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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Out18

Discursos sobre a cidade

SOUZA

 

 

O FACEBOOK COMO UM INSTRUMENTO NO EXERCÍCIO DA CIDADANIA

 

 

Não confundamos.

 

As «amizades» do Facebook são de outra ordem.

 

A este propósito, veio-nos à lembrança uma das passagens de uma entrevista do recém-falecido Bauman, quando se referia ao Facebook, e aos «amigos» desta «rede».

 

Dizia ele tratar-se de uma pessoa solitária, numa multidão de solitários.

 

Será?

 

Só?...

 

Será como Bauman diz, a atratividade deste tipo de rede é que não cria compromissos, não estabelece verdadeiros laços humanos, ao não se efetuar uma conexão de verdade como aquela que põe face a face, corpo a corpo e olhos nos olhos as pessoas?

 

Será que este tipo de relação, no Facebook, não promove ou não cria, compromisso nenhum entre amigos?

 

Será que não estamos perante uma pura espetacularização da vida privada, em plena praça pública?

 

Que a essência desta relação está só, e apenas, no «conectar» e «desconectar» do «amigo», conforme a este lhe der na “real gana”?

 

Não provocando, assim, situações difíceis que o «desconectar» real de uma amizade concita - na rotura da mesma -, e que, até, pode ser traumática?

 

É certo que o Facebook está na moda. E que reflete um dos “sinais dos tempos” propiciados pela novas tecnologias da comunicação e da informação, no contexto de uma sociedade globalizada, como aquela em que vivemos.

 

Uma sociedade em que se acentua, de forma cada vez mais clara, os sinais identificadores da perda das identidades e das raízes dos cidadãos. Uma sociedade em que assistimos ao paradoxo de sermos cidadãos do mundo, graças às fantásticas inovações tecnológicas e, ao mesmo tempo, sentimo-nos isolados diante de uma realidade que, muitíssimas vezes, nos escapa do controlo.

 

O homem globalizado, do nosso tempo, é um homem fragmentado e eticamente confuso, num processo acelerado de homogeneização e uniformização.

 

Sabendo embora tudo isto, perguntamo-nos:

  • Será que as «amizades», os diálogos e trocas de opinião que «a rede» estabelece e propicia podem-se entender como uma nova forma de “espaço público”, compreendido como ambiente de convívio e de formação da cidadania, sobretudo num momento histórico marcado pelo isolamento cada vez maior dos indivíduos, engaiolados em espaços privados, em nítida demonstração de retrocesso e de vitória do individualismo, em detrimento das conquistas coletivas?

 

A pergunta pode ter duas respostas.

 

Pela nossa parte preferimos aquela que vê e se serve da «rede» como uma possibilidade de “alcance de campo” que esta propicia, ao ampliar as possibilidades de conhecimento e de “mobilização” do cidadão  em ordem à construção da polis.

 

Pela convivência com os seus pares, integrantes da comunidade a que voluntariamente “aderiu” e/ou à qual pertence.

 

Comunidade efetiva e afetiva de homens e mulheres livres. Solidários. Justos.

 

Que, em última instância, procuram o contacto equilibrado e harmónico com a mãe-natureza.

 

Sem pretendermos darmos lições a ninguém, sinceramente esperamos que, passado um ano, depois de serem eleitos para os novos cargos autárquico no nosso concelho, os nossos novos representantes saibam estar à altura dos desafios que hoje são colocados à nossa sociedade.

 

Que não se usem as novas tecnologias de comunicação e informação apenas como simples fachada, mas como um meio ou instrumentos de, todos, construirmos, em verdadeiro diálogo, a nossa polIs.

 

Procuraremos estar atentos…

 

António de Souza e Silva

 

 

28
Set18

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

DESGARRADAS

 

As noites do inverno em Trás-os-Montes continuam mais longas do que em qualquer outro sítio.

 

Após o ocaso começa a gear e ainda a hora da ceia vem longe já o carambelo emprenha de diamantes os galhos das árvores e os beirais dos telhados.

 

Uma melancolia álgida acompanha a cria que recolhe lusco-fusco às cortes e o homem-bicho que se esgueira para o conforto do tição.

 

Manja-se do que o outono colocou no celeiro e aguarda-se, pacientemente, que desponte um dia mais ridente do que o que pereceu.

 

O tempo transmontano insiste em correr pachorrento, ao ritmo do crescimento dos buxos dos adros das capelas, apesar da modernidade ir preenchendo os tugúrios com a tecnologia experimentada nos espaços urbanos.

 

Um privilégio cada vez mais raro que importa manter (?).

 

Há anos, não muitos, quando as candeias de azeite alumiavam, mortiçamente, essas noites gélidas, as pessoas consumiam as horas do serão tagarelando à volta de um canhoto de carvalho negral que se consumia, tranquilamente, na lareira dos casebres. Aproveitavam para botar contas à vida, os queixos a um cibo de aguardente, quem na tinha, para lamentar a má sorte ou para contar estórias, algumas delas reinventadas, mas com epílogos quase sempre felizes. Outras vezes juntavam-se na casa do forno, se o nevão o permitisse, consumindo lugares comuns e ausência de novidades.

 

Uma vida triste!

 

Na casa da Ti Joana Caçolina tudo se passava no rame-rame de sempre.

 

O Ti Antero, seu marido, era o chefe da família ia para mais de uma vintena de anos. Dedicava-se à agricultura. Contudo, tinha jeito para a carpintaria e sempre que podia não rejeitava uns magros tostões que lhe pudessem advir desta arte.

 

Tiveram filhos muito tarde.

 

A Ti Caçolina chegou a pensar-se matchorra, não fora ter convencido o marido a acompanhá-la à Misarela na foz do Regavão. Passaram lá uma noite fria, mas valeu a pena. Emprenhou de gémeos aos quarenta anos.

 

O parto não foi muito normal e se não fosse a Tia Cândida a ajudar a dilatar as carnes, ressequidas, da parideira e os gémeos não teriam vencido. Mas venceram e deram dois rapagões de estalo: O Delmino e o Delfim.

 

O primeiro, aos doze anos, já se gabava de fazer a barba, embora reconhecesse que raramente precisava de afiar a navalha!

O Delfim, com a mesma idade, já pintava!

 

Não sendo uma família abonada, nem tão pouco remediada, também não se podia dizer que fosse pobrezinha. Vivia do que a terra dava e, não sendo muito, sempre se compunha a mesa com a carpintaria que ajudava a controlar os calotes na mercearia do Magalhães.

 

Os rapazes eram dados às artes musicais.

 

De latas faziam bombos, da casca das varas de castanho flautas, das bancas de tripé concertinas e passavam as noites a oferecer grandes concertos.

 

Umas vezes cantavam à desgarrada, imitando os cantadores que observavam pelas romarias, com improvisos bem conseguidos, para gáudio da família, outras remedavam os cantores da moda, que ouviam no rádio da taberna.

 

Era uma alegria na casa da Ti Joana!

 

Uma noite, de inspiração desusada, os rapazes ajustaram, de aposta, um cartar ao desafio. Seria vencido o que primeiro perdesse a rima.

 

Quadra dum lado, resposta do outro, e a coisa foi-se amanhando, com tal sucesso que o Ti Antero soltava estridentes gargalhadas entre dois golos de maduro tinto, do de Cobaladrão, que aquecia ao borralho, na pitxorra preta de Nantes.

 

Entrementes, o Delmino, em resposta a um atrevimento do gémeo, botou a rima seguinte:

 

Boa noite meus senhores

No fundo d’um alguidar meu

O meu pai é serrador

Serrou os cornos ao teu!

 

Não havia ainda terminado e já a Caçolina, sua mãe, puxara a culatra atrás pespegando tamanho bofetão nas trombas do cantador que lhe afocinhou os queixos na cinza da lareira! O rapaz ficou tão atromelizado que precisou de muitos anos para perceber o que justificara aquela atitude marada de sua mãe!

 

Uma coisa é certa, nunca mais, a partir daí, houve noutro serão cantigas à desgarrada. Pudera, é que a Joana Caçolina tinha imenso empenho na sua fidelidade matrimonial!..

 

O Ti Antero inchou de empáfia por ter sido considerado, simultaneamente, o protagonista e a vítima.

 

Também ele precisou de muito tempo para perceber aquela atitude inesperada da sua querida esposa!...

 

Gil Santos

 

 

 

07
Set18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

 

PALAVRAS SOLTAS

 

 

Aqui se deixam aos nossos leitores, um conjunto de palavras soltas, «desventradas» de textos que, ao longo de um ano, fomos escrevendo nas redes sociais onde escrevemos.

 

Todas elas, grosso modo, debruçam-se sobre temas que nos são caros, nomeadamente, o poder das novas tecnologias de informação e comunicação (TIC), o espaço público, o exercício da cidadania, o socialismo e a social-democracia.

 

Apresentamos, em tempo de férias, palavras ditas, de caráter genérico, mas, mutatis mutandis, perfeitamente válidas e atuais, como não podia deixar de ser, nos tempos por que passamos e para a comunidade em que nos inserimos.

