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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

15
Jan20

Crónicas de assim dizer

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Ser e parecer

 

 

Às vezes as coisas não são o que parecem e às vezes quanto mais parecem, mais não são.

 

É factor determinante o quê? A crença. A partir do momento em que acreditamos, está tudo estragado! Nunca mais encontramos argumentos que contrariem o que queremos ver. A nossa mente seleciona, a partir daí e de forma autónoma - como se alguma vez lhe tivéssemos dado essa liberdade! - os pensamentos e raciocínios que traz até nós, ou seja, reprime o inconsciente e apresenta-nos o consciente como sendo a verdade! Nesta fase estamos perdidos! Ou somos muito lúcidos, inteligentes e temos espírito aberto ou passamos a viver reféns, enclausurados numa prisão cujas paredes foram construídas de forma aleatória e, pior do que isso, gratuitamente. Não houve critério algum na sua edificação; nem na construção do edifício, nem na colocação das janelas, nem no local onde foi aberta a porta. No telhado foi inventada uma claraboia com vitrais para distorcer a realidade. Perguntamos qual o propósito, mas a resposta é ridícula: “dessa forma há vezes em que a luz da lua cheia é verde, outras vezes amarela, outras vezes laranja...” Mas quem foi que pediu isso? Nós queremo-la branca, tal qual ela é! Essa mistura de cores na zona do visível que podemos, se quisermos, decompor à luz do nosso prisma, compete-nos a nós decidir! Então não somos donos e senhores? Queremos ser, mas falta-nos o poder. Temos o querer, mas temos a mão de deus sempre em cima de nós! "Mas isso é bom", dizem alguns! Não era desse que falava, valha-me Deus, era deste caramba!

 

Voltemos ao princípio que daqui já não saímos. Então e se o nosso querer for muito grande? Pois é esse o caminho, antes das bifurcações! Só que depois aparecem vários e, mais do que eles, as vozinhas cá dentro: vai por ali, vai por acolá... Quando José Régio nos apresentou o poema, nós até concordámos com ele, quando são os de fora a pedir ou a dar a ordem, até nos conseguimos impor!

 

Quem de nós não tem clarividência para dizer: "Não vou por aí!"? Mas quando as vozes vêm de dentro, a quem desobedecemos? É que essa escolha e decisão têm consequências em nós e a seguir vem o outro papão que anda sempre ao lado deste: a responsabilidade da decisão tomada e a de saber gerir aonde ela nos levou.

 

É verdade, não somos obrigados a pensar nisto! São 5 da manhã, vamos dormir mais um bocadinho. Com sorte, de manhã, ao acordar, não nos lembramos do sonho!

 

O inconsciente não dorme e trabalha a noite inteira para nos infernizar o dia. Multinacionais gigantescas registaram patentes, por décadas, com princípios activos para pôr o consciente a dormir, quando o que precisávamos era de qualquer coisita para pôr a dormir o inconsciente. De preferência um produto natural, mas eu que não sou fundamentalista e porque a gravidade do caso o justifica, não me importava nada de tomar uma porcaria sintética para pôr o tipo a dormir. Compensava depois. Nesse dia, pronto, não comia peixe com mercúrio; no dia seguinte não comia carne com hormonas e no dia depois evitava a fruta com pesticidas!

 

Não sei se está clara a ideia, mas despendemos uma quantidade enorme de energia a elaborar estratégias que mais não fazem do que distrair-nos do fundamental. Ocupam-nos o tempo, mantêm-nos entretidos, não sei se era a isto que Saramago se referia quando falava da "cegueira branca" ou se era também a isto que se referia o outro que falava do "ópio do povo"! Se calhar sou só eu a forjar argumentos ou pressupostos! A parte boa é que é consciente. 

 

Ainda não vos disse, mas hoje quando acordei ás 5 da manhã, virei-me para o inconsciente e dei-lhe um ultimato: ouve lá meu grandessíssimo estafermo, só tens duas hipóteses: ou vais dormir para o quarto ao lado ou, se quiseres ficar aqui podes, mas ficas caladinho! E não é que o gajo obedeceu?! Uma pessoa tem é de se impor e de se fazer respeitar e entender isto como uma obrigação, sem nunca a pôr a discussão! 

 

Tendo determinação, até uma criança mimada, como é este o caso, entra na linha e se consegue educar! E, lá no fundo, o inconsciente não deixa de ser um filho que criámos e a quem deixámos, tempo demais, fazer o que lhe dava na real gana, convencidos, nós, que um dia haveria de crescer e atingir a maturidade! Nah, nunca lá chegará sozinho, de forma que, quando descobri isto comecei a acordá-lo todas as noites a horas várias e dar-lhe umas aulitas de "saber estar".

 

Funciona.

 

 

Cristina Pizarro

 

08
Jan20

Crónicas de assim dizer

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Do outro lado da rua

 

Uma das maiores capacidades que temos é vermo-nos como se fôssemos um outro, observarmo-nos de fora, vermo-nos, por exemplo, a atravessar a rua e do lado de cá, olhos nos olhos, descrever o perfil psicológico do outro que de nós se separou e que agora está, atravessada a passadeira, do outro lado da rua!

 

Seriamos capazes de lhe ver as qualidades e os defeitos, manter umas e corrigir ou melhorar as outras!? Estabelecer diálogos, usar argumentos que servem nos dois sentidos: na concordância e na oposição; e assistir, sem interferir, ao desfecho da conversa!? Ver como reagiríamos no caso de ela ser controversa ou, em oposição, assistir simplesmente ao debate de ideias, mais do que ao embate? De que lado ficaríamos? Com qual nos identificaríamos mais? Seriamos mesmo capazes de comunicar, fazer amizade?

