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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

22
Jun18

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos e Lara Alves

GIL

 

NOTA PRÉVIA

 

A Lara Alves frequenta o 8º ano no antigo Liceu Fernão de Magalhães e escreveu este texto que achei curioso e merecedor de ser publicado nos “Discursos Sobre a Cidade”.

 

Curioso porque fala, com imaginação, da nossa terra.

 

Merecedor de publicação como incentivo à escrita, um predicado que vai rareando na juventude dos nossos dias.

 

Parabéns!

 

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UM ACONTECIMENTO INESPERADO

NO LICEU

 

Para mim, a escola não é, somente, um local de aprendizagem, é muito mais do que isso. Na minha opinião, a escola é o lugar onde conhecemos os amigos que nos vão acompanhar neste percurso de descobertas que é a vida.

 

Eu não sou exceção.

 

No Liceu, conheci duas grandes amigas: a Diana, paciente, meiga e generosa; e a Catarina, alegre, simpática e bondosa. Comigo participarão nesta estória!

 

Era um dia de chuva quando se deu o inesperado.

 

Estávamos na sala de aula realizando uns exercícios do caderno de atividades, quando sentimos o chão a tremer e ouvimos gritos. Os meus colegas ficaram apavorados, mas a nossa professora tentou encaminhar a turma para a saída. Enquanto tentávamos, apressadamente, sair do edifício, o telemóvel da Catarina caiu-lhe do bolso e escorregou para debaixo dos cacifos. Eu apercebi-me e tentei recolhê-lo. Porém, quando me agachei e estendi o braço para apanhar o telemóvel, senti uma força misteriosa a puxar-me para dentro de uma fenda que o tremor de terra abrira no chão. A Diana, a Catarina e a professora apercebendo-se da minha aflição agarraram-me pelas pernas. Todavia, a sua força não foi suficiente e acabámos por ser todas engolidas por aquele buraco.

 

Não se via um palmo à frente do nariz e eu só senti o rabo a aterrar numa plataforma fria e húmida, por onde escorreguei por largo tempo. Não tinha a certeza se viria alguém atrás de mim, dado que não ouvia um único ruído.

 

Aterrei!

 

Finalmente tinha chegado ao fim daquele túnel. Levantei-me e, aos apalpões, encontrei o meu telemóvel e liguei a lanterna. Não sabia exatamente onde estava. Soube, no entanto, que não estaria sozinha pois ouvi gritos. Olhei para trás e vi a Diana e a Catarina a aterrarem de cabeça uma em cima da outra. Fui ter com elas para as auxiliar e, mesmo às escuras, atónitas conseguiram pôr-se de pé.

 

– O que é que aconteceu? Onde estamos? – questionou a Diana com as lágrimas nos olhos.

 

Eu fui ao pé dela e tentei acalmá-la, enquanto a Catarina, que não estava muito mais calma, andava de um lado para o outro a avaliar o espaço. Entreguei-lhe o telemóvel, ela ficou muito contente e agradeceu-me imenso.

 

De repente, ouvimos uma voz familiar pronunciando os nossos nomes. Respondemos, pois pensávamos que era a professora.

 

Era ela de facto!

 

Tinha os cabelos desgrenhados e tremia de aflição.

 

– Estão bem, meninas? Vou acender o isqueiro para nos vermos melhor.

 

– Não é necessário, professora. A Catarina e a Diana podem acender, como eu, as lanternas dos seus telemóveis.

 

As minhas amigas fizeram o que lhes foi pedido. Conseguimos ver que estávamos dentro de uma enorme rede de tenebrosos túneis.

 

– Eu já tinha ouvido falar dos túneis por baixo Liceu de Chaves que as freiras do convento utilizavam às escondidas – disse a professora – Mas pensei que era uma lenda!

 

– O meu pai também já me tinha contado isso e até me tinha garantido que todos os túneis iam dar aos claustros. – Afirmou a Diana.

 

Durante alguns segundos ficámos paradas a pensar...

 

Depois de pormos o cérebro a funcionar, eu afiancei:

 

– Nós estávamos na sala 22 e, quando o telemóvel da Catarina caiu ao chão, já tínhamos passado a porta com a placa 21...

 

– Por isso, devemos estar por baixo da sala 20... – Interrompeu a Catarina.

 

– Logo, temos de andar naquela direção – insistindo a Diana gesticulando.

 

A professora concluiu:

 

– Bem pensado, meninas! Temos de nos dirigir para norte!

 

Pegámos nas trouxas, ou seja, nos nossos pertences e seguimos por um túnel estreito que calculámos que nos levasse aos claustros do antigo convento.

 

Enquanto vivíamos esta aventura, os nossos colegas de turma estavam no Largo das Freiras, naturalmente aflitos.

 

– Onde é que elas estarão? – Interrogou um.

 

– Será que estão bem? – Questionava outro.

 

– Claro que estão bem, elas são fortes! – Assegurava uma outra colega.

 

– Fortes!? As três juntas nem sequer têm a força de uma carriça – comentou outro rapaz.

 

– Pergunto-me se tu consegues parar de ser burro por um minuto que seja!?

 

Bem, voltemos à lavra principal.

 

– Ó Lara! Tu tens a certeza de que estamos a ir no caminho certo? – Perguntou a Diana.

 

– Tem calma e segue o meu instinto... – Disse eu.

 

– Se contarmos com a ajuda do teu instinto estamos bem cosidas! – Revelaram as duas em uníssono!

 

Rimo-nos todas (até a professora) e continuámos a andar...

 

Passados alguns minutos, parámos, a aventura fez-nos fome. A sorte foi que eu levava a minha lancheira, a qual leva sempre comida para um regimento, dado que é a minha avó que a prepara!

 

Após termos enchido a blusa, continuámos e, de repente, o nosso túnel bifurcou-se. Tínhamos outro problema. Eu e a Catarina propusemos lançar uma moeda ao ar e, se saísse cara, escolhíamos o túnel da direita, se saísse coroa, o da esquerda. Porém, a Diana e a professora acharam melhor não confiar na sorte.

 

– O problema é que não fazemos a mínima ideia de onde estamos. – Afirmou a Diana.

 

A professora concordou e todas nós ficámos tristes como a noite, por isso, sentámo-nos no chão frio e a Catarina começou a assobiar.

 

Ninguém compreendeu esta atitude, nem sequer ela mesma. O assobio ecoava nos compridos túneis.

 

Isto deu-me uma ideia!

 

Pedi à Catarina que gritasse para dentro de cada um dos túneis e que contássemos o tempo que demorava o eco.

 

– Já compreendi o que queres fazer. É uma boa ideia! – Exclamou a Diana.

 

A Catarina afinou a voz e pediu a uma de nós que se preparasse para contar o tempo. A professora voluntariou-se para isso e a Catarina fez o que era necessário.

 

As medições levaram-nos à conclusão que o túnel da esquerda era mais comprido, pois, no da direita, o eco foi quase instantâneo. Não deveria exceder os 17 metros.

 

– Excelente trabalho de equipa! Penso que o túnel da direita deve ser um beco sem saída, logo, vamos caminhar com cuidado pelo da esquerda. – Aconselhou a professora.

 

E nós, já fartas daquela escuridão, pusemo-nos a caminho...

 

Caminhámos cerca de dez minutos. Após termos atravessado este túnel, fomos encontrar um amplo pátio subterrâneo. Aparentemente, não havia nenhuma saída, porém a Catarina e a Diana encontraram uma porta de madeira não muito grande. Esta porta estava entreaberta, empurrámo-la.

 

– Deste lado existem umas escadas! – Gritou a Diana – Venham ver!

 

A professora aproximou-se, examinou o local com a pouca luz que tínhamos e afirmou:

 

– Eu penso que estas escadas nos conduzirão aos claustros. Mas só há uma maneira de descobrir...

