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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

10
Abr19

Cidade de Chaves, com um olhar além do rio e da ponte...

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As imagens falam por si mas também podem despertar estórias que temos guardadas num cantinho qualquer da memória. Ao ver esta imagem, claro que os meus olhos passeiam pelo rio, pela nossa top model Ponte Romana, pelas cores do entardecer, etc., mas lá ao fundo, um pequeno monte na subida para a croa da Cota de Mairos, traz-me à lembrança o Manolo. E perguntarão — Quem é o Manolo!? — e eu respondo-vos, o Manolo é um amigo galego que conheci há uns bons anos atrás, que foi criado com o avô numa aldeia galega que dá pelo nome de Vilarello, precisamente localizada a umas centenas de metros atrás daquele pequeno monte na subida para a croa da Cota de Mairos, e fixei esse pormenor, porque, dizia-me o Manolo, que quando era puto, nas redondezas, o único local que tinha eletricidade era a cidade de Chaves, então à noite escapulia-se de casa do avô e subia a esse pequeno monte para ver o brilho das luzes da cidade de Chaves. Diz que ficava por lá horas em maré de espanto e apreciação, imaginando toda uma vida de cidade que teria de haver por baixo daquelas luzes. Chaves era o mundo! Já mais rapazote, contava o Manolo, vinha às feiras de Chaves com o avô que,  depois de uma volta pela feira, recolhiam aos tascos da Rua das Longras até se fazerem horas de regressar a Vilarello. Já homem feito e professor em Orense, o Manolo sempre que podia vinha a Chaves num dia de feira e ia recordando os passos que dava com o avô, agora sozinho de tasco em tasco na Rua das Longras. Uma vez disse-me: Já viajei muito, já corri muito mundo, todos os continentes, conheço muitas cidades, mas de todas, as mais bonitas que conheci, foram o Porto e XAVES. Sim, tudo em galego, com letras maiúsculas e realçado,  que ele quando dizia CHAVES, também era em maiúsculas que as dizia e com realce na voz e em galego, claro!…

Os tascos das Longras, ao longo dos anos foram fechando, penso que o último resistente (O Sequeira) também já fechou, quanto ao Manolo, sem sítios para poisar, também deixei de o ver, mas ficou o registo das suas estórias que recordo sempre que vejo aquele montinho lá ao fundo, onde a terra toca o céu.

 

Um bom dia de feira!

 

 

02
Abr19

Estórias de telemóvel

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De vez em quando lá temos que esvaziar as fotografias que vamos acumulando nos nossos telemóveis, fotografias que, como sempre, têm o dom de congelar momentos, mas também, às vezes, estórias associadas a esses momentos. Pois hoje em dia o telemóvel para além de poder fazer e receber chamadas, enviar e receber mensagens ou ainda, como é o meu caso e noia minha, fazer coleção de mensagens recebidas não lidas. Pode ainda servir para nos ligáramos à internet, entre outras coisas, mas é sobretudo um instrumento multiusos muito útil, nem que seja para fazer uma conta mais complicada e ter sempre à mão uma “máquina fotográfica” para registar momento singulares. Nem sei como é que antigamente se conseguia viver sem telemóveis…

 

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Geralmente vamos juntando no telemóvel molhos de fotografias que nos fazer recordar momentos, permitindo-nos saber, pelo menos, em que dia, local (se tiver GPS) e hora foi tomada. Por exemplo na primeira foto, num singular momento de rara beleza em que o nevoeiro começa a ceder à força do Sol, foi tomada este ano, no dia 17 de janeiro, junto ao Rio Tâmega. Já nesta última imagem do Estádio Municipal de Chaves foi tomada no dia 20 de novembro de 2018 às 16h:57m:31s, imediatamente antes de se iniciar o jogo de Portugal-Polónia em Sub 21 no play-off para o Europeu em que Portugal perdeu por 1-3. Como veem também servem para registar grandes momentos com memórias tristes, pois Portugal foi eliminado nesse jogo.

