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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Dez18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

DA MISÉRIA DA FILOSOFIA À FILOSOFIA DA MISÉRIA

 

 

                         Se quiser voltar a ser reconhecida como uma

                                      força de transformação da sociedade,

a social democracia terá de se definir novamente.

   Terá de recuperar a sua capacidade subversiva, libertária.

E isso é precisamente o que ela não é quando se apresenta

       como obstinada defensora do domínio do estado sobre

                                                           a economia e a sociedade.

 

                  Daniel Innerarity – A transformação da política

 

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Só em circunstâncias pontuais – e verdadeiramente excecionais – é que, nesta rubrica que rabiscamos, entramos na contenda político-partidária.

 

Todos têm o seu tempo. E o nosso, há muito, já passou.

 

Mas jamais poderemos prescindir, por imperativo ético, da nossa intervenção cívica e cidadã em assuntos que reputamos da maior importância para o que consideramos ser o esclarecimento e um maior amadurecimento da (nossa) democracia.

 

Na verdade, e na essência, em toda a nossa vida, sempre nos consideramos como um formador/educador. E é nesta vertente que, fundamentalmente, nossas palavras devem ser lidas e entendidas.

 

Obviamente, sempre, sujeitas ao princípio do contraditório.

 

Há seis anos, num dos nossos blogues, refletíamos sobre este tema, objeto do título do nosso Discurso de hoje.

 

Seis anos volvidos, com ligeiras alterações, aqui o deixamos à reflexão atenta dos nossos(as) leitores(as).

 

Só quem é cego é que não vê que estamos a passar por tempos de profundas mudanças.

 

A crise, de que tanto falamos, é precisamente um dos seus prenúncios.

 

E confesso-vos, caros(as) leitores(as), que, à força de tanto nela se falar; de se dizer que andamos todos depressivos por causa dela, também começamos por ficar agastado, irritado.

 

Nisto, como em muitas outras coisas, quando surge um problema, tendemos sempre a direcionar a «culpa» para ombros terceiros. Nós, cada um de nós, somos, não passamos de meras vítimas. Vitimas inocentes…

 

O bode expiatório aqui são os políticos. Desde que se trate da economia, da sociedade e da política mesmo.

 

Naturalmente que não queremos aqui desculpabilizar a classe política, tão falada nestes últimos tempos, pelos mais maus motivos. Muito pelo contrário. A classe política tem de se (re)formar e de procurar manter uma outra postura perante a vida e a coisa pública.

 

Mas, como vimos dizendo noutras ocasiões, e particularmente no nosso último «discurso», nós, cidadãos, simples cidadãos, não nos podemos puramente alhear, ao ponto de, só muito esporadicamente, quando a coisa calha a doer, é que nos manifestamos, lamentamos o estado de coisas a que chegámos, vociferando contra tudo e contra todos, e, natural e particularmente, contra a classe política.

 

É que, na verdade, nós fazemos parte dessa classe política que tanto anatemizamos. Pela decisões – nossas decisões – que, ao longo do tempo, e de décadas, tomámos, ao escolhermos este e não outro modelo de sociedade; este e não aqueloutro político. Este e não outro partido. Escolhemo-los e entrámos no jogo. Ou seja, outra coisa não fazemos que «jogar» o jogo deles.

 

Temos, por isso, de ter uma atitude mais séria e responsável quando protestamos.

 

Porventura não fomos todos nós que optámos pela criação deste Estado de Bem Estar Social para prover todas as nossas necessidades?

 

Porventura não fomos todos nós – ou, pelo menos, a maioria de nós – que optou por um Estado todo ele providência e autoritário, interventor em todos os extratos da sociedade?

 

Porventura não fomos todos nós – ou, pelo menos, a maioria de nós – que, ao criarmos um Estado tão mastodôntico, «mascarámos» as relações sociais e criámos um irresponsabilidade difusa e cega do indivíduo quanto às consequências sociais dos seus atos?

 

Porventura não fomos nós – ou, pelos menos, a maioria de nós – que criámos um «biombo», onde «acoitamos» e escondemos, muitas vezes, os interesses de grupos particulares, concorrenciais, e desleais, numa concentração de poder de grupos financeiros e de opinião, sem qualquer escrutínio?

 

Porventura não fomos todos nós – ou, pelo menos, a maioria de todos nós – que construímos a miragem de que o Estado construiria uma autêntica economia de mercado quando, como muito bem sabemos, muitas das grandes empresas não teriam alcançado as suas atuais dimensões sem a própria proteção estatal?

 

E não sabemos nós, porventura, que estes grandes consórcios são os menos interessados na existência de um mercado verdadeiramente livre?

 

Por acaso não sabemos, como diz Innerarity, citando Walter Oswalt, que «estamos a assistir a uma espécie de feudalização do capitalismo, a uma economia legal de pilhagem?»

 

 E de que os despojados dessa enorme massa de capital são os cidadãos?

 

Quando falamos de Estado, cidadãos e classe política, é efetivamente do conceito de polis, que a antiguidade clássica nos legou, e que queremos construir em função, e tendo em conta, os tempos modernos?

 

 Ou não será outra coisa?

 

Hoje somos todos clientes nesta sociedade do hiperconsumo desenfreado.

 

Pelo marketing – e pelos portentosos mecanismos e instrumentos que a internet propicia - somos todos analisados até aos mais ínfimos pormenores da nossa mente e intimidade!

 

 Somos, pura e simplesmente, todos clientes. Pior ainda – simples mercadoria! Mesmo as mais inocentes crianças!...

 

Foi, assim, no seguimento desta lógica mercantilista, que também criámos um Estado com uma administração cuja hidra não sabemos quantas cabeças tem!

 

Todos comem; todos sugam.

 

Porque essa é a verdadeira lógica da administração que temos. Sem clientes, não há partido; sem partido, não há poder; sem poder, não há repartição de proventos e prebendas!

 

É esta, infelizmente, a atual lógica da política. Comecemos pelas próprias freguesias. Na luta pelo poder destas pequenas unidades territoriais do Estado, cada candidato a presidente luta pela conquista do seu «freguês», do seu cliente. A quem, no final da contenda, a muitos ou à maioria deles, tem de lhes pagar o favor do voto que nele depositaram.

 

E, daqui para cima desta escala da administração do Estado, os métodos, embora mais sofisticados, são cada vez mais. Piores e muito maiores.

 

Um autêntico fartar vilanagem, um ver se te avias.

 

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Assim, caros(as) leitores(as), com uma lógica destas, com o passar dos tempos e com uma sociedade assente neste modelo e com estes procedimentos, como podemos ter solução e não irmos à falência?

 

Nos anos sessenta do século passado, enquanto preparávamos a nossa formação académica, defrontámo-nos com dois livros que muito nos impressionaram: um, de Marx – Da miséria da filosofia; o outro, de Proudhon – A filosofia da miséria.

 

 

Em traços gerais, na obra de Proudhon, aquele autor pretendia combater a «preguiça das massas», que está na origem de qualquer autoritarismo. E apregoava que o cidadão em vez de ceder à obsessão do poder deveria ser ensinado a fazer frente à tendência invasora da autoridade, confiando na sua própria capacidade.

Como muito bem diz Innerarity, se esta conceção libertária tivesse alcançado maior êxito e não fosse desacreditada por Karl Marx como utópica e pequeno-burguesa, a história dos direitos sociais e do movimento operário teria sido muito diferente.

 

Contudo, a disputa que pôs, frente a frente, estes dois livros – o mesmo que dizer, estes dois homens e estas duas correntes de pensamento - , saldou-se pela derrota do liberal perante o estatal, e o movimento operário propiciou a criação de uma maquinaria de redistribuição tendencialmente autoritária.

 

 Assim, desta forma, a sua consequência mais imediata foi conseguir para os trabalhadores bem-estar material, integração na sociedade, reconhecimento e direitos de cidadania.

 

Mas impediu a realização de projetos de auto-organização.

 

E foi aquele sistema vencedor que, durante mais de um século, marginalizou a conceição liberal ou libertária da social-democracia. E que hoje nos obriga a falar dela e ter de repensar numa nova conceção de social-democracia.

 

Esta nova conceção de social-democracia coincide com o neoliberalismo na recusa de dominar estatalmente a economia, a disciplina orçamental ou a independência do banco central; contudo, distingue-se dele por considerar o Estado como o quadro inevitável e regulador da vida social, o gerador dos elementos não contratuais do pacto social e o protetor do tecido social.

 

Esta social-democracia liberal previne-nos, não obstante, contra a ilusão de ver na justiça social a simples igualdade e não uma igualdade complexa, que nos põe a tónica não no nivelamento mas na igualdade de oportunidades.

 

Não é o mercado que é o responsável pela crise em que hoje se vive no mundo e particularmente na Europa. O problema é que, na verdade, não há uma verdadeira economia de mercado.

 

Lutamos muito contra a globalização. Errado!

 

Uma verdadeira globalização, no sentido primordial do termo liberal, significa o fim dos consórcios dos meios de comunicação, da finança e da indústria. E o facto de assim não acontecer não resulta da «inamovível lógica do capital» mas do intervencionismo do Estado.

 

Porque estas verdades têm de ser ditas. Doam a quem doerem, caros(as) leitores(as)!

 

Porque a crise do Estado do Bem Estar Social corresponde a uma crise de solidariedade – como são disso exemplo o crescente corporativismo, a economia subterrânea, a resistência às quotizações sociais ou a generalização à queixa que não atende às consequências públicas das suas reivindicações.

 

Os indivíduos não dispõem de qualquer meio para conhecer as relações entre as contribuições individuais e a sua utilização coletiva.

 

O Estado é um intermediário que obscurece as relações sociais, recobrindo solidariedade real com mecanismos anónimos e impessoais de tal maneira que ela não deixa de ser percebida.

 

O resultado consubstancia-se em irresponsabilidade generalizada.