 

Eu à frente, a seguir a Catarina, depois a Diana e no fim a professora subimos as escadas pé ante pé. No cimo, chegámos a um pequeno cubículo de pedra. Já estava quase a ficar sem esperança, quando olhei para cima e vi uma pequena frincha por onde passava a luz solar. Com toda a minha força, empurrei a pedra que não estava bem fixa e fiquei com a cabeça e com os braços no chão dos claustros da escola.

 

Uma após outra, saímos daquele buraco e fomos a correr para a porta principal.

 

Lá fora, estavam os nossos colegas desesperados.

 

Abraçámo-los.

 

De seguida, virando-me para as minhas melhores amigas questionei:

 

– É uma aventura para repetir, não é?

Lara Alves

 

 

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04
Ago16

Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade

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A Lei do Medo

 

            Vivemos tempos conturbados e cheios de interrogações. A Europa ocidental vem gozando desde há uns anos tempos de paz e já todos se habituaram a ver os conflitos nos ecrãs de televisão e páginas de jornais, como se fosse uma série de ficção ou algo fora da sua realidade. Nada mais ilusório e ingénuo, pois a violência, a agressão, a morte, a pobreza extrema e a injustiça continuam a suceder por todo o nosso planeta e a Europa ocidental não é, nem nunca foi, inocente nem neutra no seu contributo... Exemplo disso aconteceu bem recentemente com a tragédia de Nice, em que logo após o ataque de 14 de Julho, o presidente francês veio afirmar alto que a França iria reforçar os ataques na Síria e no Iraque. Pois é, já diz o ditado popular que “quem vai à guerra, dá e leva...”, como podem os franceses, orgulhosos de viver no país onde nasceram os Direitos Humanos, ignorar e tolerar esta escalada de violência?

 

            Nestes tempos conturbados e cheios de interrogações, os meios de comunicação social – tampouco inocente e neutros – alimentam a lei do Medo que se instalou na Europa ocidental, com preconceitos, meias e falsas verdades, “não notícias” que servem para desviar a atenção do essencial, “opiniões” suspeitas e partidárias. É fácil apontar o dedo à religião, à intolerância, à diferença de costumes, aos poderosos, à ganância do dinheiro. Certo é que a Terra é só uma e de todos os seres humanos, que são iguais como tais. As fronteiras e as “regras do jogo” foram criadas pelos próprios seres humanos que optaram por “dividir para reinar” em vez de unir em nome da justiça e paz social. Até quando vamos tolerar tanta injustiça e desigualdade? Até quando vamos continuar a viver a lei do Medo que nos paralisa e nos torna indiferentes ao sofrimento e à dor humana? Em que sociedade queremos viver e qual queremos deixar para os nossos filhos e netos?

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            Nestes tempos conturbados e cheios de interrogações, há que começar a pensar, a debater ideias e formas de agir com a gente que cruzamos cada dia. As grandes mudanças começam sempre com pequenos passos e sobretudo com novas formas de pensar. Porque a Paz é algo tão difícil de alcançar se o desejo de todo o ser humano é ser feliz e o planeta chega para todos? A “Terceira Guerra Mundial” que os media se deliciam a sugerir para manter a lei do Medo não irá acontecer se tal não for a nossa vontade.

 

            Reflicta-se bem em tudo o que aconteceu na curta história de vida da Humanidade. A culpa não é ninguém, a culpa é de todos. Coragem para assumir ideias justas para todos e juntar-lhe os actos certos procura-se. O amor pela Humanidade pode ser a resposta justa.

 

Sandra Pereira

05
Mai16

Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade

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“Hoje há circo em Trás-os-Montes!”

 

“Viver não custa, o que custa é saber viver!”. Uma das frases marcantes do livro “Hoje há circo em Torgo”, obra do Fernando Morais Castro, aliás do Fernando Dadim, um “flaviense de coração” que, antes de partir do mundo físico, deixou a sua marca perpétua na escrita. E que marca! Hoje emigrada por outras terras, ler a sua obra, além de recompensar o seu árduo trabalho, transportou-me de volta às minhas raízes, ao meu passado, a todas as crenças, costumes, hábitos e velhos ditados da minha terra, Trás-os-Montes. Lê-lo despertou em mim tanta emoção, sorrisos e saudade, que não posso deixar de lhe dedicar um espaço nos Discursos (Emigrantes) sobre a Cidade.

 

Ao regressar ao Trás-os-Montes dos anos 50, quando as crianças iniciavam a aula com o cantar do Hino Nacional, este é (também) um livro sobre a vida. E o que era a vida na nossa região, dentro de um país salazarista com necessidade de mudança de regime? “é a comédia que representamos, e mesmo quando nos possamos embebedar é o momento em que assumimos essa nossa condição de comediantes que a sociedade permite”.

 

Neste “circo da vida”, mergulhamos nos costumes, virtudes e pecados transmontanos, que explicam o que somos hoje e que até persistem, apesar do “progresso” que na altura gerou tanta desconfiança e cepticismo. “Não credes em nada, ainda acabais por deitar tudo a perder!”, aconselha-se em mais uma comédia portuguesa do “rir para exorcizar”.

 

Fernando Dadim na Biblioteca Municipal de Chaves,

 Fernando Dadim na Biblioteca Municipal de Chaves, em Junho de 2011 - Fotografia de Sandra Pereira

 

Aqui, nesta Vila Pequena que parece Chaves e neste Torgo que parece uma das nossas aldeias, também se percebe como os temas tabus – divórcio, homossexualidade, aborto, infidelidade e libertação da mulher – eram discutidos, em surdina, numa sociedade profundamente dividida em classes e baseada em aparências, muitas vezes com métodos “pouco católicos”, como explica a personagem Gualter a um visitante francês: “Os lisboetas dizem que nós, os transmontanos, somos os sicilianos de Portugal”. Com uma particularidade: “honestidade, honra e lealdade nos negócios privados, mas no que diz respeito à lealdade ao Estado impera o princípio: o que é de todos não é de ninguém!”.

 

Recordo-me bem ter estado presente na apresentação desta obra, em Junho de 2011, na altura como jornalista da “Voz da Chaves”. Apenas sete meses depois, em Março de 2012, Fernando Morais Castro, o “leitor mais assíduo da Biblioteca de Chaves”, voltaria a marcar presença, sempre nesse mesmo espaço, para apresentar a sua terceira obra, “O Suicídio dos Pássaros”, (a estreia seria com “O Enjaulado”), que desta vez retrataria os vícios e virtudes dos jovens flavienses marginalizados da sociedade.

 

Ler Fernando Dadim soa tão familiar, que é imprescindível para as gerações mais jovens entenderem a sua história e identidade, além dos preciosos relatos e legados dos mais velhos. Ler os nossos escritores transmontanos regala-nos e enche-nos a alma, deixa-nos seguros que o nosso passado define o nosso carácter e que, em qualquer época, sempre podemos sonhar.

Sandra Pereira

 

 

22
Abr16

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

Santos de casa não fazem milagres!

 

O Grupo Desportivo de Chaves, é uma instituição de créditos firmados no contexto do futebol nacional. Com uma venerável história de sucesso, tem vindo, ao longo dos anos, a alimentar o sonho dos domingos de muitos transmontanos. Baluarte do desporto rei, o Desportivo, como me apraz chamar-lhe, tem-se arvorado como uma bandeira, não só da cidade de Trajano, como de toda uma região. Um genuíno embaixador dos que povoam o Planalto para lá do Marão. Tem veiculado, com notável sucesso, o nome da terra transmontana por esse mundo além, constituindo-se como pedra basilar do nosso orgulho. O Desportivo é uma espécie de grito dos transmontanos valentes, que sempre o foram. É uma voz que brada, nos estádios, nas estradas, nas ruas das cidades e vilas que visita e nos mass media, lembrando aos desatentos que os transmontanos também são portugueses, que existem e que também são gente de pleno direito!

O Desportivo pode e dever ser o pretexto de uma luta secular pela afirmação.

 

No que ao futebol respeita não há, nunca houve e atrevo-me mesmo a afirmar que dificilmente haverá, dignitário tamanho em toda a província transmontana.