 

É possível isto? Sairmos do corpo mantendo a alma incólume e subdividindo-a, sem a fraccionar? Levar de tudo a parte que seria precisa para reconstruir uma nova personalidade… Seriam gémeas? Falsas ou verdadeiras? Verdadeiros irmãos, digo geneticamente, filhos do mesmo pai e da mesma mãe?! Ou talvez nos surpreendessem as personagens que então se formariam e, a partir daí, se desenvolveriam! Seriam compatíveis!? Viveriam numa luta constante ou, ao contrário, partilhariam a parte que lhes fosse comum, respeitando as diferenças entre si!?

 

Assim me vi, de fora, do outro lado da rua e persegui a imagem tentando espiar ou perceber o que faria ela sem parte de mim! Deambularia, por certo, pela cidade à procura de um canto, de um recanto, onde se ou me encontrasse! Onde esconderia os medos incapacitantes, os desejos não fazíveis, os sonhos não realizáveis, as vontades não expressas, os sentimentos não assumidos, as emoções irreprimíveis e os pensamentos livres, sem dono nem mentor!? O que seria eu longe de mim? Sentiria alguma ausência, algum espaço por preencher, algum vazio no espírito que, agora, parecia livre e se arriscava em voos intangíveis, inacessíveis, como se de repente tivessem, no corpo ausente, surgido umas asas que permitiam à alma planar sem esforço, sobrevoando a terra, o mar e as sombras no imensurável céu, por cima das nuvens, onde sobeja o sol?! E o outro como se sentiria, o que não atravessou a rua e ficou do lado de cá da passadeira? Ou de lá, que eu não quero tomar partido nisto!

 

Se se perdessem nas ruas da cidade, deixando um de perseguir a curta distância o outro, conseguiriam encontrar-se, reconhecer-se, identificar-se!? Teriam, nesse momento, presente que se tratava de um reencontro ou teriam necessidade de se apresentarem como se de dois estranhos se tratasse!? Qual ou quem o faria?

 

Teria o acaso o poder de isso determinar, sem estar antes escrito? Pois como o poderia estar se a decisão, a ser tomada, teria partido de uma parte deles que o outro desconhecia? Desconhecia a decisão, mas conhecia a parte que, em parte, isso decidiu. É possível, pelas circunstâncias, reconhecer-se o interior das coisas, fora delas?

 

Parece arriscado o exercício! E arriscado dizê-lo sem se conhecer do que dele resultaria. Mas temos o quê a perder, objectivamente qual é o risco que corremos? Pois não sabemos e quando não sabemos, o ser irrequieto que há em nós experimenta, quase sempre, porque tem a expectativa de vir daí alguma coisa mais.

 

Assim fiz, deixei que o outro atravessasse a rua e, de propósito, enquanto ele escolhia a direcção que iria tomar, virei-me de costas. Quando retomei a direcção do anterior olhar, ele já lá não estava!

 

Percorro hoje as ruas da cidade sem propósito consciente, consciente de não precisar que haja um, embora tenha a lucidez de perguntar constantemente: o que procuro eu? E não sei, como tudo o que há em mim para ser: não faço nenhuma ideia do que seja!

 

É importante isto? Talvez não seja, mas cresce em mim a convicção de que nunca o encontrarei, embora tenha ao mesmo tempo a certeza de que se, por um acaso ou sem ele, nos cruzarmos um dia, ah sim, eu vou reconhecê-lo no primeiro olhar. Sei também que vou sorrir, mas já não tenho a certeza se o vou abraçar!

 

Pensando bem, o que é sempre difícil de fazer, talvez seja melhor ideia não o perder de vista. É ao menos mais seguro e o não saber é sempre um desconforto para a alma e para o corpo.

 

Estava exactamente a tirar esta conclusão quando, por escassos segundos, o olhar se desviou irrefletidamente no empenho do pensamento e quando retomou o lado de lá da passadeira, ele, já lá não estava. Aconteceu o que já tinha acontecido, primeiro sem pensar, depois com a consciência disso!

 

Confesso aqui, porque não me permito mentir-me, que a distracção não foi de propósito, embora eu faça muitas vezes isso. Desta vez não. Foi sem querer que perdi o outro de vista, das duas vezes! E vem talvez daí este sentimento ou sensação de que anda sempre alguém atrás de mim ou comigo e vem daqui o inconformismo, este não aceitar, esta quase culpa de ter perdido uma parte de mim por não me levar, o quanto devia, a sério.

 

Mas lido bem com isso, nesta fase há poucas coisas com que não lido bem. Fica, no entanto, o alerta de que pode ser perigoso experimentar isto em casa!

 

Cristina Pizarro

 

01
Jan20

Crónicas de assim dizer

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Meu querido Pai Natal

 

 

É a segunda vez que te escrevo no intervalo de pouco mais de uma semana, mas não me trouxeste o que eu te pedi e eu estranhei! Pensei que, por algum motivo, te tinhas atrasado e resolvi esperar mais alguns dias até me convencer que o meu desejo não tinha mesmo sido cumprido.

 

Na primeira noite foi fácil! A expectativa com que avidamente aguardamos por que as coisas nos aconteçam acaba por fazer passar o tempo mais depressa.

 

No dia seguinte mantive a esperança como uma criança que, quando deseja muito uma coisa, sabe que ela necessariamente acontecerá. Mas ao segundo dia comecei a achar estranho.

 

Desculpa meu querido Pai Natal, mas chamei-te alguns nomes feios. Não digo quais, não que não queira assumir o que disse, mas porque me envergonho de os repetir.

