-se da sua falta de capacidade para determinadas coisas.

 

Eu estava num estado alucinado, o médico a pôr a decisão nas minhas mãos e eu a achar-me incapaz de decidir. Cheguei a um estado de taquicardia que tiveram de me sedar para que não me acontecesse nada ou para que eu não fizesse nada, ficou por esclarecer o motivo.

 

Já era tarde, o meu amigo ia ficar alguns dias no hospital para observação. Fui para casa e quando entrei na sala dirigi-me ao móvel-bar que tinha à entrada, do lado esquerdo, e bebi três whiskies, maneira de falar, porque abri uma garrafa e quando a deixei estava a meio. Fui ao quarto, abri a segunda gaveta do armário onde tinha, há décadas guardado, o meu revólver de 9 mm e carreguei-o. Saí.

 

Quando me dirigi ao primeiro andar, não utilizei o elevador, subi pelas escadas, de dois em dois degraus. Enquanto subia, debatia-me com a atitude a tomar: o que é que eu devo fazer? Bato à porta e espero que ma abram ou entro sem bater?

Escusado. Quando cheguei à entrada do quarto, a porta estava entreaberta. Em silêncio e cautelosamente, a medo diga-se mesmo, abri-a muito devagar e foi então que os meus olhos se crisparam nos dela. De imediato, descarreguei a arma. Ouviram-se gritos, muitos gritos. Pela primeira vez na minha vida eu tinha falhado. A cabeceira da cama, almofadada ao estilo inglês, tinha ficado com a esponja a descoberto.

 

Era verdade que eu estava alcoolizado, também era verdade que só por essa razão é que tinha falhado. E daí talvez não, um homem nunca sabe, em situações extremas, o que lhe passa na cabeça e aquilo era uma situação extrema.

A Madrinha não fez queixa à polícia, receando que o negócio sofresse consequências desastrosas, ao conhecer-se publicamente a tentativa de homicídio que ali tinha ocorrido. Pediu descrição aos presentes e mandou-me em paz e que o Senhor me acompanhasse. Fui, mas não em paz e o Senhor também não veio comigo.

Não sei como é que o carro me levou a casa! Só tive a certeza disso quando, no dia seguinte, o vi estacionado à porta.

 

Nunca mais lá voltei, nem sozinho nem acompanhado. Soube depois que a menina se tinha ido embora, a conselho da Madrinha, nem esse discernimento ela teve por conta própria, dizendo-lhe que não podia garantir a sua segurança se ela continuasse ali.

Fiz o que me pediram, nunca contei a nenhum dos meus amigos o que ali se tinha passado naquela noite. Se bem que eles nunca perceberam porque é que eu nunca mais lá tinha ido:

- Não leves as coisas tão a peito! Diziam, para me convencerem a acompanhá-los. Nunca conseguiram.

- Ela já lá não está, foi-se embora, parece que um cliente, que era meio marado dos cornos, lhe apontou uma arma e a gaja assustou-se!

Sorri. Meio marado dos cornos!

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018

Nós, os homens

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XXII

 

E foi nesse dia que eu percebi, que o meu grande e sincero amigo tinha regressado.

A mente é mais traiçoeira que o corpo. O corpo dá sinais mais cedo, conhece o seu limite, sabe até que ponto pode ir e sabe dizer não. A mente não, ultrapassa todos os limites até ao ponto em que já há pouco ou nada a fazer. Se não estivermos atentos, dá cabo de nós!

 

Uma vez eu tinha-lhe dito, vai chegar um dia em que atinges dois limites: o da dignidade e o do sofrimento. O da dignidade não o podes ultrapassar e o do sofrimento não o podes suportar.

 

Tinha chegado esse dia. O dia em que tomou consciência de que a sua mente andava a usá-lo, a dizer-lhe sempre que sim e ele a concordar com ela, a obedecer-lhe, a ser escravo dela.

E é espantoso como nós, seres humanos, dotados de inteligência, chegamos a este ponto, em que ficamos reféns do corpo e escravos da mente.

Ele tinha-se libertado dos dois, naquele dia em que me tinha telefonado com urgência em falar comigo. Acedi de imediato, não por estranhar aquilo que ele me estava a dizer, mas pela forma que usou. A leitura que fiz da sua atitude, foi que ele me estava a pedir ajuda. E a amizade é isto, independentemente do que se tem para fazer, vai-se.

Fui e quando cheguei ao seu encontro apercebi-me logo que ele estava diferente, pelos sinais exteriores de felicidade que exibia.

Estava impecavelmente vestido, se bem que neste aspecto ele nos ganhasse a todos, naquele dia tinha ido ao detalhe. E isto era um sinal exterior do que lhe ia na alma, então não? Quem é que se veste para um casamento, ok o exemplo não é dos melhores, mudemos, para um baptizado, quando nos vamos encontrar com um amigo num café?!

Incrédulo que eu estava, ainda quis tirar a réstia de dúvida:

- Para onde é que tu vais, assim vestido?

- Vim ter contigo!

Dúvida tirada.

 

O discurso, desta vez, era coerente, tinha alegria nas palavras, ria-se de si próprio, primeiro sintoma de cura. Quando tomamos consciência do ridículo, ou seja, quando conseguimos olhar-nos de fora e sermos críticos em relação a nós, estamos preparados para deixar umas coisas e começar outras.

Era assim que ele estava.

Sorri, sempre houve entre nós uma cumplicidade de irmãos gémeos, se verdadeiros ou falsos não sei, em todo o caso gémeos, em todo o caso cumplicidade.

Quantas vezes um olhar bastava, em conversas de grupo, para que cada um de nós soubesse exactamente o que o outro estava a pensar! E era quase um código, como quem pergunta: dizes tu ou digo eu? Às vezes deixávamos passar e nenhum de nós tomava a iniciativa de o fazer e isso coincidia com os casos em que um homem vale mais pelo que cala do que pelo que diz.

 

Naquele dia, no café, o meu grande e sincero amigo trazia um livro consigo. Colocou-o em cima da mesa e disse:

- Acho que está aqui o segredo.