 

Há, desta feita, que pôr cobro a este estado de coisas. Que não está isento de risco, é certo. Que nos obriga a atender a todas as realidades que os usuais modelos macroeconómicos rejeitam ou ignoram: os pequenos privilégios, a extrema heterogeneidade da condição salarial, a falta de equidade no trato fiscal, entre tantos outros…

 

A transparência tem o seu custo. Pode gerar tensões e conflitos.

 

Mas a conflitualidade reconhecida está na origem da autogeração social.

 

O ideal democrático não consiste em negar ou ignorar os conflitos mas em torna-los produtivos.

 

Não mitigando ou negando a realidade. Com verdade. Sem subterfúgios e mentiras.

 

Porque refundar o Estado não é aniquilá-lo, tal como os novos arautos do atual neoliberalismo sub-repticiamente pretendem, não tendo coragem de o apregoar: a que cúmulo chegámos!

 

Refundar o Estado é construir um novo mundo onde Estado, Economia e Sociedade desempenhem, cada um especificadamente, o seu papel, nas suas respetivas áreas de atuação, precisamente bem definidas, e no respeito mútuo e solidário de cada um dos campos, em prol e benefício do homem, do cidadão. De todo o cidadão.

 

Há, pois, hoje, que voltar a ler Marx e Proudhon.

 

Criticamente. Sem militantismos cegos ou ferozes. Com serenidade…

 

Pela nossa parte, proudhoniano nos confessamos!

 

A História, que hoje vivemos, para aí nos aponta…

 

Porque acreditamos sinceramente que, mesmo, e principalmente, ao nível do poder autárquico, mutatis mutandis, a solução dos nossos problemas não está em nenhum líder ou doutrina providencial. Está em todos nós. Conscientes, organizados, cooperantes e solidários numa sociedade complexa e fortemente desequilibrada, no que toca às relações entre os indivíduos e destes com a Natureza ou meio ambiente, nosso nicho, em que vivemos.

 

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Fará, hoje em dia, algum sentido este diálogo de surdos que, há mais de um século, temos consentido?...

 

António de Souza e Silva

 

23
Nov18

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

A XARAGONA

 

 

Nem de riscado a Xaragona se sabia vestir!

 

Rais-te-parta que podão tamanho!...

 

Um bacamarte, como diria o povo!

 

Sobrava-lhe no corpo o que lhe faltava em miolo. E se o cérebro lhe tivesse medrado como o embrulho, haveria de ser uma das pessoas mais escorreitas do lugar. Mas a verdade é que, tirando a capacidade de se meter na vida dos outros e de retirar proventos do esforço alheio, nada mais se lhe aproveitava.

 

Uma microcéfala a Xaragona!

 

Má como um bestigo, era igualmente rancorosa, falsa e invejosa. Não podia ver um vizinho de camisa lavada que punha logo a sua à cora. E se alguém evidenciasse uma capacidade para si inalcançável, tudo fazia para a ridicularizar.

 

Cuspindo com frequência no prato que a alimentava, fazia da ingratidão lema de vida. Podiam dar-lhe a teta a vida inteira que na primeira oportunidade arrastaria pela lama a imagem de quem, cegamente, lhe alimentasse a incompetência!

 

Quando tinha que falar zurrava e fazia-o em tal registo que arrepiava até o mais incauto. Qual megafone anunciando a banha da cobra na Feira dos Santos!

 

Pior do que tudo é que conseguiu emprego na Junta de Freguesia. A pus de golpes baixos, conseguiu ludibriar o Presidente e fazer-se passar por muito competente nas coisas da coltura.

 

Ficou chefa da biblioteca da Junta!

 

Escusado será dizer que o Presidente era tão asno quanto ela, diga-se de passagem, porque quem se sujeita a ser escolhido pelo povo para o governar, tem de o conhecer bem, a não ser que finja que sim pelo poleiro, o que acontece o mais das vezes!

 

A biblioteca da Junta era a menina dos olhos da freguesia.

 

Já não havia necessidades da biblioteca itinerante da Gulbenkian todos os quinze dias. Mas se à Citröen da Gulbenkian ainda ia algum povo, à biblioteca da Junta não ia ninguém, só para não ouvir os urros da Xaragona!

 

A dita cuja transformou-se num espaço solitário, triste, cheio de teias de aranhão! Um espaço morto, bafiento que não despertava o interesse a ninguém. Parecia um jazigo de família, onde os livros dormiam um sono quase eterno! Só passar à porta já dava uma ranheira que nem o surto mais violento da pior sarna!

 

E se a biblioteca era rica!

 

Tinha até livros de estórias sobre a terra e as suas gentes, contudo, ninguém era capaz de saber que lá moravam!

 

O secretário da Junta, de nome Zebedeu, era um rapaz azadinho, que tinha andado na tropa em Mafra e que nos tempos livres se distraia a visitar a biblioteca do convento e a folhear alguns livros que lhe parecessem interessantes. Portanto, nutria pela livralhada um carinho muito especial e o facto de a sua biblioteca ser tão desprezada, andava a meter-lhe algum asco.

 

Começou a azucrinar os ouvidos do Presidente tentando convencê-lo de que tinha de pôr a Xaragona a cavar batatas que para isso ainda haveria de ter algum jeito. Custou-lhe, mas como “água mole em perda dura tanto dá inté que fura”, lá veio o dia em que o chefe ganhou, finalmente, coragem e lhe deu três meses para fazer a mala!

 

Caiu o Carmo e a Trindade!

 

Enlameou de tal forma o nome do autarca que dificilmente a reeleição seria um cenário possível. Mas o povo não é burro, pese embora muitas vezes o fingir!

 

A verdade é que quando ela soube que a responsabilidade do seu despedimento se deveu à insistência do secretário da Junta, não esteve com meias medidas, esperou que a aldeia fosse visitada por uma família cigana que vagueava de terra em terra e que tinha muito má fama, para encomendar um determinado serviço ao patriarca Jimenez. A troco de quinhentos marréis, por vingança, deveria partir os cornos ao Zebedeu na primeira esquina onde o encontrasse.

 

Pagou e aguardou pelo serviço.

 

Num domingo de invernia, jogava-se à lerpa na taberna do Milhais.

 

Numa das mesas estava Zebedeu e alguns amigos tentando esfolar os de Vale do Galo.

 

Páginas tantas, entrou o Jimenez acompanhado de dois farsolas, autênticos príncipes da navalha.

 

Ninguém previa que o copo de tinto que o Jimenez pediu ao taberneiro, servisse de mote à zaragata que se seguira. O cigano passou perto da mesa de Zebedeu, com o copo em riste e, como quem não quer a coisa, tocou-lhe, propositadamente, de raspão no braço para que o vinho se vertesse.

 

Tornou-lhe as culpas.

 

Após pequena discussão o pai dos ciganos pregou-lhe duas solhas no focinho. O Zebedeu, que não era para cantigas, ripostou. Os ciganos vieram em socorro do patriarca e armou-se tamanha zaragata que se não fosse a desproporção de forças tinha sido um caso sério. Os paisanos dominaram os gitanos com relativa facilidade e mais do que isso, obrigaram-nos a falar.

 

O Jimenez, apertado dos coletes, lá pôs a boca no trombone e contou tudo.

 

Ora, como as tascas na altura tinham o mesmo efeito que têm hoje as redes sociais na divulgação das notícias, o incidente fez cair a Xaragona em desgraça.

 

Doravante era desprezada por todos.

 

Caiu em tal desespero que teve de se ausentar para parte incerta sem que mais se lhe soubesse do paradouro.

 

O Presidente foi reeleito e a aldeia passou a viver na paz do senhor.

 

Xaragões agora, só mesmo os das camas de ferro forjado dos fregueses!

 

Gil Santos

 

 

 

02
Nov18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

SONHAR BEM ACORDADOS

 

 

Por motivos de ordem pessoal e familiar vários, que aqui não vem ao caso, não nos foi possível acompanhar, como gostaríamos, a atividade autárquica do novo elenco camarário que, há um ano, tomou posse para conduzir os desígnios do desenvolvimento de Chaves e do seu concelho.

 

Estávamos para estar presente na sessão pública, levada a efeito, que fez o balanço de um ano de mandato de Nuno Vaz como presidente da nossa edilidade. Mas, também, infelizmente, não nos foi possível.

 

Procurámos, por outros meios, estar informados e saber o que, na primeira pessoa, Nuno Vaz disse, a propósito do primeiro ano de seu mandato.

 

Para o efeito, vimos e ouvimos a entrevista dada, no passado dia 23 de outubro, à Sinal TV.

 

Foi uma hora, dezasseis minutos e vinte e cinco segundos (1h16m25s) na qual pudemos, de uma forma atenta, compreender melhor o pensamento do nosso presidente de Câmara, quanto à «sua gestão», bem assim o balanço que faz da «sua governação» e do que se projeta para o futuro.

 

Temos, à cabeça, fazer uma «declaração de interesses». Ou seja, tudo quanto vamos expor parte de um militante socialista – que sempre o foi -, pese embora alguns «fervorosos», partidários «devotos» do PS de Chaves, que, em certas alturas, não nos tenha bem compreendido. Sempre vimos o exercício de cargos políticos, não como uma profissão, outrossim como um serviço à causa pública, que não a interesses particulares, pessoais ou partidários. Veja-se, nomeadamente, o que está acontecendo por esse mundo fora! Se é certo que a vida em sociedade não pode passar sem política e políticos, também é verdade que, nos respetivos cargos, não vale apenas  parecê-lo; é necessário sê-lo.

 

Feito este incisivo aparte, continuemos, pois.