 

Comecei a ficar tão triste, mas tão triste, que me começou a doer o ar dentro do peito, ao respirar. Não te sei explicar muito bem, mas sabes de certeza do que estou a falar: quando uma criança vê alguém adulto a aproximar-se com uma prenda e depois não é para nós, sabes? É para alguém que está atrás de nós! Uma ilusão desfeita que é sempre maior quando passa a ser uma desilusão. Raio de desproporcionalidade! E doeu-me tanto ver as outras crianças a abrir as prendas e eu que só tinha pedido uma, sem nenhuma! Não é que seja invejosa, mas era Natal caramba e eu escrevi-te com tanta antecedência... Como é que foste capaz? Eu que até sou de exageros e só te pedi uma prenda!

 

Já tinham passado alguns dias e eu continuava sem perceber como podias ser tão mau Pai Natal, que me deixaste sem o meu presente e a pensar que, se ainda fosses o Menino Jesus da minha infância não tinha acontecido nada disto, porque ele era responsável e dava sempre conta dos recados todos! E eu acreditei sempre nele, ano após ano, embora nunca conseguisse apanhá-lo naquelas incursões que fazíamos os cinco, à vez, na noite do dia 24 para 25, ao fogão da cozinha onde estavam os sapatinhos.

 

Foi então que percebi -esta coisa do raciocínio lógico, já me avisaram, ainda me vai matar- que não era de ti uma coisa destas e que eu tinha entregado a carta a um amigo, mas não lhe disse que era para ele pôr no correio, porque era tão óbvio... Já percebeste, não foi? O meu amigo esqueceu-se dela no carro porque nem sequer estava atento quando eu disse: vou-te deixar aqui a carta que escrevi ao Pai Natal! O Porto tinha jogado nesse dia e estava a dar o resumo do jogo, sabes como é, o futebol sobrepõe-se a tudo porque dá a uma hora certa que se não pode adiar!

 

É por isso que hoje estou aqui para te pedir desculpa, por ter pensado mal de ti. Como é que eu fui capaz? Mas acho que percebes. Quando se gosta de alguém é normal confiar sem grandes explicações! E agora estou assim desencantada, com um sabor amargo como se tivesse confiado uma coisa importante a alguém e essa pessoa não tivesse dado importância nenhuma! Mas ao mesmo tempo nada está perdido. Se me prometeres hoje que trazes para o ano, eu vou ser feliz todos os dias porque por cada um que passar é menos um que falta para eu ter o que te pedi.

 

Vale, sinceramente, a pena!

 

Já pus a carta no correio, tinha ficado com um rascunho porque quando a escrevi, a primeira, passei a limpo para fazer a letra mais bonita! Desta vez já não fiz isso, mas tu percebes!

 

Cristina Pizarro

 

25
Dez19

Crónicas de assim dizer

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Gravidade

 

Há quem diga "força gravítica"; cientistas, físicos, mas não é disso que falo! É mesmo gravidade. Não tem nada a ver com aquela coisa dos astronautas dentro das naves espaciais!  Tem a ver com seres terrenos, não verdadeiramente seres humanos. Uma qualquer falta de oxigenação cerebral. A irrigação sanguínea que não chega a certas partes. Uma espécie de estase venosa ou arterial, pequenos trombos na circulação.

 

Insistimos no debate, na argumentação, na perspectiva, mas… falta o bom senso.

 

Sem tapete e com os pés a um palmo do chão, continuamos a acreditar no equilíbrio e persistimos no erro.

 

Um dia cai-nos a ficha, abrimos os olhos, cruzamos os braços e encolhemos os ombros. Estranho é o que então acontece: nada! A terra continua a girar, o dia sucede-se à noite e no dia seguinte, a mesma coisa, o Sol volta a nascer.

 

Refletimos sobre o tempo dos verbos: passado, presente e futuro. Mas há os irregulares que se conjugam sempre de forma diferente. Metemo-nos num caminho sem saída: como se faz plurais? Se a palavra for simples, é simples. Mas há muitas com hífen: dois substantivos, substantivo e adjectivo, substantivo e verbo, verbo e adjectivo...

 

Gravidade é então o quê? Do nosso ponto de vista, na nossa opinião, a nossa intuição diz-nos que, o nosso sentido crítico dita-nos que, sentimos que, pensamos que, achamos que...

 

Encontramo-nos tardiamente num labirinto com entradas e saídas várias; nenhuma a certa, ninguém acerta. 

 

No início não pusemos esta hipótese, a de nos perdermos! Tínhamos o fio de Ariadne no bolso, mas nunca o tirámos de lá, não achámos que fosse preciso e era, afinal, vital.

 

Entretanto os arbustos transformaram-se em árvores de troncos esguios e esbeltos -havia um jardineiro que tratava e podava o labirinto de arbustos como se fosse o jardim de sua casa- e, sem percebermos bem como, sentados no chão, víamos, através ou por entre os troncos, a imensidão das entradas e saídas. Tínhamos acabado de adquirir visão periférica, 180 graus, para mais e não para menos, e ficámos novamente sem chão ao descobrir que o Arquitecto paisagista tinha feito aquilo com esquadria, geometricamente traçado, apenas rectas, paralelas e perpendiculares, ou seja, depois de entrar naquele imbróglio, para sair dele bastava ir em frente. Foi por isso que quando lhe pediram para reformular o projecto ele recusou, dizendo: "Reformular para quê? Da forma como este está desenhado, é impossível as pessoas perderem-se!"

