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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Mai11

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos


 

 

 

RAPOSA POR CABRITO

 

O Manel Cabeça Grande era criado de servir na casa do Ti Moreiras do Carregal. A nomeada vinha do facto de dizerem que tinha uma cabeça de malho carreiro. De facto, a cabeça do Manel apresentava a forma dum melão bicudo de uns bons três quilos.


Rapaz para vinte e cinco anos, apareceu no Planalto pelos dezoito, num dia de neve furinheira, a pedir emprego. O Ti Moreiras, ou porque precisasse de braços para a batata, que dava dinheiro por essa altura, ou porque tivesse pena do rapazote, empregou-o. O desgraçado chegou carregado de piolhos, codeoso e lazarado. Desprezado pela sorte, metia dó. Órfão de tenra idade, andou aos emboleques, a reboque da sorte e da caridade. Os pontapés no rabo puseram-no fino como o azougue. De moço do gado evoluiu para ajudante de lavrador. E honra lhe seja feita porque, às primeiras carícias da navalha de barba, já fazia uma lavoura de respeito!


Pão e caldo não lhe faltavam e, ao domingo, até tinha direito a uma moeda de cinco coroas para queimar na tasca do Antero. Mas era biqueiro. Se a comida lhe agradava, ninguém o calava. Ria, galhofava, esfregava as mãos reluzindo uns olhos de azeitona bical. Não lhe chaldrando, amuava e, calado como uma coruja, comia a contra gosto. Era um defeito que se lhe suportava apesar de, por vezes, se reflectir num menor desempenho laboral. Mas, como assim, a terra fria e magra do Planalto tanto dava muito ou pouco trabalhada!..


O Manel era poupado. Um unhas de fome. Gostava muito de beber à conta dos outros. Quando adivinhada que a rodada lhe tocaria na bolsa, fazia-se desentendido e desandava rasteiro inventado desculpas o mais das vezes esfarrapadas. Esta manha começava a ser notada fazendo com que aos poucos se instalasse na malta a ideia de o brindar com uma lição bem dada. Tainada que por ali se fizesse tinha no Manel sempre presente: um magusto de castanhas roubadas nos soutos das redondezas, uma sertanhada de pássaros a desaninhar, uma omeleta de ovos de perdiz, um guisado de míscaros, um churrasco de frango ou um assado de cabrito.


Na coroa da Ladeira do Belão, à Galgueira, na sombra das únicas avelaneiras da zona, havia umas quantas tocas de raposa. Luras antigas que desde há muito albergavam famílias destes animais rapineiros. Nem a estricnina as dizimava. E se faziam a desgraça das capoeiras dos povoados vizinhos! Havia que lhes dar caça.


Para o efeito, o Berto da Ti Clotilde encomendou umas pescoceiras de aço ao Ti Moreiras, da feira dos trinta de Carrazedo. O Ti Moreiras não falhou e as ditas foram devidamente armadas à boca das tocas na Galgueira. Não demorou três dias sem que um raposo gordo e lustroso fosse retraçado pelo lombo. Ai que pimpão! Que alegria para o Berto, não só pela morte do bicho, mas sobretudo pelo que poderia render na procissão que se costumava realizar pelas aldeias vizinhas. Ninguém que se prezasse deixava de contribuir com meia dúzia de ovos, um coelhito ou um franganote. Aliás, daquela vez, a família dos Morgados de Fornelos, muito sacrificada na capoeira, quis oferecer um cabrito dos muitos que naquele ano haviam parido as cabras do rebanho. Para além do cabrito, uma cesta de ovos, dois coelhos e um frango ainda rapaz, fizeram a colheita. Havia de se combinar a taina. Seria no Domingo em casa do Berto.