 

Dizendo que, na apreciação que fazemos da entrevista, não temos em conta apenas a personalidade de um homem que é militante da mesma formação política a que pertencemos e que, em campanha, apoiámos. Mas temos demasiado amor à liberdade de pensamento e à democracia e aos Direitos Fundamentais do Homem, pela qual durante anos lutámos, para não nos deixarmos embotar. O nosso pensamento - nossos princípios e valores -, que sempre defendemos, ditam-nos que façamos uma apreciação desenfeudada e à revelia de qualquer proselitismo cego. Quando discordamos, fazemo-lo de uma forma frontal. Sem qualquer subserviência, porquanto este foi sempre o nosso timbre, o nosso lema.

 

Por isso, dizemos que, globalmente, gostámos e concordámos com o que Nuno Vaz disse naquela entrevista.

 

Há, contudo, aspetos de pormenor - que, bem vistas as coisas a fundo, não são tão assim -, com as quais não estamos totalmente de acordo.

 

Sabemos que Chaves se situa na área do interior e periférica do país, com problemas, sendo um dos maiores o de essencialmente de cariz demográfico, que faz com que o seu território, de baixa densidade populacional, em constante perda, tenha dificuldades em se regenerar e, assim, com sangue novo, poder catapultar-se para as tarefas do desenvolvimento de que tanto precisa.

 

Abandonada a ideia da criação da rede de cidades médias no país, aparecida nos anos 90 do século passado, como polos de desenvolvimento ou eixos dinamizadores dos seus territórios de proximidade, apenas nos restaram, (porque mais fáceis de levar a cabo, em tempo de captação votos), os grandes canais rodoviários que tão rapidamente nos levaram para o litoral e para o exterior. Ninguém de fora subiu até nós. E nós ficámos cada vez com menos gente e, consequentemente, mais pobres e envelhecidos. Porque nós é que descemos. Os que cá vão restando ou são autênticos resistentes ou então, provavelmente a grande maioria, esperam pela «sua vez», pela hora da sua «última chamada».

 

Tenhamos a coragem de afirmar que o país, e os seus políticos – sublinhe-se, com a nossa pacata benevolência -, abandonaram a ideia do desenvolvimento harmónico de todo o território nacional, com as consequentes desgraças que nos aconteceram e, infelizmente, vão continuar a acontecer, porquanto, o que mais interessa é o número de votos ganhos para o exercício do poder e não o país. Isto tem de ser dito com toda a clareza. E dureza. E principalmente apontar o dedo acusador àqueles políticos que, oriundos do interior, uma vez na capital do reino, facilmente se esqueceram do berço e das berças, embalados pelo canto da sereia das promessas da boa vida na capital. E das benesses do poder…

 

Foram quarenta e tal longos anos depois do 25 de Abril a se esquecer completamente esta realidade. Ou seja, não fomos capazes não só de ordenar como também de desenvolver, como um todo, o nosso país. O Poder Local é seguro que fez obra. E muita, diga-se. Mas, o mesmo, só por si, é (foi) completamente incapaz de reverter esta situação - a de profunda depressão em que o interior do país ficou mergulhado.

 

Por isso, o nosso presidente Nuno Vaz não tenha ilusões! Não há desenvolvimento territorial  que se cumpra e, consequentemente, territórios desenvolvidos, sem a presença dos dois eixos  (abertura ao exterior e coesão interna) e de quatro pilares (inovação, redes, aprendizagem/learning e governância), conforme figura abaixo se apresenta.

 

Grafico.png

 

 

Os dois eixos convergem num vértice, para aquilo a que chamamos «Densidade Institucional», como a capacidade dos atores e agentes locais, individuais e coletivos, das mais diversas índoles, se articularem, harmoniosa e empenhadamente, para, em cada setor, desde o económico ao cultural, para as diferentes tarefas do desenvolvimento.

 

Este é o modelo que há anos vimos defendendo e que, particularmente, nesta rubrica, temos reiteradamente referido e enfatizado.

 

Podemos – o que duvidamos - ter tudo o que está representado no esquema acima. Mas, o que nos parece não ter, é um aspeto muito importante  – Densidade Institucional!

 

Onde param as gentes e particularmente as elites da nossa região?...

 

Quem e onde elas desenvolvem?...

 

Estranhamos na entrevista de Nuno Vaz que não tenha feito qualquer referência ao nosso mundo rural. Chaves, como centro de atração dos seus territórios de vizinhança foi historicamente grande, enquanto âncora, suporte  desse mundo. Quando esse mundo começou a desmoronar-se, Chaves também começou a soçobrar, a perder o seu protagonismo no contexto sub-regional em que se insere.

 

Sinceramente, não acreditamos que seja apenas a água, nas suas mais diferentes valências e vertentes, que nos fará mudar de situação, voltando a ser protagonistas no contexto de uma região deprimida e de uma sociedade global em que nos inserimos.

 

A atratividade de Chaves não está apenas neste recurso, obviamente muito importante, por mais polivalências que tenha. Está nas suas gentes. E gente, repete-se, é o que nos falta!

 

E como podemos concitar desenvolvimento se mesmo a própria cidade está perdendo – ou se esquecendo – dos elementos fundamentais da sua própria identidade. Elementos esses com os quais se identificava e deveria valorizar e aperfeiçoar no contexto da sociedade em que vivemos, porque verdadeiramente diferenciadores dos demais?

 

Temos uma cidade atrativa suscetível de fazer deslocar para o seu seio, para o seu interior, juventude e conhecimento suficiente para criar e desenvolver a economia digital que aí está?

 

Onde estão os espaços públicos que mostrem esses elementos diferenciadores da sociedade que somos no contexto da sub-região em que nos inserimos?  Não basta apenas a História e nos vangloriarmos dela. É fundamental lhe dar Vida!

 

Por exemplo, demos uma volta atenta à cidade de Bragança – a periferia das periferias do nosso interior. Talvez, uma avisada observação nos ensine alguma coisa. Nomeadamente,  como fazer, como cerzir e ordenar uma cidade com os elementos, verdadeiramente culturais e autenticamente identificadores, da região a que preside. Dá gosto ver, passear e apreciar os espaços públicos e a escultura urbana, por eles espalhada,  verdadeiros perfis definidores daquilo que os bragançanos (ou brigantinos) são; o orgulho que têm e donde provêm.

 

Onde estão, em Chaves, os serviços e atividades culturais que prendam os quadros das futuras(?) empresas e serviços de ponta, a instalar? Que educação fazemos, na população em geral, levando-a a esses novos espaços?

 

Não basta apenas construir infra-estrurras culturais. É necessários dinamizá-las com atividades sociais e culturais de ponta, em parceria, e em rede, com instituições de prestígio nacional e internacional, catapultando e exponenciando o capital, a valia e o potencial cultural que Chaves tem. Onde estão os homens – os verdadeiros homens – da cultura em Chaves? O que temos feito para Chaves ser uma cidade da cultura que, ao longo dos anos, tanto propagandeamos?

 

Onde estão os serviços de educação capazes de concitar a vinda de jovens para a nossa região e que os faça pensar que vale a pena viver aqui, pois temos serviços de educação condignos e que, no futuro, com seus filhos não terão gastos ou encargos insuportáveis para os por a estudar, como hoje acontece, quando os serviços de educação, fundamentalmente de cariz superior, estão maioritariamente instalados no litoral, com os preços de habitação e quartos verdadeiramente astronómicos para os seus orçamentos familiares?

 

Não nos venham falar nos protocolos com a Cruz Vermelha e com o Politécnico de Bragança. Por muito boa vontade que tenham, não têm, em si, sinergias suficientes de, em Chaves, criarem uma verdadeira Academia, um verdadeiro Polo de Formação Superior e um verdadeiro Centro de Investigação, de que tanto carecemos, para as tarefas específicas do nosso próprio desenvolvimento, dando também contributos para o país.

 

Quando uma Universidade, com vocação para servir uma vasta região, se transforma única e simplesmente numa universidade praticamente só de uma cidade, pela nossa parte, temos de olhar para o lado, sonharmos, arquitetarmos verdadeiros saltos que nos façam sentir que somos capazes. Que, como dizia um grande sonhador – que podemos!

 

Onde estão os serviços de saúde capazes de praticarem a tempo e horas, e com qualidade, os cuidados primários e de especialidade que todo o ser humano, desde a nascença até ao seu ocaso, têm necessidade? Se os queremos, temos de constantemente descer a A24 e a A7. Pouco ou quase nada sobe até nós!

 

A atratividade faz-se com isto e não apenas com capacidade empresarial instalada. Ousaríamos dizer até que não haverá verdadeiramente capacidade económica e empresarial sem estes requisitos (ou melhor, estes pré-requisitos) instalados. De qualidade!

 

Tocámos apenas por alto nestes três ou quatro temas. Porque nos parecem serem, em termos de atratividade, aqueles que nas alturas das verdadeiras decisões levam os decisores económicos, empresas e indivíduos, a investirem e se instalarem num determinado território. Os quadros, porque também sonham por um outro estilo de vida, diferente do que se vive nas grandes cidades e áreas metropolitanas, quando apostam em nós, injetando-nos sangue novo, criativo e inovador, é cuidando em tudo quanto para cima ficou dito que estão a (irão) pensar.

 

Está bem o senhor presidente da Câmara de Chaves em ouvir as pessoas nas alturas das decisões que interessam à cidade e ao concelho.

 

Mas gostaríamos de aqui recordar: mais que dar conhecimento e aceitar contributos, é necessário que os cidadãos flavienses sejam partícipes da sua própria mudança!

 

Por isso, se é bem certo que é preciso estar bem acordado, também não é menos verdade que é do sonho, da utopia, que nasce a vontade de transformar as coisas e o mundo.

 

Na nossa modesta opinião, é este o pequeno/grande salto que falta dar em Chaves.

 

Seremos todos nós capazes de transformar o estado de coisas a que chegámos?...

 

Já várias vezes vimos afirmando que não acreditamos em homens providenciais. Tal postura pode até representar um perigo para a vivência democrática. Acreditamos, sim,  em líderes que, arregaçando as mangas, sejam capazes de, em conjunto, transformarem o mundo e a sociedade em que vivemos.