 

Mas o tempo passou e os troncos esguios e esbeltos das árvores de então, transformaram-se em troncos grossos e enrugados. Ao contrário do previsto, a visão periférica passou -há quem não entenda muito bem este fenómeno natural e até o negue- de 180 para 360 graus! Embora às vezes não saibamos muito bem onde temos a cabeça apoiada, vemos tudo.

 

O Arquitecto já não está em condições de reformular projectos. Morreu a semana passada convencido que tinha deixado um legado extraordinário!

 

Pontos de vista, é claro!

 

Cristina Pizarro

 

18
Dez19

Crónicas de assim dizer

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Querido Pai Natal

 

 

Estamos naquela época do ano, festiva ao que parece, em que as crianças te escrevem uma carta, como antigamente se fazia na altura em que não havia esta tecnologia actual, em que para se comunicar se dispensa tudo, até uma ida aos correios. Mas a evolução e o progresso não andam obrigatoriamente a par, já se percebeu, e a lógica e o bom senso também não e por isso estou tranquilamente aqui para fazer aquilo a que se chama: escrever uma carta ao Pai Natal.

 

Para te dizer a verdade acho que nunca fiz uma coisa destas, nem mesmo em criança! Nunca me ensinaram a fazer isso, nem na escola nem em casa. Na escola porque naquela altura não se usava e em casa, acredito hoje, por se notar que nunca tive competência para acreditar em patranhas, embora seja ingénua como tudo e acredite piamente em coisas inverosímeis e seja capaz de dar a vida por verdades em que ninguém acredita ou por ser estúpida que nem uma porta ou por ter uma íntima e feroz convicção. Sou mais deste último tipo, mas tenho das outras à mistura. Outra coisa completamente diferente era o menino Jesus, mas não é disso que vamos falar agora.

 

Não sei se percebeste, mas isto era uma introdução.

 

Penso, já li algumas, que nessas cartas que as crianças te escrevem, te pedem coisas que estão completamente fora das tuas possibilidades e das tuas competências, fazer. Embora sejas um ser sobrenatural, foste inventado por seres humanos, cheios de angústias, ansiedades, limitações, frustrações e por isso és, feitas bem as contas, um de nós. Assim que não te vou pedir nada de que tu não sejas capaz e se, de alguma forma achares que é um bocadinho complicado satisfazeres este meu desejo, podes sempre apelar para um dos teus inúmeros conectes a quem, imagino eu, que não deves favor nenhum, mas que o contrário já não é verdadeiro.

 

Não sei se percebeste, mas isto continua a ser uma introdução.

 

Não é que eu esteja a ganhar tempo, nunca fui de fazer isso, nem sequer a preparar-te ou a amolecer-te para tu me dizeres que sim. Meu caro amigo ou tu és Pai Natal ou não e se fores, a mim que nunca te pediu rigorosamente nada, vais ter que dizer que sim, até porque o meu pedido é muito modesto para um ser tão poderoso, capaz de vencer o tempo pois que numa só noite viaja pelo mundo inteiro.

 

E então é muito simples: quero que me tragas a minha mãe de volta, pelo tempo que entenderes. Pode ser um ano, um mês, uma semana, um dia, uma hora… menos do que isso podes ficar quieto, porque isto não é nenhuma brincadeira e sabes perfeitamente que o que ficou por dizer e por fazer também, por mais rápida e sucinta que eu seja e tu sabes perfeitamente que não sou, não era nesse tempo que o conseguiria fazer.

 

Acredita que tenho perfeita consciência do que te estou a pedir e só o faço porque acredito piamente que em toda a lista que tens de desejos, este é daqueles que para mo satisfazeres, basta tu quereres, não precisas absolutamente de mais nada.

 

Ainda tinha mais algumas coisas para te pedir, poucas, mas podem ficar para o ano. Não é nada de muito urgente, nada que não possa esperar, e um ano, nesta idade, passa depressa. Também quero manter em aberto a hipótese de para o ano te pedir a mesma coisa e só te digo isto agora para estares preparado e, caso seja preciso, tomares desde já algumas medidas que te possam ser úteis e facilitar o teu trabalho no próximo ano.

 

Dito isto, não precisas de fazer absolutamente mais nada, não te tomo mais tempo, não te ponho condições, não te peço que me informes da hora prevista de chegada nem que me avises se te atrasares. Estarei toda a noite à tua espera, e se, entretanto, me deitar, enfim por cansaço, deixarei a porta aberta, aquela história da chaminé parece-me de tão mau gosto! Não te preocupes, quando chegares acordarei ao primeiro passo teu no corredor e, se quiseres ver o rosto da felicidade, podes entrar no quarto que eu não me importo.

 

Cristina Pizarro

 

04
Dez19

Crónicas de assim dizer

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Eu e o ego

 

Eu estava numa fase mais ou menos estável da minha vida e vem-me o ego com os seus problemas existenciais e eu sem paciência nenhuma para histórias de crianças, mas ao mesmo tempo com a consciência de que aquilo era uma coisa séria para ele e lá fui ouvindo aqui e ali para depois, enfim, lhe poder dar a minha simples e sincera opinião.

 

Que o tinham empurrado por um desfiladeiro por onde ele tinha descido aos trambolhões, sem corda à cintura ou tapete por baixo, como têm os acrobatas no circo e que se tinha estatelado no chão, sem dó nem piedade e eu com uma estranha vontade de rir e dizer: Oh homem, levante-se mas é do chão, “sacuda a poeira e dê a volta por cima", aludindo à música da Betânia, mas não disse nada disso, não fosse ele pensar que eu não estava a levar a sério aquela queda abrupta, aquele suicídio lento, aquela vitimização, aquela autoflagelação e decidi decompor o problema em partes para ele ficar com a sensação de que eu o estava a levar a sério!