Ora, quando o Manel soube que fazia parte dos eleitos, salivava com o sonho de enterrar o canino na espádua do cabritinho. O vinho haveria de ser levado pelos que não fizeram parte da colecta. No Domingo, ao meio-dia, juntaram-se no Prado o Quim Mula, o Nano, o Adérito, o Manel Cabeça Grande, o Madeu, O Joja e o Trabinca. Sete parceiros que, com o Berto, seriam oito no repasto. O Quim Mula trazia um garrafão de maduro tinto de uns bons três litros, fanado do tonel do pai, e o Madeu um de cinco, comprado na taberna do Antero. O Manel Cabeça Grande nada trazia para além de uma fome de cão. Também, ninguém lhe notou a falha, como convinha!


À hora combinada lá assomaram à cozinha do Berto. Os potes vaporizavam o cheiro dos guisados e, ao canto, o braseiro do forno de lenha deixava adivinhar um assado do outro mundo! O Manel não cabia em si de contente!


Sentado à mesa, nem de propósito, caiu-lhe à frente uma das travessas do assado. Era um quarto do cabrito certamente, e só para ele! Os dentes até faziam lume. E ainda por cima a sorte estava consigo, os parceiros atiravam-se freneticamente ao frango e ao coelho. Até parecia de propósito deixarem-lhe o cabrito só para si. Como eram amigos!..


Lambeu tudo!


Empanturrado, no final não deixou de agradecer, como educado que era, o facto de ninguém comer daquela travessa.


O Manel sentia-se o homem mais feliz do mundo. E mesmo quando soube que lhe tinha tocado o raposo em exclusivo, não ficou chocado, talvez para não estragar a oportunidade de novos banquetes e as rodadas à borla na taberna lá da aldeia.


O Manel não era burro! Deixassem-nos rir que a carne bem lhe soubera! Deixá-los falá-los que eles calarão-se-ão-se!

 

Gil Santos, in Ecos do Planalto - estórias

 

 

05
Fev10

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos


 

 

 

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Cantigas ao Desafio

 

As noites de Inverno em Trás-os-Montes são muito mais longas do que em qualquer outro sítio. Logo que o sol se esconde, começa a gear e ainda a hora da ceia vem longe já o carambelo enche de diamantes os galhos das árvores e os beirais dos telhados. Uma melancolia gelada acompanha a cria que recolhe às cortes e o homem que se escapa, logo que pode, para o conforto do tição. No Inverno come-se do que o Outono pôs no celeiro e espera-se, na calma das horas longas, que amanheça mais favorável do que anoiteceu. O tempo transmontano corre pachorrento, mesmo hoje, apesar de a electricidade encher de luz os mais recônditos lugares, tornando as noites aparentemente mais curtas.

 

Há anos, não muitos, quando as noites gélidas eram alumiadas pelas candeias de petróleo, os homens consumiam as horas do serão tagarelando à volta de um canhoto de carvalho que ardia tranquilamente na lareira dos casebres. Aproveitavam para botar contas à vida, para lamentar a má sorte ou para contar histórias de mouras encantadas ou de lobisomens, muito gastas e com finais quase sempre felizes. Outras vezes juntavam-se na casa do forno, se o nevão o permitisse, consumindo lugares comuns e o mais das vezes ausência de novidades. Uma vida triste!...

 

Na casa da Ti Emília Paparrotas tudo se passava nesta calma de sempre. O Ti Adriano era o homem lá de casa ia para vinte anos. Dedicava a sua vida principalmente à agricultura. Porém, tinha jeito para a carpintaria e sempre que podia não renegava a uns magros cobres nesta arte. Tiveram filhos já muito tarde. A Ti Emília até pensava que nunca os teria não fora ter convencido o marido a acompanhá-la à Misarela na foz do Regavão. Passaram lá uma noite fria, mas valeu a pena. Engravidou de gémeos aos quarenta anos. O parto não foi muito normal e se não fosse a Tia Cândida ajudar a dilatar as carnes, já ressequidas, da parideira, os gémeos não teriam vencido. Mas venceram e deram dois rapagões de respeito: O Jorge e o Marcelino. O Jorge aos doze anos já se gabava de fazer a barba, embora reconhecesse que raramente precisava de afiar a navalha! O Marcelino começava já a pintar!

