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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Nov19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

A conquista

 

Podia-se dizer que tomei a cidade de assalto, mas mentia-se. Verdade verdadinha, conquistei-a. E foi fácil, nada de nos armarmos em heróis, não nos fica bem nesta idade. Foi genuinamente fácil. Bastou ser, genuinamente ser.

 

Claro que os habitantes tinham, têm todos, um património histórico, dito por alguns cultura, por outros crenças, que dificultam a chegada e que é vista, de início, como invasão. Mas com o tempo tudo se dilui. O que é tido como agressão passa rapidamente a desafio, o que é visto como abuso passa a surpresa e o que é entendido como excessivo passa a brincadeira.

 

Começa-se um processo de diálogo que mais não é do que uma negociação. Celebra-se um contrato a que não damos este nome, porque temos alguma repulsa por coisas escritas que advém do medo do assumir compromissos, escudando-nos em termos nobres, de disso substituição, como liberdade, ideologia e democracia, mas que não passam de uma areia miudinha que nos atiramos aos olhos. Enfim, pode ser saudável. As cláusulas do contrato são em número elevado, têm notas, ressalvas e excepções, abordam contextos infindáveis, circunstâncias várias e para o que não temos solução ou remédio escrevemos: não se aplica.

 

Pouco tempo depois, quando voltamos a ler o contrato, percebemos que é bilingue! Não foi isso que assinámos! Na altura pareceu-nos que estava tudo claro, que não havia dúvidas nem segundas intenções. E se hoje nos fosse dada a possibilidade, que não é, teríamos escrito isto em vez de aquilo. Apelamos então a um tradutor para clarificar as coisas e quanto mais o consultamos mais as nossas ideias ficam confusas. Desistimos de nos meter por aí e fazemos bem.

 

Voltemos à cidade onde atrás ficámos. Fizemos primeiro uma visita guiada e comentada, mas o tempo era limitado e houve coisas mal vistas. Curiosos como somos voltámos lá, mas desta vez sozinhos e a cidade pareceu-nos outra. Saímos e voltámos a entrar. Achando que tínhamos estado desatentos ou demasiado cegos na primeira vez, regressámos com um maior nível de tolerância, flexibilidade, consciência e atenção.

 

Começámos então a ver as coisas só com os nossos olhos e não submissos à interpretação de um guia, que tem uma perspectiva diferente da nossa porque tem um grau de envolvimento diferente e outra experiência de vida. Isto não nos interessa porque não nos ajuda nem a compreender nem a aceitar.

 

Notamos então que as ruas da cidade não levam aonde nos disseram, que as fachadas dos edifícios reconstruídos têm outros alicerces que não os originais e que as pessoas que neles habitam têm outros usos e costumes. A única coisa que se mantem é a fachada, uma obrigatoriedade legal. Começamos a ficar com alguma instabilidade por achar que fomos enganados e decidimos dar um passo atrás para ver, mais que o tronco da árvore, a floresta inteira.

 

Dá-se uma espécie de colapso. Muda completamente o paradigma. É aqui que decidimos que a conquista da cidade, que então fizemos com enorme entusiasmo, não nos beneficia em nada. Ou seja, temos um espaço que até pode ser nosso, habitantes que até podem falar a nossa linguagem, mais coisa menos coisa; temos um nome inscrito numa placa, quando a cidade começa, e o mesmo com um traço noutra, quando a cidade termina e, feitas as contas, estamos pior do que antes da sua conquista, sentimo-nos ainda mais estrangeiros.

 

Nesta fase surge-nos uma necessidade. Sentimos a urgência de deixar a cidade porque lá não estamos a fazer, objectivamente, coisa nenhuma e, porque somos boas pessoas, não nos permitimos habitar uma cidade que não é nossa e à qual não pertencemos.

 

Neste processo começamos por fazer um balanço, não vá a gente precipitar-se numa altura em que já não há tempo para brincadeiras destas, e o resultado é surpreendente: nos pratos da balança notamos que uma coisa má equilibra com dez boas. Tinham-nos dito, no curso de formação, que a relação era uma para quatro, mas não consideraram uma variável importantíssima e decisiva, o factor idade. À medida que o tempo passa a correspondência varia desta forma proporcional.

 

E o que no princípio era tido como desafio passa rapidamente a agressão, o que era visto como surpresa passa a abuso e o que era entendido como brincadeira passa a excessivo.

 

Feitas as contas, deixamos a cidade.