Não comentei, esperei que continuasse.

- Se já tanta gente passou pelo mesmo que nós e sobreviveu, se muitos deles escreveram sobre isso e nos apontam soluções a todos os níveis, o que eu tenho de fazer é ler. Ler, ler e ler.

Sorri.

Ele estava tão bem que eu não me atrevia a estragar o que quer que fosse, dizendo alguma coisa. Ouvi-o em silêncio e de cada vez que ele falava eu sorria, a tal ponto ele estava assertivo nesse dia. Cada tiro cada melro.

Parecia impossível, como ele estava diferente! No final da conversa, depois de o ouvir agradavelmente durante duas horas, perguntei-lhe:

- O que é que te aconteceu?

Ao que ele me respondeu:

- Atingi dois limites: o da dignidade e o do sofrimento. O da dignidade não posso ultrapassá-lo e o do sofrimento não posso suportá-lo.

Sorri, desta vez ele tinha apreendido, da outra só tinha percebido!

 

Depois de um silêncio mútuo, em que o meu grande e sincero amigo olhou, olhos nos olhos, o vazio, deu uma enorme gargalhada.

- Estás-te a rir de quê? Perguntei.

- Sabes que eu uso boxers Throttleman e tenho uns que têm uma cabeça de tubarão com a boca aberta, onde se vêem os seus enormes e afiados dentes e onde por baixo diz insert coin. O que aconteceu é que deixei de o alimentar.

Se não o conhecesse tão bem, eu até podia pensar que ele me estava a falar do órgão fálico, mas vindo dele e naquele contexto, percebi exactamente o que ele me estava a dizer e respondi-lhe à letra:

- Tens de ser mais criterioso na escolha. Eu também uso boxers Throttleman, mas escolho os que têm bonecos de neve, touros com dad’s eyes, apesar dos chifres volumosos, porque não sou supersticioso; os do pirata Captain Rasta, os do rato com bengala Dr.Mouse, porque gosto da série; os das ovelhas, porque não sou preconceituoso e nunca associaria isso ao MEEH; os do pai natal para os dias festivos e mesmo os da Star Worm! Mas já colocaria alguma reserva nos da aranha, por causa da teia que elas fazem! E nunca perderia o meu tempo com os dos fantasminhas que brilham no escuro, os da abóbora do dia das bruxas e muito menos com tubarões! Embora lhes ache imensa graça.

- Teve piada, essa do tempo, em vez de dinheiro. Comentou o meu grande e sincero amigo.

- Sim, se estivesse mesmo desesperado talvez gastasse algum dinheiro, mas nunca perderia o meu tempo!

 

Eles, os homens, têm destas coisas!

 

Cristina Pizarro

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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

 

XXI

 

Não seria justo continuar este conto sem agradecer, aqui, ao meu grande e sincero amigo, a quem surripiei a história. Ele sabe que as minhas intenções foram as melhores e por isso não me levou a mal.

Enquanto não fundarmos o MEEH, qualquer um de nós está exposto a coisas destas e isto funciona como um alerta.

Quando ele me contou esta história, a primeira coisa que me veio à cabeça foi que, afinal, aquela sua ideia de fundar o Movimento Europeu de Emancipação do Homem, se calhar, não era assim tão tola!

 

Não posso deixar também de pedir desculpa por, de alguma forma, iludir os leitores, fazendo-os pensar, desde o início, que era comigo que a história se passava.

Se fosse comigo outro galo cantava e não era o de Barcelos! Mas dizemos todos o mesmo, por isso eu até nem estranharia nada se, apesar de há muito tempo ter lido os estatutos, um dia me acontecer o mesmo! Estando vivo, calha a todos!

 

Quando ele me contou aquele jantar com o nosso amigo, em que lhe tinha feito a proposta de fundar o MEEH e ele só não lhe chamou parvo por pouco, o meu grande e sincero amigo ficou sem coragem para contar o resto: que praticamente a parte documental já estava feita. Mas continuou com a mesma ideia, porque é teimoso como um burro, e achava que isto não era propriamente uma coisa que se pudesse mandar por e-mail aos cinco melhores amigos com a garantia de ganharmos o Céu!

 

Mas eu sempre o apoiei naquela sua ideia e se há característica que eu tenha, é a de fazer o que não deve ser feito! Tolo como sou e em desespero de causa, porque sinto a dor dos outros como se fosse minha, mandei mesmo o e-mail aos cinco melhores amigos, sem garantia nenhuma de ganhar o Céu, até porque não fazia disso um projecto de vida.

 

Chamar a isto azar, é pouco. No tempo em que eles os dois se davam bem, eu tinha colocado o endereço electrónico da menina na lista dos cinco mais, a este ponto eu sentia que ela fazia parte dele!, e eis que ela recebe também o texto.

Uma merda os computadores, internet e o diabo a sete! No tempo em que eu andava na caça, nunca me enganei a disparar um tiro. Era o que se chamava cada tiro, cada melro, sempre no alvo certo. Eu estava, a olhos vistos, a perder qualidades.

O que mais me aborreceu foi a minha falta de rigor nos actos, quando eu tinha tanto com as palavras!

 

Claro que tive de lhe pedir desculpa, não a ela que me estava perfeitamente a borrifar para o que pensasse, mas ao meu grande e sincero amigo, pelo que lhe tinha feito a ele. Afinal, toda a confiança que ele tinha depositado em mim, ao contar-me toda esta história, tinha ficado abalada, pois que eu tinha posto a nu o que me tinha sido dito em confissão, e ainda por cima, ao diabo!

Mas, quando eu contei o que tinha acontecido, o meu grande e sincero amigo riu-se tanto e de forma tão efusiva que eu fiquei seriamente na dúvida se ele tinha achado graça ou se lhe estava a dar um ataque! Outro!

Quando parou de se rir, bateu-me com determinação no ombro esquerdo e disse: obrigado pá, acabaste de me fazer um grande favor!

Nós, os homens, temos destas coisas!