 

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Mas regista também momentos felizes de superior qualidade como o deste prato que comi no jantar de 6 de março, confecionado por mim, com uns rojões do talho, uma batatinhas do planalto do Brunheiro, alhos da Amélia, salsa da minha horta e os pickles dum frasco que estava no frigorífico e agora que reparo bem nele, faltam-lhe as azeitonas de Mirandela, mas pelo menos foi confecionado com o azeite de Valpaços. Não me peçam a receita porque a minha mestria culinária só me permite fazer um prato uma única vez, mesmo que os ingredientes sejam os mesmos… ou seja, é sempre como sai, mas este saiu bem, estava uma delícia…

 

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E de pratos passemos para uma imagem estranha das Freiras que no mínimo dará para pensar um pouco, isto para quem conhece o local, pois para quem não conhece, é apenas uma foto banal de um local banal, de um dia de sol banal, com outras coisas banais… a única coisa que não é banal, é mesmo ou não é mesmo, o ser um dia de Inverno que parece Verão, não é banal mas é anormal.

 

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E das Freiras passemos para os ténis psicadélicos da menina Dorinha. Atenção que os nomes destas estórias poderão ser ou não fictícios. Ténis bonitos pá! Não são como os do meu tempo, brancos, aliás no meu tempo nem havia ténis, havia sapatilhas, mas eram Sanjo, em bota,  um luxo utilizado religiosamente só nas aulas de ginástica, nos treinos e jogos de basquetebol. Ólarilas que assim era, isto se quisesse avezar outras quando as velhas estivessem a rebentar pelas costuras ou deixassem de servir nos pés.

 

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E por último a flor do marmeleiro. Geralmente não reparamos muito nas flores das árvores de fruto, no entanto têm pormenores lindíssimos, sobretudo na composição e tons e combinações de cores, fazendo arranjos únicos. Umas das que mais aprecio são mesmo a composição folhas/flores e tonalidades macias do marmeleiro florido, só igualada pela exaltação das cores da romãzeira, ou pelo perfume da flor de limoeiro. Mas esta foto tem estória, pois estava eu a tomar esta foto quando atrás de mim oiço dizer “tenho lá em casa um com este, olhe que no outro ano deu-me 60 baldes de marmelos, dei muitos mas com alguns ainda fiz marmelada. Aprendi a fazê-la com a minha falecida, aprendi enquanto a ajudava, agora como morreu, olhe, faço eu a marmelada. É para dar aos meus filhos e eu também gosto dela”. Religiosamente o Sr. Zé vem à minha procura todos os anos por esta altura, falamos sempre um pouco, um bocadinho de tudo, mas sempre, também da sua falecida, pois por ironia do destino temos um momento/episódio que nos une à sua falecida, que ele recorda bem e eu também…”lembra-se, você ainda trabalhava lá em cima e estava à sua espera quando recebi uma chamada no meu telemóvel a dizerem-me que a minha mulher tinha morrido. Já não pude espera por si. Lembra-se!?. — Claro que me lembro, Sr. Zé!.  

 

 

28
Dez18

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

GIL

 

A RAÇÃO NÃO É PARA QUEM SE TALHA...

 

Diz o povo que dos Santos ao Natal é Inverno natural. A bem dezer não sei se ainda é assim ou se já foi. É que está tudo tão mudado que até os adágios começam a querer mentir! Seja lá como for, há muitos, muitos anos… não tantos que encontremos o homem nas cavernas, os Invernos no Planalto do Brunheiro davam pelos peitos a uma mula! O mesmo é dizer que eram duros como o granito porfiróide do Alto da Cunha. Começava a gear por meados de outubro e até maio eram dias infindáveis de carambelo. Não passava o ano sem meia dúzia de fortes nevões. Nessas ocasiões, o que valia ao povo e ao gado era o que se guardava nas adegas e nos palheiros. Os bichos comiam o feno ripado, quando o havia, o povo as baijes de palheiro regadas com um fiozito de azeite — para quem o tinha — e um cibo de carne da pá, rijada, ou uma malga de caldo engodado com pingue. E viva o velho!

 

Quem avezasse uma ceva para matar pelo Ano Novo era considerado rico! Devidamente poupado, o requito e seus derivados haviam de dar até Natal seguinte. Para curar as carnes, o tempo queria-se frio e seco. Da ceva faziam os planálticos uma espécie de multiplicação dos pães. Milagres autênticos que multiplicavam, por mais de mil, as potencialidades gastronómicas do animal.