 

O reino e as temáticas das TIC, do espaço público, do exercício da cidadania, da discussão à volta do liberalismo, o socialismo e a social democracia, jamais está concluída. Representam temas e consubstancia(m) projeto(s) de uma sociedade em construção. Em que a recriação dos espaços públicos e o exercício da cidadania impõem-se-nos, cada vez mais, com muita acuidade e urgência.

 

E não se iludam aqueles que, com a mudança de poder, tudo muda, ou pode mudar. Muito pelo contrário – é uma folha em branco que se nos apresenta à nossa frente para ser escrita.

 

O tempo, sempre demasiado célere, se encarregará de dizer em que moldes é que ela foi escrita…

 

E porque nós flavienses, vivendo numa sociedade globalizada, e não vivendo numa ilha isolada, imunes a quaisquer acontecimentos e influência, as palavras dispersas, abaixo reproduzidas, para nós fazem todo o sentido e têm toda a valia.

 

As últimas palavras soltas referem-se à Europa da qual fazemos parte. Nelas inculcávamos uma ideia de otimismo em relação ao futuro.

 

Citemos, então, algumas palavras soltas, de nossos textos dispersos:

 

***

 

Habermas, a propósito do espaço público, dizia, já lá vão umas boas dezenas de anos, mais ou menos, o seguinte:

 

"Onde essa despolitização e esse empobrecimento mais claramente se manifestam é no tipo de comunicação que atinge a opinião pública: uma comunicação trivializada e sem autênticos debates. Realiza-se nela um tipo de confrontação elementar em que o acontecimento está acima do argumento, o espetáculo acima do debate, a dramaturgia acima da comunicação, a imagem acima da palavra. A esfera pública fica reduzida a um conjunto de «espetáculos de aclamação»”.



Vem isto a propósito da Edição Especial que a RTP 1, há uns tempos, através da jornalista Fátima Campos Ferreira. Alguns dos entrevistados foram Sampaio Nóvoa, José Gil, Freitas do Amaral e Adriano Moreira. Não pomos em causa a valia dos entrevistados. Interrogamo-nos, na linha de Habermas, o que se pretende. Não desejamos «espetáculos de aclamação», necessitamos que a comunicação (e, neste caso, um meio de comunicação pública) saia dos seus moldes estereotipados do espetáculo televisivo e seja capaz de nos mobilizar para as tarefas da construção do nosso futuro coletivo, criando um efetivo ambiente de construção de uma verdadeira opinião pública. «Pareceres» ou conhecimentos de peritos, precisam-se. Mas, urge ir mais além, ou seja, termos uma televisão pública ao serviço da cidadania, ajudando a criar uma verdadeira opinião pública. Opinião pública de que tanto necessitamos.

 

***

 

Na era da informática, cujas benesses são inegáveis, sofremos com o crescimento do imediatismo em todos os setores da vida humana, na medida em que os homens passam a atuar no mundo de forma meramente utilitária (expressão aqui entendida como a aproximação entre bom e útil). Buscam prazeres efémeros e de fruição individual, sem se atentarem para a importância do convívio social e do bem coletivo.

 

É inegável a proliferação de uma conceção de vida que evitas o comprometimento em relação ao outro. A rápida absorção por toda a sociedade de valores estritamente económicos passou a fundamentar condutas que se regem pela ideia do que é mais «lucrativo». Não somos contrários à perceção de justa retribuição por trabalhos que os seres humanos exercem em cada área de suas vidas. Todavia, não podemos concordar com o facto de absolutamente todos os setores da vida humana se reduzirem a uma relação de «custo-benefício». Ainda acreditamos em valores essenciais que jamais poderiam ser reduzidos em fórmulas económicas.

 

***

 

Ainda é incerto o efeito que a internet virá a produzir no espaço público. Mas uma interrogação se impõe, de modo irrecusável: ela contribuirá para facilitar a aquisição de uma cultura cívica comum ou, como temem alguns, favorecerá a fragmentação e a polarização social? A influência dessas inovações técnicas nos sistemas democráticos é motivo, ao mesmo tempo, de entusiamo e medo.

 

***

 

Se o grande feito político do século XXI foi ter consolidado a democracia é também verdade que a legitimação do Estado, com base exclusiva na democracia representativa, se esvaziou, por via do crescente distanciamento da maioria absoluta da sociedade. A política subordinou-se à economia, dominada por um sector financeiro que procura riqueza sem produção. Nestas condições, o poder político do Estado não cessa de perder legitimidade. Na era da informática, cujas benesses são inegáveis, sofremos com o crescimento do imediatismo em todos os sectores da vida humana, na medida em que os homens passam a atuar no mundo de forma meramente utilitária (expressão aqui entendida como a aproximação entre bom e útil). Buscam prazeres efémeros e de fruição individual, sem se atentarem para a importância do convívio social e do bem coletivo. É inegável a proliferação de uma conceção de vida que evita o comprometimento em relação ao outro. A rápida absorção por toda a sociedade de valores estritamente económicos passou a fundamentar condutas que se regem pela ideia do que é mais “lucrativo”. Não somos contrários à perceção de justa retribuição por trabalhos que os seres humanos exercem em cada área de suas vidas. Todavia, não podemos concordar com o fato de absolutamente todos os sectores da vida humana se reduzirem a uma relação de “custo-benefício”. Ainda acreditamos em valores essenciais que jamais poderiam ser reduzidos em fórmulas económicas.

 

***

 

Apesar de ter passado à história com o rótulo de socialismo utópico, Proudhon não exigia aos trabalhadores que sonhassem com um ideal utópico de sociedade – no qual não acreditava – nem que confiassem cegamente numa casta dirigente que lhes prometesse exercer o poder do estado em benefício dos seus seguidores. O seu objetivo eras combater «a preguiça das massas», que está na origem de qualquer autoritarismo. Em vez de ceder à obsessão do poder, ensinava a fazer frente à tendência invasora da autoridade, confiando na sua própria capacidade.

 

Face ao presente, urge uma nova leitura, um novo enfoque quanto às obras legadas pelos dois grandes pensadores que estão na origem daquelas que foram designadas como as correntes do «socialismo» e da «social-democracia», de Marx e Proudhon, respetivamente.

 

 

***

 

 

Gostaria de partilhar o conteúdo da última página do livro "O novo espaço público", de Daniel Innerarity, dada a oportunidade, face aos tempos que correm, da sua reflexão:


"(...) o nosso principal desafio consiste em abandonar os conceitos centrados na ideia tradicional de estado e criar uma compreensão alternativa das relações entre estados, as nações e as sociedades. Para entender bem a Europa é preciso tomar distâncias em relação ao conceito de estado. A Europa não é um estado, mas uma nova forma de organização do poder político para a qual não é apropriado o conceito de estado. Ao mesmo tempo, o conceito de soberania terá de abrir-se para os espaços de poder da era global. O conceito de soberania de que nós dispomos não parece adaptado às exigências do projeto político da cidadania europeia. Postas as coisas neste pé, tem razão Ulrich Beck quando assegura que uma Europa cosmopolita é hoje a última utopia política efetiva. Devendo definir um novo bem comum europeu perante os interesses mais imediatos do capital e dos estados, nós, europeus, temos a oportunidade de descobrir os grandes fins da política (...)"

 

Mas o tempo, esse elemento tão devorador, soprando por todos os lados e quadrantes, trazem-nos surpresas, que vêm carregadas de presságios, não augurando grande futuro.

 

Vivemos, positivamente, tempos difíceis.

 

António de Souza e Silva

 

03
Ago18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

 

DEMOCRACIA REPRESENTATIVA E PARTICIPATIVA NO QUADRO AUTÁRQUICO FLAVIENSE

 

Há democracia representativa que se consubstancia ou efetiva de uma forma ou autocrática ou participativa, tendo, entre uma e outra, vários estádios e nuances.

 

Tal circunstância deriva não só da personalidade dos eleitos e respetivas instituições pelas quais são propostos a sufrágio, como do grau de consciência cidadã e da dinâmica dos representados.

 

Ultimamente, no nosso município, temos vindo a assistir a um conjunto de iniciativas que nos questiona quanto à verdadeira postura deste novo executivo, liderado por Nuno Vaz.

 

Faz parte da cultura democrática deste novo executivo trazer os cidadãos à discussão e tomada de decisão das questões fundamentais no que concerne à construção e desenvolvimento da nossa cidade e do nosso concelho?

 

Esclarecemos.

 

Não temos suficiente vivência no concelho para, com efetiva verdade, opinarmos sobre esta questão importante.

 

Todavia, não é por não estarmos demasiado entranhados na vivência democrática da nossa terra que nos tira a capacidade de discernimento quanto à forma como levamos a cabo, democraticamente, as questões que afetam a vida dos flavienses.

 

Muitas vezes até um certo afastamento - um ver mais à distância -, torna a observação mais objetiva.

 

E, quanto àquilo que vimos ultimamente, temos razões bastantes para afirmarmos que há uma nova vontade de encarar a gestão da coisa pública flaviense de uma forma diferente.