 

Vem-me então com a ladainha do costume: que se tinha exposto perante os outros, quem?, se os outros não existem!; que se tinha despido de preconceitos, quais?, se ainda ficou com alguns fez mal!; que tinha confiado a sua alma a Deus e que lha tinham vendido ao diabo!, e eu que não era especialista na área a achar aquela conversa, passo a expressão, de conversa de ir ao cu, como muito bem diz um amigo meu, mas a esforçar-me por estar atento e não me distrair com raciocínios lógicos e matemáticos que era sempre a minha tendência!

 

E ele continuava com interjeições, baseadas em estados de espírito, que aprofundava com exemplos que eu achava tão ridículos ou mais do que aquilo que queriam provar e perguntava-me, o ego, o que faria eu no seu lugar, se me dissessem o que a ele lhe disseram, em contextos por que eu nunca passaria porque egos não são comigo nem eu permitiria que alguém me dominasse a esse nível!

 

E eu a tentar pôr-me no lugar dele e a dificuldade a ser cada vez maior e a achar que aquilo tudo tinha por base uma enorme falta de sexo e que ele nunca compreenderia isso porque nem sequer sabia do que eu estava a falar, tal como eu não sabia o que ele me estava a tentar dizer, mas que uma coisa era certa: é que não tinha importância nenhuma. Coisa que nunca lhe podia dizer para não lhe ferir o ego, pois que era exatamente isso que ele já tinha a sangrar, só porque tinha dito a não sei quem que estava apaixonado e o outro ego lhe tinha dito que não sentia o mesmo!

 

Ora estas coisas que se resolvem de duas formas muito simples, com um “vai à merda” ou “vai-te foder”; constituíam na cabeça deste meu ego um problema do fim do mundo, só porque não conseguia articular estes dois fantásticos palavrões para os quais não há sinónimo! Está completamente fora de hipótese a terceira, de que já todos se lembraram, que é um simples “vai pró caralho!” Qualquer psicólogo a iniciar funções sabe que estes problemas do ego é assim que se resolvem! Sai-se de casa bem vestidinho, não vá a gente encontrar o Papa, depois de se ter convidado a pessoa para um jantarinho à luz das velas, com música de fundo e antes que chegue a comidinha sai-nos a frase! Regra número dois: é levantarmo-nos da mesa, depois de dizer isto, e abandonar o local sem olhar para trás. Simples que é! Mas como é que eu ia dizer isto ao ego? Não podia e não devia!

 

Ouvi-o até ao fim, deixei que se lamentasse, fazia parte da terapia, deixei que chorasse no meu ombro, limpei-lhe as lágrimas, passei-lhe a mão no pêlo, pelo ombro, pelo dorso, olhei-o nos olhos, sorri-lhe e foi então que ele exigiu mais de mim e me disse: “Então, não dizes nada?”

Pensei, pensei, pensei e as únicas palavras que me vieram à cabeça foi as que me saíram:

- Sexo oral, já ouviste falar?

E, surpresa das surpresas, o ego mandou-me primeiro à merda, depois foder e no fim pró caralho! Aqui sem aspas porque não foi pensado, o gajo disse-o mesmo! Faltou o “puta que te pariu!” Disse-o eu, porque achei que vinha a propósito, então não?!

 

Os egos são lixados, quando a gente finalmente os leva a sério porque, enfim, todos merecem uma oportunidade, os gajos ainda se riem na nossa cara! É por isso que eu, egos, não os levo muito a sério!

 

Cristina Pizarro

 

27
Nov19

Crónicas de assim dizer

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Na selva

 

 

Foi como se nos abandonassem no meio da Amazónia e nós sem nunca ter lá estado, a ter que saber o que fazer, como se já lá tivéssemos estado! O problema da ficção é que não tem limite! Pode ser um não problema, dependendo do estado de alma! Hoje não!

 

Fomos deixados ali no meio de animais selvagens, no seu espaço, numa sociedade que é deles, onde nós é que somos de fora. Não sabemos de donde viemos, não sabemos para onde vamos e não sabemos o que estamos ali a fazer! Por onde começar? No princípio, é o básico, começamos por nos defender. Reagimos quando sentimos ou pressentimos que vamos ser atacados, mas na maioria das vezes enganamo-nos. Nem sempre os predadores dão pela nossa presença. Se não estiverem famintos, tanto se lhes dá que estejamos ali como noutro sítio qualquer! Há que aceitar que, em grande parte das vezes, colocam-se à nossa volta por mera curiosidade, para nos observarem melhor; a sua aproximação pode não ter nada a ver com intimidação: “há ali um bicho estranho!” Mas temos dúvidas e quando temos dúvidas reagimos sem equilíbrio, sem bom senso e, muitas vezes, desadequadamente. Desencadeia-se então um processo que não vamos saber parar! Os outros animais reagem ao que é projectado com agressividade, haja ou não lógica nisso para nós!

 

É sabido que eles não estão ali para analisar comportamentos, estão ali para preservar o espaço que é deles. E o espaço é deles, disto não há nenhuma dúvida. Estão instalados naquela selva há vários séculos, dominam tudo nela, até os invasores, até os que ali caíram sem qualquer razão para isso. E a pergunta na cabeça deles é: “o que é que este gajo veio aqui fazer?” E nós que até sabemos responder à pergunta, mas sem forma de comunicar porque a nossa linguagem é diferente da deles e não há um código de tradução; começamos a emitir sons e a esboçar gestos ininterpretáveis e vem o sentimento de impotência, de injustiça, de frustração... Nós não somos dali, mas estamos ali!