 

Muitos tiveram o privilégio de viver altos momentos da sua história.Tê-lo-ão outros certamente, num futuro que se quer próximo. Tudo parece preparado para um novo êxito na atual temporada: a subida à liga primeira, que todos esperam com aturada ansiedade. Para isso vem contribuindo o arreganho dos responsáveis. No pretérito ano o Desportivo morreu na praia, no derradeiro minuto do campeonato, contudo, nem isso abalou a determinação da direção que de forma louvável voltou a colocar todos os trunfos na mesa. Por muito que a muitos doa, a verdade é crua: a chama só está acesa porque houve quem a acendesse!...Os flavienses, que gostam do Desportivo, quer queiram quer não, são devedores de gratidão, de respeito e de admiração.

 

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Acho, todavia, que está a faltar um pormenor para coroar de êxito esta iniciativa de amor pela causa, que era a da publicação de um livro, completo, sobre o percurso do Desportivo de Chaves desde a sua fundação. Um documento que reunisse e sistematizasse toda a documentação esparsa sobre a instituição. Seria um marco importante, mais um legado destes mandatos! A cereja no cimo do bolo!

 

Fica o desafio!

 

Em Chaves o futebol é coisa antiga. Antes do Grupo Desportivo de Chaves, muito outros clubes existiram, alguns de lampejo, como por exemplo a Académica, a Juventude e Tâmega Futebol Clube, o Sporting Clube Flaviense (1919), Sport Lisboa e Chaves e outros de maior duração, como foi o caso do Flávia Sport Clubeque tinha campo próprio num terreno entre o Bairro das Casas-dos-Montes e a Avenida Bracara Augusta - Estrada de Braga e do Clube Atlético Flaviense.

 

O Desportivo nasceu, apenas, em 27 de setembro de 1949. Poderíamos ser tentados a pensar que se trata de uma instituição com uma existência relativamente recente. Contudo, não é assim. De facto, o clube atual resultou, em boa hora, da fusão daqueles dois outros, o Flávia e o Atlético.

 

Muitas foram as figuras que construíamos pergaminhos do Desportivo de Chaves e que ao longo do tempo foram ficando na memória coletiva. Uns, filhos da terra, outros não o sendo, foram bem recebidos, como é timbre das nossas gentes e por cá ficaram a fazer história. Uns e outros flavienses dos quatro costados!

 

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Ainda que corra o risco de olvidar alguns, não me inibirei de trazer à ribalta nomes inesquecíveis, como os dos presidentes Emílio Macedo, Castanheira Gonçalves; dos treinadores António Feliciano, Santana, Mário Morais, Raúl Águas, do Magriço José Carlos, Álvaro Carolino e José Romão; do massagista Albano e dos jogadores: Adão, Albino e Alcino. Amâncio, António Borges e Areias. Bandeira, Barico e Betinho. Branco, Carlos Alvarez e Carlos Areias. Carvalhal, Chico Barreira e Cruz. Davide, Diamantino Brás, o Leão da Torre e Eduardo Agrela. Fernando Lino, Ferreira da Costa e Flávio Larufas, Fonseca, Granjeia e Gualter. Guedes, Hélder e João Fonseca. Jorge Plácido, Jorge Silva e José Duque. Leal, Lelo da Tenda e Lila Geraldes. Lisboa, Malaias e Malano. Matateu, Melo e Mundinho. Óscar, Paulo Alexandre e Paulo Rocha. Pavão, Peseta e Pinho. Pipa, Quim e Quina Falcão. Radoslav Zdravkov, Radi, Raimundo e Raul Águas. Redes, Rendeiro e Romão. Roque, Serginho e Setas. Soares dos Reis, Toniño e Valdanta. Vivas, Zé Albano e Zeca Cagau. Lino, Rudi, Karoglan e Gilberto, para além de tantos e tantos outros!

 

No entanto, como diz o povo, santos da casa não fazem milagres. Disso é bom exemplo o caso de António Borges, que tendo sido um dos melhores jogadores de sempre do Desportivo, nunca se impôs no comando técnico apesar das oportunidades!

 

Porém, há um outro nome, com expressão no contexto do futebol nacional nas divisões inferiores que, apesar de filho da terra, passou pelo Chaves quase como cão por vinha vindimada, como soi dizer-se. Trata-se de Luís Miguel Pessoa Pires, o Pires, como era conhecido no meio. Poucos terão ouvido falar dele e muitos não lhe conhecem o rasto.

 

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 Pires nasceu em maio de 1969 em Moçambique. Veio para Portugal e fixou-se em Chaves, de onde eram naturais os seus progenitores. Fez a primária na escola de Vilela Seca, o 2º Ciclo no Forte de São Francisco, o 3º na Secundária Dr. Júlio Martins, bem como parte do Secundário, que viria a concluir nas Secundárias de Caldas das Taipase de Vizela. Licenciou-se em Educação Básica, na área da Educação Física.

 

No que respeita às habilitações desportivas é treinador de III Nível UEFA A e Formador/Preletor da Federação Portuguesa de Futebol, de Cursos de Treinadores de Futebol UEFA B e UEFA C e formações creditadas.

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Reside na Ribeira Grande,na ilha de S. Miguel, no arquipélago dos Açores. É docente na Escola Básica Integrada de Rabo de Peixe. Atualmente treina os juniores do Clube Desportivo de Santa Clara em Ponta Delgada.

 

Pires, que nunca brilhou no Desportivo, tendo apenas passagens efémeras pelo clube, foi um dos jogadores mais importantes nas muitas equipes que representou, tendo sido um dos melhores marcadores dos escalões secundários dos nacionais.

 

Tive o privilégio de o ter como aluno no Ensino Recorrente na Escola Secundária de Caldas das Taipas, numa das épocas de ouro em que militava n’Os Sandinenses, de S. Martinho de Sande. Comigo aprendeu Economia. Foi um aluno brilhante, tendo obtido excelentes resultados académicos. Transportou, para a sala de aula, os predicados que o caraterizavam no futebol: a correção, a educação, a simpatia, a atenção e o empenho. O Pires era uma referência para a escola e para os seus colegas mais novos.

 

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Passados alguns anos, achei justo trazê-lo à liça. Pedi-lhe apontamentos e foi solícito e prestes a fornecê-los. Falou um pouco de si e do seu percurso pelo mundo da bola, anuindo com simpatia e prontidão.

 

Vale a pena questionar: como é que um craque destes, filho de Chaves, não singrou no nosso Desportivo, tendo percorrido outros palcos com enorme sucesso e tendo sido admiradopor tantos, como consta, inequivocamente, nas crónicas dos jornais da época?

 

De facto, há coisas que não se entendem!

 

Será caso para se reafirmar que santos de casa, definitivamente, não fazem mesmo milagres!..

 

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 Assim nos conta Pires o seu percurso de vida:

 

“Depois de apanhar o vício, com o meu pai, a ver os jogos do Chaves, desde o tempo do Malaias,do Lisboa, do Rendeiro, do Eduardo Agrela (primo direito do meu pai) passando pelo Diamantino, pelo António Borges, pelo Gilberto (os 2 últimos foram, anos mais tarde, meus treinadores), etc., a bola era a minha namorada, não a largava por nada. Como costumo dizer era a bola a rolar e o coração a saltar!

 

Apesar de ter passado pelo Chaves, meu único clube na formação, a minha verdadeira aprendizagem aconteceu no futebol de rua. Na escola, quando chegávamos de manhã, muito antes de começarem as aulas, aproveitávamos para dar uns chutos na bola. Na aldeia, Vilela Seca, também qualquer sítio era bom para jogarmos, desde a estrada, ao adro da igreja, aos lameiros, etc. Este futebol de rua que nos dias de hoje, infelizmente, vai sendo substituído pelas consolas, tablets e telemóveis, foi fundamental para a minha formação enquanto jogador.