 

Tivemos pena em não podermos assistir, no passado dia 25 de julho, no Auditório do Centro Cultural de Chaves, à Sessão de Esclarecimento – Museu das Termas Romanas – nem, no dia 30 do mesmo mês, na Junta de Freguesia da Madalena, à Apresentação Pública do Projeto «Conectividade entre as lagoas e o rio Tâmega e requalificação das suas margens».

 

Quanto à Sessão de Esclarecimento sobre o Museu das Termas Romanas, apesar de não estarmos presente, vimos e ouvimos com atenção toda a sessão que Afonso Freitas postou na sua página pessoal do Facebook.

 

E, a propósito do que vimos e ouvimos, sentimos necessidade de tecer algumas considerações sobre o que entendemos por desenvolvimento e arquitetura urbana em espaços públicos.

 

Considerações essas, aliás, que já vimos defendendo há muito tempo. Mas que nunca é demais frisar e/ou recordar:

 

As atuais estratégias de desenvolvimento compreendem a cidade como uma comunidade onde existe uma vida local e lugares requalificados. Infelizmente, o conceito utilizado tem sido o da requalificação através da arquitetura-espetáculo para ser exibida, gerando uma verdadeira teatralização do espaço público.

 

O que importa, nesta forma de «fazer cidade»,  é a diferenciação e a capacidade de «ilusão» que as «obras» provocam na sua passagem, desprendidas da  vivência e do quotidiana das pessoas que aí vivem, traduzindo-se, assim, num aniquilamento do lugar.

 

É certo, como dizem Borja & Forn, em “Políticas da Europa e dos Estados para as Cidades”, que o maior desafio do planeamento urbano contemporâneo é aumentar o potencial competitivo das cidades no sentido de responder às procuras globais e atrair recursos humanos e financeiros, quer nacionais, quer internacionais. Mas, de acordo com vários exemplos a que temos assistido, o planeamento tem sido feito à margem da cidade, com total esquecimento das pessoas que ocupam e vivem nesses espaços.

 

Na verdade, o que, infelizmente, se pretende é construir uma cidade cujos seus espaços «cativem o olhar» do turista ou que, em termos mais gerais, propicie uma atratividade em termos económicos, no conserto de uma sociedade totalmente rendida ao mercado.

 

Hoje em dia é frequente vermos uma cidade, e os seus espaços públicos, como se fossem uma simples mercadoria. Que é de todos, mas usufruído por muitos poucos. É uma lógica de produção e reprodução do sistema económico que aí está em vigor.

 

Contudo, o projeto de arquitetura urbana deve dirigir-se aos anseios e aspirações da população que dele vai usufruir, otimizando características fundamentais à sua apropriação. Estes devem possuir características próprias e identitárias que mantenham relações de proximidade e até mesmo de afeto como os mesmos.

 

Os espaços públicos, que antes eram destinados à sociabilização - o verdadeiro espaço vivenciado -, como define Henri Lefebvre, convertem-se na representação de um espaço artificial, desligado dos residentes e usuários, onde não se considera as tradições e as identidades locais, onde a escala do projeto não corresponde à escala do ser humano.

 

E, nesta lógica, muitos políticos e técnicos se esquecem que o espaço público tem como objetivo principal -  a apropriação pelo ser humano!

 

Por isso, temos de debater e por em causa a visão que o poder político tem sobre o território sobre o qual exerce poder. O poder municipal é o principal impulsionador do espaço público e, em particular, ao nível das cidades pequenas e médias [pela “forte concentração do poder e/ou pela maior visibilidade que ele pode ter”], o resultado destas intervenções pode induzir a persuasão do voto.

 

Basta considerarmos as sucessivas inaugurações de parques, praças e jardins em plena época eleitoral. O espaço público reflete, desta forma, a corporificação da preocupação e da capacidade especial da autoridade e, deste ponto de vista, surge como um produto personalizado que compromete o voto. A pressão ao nível dos técnicos é claramente elevada ao conceito de arranjo e assim destitui o espaço de uma forma que o deve caracterizar e individualizar, quando o essencial é entendermos a dinâmica das cidades e dos seus ocupantes e de refletir sobre a(s) nossa(s) identidade(s) e apropriação (ões) como cidadãos pertencentes a uma determinada comunidade.

 

As cidades não são estáticas. Têm espaços que desempenham funções. Funções que servem os seus habitantes e os quais delas se apropriam. A forma como as vivem, e delas se apropriam, distingue-as dos demais. E tornam-se, assim, elementos identificadores específicos de uma determinada comunidade.

 

Que querem preservar, pois são o seu selo, a sua marca distintiva.

 

Naquela Sessão de Esclarecimento do dia 25 de julho passado, não se assistiu a uma audição dos flavienses para uma tomada efetiva de decisão. Apenas a um «esclarecimento» sobre questões técnicas e financeiras, relacionadas com os problemas da ventilação do edifício do Museu das Termas Romanas, às quais a grande maioria dos flavienses está alheia, por serem questões de natureza técnica muito específica.

 

Mas, nas intervenções do público que acorreu ao Auditório, para além de se frisar essa circunstância, viu-se e sentiu-se, por parte do mesmo, uma verdadeira vontade dos flavienses quererem uma autêntica participação no modo como «construímos» a nossa cidade.

 

O que o presidente do executivo flaviense, cremos, devia ter sentido foi uma vontade firme dos flavienses quererem ser chamados à co-tomada de decisões que a todos nós nos diz respeito.

 

Não basta esclarecer. Não basta apresentar projetos. É fundamental que os flavienses tomem parte na forma como os «seus» espaços e equipamentos públicos são criados, modificados ou requalificados. Porque são seus. São de todos nós!

 

Sinceramente esperamos que o chefe do executivo municipal flaviense tenha entendido, naquela sessão, o «sinal» que os flavienses lhe deram, lhe transmitiram.

 

Não está, obviamente, em causa, a legitimidade de quem deva tomar as decisões em nome do Município. O que está em causa é que os flavienses, repete-se, querem ser partícipes ativos – e porque não dizê-lo – coautores das decisões que o município, nos seus órgãos próprios, devem tomar.

 

Porque só assim, os espaços e equipamentos públicos reconstruídos, requalificados ou novos poderão contar com os seus diretos beneficiários para, de acordo com as suas diferentes funções, serem por eles animados, dinamizados. Porque a eles lhes dizem respeito!

 

Porque só assim é que uma comunidade se sente viva, útil, identificada com o seu património, amiga do seu «locus», continuadora histórica da sua própria identidade e conciliada com os diferentes tempos que a compõem.

 

Em vez de encenação, urje criar-se uma efetiva dinâmica de participação cidadã e de animação, por estes, dos diferentes espaços e equipamentos públicos, que devem espelhar a alma e a dinâmica do povo flaviense.

 

E temos espaços suficientes para fazermos a diferença. Desde a reativação da ideia de bairro(s) no território citadino; da animação dos tradicionais e emblemáticos espaços públicos (praças e ruas); dos espaços e corredores verdes; dos equipamentos coletivos, como auditórios e museus, particularmente o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, o Museu da Região Flaviense e, quando abrir, o das Termas Romanas, entre outros.

 

São dos flavienses e para os flavienses que eles foram criados.

 

Quem, de fora, os visitar farão parte da «nossa festa»!

 

Nas discussões, e em particular quando está em causa o bem público, não podemos ser redutores: temos de abrir o enfoque da nossa visão para ver as coisas. Não há apenas o eu e os outros. Há que assumir mais propriamente o nós.

 

É aqui que as discussões públicas, pelos cidadãos, entram, representando um elemento fundamental de uma democracia que, para além de ser representativa, deve, fundamentalmente, ser participativa.

 

É assim que entendemos a ação e dinâmica do poder político autárquico.

 

 

António de Souza e Silva

06
Jul18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

 

PERDA DE MEMÓRIA OU FALTA DELA?

 

Não sabemos muito bem qual a razão que, todas as vezes que somos convidados por amigos, amantes da fotografia, para irmos para o Barroso, nos impulsiona sempre uma vontade de encontrarmos uma nesga de tempo, nos nossos afazeres quotidianos, para os acompanhar.

 

O mundo rural e o contacto com as suas gentes são mais a nossa «praia» do que o sofisticado, artificial e, tantas vezes, mesquinho meio urbano em que, hoje em dia, nos movimentamos e vivemos.

 

Percorrendo as aldeias, o casario tradicional, os campos e as serras do nosso mundo rural, sentimos, no contacto com as suas gentes, um halo muito maior de genuína autenticidade.

 

Aí há como que um voltar à nossa infância. Não uma infância de privações e misérias. Uma infância em que, independentemente das condições de vida, havia inocência, mais espírito de interajuda, solidariedade. Enfim, em que sentíamos um verdadeiro sentido de comunidade.

 

Infelizmente, hoje está tudo se desmoronando, tal como a nossa arquitetura rural tradicional, os nossos campos abandonados, à voragem das intempéries e do fogo. E, no meio destas ruínas ou escombros, apenas vamos encontrando alguns – muito poucos - «maiores», à espera da sua «chamada».