 

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Para a engorda, os porcos tinham de ser capados. O macho para que não ficasse borrão e a fêmea para que não se levantasse à cria. O borrão destinava-se à cobrição. Normalmente, por cada aldeia bondava um para pôr as recas ao ganho. Ao ritual da capagem assisti diversas vezes. Impressionava mais do que a própria matança. O capador, veterinário a martelo, andava pelas aldeias com um assobio próprio cuja melopeia anunciava a chegada. Quem precisasse da capar, reco ou reca, contratava-o. O serviço era rápido e eficiente. O primeiro passo da operação consistia em dispor a ferramenta cirúrgica sobre uma toalha de linho estendida num qualquer carro de bois que estivesse estacionado no pátio. De seguida, procedia à desinfeção do material com um líquido roxo que tingia tudo. Se o animal fosse macho, o cirurgião fazia um rasgo na bolsa escrotal e retirava os testículos agilmente. Desinfetava a ferida com aquele líquido, dava quatro pontos na dita, agora vazia, e pronto. No final, e já depois de tudo devidamente arrumado, era oferecido ao capador a iguaria frita e um copo de tinto. Em sendo reca, deitava-a de lado no chão, fazia uma pequena incisão no ventre e metendo dois dedos nas entranhas retirava aquilo que parecia ser uma pequena tripa. Desinfetava a incisão e por fim suturava-a. Os requinhos, durante dois dias andavam abatidos, mas logo arrebitavam para a engorda.

 

Depois de capados, os bichos eram alimentados como príncipes para que botassem corpo. Batata, farelo e castanha eram as principais iguarias para que se fizessem antchos. Comiam quanto o bucho levasse. Em Dezembro, as cevas, já quase não se levantavam por tão gordas estarem. Depois, antes do Natal ou perto do Ano Novo, conforme o tempo desse, o animal ia à faca. Era um ritual interessante, atualmente com tendência a ser engolido pela fatalidade da globalização. Marcava-se o dia com o matador, convidavam-se alguns vizinhos e tudo acontecia mais ou menos assim:

 

Nos pátios, nas eiras ou noutros lugares que se achassem azados, colocava-se um banco corrido, tosco, de quatro patas canejas para que tivesse mais estabilidade. O carrasco dava os últimos retoques no facalhão de lâmina dupla com uma pedra de afiar. Os homens arregaçavam as mangas e à sua ordem abriam a cancela da loje onde estava a vítima. O requinho parece que até adivinhava. Mal se abria, saltava numa gritaria medonha como se de um cristão se tratasse. Botava-se para o pátio e quatro homens, dos mais fortes, cravavam-lhes as unhas nas orelhas, no rabo e nas patas e estendiam-no de cangalhas sobre o banco da morte. Passavam-lhe uma corda pela queixada prendendo-o ao banco. Bem seguro grunhia quanto podia, mas nem por isso comovia os algozes! Quando aprouvesse ao matador, metia-lhe a faca na garganta e de uma estocada fazia-lha chegar ao coração. A morte era rápida quando era experimentado. Caso contrário, o animal tinha muitos minutos de agonia até que a estocada certeira o ferisse de morte. O sangue jorrava em golfadas pelo boeiro que a faca abrira. Com a orientação desta, caía num alguidar de barro, aparado, quase sempre, por uma mulher, que, após a colheita, passava minutos infindos a batê-lo com uma cebola descascada para que não tralhasse. Depois de bem morto e ainda no banco, o porco era chamuscado. Com fachucos de palha a arder, dois dos mais experimentados queimavam a pelagem do animal sem deixar que o couro se tisnasse. A seguir, era a vez de o lavar. Retirava-se do banco para uma cama de colmo limpo. Três ou quatro homens de ásperas pedras na mão fazendo de esfregão, raspavam quanto podiam para pôr o defunto limpinho. Era a vez da canalha se tornar útil pois cabia-lhe botar a água sobre as mãos dos lavadores. Não era um trabalho fácil porque eles exigiam que o fio fosse constante e caísse no sítio certo. O campeão haveria de ganhar o rojão das palhas! Esta fase terminava com o ritual da confeção do tal rojão. Um dos homens torcia um punhado de colmo. Introduzia-o no cu do reco para lhe limpar a parte terminal do intestino grosso que ficara sujo nas ânsias da morte. A este fachuco chamavam então o rojão das palhas, noutras bandas também rojão do banco, e era oferecido a quem tivesse demonstrado melhor desempenho na tarefa de botar a água.