 

Tentamos então oferecer-lhes alguma coisa, como se fôssemos à casa de um vizinho dar-lhe as boas vindas, mas fomos nós que chegámos e não ao contrário! A nossa mensagem não passa neste sentido, porque o que estamos a oferecer não faz sentido para quem lá está! São outros os usos e os costumes da terra! E nós não sabemos quais são e não está lá ninguém para nos ensinar! Já nos tinham dito em pequenos, que íamos ter de nos virar, se preciso fosse, do avesso, mas como e quando!? Não sabemos, não fazemos a mais pequena ideia, mas é ali que agora temos de viver.

 

Falhada esta primeira tentativa de não conseguirmos comunicar, tentamos outra: entrar na nossa concha e ficar quietinhos, sem dar nas vistas, sem chamar a atenção, estar ali como se não estivéssemos. Mas rapidamente nos cansamos daquela inércia e saímos para fora da concha, às vezes no pior momento, quando uma tempestade acabava de se instalar. Agora temos mais um problema: lidar com a adversidade climática numa terra que não conhecemos e que não é nossa. De repente lembramo-nos de Albert Camus, do porque o estrangeiro tomou café no funeral da mãe e do porque a arma disparou por incidência do Sol! Só fazemos mentalmente as perguntas, mas não respondemos. Percebemos que há ali uma similitude, mas não vamos mais longe! Não sabemos como nos comportar! Faltam-nos competências, damos conta disso e começamos a olhar para o lado para fazer igual, para imitar. Mas percebemos logo que não podemos. Não temos as cores do papagaio, as garras afiadas e retrácteis da onça-pintada, os dentes como navalhas das piranhas, o tamanho da anaconda… quem é que se ia acreditar?!

 

Recuamos. Voltamos a tentamos adquirir uma postura invisível, escolher a sombra em vez do sol... e novamente não aguentamos. Falta-nos o ar, com aquele pulmão todo a respirar para nós, falta-nos o ar! Estamos na Amazónia e sentimo-nos no deserto! Afinal a tempestade de há bocado era de areia. As tendas, com a força do vento e a chuva torrencial, foram pelo ar, as roupas molhadas coladas ao corpo ficaram com tanto peso que nos imobilizaram, até do camelo nos perdemos!

 

E no meio daquele vendaval até nos tínhamos esquecido da voz feminina que nos acompanhou durante toda a viagem, vinda de um qualquer sítio que, por falta de visibilidade, nos não era possível localizar: “a 300 metros virar à esquerda, na rotunda seguir pela segunda saída…” só nos lembrámos dela quando, depois de um interminável silêncio, regressou, e com a mística frase: “Alvo de GPS perdido!”

 

Sem dar por ela, tínhamos chegado ao Céu! Cinco estrelas!

 

(To be continued)

 

Cristina Pizarro

 

20
Nov19

Crónicas de assim dizer

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O Patinho feio, uma outra versão da história

 

Durante muito tempo entendi esta história segundo uma interpretação que me foi transmitida na altura em que ma contaram e era mesmo das histórias infantis a de que eu mais gostava e a que me parecia que tinha mais “moral”. Cheguei, irrefletidamente, a lê-la aos meus filhos!

 

Depois cresci e compreendi, não sei se o verdadeiro sentido da história, mas pelo menos uma outra interpretação, completamente diferente, que de alguma forma me assustou.

 

A vítima, passou a ser o agressor. Isto é, o “enjeitado”, criado numa família de patos com valores morais íntegros, com princípios éticos carregados de valor, sentido de família, solidariedade entre os pares, altruísmo social, igualdade de direitos entre os membros, independentemente de serem iguais ou diferentes, todos tratados da mesma forma, passou a ser, para um dos membros, sinónimo de segregação e marginalização. O próprio assumiu-se como diferente, sem nenhuma razão aparente!

 

Quando a mãe pata viu os filhos a nascer dos ovos, apercebeu-se logo, no primeiro instante, que aquele, o que viria mais tarde a afirmar-se como cisne, era diferente dos outros.

 

Como qualquer mãe, que gosta dos filhos por igual, independentemente das características físicas de cada um deles e até das particularidades de personalidade opostas que venham mais tarde a desenvolver, chocou-os da mesma maneira, com o mesmo amor, o mesmo carinho indiferenciado e a mesma atenção. Claro que o cisne, precocemente, se começou a achar mais que os outros, superior aos irmãos seus iguais e acima daquela família que começou, com enorme ingratidão, a achar que não era a sua!

 

Independentemente de se achar diferente, fosse só fisicamente, no princípio, dos outros da sua família, a sua obrigação era considerar-se como pertencente àqueles que o acolheram, que o trataram como verdadeiro irmão e que partilharam com ele o mesmo espaço e as mesmas circunstâncias, fossem elas boas ou más, é assim em todas as famílias! Mais tarde teria tempo de descobrir se a família era biológica ou de adopção! Isto era o que um pato normal faria!

 

Nunca, em toda a história, se ouviu à mãe pata um comentário mais diferente ou segregador, viviam em paz e harmonia até ao dia em que o patinho feio se aproximou de um lago para beber e armado em Narciso, ao ver a sua imagem reflectida na água, se achou superior aos seus irmãos: ”Afinal, eu sou um cisne!”.

 

No mesmo dia, sem aviso prévio, como seria normal se tivesse absorvido o que lhe tinha sido ensinado pelos progenitores, e agisse de acordo com os bons costumes que lhe tinham transmitido, partiu, ao avistar um bando de seres fisicamente iguais pensando que estava aí a sua oportunidade de regressar à origem, como se tivesse sido, fosse porque razão fosse, um elemento separado do grupo á nascença! Precipitou-se e juntou-se às aves que o sobrevoavam, iguaizinhas em estilo. Para além de feio era parvo! Não era de nada disso que se tratava, ele era apenas um pato, elemento da verdadeira família de origem, que era, apenas e só, algo diferente dos outros! Acontece tantas vezes, em tanto sítio!