 

Olhemos para a nossa cidade e para as vilas próximas, que durante tantos séculos foram o suporte de um mundo rural ativo e dinâmico, e perguntemos-lhes: o que fizeram para que a matriz da nossa identidade, como transmontanos, durienses, altotameguenses e barrosões não definhasse?

 

Muito pouco. Ou quase nada. E nada digam que a responsabilidade foi dos sucessivos poderes centrais que deixaram o interior ao abandono! O que nós – os que cá ficaram e os da diáspora – fizemos? A culpa, aqui, não pode ficar solteira, ou apenas à responsabilidade de um só vilão!

 

Fomos na «onda» daquilo que interiorizámos como se fosse uma inevitabilidade dos tempos, assente na urbanização maciça e na globalização e homogeneização total das sociedades modernas. E esquecemo-nos de lutar e trabalhar para preservar as diferenças que nos distinguem e que, por isso mesmo, nos torna distintos.

 

Porque só lutando pela variedade das diferenças das diversas regiões que somos e temos em Portugal é que nos podemos impor como povo, sob pena de nos diluirmos na massa informe de simples e meros assalariados – por mais instrução e «canudos» que tenhamos – do capitalismo selvagem que hoje, por toda a parte, nos «vende», nos governa, impondo as suas normas.

 

E quanto admiramos um Homem, com letra grande, um grande transmontano que, durante uma vida inteira, outra coisa não fez  senão lutar, usando a sua pena, para que a nossa própria e genuína identidade, o sentido daquilo que nos faz(ia) um povo singular, não desaparecesse!

 

Era um duriense de gema, mas, acima de tudo, sentia-se um verdadeiro e autêntico transmontano.

 

E quanto ele gostava da cidade de Chaves quando, durante décadas, no período balnear, por aqui passava longas temporadas!

 

Veio-nos, aqui há dias, ter à mão um livro de João Céu e Silva, com o título «Uma longa viagem com Miguel Torga», da Editorial Asa. O autor desta obra, a certa altura, nas entrevistas que faz a diversas personagens que, de alguma forma, privaram com Torga, dialogando com o padre Valentim, da Gráfica de Coimbra, face à pergunta se conhecia muito bem Miguel Torga, este responde-lhe: “Talvez como ninguém conheça, à excepção da família! É que para além desta vivência de Coimbra, todos os anos íamos os dois passar férias a Chaves, nas termas. Passávamos o tempo sempre juntos, dormíamos no mesmo quarto e comíamos à mesma mesa. Por essa razão, há uma intimidade que me causa algum pudor quando me pedem para falar desses tempos de uma forma livre (…) Andava sempre com um caderno de apontamentos na mão e depois, em Chaves, acabava por construir tudo aquilo que ao longo do ano tinha escrito. Eu vi nascer muitos poemas, observei como começavam (…)”.

 

E à pergunta porque é que Torga gostava tanto de Chaves, padre Valentim responde: “Era por causa daquele silêncio, daquela paisagem e das termas. Além disso, os arredores de Chaves são muito ricos em monumentos, principalmente românicos, e ele gostava de os ver. Todos os dias tínhamos de ir a um lugar qualquer, nem que fosse para Espanha. Chaves era o lugar onde se sentia melhor, uma espécie de céu para ele. Não o incomodavam muito (…) Quando saímos de lá, o homem quase chorava porque era ali que estava bem. Como disse, era ali que praticamente fazia o arranjo final das obras e depois, quando vínhamos para baixo, dava-me os originais para eu fazer o trabalho na tipografia”.

 

No Barroso, algumas terras, não esqueceram este empedernido transmontano, gravando ou esculpindo as suas palavras no material que ele mais adorava – a pedra.

 

Nós, em Chaves, onde temos a presença de um homem que, aqui, fez brotar grande parte da sua Obra?

 

Perdemos a «memória» deste nosso «Maior».

 

E, em Chaves, quantas «memórias» gravadas dos nossos antanhos, mais coevos, ou mais próximos, temos nos nossos espaços públicos?

 

Fora os Santos, poucos, como a «Mãe», no Jardim do Bacalhau, e o pequeno Santo Amaro, no largo com o mesmo nome, existem, em termos de estatuária, apenas 5 bustos: D. Afonso, 8º duque de Barcelos; padre Joaquim Marcolino Fontoura; Cândido Sotto Mayor, cujo busto o banditismo fez desaparecer do Jardim Público; António Granjo e Mário Gonçalves Carneiro…

 

Para uma cidade milenar, tão pouca ou falta de «memória» da nossa história, deveria deixar-nos envergonhados!

 

Olhemos, por exemplo, para a cidade de Bragança e para os seus espaços públicos. Quem Bragança faz perdurar nos seus espaços públicos? O seu povo, nas suas diferentes atividades, aquele que Torga, nas muitas deslocações que fazia pelo nosso Portugal, ia ao encontro!

 

Em Chaves, já há muitos anos, apenas um autor, natural de Murça – Fernão Magalhães Gonçalves – se debruçou sobre a obra deste nosso «Maior» em «Ser e Ler Torga».

 

O que faz em Chaves a maioria da nossa dita elite intelectual?

 

Empanturra-se – trazendo cá, de vez em quando, pressupostas vozes sonantes da literatura «nacional» - com obras que apenas evidenciam o tamanho do seu enorme umbigo e não procuram analisar testemunhos, ainda vivos, e os nossos genuínos autores, e, com as suas obras, irem à descoberta e ao encontro da «alma» do nosso povo. Este deve ser o papel fundamental não só de um intelectual como de um artista, digno desse nome.

 

Uma comunidade que não se identifique com a sua «intra-história» - e as mulheres e homens das artes são os elementos fundamentais, se não essências, para estabelecer este «religar» - não tem verdadeira autenticidade e, consequentemente, a sua memória porque ausente, desaparece, diluindo-se na amálgama de uma sociedade que tudo nivela e nada diferencia.

 

António de Souza e Silva

 

 

01
Jun18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

SER OU TER?: – EIS A QUESTÃO

 

Tínhamos, nas nossas agendas, uma vez munidos de uma Carinha Todo Terreno emprestada, guardado dois dias para no Gerês barrosão, irmos à procura das cascatas.

 

No segundo dia, a certa altura, os amigos Pluto e Berto dão uma guinada e viram para a serra de Alturas.

 

Descendo do parque eólico ali instalado, fomos ter a um pequeno vale, um enclave, onde encontrámos uma aldeia, completamente em ruínas, verdadeiramente fantasma.

 

Covelo do Monte (01).jpg

 

Duas cadeias de televisão, a 27 de outubro de 2013, e a 18 de novembro de 2013, depois de apresentarem a reportagem «Aldeia à venda em Boticas» e «Aldeia à venda», respetivamente, (http://videos.sapo.pt/e10Z5ffed8DZB1GUNwf1); (http://portocanal.sapo.pt/noticia/11187/comentam, da mesma forma, sobre este assunto: “O despovoamento do interior está a abrir as portas a uma nova área de negócios: a venda de aldeias. A ideia é atrair investidores para projetos turísticos. É o caso de Covelo do Monte, em Boticas. Uma localidade que perdeu os últimos habitantes há cerca de 50 anos e que agora está à venda por 4 milhões de euros”.

 

Chegámos ao local e, máquinas em punho, não parámos de fotografar. Um autêntico cenário de abandono e desolação.

 

Covelo do Monte (02).jpg

 

Que agora é apenas pasto e guarida para o gado. Um belo horrível, que, verdadeira e profundamente, nos deixou pensativo: a que ponto chegou o estado do nosso interior, da nossa matriz rural!

 

Covelo do Monte (03).jpg

 

Feita a nossa reportagem fotográfica, no regresso, lembrávamo-nos de um escrito por nós publicado, a 4 de fevereiro de 2013, sob a epígrafe «Poemas Ibéricos versus Mensagem». (https://zassu.blogs.sapo.pt/2521.html).

 

Nesse texto, a propósito de uma intervenção de Teresa Rita Lopes, da Universidade Nova de Lisboa, com o título «A Ibéria, de Torga e Nós, Portugal e poder, de Pessoa», proferida por ocasião do centenário do nascimento de Miguel Torga, no Centro Cultural Calouste Gulbenkian, em Paris, na qual a autora procurava dar uma visão que estes dois autores tinham sobre Portugal, dizíamos que, para Torga, a Ibéria é um corpo magro, pobre, «saibroso e franciscano», mas materno, à qual seus filhos, que mamaram nas suas tetas de pedra, devem fidelidade eterna. Na obra de Torga há a permanente oposição corpo-alma, optando sempre este autor pelo corpo.

 

Pelo contrário, para Pessoa, o país não é um corpo, mas sim uma alma.

Não é por acaso que os «Poemas Ibéricos», de Torga, acabam assim:

Venha o Sancho da lança e do arado,

E a Dulcineia terá, vivo a seu lado,

O senhor D. Quixote verdadeiro!