 

Cristina Pizarro

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Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

XX

 

Acordei num hospital com o diagnóstico de ataque de pânico, eu que nunca tinha sabido o que aquilo era, apesar de já ter ouvido falar inúmeras vezes, tanto em adolescentes, filhas de amigos meus, que tinham perdido o ano escolar por causa desta coisa, como em gente adulta, moderadamente equilibrada, o suficiente para eu falar com ela sem dar conta de nada e agora estava ali, na cama de um hospital e o médico a perguntar-me: Então, conte lá o que se passou! E eu a olhar para ele e a pensar que, em circunstâncias idênticas, talvez o médico, na idade dele, não tivesse resistido e em vez de ter um colega à frente a fazer aquela pergunta, talvez ela fosse ligeiramente diferente, talvez no caso dele encontrasse um guardião de asas brancas a perguntar-lhe: Acha que está preparado ou prefere estagiar algum tempo no purgatório? Sim, com a sua profissão e a exercê-la durante tanto tempo deve, com toda a certeza, ter mandado alguns para o galheiro por negligência! E como eu não respondia, posto que me mantinha em silêncio e para ele isso não era uma resposta, insistiu, modificando ligeiramente a pergunta: O senhor lembra-se do que aconteceu?

 

Um não era perfeitamente pacífico, servia as duas partes. Mas eu naquela altura já tinha o cérebro descongelado, disponível e funcional e comecei a pensar que se o médico achasse que eu tinha tido um episódio de amnésia, ainda que ligeiro ou momentâneo, ia enfrascar-me de medicação, perfeitamente escusada.

Sorri. Quebra de tensão, já me aconteceu mais vezes, perante alguma emoção.

O médico sorriu de volta. Havia no seu sorriso um misto de cumplicidade e comprometimento. Ele era casado, eu não. Bem sei, preconceitos. Dele, não meus. Ele corou e escondeu a mão onde tinha a aliança, eu não tinha nada para esconder. Aliás, tinha imensa coisa para esconder, mas não a exibia nas mãos, fingindo ser uma coisa e sendo outra. Juízos de valor, talvez, que atire a primeira pedra quem os não faz!

 

Depois de uma noite em observação, na sala da urgência, deram-me alta: O doente está estabilizado.

Claro que a avaliação era meramente física, melhor dizendo, orgânica. As análises efectuadas estavam normais, isto é, dentro do intervalo de valores apresentado pela população estudada, saudável, com peso e estatura normais, atendendo à idade e ao sexo. Tenho de especificar que neste conceito de população saudável, não entra a definição de saúde da OMS: não apenas a ausência de doença, mas o bem-estar físico, psíquico e social. Eu só respeitava o primeiro, sendo tolerante, o segundo também seria satisfatório, mas no que dizia respeito aos dois últimos, as condições não eram minimamente satisfeitas. Também não era no serviço de urgência que a coisa podia ser avaliada. Isso não corria no sangue, não se eliminava na urina, nem no esperma, nem no suor, nem no ar expelido pelos pulmões. Nenhum dos dois dá sinais exteriores suficientemente visíveis para que possam ser facilmente avaliados.

 

Fui para casa. Não sei o que me incomodava mais, se o diagnóstico de ataque de pânico, se a imagem impensável daquele quarto de hotel. E as palavras, outra vez, que não me saíram! Desta vez dava graças a Deus por isso! O que é que se pode dizer numa situação destas! Qualquer palavra é demais, qualquer silêncio é de menos!

Como é que eu nunca dei conta! Na minha cabeça o turbilhão de pensamentos e emoções fervilhava. De tudo o que me vinha à cabeça, o ter sido enganado era o menor dos males. Não tinha sido ela a enganar-me, tinha sido eu a enganar-me, deliberadamente, por excesso de sentimentos, por amor, por paixão, por dádiva, por entrega, por gratidão, por dedicação. Engana-se quem quer e eu tinha querido com unhas e dentes. Com toda a minha força, com todo o meu poder, com tudo o que era eu.

Mas ela não tinha querido. O que é que se pode fazer quando uma pessoa não quer? Nada, rigorosamente nada! E vinha-me à cabeça a frase do meu avô materno que não cheguei a conhecer: Até para cagar é preciso vontade!

E era isto o que me desmembrava, eu não ter conseguido despertar nela o desejo de me querer. E perguntava-me porquê! O que é que eu tinha ou o que é que eu não tinha!

Se fosse mais novo, podia alimentar-me a esperança de que, quando fosse mais maduro, talvez adquirisse as competências que me faltavam, mas na minha idade isso já não fazia sentido.

 

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

 

XIX

 

Eu não era nada dado a estas coisas, verdade verdadinha, pela alma da minha avó que Deus a tenha. Mas os rapazes não se calavam. Vendo o meu estado de desespero e fragilidade, diziam que o que eu precisava era disto, que o que eu precisava era daquilo e uma das noites, cansado de os ouvir, cedi. Fui com eles a um bar, que todos conheciam, menos eu.

Quando lá cheguei o negócio, ou a contratação, que eu nem sei que nome se dá a estas coisas, já estava feito.

Cumprimentei os rapazes e antes que me acomodasse na cadeira de veludo vermelho, sob as luzes flácidas, vem a pergunta: Como é que te sentes?

Como é que eu me havia de sentir? Destroçado, como andava há tanto tempo! E nem foi preciso dizer nada, eles olharam para mim e leram-me a alma, a tal ponto eu era transparente ou a esse ponto eles me conheciam.

Não respondi. Nós, os homens, temos estas coisas de fazer as perguntas quando sabemos as respostas e não dar conta da sua ausência porque, neste caso sim, o silêncio era uma anuência ao que lhes ia na cabeça: Na merda!

E continuavam como se eu tivesse respondido alguma coisa: Deixa lá, não tens que fazer nada. Bebes um whisky, ou dois, ou três e sobes ao primeiro andar. É o 102.

 

Enquanto subia no elevador debatia-me com a atitude a ter: O que é suposto que eu faça? Toco à porta e espero que alguém ma abra ou entro sem bater?