 

Outra das causas que influenciou, muito, a minha formação, foi o facto de ter pedido antecipação do cumprimento do serviço militar obrigatório. Fui chamado para a Marinha de Guerra, com 18 anos, onde estive vinte meses. Após os primeiros seis, em que fiz a recruta e o curso, fui destacado para o Alfeite. Integrei a equipe de futebol do Grupo nº2 das Escolas da Armada. Num jogo contra os Fuzileiros, empatamos 1-1 com um golo meu. Fui logo chamado para a seleção da Marinha. Na época de jogos éramos dispensados de qualquer serviço nos dias de treino, para depois jogarmos contra equipes de tripulações de navios estrangeiros.

 

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Esta passagem pela Marinha fez de mim um jogador diferente. Perdi técnica, mas ganhei cabedal, força e velocidade, que, para a minha posição de ponta de lança, viria a ser fundamental.

 

Quando saí da Marinha, em novembro de 1989, com apenas 20 anos, já as equipas tinham os planteis mais ou menos constituídos. Pensei, então, que seria muito difícil regressar à competição. No entanto, um dia, um amigo, Paulo Garcia, percebendo o meu regresso e sem clube, informou-me que o Montalegre estava a precisar de avançados. Falou com o treinador Malaias e no dia seguinte apresentei-me ao treino. Era dia de treino de conjunto, os titulares jogavam contra os restantes jogadores, onde eu me incluía. Perdemos 2-1, com um golo meu. Em pleno campo, antes de irmos para o balneário, os dois jogadores mais experientes do plantel, João Albano e Moreira, aproximaram-se e disseram-me:

 

- Sócio, davas-nos um jeito do caraças. Vê lá se ficas!

 

Fiquei!

 

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Marquei, nessa minha primeira época de sénior, vinte e cinco golos. Foi uma época em cheio. Diziam-me que andaria a ser observado pelo Desportivo de Chaves. Fiquei entusiasmado. No início da época seguinte, fui convidado pelo Desportivo para ir treinar à experiência. Passado uma semana de treinos, conversaram comigo e assinei um contrato profissional por quatro épocas com o clube do meu coração, então na 1ª Divisão.

 

Era um sonho que se concretizava!

 

Porém, sabia que muito dificilmente teria oportunidade de jogar. A concorrência era de peso, com jogadores muito valiosos,na minha posição, quase todos eles estrangeiros, como Rudi, Tanev, Saavedra, Karoglan, Omer, entre outros.

 

Como era de esperar, não entrei na equipa principal, pelo que na primeira época fui emprestado ao Mirandela então na 2ª Divisão Nacional. Na segunda época joguei na equipa satélite, o Vila Pouca, então na 3ª Divisão Nacional.Na 3ª época fui um dos escolhidos para integrar o plantel sénior da 1ª Divisão do Chaves, pelo então treinador, um dos meus ídolos, Radi. No entanto, não concluí a época e fui emprestado ao Montalegreque militava na 3ª Divisão Nacional, acontecendo o mesmo na época seguinte, a última de contrato com o Desportivo. A concorrência era de facto muito forte, os avançados eram quase todos estrangeiros e os nacionais, apesar de poucos, eram jogadores cotados da divisão maior. Tudo isto aconteceu antes da lei Bosman, que veio, posteriormente, valorizar o jogador jovem e incentivar os clubes a apostar nos jogadores da formação. Cumpri integralmente o contrato de quatro anos com o Chaves e só saí no fim do mesmo. Nunca houve intenção, de nenhuma das partes, em cessá-lo antes do tempo.

 

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Mais tarde percebi que se tivesse ido mais cedo para o “triângulo” Porto, Braga, Guimarães, o meu trajeto futebolístico teria outra visibilidade e alcançaria, certamente, outros patamares. Lembro-me, quando representava Os Sandinenses, que equipas como o Gil Vicente abordaram o clube para me contratarem. Um empresário chegou mesmo a falar-me no interesse do Campomaiorense, então da II Liga. Recordo-me, por exemplo, do Toni, treinador do Braga B, quando eu jogava no Vizela, de perguntar a minha idade a alguns diretores.

 

Dos 210 golos que marquei como sénior, tiveram um impacto muito superior os marcados nesse triângulo do que os marcados quando jogava no distrito de Vila Real. Na região de Trás-os-Montes, à exceção do Chaves,as restantes equipas jogavam na 3ª Divisão ou na Distrital, enquantoqueno referido triângulo, havia muitas mais equipas representando todos os escalões. Por isso, a visibilidade era maior, pelo que quem marcasse muitos golos, como era o meu caso, era mais valorizado. Lembro-me que antes de sair d’Os Sandinenses para representar o Vizela, a comunicação social deu notícia do interesse do Chaves, então na II Liga, assim como fui contactado por responsáveis do Freamunde e do Famalicão. Contudo, os responsáveis do Vizela convenceram-me, percebi que estava a falar com gente séria que queriam mesmo contratar-me, então escolhi o Vizela, onde fui feliz. Depois continuei com uma carreira de que muito me orgulho e onde encontrei pessoas fantásticas.

 

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Como jogador, para além do Montalegre nos Distritais e na 3ª Divisão Nacional e do Desportivo de Chaves na 1ª Divisão, militei em muitos outros clubes como o Mirandela na 2ª Divisão Nacional, o Vila Pouca na 3ªDivisão Nacional, Os Sandinenses nas 2ª e 3ªDivisões Nacionais, o Vizela na 2ª Divisão Nacional, o Vidago, na A.F. Vila Real, o Capelense S.C. na A. F. de Ponta Delgada.

 

Na época 2004/2005 abandonei a carreira de jogador, quando estava há apenas dois meses no Vidago, porque fui convidado pela direção do Desportivo para ser o Secretário Técnico do Chaves na II Liga, aceitei de seguida, em outubro de 2004. Foi mais uma experiência fantástica, onde saliento a forma sempre correta que a direção, na altura liderada pelo professor Mário Carneiro, me tratou. No final dessa época, informei o clube que não continuaria porque tinha concorrido para lecionar nos Açores, o que aconteceu a partir de setembro de 2005, porque fui colocado na ilha de São Miguel. Deixei a minha terra e o meu clube. Mal cheguei à ilha surgiu a oportunidade de voltar a jogar e começar a treinar um escalão de formação, uma vez que, já era detentor do curso de treinador II Nível - Uefa B. Conjuguei ambas as funções no Capelense. Passados dois meses acumulei as funções de jogador e de treinador dos seniores. Tínhamos o objetivo de subir o Capelense à 3ª Divisão Nacional. Fizemos uma época excelente, com um grupo fantástico, sem derrotas e apenas dois empates. Assim começou a minha carreira como treinador.

 

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Como treinador treinei vários clubes, como o Capelense S. C.na 3ª Divisão Nacional o Rabo de Peixe, na A.F. de Ponta Delgada, o Ideal na 3ª Divisão Nacional, o Santiago na 3ª Divisão Nacional, o U.Nordeste na A.F. de Ponta Delgada, o S. Roque na mesma Associação, o C.D. Santa Clara nos juniores na A.F. de Ponta Delgada.

 

No meu palmarés como jogador consta: fui campeão nacional da 3ª Divisão pel´Os Sandinenses; fui campeão da A.F. de Vila Real como sénior do Montalegre; fui campeão da A. F. de Ponta Delgada, pelo Capelense.

 

Como treinador, do meu palmarés consta: fui campeão da A. F. de Ponta Delgada com os Seniores do Capelense; ganhei a taça Ben David da A.F. de Ponta Delgada com os Sub10 do Capelense; ganhei a taça Dorvalino Moniz Barreto na A.F. de Ponta Delgada com os juniores do Santa Clara.