 

Sem uma sociedade e/ou comunidade verdadeiramente empenhada no trabalho da sua transformação, não há desenvolvimento que verdadeiramente apareça.

 

Não façamos simulacros de democracia. Tenhamos coragem, como representantes do povo que nos elegeu, de convidá-los à participação e construção do nosso futuro, acrescentando à democracia representativa aquela que, nos primórdios da Grécia Antiga, se viveu em Atenas – a participativa, verdadeiramente empenhada na construção da nossa polis.

 

António de Souza e Silva

 

26
Out18

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

O PADRE SALGADO

 

Por entre as envergonhadas flores do tojo bravo coava-se um sol arrepiado de uma fria tarde de março. O carvalho negral preparava os seus primeiros rebentos. Do chão, ainda curtido pelos gelos do inverno, rompiam os primeiros fachos de erva tenra. O ar, apesar de gelado, respirava-se límpido. Os dias estavam a crescer e não tardava por aí o cuco a anunciar a metamorfose primaveril.

 

O Zé Pimpão era pastor. Fez-se à vida mal aguentou a sacola da merenda às costas. Teria uns cinco anos, não mais. Conhecia cada rês pelo seu nome. As touças não tinham segredos nem fronteiras. Na arte do pastoreio não havia pai. As cabras entendiam-no espantosamente. Deus me perdoe, mas até parece que o Pimpão foi cabra numa outra vida! O rebanho assemelhava-se a um exército às ordens de um implacável general! O Zé era fino como azougue, apesar de não conhecer uma letra do tamanho de um comboio. E que mal tinha isso? O monte nada disso exigia, nem as cabras! Não havia pai para o Pimpão nas artes da natureza!

 

O rebanho do Zé Pimpão saía da corte aos primeiros raios da alva. Pastava embalado pelo tilintar das campainhas, nas encostas baldias do ermo. Tinha para lá de cem cabeças. E ainda crescia, uma vez que muitas cabras andavam prenhes e outras já acompanhadas por travessos cabritinhos. Um rebanho desta monta rapava tudo. Quando, por descuido, o Pimpão o deixava entrar nalguma leira de centeio lá tinha o troco: arcar com o prejuízo. Por vezes, permitia que pastasse nas bordas da estrada nacional, onde as valetas criavam a erva mais viçosa. Mas já sabia que corria o risco de uma multa pesada, aplicada pela Guarda do Vidago.

 

Há dias chegou-lhe uma carta, pelo correio. Não se importou em saber o que dizia ou de onde vinha. Guardou-a no bornal. Importante era fartar as cabras, o resto podia esperar! Mais dia, menos dia, haveria de aparecer alguém que lha lesse!

 

O Padre Salgado, homem ilustre e letrado, pároco da freguesia de Santa Leocádia, há mais de vinte anos foi chamado, pelo seu homólogo da Póvoa de Agrações, para cantar o ofício a uma pessoa de posses que falecera. Saiu cedo no seu alazão. Tinha caminho para mais de quatro horas.

 

Cantou o ofício com mais sete abades. Almoçou uma caldeirada de cabrito como gostava. Pagou-se com uma nota de vinte mil réis. Regressou. Seriam umas quatro da tarde quando desceu calmamente um dos contrafortes do lado norte da Serra da Padrela. Passou na Dorna e botou um caneco que a tia Brízida fez questão de lhe oferecer. O presunto recusou-o. Que vinha farto, que tinha apenas sede.

 

Seguiu para Vale do Galo. Um dos lugares mais ermos e pobres da sua freguesia. Meia dúzia de casebres, alguns ainda colmeados, faziam lembrar uma qualquer terra esquecida por Deus. Ora, só o facto de o reitor passar por lá, o que era raro, já era um acontecimento. Os paroquianos, sabendo da notícia, fizeram questão de estar presentes à passagem do representante do Pai. Também eles queriam mostrar que, apesar da pobreza, tinham boa vontade e não o deixariam passar sem lhe molhar o gorgomilo!

 

─ Bote-nos a sua bênção, senhor padre Salgado!

 

─ Deus vos abençoe, meus filhos. Então as batatas já estão semeadas? Olhai que está no tempo de as botar!...

 

─ Está quase tudo. A porra é que este ano a estrangeira está muito cara. Mas o que se há-de fazer!... A filha não dá nada. Se não for a batata a encher a barriga dos nossos filhos, o que havia de ser de nós!...

 

─ Tendes razão, meus filhos, mas Deus é pai!

 

─ Bota um copito, senhor padre?

 

─ Bem, já que teimais!... Botai pouco, botai pouco!

 

Apesar de puxar um cibito ao vinagre o padre não se fez rogado e nem deu parte de fraco. Não lhe passaria pela cabeça recusar. Seria uma grave ofensa para o seu rebanho. Tinha de fazer o sacrifício. Que fosse pelo perdão dos pecados, pensava enquanto se despedia.

 

Fez-se ao caminho para Adães. Ainda não tinha chegado a meio e já vinha o Zé Pimpão esbaforido ao seu encontro.

 

─ Ó senhor padre Salgado, vossemecê sabe ler?

 

─ Boa tarde! Então que se passa, rapaz, para nem dares as boas horas? Parece que viste lobo! Ele que há?!...

 

─ O lobo não me assusta, tenho cagufo é da Guarda do Vidago que me prega cada estopada que até me troce. Os filhos da puta só conhecem os pobres! Olha que aos ricos não os fodem eles! Tenho aqui uma carta que deve ser mais uma talhada! Queria que o senhor padre fizesse o favor de ma ler.

 

─ Deixa lá ver, Zé…

 

O padre, sem se apear do cavalo que aproveitava para remoer uns rebentos de tojo bravo, abriu calmamente o sobrescrito. Leu a carta para si sob o olhar expectante do pastor que não bulia nem tugia. Calmamente meteu a carta no envelope e, com o seu ar bonacheirão, virou-se para o pastor:

 

─ Não te preocupes, rapaz! Desta vez, não tens de pagar nada. É da Câmara a lembrar-te que tens de vacinar os cabritos novos!...

 

O Zé respirou fundo como se o tivessem livrado dum fardo pesado.

 

Porra, ainda bem! Pensei que fosse outra talhada! Muito obrigado, senhor padre. Beba uma pinga da minha lingureta!

 

─ Não quero, rapaz. Não tenho sede, ainda agora bebi em Vale do Galo.

 

─ Ó senhor padre Salgado, não me vai fazer a desfeita de não bober. O vinho é fraco, mas é de boa vontade!

 

─ Bem sei moço, mas não tenho sede.

 

O Pimpão não perdeu tempo. Vendo que não pagava o favor com vinho, abriu as goelas entre as mãos em concha e clamou:

 

Tchezinha!...

 

Demorou pouco até que estivesse ao seu lado uma cabra reluzente e viva. Tinha um úbere repleto que quase tocava no chão e que havia de esvaziar às turras de dois cabritinhos que a esperavam na corte.

 

Então não havia de pagar o favor ao reitor, pensava o Zé Pimpão!...

 

─ Ó senhor padre Salgado, já que se está a fazer fidalgo ao vinho, ao menos mame aqui nesta cabra e não se faça burro!...

 

O padre, sem palavras, esporeou o cavalo e, perdido de riso, fez-se à residência paroquial a galope onde havia de partilhar a história com a governanta que já o esperava com a ceia pronta!

 

Gil Santos

 

 

05
Out18

Discursos sobre a cidade

SOUZA

 

 

O FACEBOOK COMO UM INSTRUMENTO NO EXERCÍCIO DA CIDADANIA

 

 

Não confundamos.

 

As «amizades» do Facebook são de outra ordem.

 

A este propósito, veio-nos à lembrança uma das passagens de uma entrevista do recém-falecido Bauman, quando se referia ao Facebook, e aos «amigos» desta «rede».

 

Dizia ele tratar-se de uma pessoa solitária, numa multidão de solitários.

 

Será?

 

Só?...

 

Será como Bauman diz, a atratividade deste tipo de rede é que não cria compromissos, não estabelece verdadeiros laços humanos, ao não se efetuar uma conexão de verdade como aquela que põe face a face, corpo a corpo e olhos nos olhos as pessoas?

 

Será que este tipo de relação, no Facebook, não promove ou não cria, compromisso nenhum entre amigos?

 

Será que não estamos perante uma pura espetacularização da vida privada, em plena praça pública?

 

Que a essência desta relação está só, e apenas, no «conectar» e «desconectar» do «amigo», conforme a este lhe der na “real gana”?

 

Não provocando, assim, situações difíceis que o «desconectar» real de uma amizade concita - na rotura da mesma -, e que, até, pode ser traumática?

 

É certo que o Facebook está na moda. E que reflete um dos “sinais dos tempos” propiciados pela novas tecnologias da comunicação e da informação, no contexto de uma sociedade globalizada, como aquela em que vivemos.

 

Uma sociedade em que se acentua, de forma cada vez mais clara, os sinais identificadores da perda das identidades e das raízes dos cidadãos. Uma sociedade em que assistimos ao paradoxo de sermos cidadãos do mundo, graças às fantásticas inovações tecnológicas e, ao mesmo tempo, sentimo-nos isolados diante de uma realidade que, muitíssimas vezes, nos escapa do controlo.

 

O homem globalizado, do nosso tempo, é um homem fragmentado e eticamente confuso, num processo acelerado de homogeneização e uniformização.

 

Sabendo embora tudo isto, perguntamo-nos:

  • Será que as «amizades», os diálogos e trocas de opinião que «a rede» estabelece e propicia podem-se entender como uma nova forma de “espaço público”, compreendido como ambiente de convívio e de formação da cidadania, sobretudo num momento histórico marcado pelo isolamento cada vez maior dos indivíduos, engaiolados em espaços privados, em nítida demonstração de retrocesso e de vitória do individualismo, em detrimento das conquistas coletivas?