 

 

Cristina Pizarro

 

06
Nov19

Crónicas de assim dizer

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A travessia

 

 

Foi longa a travessia! Não grande, longa!

 

Ainda estava em terra quando me apercebi de que o mar estava encrespado e que não ia ser fácil. Podia esperar algumas horas ou dias ou meses, até que fosse mais seguro meter o barco ao mar, mas esperar não sou eu.

 

Fui, mesmo assim. Sabia, tanto quanto é possível saber sem ter feito, que tinha grandes hipóteses de sobreviver, por aquela convicção, na maioria das vezes estúpida ou inocente, de que havemos sempre de sobreviver a tudo. Pensava: que monstros marinhos me podem aparecer? E respondia logo depois, tenho este péssimo defeito de fazer perguntas com as respostas dentro, seja quem for ou o que for que me surpreenda por entre as ondas, ou eu ou o barco ou ambos, vamos saber contornar.

 

Ao princípio foi o vento a soprar desnorteado, vindo não se percebeu ao certo de onde, que me rompeu as velas e eu no mar alto já sem terra à vista a costurá-las! Claro que no estojo dos primeiros socorros havia agulha, linha e dedal. 

 

Depois foi o motor a falhar, uma válvula que descomprimiu, se soltou ou encravou, não percebo nada de motores, e que tive de desmontar e substituir. 

 

Depois o óleo que se consumiu em excesso pela força adicional que o motor teve de fazer contra a corrente. 

 

Depois os botes salva vidas a soltarem-se do convés sempre que o barco galgava uma onda não prevista e a tudo isso eu resisti e sobrevivi com aparente serenidade. Digo aparente porque houve alturas em que senti taquicardia e receei que o coração me saísse pela boca. No kit de socorro também havia pastilhas para isto. 

 

Depois os alimentos acabaram porque a viagem estava a durar mais do que o previsto e passei verdadeira fome, mas comecei com alguma antecedência a racionar os mantimentos como se uma voz do além me advertisse para não abusar da sorte.

 

A água doce também começou a escassear, mas um amigo tinha-me ensinado um processo de dessalinizar a água que na altura me pareceu complicadíssimo, mas que a necessidade tinha transformado em fazível!

 

Quando me convenci de que já não podia acontecer pior, começou a entrar água no casco. De facto, durante a noite tinha ouvido uns ruídos estranhos como se o fundo do barco estivesse a roçar em alguma coisa, mas naquele estado de embriaguez que é aquele em que dormimos, achei que tinha sido um sonho. 

 

Mas, se bem que tudo isto me tenha assustado a seu tempo, eu sabia que haveria sempre uma solução e que ela navegava comigo, por assim dizer, dentro do barco.

 

O pior foi quando começaram a entrar ratos! Aí eu atirei-me à água e submergi porque tenho verdadeiro pavor dessas criaturas e teria mesmo naufragado, mas os milagres acontecem: quando estava já sem ar nenhum, e tinha-o poupado bastante por causa daquele curso de mergulho que tinha feito em Ko Tao, na Tailândia, estiquei os pés e, macacos me mordam se não foi verdade, encontrei terra firma! E murmurei: Há coisas do… podia-me ter saído “arco-da-velha”, mas saiu-me um palavrão que nunca antes me tinha saído!

 

Cristina Pizarro

 

 

31
Out19

Crónicas de assim dizer

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No altar da Santa

 

Estava ali há já algum tempo, não sei quanto, mas tempo demais.

 

Tinha exposto o caso, detalhadamente, enunciado as premissas, contado os factos, passados e presentes, as vantagens e desvantagens, os se sim e os se não. Dei exemplos, pus hipóteses, delineei perspectivas, as prováveis e as possíveis. Fiz de conta, voltei a fazer de conta, contrapus, justifiquei, expliquei os argumentos, os contra-argumentos, o que pesava mais e o que pesava menos. Defini balança, unidades de medida, enumerei critérios e, para que não restassem dúvidas, identifiquei todo o léxico aplicado.

 

Foi então que a Santa me disse, muito baixinho: “Eu não faço milagres!”

 

Nesse momento baixei irrefletidamente os olhos pela gravidade da tristeza, embora ela não tivesse massa e não constituísse matéria, pesava como um fardo! Percebi, e constatei, só aqui, que a Santa tinha os pés muito grandes!

 

Como se tivesse despertado de um coma, reparei que me encontrava de joelhos, aos pés da Santa, e levantei-me num ápice como se, de repente, o padre no confessionário tivesse dado a reunião por terminada!