 

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Conto um caso curioso enquanto jogador:

 

Na época 2001/2002, n’Os Sandinenses, na 2ªDivisão Nacional, passei os últimos quatro meses da época lesionado. Na época seguinte, fui convidado pela direção do F.C. da Lixa, que apostava no regresso à 2ª Divisão Nacional. Antes de conversarmos em verbas, disse ao senhor Artur, Diretor Desportivo do Lixa, que vinha de uma lesão prolongada e que precisava de dois meses para recuperar e regressar à forma ideal. Ele concordou. A pré-época começou e eu esforçava-me ao máximo para regressar o mais rápido possível àminha forma. Os jogos-treino começaram e em três ou quatro fiz apenas um golo contra o Lousada. Tinha passado um mês e faltavam apenas quinze dias para se iniciar o campeonato.O Diretor Desportivo disse-me que tinham dereforçar o ataque e que tinham de rescindir contratos e baixar os ordenados a alguns jogadores nos quais me incluía. Confrontei-o com o que tínhamos conversado na formalização do meu contrato, sobre o tempo que eu precisava para retomar a forma. Não concordei com aquele tipo de pressão e decidi que mal me pagassem o mês que lá estive rescindiria o contrato e abandonava o clube. Assim aconteceu.

 

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Regressei ao Sandinenses. Por ironia do destino, na primeira eliminatória da Taça de Portugal saiu-noso Lixa em sorte, três semanas depois da minha saída. Ainda não estava na minha melhor forma. Comecei o jogo no banco. Ganhámos por 3 a 2. Marquei o segundo e o terceiro golos.

 

Dos cerca de vinte e cinco treinadores que tive, os que mais me influenciaram foram: o mister José Carlos (ex. jogador do Sporting e magriço de 1966) foi o que mais me influenciou como homem e como treinador, pela sua liderança e disciplina tática; o mister José Albano (ex. atleta do Chaves) pela vertente humana e psicológica da sua liderança e o mister António Borges (ex. atleta do Chaves) pela sua liderança e paixão pelo treino”.

 

 

 

03
Mar16

Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade

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Uma vida simples

 

O Homem é o único animal que come sem ter fome, bebe sem ter sede e fala sem ter nada que dizer”. Mark Twain

 

Indiferença. Ao que nos rodeia, ao natural, à simplicidade, ao respeito pelo ser vivo. Insensibilidade. Aos nossos semelhantes, às nossas intuições, aos apelos que cada um sente dentro de si, ao amor universal, pelo próximo e pelo semelhante. Até quando seremos o único ser vivo a destruir os próprios recursos naturais, a matar a própria espécie (sem ser por instinto de sobrevivência), e no fundo, a auto-destruir-se?

 

Esta não é uma questão de hoje, mas hoje (e cada dia até que o planeta recupere o seu equilíbrio) é preciso falar sobre ela. Porque a indiferença e a insensibilidade seguem. Porque todos se importam com o seu futuro material e conforto pessoal (e dos filhos), mas poucos se preocupam realmente em reconhecer que sem planeta sustentável, não haverá futuro para ninguém, nem material, nem humano (e não faltam assim tantos anos). Porque ainda não reina a consciência de que o primeiro elemento do meio ambiente é a harmonia, logo, a felicidade humana.

 

E porque esta questão não incomoda a maioria das pessoas ao ponto de as levar a acreditar, a exigir e a lutar por uma mudança? O que comeremos daqui a 50 anos? Betão, alcatrão, smartphones? Que ar respiraremos e que água beberemos daqui a 50 anos? Porque esta questão não incomoda a maioria das pessoas ao ponto de as levar a optar conscientemente por hábitos mais naturais no seu quotidiano?

 

O impossível é sempre aquilo que não se tentou e felizmente, cada vez mais, muitos tentam. Dedicando um pouco de tempo a buscar informação sobre o meio ambiente e a evolução consciente, em vez das notícias diárias sobre crimes, guerras, futebol e corrupção, vemos que há motivos para sorrir e ter fé. A reflexão está a crescer...

 

Uma Vida Simples - 1.jpgIlha Terceira, Açores, Janeiro 2016 - Foto de Sandra Pereira

 

Por sorte, a internet e as redes sociais não contêm apenas parvoíces. O apelo à tomada de consciência da defesa do planeta e de todos os seus habitantes já não é feito apenas por ecologistas da Greenpeace. Aparecem cada vez mais blogues, sites e páginas no Facebook a promover uma vida mais saudável, mais sustentável, mais simples, mais humana. Como, por exemplo, este belíssimo blogue de Alba Sueiro Román (http://unavidasimple.es/). Fala de como viver bem (e até melhor) com menos: dá dicas de como ter apenas a roupa essencial no armário, como usar menos plástico, reciclar mais, ser mais feliz, às vezes com exemplos de pessoas que optaram por vidas mais simples.

 

Outro belo exemplo, e um pouco mais universal, é a página “Humans of”, no Facebook. O conceito é simples: escolhe-se uma cidade no mundo e dá-se a palavra a uma pessoa desconhecida na rua. Resultado: as palavras ditas provam que todos temos uma história para contar e um pensamento positivo sobre a vida, as pessoas fotografadas mostram a diversidade, a força e a beleza do ser humano. A página tornou-se tão popular, que agora são muitas os locais onde se exprime a gente comum. Desde Nova Iorque a Jerusalém, de Barcelona a Berlim, de Bombai a Medellín. Em Portugal, é possível seguir os retratos e as histórias de “Humans of Lisboa” e “Humans of Porto”, e além-mar, mas bem familiar, “Humans of Luanda”, “Humans of Mozambique”, “Humans of Rio” ou “Humans of Macau”. Por um sorriso garantido por dia, vale a pena seguir.

 

Já na música, seguir o "Playing for Change" é uma overdose de optimismo. Trata-se de um grande projeto colaborativo que junta artistas famosos e desconhecidos cantando as músicas de sempre desde todas as partes do mundo. Quer sorrir agora mesmo? Clique aqui: https://playingforchange.com/videos/dont-worry-be-happy/

 

Por sorte, o cinema também não contém apenas parvoíces. Aparecem também trabalhos notáveis no grande ecrã, como recentemente o documentário “Humans”, de Yann Artus Bertrand, a chamar a atenção para o nosso lado mais humano. Ver este admirável trabalho é um turbilhão de emoções, é ir do riso às lágrimas, é sentir a compaixão e a admiração. São testemunhos de pessoas oriundas do mundo inteiro, testemunhos fortes, comoventes. Testemunhos de quem já matou e de quem já viu a sua dignidade humana manchada. Testemunhos de quem já foi julgado pelo preconceito e de quem luta contra ele. Testemunhos de quem já perdeu tudo o que tinha e de quem, mesmo depois de ver o pior da natureza humana, ainda ama e, sobretudo, tem fé. Para dar-nos conta (sem esquecer) que somos todos iguais e partilhamos todos os mesmos desejos, os mesmos sentimentos e o mesmo espaço – o planeta Terra – vale a pena ver e rever.

 

Uma Vida Simples 2.jpgIlha de Formentera, Espanha, Setembro 2015 - Foto de Sandra Pereira

 

Outro documentário recente de destaque é “Tomorrow”, da actriz Mélanie Laurent e do activista Cyril Dion, que percorrem o mundo para mostrar ao mundo alternativas concretas em matéria de ecologia, economia, democracia e educação, provando que é possível mudar. Mostra, por exemplo, como um horticultor de uma quinta órganica em França prescinde do uso de máquinas para não usar gasolina e mesmo assim consegue ter lucro, ou como a cidade de San Francisco recicla 100% do lixo que produz, ou mesmo um exemplo de moeda alternativa na Grã Bretanha, que permite evitar a especulação e a fuga de capitais para paraísos fiscais, e manter a riqueza no circuito local de uma cidade. Um documentário financiado por donativos de anónimos através da internet e redes sociais. Verdadeiramente inspirador e motivador, não é?

 

Por sorte, a política também não contém apenas parvoíces. Começam a aparecer políticos, com discursos que realmente não dão um pouco de esperança, como Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, cuja voz se eleva e se distingue de tudo o que estamos acostumados a ver e ouvir nos ecrãs e no teatro mediático atual: “Es mejor vivir liviano de equipaje, con poco, con lo justo y poca complicación desde el punto de vista material porque si tienes mucha complicación, no te queda tiempo para las cosas que a ti te motivan”. Certíssimo. Mas para os que não ficam convencidos com este argumento, Mujica acrescenta: “Yo no estoy planteando volver a las cavernas o tener que vivir abajo techos de paja. Lo que estoy planteando es darle la espalda al mundo del despilfarro y de los gastos inútiles y de las casas inútiles que necesitan cuatro, cinco, media docena de sirvientes”. Simples.