 

A pergunta pode ter duas respostas.

 

Pela nossa parte preferimos aquela que vê e se serve da «rede» como uma possibilidade de “alcance de campo” que esta propicia, ao ampliar as possibilidades de conhecimento e de “mobilização” do cidadão  em ordem à construção da polis.

 

Pela convivência com os seus pares, integrantes da comunidade a que voluntariamente “aderiu” e/ou à qual pertence.

 

Comunidade efetiva e afetiva de homens e mulheres livres. Solidários. Justos.

 

Que, em última instância, procuram o contacto equilibrado e harmónico com a mãe-natureza.

 

Sem pretendermos darmos lições a ninguém, sinceramente esperamos que, passado um ano, depois de serem eleitos para os novos cargos autárquico no nosso concelho, os nossos novos representantes saibam estar à altura dos desafios que hoje são colocados à nossa sociedade.

 

Que não se usem as novas tecnologias de comunicação e informação apenas como simples fachada, mas como um meio ou instrumentos de, todos, construirmos, em verdadeiro diálogo, a nossa polIs.

 

Procuraremos estar atentos…

 

António de Souza e Silva

 

 

28
Set18

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

DESGARRADAS

 

As noites do inverno em Trás-os-Montes continuam mais longas do que em qualquer outro sítio.

 

Após o ocaso começa a gear e ainda a hora da ceia vem longe já o carambelo emprenha de diamantes os galhos das árvores e os beirais dos telhados.

 

Uma melancolia álgida acompanha a cria que recolhe lusco-fusco às cortes e o homem-bicho que se esgueira para o conforto do tição.

 

Manja-se do que o outono colocou no celeiro e aguarda-se, pacientemente, que desponte um dia mais ridente do que o que pereceu.

 

O tempo transmontano insiste em correr pachorrento, ao ritmo do crescimento dos buxos dos adros das capelas, apesar da modernidade ir preenchendo os tugúrios com a tecnologia experimentada nos espaços urbanos.

 

Um privilégio cada vez mais raro que importa manter (?).

 

Há anos, não muitos, quando as candeias de azeite alumiavam, mortiçamente, essas noites gélidas, as pessoas consumiam as horas do serão tagarelando à volta de um canhoto de carvalho negral que se consumia, tranquilamente, na lareira dos casebres. Aproveitavam para botar contas à vida, os queixos a um cibo de aguardente, quem na tinha, para lamentar a má sorte ou para contar estórias, algumas delas reinventadas, mas com epílogos quase sempre felizes. Outras vezes juntavam-se na casa do forno, se o nevão o permitisse, consumindo lugares comuns e ausência de novidades.

 

Uma vida triste!

 

Na casa da Ti Joana Caçolina tudo se passava no rame-rame de sempre.

 

O Ti Antero, seu marido, era o chefe da família ia para mais de uma vintena de anos. Dedicava-se à agricultura. Contudo, tinha jeito para a carpintaria e sempre que podia não rejeitava uns magros tostões que lhe pudessem advir desta arte.

 

Tiveram filhos muito tarde.

 

A Ti Caçolina chegou a pensar-se matchorra, não fora ter convencido o marido a acompanhá-la à Misarela na foz do Regavão. Passaram lá uma noite fria, mas valeu a pena. Emprenhou de gémeos aos quarenta anos.

 

O parto não foi muito normal e se não fosse a Tia Cândida a ajudar a dilatar as carnes, ressequidas, da parideira e os gémeos não teriam vencido. Mas venceram e deram dois rapagões de estalo: O Delmino e o Delfim.

 

O primeiro, aos doze anos, já se gabava de fazer a barba, embora reconhecesse que raramente precisava de afiar a navalha!

O Delfim, com a mesma idade, já pintava!

 

Não sendo uma família abonada, nem tão pouco remediada, também não se podia dizer que fosse pobrezinha. Vivia do que a terra dava e, não sendo muito, sempre se compunha a mesa com a carpintaria que ajudava a controlar os calotes na mercearia do Magalhães.

 

Os rapazes eram dados às artes musicais.

 

De latas faziam bombos, da casca das varas de castanho flautas, das bancas de tripé concertinas e passavam as noites a oferecer grandes concertos.

 

Umas vezes cantavam à desgarrada, imitando os cantadores que observavam pelas romarias, com improvisos bem conseguidos, para gáudio da família, outras remedavam os cantores da moda, que ouviam no rádio da taberna.

 

Era uma alegria na casa da Ti Joana!

 

Uma noite, de inspiração desusada, os rapazes ajustaram, de aposta, um cartar ao desafio. Seria vencido o que primeiro perdesse a rima.

 

Quadra dum lado, resposta do outro, e a coisa foi-se amanhando, com tal sucesso que o Ti Antero soltava estridentes gargalhadas entre dois golos de maduro tinto, do de Cobaladrão, que aquecia ao borralho, na pitxorra preta de Nantes.

 

Entrementes, o Delmino, em resposta a um atrevimento do gémeo, botou a rima seguinte:

 

Boa noite meus senhores

No fundo d’um alguidar meu

O meu pai é serrador

Serrou os cornos ao teu!

 

Não havia ainda terminado e já a Caçolina, sua mãe, puxara a culatra atrás pespegando tamanho bofetão nas trombas do cantador que lhe afocinhou os queixos na cinza da lareira! O rapaz ficou tão atromelizado que precisou de muitos anos para perceber o que justificara aquela atitude marada de sua mãe!

 

Uma coisa é certa, nunca mais, a partir daí, houve noutro serão cantigas à desgarrada. Pudera, é que a Joana Caçolina tinha imenso empenho na sua fidelidade matrimonial!..

 

O Ti Antero inchou de empáfia por ter sido considerado, simultaneamente, o protagonista e a vítima.

 

Também ele precisou de muito tempo para perceber aquela atitude inesperada da sua querida esposa!...

 

Gil Santos

 

 

 

07
Set18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

 

PALAVRAS SOLTAS

 

 

Aqui se deixam aos nossos leitores, um conjunto de palavras soltas, «desventradas» de textos que, ao longo de um ano, fomos escrevendo nas redes sociais onde escrevemos.

 

Todas elas, grosso modo, debruçam-se sobre temas que nos são caros, nomeadamente, o poder das novas tecnologias de informação e comunicação (TIC), o espaço público, o exercício da cidadania, o socialismo e a social-democracia.

 

Apresentamos, em tempo de férias, palavras ditas, de caráter genérico, mas, mutatis mutandis, perfeitamente válidas e atuais, como não podia deixar de ser, nos tempos por que passamos e para a comunidade em que nos inserimos.

 

O reino e as temáticas das TIC, do espaço público, do exercício da cidadania, da discussão à volta do liberalismo, o socialismo e a social democracia, jamais está concluída. Representam temas e consubstancia(m) projeto(s) de uma sociedade em construção. Em que a recriação dos espaços públicos e o exercício da cidadania impõem-se-nos, cada vez mais, com muita acuidade e urgência.

 

E não se iludam aqueles que, com a mudança de poder, tudo muda, ou pode mudar. Muito pelo contrário – é uma folha em branco que se nos apresenta à nossa frente para ser escrita.

 

O tempo, sempre demasiado célere, se encarregará de dizer em que moldes é que ela foi escrita…

 

E porque nós flavienses, vivendo numa sociedade globalizada, e não vivendo numa ilha isolada, imunes a quaisquer acontecimentos e influência, as palavras dispersas, abaixo reproduzidas, para nós fazem todo o sentido e têm toda a valia.

 

As últimas palavras soltas referem-se à Europa da qual fazemos parte. Nelas inculcávamos uma ideia de otimismo em relação ao futuro.

 

Citemos, então, algumas palavras soltas, de nossos textos dispersos:

 

***

 

Habermas, a propósito do espaço público, dizia, já lá vão umas boas dezenas de anos, mais ou menos, o seguinte:

 

"Onde essa despolitização e esse empobrecimento mais claramente se manifestam é no tipo de comunicação que atinge a opinião pública: uma comunicação trivializada e sem autênticos debates. Realiza-se nela um tipo de confrontação elementar em que o acontecimento está acima do argumento, o espetáculo acima do debate, a dramaturgia acima da comunicação, a imagem acima da palavra. A esfera pública fica reduzida a um conjunto de «espetáculos de aclamação»”.



Vem isto a propósito da Edição Especial que a RTP 1, há uns tempos, através da jornalista Fátima Campos Ferreira. Alguns dos entrevistados foram Sampaio Nóvoa, José Gil, Freitas do Amaral e Adriano Moreira. Não pomos em causa a valia dos entrevistados. Interrogamo-nos, na linha de Habermas, o que se pretende. Não desejamos «espetáculos de aclamação», necessitamos que a comunicação (e, neste caso, um meio de comunicação pública) saia dos seus moldes estereotipados do espetáculo televisivo e seja capaz de nos mobilizar para as tarefas da construção do nosso futuro coletivo, criando um efetivo ambiente de construção de uma verdadeira opinião pública. «Pareceres» ou conhecimentos de peritos, precisam-se. Mas, urge ir mais além, ou seja, termos uma televisão pública ao serviço da cidadania, ajudando a criar uma verdadeira opinião pública. Opinião pública de que tanto necessitamos.

 

***

 

Na era da informática, cujas benesses são inegáveis, sofremos com o crescimento do imediatismo em todos os setores da vida humana, na medida em que os homens passam a atuar no mundo de forma meramente utilitária (expressão aqui entendida como a aproximação entre bom e útil). Buscam prazeres efémeros e de fruição individual, sem se atentarem para a importância do convívio social e do bem coletivo.

