Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

02
Dez20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

Perdi o cão 

 

Quando o Agente de Autoridade me abordou, perguntando:

- O que anda a fazer, num sábado à tarde cheio de sol, depois da 13h?

Respondi:

- Vim passear o cão.

- E onde é que ele está? 

- Pois, foi isso, perdi o cão!

Demorou alguns segundos a questionar-me de novo, provavelmente a reflectir se aquilo era humor ou só verdade!

E, depois, continuou:

- E a trela?

- Também a perdi. Quando me fugiu fiquei tão desnorteada (isto foi no Porto, ok?) que desatei a correr atrás dele até me cansar, não aguentar mais e parar para descansar um bocadinho. E é aqui que estou. Provavelmente devo-a ter deixado no local onde estava sentada com ele, mas estou tão cansada, mas mesmo tão cansada, que não me lembro onde foi!

 

Ele continuava a olhar para mim pensativo e julgo que na mesma reflexão. Aquela que está lá atrás, do se era humor ou... 

Continuei:

- Eu sei que isto não é o seu trabalho e que não se enquadra no “A bem do Serviço Público”, mas se me ajudasse a procurá-lo...

É que já passaram 2 horas e eu só ainda não desisti porque se trata de um membro da minha família!

 

O Agente aceitou a proposta, pareceu-me naquela atitude de: deixa ver no que isto dá! Palavra puxa palavra, pouco tempo depois, e não sei explicar como, já estávamos a falar da ordem do mundo, dos princípios de ética e moral do ser humano, do sentido de justiça e do que era afinal isto do respeito por nós mesmos e pelo outro e do estabelecer que limites e onde e quando os devemos colocar.

 

Da minha parte, a única de que posso falar, nada disto me estava a parecer estranho, acontece-me com frequência. Cumprimentar alguém pela manhã, dizendo: Olá, bom dia! e 2 horas depois ainda estar ali, de pé, no meio da rua ou na entrada do prédio, a falar sei lá do quê, mas interessante a esse ponto, ou seja, não dar pelo passar do tempo.

 

A coisa corria com verdadeira e fluente normalidade, mas depois o Agente da Autoridade interpelou-me novamente e, desta vez, fez uma introdução:

- O Sol está quase a pô-ser e, depois desta agradável conversa, acaba o meu turno e eu vou ter de voltar para casa. Mas, diga-me só uma coisa:

E o cão? 

- Qual cão?

 

Foi aqui que tirámos as máscaras e desatámos numa gargalhada que até as lágrimas nos saltaram dos olhos e quando, finalmente, me consegui recompor, acabei por dizer:

- O cão deve andar à procura da trela e quando a encontrar vai de certeza voltar para casa. Já aconteceu mais vezes. Há dias em que até me traz o jornal!

Ele olhou-me fixamente e sorriu, mas desta vez de um jeito que não me vou esquecer: para além da boca, usou o olhar.

 

Saímos dali. O Sol tinha acabado de se pôr e, nestes dias de Inverno, fica logo noite e o risco é maior, dizem!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

25
Nov20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

Um grito na noite

 

Já foi há tanto tempo... aquele dia de Novembro... Nunca vi tanto nevoeiro junto. Demorámos 5 horas a percorrer 150 km, mas naquela altura eram mais! As curvas da estrada duplicavam a distância. E não se via nada. Misturava-se o escuro da noite com a luz dos faróis do carro, as gotículas de água com o silêncio do taxista. Ninguém abriu a boca e nenhum de nós dormiu.

 

As nossas cabeças dilatavam pela quantidade de pensamentos que tinham dentro, pelo medo das conclusões, e a forma que arranjámos de as não tirar foi não falar. Funcionou. E conseguimos sustentar o que, embora absurdo, era ainda possível, pela falta de evidência. Mas tínhamos consciência, velada sim, de que esse adiar tinha um prazo curto. Não era um despertar, era um abrir e fechar de pálpebras, como se uma pestana nos tivesse entrado nos olhos e lutássemos com a impossibilidade de os manter abertos e a mesma de os manter fechados. E, enquanto isso, os nossos corações tremiam e batiam descompassadamente pela enxurrada de sangue que nele entrava e saía. Um atropelo, era o que era.