 

Foi nesse preciso momento que a Santa se ajoelhou aos meus pés e, de novo muito baixinho, era o seu timbre de voz, me suplicou: “Liberta-me desta prisão!”

 

Não percebi logo. Reparei que tinha nos pés, definitivamente grandes, uma corrente que a ligava ao altar.

 

Escutei-a sem dizer absolutamente nada, até ao momento em que percebi que estava ali há muito tempo, não sei quanto, mas tempo demais.

 

Tinha exposto o caso, detalhadamente, enunciado as premissas, contado os factos, passados e presentes, as vantagens e desvantagens, os se sim e os se não. Deu exemplos, pôs hipóteses, delineou as perspectivas, as prováveis e as possíveis. Fez de conta, voltou a fazer de conta, contrapôs, justificou, explicou os argumentos, os contra-argumentos, o que pesava mais e o que pesava menos. Definiu balança, unidades de medida, enumerou critérios e, para que não restassem dúvidas, identificou todo o léxico aplicado.

 

Olhei para ela, desta vez olhos nos olhos, e sorri!

 

 

Cristina Pizarro

 

23
Out19

Crónicas de assim dizer

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O Passarinho bebé

 

Era uma vez um passarinho que caiu do ninho. Tinha uns olhos grandes, doces, muito meigos e escuros. A mãe até lhe chamava “as minhas azeitonas pretas”. Não eram dela, eram dele. A mãe sabia, mas fazia de conta. Dava-lhe tranquilidade, era o que era!

 

Um dia caiu do ninho. A mãe estava-lhe sempre a dizer: Não te aproximes muito dos bordos do ninho, podes cair! Mas ele gostava de abrir as asas e de as colocar sobre as margens do ninho para apanhar ar fresco.  Um dia desequilibrou-se e caiu. Melhor seria dizer que se equilibrou, porque ter passado por uma queda de 80 metros, grande que era a árvore, uma Sequoia gigante do Canadá, sem fraturar um osso, e ele tinha-os tenros, era mais motivo de equilíbrio do que de qualquer outra coisa. Costuma-se até chamar a isto: cair bem ou saber cair.

 

Quando se encontrou cá em baixo, o passarinho bebé pensou: “Vai demorar uma eternidade até eu conseguir voltar para o ninho, o melhor é eu começar a treinar e aprender a voar.”

 

Aos dezasseis caiu do ninho e aos dezoito voava a céu aberto!

 

É claro que a família se questionava, sem nunca encontrar resposta, porque razão o passarinho tinha caído e alguns membros da família tinham mesmo a ideia de que tinha sido ele a precipitar a queda, por achar que já tinha maturidade suficiente para viver sozinho. A mãe negava-se a acreditar nisto porque, como todas as mães, achava-o muito pequenino, com necessidade de mimo, protecção, incapaz de cuidar de si em situações mais adversas como a fome, a sede, o frio, a doença...


À data da queda, era a mãe que tratava de toda essa logística e apesar de nunca ter achado que ele tinha feito de propósito e de às vezes fazer a pergunta sem resposta: Porque é que ele partiu; sobreviveu bem a isso por ter percebido que se tratava de uma necessidade sua, que ele tinha mesmo de o fazer, para se sentir realizado como pássaro que era e tinha nascido!

 

Um dia a mãe pássaro sobrevoava o Sequoia National Park, na Califórnia, e encontrou um amigo, um pássaro adulto, que lhe perguntou porque estava com uma expressão tão triste e ela contou-lhe que o seu passarinho bebé tinha caído do ninho, ao que ele respondeu: “Deste-lhe as asas...”
 


Tão simples que era!
 
 
Cristina Pizarro

16
Out19

Crónicas de assim dizer

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Manifesto intemporal

 

As pessoas pensam que se conhecem e estamos tão enganados! Achamos que o “com viver” nos dá acesso aos mistérios delas, aos segredos, ao como são, ao que pensam, ao como sentem, ao que querem, ao quem são! Nada disso! Conhecemos o boneco, o actor, o autor correndo bem, mas nunca o ser humano. É sempre uma surpresa o do que elas são capazes, o do que elas são possível!