 

Pessoa, sendo sempre pelo barco, contra a raiz, num poema da sua «Mensagem», «O Quinto Império», escreve:

Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

Mais que a lição da raiz –

Ter por vida a sepultura”.

 

Para Torga, somos humildes filhos de uma mãe rude e pobre, (a Ibéria), mas dotada de uma grandeza de que nos devemos orgulhar. É ao seu apelo que devemos acudir, não ao do mar, a sereia traiçoeira. Por isso, exorta Sancho a que regresse ao seu arado.

 

Para Pessoa, no período áureo em que nos revelámos aos nossos próprios olhos, fomos «navegadores e criadores de impérios». Por isso, a mensagem da «Mensagem» é o contrário da dos «Poemas Ibéricos».

 

Torga, premonitoriamente, insistia: “Olha esta Ibéria que te foi roubada e que só terá paz quando for tua». Porque é preciso que Sancho a recupere, de arado em punho, rejeitando traiçoeiros sonhos de grandeza e volte a cultivar os seus campos e a travar a tal quotidiana «batalha de ser fiel à vida».

 

Estaremos perante dois autores com visões opostas quanto ao Portugal que desejavam?

 

Cremos que não. Pessoa, mais tarde em prosa, explicava que na sua «Mensagem» o que pretendia era fazer passar a ideia de que os portugueses, no presente, agissem de uma forma idêntica ou equivalente à época das Descobertas do passado, mas apenas no domínio do ser, não do ter, como então. Por isso incita os seus concidadãos a reencontrarem-se em «Nós, Portugal, o poder ser».

 

Debalde o incitamento destes dois vultos da nossa portugalidade!

 

Ao longo do tempo, fomo-nos esquecendo da lição destes dois grandes mestres - o de ser português: sonhar com os pés bem assentes na terra, no nosso terrunho, recuperando, «com o arado em punho» a terra que, pelo nosso descuido, incúria e negligência, «nos está sendo pilhada» e, numa nova gesta de descoberta, desenvolvermos, todos, toda a nossa terra – do mar à planície, da planície ao planalto, do planalto à montanha, do norte a sul, do litoral para o interior – fazendo-nos, de novo, dignos do nobre nome que, ao longo dos tempos, nossos antepassados tão bem souberem erguer e preservar – Portugal.

 

E como nos faz tanta pena, sempre que percorremos o terrunho sagrado do nosso Trás-os-Montes, como o nosso Alto Tâmega e Barroso, o constatarmos quão certeiras eram as palavras do nosso «maior», Miguel Torga, quando, do Gerês, a 7 de agosto de 1953, vertia para o seu Diário as seguintes palavras:

 

Em Portugal, decentemente, só se pode ser cavador. Apenas a manter terra um homem atinge nesta pátria a perfeita dignidade da espécie. Fora disso, é uma limitação irremediável que cinge cada um e o não deixa ultrapassar a crosta defensiva que o reveste. Mal largamos o enxadão e subimos um grau na escala social, corrompe-nos não sei que lepra, que já não há simplicidade possível, nem grandeza correspondente. Tornamo-nos furtivos, inconvenientes, desconfiados, incapazes de qualquer harmonia social baseada na articulação voluntária do que somos com o que não somos. O diálogo cessa, para dar lugar a um monólogo de pragas e vociferações. Espreitamo-nos uns aos outros por detrás das cortinas dum mundo interior de enconchado egoísmo, e nada nos dá mais alegria do que as falências alheias, assim contempladas a respeito de qualquer responsabilidade cívica. Colaborar nas alegrias e tristezas do semelhante, trocar palavras, ideias e sentimentos, só os componentes de uma roga, os companheiros de uma vessada, os que a fraternidade do suor amalgama na sinceridade e honradez natural. Os civilizados, aqui são os analfabetos”. (Sublinhado nosso).

 

A entrada acima citada dava para, sobre ela, fazermos uma profunda meditação e uma acalorada discussão. Fiquemo-nos apenas no tema que aqui hoje nos trouxe.

 

A essência do ser português deve ser cuidar do que é seu, não o deixar morrer; descobrir «novos mundos», novas formas de nos desenvolvermos; e não o fazer tudo a todo o custo, reduzindo tudo quanto temos a pura mercadoria, particularmente quando se trata do mais rico e mais querido legado histórico e cultural das nossas comunidades. Nas as deixando morrer…

 

Pensarmos apenas no ter – a qualquer preço – é deixarmos alienar tudo aquilo que, na essência, somos, esquecendo-nos verdadeiramente do que é ser transmontano, altotameguense ou barrosão, entre outras regiões que constituem o Portugal que hoje somos.

 

Nas nossas constantes incursões pelo nosso mundo rural, outra coisa, no fundo, não pretendemos do que captar – e não deixar morrer em nós – tudo aquilo que nos identifica verdadeiramente como portugueses. É esse, pelo menos, o nosso desiderato.

 

Mas, infelizmente, casos como o Covelo do Monte, começam a aparecer a cada dia, cada vez mais!

 

E nós, aqui por Chaves e pelo Alto Tâmega e Barroso, o que estamos a fazer para não nos transformarmos num território de aldeias fantasmas, como a reportagem fotográfica que a seguir se mostra?

 

Urje que tenhamos uma visão de futuro para o mundo rural do qual fazemos parte. Uma visão do nosso futuro comum, sob pena de, a breve trecho, todo o nosso rico legado histórico e cultural se esvair neste mundo e nesta sociedade globalizante, rejeitadora das particularidades e das diferenças, transformando o nosso património (material e imaterial), já não em simples mercadoria, mas em pura e simples ruínas, como alguns «Covelos do Monte» que vão aparecendo por este nosso Portugal interior, tão incuriamente, por todos nós, esquecido.

 

COVELO DO MONTE – ALDEIA FANTASMA

(https://www.youtube.com/watch?v=A6_sbMNBiNA)

 

António de Souza e Silva

 

25
Mai18

Discursos sobre a cidade

GIL

 

 

A ABELHA E O NANO

 

O Nano, Adriano de seu nome próprio, velho amigo, era travesso como um arrôcho. Terror dos pardais novos, passava a vida na candonga e no rapinanço. Fossem as cerejas de Junho, ou as castanhas de Outubro, tudo lhe servia.

 

Aprendi com ele algumas das suas técnicas. Uma delas marcou-me bastante, dada a singularidade e o gosto ímpar que proporcionava. Pelo fim do Verão, aprendi a procurar pedaços de caules secos de silva brava que tivessem o miolo furado numa das pontas. Abertos com jeito, continham umas bolinhas de mel, de cor lilás de um gosto excelentíssimo. Produto do labor de uns pequenos insetos voadores, quiçá da família das abelhas. Um manancial de gosto e prazer. O Nano sabia dos melhores lugares e das pontas de silva que melhor produziam.

 

Acompanhá-lo era uma escola de vida, fosse para o que fosse: fussar à cata de níscaros, topar ninhos de pássaros nobres – melros, rolas ou eivões – ou descobrir luras de coelho bravo. Quem é que o batia?

 

O Nano parecia possuir um sexto sentido, ainda mais apurado do que aquele que caracteriza o sexo feminino na descoberta de inconveniências!..

 

Um dia, ao fim da tarde, meados de Outubro, regressávamos de Adães, da escola do professor Matos, que ficava a uns três quilómetros do Carregal. Não fossem as travessuras que era costume animarem o caminho e seria um degredo calcorrear aquele caminho todos os dias para cima e para baixo, com o sol escaldante da primavera ou o carambelo dos invernos gelados. Nuns dias trilhávamos a estrada principal, noutros caminhos alternativos sempre prometedores de grandes aventuras. Naquele dia, deu-nos para regressar pelo Belão. Era um sítio de carvalhadas, giestais e lameiros, recortados por uma ou outra leira de cultivo.

 

Numa das touças do Belão, tinha o Chico Milheiro cinco colmeias que ajudavam ao sustento da sua pobre casa. Colmeias eram coisas raras naquelas bandas geladas do Brunheiro. Não sei, mesmo hoje, como é que o Milheiro conseguia manter esses laboriosos insetos que são as abelhas. Mas o certo é que produziam um mel de excelente qualidade e de que ainda hoje me lembro pelo sabor único que guardava.

 

Está bom de ver que o regresso por aquele sítio tinha a assinatura do Nano. Para quê? Rapinar uns favos das colmeias do Chico Milheiro.

 

Foi pensado e feito!

 

Seríamos uns cinco: eu próprio, o Nano, o Joja, o Gripino e o Madeu.

 

Combinado, o plano foi posto em prática. Coube-me ficar de vigia juntamente com o Gripino. Ao Nano, ao Joja e ao Madeu cabia a ingrata missão de abrir o cortiço e sacar parte do mel que havia sido deixado na colheita para que servisse de alimento durante o inverno duro que estava prestes a começar. As abelhas, agitadas pelo movimento desusado e decerto adivinhando a intenção dos farsolas, zuniam nervosas e ameaçadores sobre os sargaços e as giestas rasteiras. Porém, operava-se um milagre: o trio conseguiu fanar um favo, carregadinho de mel, e sem uma única ferroada. Ainda hoje estou para saber como foi possível isso acontecer.