Escusado. Quando cheguei à entrada do quarto, a porta estava entreaberta. Em silêncio e cautelosamente, a medo diga-se mesmo, abri-a muito devagar e foi então que os meus olhos se crisparam nos dela.

Naquele momento, quando o nosso olhar se interceptou, podia vir-me à cabeça um sem número de pensamentos. Mas apenas um me ocorreu. O dia em que fui a sua casa sem a avisar primeiro.

 

Era uma belíssima tarde de Agosto, cheia de sol e calor. Eu tinha encontro marcado com ela às cinco da tarde, mas estava tão impaciente para a ver que, quando passava pouco das três, meti-me no carro e fui a casa dela. Não me era possível esperar mais. Quando me abriu a porta estava ensonada e contrariada. Não retive o momento em que me cumprimentou e por isso não sei se aconteceu. Lembro-me das palavras dela já dentro da sala. Ela sentada num sofá individual que só dava mesmo para um e eu a tomar lugar no de dois lugares, onde tantas vezes tínhamos estado juntos.

- Eu nunca apareci em sua casa sem telefonar primeiro! O nosso encontro era às cinco e passa pouco das três! Não está bem!

Eram as boas vindas.

Expliquei-lhe que não tinha aguentado esperar mais.

Respondeu que estava a dormir a sesta, porque estava cansada do treino da manhã e que só acordava passado algum tempo, sinónimo de ter mau acordar. Eu não podia confirmar nem desmentir, pois que, nos poucos cinco meses que eu poderia testemunhar, só a tinha visto acordar duas vezes e nesses ela tinha acordado bem. Mas o universo que eu conhecia era muito restrito para a poder contrariar. Não o fiz.

 

Perante a falta de educação que me tinha acabado de imputar, levantei-me, pedi-lhe desculpa, disse-lhe que me tinha enganado, porque não era para ali que eu queria ir.

Saí, ela não me deteve, não foi sequer acompanhar-me à porta, como gostava tanto que eu fizesse com ela. Meti-me no carro, não faço a menor ideia como é que o carro me levou a casa! Eu estava atónito com este comportamento.

Claro que o encontro das cinco da tarde ficou sem efeito e foi adiado sucessivamente, com desculpas sem lógica nem propósito.

 

Agora vinha-me esta história à cabeça e a pergunta que não pude evitar: se eu tivesse subido as escadas, naquele dia, em casa dela, quem encontraria no quarto? A dormir a sesta, é preciso ter lata! Cansada do treino da manhã, como é que eu não percebi?!

Afinal eu tinha tudo à minha frente, só me faltava abrir os olhos! Para ver, era preciso acreditar! E vem-me, pela vez sem conta, a frase do Paul Auster que, imediatamente depois de a ler, memorizei: “Crer, para ver. Eu só vejo quando acreditar”, contrariando a atribuída a São Tomé: “Ver, para crer. Eu só acredito quando vir.” Eu subscrevia a primeira.

O autor no livro, quando lhe sai a frase a meio de uma discussão com a mulher, diz que foi lapsus linguae, mas qualquer leitor percebe, mesmo sem conhecimentos nenhuns em psicanálise, que ele a quis escrever dessa forma, porque lhe fazia mais sentido e era muito mais verdade.

 

Vestida daquela maneira, estava quase irreconhecível e o quase prendia-se, não com os olhos que, por demasiado pintados, estavam diferentes na forma e na expressão, o quase estava na intensidade do olhar.

Quando a reconheci o meu corpo entrou em delirium tremens, a expressão latina usada para síndrome de abstinência, suspensão ou privação em doentes crónicos dependentes, provocado pelo uso prolongado ou abusivo de cenas.

Exactamente o caso.

 

Primeiro senti um arrepio, que começou nas plantas dos pés como uma cãibra, depois uma contracção violenta no estômago e de seguida todos os meus músculos entram em convulsão. O cérebro, pura e simplesmente, começa a arrefecer, percorrendo um gradiente térmico que atingiu a temperatura de congelação para órgãos sólidos. Não tinha um espelho ali à mão nem vontade de me ver, mas a minha pele estava, com toda a certeza, branca, lívida, sem uma pinga de sangue nos pequenos canalículos subjacentes à epiderme.

 

Não tentei dar um passo em frente, mas mesmo que o fizesse, não conseguia. Os meus pés estavam, ipsis verbis, pesados como chumbo, colados ao chão. Nem para trás nem para a frente. Constituíam aquilo a que nas empresas se chama o imobilizado.

E eu, na milésima de segundos que ainda tinha disponível e funcional do meu cérebro, quase totalmente congelado, a pensar na pequena frase que, às vezes, se diz em pleno acto sexual e a pensar que se tivesse forças, que não tinha, para dizer alguma coisa seria para dizer estou-me a ir. E a pensar depois disto, eu que escrevia livros, se vir e ir não seria o mesmo verbo, diferente apenas na direcção com que o vento sopra!

Caí no chão, sem dor, já inconsciente.

 

Cristina Pizarro

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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

 

XVIII

 

 

Por acaso era uma coisa com que lidávamos bem lá em casa: os sentimentos. Desde pequenos fomos crescendo lentamente e sem pressões, conforme a idade o permitia. Lembro-me que um dia, e já com 18 anos, a minha mãe me deu um beijo na planta do pé e disse acorda meu bebé grande. Se calhar ela não se lembra disso, ou talvez sim, mas eu nunca mais me esqueci.

 

Ainda hoje, ultrapassados há muito os quarenta anos, não consigo deixar de me libertar do papel de filho, pois que isso me é recordado com frequência. Quando vou a casa e me levanto tarde e a más horas, a minha mãe leva-me o pequeno-almoço à cama e faz aquilo com uma ternura que, mesmo que eu não tenha fome, tenho de comer. Faz-te mal estares tantas horas sem comer. Ela não sabe que idade é que eu tenho, porque também não sabe a dela, só assim é que se explica como isto é possível. E, por mais que eu lhe diga que não é preciso, ela fá-lo na mesma.