 

Dizem que somos “intelectualmente sadios”, procurando obter nisso a desculpa, o perdão do seu comportamento quase psicótico, do seu padrão narcísico insustentável, da sua essência precária no que respeita a emoções, da sua falta de solidariedade enquanto parceiros num mundo adverso, o que temos! E nós estamos ali a ouvir aquele discurso fluente em palavras, mas vazio de sentimentos, com percepções distorcidas, ambíguas, canalizadas em direcções enviesadas, onde destino algum faz sentido! Ouvimos, damos a ideia que compreendemos, mas só percebemos! A nossa inteligência tem um filtro que nos não permite o alinhamento de conceitos viciados que têm por propósito o convencimento do irreal no outro, que é de carne e osso! Nós somos assim, em nós tudo é de carne e osso! Chama-se a isto autenticidade.

 

A conversa flui, o interlocutor não se apercebe dos abismos que está a deixar, grão a grão, no caminho e que só lhe vão servir como desorientação no percurso de volta que vai fazer, mas que não sabe, porque naquele momento não pensa nisso, deixa-se apenas ir, achando inconsequente esse movimento que o suporta, que o desloca e o conduz a um precipício iminente!

 

Não o dizemos. Nesta fase de descontrolo a pessoa não está atenta aos sinais, não os vê, não os apreende, não os identifica, não os percepciona. É como se eles não existissem, embora estejam assinalados por todo o lado e em todas as inflexões do trajecto. Atempadamente colocados todos os sinais de trânsito. Bandeirinhas a delimitar o percurso, semáforos intermitentes e às cores, bandas sonoras de alerta, avisos de aproximação de perigo: a 500m, a 300m, a 100m, desprendimento de pedras em precipício, curva perigosa à direita, pendente de x%, trave com o motor, reduza a velocidade, no túnel acenda os médios, faróis de nevoeiro, derrame de óleo, rua de sentido único, estreitamento de rua... O condutor não se apercebe de nada disto. Está como que num estado de embriaguez, com os reflexos atenuados, reduzidos, mas a achar-se capaz e com tudo a funcionar. Damos conta, é claro que damos conta. A lucidez tem isto de bom: vemos com a luz apagada!

 

Façamos um intervalo como que para avaliar o ponto da situação. Meu Deus, só era preciso ter aberto os olhos na altura certa! E nós com eles abertos e a não querer ver, a teimar em não querer ver. Parece que de vez em quando temos o diabo no corpo! Talvez seja preciso exorcizá-lo, alguma coisa há-de haver que possamos fazer! E ficamos ali por tempo indeterminado, com a dor anestesiada, ligados a máquinas de suporte vital, entubados até aos ossos ou à ponta dos cabelos e quando temos alguém lúcido na nossa vida que vê por nós e nos pergunta: “Então e hoje, como é que se sente?” Nós respondemos estupidamente: Bem! Claro que a partir daqui ninguém faz nada, as pessoas são nossas amigas e dão-nos o direito de nos suicidarmos lentamente. Pois se é consciente, se até deixámos um papel escrito a dizer que o permitíamos! Não, não estou a falar de eutanásia, ou pelo menos não daquela que ainda é discutível; falo de uma eutanásia mental, um processo involutivo donde só acordamos, se acordarmos, tarde demais. E o tarde demais significa: não a tempo de evitar o pior, que é sofrer. Falo assim, mas isto é bom, porque enquanto este sofrimento durar estamos protegidos de nos meter num pior! E convenhamos que pode haver sempre pior, não podemos perder a razoabilidade. Percamos tudo, o bom senso não. O que achamos servir para os outros, deve servir para nós. Feito o exercício, regressemos agora ao ponto onde atrás ficámos.

 

Naquele ponto do discurso começamos a dividir a nossa atenção, somos capazes disto quando queremos, entre o que nos é dito e o que não! E chegamos primeiro ao destino, cortamos a fita da meta, mas não dizemos vitória, porque não é isso que queremos e porque isso não tem interesse nenhum para nós. Quando o outro chega finalmente ao que pretende, nós já estamos de volta. Claro que regressámos por outro caminho, porque nos apercebemos, no improvável deixarmo-nos ir, que aquilo tinha uma sementeira de minas, como quem planta batatas a céu aberto! Alguém que venha atrás que as cubra. Não vamos ser nós!

 

Da bifurcação por onde saímos, por onde cortámos, na auto-estrada, o nosso interlocutor não deu conta, chegámos ao nosso porto de abrigo. Tínhamos deixado lá um farol, era muito difícil perdermo-nos!

 

Estamos finalmente em casa, em paz, como fomos é como vimos.