 

Todavia, o pior estava para vir!

 

Ao Nano, não sei se pela excitação da vitória se pela força da própria natureza, deu a vontade de mudar a água às azeitonas. Não havendo entre os parceiros o menor pudor, abriu a braguilha, puxou do instrumentico e aliviou-se. Eis senão quando, não sei se por vingança se pelo cheiro amoniacal da excreção, uma abelha espetou, corajosamente, o seu ferrão venenoso na glande do desgraçado.

Ah tormenta das tormentas!... Desgracia das desgracias!...

 

O aço da navalha do Madeu ainda acudiu, mas sem efeito algum. Daí a uma meia hora o aparelho deu de inchar de tal forma que já nem cabia no sítio que as calças de serrobeco lhe reservavam.

 

Um espanto!

 

No fundo até era engraçado! Nunca se tinha visto coisa mais disforme!

 

A mim fazia-me lembrar uma daquelas mocas que os pastores usavam para guardar o gado, evidentemente guardadas as devidas proporções!

 

Eu não sabia se havia de rir ou de me manter, solidariamente, sério e chorar com ele!

 

E agora que fazer?

 

A dor lá a ia suportando, o pior foi quando a bexiga perdeu a capacidade de armazenar as excreções urinárias. O infeliz urrava como lobo emparedado, suava como um camelo, desfazia-se em impropérios.

 

Lá teve que perder a vergonha e recorrer à Tia Cândida, curandeira do sítio, que com umas benzeduras e umas papas de linho conseguiu pôr de novo o aparelho a funcionar devidamente.

 

Contudo, o episódio não lhe serviu de emenda, nem a ele nem a nós, pois voltámos a repetir o feito vezes sem conta!

 

Pudera, por aquele mel valia a pena correr todos os riscos!

 

É claro que nunca mais ninguém se aventurou a pôr ao vento o dito cujo, pelo menos perto das colmeias do Ti Chico Milheiro.

 

Arre!..

 

Gil Santos

 

 

04
Mai18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

«SOBRESSALTOS DE MEMÓRIAS»

 

 

Olhamos para trás. Parece-nos que ainda foi ontem.

 

Olhamos para o calendário. Ficamos sobressaltados – 44 anos passados!!!

 

De imediato nos vem à memória um camarada que, nas vésperas do 25 de Abril de 1974, foi connosco para Mafra!

 

E mais um outro sobressalto nos persegue – já não está entre nós. Partiu!...

 

Partiu cedo este homem íntegro. Um grande, enorme, amigo. Mais que um amigo – um irmão!

 

Um grande educador. Um enorme trabalhador, lutador por causas.

 

E ficaram connosco as suas memórias…

 

Memórias de dias a fio, preparando, conjuntamente, aulas para os educadores do futuro. Educadores de hoje.

 

Memórias de dias a fio, batendo-nos pelas causas que sempre defendemos. Sem qualquer desfalecimento.

 

Memórias de dias a fio, vestindo a camisola de um socialista convicto, sem nada pedir em troca!

 

Memórias de dias a fio, usando a pena, em prole da informação, do esclarecimento, da cultura.

 

Informação, esclarecimento e cultura das gentes da terra que adotou, de coração, como sua – Chaves.

 

Chaves, e a maioria dos seus camaradas, que tão depressa, e tão facilmente, o esqueceram.

 

Mas ele jamais se esqueceu da «sua» terra e das suas gentes quando, connosco, percorríamos as margens genebrinas do lago Leman, de uma cidade que lhe era tão querida.

 

Emigrante voluntário genebrino, nunca esqueceu os amigos – poucos infelizmente – que tinha deixado na terra que trazia sempre no coração.

 

Mesmo sabendo que o seu passamento estava para breve, não queria que os seus amigos o fossem ver, quando extremamente debilitado, numa cama de hospital. Nele raiava uma derradeira esperança de forças – ele próprio queria vir a Chaves dar um abraço aos amigos da terra onde se casou e lhe nasceram os filhos.

 

Suas forças, contudo, traíram-no.

 

E seus amigos – sobressaltados – quando lhe queriam dar um forte abraço de amizade, no preciso momento em que aterravam em solo suíço, partia…

 

Babela -  nossa familiar muito querida – que tinha por ele uma admiração profunda, de alma, bem nos dizia – apressem-se!...

 

Ela antecipou-se. Fez questão de vê-lo. De estar com ele.

 

Seus amigos mais íntimos não pressagiavam um final tão fulminante!

 

Um ano antes de ser hospitalizado, meu amigo, meu irmão, por ocasião dos 40 anos do 25 de Abril, escrevia o seguinte texto, na sua página do Facebook:

 

Lembro-me daquele mês de Janeiro de 1974, da agitação nas faculdades e da liderança ativa da faculdade de engenharia, com ponte-levadiça interdita a agentes do regime e ameias de informação sobre crimes da guerra colonial. Das correrias diante da polícia de choque, da entrada de militares na faculdade de letras, das esperas de horas refugiados em cafés ou na Igreja do Carmo aguardando que a polícia regressasse a quartéis!

 

Lembro-me daquele mês de março de 1974, das notícias da Emissora Nacional, dos olhares furtivos de cidadãos suspeitos, da chapa de silêncio dos estudantes da Universidade do Porto que estudavam revoltas e convertiam o medo em músicas de flauta, no café Piollho.

 

Lembro-me daquele longínquo amanhecer do dia 25 de abril de 1974. Do burburinho da caserna, em Mafra; da agitação dos mais velhos e experientes; do ruído dos motores dos Chaimites e dos Panhards; da chuva miudinha que atrapalhava soldados e máquinas; da incógnita que rodeava a noite e do silêncio pesado dos oficiais da Escola Prática de Infantaria.

 

Lembro-me das ameaças de incêndio da sede do partido comunista, em Braga, das campanhas de dinamização em Trás-os-Montes, de um verão quente nas ruas, nos quartéis, na cabeça de cada um, da esperança em auroras de uma nova luz.

 

Lembro-me da primeira vez que cidades inteiras esperaram horas para votar, que vilas e aldeias pareciam renascer, que cidadãos de um país moço tinham brilho nos olhos do futuro. Lembro-me que tão pouco se pedia (paz, pão, habitação, saúde, educação) e que tanto se esperava de cada um: novo compromisso cívico, respeito, colaboração, solidariedade, intervenção cívica, construção de um país mais justo e solidário.

 

Lembro-me do medo da traição, das armas na mão e pistolas à cinta, da desconfiança do camarada da cama ao lado, da tensão extrema em idos dias de Novembro de 1975. E no silêncio da noite, fazíamos juras de nunca apertar o gatilho contra homens do mesmo uniforme, da mesma família nacional, do mesmo sonho de um país a caminho de novos horizontes.

 

Lembro-me e sei que o país mudou, que houve receios e esperanças, que fizemos, juntos, muitas coisas lindas e que nunca imaginamos que, 40 anos depois, a vida, o país, a política fosse assim: que deputados tivessem a desvergonha de aumentarem os seus salários quando o povo perde euros de pão todos os dias; que os senhores dos palácios tenham reformas de crime quando homens e mulheres de bengala dobram a cerviz para receberem o pouco a que têm direito; que se estenda a mão para rezar pela consulta médica e pelo medicamento que prolonga a vida; que haja crianças que passam fome; que haja janotas que se governam à luz do dia; que haja noites de facas longas para se roubar a quem menos tem.

 

Não foi esse o país que sonhei; não foi esse o país no qual acendi uma simples vela de futuro, de armas na mão. Não; não foi esse. Não é esse.

Com 40 anos passados, aumentou a pobreza para muitos e a escandalosa riqueza para alguns; Com 40 anos de rugas, a alma ficou mais pequena e o sono se inquieta pelas noites de fantasmas. Com 40 anos de história, este país que é o meu, o teu e o nosso, merecia mais e melhor: na repartição da riqueza, na solidariedade das gerações, na justiça equitativa, na igualdade de tratamento e de respeito. Na altura, a guerra colonial justificava tudo. Hoje, a guerra social desespera de perdas todos os dias.

 

Já não é tempo de armas na mão; mas é tempo de consideração pelos mais pobres, pelos mais frágeis, pelos mais sujeitos aos imprevistos da vida, pelos mais sacudidos pelas infâmias de quem decide a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação.

 

Decidamos nós!

 

Benjamim Ferreira

Abril de 2014”.

 

Foi um homem de Abril. Íntegro. Impoluto. Especial. Sonhador…

 

Se nos perguntarem porque este  nosso «Discurso sobre a cidade» deste mês veio aqui ter, não saberemos responder. É como diz o velho ditado: “o coração tem razões que a razão desconhece”.

 

Porventura não é a nostalgia ou a saudade de alguém que se começa a sentir velho.