 

A parecença física iludiu-o. Fez com que ele achasse que pertencia a um grupo com o qual não tinha nada em comum e deixou-se ir! Sabe Deus os problemas que lhe surgiram depois: a falsa identidade, a dupla personalidade, a falta de raízes, … passou definitivamente e por livre vontade a ser um enjeitado. Como é que a família de cisnes o haveria de receber na sua comunidade, agora já adulto, com uma formação de base completamente distinta, com maneiras de agir e pensar que nada tinham que ver com aqueles que já tinham nascido cisnes?!

 

Enganou-se, achou-se superior aos membros da família a que realmente pertencia, que o amavam e protegiam, embora na verdade fosse estranho como tudo, mas as relações familiares e a amizade que, entretanto, cresceu fazia deles irmãos verdadeiros. Se tinha ou não vindo de uma ninhada diferente ou sido chocado por outro pai, era um pormenor sem importância nenhuma. As mulheres têm esta flexibilidade com as crias! E enquanto os membros da família se esforçavam por lhe mostrar as semelhanças entre eles, o patinho feio não deixava de referir as diferenças e sublinhava como era superior a eles nisto e naquilo, tentando compensar a frustração de se achar diferente deles, sem perceber a razão. Podia até nem haver nenhuma, esta hipótese não a pôs.

 

É claro, como era demais previsível, que o patinho feio nunca se conseguiu integrar na família de cisnes!

 

Toda a gente sabe que a infância é fundamental! Os laços que estabelecemos com os membros do grupo em que fomos criados ficam-nos na memória e duram para sempre. Se nessa infância o patinho feio não conseguiu resolver a sua frustração de se achar inferior, apenas sinónimo de diferente, dos outros, isso nunca poderia ser resolvido mais tarde ao inserir-se num novo grupo, onde as diferenças já vêm de trás e são obviamente maiores. Passou, por isso, toda a sua vida, a continuar a sentir-se frustrado e exibia o seu complexo de inferioridade da seguinte forma: ”Eu sou um cisne!”

 

Na realidade, a sua vida resumiu-se a conviver, em permanência, com uma ausência de identidade: não era pato nem era cisne, independentemente de ser ou não feio. Característica esta que passaria a ser secundária perante a ausência de valores, de referências, de uma origem, de um porto de abrigo, um berço… Na realidade ele tinha-o, mas não o reconhecia como tal e por isso era como se não existisse.

 

Perguntarão alguns, mais exigentes, de quem foi a culpa! Analisadas todas as hipóteses, apontam todas para ele: quem estava no lago quando ele se baptizou de cisne, quando na realidade era pato? Com quem se comparou para se achar feio? Era porque os outros lho chamavam? Então, para além de um problema de identidade, ele tinha outro talvez mais grave: não se via nem assumia como era e isso trazia-lhe um sentimento de insegurança insuportável que ele disfarçava fazendo-se passar por outro, para que as críticas não o atingissem! A ser assim, a coisa fica ainda pior, ele era um dissimulado, queria vingar nos outros as inseguranças que eram só dele! É normal, acontece a muita gente, mas o problema da culpa ficou resolvido!

 

Moral da história: é preciso ter muito cuidado quando nos observamos ao espelho! A imagem que nele vemos reflectida pode não ter nada a ver com aquilo que somos!

 

Cristina Pizarro

 

13
Nov19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

A conquista

 

Podia-se dizer que tomei a cidade de assalto, mas mentia-se. Verdade verdadinha, conquistei-a. E foi fácil, nada de nos armarmos em heróis, não nos fica bem nesta idade. Foi genuinamente fácil. Bastou ser, genuinamente ser.

 

Claro que os habitantes tinham, têm todos, um património histórico, dito por alguns cultura, por outros crenças, que dificultam a chegada e que é vista, de início, como invasão. Mas com o tempo tudo se dilui. O que é tido como agressão passa rapidamente a desafio, o que é visto como abuso passa a surpresa e o que é entendido como excessivo passa a brincadeira.

 

Começa-se um processo de diálogo que mais não é do que uma negociação. Celebra-se um contrato a que não damos este nome, porque temos alguma repulsa por coisas escritas que advém do medo do assumir compromissos, escudando-nos em termos nobres, de disso substituição, como liberdade, ideologia e democracia, mas que não passam de uma areia miudinha que nos atiramos aos olhos. Enfim, pode ser saudável. As cláusulas do contrato são em número elevado, têm notas, ressalvas e excepções, abordam contextos infindáveis, circunstâncias várias e para o que não temos solução ou remédio escrevemos: não se aplica.

 

Pouco tempo depois, quando voltamos a ler o contrato, percebemos que é bilingue! Não foi isso que assinámos! Na altura pareceu-nos que estava tudo claro, que não havia dúvidas nem segundas intenções. E se hoje nos fosse dada a possibilidade, que não é, teríamos escrito isto em vez de aquilo. Apelamos então a um tradutor para clarificar as coisas e quanto mais o consultamos mais as nossas ideias ficam confusas. Desistimos de nos meter por aí e fazemos bem.

 

Voltemos à cidade onde atrás ficámos. Fizemos primeiro uma visita guiada e comentada, mas o tempo era limitado e houve coisas mal vistas. Curiosos como somos voltámos lá, mas desta vez sozinhos e a cidade pareceu-nos outra. Saímos e voltámos a entrar. Achando que tínhamos estado desatentos ou demasiado cegos na primeira vez, regressámos com um maior nível de tolerância, flexibilidade, consciência e atenção.