 

Quando chegámos perguntei por ti, mas dei apenas duas hipóteses para estares, a minha cabeça não me permitia outras! E quando me responderam: “Nem num sitio nem noutro”, eu verbalizei que em algum deles tinhas de estar! Mas que disparate era aquele?! E quando me disseram "Na igreja!" eu disse que não acreditava, pois que farias tu numa igreja à noite, em pleno Inverno, com 21 anos! Era um grandessíssimo disparate. Como é que alguém, no seu perfeito juízo, pode dizer uma barbaridade dessas?! Quis confirmar aquela conversa de elevador, embora não tivesse repetido a pergunta, mas quando cheguei a casa e a porta estava aberta... àquela hora da noite… com pessoas lá dentro que eu não conhecia… percebi que o disparate, embora surreal, não tinha como ser negado. E são estas coisas, sabes, que nos tiram as certezas! São estas coisas que nos arrancam do peito a fé. “Oh, tu já não a tinhas!” Tinha sim, a fé de que há coisas inconcebíveis, não possíveis por irracionais que são. Mas isso era no tempo em que eu vivia com a convicção de que tudo tinha uma explicação. E vê como é simples, fazia sentido para mim um disparate destes! Que as coisas para serem, para acontecerem, têm sempre uma razão, um porquê, e se ela existe eu posso conhecê-la, porque tenho direito a isso, porque isso me é devido e se não me for dado eu não desisto enquanto não o encontrar!

 

Já percebeste não é, isso era no tempo em que uma série de disparates em cadeia, era a minha lógica do mundo. Era a própria ordem dele! Acreditava que sem ela, ele não faria sentido! E não faz, mas isso não o impede de existir e eu pensava que sim! Que era aquela merda do latim: condição sine qua non. Traduzida mais tarde, pouco tempo depois, por: sem a qual sim! Trágica tradução!

 

Acho que a partir desse dia nunca mais consegui fechar completamente os olhos! Durmo, é claro que sim, mas não fecho completamente os olhos. Foi também a partir desse dia que tudo passou a ser possível, e foi, e é! Ainda hoje é frequente ao pequeno almoço o inverosímil vir sentar-se à minha frente e sabes que o anormal nem sequer diz bom dia?!

 

Décadas depois, ainda mora em mim o sofrimento. E não sei, nem nunca vou saber, o que é que te deu naquele dia para resolveres ir dar a volta ao mundo, assim a meio da noite, sem motivo e sem bilhete de regresso! Umas notas escritas, uma prenda enviada por correio, um desenho... nem roupa levaste, caramba. Claro que tinhas esse direito, temos todos, ou quase todos. A chatice é que se fica à espera, percebes? É a porcaria da porta que não se fecha, as coisas em que se não toca porque não sabemos o que fazer com elas, os poemas, os versos, as fotografias, o acordar a meio da noite porque parece que alguém entrou em casa! E é um sobressalto íntimo, constante, aflitivo.

 

Nunca pensei que sobrevivesse e… eis-me aqui! 

 

Olha, fazemos assim: Quando chegares, vem ao quarto dar-me um beijo e, por favor, traz a mãe.

 

 

Cristina Pizarro

 

18
Nov20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

A brincar, a brincar... 

 

 

A princípio era uma brincadeira, assim de improviso, sem pensar muito. Eu disse que ia imitar uma pessoa. Sabes o que quer dizer imitar? Não esperei pela resposta e acrescentei: É fazer de conta que sou outra pessoa e tu tens de adivinhar quem é que eu estou a imitar. Repeti a palavra sem querer e sem saber se ela, com 3 anos, tinha percebido ou não. "E agora a Cristina quem é, mamã? Não é ela!"

 

Fiquei ali algum tempo, e como ela não respondia, tentei ajudar: Posso estar a imitar a Dóris! "A Dóris não, porque é um cão e os cães não falam!" E após um curto silêncio: “E se brincássemos antes às escondidinhas?” Aceitei.

 

Mas depois aquilo passou, a brincadeira, o jogo, e o consciente começou a acordar lentamente, devagarinho (é diferente!) e a perguntar lá do fundo do corredor: E agora eu quem sou? E percorria a casa e eu atrás dele a tentar descobrir de onde vinha a voz e ele a brincar comigo, a aproximar-se e a fugir de seguida. E eu a insistir, a procurar atrás das cortinas, debaixo das almofadas, entre as folhas dos livros, dentro das gavetas, por baixo dos armários... em algum sítio tinha de estar!

 

Primeiro achei divertida aquela coisa do esconde-esconde, parecia-me que via uma parte dele e quando chegava lá, não era. Cheguei a entusiasmar-me a ponto de fazer mentalmente a lista dos locais prováveis e, depois de todos em vão fiz a outra, a dos improváveis e enquanto não chegava ao último andei ali com uma motivação inesgotável. Cada sítio onde me dirigia e o não encontrava, em vez de me fazer desistir ou ir perdendo o ânimo, era ao contrário, uma injecção de energia, aquela sensação de trabalho realizado, do pior já passou, agora também falta pouco! E então continuava, numa dinâmica em que todos os obstáculos eram ultrapassados e, alguns, até derrubados, para ser assim completamente honesta.