 

Não sendo uma família rica e nem tão pouco remediada, também não se podia dizer que fosse pobre. Vivia do que a terra dava e, não sendo muito, sempre se ajeitava a vidinha com a actividade da carpintaria que ajudava a controlar os calotes na mercearia do Antero.

 

Os rapazes eram dados às artes musicais. De latas faziam bombos, da casca das varas de castanheiro flautas, do colmo tenro do centeio gaitas, das bancas de tripé concertinas e passavam as noites a fingir grandes concertos. Umas vezes cantavam ao desfio com improvisos muito bem conseguidos, para gáudio da família, outras imitavam os cantores da moda dos anos sessenta, que ouviam na telefonia da taberna.

 

Era uma alegria na casa da Ti Adosinda!

 

Uma noite de inspiração, os rapazes combinaram, de aposta, uma desgarrada. Perderia o que primeiro deixasse de rimar. Assim estava combinado e assim se fez.

 

Quadra dum lado, resposta do outro e a coisa foi andando. Por vezes a rima era tão pândega que o Ti Adriano soltava gargalhadas estridentes entre dois golos de maduro tinto que aquecia ao borralho na pitxorra de barro de Nantes. Às tantas, o Marcelino, em resposta a um atrevimento do gémeo, botou a seguinte rima:

 

Boa noite meus senhores

No fundo d’um alguidar meu

O meu pai é serrador

Serrou os cornos ao teu!

 

Mal havia acabado e já a Ti Paparrotas tinha puxado a culatra atrás e espetado um tal bofetão nos focinhos do cantador que o fez afocinhar na cinza da lareira!

 

O rapaz ficou tão atromelizado com o sucedido que precisou de muitos anos para perceber o que justificara aquela tão inusitada atitude de sua mãe!

 

Uma coisa é certa, nunca mais, a partir daí, houve naquela casa cantigas ao desafio. Pudera, é que a Ti Emília tinha um brio incomensurável na sua fidelidade conjugal!...

 

O Ti Adriano não cabia em si de contentamento por ter sido simultaneamente considerado o serrador e a vítima!

 

Também ele precisou de tempo para perceber a atitude da mulher!...

 

 

Gil Santos

In “Ecos do Planalto – estórias” - adaptado

 

 

28
Ago09

Discursos Sobre a Cidade - O 101 de Fafião, por Gil Santos


 

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O 101 de Fafião

Fernando Calvão, militar de carreira hoje reformado, é pai da mulher que amo há duas dezenas de anos. Às refeições domingueiras, mais demoradas, gosta de contar algumas das histórias mais significativas da sua larga experiência pelos quatro cantos do mundo. No início da sua carreira, anos cinquenta, o furriel Calvão cruzou-se nos Caçadores de Chaves com o cabo Santos, meu falecido pai, que cumpria o seu serviço militar obrigatório. Ao cabo Santos cabia a tarefa de quarteleiro, ao furriel a função de acompanhamento da instrução dos recrutas.

Na altura, era excepção saber ler e escrever. Os analfabetos tinham oportunidade de aprender as primeiras letras na chamada Escola Regimental, entregue, neste quartel, ao alferes Ceroulas. Tendo este que se ausentar por uns tempos, foi o furriel incumbido de dar continuação às suas lições. Eram públicas as dificuldades do soldado 101 para aprender a juntar as letras. O alferes vivia angustiado! O furriel, aproveitando a oportunidade, quis surpreender o oficial com o 101 a ler no seu regresso. A estratégia era simples: utilizando a Cartilha Maternal João de Deus, explicava ao soldado que deveria primeiro olhar para a figura e só depois para a respectiva palavra. Ensaiou-o, ensaiou-o e tudo parecia aprumado. O alferes regressou. O furriel Calvão acorreu a dar-lhe a novidade:

— Meu alferes, o 101 já sabe ler!

— Não me diga Calvão! Como é que você conseguiu? Chame-o lá.