 

À lavagem das orelhas dedico especial atenção. Era um momento único. Quando algum farsola, menos habituado a estes trabalhos, os apreciava curioso, era hábito ser atraído para a manobra da lavagem dos pavilhões orelhudos do reco. Pediam que se aproximasse o mais que pudesse, mandavam encher a orelheira de água, indejavam bem e, quando lhes parecia, espanavam-na na direção do observador que, como se advinha, ficava salpicado de água suja. Surpreendido pelo gesto inusitado que não esperava, ficava puto! Uma risota!

 

A seguir punha-se, já limpinho, sobre o banco onde morreu. Agora de barriga para cima. Era a fase da abertura. O matador afiava as facas da especialidade que cortavam como lâminas e desenhava o corte com a ponta da uma delas através de um rasgo superficial. Então passava a retirar a couracha, que havia de servir para fazer as alheiras. Depois extraía o soventre e o redanho para os rojões que entregavam às mulheres e ia os potes ferver. Depois de horas de lume, com uma escumadeira tiravam-se os rojões e, com a gordura fervente, enchiam-se potas de barro de Nantes. Era o pingue ou adubo e serviria, ao longo do ano, para temperar o caldo. Depois disto, passavam uma corda pelo osso que unia os ilíacos e, à força de braços, penduravam o morto numa trave da adega, de focinho para baixo. Era a fase de retirar as entranhas. Com a ponta da faca fazia um corte longitudinal e a tripalhada caia sobre um lençol branco que duas mulheres seguravam e a que chamavam panal. Dali as tripas iam para lavar. Era um trabalho árduo que cabia igualmente às mulheres. Árduo por várias razões: primeiro, porque era preciso limpar a parte mais suja do animal; segundo, porque a água estava muito fria, terceiro porque, por vezes, era preciso calcorrear grandes distâncias à procura de água corrente que no planalto é rara. Depois de limpa das vísceras, a carcaça, haveria de estar dois dias à espera da desfeita. No final deste trabalho, o pessoal que participou na matança era convidado para almoçar e do repasto faria parte o verde — sangue cozido — e os rojões. Tudo regado com um bom maduro tinto de Cova do Ladrão. De tarde, os homens, normalmente, não faziam nada por culpa do tintol!

 

Passados dias, o matador era de novo chamado, agora para a desfeita. Consistia a operação em separar a carne por categorias para posterior tratamento. Descia-se o porco, hirto e rosado, da trave onde esteve pendurado, para o colocar, de barriga para cima, na adega, numa cama de colmo centeio. Começava, então, por se lhe cortar as patas e retirar a cabeça da qual se separava a focinheira e a orelheira. Depois, colocavam-no de costas e com um fio desenhavam dois traços paralelos e longitudinais do cachaço ao rabo, marcando uma faixa a cortar a que se dava o nome de enguião. Seguidamente, retiravam o lombo e os lombelos, assim como as costelas e a espinha. Os presuntos, agarrados ainda às pás, iam para a salgadeira. Aí, envoltos em sal, repousariam cerca de um mês. Passado esse tempo, eram cortados e com os cimos das pás eram colocados ao fumo, para acabar uma cura de cerca de outro mês. Finda esta curtição, colocavam-se na adega para consumo, ou para venda.

 

Cabeça, enguião costelas e espinha destinam-se ao fumeiro, A carne magra e alguma entremeada ia para a sorça e dava origem aos salpicões e às linguiças. O resto era cozido. Os ossos da suã, descarnados para os chouriços e as alheiras. Um trabalho pesado que cabia igualmente às mulheres. Orgulhavam a casa quando exibiam, vaidosas, dúzias de lareiros com o fumeiro alinhado sobre a lareira.

 

Na maior parte das casas, a matança do porco e os produtos daí resultantes destinavam-se ao consumo próprio durante o ano. E feliz de quem matava pelo menos uma ceva!.. Nas casas mais fartas chegavam a matar-se meia dúzia delas. Havia até quem matasse para vender os presuntos (afinal a parte mais nobre do animal) e o fumeiro, resultando, muitas vezes, no único rendimento da casa.

 

Hoje estão muito em voga as feiras do fumeiro. Abençoadas terras transmontanas que as organizam. Elas proporcionam o afluxo de muitos forasteiros que ávidos de sabores genuínos, ajudam a preservar as tradições do fabrico dos enchidos e interessantes rendimentos a quem se dedica a esta atividade.