 

Numa das vezes até me ri sozinha, quando achei que ele estava dentro da taça de vidro fosco do candeeiro do tecto. Acendi-o, vi uma sombra e pareceu-me ver a fita amarela da meta. Agora era só cortar. Fui buscar o escadote, não era suficiente. Fui buscar um banco à cozinha, daqueles que nos dão acesso à loiça nos armários mais altos, para colocar no degrau superior do escadote. Insuficiente. Fui buscar a caixa das ferramentas, desapertei os parafusos para tirar o vidro e, quando vi lá dentro o vazio, olhei para o sítio onde tinha os pés apoiados e pensei: e agora, como é que eu desço daqui? A subida tinha sido simples, fácil mesmo, por causa do entusiasmo, mas agora, sem entusiasmo nenhum, os meus pés pesavam como chumbo e eu não via a forma de descer dali sem ser aos trambolhões! Sentei-me, que isto do corpo tem limites, e às vezes temos de descansar um bocadinho e ganhar fôlego para retomar o voo. Ou então pôr a cabecinha a trabalhar e arranjar nova estratégia, que aqui até acabamos por esquecer que o corpo tem limites, e atiramo-nos lá de cima sem pára-quedas, cheios de confiança. 

 

Fui por aqui e, de repente, pareceu-me ouvir a voz da Dóris! Mas não podia ser porque a Dóris é um cão e os cães não falam! Quer dizer, não é bem assim porque a Dóris é uma cadela. Mas a miúda só tinha três anos! Valeria a pena estar a explicar-lhe uma coisa destas para ela me dizer depois: Mas é a mesma coisa, Cristina! E não era!

 

 

Cristina Pizarro 

 

05
Nov20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

A vida foge-nos

 

 

A vida foge-nos por entre os dedos,

porque não dizemos o que pensamos,

porque não fazemos o que podemos

e porque não mostramos o que sentimos!

 

Enquanto esperamos que a vida se defina,

a vida foge-nos.

Enquanto ansiamos pelo que queremos,

a vida foge-nos.

Enquanto acreditamos que a quem amamos

venha a sentir o mesmo,

a vida foge-nos.

 

E por mais que insistamos em vivê-la

e nos agarremos de forma desesperada

ao tempo e ao espaço que nos resta e nos consome,

há sempre quem diga: Podes fazer mais e temos tempo!

 

E por mais que nos dediquemos a ela ou a alguém

é sempre um nada ou um muito pouco

comparado com o que podemos e sabemos!

 

E,

embora eu diga o que penso,

faça o que posso

e mostre o que sinto,

a vida foge-me.

 

Para onde ela iria se eu não fosse assim!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

28
Out20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

A 4 pés

 

 

Hoje calcei os teus sapatos e fomos andar a pé, dar um passeio. É-te fácil imaginar para onde! Sim, junto ao mar porque sei que tu gostavas. O do lado direito está-me um bocado largo e o pé sai-me do sapato ao andar.

Também te acontecia? Ou a ti era o esquerdo? Não me parece nada que tivesses os pés ao contrário dos meus! Devia ser o direito que te estava largo!

E agora que penso nisso, fico na dúvida: também me pode estar largo a mim porque como te estava apertado a ti, foi alargando. Nunca sabemos a verdade por causa das variáveis todas. O certo é que fazem os sapatos iguais, mas os pés são diferentes! Também não interessa assim muito não é, se estivéssemos a falar de sapatos!

 

O mar hoje está calmo. Quer dizer, calmo calmo não está, porque é da sua natureza ser irrequieto. Mas percebes o que quero dizer, não está bravo. 

 

O céu está completamente limpo. Quer dizer, completamente não, mas quase não tem nuvens. Uma coisinha branca aqui outra acolá... Nem sei se são bem nuvens! Sabes quando as coisas são tão pequenas que nós ficamos na dúvida se existem ou não? Pois estão assim! O importante é que o céu está em tons de azul. Digo isto porque tem várias cores, mas andam todas ali à volta do azul. Sabes como é, entre o claro, o clarinho e o mais escuro.