 

Por sorte, a religião também não contém apenas parvoíces. O Papa Francisco está a reconquistar a confiança e a tolerância de crentes e não crentes, ao suavizar um pouco o discurso tradicional da Igreja Católica. “Não é preciso acreditar em Deus para ser uma boa pessoa. De certa forma, a ideia tradicional de Deus não está atualizada. Uma pessoa pode ser espiritual, mas não religioso. Não é preciso ir à Igreja e dar dinheiro. Para muitos, a Natureza pode ser uma Igreja. Algumas das melhores pessoas na História não acreditavam em Deus, enquanto muitos dos piores actos se cometeram em seu nome”. Sim, são palavras do Papa Francisco, que está a levantar uma ligeira (mas necessária) revolução na Igreja ao quebrar dogmas que vêm de longe. Mais frases do Papa Francisco? Sobre a homosexualidade: “Quem sou eu para julgá-los?”. Sobre o aborto:  “O perdão de Deus não pode ser negado a quem se arrependeu”.

 

Por sorte, crescem também adeptos de práticas como ioga, meditação, reiki ... e todo o tipo de práticas e terapias que visam reconectar o ser humano consigo mesmo e com a Natureza. Adeptos a regressar ao campo e a uma vida mais tranquila e saudável. Adeptos que buscam meios de informação alternativos. As grandes mudanças nascem sempre de uma semente, e o importante é acreditar, dar o exemplo e passar a mensagem. Escutar e rir mais com as gentes deste mundo incrível. Eu? Em Chaves ou qualquer cidade de qualquer país, que posso fazer? Citando Séneca, “pobres são aqueles que precisam de muito”.

 

Sandra Pereira

 

 

04
Fev16

Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade

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Portugal e os Portugueses

 

É uma língua que soa bem. É um dos lugares onde melhor se come. É gente simpática e prestável. É um país bonito. O português que ouve a opinião de estrangeiros sobre o país enche-se de orgulho. Portugal fascina, Portugal enamora.

 

Quanto mais ouço falar de Portugal cá fora, mais gosto dele cá dentro. Ninguém fala de política, nem de dívidas, nem de corrupção, fala-se de como é bom viver num país que ainda conserva a sua beleza natural, sorri e aprecia a sua comida. E penso na minha batata cozida, no caldo verde, no pão centeio, no bacalhau... Cá fora também se encontra? Pouco. E o pouco que se encontra? Cá fora não é igual.

 

Beleza. “O que falta aos portugueses para serem felizes?”, perguntam-me algumas vezes os estrangeiros. Têm sol, montanha e mar. Portugal é um país pequeno? Por sorte! Aqui, a natureza é vizinha de todos e os alimentos que ela e os segredos dos ancestros dão, saborosos. E o resto (também) é paisagem.

 

Amor. Nunca soube tão bem dizer “no Verão volto a Portugal porque tenho um casamento”, ou “no Verão volto a Portugal porque o meu avô faz 80 anos”. Um reencontro entre portugueses é a melhor festa do mundo. Nunca soube tão bem voltar por amor.

 

Valor. Portugal tem valor. Só lhe falta auto-estima.

 

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 Biscoitos, Ilha Terceira, Açores, Janeiro 2016 - Fotografia de Sandra Pereira

 

Quanto mais ouço falar de Portugal cá fora, mais gosto dele cá dentro. O português que ouve a opinião de estrangeiros sobre o país enche-se de orgulho. Portugal fascina, Portugal enamora. Temos quem nos governe, mas não somos governáveis: somos livres. Livres de voltar à simplicidade e à cooperação, livres de voltar à entreajuda e à solidariedade. Perdoem-me o atrevimento, mas não me canso deste “discurso”: sabe sempre bem escrever um “discurso emigrante sobre o país”. Só para relembrar que Portugal tem fado. Só lhe falta senti-lo (que país queremos?) e segui-lo.

 

Sandra Pereira

 

 

06
Nov15

Discursos Sobre a Cidade

discursos-chico

 

Beba Água! Olhe por si!

 

Numa das Assembleias Municipais do nosso concelho, já neste mandato autárquico, foi afirmado que “sempre os flavienses trataram a água como um bem comum, um recurso natural regenerável que não conhece fronteiras nem limites de propriedades, cujo acesso é, para todos nós, um direito humano inalienável.”

 

Como se propõe a Câmara defender este direito? O que pode fazer a autarquia, e não faz, para o garantir?

 

Na minha opinião, em primeiro lugar, em vez de enterrar a cabeça na areia como a avestruz, a câmara deve conhecer o nível de deterioração da rede e, para isso, torna-se necessário conhecer a atual extensão, severidade e natureza da mesma.

 

É aceitável que a entidade responsável pela construção de uma rede (a própria câmara) não a conheça? Não sei! Não deveria ser possível.

 

É aceitável que a Câmara nem cartografia tenha para registar por onde passa a rede? Essa é que é a verdade.

 

Bem sei que a Fundação Nadir Afonso (ou renomeada Museu Nadir Afonso) e muito mais importante! A dezena de milhões aplicados para se estar agora a encher de mofo é outra fonte de glória que não a água potável, é uma medalha de boa gestão municipal. Mais, mesmo que a água se perca e o prejuízo nos seja surripiado à força dos bolsos, a Fundação é assunto mais “Fino”, assunto de elegância e civilização! Ora, ora! Upa, Upa! Caso sem dúvida para afirmar que o supérfluo supera, pela vaidade, o essencial.

 

Não deixa de ser interessante registar que a nossa rede de água é ainda constituída muita por tubaria dos anos 80 (ou mais velha) e, como não se sabe bem como é, resta-nos pensar que é adequada a transportar água para consumo humano pois todos sabemos que nessa altura se usava tubaria de uma espécie de porcelana que, não raras vezes, possuía amianto na sua composição.

 

O que fazer nestas circunstâncias?

 

Parece-me razoável que se proponham ações concretas que reduzam a taxa de deterioração e, caso já não seja possível sustê-la, efetuar a substituição das seções deterioradas. Lógico?

 

Durante algum tempo o que pareceu lógico foi usar o dinheiro da venda da água aos flavienses para fazer a Fundação Nadir Afonso sem assim pedir autorização para efetuar empréstimos. O lógico foi não pagar ao fornecedor de água, para que a dívida acumulada venha agora a constituir-se como pretexto para que este se venha a apossar do que é nosso desde o tempo em que o nosso primeiro rei expulsou os mouros e os espanhóis. Sim, porque a água é um bem comum!

 

Lamentavelmente a atual gestão não assume erros crassos e à vista de todos. Não assume que uma parte da questão das perdas, que geram o diferencial de valor entre o que se compra e o que se vende, está relacionada com falta de investimento na exploração e manutenção da estrutura de distribuição de água e saneamento da cidade nos últimos 15 anos.

 

Esta gestão, como a anterior, não quer abandonar a estratégia que atribui (tacitamente) o controlo da distribuição ao consumidor. Assim, tem-se pedido que este se ocupe de identificar as faltas de água e as ocorrências de má qualidade da água, os vazamentos etc. Esta função não compete antes à câmara municipal?

 

Ora, se é competência da autarquia, esta não deve continuar, nesta matéria, a agir com passividade e algo tardiamente, sob pena de continuar pouco eficaz e dependente dos alertas que cheguem ou não.

 

É urgente iniciar uma nova fase centrada no controle operacional do serviço, tendo em vista a redução de perdas já que a fase dos projetos e investimentos concentrados na ampliação da capacidade de produção e distribuição, não fazem sentido. A aposta em projetos megalómanos, que desviam recursos para o que não é essencial levam à redução da população residente, pelo que os atuais sistemas são já suficientemente capazes de garantir o abastecimento e o tratamento dos afluentes líquidos. A rede é que está uma miséria!