 

É inegável a proliferação de uma conceção de vida que evitas o comprometimento em relação ao outro. A rápida absorção por toda a sociedade de valores estritamente económicos passou a fundamentar condutas que se regem pela ideia do que é mais «lucrativo». Não somos contrários à perceção de justa retribuição por trabalhos que os seres humanos exercem em cada área de suas vidas. Todavia, não podemos concordar com o facto de absolutamente todos os setores da vida humana se reduzirem a uma relação de «custo-benefício». Ainda acreditamos em valores essenciais que jamais poderiam ser reduzidos em fórmulas económicas.

 

***

 

Ainda é incerto o efeito que a internet virá a produzir no espaço público. Mas uma interrogação se impõe, de modo irrecusável: ela contribuirá para facilitar a aquisição de uma cultura cívica comum ou, como temem alguns, favorecerá a fragmentação e a polarização social? A influência dessas inovações técnicas nos sistemas democráticos é motivo, ao mesmo tempo, de entusiamo e medo.

 

***

 

Se o grande feito político do século XXI foi ter consolidado a democracia é também verdade que a legitimação do Estado, com base exclusiva na democracia representativa, se esvaziou, por via do crescente distanciamento da maioria absoluta da sociedade. A política subordinou-se à economia, dominada por um sector financeiro que procura riqueza sem produção. Nestas condições, o poder político do Estado não cessa de perder legitimidade. Na era da informática, cujas benesses são inegáveis, sofremos com o crescimento do imediatismo em todos os sectores da vida humana, na medida em que os homens passam a atuar no mundo de forma meramente utilitária (expressão aqui entendida como a aproximação entre bom e útil). Buscam prazeres efémeros e de fruição individual, sem se atentarem para a importância do convívio social e do bem coletivo. É inegável a proliferação de uma conceção de vida que evita o comprometimento em relação ao outro. A rápida absorção por toda a sociedade de valores estritamente económicos passou a fundamentar condutas que se regem pela ideia do que é mais “lucrativo”. Não somos contrários à perceção de justa retribuição por trabalhos que os seres humanos exercem em cada área de suas vidas. Todavia, não podemos concordar com o fato de absolutamente todos os sectores da vida humana se reduzirem a uma relação de “custo-benefício”. Ainda acreditamos em valores essenciais que jamais poderiam ser reduzidos em fórmulas económicas.

 

***

 

Apesar de ter passado à história com o rótulo de socialismo utópico, Proudhon não exigia aos trabalhadores que sonhassem com um ideal utópico de sociedade – no qual não acreditava – nem que confiassem cegamente numa casta dirigente que lhes prometesse exercer o poder do estado em benefício dos seus seguidores. O seu objetivo eras combater «a preguiça das massas», que está na origem de qualquer autoritarismo. Em vez de ceder à obsessão do poder, ensinava a fazer frente à tendência invasora da autoridade, confiando na sua própria capacidade.

 

Face ao presente, urge uma nova leitura, um novo enfoque quanto às obras legadas pelos dois grandes pensadores que estão na origem daquelas que foram designadas como as correntes do «socialismo» e da «social-democracia», de Marx e Proudhon, respetivamente.

 

 

***

 

 

Gostaria de partilhar o conteúdo da última página do livro "O novo espaço público", de Daniel Innerarity, dada a oportunidade, face aos tempos que correm, da sua reflexão:


"(...) o nosso principal desafio consiste em abandonar os conceitos centrados na ideia tradicional de estado e criar uma compreensão alternativa das relações entre estados, as nações e as sociedades. Para entender bem a Europa é preciso tomar distâncias em relação ao conceito de estado. A Europa não é um estado, mas uma nova forma de organização do poder político para a qual não é apropriado o conceito de estado. Ao mesmo tempo, o conceito de soberania terá de abrir-se para os espaços de poder da era global. O conceito de soberania de que nós dispomos não parece adaptado às exigências do projeto político da cidadania europeia. Postas as coisas neste pé, tem razão Ulrich Beck quando assegura que uma Europa cosmopolita é hoje a última utopia política efetiva. Devendo definir um novo bem comum europeu perante os interesses mais imediatos do capital e dos estados, nós, europeus, temos a oportunidade de descobrir os grandes fins da política (...)"

 

Mas o tempo, esse elemento tão devorador, soprando por todos os lados e quadrantes, trazem-nos surpresas, que vêm carregadas de presságios, não augurando grande futuro.

 

Vivemos, positivamente, tempos difíceis.

 

António de Souza e Silva

 

03
Ago18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

 

DEMOCRACIA REPRESENTATIVA E PARTICIPATIVA NO QUADRO AUTÁRQUICO FLAVIENSE

 

Há democracia representativa que se consubstancia ou efetiva de uma forma ou autocrática ou participativa, tendo, entre uma e outra, vários estádios e nuances.

 

Tal circunstância deriva não só da personalidade dos eleitos e respetivas instituições pelas quais são propostos a sufrágio, como do grau de consciência cidadã e da dinâmica dos representados.

 

Ultimamente, no nosso município, temos vindo a assistir a um conjunto de iniciativas que nos questiona quanto à verdadeira postura deste novo executivo, liderado por Nuno Vaz.

 

Faz parte da cultura democrática deste novo executivo trazer os cidadãos à discussão e tomada de decisão das questões fundamentais no que concerne à construção e desenvolvimento da nossa cidade e do nosso concelho?

 

Esclarecemos.

 

Não temos suficiente vivência no concelho para, com efetiva verdade, opinarmos sobre esta questão importante.

 

Todavia, não é por não estarmos demasiado entranhados na vivência democrática da nossa terra que nos tira a capacidade de discernimento quanto à forma como levamos a cabo, democraticamente, as questões que afetam a vida dos flavienses.

 

Muitas vezes até um certo afastamento - um ver mais à distância -, torna a observação mais objetiva.

 

E, quanto àquilo que vimos ultimamente, temos razões bastantes para afirmarmos que há uma nova vontade de encarar a gestão da coisa pública flaviense de uma forma diferente.

 

Tivemos pena em não podermos assistir, no passado dia 25 de julho, no Auditório do Centro Cultural de Chaves, à Sessão de Esclarecimento – Museu das Termas Romanas – nem, no dia 30 do mesmo mês, na Junta de Freguesia da Madalena, à Apresentação Pública do Projeto «Conectividade entre as lagoas e o rio Tâmega e requalificação das suas margens».

 

Quanto à Sessão de Esclarecimento sobre o Museu das Termas Romanas, apesar de não estarmos presente, vimos e ouvimos com atenção toda a sessão que Afonso Freitas postou na sua página pessoal do Facebook.

 

E, a propósito do que vimos e ouvimos, sentimos necessidade de tecer algumas considerações sobre o que entendemos por desenvolvimento e arquitetura urbana em espaços públicos.

 

Considerações essas, aliás, que já vimos defendendo há muito tempo. Mas que nunca é demais frisar e/ou recordar:

 

As atuais estratégias de desenvolvimento compreendem a cidade como uma comunidade onde existe uma vida local e lugares requalificados. Infelizmente, o conceito utilizado tem sido o da requalificação através da arquitetura-espetáculo para ser exibida, gerando uma verdadeira teatralização do espaço público.

 

O que importa, nesta forma de «fazer cidade»,  é a diferenciação e a capacidade de «ilusão» que as «obras» provocam na sua passagem, desprendidas da  vivência e do quotidiana das pessoas que aí vivem, traduzindo-se, assim, num aniquilamento do lugar.

 

É certo, como dizem Borja & Forn, em “Políticas da Europa e dos Estados para as Cidades”, que o maior desafio do planeamento urbano contemporâneo é aumentar o potencial competitivo das cidades no sentido de responder às procuras globais e atrair recursos humanos e financeiros, quer nacionais, quer internacionais. Mas, de acordo com vários exemplos a que temos assistido, o planeamento tem sido feito à margem da cidade, com total esquecimento das pessoas que ocupam e vivem nesses espaços.

 

Na verdade, o que, infelizmente, se pretende é construir uma cidade cujos seus espaços «cativem o olhar» do turista ou que, em termos mais gerais, propicie uma atratividade em termos económicos, no conserto de uma sociedade totalmente rendida ao mercado.

 

Hoje em dia é frequente vermos uma cidade, e os seus espaços públicos, como se fossem uma simples mercadoria. Que é de todos, mas usufruído por muitos poucos. É uma lógica de produção e reprodução do sistema económico que aí está em vigor.

 

Contudo, o projeto de arquitetura urbana deve dirigir-se aos anseios e aspirações da população que dele vai usufruir, otimizando características fundamentais à sua apropriação. Estes devem possuir características próprias e identitárias que mantenham relações de proximidade e até mesmo de afeto como os mesmos.

 

Os espaços públicos, que antes eram destinados à sociabilização - o verdadeiro espaço vivenciado -, como define Henri Lefebvre, convertem-se na representação de um espaço artificial, desligado dos residentes e usuários, onde não se considera as tradições e as identidades locais, onde a escala do projeto não corresponde à escala do ser humano.

 

E, nesta lógica, muitos políticos e técnicos se esquecem que o espaço público tem como objetivo principal -  a apropriação pelo ser humano!

 

Por isso, temos de debater e por em causa a visão que o poder político tem sobre o território sobre o qual exerce poder. O poder municipal é o principal impulsionador do espaço público e, em particular, ao nível das cidades pequenas e médias [pela “forte concentração do poder e/ou pela maior visibilidade que ele pode ter”], o resultado destas intervenções pode induzir a persuasão do voto.

 

Basta considerarmos as sucessivas inaugurações de parques, praças e jardins em plena época eleitoral. O espaço público reflete, desta forma, a corporificação da preocupação e da capacidade especial da autoridade e, deste ponto de vista, surge como um produto personalizado que compromete o voto. A pressão ao nível dos técnicos é claramente elevada ao conceito de arranjo e assim destitui o espaço de uma forma que o deve caracterizar e individualizar, quando o essencial é entendermos a dinâmica das cidades e dos seus ocupantes e de refletir sobre a(s) nossa(s) identidade(s) e apropriação (ões) como cidadãos pertencentes a uma determinada comunidade.