 

O Sol está mesmo bom, quente, não parece nada Outubro e se calhar não é! Estas referências cada vez me fazem menos sentido. Nomenclatura! Serve para quê? Para podermos comunicar, para estarmos a falar do mesmo e nos podermos entender! E são estas as explicações! Nós nunca estamos a falar do mesmo! Mesmo que utilizemos as mesmas palavras. O mesmo não existe. O que existem são conceitos sobre o mesmo. Muitos conceitos, imensos conceitos, infinitos conceitos. E se calhar até é só por isso que não nos entendemos uns e outros e uns com os outros. Mas deixa lá, isto não interessa para nada. 

 

Há 3 barcos. Estão tão longe que parecem parados e se calhar estão, embora isso não faça grande sentido, mas as coisas sem sentido nenhum às vezes existem mais que as outras.

 

Eu só te estou a falar assim porque sei, desde o princípio, que me estás a acompanhar e que não te perdes por entre as palavras. Aliás, nem por entre os silêncios tu te perdes e é por isso que eu falo todos os dias contigo, nem que seja só um bocadinho. Faz-me bem, estar contigo, és uma boa companhia. Oh, não é nada disso! O facto de não responderes só me dificulta o trabalho. Nem imaginas o esforço que faço para escolher, de entre as alternativas que me coloco, a tua resposta. E é um conflito permanente, porque dependendo de qual escolho para ti, a minha é outra e quem escolhe as duas sou eu! Não me parece nada bem, este diálogo assim.

 

Ando aqui a dar voltas à cabeça para arranjar uma solução para isto! Eu sei que tu pensas isso, mas nem sempre estás certa. Uma coisa é eu resolver dificuldades neste meu mundo outra, completamente diferente, é resolvê-las num mundo a que não pertenço! Também tens razão e é exactamente isso que eu tenho feito, brincar ao faz de conta. Mas começo a cansar-me. Acho que percebes que é um desgaste enorme, este monólogo a dois. E depois isto não tem um guião prévio. Eu escrevo e interpreto os dois papéis, e já vamos em três, em simultâneo. O que me safa no meio disto tudo é que não há público, ninguém que aprove ou desaprove, ninguém que goste ou nem por isso, ninguém que se detenha a analisar, a denunciar e a reprovar pormenores que não interessam para nada, sem reter o que é relevante! Liberdade absoluta, nisso tens toda a razão! E às vezes, tu sabes como sou distraída, esqueço-me das falas porque começo a pensar ou a reparar noutra coisa e fixo nesta segunda a atenção. Outras vezes estou numa personagem e digo a fala que pertence à outra e outras vezes encarno o realizador e ele cruza os braços e põe aquele pé esquerdo de lado, como se dissesse: O que é que lhe deu a esta, agora? É engraçado porque ele não se aborrece comigo, deixa-me ir por ali fora até eu dar conta e parar. Aí olho para ele, que é quando me diz: Esteja à vontade, o palco é seu. E rimo-nos.

 

Mas nem sempre estes diálogos correm bem. Às vezes cai-me uma lágrima assim sem pedir licença, atrevida a menina! E eu acho que se calhar está na altura, se concordares é claro, de mudarmos esta forma de conversação. Proponho que passemos a falar em silêncio, tu pensas para ti e eu para mim. Dá muito menos trabalho, não temos que andar à procura das palavras que nem sempre estão disponíveis, e não é que agora estou a ficar preguiçosa! Explico melhor: se encontrar uma forma mais fácil de fazer a mesma coisa, é por aí que vou e como nós nos entendemos perfeitamente em silêncio… que te parece?

Tinha a certeza disso.

 

 

Cristina Pizarro

 

21
Out20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

A meio

 

Porque não ficas a noite inteira? Perguntava-lhe ele enquanto ela se vestia, sem olhar para ele. Não respondeu. Saiu sem que se notasse, ao menos a porta não bateu nem se ouviram passos no corredor.

Saiu assim, como se se evaporasse, como se tivesse saído, disfarçada de alma, pelo tecto. Não deixou nenhuma marca de ali ter estado a ponto de ele, ao acordar, se ter questionado se tinha sido verdade ou se tinha sonhado! E de repente a resposta veio-lhe como não necessária. Que diferença fazia?! Não é o passado sempre um sonho, relativamente ao presente?! Foi, já não é.