 

Chama-se a isto maturidade. E podemos ser na mesma, em adultos, os meninos da aldeia como nascemos, os líricos que se resignam e explicam porquê ou seja lá o que for! São coisas diferentes! Há que saber ver diferença no que é diferente para sermos imparciais!

 

Depois há outra coisa, que deve ser servida, nestes casos, como sobremesa, porque o melhor se deixa para o fim, ainda que nos apeteça desde o início: a dignidade, aquela coisa que se nos colou à pele ainda no útero materno e que banho nenhum remove por mais agressivo que seja o gel ou a pressão da água, porque é intrínseco ao Ser Humano.

 

Mas todo este discurso tem uma ressalva. Se estivermos a falar de crianças, que obviamente também são Seres Humanos, a elas isto não se aplica, por causa daquela coisa de à nascença ainda não termos completa a maturidade pulmonar, hepática, imunológica, etc.

 

Dizem, e é verdade, que leite materno, na altura certa, resolve quase tudo! O tempo,

 

feliz aliado, faz o resto.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

09
Out19

Crónicas de assim dizer

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Parto sem dor

 

Depois de uma demorada e prolongada espera de ansiedade e angústia pelo meio, o médico apareceu no corredor e disse a frase que o pai esperava: “Mãe e filho estão bem.”

 

O processo passou por altos e baixos, situações de stress extremo, em que todo o investimento físico, mental e emocional fizeram o “boneco” crescer numa bolsa de líquido amniótico que protegia a cria contra traumatismos vários, caso ocorressem. E ocorreram.

 

A mãe manteve, desde o início e durante toda a espera, uma fé que nem ela sabia onde tinha ido buscar. Tinha, não cometo o erro de dizer: nascido forte, porque ninguém nasce assim, mas tinha-se tornado forte. Tinha, ao longo de toda a sua vida, lidado e combatido com toda a estupidez, ignorância, crueldade e insensibilidade de que um ser humano é capaz e isso fez dela uma heroína, capacitou-a para não desistir em nenhuma fase da vida. Afastou monstros, aprisionou fantasmas, saltou abismos, fintou emboscadas, planou, sobrevoou, viveu e sobreviveu. Deu-se a luxos quando se podia dar a luxos e sofreu miséria quando não havia nada nem ninguém no horizonte. Teve vários filhos, uns prematuros, uns a termo e outros depois. Quando, chegada a hora, o médico lhe perguntou: “Como quer o parto? Normal ou com epidural?”, ela respondeu tranquilamente: Com anestesia geral. O médico não estava à espera, não percebeu porque a parturiente não tinha pressa de ver o rosto da criança e escolhia a possibilidade de acordar horas depois, quando podia vê-la já, mas ela acrescentou: Não há por que ter pressa, sei o que aí vem, é muito bom, posso esperar.

 

Quando despertou, não perguntou onde está a criança e o médico continuou sem perceber a atitude: “Então não quer saber como...” Não, eu não pergunto, mas não é porque não quero saber, eu não pergunto porque já sei: Nasceu com 49,5 cm, pesa 3, 250 kg, ligeira icterícia neo-natal que a fototerapia está a solucionar, grupo sanguíneo 0 positivo. Respira autonomamente. Foram-lhe aspiradas algumas secreções brônquicas, é normal. Hoje, chega-me isso.

 

Mas...

 

Hoje, chega-me isso! E partiu sem dor, tendo no entanto ficado. Pariu sem dor, foi mãe sem dor, como é que os médicos não percebiam? Era o seu destino, a contrariar o preconceito de que o sofrimento precede sempre a plenitude. Não era assim, havia coisas que naturalmente eram apenas boas.

 

Cumpriu-se, enquanto pessoa, atingiu aquela coisa estranha e pouco frequente de nada mais haver a fazer. O mundo estava ali, a seus pés. Tinha finalmente um nome, uma razão de ser, um propósito e ela, sem dor, sorria e dizia: Se me tivessem dito que isto era tão bom, já tinha acontecido muito antes! Mas ninguém lho tinha dito, as pessoas são assim, a vida é assim, a de uns não justifica a de outros.

 

Hoje, são exactamente essas crianças que fazem rolar o mundo e que contrariam desde o início a tradicional frase, modificando-a para: Parir não é dor, criar é amor. Pois assim foi.