 

O estado de ineficiência atual do abastecimento de água já não decorre de problemas relacionados com a satisfação das necessidades dos consumidores em termos de quantidade ou mesmo de qualidade da água, mas do preço cobrado às pessoas pelos serviços de fornecimento de água e saneamento.

 

Já agora! A autarquia não deveria explicar aos flavienses as razões para não baixar o preço de venda da água às famílias, quando hoje a compra mais barata do que no passado? É legítimo perguntar para onde vai o ganho?

 

Está a fazer o mesmo que as empresas de venda de combustível pois, estas, mesmo baixando o preço do barril do petróleo, recusam baixar o preço da gasolina e, no final do ano, apresentam sempre lucros maiores.

 

Não há crise que lhes pegue!

 

Para terminar, gostaria de me inquietar convosco, pois não sei quando é que as perdas de água na rede de abastecimento vão ser enfrentadas.

 

Ficam algumas interrogações:

 

Quando se vai saber a dimensão dos erros de medição ou fazer a manutenção de contadores de água, por forma a melhorar a sensibilidade dos medidores a vazões muito pequenas? Nada sabemos da precisão dos contadores, métodos de medição escolhidos e registo;

 

Quando se esclarece a dimensão dos fornecimentos não-faturados por uso clandestino ou viciado ou ainda por consumidores sem contador de água.

 

Qual a dimensão dos vazamentos em ramais e adutoras sem manutenção?

 

Como se justifica que uma questão tão importante como a do controle de pressão na rede, que permitiria reduzir de imediato o volume de água perdido, reduzindo não só a frequência de rebentamentos de tubagens e consequentes custos de reparação como também os perigos causados aos automobilistas em ruas e estradas, não tenha ainda um plano de ação elaborado?

 

Mais poderia dizer, mas penso que já compreenderam que temos motivos para andar preocupados com a nossa cidade.

 

É possível fazer melhor, trabalhando a pensar no bem comum!

 

Francisco Melo

 

 

30
Out15

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

CAIU O TABU DAS ESQUERDAS, QUEBROU-SE O FEITIÇO DAS DIREITAS

 

No nosso último «Discurso sobre a cidade», em vésperas do ato eleitoral para a nova Assembleia da República e, consequentemente, novo governo, escrevíamos: “Tal como no final do célebre poema de José Régio - Cântico Negro - direi, no próximo dia 4 de outubro, apenas «sei que não vou por aí!» Porque o que se passar a nível nacional, óbvia e naturalmente, terá repercussões neste rincão flaviense a que pertencemos de coração!...”.

 

Minhas derradeiras palavras, bem assim o texto que as antecedia, iam no sentido da rejeição da continuação de um modelo de sociedade de base neoliberal, doutrina que, já na década 80 do século passado, não suscitou a simpatia maciça dos cidadãos, quer nos Estados Unidos da América, quer em Inglaterra, com Ronald Reagan e Margaret Tatcher, e que teve então, como hoje em dia com mais intensidade, brutais consequências sociais: agravamento das desigualdades, aumento do desemprego, desindustrialização, degradação dos serviços públicos, deterioração dos equipamentos coletivos, etc..

 

Pese embora aquelas propostas monetaristas, todos estes problemas não foram (ou sequer são) automaticamente resolvidos pela mão invisível do mercado e pelo crescimento macroeconómico.

 

Em suma, era urgente que a vitória do pensamento único, da pretensão universal de interesses de um conjunto de forças económicas, em particular as do capital financeiro internacional, com a militância ativa de certos políticos de pacotilha, parassem de nos asfixiar e nos reduzir, com o auxílio das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), em particular da televisão e da internet, a simples, meros espetadores, a simples e meros objetos ou pura mercadoria!

 

E, entretanto, na Europa, que queríamos desenvolvida e solidária, e em quem acreditávamos, e com tanto orgulho teimávamos construir, pela cabeça da brilhante intelligentsia tecnocrática, era tudo levado no furacão e pendor neoliberal, resvalando na estagnação e no não crescimento e, depois, ficando sem qualquer projeto.

 

Sem projeto e cedendo, em toda a linha, ao capital financeiro internacional, ficando os cidadãos europeus despojados dos indispensáveis pontos de referência culturais e, consequentemente, desidentificados.

 

Daí ao aparecimento não só de uma crise económica, como, ainda mais grave, a pior das condições mentais - sem horizontes de referência para o futuro.

 

Votámos na esperança de, com o nosso voto, podermos contribuir para alterar este estado de coisas. Cientes do grão de areia que representamos, mas confiantes que a ampulheta do tempo chegará.

 

Mas sabemos que não é tarefa fácil!...

 

O futuro, hoje em dia, com a crise económica, apresenta-se incerto. E, tal como Edgar Morin afirma, estamos numa época em que as certezas se desmoronam, porquanto o mundo encontra-se numa das grandes bifurcações históricas, ainda não identificadas, e não sabemos ainda como, quando e para onde vamos.

 

Daí não admira que a presente hora seja de questionar certezas, rever práticas, compreender os novos parâmetros do tempo presente.

 

Se as sociedades europeias continuam a navegar sem objetivo bem definido e sem uma nítida representação do seu devir, urje, pois, - porque não se pode dispensar - uma reflexão a longo prazo e em profundidade, com novas práticas de encarar os problemas da economia e da sociedade.

 

Como cidadãos, devemos estar mais conscientes do mundo que nos rodeia. E nós, portugueses, de todo ainda não estamos!

 

Por isso, não nos espanta os resultados eleitorais.

 

Em primeiro lugar, o grau de abstenção, que poucos falam. Se a nova emigração de portugueses tem uma quota-parte de responsabilidade nela, por outro lado, os partidos tradicionais do arco do poder, ao não darem nova esperança e novo alento aos cidadãos, outra alternativa não lhes deram que não o desinteresse.

 

E também não espanta o resultado do Partido Socialista e a subida exponencial do Bloco de Esquerda. As políticas neoliberais que o centrão levou a cabo nos últimos anos afastou o eleitorado que queria uma sociedade mais justa e solidária ou para a abstenção ou, os mais resistentes e contestatários, para o Bloco.

 

Naturalmente que o «caso Sócrates», independentemente dos factos judiciários, mas com contornos de vendeta de certo poder judicial, foi aproveitado até ao limite, numa lógica não só mercantil da notícia bem assim de ajuda prática e militante à coligação no poder. No nosso entendimento, a vitória da coligação tem de ser vista (também) por este prisma.

 

Se bem que tenha sido crítico - e tenha escrito - quanto à forma, como António Costa subiu a Secretário-geral do Partido Socialista (PS), “porquanto não há razão alguma para que as razões de estado partidário se sobreponham à ética e aos princípios”, havemos de concordar que António Costa, ao preferir um acordo ou coligação às esquerdas do que juntar-se com as direitas, andou bem.

 

Nunca se deveria encarar uma eleição, qualquer que ela seja, como uma guerra - com vencedores e vencidos - mas o culminar de um profundo debate e reflexão da sociedade em que pomos a escrutínio as melhores opções para o país.

 

Lucidamente, António Costa, no dia das eleições, com os resultados apurados, foi claro, apresentando o quadro e as opções mais consentâneas com a lição que o eleitorado tinha dado ao PS.

 

Com estas eleições, quebrou-se o feitiço, vindo abaixo o tabu de as esquerdas jamais se entenderem, porquanto esse entendimento era simplesmente apanágio das direitas.

 

A construção de um país, hoje em dia, já não é compaginável com heróis ou políticos providenciais: é feita com líderes que tenham a humildade, a inteligência e a lucidez de que só com a participação ativa, livre e profícua de todos os cidadãos é que se encontrará a melhor visão para uma sociedade e um país. Quanto à visão da coligação das direitas, em quatro anos, ficámos confessados.