 

Caminhou pelas ruas da cidade sem destino, hoje menos que ontem, sem esperar nada a não ser o prazer do ir, com origem nos pés até à cabeça. Sentia um qualquer apelo que não sabia muito bem explicar, como se tivesse alguém à sua espera num encontro que não marcou. Chegou a pensar sobre isto, se não estaria a esquecer-se de qualquer coisa que tinha para fazer hoje, obrigatoriamente hoje, ou que ir ter com alguém. Sentia assim uma coisa em suspenso, não bem um vazio, mais uma falta; porque o vazio implica ter lá estado qualquer coisa e a falta não. Certo ou errado era nisto que ele pensava para justificar, ao menos explicar, aquele gosto amargo que se tinha sentado na ponta da sua língua desde que ela o deixou a meio da noite. Verdadeiramente não o deixou, só se tinha ido embora; mas ele trocava as palavras, tinha um dicionário próprio em que mudava os contextos e mantinha as palavras e às vezes mudava as palavras e mantinha os contextos e depois acreditava naquilo com tamanha convicção que chegava a afirmar ter ouvido o que não foi dito, a não ser, talvez, dentro da sua cabeça por ele mesmo.

 

Estava agora no outro lado da cidade, tinha percorrido vários quilómetros a pé e começava a sentir-se fraco. Sem escolher, parou no primeiro restaurante que encontrou. Entrou e na mesa do fundo lá estava ela, em amena cavaqueira com os amigos: a vida, sempre eloquente no seu discurso! O olhar não se cruzou na entrada, o que lhe permitiu, por brevíssimos segundos, recordar, na imagem agora vestida, o seu corpo nu e esguio da noite anterior. A pele macia, o rosto expressivo, o sorriso lindo… quantas vezes nessa meia noite lhe tinha dito: Quando sorris, ris-te com o corpo todo! Os olhos humedeceram-se-lhe quando, já quase a tocar-lhe, ela puxou uma cadeira como a dizer-lhe senta-te, sem sequer ter interrompido o discurso e respondendo à pergunta que ele também não fez e que, a ser, era: Posso?! Estava e não estava ali. Havia uma parte dela e uma parte dele que se não pertenciam, e, no entanto, não estavam em nenhum outro lado.

 

Nunca tirou esta dúvida: se tinha sido um acaso ou se lhe tinha, efectivamente, marcado um encontro. Também nunca lhe perguntou porque tinha, naquele dia, saído a meio da noite. Primeiro porque não tinha a certeza de ter acontecido, depois porque as palavras da frase se lhe tinham começado outra vez a enrolar: naquele dia… a meio da noite... não fazia sentido ou, se fazia algum, não tinha significado. Aquele dicionário próprio estava a precisar de revisão: misturava sinónimos com contrários, ditos com não ditos, pensamentos com verbalizações, metas com destinos.

 

Saíram, mas não dali.

 

Cristina Pizarro

 

14
Out20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

Tu e só tu

 

Deixa. Deixa ir. Larga. Larga tudo. Coisas, pessoas, sentimentos, emoções, mágoas, ressentimentos, ofensas. Não te importes. Vê e sê! Depois começa, repara em algumas coisas, poucas, que estão ali para ti, que só estão ali para ti. Não são vistas por mais ninguém, mais ninguém pode pegar nelas, porque és só tu que as vês. Não fales delas, não partilhes, ninguém as compreende ou valoriza a não seres tu. Chamar-te-iam louco, desequilibrado, mentiroso, até parvo. Traz isso para dentro de ti, reconstrói-te em bocados, aos bocados, sem pressa nenhuma. Faz uma coisa de cada vez, em silêncio. Não anuncies, nem para ti, se falta pouco ou muito ou quanto falta. Não percas tempo nisso, embora para isso o tempo te não falte.

 

Caminha só no caminho que é feito por ti, onde tu colocaste a sinalética do excesso de velocidade, do perigo com o gelo, do derrame de óleo na estrada... Só lá está o que tu lá puseste. Não comentes se foi fácil ou difícil o percurso, se vacilaste a dada altura, se equacionaste desistir, não digas nada. Segue o teu caminho, liberta-te dos muros sem os deitares abaixo. Se lá estão, para alguma coisa devem servir, alguém os construiu, podem ser úteis a outros. Constrói tu também os teus, que hão-de ladear o teu caminho, que te hão-de proteger ao longo do percurso.

 

Depois faz pontes, constrói as tuas pontes, porque pode haver uma altura na vida em que precises de atalhos, em que um rio te surpreenda ao caminho e te pergunte o que andas tu a fazer nele, como se lhe tivesses invadido o espaço, que é só dele. Não respondas, salta para a ponte, a que tem os teus alicerces, não a outra que está ao lado e que foi construída por outro. Sabes lá tu de que essa é feita, se tem estrutura capaz de te aguentar. Bem sei, pesas pouco, mas há pontes de cartão. Podes ter sede, sim, é verdade, mas não bebas senão da água que corre debaixo da tua ponte.