 

As cidades não são estáticas. Têm espaços que desempenham funções. Funções que servem os seus habitantes e os quais delas se apropriam. A forma como as vivem, e delas se apropriam, distingue-as dos demais. E tornam-se, assim, elementos identificadores específicos de uma determinada comunidade.

 

Que querem preservar, pois são o seu selo, a sua marca distintiva.

 

Naquela Sessão de Esclarecimento do dia 25 de julho passado, não se assistiu a uma audição dos flavienses para uma tomada efetiva de decisão. Apenas a um «esclarecimento» sobre questões técnicas e financeiras, relacionadas com os problemas da ventilação do edifício do Museu das Termas Romanas, às quais a grande maioria dos flavienses está alheia, por serem questões de natureza técnica muito específica.

 

Mas, nas intervenções do público que acorreu ao Auditório, para além de se frisar essa circunstância, viu-se e sentiu-se, por parte do mesmo, uma verdadeira vontade dos flavienses quererem uma autêntica participação no modo como «construímos» a nossa cidade.

 

O que o presidente do executivo flaviense, cremos, devia ter sentido foi uma vontade firme dos flavienses quererem ser chamados à co-tomada de decisões que a todos nós nos diz respeito.

 

Não basta esclarecer. Não basta apresentar projetos. É fundamental que os flavienses tomem parte na forma como os «seus» espaços e equipamentos públicos são criados, modificados ou requalificados. Porque são seus. São de todos nós!

 

Sinceramente esperamos que o chefe do executivo municipal flaviense tenha entendido, naquela sessão, o «sinal» que os flavienses lhe deram, lhe transmitiram.

 

Não está, obviamente, em causa, a legitimidade de quem deva tomar as decisões em nome do Município. O que está em causa é que os flavienses, repete-se, querem ser partícipes ativos – e porque não dizê-lo – coautores das decisões que o município, nos seus órgãos próprios, devem tomar.

 

Porque só assim, os espaços e equipamentos públicos reconstruídos, requalificados ou novos poderão contar com os seus diretos beneficiários para, de acordo com as suas diferentes funções, serem por eles animados, dinamizados. Porque a eles lhes dizem respeito!

 

Porque só assim é que uma comunidade se sente viva, útil, identificada com o seu património, amiga do seu «locus», continuadora histórica da sua própria identidade e conciliada com os diferentes tempos que a compõem.

 

Em vez de encenação, urje criar-se uma efetiva dinâmica de participação cidadã e de animação, por estes, dos diferentes espaços e equipamentos públicos, que devem espelhar a alma e a dinâmica do povo flaviense.

 

E temos espaços suficientes para fazermos a diferença. Desde a reativação da ideia de bairro(s) no território citadino; da animação dos tradicionais e emblemáticos espaços públicos (praças e ruas); dos espaços e corredores verdes; dos equipamentos coletivos, como auditórios e museus, particularmente o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, o Museu da Região Flaviense e, quando abrir, o das Termas Romanas, entre outros.

 

São dos flavienses e para os flavienses que eles foram criados.

 

Quem, de fora, os visitar farão parte da «nossa festa»!

 

Nas discussões, e em particular quando está em causa o bem público, não podemos ser redutores: temos de abrir o enfoque da nossa visão para ver as coisas. Não há apenas o eu e os outros. Há que assumir mais propriamente o nós.

 

É aqui que as discussões públicas, pelos cidadãos, entram, representando um elemento fundamental de uma democracia que, para além de ser representativa, deve, fundamentalmente, ser participativa.

 

É assim que entendemos a ação e dinâmica do poder político autárquico.

 

 

António de Souza e Silva

06
Jul18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

 

PERDA DE MEMÓRIA OU FALTA DELA?

 

Não sabemos muito bem qual a razão que, todas as vezes que somos convidados por amigos, amantes da fotografia, para irmos para o Barroso, nos impulsiona sempre uma vontade de encontrarmos uma nesga de tempo, nos nossos afazeres quotidianos, para os acompanhar.

 

O mundo rural e o contacto com as suas gentes são mais a nossa «praia» do que o sofisticado, artificial e, tantas vezes, mesquinho meio urbano em que, hoje em dia, nos movimentamos e vivemos.

 

Percorrendo as aldeias, o casario tradicional, os campos e as serras do nosso mundo rural, sentimos, no contacto com as suas gentes, um halo muito maior de genuína autenticidade.

 

Aí há como que um voltar à nossa infância. Não uma infância de privações e misérias. Uma infância em que, independentemente das condições de vida, havia inocência, mais espírito de interajuda, solidariedade. Enfim, em que sentíamos um verdadeiro sentido de comunidade.

 

Infelizmente, hoje está tudo se desmoronando, tal como a nossa arquitetura rural tradicional, os nossos campos abandonados, à voragem das intempéries e do fogo. E, no meio destas ruínas ou escombros, apenas vamos encontrando alguns – muito poucos - «maiores», à espera da sua «chamada».

 

Olhemos para a nossa cidade e para as vilas próximas, que durante tantos séculos foram o suporte de um mundo rural ativo e dinâmico, e perguntemos-lhes: o que fizeram para que a matriz da nossa identidade, como transmontanos, durienses, altotameguenses e barrosões não definhasse?

 

Muito pouco. Ou quase nada. E nada digam que a responsabilidade foi dos sucessivos poderes centrais que deixaram o interior ao abandono! O que nós – os que cá ficaram e os da diáspora – fizemos? A culpa, aqui, não pode ficar solteira, ou apenas à responsabilidade de um só vilão!

 

Fomos na «onda» daquilo que interiorizámos como se fosse uma inevitabilidade dos tempos, assente na urbanização maciça e na globalização e homogeneização total das sociedades modernas. E esquecemo-nos de lutar e trabalhar para preservar as diferenças que nos distinguem e que, por isso mesmo, nos torna distintos.

 

Porque só lutando pela variedade das diferenças das diversas regiões que somos e temos em Portugal é que nos podemos impor como povo, sob pena de nos diluirmos na massa informe de simples e meros assalariados – por mais instrução e «canudos» que tenhamos – do capitalismo selvagem que hoje, por toda a parte, nos «vende», nos governa, impondo as suas normas.

 

E quanto admiramos um Homem, com letra grande, um grande transmontano que, durante uma vida inteira, outra coisa não fez  senão lutar, usando a sua pena, para que a nossa própria e genuína identidade, o sentido daquilo que nos faz(ia) um povo singular, não desaparecesse!

 

Era um duriense de gema, mas, acima de tudo, sentia-se um verdadeiro e autêntico transmontano.

 

E quanto ele gostava da cidade de Chaves quando, durante décadas, no período balnear, por aqui passava longas temporadas!

 

Veio-nos, aqui há dias, ter à mão um livro de João Céu e Silva, com o título «Uma longa viagem com Miguel Torga», da Editorial Asa. O autor desta obra, a certa altura, nas entrevistas que faz a diversas personagens que, de alguma forma, privaram com Torga, dialogando com o padre Valentim, da Gráfica de Coimbra, face à pergunta se conhecia muito bem Miguel Torga, este responde-lhe: “Talvez como ninguém conheça, à excepção da família! É que para além desta vivência de Coimbra, todos os anos íamos os dois passar férias a Chaves, nas termas. Passávamos o tempo sempre juntos, dormíamos no mesmo quarto e comíamos à mesma mesa. Por essa razão, há uma intimidade que me causa algum pudor quando me pedem para falar desses tempos de uma forma livre (…) Andava sempre com um caderno de apontamentos na mão e depois, em Chaves, acabava por construir tudo aquilo que ao longo do ano tinha escrito. Eu vi nascer muitos poemas, observei como começavam (…)”.

 

E à pergunta porque é que Torga gostava tanto de Chaves, padre Valentim responde: “Era por causa daquele silêncio, daquela paisagem e das termas. Além disso, os arredores de Chaves são muito ricos em monumentos, principalmente românicos, e ele gostava de os ver. Todos os dias tínhamos de ir a um lugar qualquer, nem que fosse para Espanha. Chaves era o lugar onde se sentia melhor, uma espécie de céu para ele. Não o incomodavam muito (…) Quando saímos de lá, o homem quase chorava porque era ali que estava bem. Como disse, era ali que praticamente fazia o arranjo final das obras e depois, quando vínhamos para baixo, dava-me os originais para eu fazer o trabalho na tipografia”.

 

No Barroso, algumas terras, não esqueceram este empedernido transmontano, gravando ou esculpindo as suas palavras no material que ele mais adorava – a pedra.

 

Nós, em Chaves, onde temos a presença de um homem que, aqui, fez brotar grande parte da sua Obra?

 

Perdemos a «memória» deste nosso «Maior».

 

E, em Chaves, quantas «memórias» gravadas dos nossos antanhos, mais coevos, ou mais próximos, temos nos nossos espaços públicos?

 

Fora os Santos, poucos, como a «Mãe», no Jardim do Bacalhau, e o pequeno Santo Amaro, no largo com o mesmo nome, existem, em termos de estatuária, apenas 5 bustos: D. Afonso, 8º duque de Barcelos; padre Joaquim Marcolino Fontoura; Cândido Sotto Mayor, cujo busto o banditismo fez desaparecer do Jardim Público; António Granjo e Mário Gonçalves Carneiro…

 

Para uma cidade milenar, tão pouca ou falta de «memória» da nossa história, deveria deixar-nos envergonhados!

 

Olhemos, por exemplo, para a cidade de Bragança e para os seus espaços públicos. Quem Bragança faz perdurar nos seus espaços públicos? O seu povo, nas suas diferentes atividades, aquele que Torga, nas muitas deslocações que fazia pelo nosso Portugal, ia ao encontro!