E lá veio o 101 todo pimpão. Abriu-se o livro e vai de ler. O furriel apontou para a tigela e o 101 leu maurga; apontou para o pato e o 101 leu parreco; apontou para a caixa e o 101 leu caixote. O alferes não aguentou mais. Agarrou-se à barriga e rindo a bandeiras despregadas só parou no empedrado da parada.

Doutra vez, o Furriel ministrava instrução de armamento ao pelotão do 101 que se encontrava no terreiro à sua volta. Explicava o funcionamento de uma metralhadora ligeira, cuja manga se apresentava cheia de furos laterais para arrefecimento do respectivo cano. O Furriel explicava a comutação entre o tiro-a-tiro e o tiro de rajada dizendo:

— Quando se quer que a arma dispare um tiro de cada vez, põe-se o comutador nesta posição, quando se pretende que dispare muitos de cada vez, põe-se na outra posição. — Depois continuou, agora brincando:

— Mas cuidado, porque se eu puser agora o comutador na posição de rajada e disparar, as balas saem todas por estes buracos laterais e vocês morrem todos. O 101, pasmado e, mais do que isso, assustado, gritou:

— Ai rapazes fuginde que o Furriel é maluco e fode-nos a todos!

No início dos anos cinquenta o Estado Novo estava na pujança e a palavra de ordem era amealhar. A poupança era quase uma religião! Nesta senda, o equipamento distribuído aos soldados era rigorosamente controlado em termos de duração. Um dos maiores problemas era fazer com que as botas durassem mais de um ano a cada militar. O nosso herói morava em Fafião, aldeia alcandorada nos picos da serra do Gerês e a uma centena de quilómetros de Chaves. Como na altura não havia transportes e o dinheiro não abundava, o 101 saía para fim-de-semana na Sexta-feira, a pé, chegava à aldeia à noitinha de Sábado, bebia um copito na volta ao lugar e regressava nessa mesma noite à cidade de Chaves. Porém, as botas é que pagavam a factura de tal distância, daí que o comandante decretasse que todos os que morassem a mais de cinco léguas da cidade estavam proibidos de gozar o fim-de-semana. Foi um desconsolo para o 101, que doravante ficou a conhecer melhor os cantos à cidade.

E muitas e muitas outras histórias curiosas eram contadas. E como eu gostava de as ouvir!

 

Como amante da pesca desportiva à truta e como trabalhei e morei, na segunda metade dos anos oitenta, na actual Vila do Gerês, ia muitas vezes pescar para o rio de Fafião, também conhecido por Tôco. Um dia de Abril encontrava-me sobre a Ponte da Pigarreira, na altura ainda de pranchas de madeira maciça, cogitando sobre o que faria as trutas estarem de férias naquele dia. Do monte sobranceiro descia um rebanho de cabras e o respectivo pastor de regresso a casa. Ávido de conversa com gente, por passar os dias a conversar com o gado, o pastor parou ao pé de mim. Dei-lhe corda, porque também eu queria conhecer melhor a zona e os seus hábitos. Depois de vários minutos de conversa de circunstância, lá veio a inevitável pergunta:

Antão vocemecê de onde é?

— Sou de muito longe, uma terra que certamente não conhece. Sou de Chaves.

Notei um brilhozinho estranho nos olhos daquele homem simples.

— Não me diga! Eu fiz lá tropa em 1952. — Dizia o pastor.

— Então conheceu o cabo Santos? E o furriel Calvão?

Antão num conheci! o cabo Santos era muito meu amigo, matou-me a fome muitas vezes e o furriel Calvão enxinou-me a ler!

— Então diga-me lá quem é, para ver se o meu pai ou o meu sogro se lembram de si.

— Eu era conhecido pelo 101de Fafião!...

Caí das nuvens!...

Então não acabava de conhecer o herói de tantas histórias?!

A vida sempre nos reserva cada uma!

Gil Santos

In Ecos do Planalto – estórias (adaptado)

 

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