 

Ora, a casa do Ti Zé Paranhos era uma destas. A Paranhas, quanta chouriça defumasse, quanta vendia no mercado de Chaves. Nos primeiros meses do ano, não falhava a uma feira. Madrugava, juntava-se com as parceiras de outros lugares e Brunheiro abaixo lá ia, cada qual com sua giga, vender o produto do trabalho. Umas levavam fumeiro, outras níscaros, castanhas, coelhos, pitas, perus e sei lá o que mais. E quase sempre regressavam leves, com as cestas vazias e os bolsos cheios com o produto das vendas. Os mimos do Planalto eram considerados pelos flavienses, sequiosos da qualidade dos produtos genuínos da terra. Compravam quase tudo. E que mais houvesse!..

 

Num qualquer fevereiro, ainda pela alva, descia a serra até à praça do Arrabalde um rancho destas mulheres carregando daquelas iguarias. A Paranhas levava uma giga à cabeça com linguiças e uma seira no braço com salpicões. Não chovia mas a manhã demorava a despontar, culpa de um céu plúmbeo que fazia adivinhar por’i algum nevão. Mas, por graça do Divino Espírito Santo, enquanto iam, nem nevou nem choveu. Atravessaram a Ponte de Trajano quando os sinos da Madalena badalavam as sete da matina. No Arrabalde, pousaram sobre o lajedo do mercado e arreganharam a mercadoria. Lá foram vendendo, mas nada que se parecesse com o negócio de outros dias. As dos coelhos e das pitas ainda se safaram. No final do dia, à Paranhas, sobrava ainda metade daquilo que levara. A tarde estava a ficar feia e as léguas a percorrer até casa ainda consumiam umas boas três horas, era tempo de dar de frosques.

 

Arrumaram.

 

Quando se preparavam para partir, começou a cair uma folecra que fazia adivinhar o pior. Como de facto! Ainda não tinham chegado ao Raio X e já nevava que levava diabo. Subir a serra naquelas condições ia ser tarefa brava, se bem que ainda havia umas quatro horas com de dia. Isso sossegava-as.

 

Ao Chegarem a Lagarelhos, e com medo da fama das voltas das Cabeceiras, onde era hábito o Pita atacar, deu-lhes o dianho para largarem a estrada de Carrazedo e subirem a Nogueira da Montanha por Maços, para depois chegarem mais facilmente aos seus lugares. Contudo, às vezes, o diabo tece-as! A neve já mal deixava divisar o caminho. Entre calçada e carreiro acabaram por se perder. Não se via viv’alma por aqueles ermos. O medo da noite escura e dos lobos começava a instalar-se entre aquelas infelizes criaturas. Eis senão quando, ouviram um tropel de cavalo, abafado pela neve da vereda. Era a salvação, ou seria Belzebu em forma de alazão para as atazanar ainda mais?..

 

Um homem gerigoto, montado num cavalo bem arreado, estacou perto delas e perguntou:

 

— Boa tarde, senhoras, antão vossemecês que fazem a estas horas e por estes caminhos da fim do mundo?

 

Respondeu a Paranhas:

 

— Ó mou senhor, estemos perdidas! Para fugir às voltas das Cabeceiras, com o medo do Pita, metemos por aqui, mas a neve toldou os caminhos e não sabemos como ir para a Amoinha Velha.

 

Antão e d’onde bêm? — Insistiu o desconhecido.

 

— De Chaves, do mercado, fomos vender umas coisitas — respondeu Marcolina, uma das mais destemidas.

 

Antão e venderam tudo?

 

— Não, ou a modos qu’inda levo aqui meia giga de linguiças. — Respondeu a Paranhas.

 

— Pois atão vai pesada, coitada! Deixe cá ver a giga que eu la levo à garupa. Venham atrás de mim que les inxino o caminho.

 

E lá foram as vendedeiras enregeladas, atrás daquela esperança.

 

Chegadas a uma encruzilhada, o cavaleiro parou e indicou o caminho da direita como sendo aquele que deveriam seguir. Puxou a rédea esquerda do freio, espetou as esporas no flanco da montada e ala que se faz tarde, desapareceu por outro caminho.

 

— O alma do diabo fodeu-me as chouriças — Constatou a Paranhas aflita.

 

Filho de uma puta, em nas comendo que tenha uma esfoura que o leve o carbalho! — Desejava outra das companheiras.

 

— Do mal, o menos, Paranhas, ainda nos deixou os trocos da venda, vamos indo!.. — disse resignada a Aida Pataloa.