 

São coisas destas que fazem com que cresçamos felizes e saudáveis. Não damos conta, não sabemos a influência que isso tem, não está dissolvido no leite nem a barrar as torradas, mas discretamente, é isso de que o gesto é feito, de mimo.

Quanto mais recebemos mais damos.

Foi assim pela infância fora, foi assim pela adolescência a dentro e é assim na vida adulta.

 

É talvez por estas e outras coisas, que sempre senti necessidade de dizer aos outros o quanto gosto deles e faço-o por dois motivos. Primeiro porque o sentimento transborda, não há forma de mantê-lo dentro e depois por gratidão, no sentido em que me sinto no dever de agradecer a existência, junto a mim, de pessoas que me fazem tanto bem.

 

Nunca percebi porque é que ela nunca foi capaz de me dizer isso, que gostava de mim. Embora o seu olhar fosse expressivo a esse ponto, e era só por isso que eu lhe perdoava, senti muitas vezes necessidade de o ouvir por palavras e ela nunca o disse! E às vezes era tão fácil! Quando eu dizia amo-a, bastava que ela dissesse eu também! Nunca o fez. Ficava a olhar para mim, sorria com alguma complacência e era capaz de ter um gesto meigo, de me fazer uma festa no rosto, mas a palavra não lhe saía. E doía. Doía como tudo. Um dia, por brincadeira, perguntei-lhe g e um o? Ela sorriu e completou a frase, mas fê-lo na terceira pessoa gosto muito do meu querido Joaquim! Não foi capaz de dizer gosto muito de si! Nunca mais brinquei, agora que ela tinha aprendido a frase, talvez pudesse dizê-la, uma vez por outra! Não o fez.

 

Uma única vez perguntei-lhe se me amava. Fez-me repetir a pergunta, porque não tinha ouvido. Ganhava tempo. Repeti-a, depois de uma pausa que prolonguei propositadamente. Primeiro a pensar se lhe queria mesmo fazer a pergunta e depois de concluir que sim, dei-lhe algum tempo para ela pensar na resposta. Somos tão idiotas! O que é que eu queria com uma pergunta daquelas, naquele lugar, daquela maneira?! Na cama, depois de fazer amor, o que é que ela havia de dizer! Que valor teria, nestas condições, sob coacção, a palavra amo?! Claro que a disse, não tinha alternativa.

Eu achava isto estranhíssimo e desculpava-a pensando que somos todos diferentes, que não podemos julgar os outros só porque as suas atitudes, ou a falta delas, são diferentes das nossas. In extremis, se fosse necessário, eu diria a bandeiras despregadas que o amor não se mede aos palmos.

O tanas que não se mede, havia de mo dizer um dia um grande e sincero amigo, quando me contou a história dele e me tentou explicar como se pode gostar de duas mulheres ao mesmo tempo e andar com elas em simultâneo: Duma gosta-se, a outra ama-se. E eu sem perceber porque é que se ele amava uma, havia de andar com a outra! Talvez não amasse nenhuma, era o que me parecia e quando lho disse saiu-se com aquela: o amor mede-se aos palmos.

Se era assim, que tamanho tinha o dela e que tamanho tinha o meu?

Talvez esse mesmo: eu amava-a, ela gostava de mim.

Cristina Pizarro

 

 

 

 

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Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

XVII

 

Aquela frase: ”A minha vida dava um filme”, nunca a subscrevi. Eu sempre achei que a minha vida era um filme e eu o seu realizador. Era eu que decidia quem entrava e saía de cena, quem punha e tirava vozes nos personagens, que cenários colocava, quem perdia e quem ganhava, quem sofria mais e quem sofria menos, quem falava e quem ouvia, qual era o olhar que brilhava e o que chorava, quem se apaixonava e por quem. Era eu que escolhia os actores e que os dirigia. Quando a cena não estava bem, repetia até ficar a meu gosto. Mas a realidade não era nada disto! No máximo, a minha vida dava um filme.

 

A conclusão, ou uma delas porque tirei várias, é que fiz tudo mal.

As mulheres são especiais. No todo e em parte. Fiz o que pude e mais do que isso, mas falhei na forma. As portas servem para abrir e para fechar, mas há formas infinitas de o fazer, qualquer fazedor de portas sabe isso. Eu não sabia. Entre o sim e o não, faltavam-me as palavras e havia um dicionário pelo meio. Ninguém mas ensinou, aprendi-as depois, quando fiquei sem ela. A cada dia de ausência e vazio, aprendi uma nova e fui construindo um prontuário íntimo de duas colunas: “palavra incorrecta”, “palavra correcta”. Talvez nunca o termine, talvez não tenha tempo de o usar. Não o estou a fazer para isso. É mais uma necessidade intrínseca de não desiludir o Criador, ou de me aproximar, embora estando a léguas disso, daquilo que Ele imaginou para mim. E é engraçado como Ele nos deixou este trabalho nas mãos, tanto mais árduo a quem mais achou capaz, dizem. E o que de início me parecia uma injustiça atroz, parece-me hoje sinal de inteligência. Então não? Se tens os meios, hás-de conseguir utilizá-los e encontrar a forma! Não deixa de ser um filho da mãe por causa disso! Um grandessíssimo filho da mãe, Deus me perdoe!

 

Porque não havia Ele de premiar os bons, os homens de boa-fé? Tínhamos de ser nós, nós sozinhos a encontrar o bem, a antagonizar o mal? Por isso é que o filho lhe disse: “ Meu Deus, porque me abandonaste?” Se fosse hoje, ia preso! Bem, preso talvez não. Os maus nunca vão presos, mas da liberdade condicional penso que não se safava! Então não é crime criar os filhos para depois os abandonar?! Entre a Justiça divina e a Justiça dos homens, qual é mais justa?

Mas tudo isto é um devaneio de quem muda de vida à força, por imposição alheia, por circunstâncias do destino, por imprevisibilidade, por falta de controlo em si e falta de domínio sobre os outros no domínio sobre nós.

Quem sou eu ou quem eu sou? Há diferença nisto?