 

Talvez seja um grito de alma de alguém a sentir a necessidade de uma sociedade mais humana, solidária e fraterna, apesar de toda a panóplia de instrumentos que as Tecnologias da Informação e da Comunicação nos propiciam, mas que a todos, individualmente, nos remete para um mundo e para uma sociedade cada vez mais narcisista e solitária.

 

Uma sociedade líquida, a necessitar de autênticas e verdadeiras relações humanas; do face a face uns com os outros – o verdadeiro fermento que faz levedar o verdadeiro amor e as amizades autênticas.

 

Precisamos, cada vez mais, da palavra. Da poesia. Como a deste poema que o nosso amigo especial nos deixou na sua obra - «Corpo Quebrado»:

 

CÉU E TERRA

 

está um dia lindo

rasgaram terra fora os sulcos das videiras

na terra que nós temos pela aldeia

não viste o saltitar do cão fiel

e o assalto do sol nascente?

 

anda

vem comigo

contempla a maravilha do acordar da manhã

cada manhã

 

vejo nos teus olhos sol novo

manhã nova para os dois

 

destroça em mim o teu corpo insinuante

o frio que esta noite me embalou

 

vem

 

aproveitamos os sulcos do arado

fazendo deles calor morno

leito heroico e nobre dos antigos

mítico encontro de deuses e mortais

 

anda

 

está linda a manhã para o amor”.

 

António de Souza e Silva

23
Mar18

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

TIRADAS DO PÓPULO

 

O Pópulo era um martelão, como soi dizer-se!

Mas de tão trengo, tinha a sua graça!

Enquanto foi vivo, protagonizou muitas estórias para animação dos serões de inverno.

Hoje, ausente que está há muitos anos, haja alguém que as convoque para que se lembre. Também destas pequenas coisas se faz a grandeza das terras quase sem nome!

 

São Cibrão, um pequeno povoado de meia dúzia de fogos, mais conhecido pelo pinouco que lhe guarda as espaldas do que por qualquer outra coisa, viu-o nascer no último terço do século XIX. Aí respirou pela primeira vez estendido num catre surrento do tugúrio de uma pobre cabaneira, que por sinal não fechava bem a gaveta.

Fez-se homem aos emboleques de uma vida esfaimada. A penúria do essencial mirrou-lhe o miolo e transformando-o num taralhoco que mal sabia contar até dez.

Nem na tropa o quiseram, vejam bem!

Contudo, para o trabalho ainda valia alguma coisa. Fazia-o tão-somente pela côdea. Desta toleirice tiravam partido os menos escrupulosos. Todavia, de uma maneira geral, era respeitado. Uns e outros não perdiam, porém, a possibilidade de lhe apanhar as mais rocambolescas estórias que se contavam e reinventavam em cada serão pelas aldeias.

 

Botou barba já tarde, mas não enjeitou a vontade de ter mulher. Ainda assim, tinha consciência de que era difícil arranjá-la asadinha.

Topou uma que lhe servia ali para os lados das Barjes.

Uma matrafona, ainda pior do que ele!

Era uma mulher do povo que não conhecia poleiro certo.

Namorou-a pouco tempo.

Logo que avezou dois tostões, tratou de arranjar padrinho e marcou o casório. Apadrinharia a união o Ti Borges de Fornelos e o enlace teria lugar na matriz de Santiago da Ribeira de Alhariz, com pouco mais de meia dúzia de convidados.

Montou casa num velho pardieiro de pedra solta, coberto de telha vã, com pouco mais de uma dezena de metros quadrados que o Ti Zé Moreiras lhe ofereceu de presente de casamento. Juntamente com o casebre ofereceu também um cordeiro do rebanho, batata, pão e vinho para a boda.

Um desposório de arromba!

No dia aprazado lá foram todos em procissão. A igreja da paróquia ficava a uma boa légua de distância. O padre Fenício botou o latinório da praxe e trocaram-se as alianças de latão que o pilim não dava para maiores luxos. De regresso, para o repasto, a meio caminho o Pópulo tirou os socos e em carpins botou a fugir, inusitadamente, para a povoação, o que provocou grande admiração nos comensais.

Chegou à aldeia esbaforido!

A Tia Benta, que regava o cebolo numa hortita contígua ao caminho, cuidou o pior e perguntou:

- Ó home, tu levas fogo no cu! Ele que dianho aconteceu? Bistes lobo, ou a noiva pôs-se-te no catano e não te quis?

- Cais quê Ti Benta, atão bossemecê queria que eu deixasse os meus combidados na rua? Bim adiente para les escancarar as portas!

- Ó home do catano que maluco me saístes! Mas és dos meus! Bai lá bai!

Passada a lua-de-mel, breve e monótona, o casamento corria sem grandes sobressaltos. Todavia, por muito que a malhadeira malhasse não havia meio da Zidéria alcançar! Cuidando que a culpa seria do marido e com a desculpa da mãe doente, a Zidéria começou a ausentar-se com frequência de sua casa e a dormir, às semanas, noutros poleiros. Atazanado pelos vizinhos, o Pópulo começou a desconfiar. Um dia o Zé da Pinta bufou-lhe ao ouvido que se dizia, à boca pequena, que a mulher se andaria a espojar por quantos fanencos havia das redondezas.

Em nome da honra, decidiu meter mãos à obra e recorreu ao amigo Borges de Fornelos, em quem confiava cegamente, para que o ajudasse na empreitada.

- Ó Senhor Borges, eu careço da sua ajuda. Beja o senhor que a pu** da minha Zulmira me anda a pôr os cornos. Pôs-se-me no catano de casa e anda por aí à tchirga como uma boubela! Bossemecê tem de me ajudar a ir cá botá-la! O senhor leba a sua tómática e limpa sete e eu coa minha fouce tchimpo o resto!

- Ó Pópulo tu és doudo! Eu tenho um revólver mas não é para essas coisas. Tem juízo e compra uns socos! Bai mas é para casa que ela quando lhe faltar o milho há-de tornar! Depois assentas-le duas boas lombeiradas com um estadulho e bais ber que não lhe fica bontade de desaninhar!

E assim foi, contudo, à cautela, substitui as aconselhadas lombeiradas por duas palavras mansas, não fosse o feitiço virar-se contra o feiticeiro!..

 

A vidinha ia-lhes correndo no rame rame de uma pobreza franciscana confrangedora, apanágio da maior parte da população planáltica. Raras eram as jeiras que avezavam e o mais das vezes os trabalhos à ajuda apenas lhes proviam o magro pão de cada dia. Por ausência quase total de leira própria onde colhessem algum sustento, sobrava-lhes uma magra poula que o Ti Zé Moreiras lhes emprestou, por caridade, e que a pus de muito trabalho lhes devolvia meia dúzia de sacas de rambana num ano e dois alqueires de centeio no outro. Alimentos que se esgotavam pelo Natal. O resto do ano viviam-no em penúria quase absoluta.

Ora, um belo dia, Pópulo viu a rama do batatal seca e marcou o arranque. Contudo, faltavam-lhe as sacas onde transportar o tubérculo para o merouço. A conselho da Zulmira recorreu aos favores da casa dos Moreiras e foi falar com a senhora Júlia. Ela estimava-o bastante porque o tinha sempre pronto para acarrar os cântaros de água da fonte e os molhos de lenha do palheiro. Por isso, emprestou-lhe, sem qualquer favor, cinco sacas de serapilheira de 100Kg cada uma. E lá foi o Pópulo todo crontcho com a sacaria ao ombro para a courela dos Lameirinhos.

Foi recebido pela mulher nestes preparos:

- Bô lambão me saístes! Na bez de trazeres sacas piquenas trazes-me estas abantesmas. Agora em bez de colheres 10 sacas só colhes cinco. ódespois quero ber o que larpas o ano todo lambão! Hádes comer cornos mou burro!..

 

Noutra altura precisou de ir à feira do Vidago para ver se comprava uma cabra que lhe desse leite, no caso de a mulher engravidar e ter uma cria. Para o efeito pediu a burra ao Ti Antoninho Moreiras que lha emprestou apenas com a reserva de que a poupasse, sobretudo no regresso, na subida da ladeira da Costeira de Cova do Ladrão a Moreiras. É que a burra era fraca dos tornozelos e podia arriar.

Que sim, que a guiaria à barbela.

Lá saiu de madrugada e mal perdeu o Carregal de vista, montou na desgraçada que bamboleava de traseira com o peso do cavaleiro.

Não conseguindo o negócio da cabrita por falta de metal, no regresso de Vila Verde até Loivos veio apeado, a partir daí d’acavalo.

Quando chegou ao Carregal para entregar o animal, o Ti Moreiras reparou que a burrinha vinha numa desgraça! Completamente derreada!

Questionou-o:

- Ó Pópulo, tu que fizestes à burrinha que ela vem desgraçada?

- Ó Ti Moreiras eu poupei-a canto pude. À binda só a montei no Boticairo em Loibos e foi até aqui!

- Saiste-me um boa besta Pópulo! Arrebentaste-me a burrinha, Costeira acima, lambão! Nunta bolto a emprestar. Por outra bez bais à pata!..