 

Cristina Pizarro

 

 

 

02
Out19

Crónicas de assim dizer

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Memórias

 

 

O que raio havemos de fazer com as memórias?! Está tudo em pastas de arquivo: as boas, as más, as assim assim, as mais ou menos... A ordem do arquivo não tem qualquer critério, é quase aleatória, às vezes chega a ser caótica, embora uma coisa possa não estar directamente ligada à outra. Há as que envelhecem e morrem, as que nascem e crescem, as que se modificam, as que se inventam, as que se avivam, as que se contorcem, as que incomodam, as que se sentem incomodadas por outras, as próximas, as amigáveis, as familiares, as oportunas, as inoportunas, as desajustadas, as pouco adequadas, as mentirosas, as enganadoras, as submissas e as prepotentes, as subversivas, as dissimuladas, as voluntárias, as solícitas, as passadas e as antepassadas, as tristes e as alegres, as apressadas, as atrasadas, as equívocas e as inequívocas, as claras e transparentes e as nubladas, as leves e as pesadas, as capazes e as incapazes, as calmas e as histéricas, as ternas, as amorosas, as imprevistas, as impensáveis, as...

 

Se isto fossem só palavras, podíamos bem, mas são memórias! O disco rígido não tem capacidade para guardar tanta informação e quando queremos adicionar uma nova, pede-nos para apagar uma de que não precisamos. Qual escolher? Como avaliar a mais importante? Juiz em causa própria!

 

Tentamos enganar o sistema, não deitamos nada fora, resumimos, abreviamos, mas a quantidade de MB libertada não é suficiente. Arranjamos um plano de contingência, sem pensar muito: apagamos as mais antigas e mantemos as mais recentes. Damos logo conta da asneira: as mais recentes ainda nos lembravamos delas, não precisavam de ser guardadas! Desperdiçámos espaço de memória para o que ainda estava lá, sem necessidade de ser guardado. Há então vários tipos de memória... Já nos tinham falado disso caramba, da memória recente e da memória antiga, até têm nomes clínicos para a sua perda, alguns estrangeiros, porque não fomos nós a inventá-los.

 

E eu estou aqui lucidamente, conscientemente, a fazer todo este exercício que parece patético porque o que eu verdadeiramente queria era trazer-te de volta, mas como é que eu faço isso se não me sais do pensamento?! Se ainda não fazes parte da minha memória?

 

Na verdade, algumas coisas sim. Lembraste daquela vez em que me foste acordar e me deste um beijo no pé? Disseste: “Acorda meu bebé grande!” Eu não era assim muito grande, só tinha 18 anos e também acho que não estava a dormir, senão não tinha ouvido isto que me ficou na memória. Isto e outras coisas, como daquela vez em que eu te estava a comunicar que me queria casar, uns dias depois de me teres dado o beijo no pé, e tu me disseste: “Parece-me cedo, mas a vida é tua. Se te sentes preparada e é isso que queres, não sou eu que te vou impedir.” E eu, em silêncio, a perguntar-me: Preparada para quê, como é que eu sei o que quero?! E percebi, que se fazia as perguntas, era porque a mim também me parecia cedo.

 

Desculpa estar aqui a dizer isto, só agora reparei que nos estavam a ouvir, mas não tem mal pois não? Não disseste que era segredo, eu só o guardei porque achei bonito.

 

Sabes, tenho a cabeça cheia de memórias, agora mais do que antes, porque agora já não tas posso contar, como fazia dantes e elas acumulam-se na mimha cabeça e já te disse, não há espaço para tudo!

 

Agora, com estas normas internacionais da qualidade, obrigam à política de substituição, ou seja, quando alguém se ausenta, seja porque motivo for, tem de haver alguém a substitui-lo. Acho que nunca te cheguei a dizer isto e agora é tarde!

 

Mas hoje é o dia dos teus anos, é a primeira vez que não fazes anos no dia dos teus anos e eu, que não sou Deus nem tenho Deus dentro de mim, quero dar-te de presente a eternidade e dizer-te que, enquanto eu for viva, vais fazer sempre anos no dia dos teus anos.

 

Mas acho tão pouco! Porque o que eu realmente queria era trazer-te de volta! Vens? Vá lá, dá-me esse presente no próximo dia dos meus anos, porque este ano não os fiz, porque tu não estavas!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

25
Set19

Crónicas de assim dizer

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No Serviço de urgência

 

 

A sensação era de angústia ou de ansiedade. Nunca soube distinguir muito bem estas duas coisas, embora as saiba não sinónimos; mas percebi que naquele momento isso não era importante. Aquele estar a respirar com a convicção de que o momento seguinte é provável, mas sem certeza nenhuma disso!