 

Telefonei-lhe. Ela estava muito mais perto de Deus do que eu, embora eu não soubesse se isso era bom ou mau. Quem era Deus? O que é que Ele queria de mim? E ela? Nunca percebi. Deixou de me interessar no dia em que decidi que isso ia deixar de me interessar e que ia continuar a viver, fosse qual fosse o significado disso. Só há esta forma de lidarmos com o que não percebemos. Há outras, mas fazem todas mal.

Eu tinha de me desligar da corrente e continuar a dar luz. Nada que não tivesse já feito na minha vida. Tantas alternativas: geradores, baterias, pilhas, painéis solares…

 

Estava ocupada, não tinha tempo…

Eu era um homem cheio de sorte, tinha sempre tempo para o que considerava importante e sabia estabelecer as minhas prioridades de uma forma inequívoca: ela, estava sempre em primeiro lugar. Sabia que haveria de chegar uma altura em que não seria assim, o tempo opera sozinho. Tinha algum receio, muito vago, que ela acordasse nessa altura e fosse tarde para mim. O meu tempo não era igual ao dela e eu não lhe consegui explicar isso. Não porque não tentasse, havia coisas que ela não queria perceber e eu nunca entendi porquê. Medo, recusa, convencimento?

 

Desliguei, ficava para depois. Com ela era assim, eu ficava sempre para depois. Para ela só era urgente o que não me interessava para nada, o que podia ser feito depois.

Talvez ela também fosse uma mulher cheia de sorte, talvez tivesse sempre tempo para o que considerava importante e talvez soubesse estabelecer as suas prioridades de uma forma inequívoca: eu, é que nunca estava em primeiro lugar. Talvez fosse só nisto que éramos diferentes!

Sabia que haveria de chegar uma altura em que não seria assim, o tempo opera sozinho. E tinha algum receio, muito vago, que ela acordasse nessa altura e fosse tarde para ela. O seu tempo não era igual ao meu e eu não lhe consegui explicar isso. Não porque não tentasse, havia coisas que ela não queria perceber e eu nunca entendi porquê. Medo, recusa, convencimento?

 

Saí, fui ver uma exposição de um amigo que se inaugurava nessa noite e para a qual me tinha convidado, gostava muito que viesses. Gostei muito de ter ido. Arte, se pudesse comprá-la, tal como a ela, trazia-a para casa. A arte punha-a na sala, a ela espalhava-a pela casa toda.

 

Eu sabia o que tinha de fazer, apagar a chama das velas sem ter outras para acender. Encher os meus pulmões de ar frio utilizando toda a minha capacidade torácica e num só sopro, de frente e a direito, esvaziá-los na sua direcção. Mas a luz das velas era de um amarelo pálido, cálido e morno que deixava as faces dos amantes, ternas de paixão, numa cumplicidade comungada, partilhada, pacificada. E eu não conseguia. Enchia os pulmões de ar frio o mais que podia, mas depois ao olhar a chama das velas e a luz que delas emanava sentia-me um assassino em noite de luar, um lobisomem com os dentes ensanguentados a pingar sobrevivência e maldade. Eu não era assim e por isso deixava as velas arder até ao fim, numa insistência amargurada, numa persistência arrebatada. E não havia nenhum altar a Nossa Senhora, nem nenhum pecado de que eu me quisesse salvar, nem tinha a alma a penar nem nada para confessar. As velas ardiam, dia após dia, eu protegia-as do vento incauto como se protegesse uma criança no ventre, por entre a passagem descuidada do tempo, que tudo leva pela frente, atropelando as coisas simples de que eu era o guardião. Ninguém mexe! Gritaria se fosse preciso e protegia a chama das velas como se de mim se tratasse. Era de mim que se tratava. Quando a chama nelas largasse o último suspiro, o meu amor por ela chegaria ao fim. Teria terminado o que eu não queria que terminasse, agora sim, por minha vontade e de forma natural.

 

Do que nós somos capazes! Imagem por imagem, construímos um mundo irreal porque este não nos satisfaz. Eu nunca aceitaria que me ditassem um mundo alheio, criança como nasci e como hei-de morrer, teria de construir um mundo à minha maneira. Pequenino, imaginário, de cartão. Nele coloquei um céu dourado. Pus as estrelas cá em baixo a fazer de homens e mulheres. A Lua no meu quarto e o Sol, meu Deus o Sol, por trás do céu, era o que fazia dele, todos os dias, um céu dourado.

Aos milhões de estrelas que brincavam cá em baixo, dei-lhes, em partes iguais, inteligência e sensibilidade, mas fiz um truque, colei-as uma à outra, não podiam ser usadas sozinhas e de forma independente. Quem quisesse usar uma, tinha de usar as duas. Não foi por mal. Foi por precaução. Pareceu-me, a mim, quando construi este meu mundo de cartão que, fosse qual fosse o caso, quando usamos uma sem a outra dava sempre mau resultado. Vinha depois o arrependimento, a frustração, a desilusão, a angústia, a ansiedade, … Neste meu mundo, não havia depois forma de lidar com isso nem a quem recorrer, ninguém sabia que sentimentos eram esses. Como e a quem falar deles?

E faltava o elemento água, onde o colocar?

No centro do mundo de papel havia um lago enorme com uma nascente de água pura e cristalina, onde diariamente as estrelas tomavam banho. Havia uma única condição para nele mergulharem: para além da roupa, tinham de se despir do passado.

Cada dia, era um começo.

 

Cristina Pizarro

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Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

XVI

 

Acabei de atravessar o parque.

- O senhor lembra-se, de quando eu era feliz?

Como é que se há-de lembrar, se a felicidade que era minha já mal a posso recordar!

As árvores que outrora floriam, hoje a chuva prende nelas as folhas aos troncos e a humidade do solo transforma a terra árida num solo firme, gélido, compacto, duro, numa inversão sem sentido, inexplicável.