 

Constrói um jardim, não é preciso que tenha muitas e variadas flores. Pouca coisa é suficiente. Que sejam verdes para te alimentarem os pulmões de oxigénio. Não, para respirar não serve qualquer ar, tens que ser tu a produzir a tua atmosfera, para que ela te seja respirável. Para além das plantas verdes, semeia outras que tenham cheiro, coisa simples, alecrim, alfazema, rosas… se achares que te vão fazer falta para ofereceres a alguém ou simplesmente para te perfumarem o dia da semana que elegeres para o teu dia especial, o de descanso disto tudo.

 

Depois encontra um sítio, não procures um sítio, encontra o sítio onde farás uma pequena casa que tenha tecto para te abrigar do frio, das tempestades, das aves de rapina e dos animais selvagens. Entra na casa, deita-te no chão, fecha os olhos, adormece sem razão e vais ver que ao acordar estás só tu dentro de ti! E é tão bom, finalmente a sós contigo, sem ninguém lá dentro, sem ninguém que te julgue, sem ninguém que te impeça.

 

Instantes depois começas a ouvir um respirar e percebes que um grande amigo, que não vias há tempo indeterminado, está ali deitado junto a ti. Com surpresa perguntas: Como é que entraste? “Eu sempre estive aqui, tu é que não me vias!” Tiras então os óculos de ver ao perto: de facto!

 

E é aí que percebes aquele estado de alma do “Quase bem!”, que para evoluir para o patamar seguinte depende mais do largar coisas -que só depende de ti fazê-lo- do que do ter coisas -que pode não depender só de ti.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

07
Out20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

Postal de aniversário

 

 

É a segunda vez que fazes anos e não fazes anos! Nunca coloquei esta possibilidade, de fazer e não fazer ao mesmo tempo. Parecia-me antagónico isso, incompatível, coisas que nunca pudessem ter uma simultaneidade e aí está! Baralho-me nos tempos dos verbos. Podia talvez dizer: o dia em que fazias anos, mas não me parece bem, porque o dia em que nós nascemos tem uma eternidade que lhe é própria, não deixa de existir só porque nós não estamos. Por isso, hoje, fazes anos!

 

Ainda não te contei, mas no dia do funeral aconteceu uma coisa engraçada. Um primo nosso, depois de me dar os sentimentos pela tua perda irreparável, disse: "Eras a mais bonita das três, mas agora estás velha!" e eu sorri. Só mesmo ele! A primeira parte, a do elogio, era a opinião dele, discutível como todas e por isso agradeci; a segunda, era uma verdade insofismável: estamos todos velhos. O tempo faz-nos isto e a dor e o sofrimento fazem com que, para além de velhos, fiquemos envelhecidos. Eu nesse dia estava velha como nunca e por isso o Eduardo tinha razão.

 

Continuo com um enorme desconforto pela tua partida tão precoce! As pessoas más duram mais tempo. A maldade enrijece-lhes os ossos, não têm osteoporose, nem as doenças se metem com elas, têm-lhes medo. Começam a pensar que, mesmo sendo graves, as pessoas más podem ser capazes de lhes sobreviver e lá se ia a reputação de doença incurável. Não arriscam. E eu acho que isso é uma fraqueza delas, uma grande insegurança, porque um cancro que se preze havia de arranjar maneira. Um estragozinho aqui, um estragozinho ali... Não arriscam, por causa, digo eu não sei, daquela peculiar característica mental que normalmente as pessoas más possuem e que lhes confere um poder quase sobrenatural: serem capazes do impensável. Algumas até são capazes de fazer mal a si próprias, só pelo prazer que têm em fazer mal aos outros. Uma vez um psicólogo explicou-me isto assim: fazem sofrer e não sofrem. (Agora aqui também já não sei bem se foi “e” ou “mas” e se calhar faz diferença!). Coisas que tu e eu nunca havemos de entender!

 

Mas hoje é o dia dos teus anos e eu ando aqui às voltas sem saber que presente te hei-de oferecer. Já sei, estou farta de saber, dizes sempre a mesma coisa, que não queres nada, e eu respondo-te também a mesma coisa: Sou eu que quero. 

 

Escolhi escrever-te. O pai acha que tu deves estar aí muito sozinha e eu sem arranjar as palavras certas disse-lhe: Acho que não! Já deve ter encontrado a nossa irmã e estão as duas a matar saudades uma da outra, há décadas que não se viam.