 

Mesmo assim, ainda conseguia ver. Esta coisa de termos dois olhos permite-nos ver coisas que só com um nunca conseguiríamos ver. E vi, através do vidro da janela que dava directamente para a rua, uma mulher deitada no chão. Dormia, aparentemente dormia. Mas as coisas não me pareciam bem e demorei poucos segundos a reagir. Fui ter com o Segurança e informei-o. Seguiu-me e quando viu a mulher disse: “Ah, já é normal! Tem HIV, tuberculose… foi aqui vista esta noite. É melhor que não se chegue perto dela, percebe?” E afastou-se. Já era normal...

 

Uma coisa que numa primeira vez não é normal, acaba por sê-lo pela repetição, embora a situação seja exactamente a mesma que nos faz reagir na primeira vez, mas não nas vezes que a ela se sucedem! Não, não percebia.

 

Será que ao consentirmos no habitual estamos, sem ter consciência disso, a permitir que ele se converta em normal quando pode até ser aberrante?! Parece que o uso está a prescindir de critérios e isto é perigoso.

 

Passado algum tempo a mulher acorda com a realidade, ou com a luz do Sol a bater-lhe no rosto e que lhe serviu apenas de despertador. E levanta-se da realidade da noite para a realidade do dia.

 

Entretanto chamaram-me e entrei.

 

Quando saí, a mulher estava sentada no muro do hospital, em frente ao Serviço de urgência. Vai passar o dia a ver chegar e partir ambulâncias, com pessoas debilitadas, provavelmente mais do que ela, e vai ficar com aquela sensação de “conforto” que nos deixa tragicamente a frase, depois de mentalmente verbalizada: “Há pessoas que estão muito piores!”

 

Os hospitais têm isto de bom: em alguns casos as pessoas saem de lá melhor do que quando entraram! Mas também têm coisas de mau: às vezes não saem e outras vezes saem não pessoas. Dizem que é a vida, quando mais parece ser a morte.

 

A angústia não me passou nesse dia e a ansiedade também não. Agravaram-se as duas, individualmente, porque são não sinónimos; mas agora que falo nisso, percebo que está na altura de as abandonar, deixo-as aqui.

 

O Planeta, apesar dos maus tratos de que é vítima, continua a correr e a rolar pelo espaço à velocidade de trinta quilómetros por segundo e, ainda que inadvertidamente, leva pessoas consigo.

 

 Se calhar é mesmo normal!

 

 

Cristina Pizarro

 

18
Set19

Crónicas de assim dizer

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Era uma vez um brinquedo

 

A criança brincava com o Aneurisma sem saber com o que brincava. Rodava com ele, rolava com ele, rodopiava com ele; sem conhecer o perigo, sem suspeitar do atrevimento, sem considerar o abuso de poder, sem notar a falta de respeito. Tudo nela era pré conceito.

 

A criança brincava, pegava no Aneurisma como num boneco e desfazia-o, tomava-lhe o pulso e abria-lho, sentia-lhe o coração e parava-lho, desafiava-lhe o cérebro e congelava-lho.

 

A criança não sabia o que fazia! Trazia-o para si sem chamar por ele, porque o não merecia, mas não julgava isso, era uma forma que tinha de o tornar não consciente. Tinham-lhe dito: Só existe o que tu queres ver, mas tinha sido noutro contexto, a criança não o distinguia.

 

E a criança tinha medo, desde tenra idade que vivia apavorada, com medo de si e não sabia como fugir. O medo de então não passou, passou a fazer parte de si, colou-se a ela e então pediu um brinquedo pelo Natal. Deram-lho, há sempre quem nos dê coisas de que não precisamos! Às vezes do que precisamos é de não ter, para aprender a viver sem isso, mas isso não era fácil de entender pelos outros e era mais simples dar o brinquedo, o peixe, em vez de ensinar a pescar!

 

As pessoas são muito preguiçosas e preferem o que é fácil e gostam de criar dependência: “Se eu não ensinar a pescar, da próxima vez que ela quiser um peixe vem ter comigo, vem-mo pedir e vai ter que me dizer obrigado!” e as pessoas adoram que lhes digam obrigado, fá-las sentir bem! Precisam disso, dependem disso! E andam nisto, em vez de pensarem: se ela tiver autonomia, eu tenho mais tempo para outras coisas, até para mim.