 

Adivinho o conforto das lareiras acesas nas casas que eu ajudei a aquecer, com mantas de pele artificial imitando o vison natural, listado e quente. Adivinho os corpos nus que se enrolam nelas, que entram e saem dessas casas com os corações aconchegados, os corpos acomodados num amor que não importa se é gratuito se verdadeiro, aquece, eis tudo a quanto aspiro, hoje. Um arrepio percorre-me o dorso como se eu fosse um animal e não consigo evitar a pergunta irracional: Porque não eu? Ou a exclamação, já mais consciente: Sempre outro em vez de mim! E os tapetes de pele verdadeira que eu também ajudei a compor, no ambiente do quarto onde a donzela nua, depois de saciada, coloca os pés descalços e sente a textura da pele natural e o afago quente do corpo do animal que se sacrificou para seu conforto, à semelhança do seu amante, mas este com prazer. Calça as meias de seda, os sapatos de pele de outro animal que também se sacrificou para seu prazer, veste a saia de pele de outro animal que também se sacrificou para seu prazer e põe as jóias com o dinheiro que alguém sacrificou e que dava para alimentar uma família durante um mês.

 

É justo isto?

Eu era bem capaz de ser o idiota que sacrificava os animais do planeta para lhe dar os sapatos, a saia e ainda lhe comprava as jóias, se depois ela se risse, não de mim mas para mim.

Eu mantenho a esperança no nada, o objectivo de vida no vazio que me preenche os dias e a chuva cai sempre inclinada ignorando o que sinto, a solidão das emoções, a ausência do corpo que falta, para dar sentido a tudo isto!

E surge a presença no imaginário, com Deus ausente, do que não foi e podia ter sido. A manta de vison artificial era minha, que eu dei para aconchego da alma a um ser que me era querido, que depois se tornou em aconchego do corpo a alguém desconhecido.

 

É justo isto? É pecado. Meu Deus como é pecado mortal alguém usar e abusar do que não é seu, do que não lhe foi dado, nem em vida nem em testamento vital. E colocar os pés delicados no tapete de pele verdadeira que foi feito para pés calejados onde nem um obrigada foi dito, onde nem um sorriso foi esboçado, numa insensatez debochada, arrogante, pecaminosa, ingrata.

 

Porque é que não há inferno na terra para castigar em vida aqueles que não merecem viver? Merecemos todos? Onde está Deus? Porque nos abandonou? Porque fez Ele os homens bons, para os deixar à mercê dos homens maus? Porque fez Deus os homens maus?

 

Atravesso o parque, onde outrora, nos bancos de madeira ou ferro troquei beijos de amor, em condições, e as árvores que então floriam, hoje estão carregadas de desespero, de angústia, de coisa nenhuma. Para onde foram os troncos das árvores que, felizes, de amor transbordante, as alimentavam, transportando a seiva nos canalículos do seu interior até às folhas verdes dos seus ramos, que depois se haviam de transformar em flores de cândido perfume, sublime como o brilho dos seus olhos?! O que foi que lhes aconteceu, para vandalizarem assim o sentimento que lhe ofereci entre os meus cabelos loiros, entre os meus olhos azuis, entre a minha pele de seda e o meu perfume a flores?! Para onde foi tudo?! Não fui eu que disse, não fui eu que inventei, foi ela que me contou, naquela tarde de Primavera em que atravessámos o parque e o Sol brilhava tanto que as árvores floriam e a terra árida exalava um perfume quente a jasmim, que nos fazia lembrar as tardes em que os nossos corpos se fundiam sem manta de vison artificial e sem tapete de pele natural, onde os meus pés pudessem tocar, antes de sentir, a fria e crua realidade.

 

Eu era, como ela sabia, de emoções fortes, nada dado a mariquices, e o toque do chão gélido nos meus pés descalços, fazia-me sentir a natureza das coisas simples, como quem passeia na praia e desenha pegadas na areia molhada. Para que é que eu precisava de mantas e tapetes quando a tinha a ela para esculpir as minhas mãos, os meus pés, o meu corpo inteiro?!

 

Quem é que se lembra, agora? Quando o meu corpo deslizava por baixo do seu e se escapava e fluía e desaparecia e ela me procurava e me encontrava depois, para me voltar a perder a seguir?

Como é que alguém se há-de lembrar! Nada disto agora faz sentido, porque no parque está a chover e ela está em casa com a lareira acesa, enrolada na manta de vison artificial com um corpo de homem nu que não é o meu, que não a beija como eu, que não sente por ela o que eu sinto e ela está feliz na mesma, como uma perfeita idiota, sem perceber a diferença entre nada e coisa nenhuma! Porque não lê Fernando Pessoa? Lá, ele explica tudo! Mas ela não quer saber, ela sabe isto tudo e não quer saber.

 

Quebrou-se a magia! É esta a sua realidade, o faz de conta. Prefere não viver a ter de sofrer e eu percebo, só tenho é pena. Não dela, que nem sofre nem vive, mas de mim, que faço as duas coisas. Se as fizesse por mim, tinha um bom motivo, mas faço-as por ela, motivo nenhum.

 

Há quem chame a isto dor de corno, mas eu, sinceramente, parece-me isso tão pouco para a dor que sinto. Doi assim?

 

Cristina Pizarro

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:54
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Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

XV

 

Lembro-me do dia em que a beijei pela primeira vez, como se fosse hoje. Porque é que Deus me tinha presenteado com ela, porque era eu digno do seu merecimento, o que é que eu tinha feito? Era assim que eu me sentia: o escolhido, o eleito.

 

Embora tivesse sido eu a dar o primeiro passo, como dita o protocolo, convém parar aqui uns segundos e pensar o que entendemos por primeiros passos. Às vezes não é o acto em si, mas criar as condições para. É no dia em que a criança se levanta sozinha e caminha sem ajuda externa, que começa a andar? E como o faria, se não existissem os meses que precedem esse dia, em que ela se arrasta, gatinha e se apoia nos móveis ou nas paredes, para depois, com a confiança integrada, se lançar no espaço? Assim tinha acontecido nesse dia, lancei-me no espaço e beijei-a.

