Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos
RAPOSA POR CABRITO
O Manel Cabeça Grande era criado de servir na casa do Ti Moreiras do Carregal. A nomeada vinha do facto de dizerem que tinha uma cabeça de malho carreiro. De facto, a cabeça do Manel apresentava a forma dum melão bicudo de uns bons três quilos.
Rapaz para vinte e cinco anos, apareceu no Planalto pelos dezoito, num dia de neve furinheira, a pedir emprego. O Ti Moreiras, ou porque precisasse de braços para a batata, que dava dinheiro por essa altura, ou porque tivesse pena do rapazote, empregou-o. O desgraçado chegou carregado de piolhos, codeoso e lazarado. Desprezado pela sorte, metia dó. Órfão de tenra idade, andou aos emboleques, a reboque da sorte e da caridade. Os pontapés no rabo puseram-no fino como o azougue. De moço do gado evoluiu para ajudante de lavrador. E honra lhe seja feita porque, às primeiras carícias da navalha de barba, já fazia uma lavoura de respeito!
Pão e caldo não lhe faltavam e, ao domingo, até tinha direito a uma moeda de cinco coroas para queimar na tasca do Antero. Mas era biqueiro. Se a comida lhe agradava, ninguém o calava. Ria, galhofava, esfregava as mãos reluzindo uns olhos de azeitona bical. Não lhe chaldrando, amuava e, calado como uma coruja, comia a contra gosto. Era um defeito que se lhe suportava apesar de, por vezes, se reflectir num menor desempenho laboral. Mas, como assim, a terra fria e magra do Planalto tanto dava muito ou pouco trabalhada!..
O Manel era poupado. Um unhas de fome. Gostava muito de beber à conta dos outros. Quando adivinhada que a rodada lhe tocaria na bolsa, fazia-se desentendido e desandava rasteiro inventado desculpas o mais das vezes esfarrapadas. Esta manha começava a ser notada fazendo com que aos poucos se instalasse na malta a ideia de o brindar com uma lição bem dada. Tainada que por ali se fizesse tinha no Manel sempre presente: um magusto de castanhas roubadas nos soutos das redondezas, uma sertanhada de pássaros a desaninhar, uma omeleta de ovos de perdiz, um guisado de míscaros, um churrasco de frango ou um assado de cabrito.
Na coroa da Ladeira do Belão, à Galgueira, na sombra das únicas avelaneiras da zona, havia umas quantas tocas de raposa. Luras antigas que desde há muito albergavam famílias destes animais rapineiros. Nem a estricnina as dizimava. E se faziam a desgraça das capoeiras dos povoados vizinhos! Havia que lhes dar caça.
Para o efeito, o Berto da Ti Clotilde encomendou umas pescoceiras de aço ao Ti Moreiras, da feira dos trinta de Carrazedo. O Ti Moreiras não falhou e as ditas foram devidamente armadas à boca das tocas na Galgueira. Não demorou três dias sem que um raposo gordo e lustroso fosse retraçado pelo lombo. Ai que pimpão! Que alegria para o Berto, não só pela morte do bicho, mas sobretudo pelo que poderia render na procissão que se costumava realizar pelas aldeias vizinhas. Ninguém que se prezasse deixava de contribuir com meia dúzia de ovos, um coelhito ou um franganote. Aliás, daquela vez, a família dos Morgados de Fornelos, muito sacrificada na capoeira, quis oferecer um cabrito dos muitos que naquele ano haviam parido as cabras do rebanho. Para além do cabrito, uma cesta de ovos, dois coelhos e um frango ainda rapaz, fizeram a colheita. Havia de se combinar a taina. Seria no Domingo em casa do Berto.
Ora, quando o Manel soube que fazia parte dos eleitos, salivava com o sonho de enterrar o canino na espádua do cabritinho. O vinho haveria de ser levado pelos que não fizeram parte da colecta. No Domingo, ao meio-dia, juntaram-se no Prado o Quim Mula, o Nano, o Adérito, o Manel Cabeça Grande, o Madeu, O Joja e o Trabinca. Sete parceiros que, com o Berto, seriam oito no repasto. O Quim Mula trazia um garrafão de maduro tinto de uns bons três litros, fanado do tonel do pai, e o Madeu um de cinco, comprado na taberna do Antero. O Manel Cabeça Grande nada trazia para além de uma fome de cão. Também, ninguém lhe notou a falha, como convinha!
À hora combinada lá assomaram à cozinha do Berto. Os potes vaporizavam o cheiro dos guisados e, ao canto, o braseiro do forno de lenha deixava adivinhar um assado do outro mundo! O Manel não cabia em si de contente!
Sentado à mesa, nem de propósito, caiu-lhe à frente uma das travessas do assado. Era um quarto do cabrito certamente, e só para ele! Os dentes até faziam lume. E ainda por cima a sorte estava consigo, os parceiros atiravam-se freneticamente ao frango e ao coelho. Até parecia de propósito deixarem-lhe o cabrito só para si. Como eram amigos!..
Lambeu tudo!
Empanturrado, no final não deixou de agradecer, como educado que era, o facto de ninguém comer daquela travessa.
O Manel sentia-se o homem mais feliz do mundo. E mesmo quando soube que lhe tinha tocado o raposo em exclusivo, não ficou chocado, talvez para não estragar a oportunidade de novos banquetes e as rodadas à borla na taberna lá da aldeia.
O Manel não era burro! Deixassem-nos rir que a carne bem lhe soubera! Deixá-los falá-los que eles calarão-se-ão-se!
Gil Santos, in Ecos do Planalto - estórias