 

Não ficou muito convencido, calou-se. De vez em quando engana-se e chama-me o teu nome. Como eu não digo nada, ele pensa que eu não dei conta e faz-mo notar. “Enganei-me, chamei-te pelo nome da tua mãe.” E eu dou conta duas vezes. Aí já digo que dei conta e ele pede desculpa. Por nada, absolutamente por nada. Eu fico contente por ele fazer isso. Acho que se isso acontece é porque, de alguma forma, ele me acha parecida contigo e isso é bom. Mas por outro lado, começo a pensar que se uma dessas doenças fulminantes me descobre, como aconteceu contigo, vai pensar:"Ui, isto para mim é canja! Numa questão de dias, resolve-se o assunto." E eu achei e acho isto, uma grande injustiça! Apesar da vida sem ti me estar a custar imenso e de ter muitas saudades tuas, não queria nada que isso acontecesse, por causa dos meninos e do pai. Olha, estão os dois ali na sala e mandam-te beijinhos e um grande abraço. Sim, já estão grandes, mas tu perguntavas sempre “e os meninos?” Agora já percebem tudo sozinhos, já não tenho de lhes explicar nada. Agora são eles que me explicam a mim, quando eu não percebo, e às vezes não percebo logo à primeira e eles aborrecem-se e desistem, porque acham que eu não estou atenta. E se calhar a tudo não.  Começo por estar concentrada na explicação que me estão a dar, mas depois pego no início da conversa e começo logo a viajar. E é engraçado que as pessoas mais atentas dão conta! No outro dia fui almoçar com uns amigos e um deles apercebeu-se que após os 5 minutos iniciais eu me tinha ido embora, como que saído dali, e então a meio da conversa disse-me: “Ó Cristina, quando chegar avise-me”.

 

Só te estou a contar estas coisas porque já o fazia antes, ao telefone; agora é por carta, mas não me custa nada, faço-o com muito gosto e tu até dizias que eu escrevia muito bem…

 

Um grande beijo desta tua filha 

 

Cristina

 

30
Set20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

 

O Senhor Joaquim

 

 

O homem tinha-se habituado àquilo e não prescindia disso! Se alguém lhe perguntava porque o fazia, respondia:

- Habituei-me!

As pessoas não percebiam isso, achavam que era uma não resposta. É normal, quem não tem o hábito não o entende. 

 

Havia outros que o achavam doido, porque não encontravam lógica nenhuma para uma pessoa usar uma coisa da qual não precisa. É também normal, porque a lógica é de cada um, não se partilha.

 

E depois havia outros, persistentes, que teimavam em conseguir mudar o homem:

- Ó Senhor Joaquim, pense comigo. Se o Senhor não precisa disso para nada, porque é que anda com elas?

Mas o Senhor Joaquim que pensava bastante, mas só consigo e não com os outros, respondia a pura verdade:

- Habituei-me!

 

E as pessoas continuavam:

- Faça de conta que as perde, como é que depois vai fazer?

O Senhor Joaquim não gostava muito de fazer de conta. Achava pouco real e produtivo imaginar cenários onde, embora não pudesse determinar a probabilidade exacta de acontecerem, via neles poucas possibilidades de ocorrerem e respondia:

- Até lá, ando com elas!

- E depois, se isso acontecer, o que é que faz?

E o Senhor Joaquim, já farto daquela conversa e só em jeito de a terminar, respondeu:

- Arranjo outras!

 

Estas conversas, inquisições repetidas, deixavam-no um bocado desconfortável e começou a sentir-se melhor sozinho e a ficar mais por casa, porque se cansou de responder a questões iguais em dias diferentes.

 

Um dia os miúdos da aldeia, brincadeira de mau gosto, resolveram, num momento de distração, o que só acontecia enquanto dormia, tirar-lhas. O Senhor Joaquim passou dias sem sair da cama e as pessoas começaram a perguntar-lhe:

- Ó Senhor Joaquim, porque é que não se levanta, não há nada que o impeça!

E ele a responder de novo:

- Habituei-me!

 

Um dia os mesmos miúdos da aldeia acabaram por ir visitá-lo, porque sentiam saudades das histórias de vida que ele lhes contava ao fim da tarde, no quintal, e trouxeram-lhe as canadianas. E o Senhor Joaquim levantou-se da cama, apoiou-se nelas e foi para a rua contar histórias. Não fez comentários, perguntou apenas aos miúdos porque tinham sentido falta das histórias que ele lhes contava. Responderam:

- Habituámo-nos!

E o Senhor Joaquim:

- Eu já não vou para novo, se um dia vos falto como é que fazem?

Este cenário, embora o Senhor Joaquim não pudesse determinar com probabilidade exacta quando aconteceria, via nele muitas possibilidades de ocorrer e achava, por isso, muito real e produtivo imaginá-lo com alguma antecedência!