 

E a criança esquecia-se de si enquanto brincava com a bomba-relógio, é para isto que servem muitos brinquedos, e nunca se apercebeu do tic-tac porque nunca se aproximou o suficiente. Detalhes, pequenas coisas que são engolidas pelas grandes, sem importância nenhuma, embora avassaladora!

 

Um dia deixou-o cair, de propósito, sem qualquer propósito e empurrou-o até, fazendo-o rolar pelo precipício porque lhe dava um gozo enorme ver o Aneurisma aflito, com medo de se partir ou rebentar e nunca percebeu que o problema que não era dela, era um problema só dela. Deu conta disso no dia em que o brinquedo comprou uma pilha, foi ter com a criança e disse-,lhe: o meu nome é Aneurisma, sou uma bomba-relógio que pode rebentar a qualquer hora, quer dizer, não é bem a qualquer hora, é só quando e se me apetecer, por isso não tens de te preocupar comigo porque já não dependo de ti.

 

E a criança emudeceu, mas antes disso zangou-se, tirou- lhe a pilha e disse: “Eu é que decido!” E o Aneurisma sorriu, porque já tinha alternativa a ela, ela é que não sabia! Tinha andado a ler umas coisas sobre energias renováveis, planos B, antes de falhados os A.

 

Cristina Pizarro

 

 

11
Set19

Crónicas de assim dizer

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Animais por instinto

 

Pouco passamos de animais. Se tirarmos algumas coisas, não passamos muito de animais. E essas coisas são menores: peças de vestuário, acessórios, adornos, detalhes, maquilhagem, roupagens! Vestimos o animal como em crianças vestíamos uma boneca, para lhe dar um ar de graça, para nos distrairmos, para nos entre termos, a nós e à boneca. O animal não é menos nem mais por isso, não é outro em vez disso! Pode parecer, a quem de fora o olha sem o ver ou a quem o vê sem o observar, ou a quem o observa sem estar atento, mas não a nós que o vestimos, que o decoramos, que o adornamos.

 

E a boneca anda, corre, rodopia, sobe e desce, às vezes dança, parece que cresce, mas é sempre um fruto verde, imaturo, pendurado na árvore que a sustenta, a quem ninguém alimenta, porque ninguém repara que ali está e quando, raramente acontece, alguém se apercebe dela, diz: aquela árvore dá fruto naturalmente, não precisa de ninguém que a alimente, que a regue, que lhe combata as pragas a que está sujeita, que a proteja da agressão de que é alvo, que a abrigue do frio, da geada e do granizo! E não reparam que o fruto da árvore não sorri. Não precisam disso, não lhe sentem a falta!

 

E a boneca fala, a boneca pensa, a boneca vê e a boneca sente.

 

Mas não passamos de animais que, quando famintos, começam a fazer e a procurar coisas, como se ao gostar de si gostassem deles, como se ao querer para si quisessem para eles e oferecem-se e dizem: “Estou aqui para ti”, mas estão ali para eles, estão ali para beber deles o sangue de que se alimentam, como vampiros inconscientes, sôfregos, insaciáveis, insatisfeitos, negligentes, achando-se com direitos ao que não lhes pertence, e nem o que são lhes pertence. Não somos os donos de nada, não somos donos, não somos nada.

 

Às vezes os animais parece que amam, como golfinhos que acasalam fora do período fértil com cio, mas ainda assim o instinto é o mesmo, sem ser o da procriação, é o da sobrevivência, aqui de forma mais egoísta, sem sequer pensar na espécie, na sua continuidade ou até no planeta que, em parte, também ajudam a manter!

 

E a boneca persiste, insiste, existe. Só por isso, por mais nada! Mas a boneca chora e não parece viver por instinto! É só aqui que alguém pergunta se se trata realmente de um animal! A boneca não responde, os animais não falam!

 

E os animais gravitam! Ignoram o silêncio, a distância, o mutismo. Tinham por certo, o que era incerto. Por infinito, o finito. Por razoável, o impensável! Por verdade, o insustentável!

 

Mas eis que chega a boneca. Meu Deus, a boneca vem nua! Não que se despisse, tiraram-lhe a roupa! Os animais rasgaram-lhe a roupa, os animais comeram-lhe a roupa, os animais beberam-lhe o sangue, os animais sugaram-lhe toda a energia... e os animais pararam em frente à boneca nua, detiveram-se, fizeram perguntas, gritaram respostas, pediram promessas, exigiram desculpas... e a boneca não falou.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

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