 

Em Chaves, já há muitos anos, apenas um autor, natural de Murça – Fernão Magalhães Gonçalves – se debruçou sobre a obra deste nosso «Maior» em «Ser e Ler Torga».

 

O que faz em Chaves a maioria da nossa dita elite intelectual?

 

Empanturra-se – trazendo cá, de vez em quando, pressupostas vozes sonantes da literatura «nacional» - com obras que apenas evidenciam o tamanho do seu enorme umbigo e não procuram analisar testemunhos, ainda vivos, e os nossos genuínos autores, e, com as suas obras, irem à descoberta e ao encontro da «alma» do nosso povo. Este deve ser o papel fundamental não só de um intelectual como de um artista, digno desse nome.

 

Uma comunidade que não se identifique com a sua «intra-história» - e as mulheres e homens das artes são os elementos fundamentais, se não essências, para estabelecer este «religar» - não tem verdadeira autenticidade e, consequentemente, a sua memória porque ausente, desaparece, diluindo-se na amálgama de uma sociedade que tudo nivela e nada diferencia.

 

António de Souza e Silva

 

 

01
Jun18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

SER OU TER?: – EIS A QUESTÃO

 

Tínhamos, nas nossas agendas, uma vez munidos de uma Carinha Todo Terreno emprestada, guardado dois dias para no Gerês barrosão, irmos à procura das cascatas.

 

No segundo dia, a certa altura, os amigos Pluto e Berto dão uma guinada e viram para a serra de Alturas.

 

Descendo do parque eólico ali instalado, fomos ter a um pequeno vale, um enclave, onde encontrámos uma aldeia, completamente em ruínas, verdadeiramente fantasma.

 

Covelo do Monte (01).jpg

 

Duas cadeias de televisão, a 27 de outubro de 2013, e a 18 de novembro de 2013, depois de apresentarem a reportagem «Aldeia à venda em Boticas» e «Aldeia à venda», respetivamente, (http://videos.sapo.pt/e10Z5ffed8DZB1GUNwf1); (http://portocanal.sapo.pt/noticia/11187/comentam, da mesma forma, sobre este assunto: “O despovoamento do interior está a abrir as portas a uma nova área de negócios: a venda de aldeias. A ideia é atrair investidores para projetos turísticos. É o caso de Covelo do Monte, em Boticas. Uma localidade que perdeu os últimos habitantes há cerca de 50 anos e que agora está à venda por 4 milhões de euros”.

 

Chegámos ao local e, máquinas em punho, não parámos de fotografar. Um autêntico cenário de abandono e desolação.

 

Covelo do Monte (02).jpg

 

Que agora é apenas pasto e guarida para o gado. Um belo horrível, que, verdadeira e profundamente, nos deixou pensativo: a que ponto chegou o estado do nosso interior, da nossa matriz rural!

 

Covelo do Monte (03).jpg

 

Feita a nossa reportagem fotográfica, no regresso, lembrávamo-nos de um escrito por nós publicado, a 4 de fevereiro de 2013, sob a epígrafe «Poemas Ibéricos versus Mensagem». (https://zassu.blogs.sapo.pt/2521.html).

 

Nesse texto, a propósito de uma intervenção de Teresa Rita Lopes, da Universidade Nova de Lisboa, com o título «A Ibéria, de Torga e Nós, Portugal e poder, de Pessoa», proferida por ocasião do centenário do nascimento de Miguel Torga, no Centro Cultural Calouste Gulbenkian, em Paris, na qual a autora procurava dar uma visão que estes dois autores tinham sobre Portugal, dizíamos que, para Torga, a Ibéria é um corpo magro, pobre, «saibroso e franciscano», mas materno, à qual seus filhos, que mamaram nas suas tetas de pedra, devem fidelidade eterna. Na obra de Torga há a permanente oposição corpo-alma, optando sempre este autor pelo corpo.

 

Pelo contrário, para Pessoa, o país não é um corpo, mas sim uma alma.

Não é por acaso que os «Poemas Ibéricos», de Torga, acabam assim:

Venha o Sancho da lança e do arado,

E a Dulcineia terá, vivo a seu lado,

O senhor D. Quixote verdadeiro!

 

Pessoa, sendo sempre pelo barco, contra a raiz, num poema da sua «Mensagem», «O Quinto Império», escreve:

Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

Mais que a lição da raiz –

Ter por vida a sepultura”.

 

Para Torga, somos humildes filhos de uma mãe rude e pobre, (a Ibéria), mas dotada de uma grandeza de que nos devemos orgulhar. É ao seu apelo que devemos acudir, não ao do mar, a sereia traiçoeira. Por isso, exorta Sancho a que regresse ao seu arado.

 

Para Pessoa, no período áureo em que nos revelámos aos nossos próprios olhos, fomos «navegadores e criadores de impérios». Por isso, a mensagem da «Mensagem» é o contrário da dos «Poemas Ibéricos».

 

Torga, premonitoriamente, insistia: “Olha esta Ibéria que te foi roubada e que só terá paz quando for tua». Porque é preciso que Sancho a recupere, de arado em punho, rejeitando traiçoeiros sonhos de grandeza e volte a cultivar os seus campos e a travar a tal quotidiana «batalha de ser fiel à vida».

 

Estaremos perante dois autores com visões opostas quanto ao Portugal que desejavam?

 

Cremos que não. Pessoa, mais tarde em prosa, explicava que na sua «Mensagem» o que pretendia era fazer passar a ideia de que os portugueses, no presente, agissem de uma forma idêntica ou equivalente à época das Descobertas do passado, mas apenas no domínio do ser, não do ter, como então. Por isso incita os seus concidadãos a reencontrarem-se em «Nós, Portugal, o poder ser».

 

Debalde o incitamento destes dois vultos da nossa portugalidade!

 

Ao longo do tempo, fomo-nos esquecendo da lição destes dois grandes mestres - o de ser português: sonhar com os pés bem assentes na terra, no nosso terrunho, recuperando, «com o arado em punho» a terra que, pelo nosso descuido, incúria e negligência, «nos está sendo pilhada» e, numa nova gesta de descoberta, desenvolvermos, todos, toda a nossa terra – do mar à planície, da planície ao planalto, do planalto à montanha, do norte a sul, do litoral para o interior – fazendo-nos, de novo, dignos do nobre nome que, ao longo dos tempos, nossos antepassados tão bem souberem erguer e preservar – Portugal.

 

E como nos faz tanta pena, sempre que percorremos o terrunho sagrado do nosso Trás-os-Montes, como o nosso Alto Tâmega e Barroso, o constatarmos quão certeiras eram as palavras do nosso «maior», Miguel Torga, quando, do Gerês, a 7 de agosto de 1953, vertia para o seu Diário as seguintes palavras:

 

Em Portugal, decentemente, só se pode ser cavador. Apenas a manter terra um homem atinge nesta pátria a perfeita dignidade da espécie. Fora disso, é uma limitação irremediável que cinge cada um e o não deixa ultrapassar a crosta defensiva que o reveste. Mal largamos o enxadão e subimos um grau na escala social, corrompe-nos não sei que lepra, que já não há simplicidade possível, nem grandeza correspondente. Tornamo-nos furtivos, inconvenientes, desconfiados, incapazes de qualquer harmonia social baseada na articulação voluntária do que somos com o que não somos. O diálogo cessa, para dar lugar a um monólogo de pragas e vociferações. Espreitamo-nos uns aos outros por detrás das cortinas dum mundo interior de enconchado egoísmo, e nada nos dá mais alegria do que as falências alheias, assim contempladas a respeito de qualquer responsabilidade cívica. Colaborar nas alegrias e tristezas do semelhante, trocar palavras, ideias e sentimentos, só os componentes de uma roga, os companheiros de uma vessada, os que a fraternidade do suor amalgama na sinceridade e honradez natural. Os civilizados, aqui são os analfabetos”. (Sublinhado nosso).

 

A entrada acima citada dava para, sobre ela, fazermos uma profunda meditação e uma acalorada discussão. Fiquemo-nos apenas no tema que aqui hoje nos trouxe.

 

A essência do ser português deve ser cuidar do que é seu, não o deixar morrer; descobrir «novos mundos», novas formas de nos desenvolvermos; e não o fazer tudo a todo o custo, reduzindo tudo quanto temos a pura mercadoria, particularmente quando se trata do mais rico e mais querido legado histórico e cultural das nossas comunidades. Nas as deixando morrer…

 

Pensarmos apenas no ter – a qualquer preço – é deixarmos alienar tudo aquilo que, na essência, somos, esquecendo-nos verdadeiramente do que é ser transmontano, altotameguense ou barrosão, entre outras regiões que constituem o Portugal que hoje somos.

 

Nas nossas constantes incursões pelo nosso mundo rural, outra coisa, no fundo, não pretendemos do que captar – e não deixar morrer em nós – tudo aquilo que nos identifica verdadeiramente como portugueses. É esse, pelo menos, o nosso desiderato.

 

Mas, infelizmente, casos como o Covelo do Monte, começam a aparecer a cada dia, cada vez mais!

 

E nós, aqui por Chaves e pelo Alto Tâmega e Barroso, o que estamos a fazer para não nos transformarmos num território de aldeias fantasmas, como a reportagem fotográfica que a seguir se mostra?

 

Urje que tenhamos uma visão de futuro para o mundo rural do qual fazemos parte. Uma visão do nosso futuro comum, sob pena de, a breve trecho, todo o nosso rico legado histórico e cultural se esvair neste mundo e nesta sociedade globalizante, rejeitadora das particularidades e das diferenças, transformando o nosso património (material e imaterial), já não em simples mercadoria, mas em pura e simples ruínas, como alguns «Covelos do Monte» que vão aparecendo por este nosso Portugal interior, tão incuriamente, por todos nós, esquecido.

 

COVELO DO MONTE – ALDEIA FANTASMA

(https://www.youtube.com/watch?v=A6_sbMNBiNA)

 

António de Souza e Silva

 

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