 

Lembro-me desse dia como se fosse hoje! Maldito seja! Num acto completamente irreflectido, num desejo irreprimível, numa vontade descontrolada, lancei-me no espaço e alcancei primeiro a sua face ruborizada e depois os seus lábios entreabertos.

 

Na altura pareceu-me que me esperava. Aquelas coisas que não sabemos explicar. Surpreendido comigo, afastei-me depois de um abraço e tentei recompor-me, mais da atitude que do beijo. Tarde demais. Estes actos não são reversíveis e nem eu queria que fossem. Saiu-lhe um Venha cá e beijámo-nos novamente, desta vez, em condições, digo, como dois amantes.

 

E quando as mãos dela tocaram, primeiro no veludo das calças, depois no veludo do algodão e finalmente no veludo da pele, eu não estava a perceber nada do que estava a acontecer. Eu era do tempo em que os dinossauros coabitavam na Terra com o Homem e não falo do Tyrannosaurus rex, do final do período Cretáceo que era carnívoro, mas do Amargasaurus cazuei, do final do Jurássico, de vértebras enormes que se alimentava das folhas das árvores, vegetariano em toda a sua natureza.

Então não era suposto que agora fossemos ao cinema, depois ao teatro e talvez num dia de sol dessemos um passeio no parque?!

 

As mãos dela continuavam a deslizar pelo meu corpo a dentro num frenesim ardente, enquanto eu pensava nos dinossauros e rapidamente me dei conta que os filmes que tinha visto eram os suficientes, que o teatro podia ficar para mais tarde e que o passeio no parque era um óptimo programa para quando fosse velho. Não era ainda o caso. Armado em T-rex deixei-me deliciosamente ir por entre as almofadas do sofá, que entretanto tinham desaparecido e deixado espaço de corpo e meio e quando depois de alguns minutos regressei a mim, ainda dentro do corpo dela, apeteceu-me perguntar-lhe: porque é que acha que o Amargasaurus apreciava tanto as folhas das árvores, custar-lhe-ia com aquele pescoço enorme, baixá-lo para os prazeres da vida? Calei-me. Engoli a pergunta e a presumível resposta, não fosse ela pensar que eu era doido, assustar-se e fugir, deixando-me com o veludo das calças na mão!

 

Teve assim início uma coisa a que nunca saberei dar nome, que como uma entrada antecedia refeições e como um digestivo, servido quente, as finalizava. Deliciosos estes momentos. Se me perguntassem de qual tinha gostado mais, se do queijo fresco, do patê de cogumelos, se dos profiteroles, do cheesecake ou da aguardente velha eu não saberia responder. O estado alucinado em que me encontrava nessas situações não me permitia distinguir uma coisa da outra, era tudo bom.

 

E isto é apenas uma imagem, sem qualquer carácter de ironia, porque eu estava profundamente apaixonado e o que me sentia nessas alturas não era mais do que um ovo misturado com a farinha que, depois de cozido, era servido com chocolate quente no prato dela, não no meu. Eu era o homem objecto dos seus prazeres, a minha preocupação era deixá-la feliz, alimentá-la como a um T-rex com bife mal passado. Sim, pensando bem, ela tinha mais de T-rex e eu de Amargasaurus. Achava que as folhas das árvores eram uma boa salada para acompanhar a refeição. Ela nunca percebeu isto, fui eu e não ela quem teve de mudar o regime alimentar. Talvez com mais colesterol, mas com muito mais prazer, dando razão ao dito popular de que o que sabe bem ou é pecado ou faz mal. Pecado não era.

 

Mas o que eu insistia mesmo em saber, era se ela gostava ou não de mim, não gostava.

E daí, nunca havemos de saber. As aparências iludem. Veja-se o caso dos dinossauros. O Amargasaurus, corpulento, não faz mal a uma mosca, já o T-rex, esfrangalha um homem em poucos minutos. Era assim que eu me sentia quando ela me tocava o veludo das calças, depois o veludo do algodão e finalmente o veludo da pele. Ok, ok, já disse isto! Mas é que quando penso em dinossauros e no tempo em que eles coabitavam na Terra com o Homem, eu fico completamente fora de mim e só me lembro do dia em que ela me deixou com as calças na mão, apesar de eu nunca lhe ter falado em dinossauros.

As gajas não batem bem! E novamente peço perdão às outras, pelo mesmo motivo.

Uma relação antiga, anterior ao nosso encontro, que também tinha acabado mal… não percebi o que é que ela queria dizer com a história do também!

 

Mas agora, nada disso interessava.

Eu que até era um gajo que os tinha no sítio, naquele momento senti-me sem eles. Só havia uma coisa a fazer, que era dizer-lhe: Vai-te foder! Mas eu, sabe-se lá porquê, não me permitia esse tipo de linguagem, ainda por cima com uma senhora! Nem aos meus amigos e com uns copos a mais eu utilizava palavras dessas, quanto mais com ela!

Não me perdoo até hoje, não ter aberto uma excepção, acho que até a minha mãe que não me permite uma simples merda, se estivesse dentro do assunto, havia de me dar razão. Então não? Era de homem caramba, ela estava a pedi-las e há muito tempo!

 

Depois fiquei um bocado aliviado quando um pensamento me veio à cabeça e que foi este: coitado do gajo que vier a seguir, vai passar por tudo o que eu já passei! E, estranhamente, senti um alívio enorme, como se me tivesse confessado ao último padre do Planeta Terra e sem ser preciso rezar! Não percebo até hoje, essa sensação de liberdade, como se tivesse saído da prisão, como se a minha vida agora não dependesse de nada nem de ninguém! Pensei: estou limpo, da ponta dos pés até à ponta das mãos, não tenho qualquer compromisso, sou dono e senhor de mim mesmo, faço o que quero, vou onde me apetece, visto-me como quero, comporto-me como me der na real gana. Se me apetecer mijar na rua, posso fazê-lo, não tenho que me justificar a ninguém. Embora nunca me tenha apetecido fazer uma coisa dessas, se me apetecer, posso fazê-lo.

 

Cristina Pizarro

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:36
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