 

E que dizer da postura de Cavaco Silva que, muito embora indigitando legitimamente, dentro da dita tradição, Passos Coelho, no discurso da sua nomeação mostrou, de uma forma preocupante, uma postura faciosa, de seita, muito pouco isenta e pouco própria, já para não dizer, nada democrática, para aquilo que deve ser e se deve esperar de um cidadão que é Presidente da República?...

 

António Costa, pelo contrário, esteve bem quando, lendo e interpretando os sinais do eleitorado, chamou à mesa do diálogo todos aqueles que as direitas consideram como cidadãos de segunda, pouco dignos.

 

Sabemos que os projetos das esquerdas são muito diferentes uns dos outros. Que vão até ao ponto de porem em questão Tratados e compromissos que o país assumiu com outros países parceiros. Entendemos que, embora a nossa honorabilidade como país deva ir no sentido do seu respeito, contudo, jamais os devemos encarar como leis divinas e imutáveis, que não o são.

 

E tudo isto quando sabemos que a Europa, no seu todo, não vai bem e muitas das suas regras são contestadas por outros parceiros. Nada pode ser tido como definitivo e adquirido. Tudo se vai construindo...

 

Somos contra o unanimismo e o consenso único. Aqui estamos com Zygmunt Bauman quando afirma que “o único consenso que tem alguma possibilidade de êxito é o reconhecimento da heterogeneidade dos desacordos”. A pretensão de se querer que em política se obtenha um consenso geral que supere as distinções ideológicas e sistémicas, como diz Daniel Innerarity, já não é sustentável em sociedades abertas, complexas, heterodoxas, multiculturais, policontextuais, mas com forças centrípetas poderosas e homogeneizadoras, que não se articulam de maneira centralista ou hierárquica.

 

Esperamos, sinceramente, que a quebra do tabu quanto ao entendimento das esquerdas vá ao cerne daquilo que nos deve manter como povo. Com justiça, equidade e solidariedade, a todos os níveis. E cada um mantendo, saudavelmente, as suas diferenças e sairmos desta nova situação com uma certeza: da política não se deve esperar nem a solução definitiva de todos os problemas nem a salvação das nossas almas, mas qualquer coisa muito mais modesta, embora não menos decisiva do que o que proporcionam outras profissões e profissionais muito honrados. Assumindo a constatação da diversidade; o reconhecimento da diferença; a assunção do conflito como elemento consubstancial a qualquer comunidade ou sociedade e que só pela constatação dessa diversidade, diferença e conflito é que um diálogo sério e profícuo pode ser assumido; trabalhando como interpares, sem resquício de qualquer imperialismo ou subserviência.

 

Apesar da política e os políticos nunca terem estado tão limitados na sua margem de atuação, temos de reconhecer que a necessidade da sua atuação nunca foi tão decisiva como hoje.

 

Enfim, um trabalho e um combate que tem de ser feito com o empenhamento dos mais competentes, honestos e justos e que saibam dar corpo e alma, num sentido querido pelo povo e, tanto quanto possível, o mais partilhado por todos.

 

Se hoje patenteamos e assistimos, infelizmente, a uma globalização elitista, em cujos processos as condições materiais de existência são crescentemente apropriadas pelos novos cidadãos do mundo, urje lutar politicamente por uma globalização inclusiva, em que desenvolvimento passe a significar mais qualidade de vida, maior partilha do bolo de bens e riquezas, que os agentes privilegiados do sistema do mercado se negam a socializar, em vez de uma acumulação de capital predominantemente privada, conquistado à custa da descartabilidade do ser humano-cidadão.

 

O 25 de Abril trouxe-nos a Liberdade e a Democracia. Que aqueles que mais por ela lutaram sejam agora dignos de fazer a inversa navegação por um mar tão encapelado como aquele em que estamos e com os escolhos que nos esperam!

 

Num momento tão grave e difícil para todos nós portugueses, que Chaves me perdoe se hoje não falo dela. Porventura o nosso futuro também como cidade e município não dependerá deste momento?

 

António de Souza e Silva

 

 

01
Out15

Discursos (emigrantes) sobre a cidade

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Crónica do reencontro

 

A nossa terra é sempre um ponto de encontro para partilhar momentos felizes ou tristes. É aqui que os grandes momentos, os acontecimentos que nos marcam verdadeiramente nesta vida vão sempre dar. As raízes! Sempre voltamos a elas.

 

E é tão bom podermos partilhar esses momentos, tanto os felizes como os tristes, com as pessoas que melhor nos conhecem, saber que, nestes momentos, temos alguém que se alegra connosco ou nos limpa as lágrimas com reconforto. Tão bom sentirmos a necessidade de regressar quando estamos longe para partilhar esses momentos com as pessoas e os lugares que sempre fizeram parte da nossa vida. Podermos aí sermos realmente quem somos e sentir-nos completos.

 

O emigrante que regressa num relâmpago à terra, regressa inteiro e de coração. Dá e recebe uma alegria genuína. Transforma o momento e o sentimento do reencontro em algo grande, belo, extraordinário e inesquecível. Saboreia cada momento, cada minuto, cada lugar, pois sabe que tem partida marcada, sabe que será um momento único e irrepetível durante muito tempo. A saudade – e a “matança” da mesma – é uma das coisas mais bonitas do mundo. Intensifica a vida e os sentimentos.

Larouco.JPG

 Serra do Larouco

Quando não vive na terra, ele sente-a tanto como quem lá vive. Lá fora, o emigrante fala dela e dá-a a conhecer a todos os que não a conhecem. Trata-a com tanto valor, admiração, amor e respeito, que todos sentem vontade de conhecer esse “Portugal” para além da típica visita turística de postal a Lisboa. E, a determinado momento, eles trazem à terra pessoas de terras longínquas e culturas bem diferentes, com novos olhares, que de outro modo, se nunca se tivessem cruzado com eles, nunca viriam por si sós. Chegados ao “verdadeiro” Portugal, os estrangeiros espantam-se, vivem e saboreiam as pequenas coisas e prazeres, aqueles que os que aí vivem todo o ano nem notam.

 

E aí a magia do reencontro torna-se ainda mais especial, pois o apreço dos visitantes ocasionais enche-nos a todos de orgulho, tanto aos que habitam a terra como aos que ela habita nos corações.

Sandra Pereira

 

03
Set15

Discursos (emigrantes) sobre a cidade

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Novo ciclo

 

Partem os emigrantes, acalma-se a agitação de Agosto. Regressa a calma, a rotina diária. É assim todos os anos. Setembro lembra-me o Ano Novo, em Janeiro, um mês em que tudo recomeça, um novo ciclo.

 

Para mim, Setembro sempre foi um mês para respirar fundo, ganhar fôlego e voltar a começar, com forças renovadas e energias recarregadas pelo Sol, a alegria e o calor do Verão. Mesmo que signifique o fim das férias, não é um mês triste, mas antes excitante, perfeito para reforçar ou tomar novas resoluções até Dezembro. É pegar nos sonhos das noites de Verão, traçar metas e caminhos a percorrer para alcançá-los.

 

Um novo ciclo que sempre aproveitei, estando em Chaves ou no estrangeiro, e que aconselho vivamente. Parar e pensar: no que gostariamos de fazer e alcançar até ao final do ano, no que não gostamos e queremos desfazer-nos na nossa rotina diária, nas novas vivências e emoções que queremos acrescentar-lhe. Setembro é a desculpa perfeita para arregaçar as mangas e mudar para melhor.

 

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 Catalunha, Outubro 2013 - Fotografia de Sandra Pereira

 

E na nossa terra, não faltam locais para parar e pensar. Desde o parque da cidade de Chaves à beira do rio Tâmega e às belas aldeias que regressam à sua paz aos montes que nos rodeiam e às serras do Larouco ou do Lesenho. Quem pede ajuda à natureza, tem resposta certa.

 

E se falta coragem e otimismo, em Setembro, dia 28, sempre pode olhar para o céu para admirar a maior super lua do ano, e inspirar-se na sua beleza para sonhar e cumprir um novo ciclo.

Sandra Pereira

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