 

Noutra ocasião precisou de ir à feira de Carrazedo, a mor de comprar uma reca para cevar.

A Zulmira pôs-lhe as uvas a peso! Deu-lhe as ordens e uma nota de cem mil réis, limite para o negócio, exigindo-lhe que por aquele valor trouxesse um animal bem-parecido que antes de cevar pudesse parir meia dúzia de leitões que rendessem tão necessitados cobres.

Lá foi ele todo contente pela madrugada de um dia de março. Levava no bolso uma baraça de sisal para prender a requinha no regresso, na carteira uma nota de cem e no peito uma vontade férrea de um bom negócio. É que apesar de tudo o Pópulo não era assim tão azémola quando se tratava de negociar, tanto assim que conseguiu um animal apresentável por apenas noventa paus! Atou-lhe a guita numa pata traseira, cortou uma fronça pioneira para lhe enxotar a mosca e fez-se à estrada. Passou por Argemil sem parar, quiçá por falta de tasca, só o fez em Serapicos. Atou o animal a uma argola onde se prendem os cavalos e pediu um copo de três na taberna do Serafim.

Sem embargo, antes de começar a beber, alguém o interpelou.

- Ó Pópulo, aquele requinho que está preso é teu?

- Reco não, reca, que eu bem le bi o letreiro entes de a mercar! A minha Zulmira encomendou-me uma reca e é uma reca que eu le levo.

- Boa te bai, já nem és capaz de diferençar um cu de uma senisga! É um reco mou burro, num é uma reca!

Foram tirar teimas!

Tratava-se, de facto, de um reco, cujas bolinhas, proeminentes, prometiam garboso berrão!

- Fosca-se Ti Casemiro, estou fod***! A minha Zulmira vai-me partir os cornos! Estou que bou mamar umas estadulhadas lombo abaixo, por isso, que seja o que Deus quiser. Bou torrar o troco em binho e pôr-me como uma naça, assim com’assim pode ser que doia menos!

 

Passado anos a vida permitiu-lhe trocar de casa para uma outra maior que começou a construir há muito tempo com a ajuda de alguns amigos. Por isso, cuidou de vender o pardieiro que lhe oferecera o Ti Moreiras aquando do casamento.

Fez negócio com o Ti Jaime das Malhadeiras que precisava daquele espaço para meter uma tchibinhas de leite que havia comprado na feira dos Santos.

Deu-lhe o tempo necessário para que libertasse o espaço dos seus parcos tarecos.

Porém, um belo dia, quando passava no caminho, viu o Pópulo emplouricado no telhado a tirar a telha de meia cana que chegava cuidadosamente à Zulmira que a empilhava na borda do caminho.

Interpelou-o:

- Ó Pópulo, tu que está a fazer?

- Estou a tirar a telha pr’á minha casa noba!

- Atão tu bendestes-me a casa e agora bais tirar-le a telha?

- Pois diz bem, eu bendi-le a casa num le bendi a telha, ora essa!

Foi um trinta e um para convencer o Pópulo a arrepiar caminho!

 

Depois de muito porfiar o casal acabou por ter dois filhos, que apesar de tudo não conseguiram criar.

Um deles morreu ainda pequeno com uma doença banal.

O outro foi criado, por misericórdia, na casa do Ti Moreiras do Carregal, onde foi paquete e se fez homem de sucesso.

O Antero, assim era a sua graça, ainda me viu nascer, contudo, uma doença fatal levou-o cedo para Santa Leocádia!

 

Coisas da vida.

 

Tiradas do Pópulo que aqui se lembram com saudade e muito respeito!

 

Gil Santos

 

 

02
Mar18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

ENTRE O RUÍDO E O SILÊNCIO, A PALAVRA

 

 

"Sobre aquilo de que não se pode falar

 devemos ficar em silêncio"

 

Ludwig Wittgenstein

Tractus Logico-Philosophicus

 

 

Temos tratado nesta rubrica temas essencialmente relacionados com o desenvolvimento local, concelhio e (sub)regional, vistos, fundamentalmente, na vertente ética e política.

 

A nossa conduta tem sido crítica, mas urbana e civilizada, numa sociedade aberta e democrática. E assim continuará a ser.

 

No passado mês de outubro, no que concerne ao concelho de Chaves, em termos de eleições autárquicas, particularmente a nível do Município, houve mudanças de cadeiras. Mudanças essas que, aliás, desde há muito as desejávamos e pelas quais, publicamente, e dentro das nossas possibilidades, demos a cara.

 

Somos militante do partido que atualmente "governa" os destinos do nosso concelho nestes próximos quatro anos. Contudo, antes de sermos militante, somos cidadão e flaviense. E, como cidadão e flaviense, vivendo numa socieade democrática, somos livre para, sempre e sem condicionalismos de qualquer espécie, dizermos o que bem entendermos quanto às decisões e ao rumo que os atuais detentores do poder tomarem para o nosso concelho.

 

Lemos atentamente a entrevista que o Presidente Nuno Vaz Ribeiro deu por ocasião dos 100 dias de governação autárquica, inserta no Boletim Municipal nº 58, do pasado mês de fevereiro. Das suas palavras, apenas aqui desejamos reter as finais que, para nós, são as mais impressivas e que poderão definir a filosofia e a postura deste mandato. Transcrevemo-las, pois:

"A relação de proximidade entre os autarcas e as populações só será possível se houver diálogo. A consolidação de projetos mais relevantes para o concelho só fará sentido se for construída lado a lado com a população, de forma a que a proposta de construção e solução possa ser também sustentada pelos contributos dos próprios. Os flavienses têm que ganhar autoestima. Mais importante do que grandes obras e avultados investimentos é a forma como as pessoas se relacionam com a sua terra.

Chaves é uma cidade histórica, um concelho muito importante, com um grande passado. Temos que valorizar aquilo que somos, o que já fomos e perspetivar o que queremos ser. Para isso, é primordial que os cidadãos percebam que têm uma importancia decisiva. Não apenas no momento da eleição dos autarcas, de quatro em quatro anos, mas no processo de decisão do dia a dia da sua aldeia, vila ou cidade.

Queremos fazer esta gestão próxima dos cidadãos e entendemos que têm todo o direito de se pronunciar sobre estas questões, sobre anteprojetos que dizem respeito a todos, porque é da vida da cidade e do concelho que estamos a falar e todos nós temos a nossa quota-parte de responsabilidade".

 

100 dias, mesmo 120 ou 150 que sejam, é muito pouco para se fazer um balanço ou a avaliação de um mandato. Ainda paira no ar muito ruído de campanha e muito júbilo de vitória, legítimo embora!

 

Por isso, estamos com Erling Kagge quando, na sua obra «Silêncio na era do ruído», faz a apologia do silêncio. Silêncio para mais e melhor ouvir.

 

Mas o silêncio de que falamos não é aquele que, tudo e em toda a ocasião, cala e consente.  O silêncio de que falamos é aquele que agora se preocupa mais em ouvir. Em observar. Em refletir. Um silêncio que traz consigo a obrigação ética do dever de falar.

 

É, assim, e neste sentido, que agora o nosso tempo é o do silêncio. Mesmo que ainda embuído de muito ruído e de promessas pouco consistentes em termos de efetivo cumprimento.

 

É este silêncio que nós, agora, estamos tendo, cultivando, criando. Um silêncio, diríamos, até mais interior. De profunda observação e reflexão de todos os atores e protagonistas da ação política.

 

Olhando mais não tanto para aquilo que dizem ser, mas, fundamentalmente, para aquilo que fazem com o que nos acontece.

 

Valorizando o silêncio, assim entendido, saberemos melhor distinguir a verdadeira ação em contraposição ao ruído.

 

Ou seja, a circunstância da nossa postura de silêncio não consiste em virar as costas ao que nos rodeia; pelo contrário, é procurarmos ver mais claramente, descortinando a que rumo nos levam.

 

Nesta hora e neste tempo, estamos, pois, com Wittgentein quando afirma que "sobre aquilo de que [ainda ]não se pode falar devemos ficar em silêncio".

 

Contudo, tudo faremos, como cidadão e flaviense, para, mesmo em silêncio, estarmos atentos. E, numa atitude de cidadão ativo e crítico em relação à nossa polis, pugnarmos para, aquando da renovação do poder, que ciclicamente acontece, depois não possamos citar as palavras que, há mais de dois mil anos, Séneca, o estoico, proferiu por altura do seu vigéssimo aniversário: "A vida é muito curta e cheia de ansiedades para aqueles que se esquecem do passado, não fazem nada no presente e temem o futuro. Quando se aproximam do fim, estes pobres coitados apercebem-se demasiado tarde de que durante todo esse tempo só estiveram preocupados em não fazer nada".

 

Não basta apenas existir, ser poder: é necessário viver, construir. Todos. Com todos. Sem ruídos.

 

Neste pressuposto, haverá um tempo em que o nosso silêncio falará.

 

Mesmo que seja para, com lisura e urbanidade, proferirmos palavras que "doam".

 

Assim fomos até aqui. Assim sempre seremos!...

António de Souza e Silva

 

 

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