 

Começámos então a ver as coisas só com os nossos olhos e não submissos à interpretação de um guia, que tem uma perspectiva diferente da nossa porque tem um grau de envolvimento diferente e outra experiência de vida. Isto não nos interessa porque não nos ajuda nem a compreender nem a aceitar.

 

Notamos então que as ruas da cidade não levam aonde nos disseram, que as fachadas dos edifícios reconstruídos têm outros alicerces que não os originais e que as pessoas que neles habitam têm outros usos e costumes. A única coisa que se mantem é a fachada, uma obrigatoriedade legal. Começamos a ficar com alguma instabilidade por achar que fomos enganados e decidimos dar um passo atrás para ver, mais que o tronco da árvore, a floresta inteira.

 

Dá-se uma espécie de colapso. Muda completamente o paradigma. É aqui que decidimos que a conquista da cidade, que então fizemos com enorme entusiasmo, não nos beneficia em nada. Ou seja, temos um espaço que até pode ser nosso, habitantes que até podem falar a nossa linguagem, mais coisa menos coisa; temos um nome inscrito numa placa, quando a cidade começa, e o mesmo com um traço noutra, quando a cidade termina e, feitas as contas, estamos pior do que antes da sua conquista, sentimo-nos ainda mais estrangeiros.

 

Nesta fase surge-nos uma necessidade. Sentimos a urgência de deixar a cidade porque lá não estamos a fazer, objectivamente, coisa nenhuma e, porque somos boas pessoas, não nos permitimos habitar uma cidade que não é nossa e à qual não pertencemos.

 

Neste processo começamos por fazer um balanço, não vá a gente precipitar-se numa altura em que já não há tempo para brincadeiras destas, e o resultado é surpreendente: nos pratos da balança notamos que uma coisa má equilibra com dez boas. Tinham-nos dito, no curso de formação, que a relação era uma para quatro, mas não consideraram uma variável importantíssima e decisiva, o factor idade. À medida que o tempo passa a correspondência varia desta forma proporcional.

 

E o que no princípio era tido como desafio passa rapidamente a agressão, o que era visto como surpresa passa a abuso e o que era entendido como brincadeira passa a excessivo.

 

Feitas as contas, deixamos a cidade.

 

 

Cristina Pizarro

 

06
Nov19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

A travessia

 

 

Foi longa a travessia! Não grande, longa!

 

Ainda estava em terra quando me apercebi de que o mar estava encrespado e que não ia ser fácil. Podia esperar algumas horas ou dias ou meses, até que fosse mais seguro meter o barco ao mar, mas esperar não sou eu.

 

Fui, mesmo assim. Sabia, tanto quanto é possível saber sem ter feito, que tinha grandes hipóteses de sobreviver, por aquela convicção, na maioria das vezes estúpida ou inocente, de que havemos sempre de sobreviver a tudo. Pensava: que monstros marinhos me podem aparecer? E respondia logo depois, tenho este péssimo defeito de fazer perguntas com as respostas dentro, seja quem for ou o que for que me surpreenda por entre as ondas, ou eu ou o barco ou ambos, vamos saber contornar.

 

Ao princípio foi o vento a soprar desnorteado, vindo não se percebeu ao certo de onde, que me rompeu as velas e eu no mar alto já sem terra à vista a costurá-las! Claro que no estojo dos primeiros socorros havia agulha, linha e dedal. 

 

Depois foi o motor a falhar, uma válvula que descomprimiu, se soltou ou encravou, não percebo nada de motores, e que tive de desmontar e substituir. 

 

Depois o óleo que se consumiu em excesso pela força adicional que o motor teve de fazer contra a corrente. 

 

Depois os botes salva vidas a soltarem-se do convés sempre que o barco galgava uma onda não prevista e a tudo isso eu resisti e sobrevivi com aparente serenidade. Digo aparente porque houve alturas em que senti taquicardia e receei que o coração me saísse pela boca. No kit de socorro também havia pastilhas para isto. 

 

Depois os alimentos acabaram porque a viagem estava a durar mais do que o previsto e passei verdadeira fome, mas comecei com alguma antecedência a racionar os mantimentos como se uma voz do além me advertisse para não abusar da sorte.

 

A água doce também começou a escassear, mas um amigo tinha-me ensinado um processo de dessalinizar a água que na altura me pareceu complicadíssimo, mas que a necessidade tinha transformado em fazível!

 

Quando me convenci de que já não podia acontecer pior, começou a entrar água no casco. De facto, durante a noite tinha ouvido uns ruídos estranhos como se o fundo do barco estivesse a roçar em alguma coisa, mas naquele estado de embriaguez que é aquele em que dormimos, achei que tinha sido um sonho. 

 

Mas, se bem que tudo isto me tenha assustado a seu tempo, eu sabia que haveria sempre uma solução e que ela navegava comigo, por assim dizer, dentro do barco.

 

O pior foi quando começaram a entrar ratos! Aí eu atirei-me à água e submergi porque tenho verdadeiro pavor dessas criaturas e teria mesmo naufragado, mas os milagres acontecem: quando estava já sem ar nenhum, e tinha-o poupado bastante por causa daquele curso de mergulho que tinha feito em Ko Tao, na Tailândia, estiquei os pés e, macacos me mordam se não foi verdade, encontrei terra firma! E murmurei: Há coisas do… podia-me ter saído “arco-da-velha”, mas saiu-me um palavrão que nunca antes me tinha saído!

 

Cristina Pizarro

 

 

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