- Até lá, conta-nos histórias.

- E depois, quando isso acontecer, o que é que fazem?

- Arranjamos outro! 

 

Nesse dia o Senhor Joaquim esqueceu-se das canadianas no quintal, voltou para casa pensativo, um pouco triste, mas, encolhendo os ombros, verbalizou, em jeito de conclusão:

- Coisas de miúdos. 

 

Na manhã seguinte, não acordou.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

23
Set20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

Shampoo e amaciador

 

Acordo, com alguma frequência, e não sei explicar porquê, com um texto na cabeça que penso até que é o que me faz acordar, como se o despertador tivesse tocado e toca, mas não aquele que eu programei na noite anterior com esse propósito. Um outro, interior, a substituir-se àquele que seria espectável que cumprisse a função, mas que a delega ou outorga, em alternativa, entenda-se.

 

Durante vários anos instalou-se em mim, gostaria de dizer por opção, mas mentiria e por isso o não digo, a responsabilidade de ser dois. Foi como se cada um dos meus pensamentos, palavras, actos e omissões, tivesse um peso duplo que se pretendia uníssono e não contrário.

 

Para conseguir isto, ao menos bem, eu tinha de, antes de o passar cá para fora, de os pôr a conversar um com o outro e, depois de os escutar atentamente, servir de juiz imparcial ou isento. Eu, no meio deles, a gerir duas metades desiguais! Se se tratasse de heterónimos isto até podia ser, não me atrevo a dizer fácil, mas conciliável, agora quando se trata de papéis representados por pessoas de verdade, exige um esforço que se assemelha a estar em pleno campo de batalha, que é um constante exercício de ser e estar, em simultâneo, nos dois lados das trincheiras. 

 

Imaginemos uma peça de teatro em que o mesmo actor representa duas personagens. Por mais que a caracterização cénica seja genial e se esforce por fazer parecer que elas sejam duas pessoas, e por isso diferentes, os olhos do actor em palco são os mesmos e vêem, inevitavelmente, a mesma coisa. Ou seja, o esforço foi este: colocar-me sempre, durante o decorrer da peça, que foi longa, em duas perspectivas diferentes (e aqui não é pleonasmo) para que o visto não fosse o mesmo.

 

Às vezes o diálogo não era fácil, pô-los de acordo, conseguir que se ouvissem um ao outro sem se interromperem, sem se atropelarem, sem se sobreporem (parecem sinónimos, mas não são!) e gerir silêncios!

 

E no fim daquilo tudo, ponderar e tomar decisões que, às vezes, eram tão válidas essas como o seu contrário e ter a consciência ou a lucidez (aqui já como sinónimos) de que as consequências de umas e outras, sendo necessariamente diferentes, podiam chegar até a ser opostas! E a dúvida de qual escolher! A porcaria da liberdade sempre presente, esse conceito nobre que se nos cola à pele quando às vezes dava jeito que ela fosse mudando, como acontece às cobras, num intuito de renovação porque isto de ser sempre o mesmo também cansa!

 

Valeu-me, no meio disto tudo, uma coisa fantástica que todos temos e a que às vezes não damos a importância merecida: a intuição. Aquela coisa certeira que nos leva a dizer e a fazer coisas sem a gente saber muito bem porquê, mas que nos conduz, decididamente, à melhor forma de as dizer e de as fazer porque dá provas: funciona!

 

Sabe bem, no fim do espectáculo, que neste caso de que falo é a vida, retirarmo-nos para um longo, arrisco dizer merecido porque assim o sinto e deve por isso ser verdadeiro, descanso.

Relativamente às palmas, agradeço até que não as haja, para mais depressa se instalar o silêncio que, depois de um grande esforço de atenção, funciona como uma bênção! 

 

E, só para que não haja equívocos de entendimento, estou grata à vida por me ter oferecido esse desafio sem eu lho ter pedido. Entendo o gesto como um elogio: achou-me merecedora dele!

 

Mas arriscou, se não me conhecia bem, arriscou bastante! 

 

 

Cristina Pizarro 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

15-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Fer.Ribeiro

      Obrigado Ana pelo seu comentário.Concordo consigo ...

    • Anónimo

      Seria curial escrever mais um pouco sobre este ass...

    • Anónimo

      Agora não são só as fotografias que encantam...Tam...

    • fjr - barreiro

      Tomei nota do número um dia destes vou ligar para ...

    • Anónimo

      Se desejar eu dou-lhe o número de telefone.Ligue-m...

    FB