 

— Bem falaides, mas quem se fodeu fui eu… Raisteparta, alma do diabo!..

 

Passado uns meses souberam que quem afinal as tinha roubado tinha sido o malvado do Pita!

 

Deram graças a Deus por não ter sido pior. À fama que o sendeu tinha por aquelas serranias, podia ter ido o dinheiro, a roupa e sabe-se lá que mais!.. A sorte é que a neve deve ter refreado a cleptomania do gatuno, que, à laia do Zé do Telhado, trazia o Planalto em sobressalto.

 

Que se fonhessem as linguiças. Ficaram ainda as alheiras!..

 

Gil Santos

 

28
Set18

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

DESGARRADAS

 

As noites do inverno em Trás-os-Montes continuam mais longas do que em qualquer outro sítio.

 

Após o ocaso começa a gear e ainda a hora da ceia vem longe já o carambelo emprenha de diamantes os galhos das árvores e os beirais dos telhados.

 

Uma melancolia álgida acompanha a cria que recolhe lusco-fusco às cortes e o homem-bicho que se esgueira para o conforto do tição.

 

Manja-se do que o outono colocou no celeiro e aguarda-se, pacientemente, que desponte um dia mais ridente do que o que pereceu.

 

O tempo transmontano insiste em correr pachorrento, ao ritmo do crescimento dos buxos dos adros das capelas, apesar da modernidade ir preenchendo os tugúrios com a tecnologia experimentada nos espaços urbanos.

 

Um privilégio cada vez mais raro que importa manter (?).

 

Há anos, não muitos, quando as candeias de azeite alumiavam, mortiçamente, essas noites gélidas, as pessoas consumiam as horas do serão tagarelando à volta de um canhoto de carvalho negral que se consumia, tranquilamente, na lareira dos casebres. Aproveitavam para botar contas à vida, os queixos a um cibo de aguardente, quem na tinha, para lamentar a má sorte ou para contar estórias, algumas delas reinventadas, mas com epílogos quase sempre felizes. Outras vezes juntavam-se na casa do forno, se o nevão o permitisse, consumindo lugares comuns e ausência de novidades.

 

Uma vida triste!

 

Na casa da Ti Joana Caçolina tudo se passava no rame-rame de sempre.

 

O Ti Antero, seu marido, era o chefe da família ia para mais de uma vintena de anos. Dedicava-se à agricultura. Contudo, tinha jeito para a carpintaria e sempre que podia não rejeitava uns magros tostões que lhe pudessem advir desta arte.

 

Tiveram filhos muito tarde.

 

A Ti Caçolina chegou a pensar-se matchorra, não fora ter convencido o marido a acompanhá-la à Misarela na foz do Regavão. Passaram lá uma noite fria, mas valeu a pena. Emprenhou de gémeos aos quarenta anos.

 

O parto não foi muito normal e se não fosse a Tia Cândida a ajudar a dilatar as carnes, ressequidas, da parideira e os gémeos não teriam vencido. Mas venceram e deram dois rapagões de estalo: O Delmino e o Delfim.

 

O primeiro, aos doze anos, já se gabava de fazer a barba, embora reconhecesse que raramente precisava de afiar a navalha!

O Delfim, com a mesma idade, já pintava!

 

Não sendo uma família abonada, nem tão pouco remediada, também não se podia dizer que fosse pobrezinha. Vivia do que a terra dava e, não sendo muito, sempre se compunha a mesa com a carpintaria que ajudava a controlar os calotes na mercearia do Magalhães.

 

Os rapazes eram dados às artes musicais.

 

De latas faziam bombos, da casca das varas de castanho flautas, das bancas de tripé concertinas e passavam as noites a oferecer grandes concertos.

 

Umas vezes cantavam à desgarrada, imitando os cantadores que observavam pelas romarias, com improvisos bem conseguidos, para gáudio da família, outras remedavam os cantores da moda, que ouviam no rádio da taberna.

 

Era uma alegria na casa da Ti Joana!

 

Uma noite, de inspiração desusada, os rapazes ajustaram, de aposta, um cartar ao desafio. Seria vencido o que primeiro perdesse a rima.

 

Quadra dum lado, resposta do outro, e a coisa foi-se amanhando, com tal sucesso que o Ti Antero soltava estridentes gargalhadas entre dois golos de maduro tinto, do de Cobaladrão, que aquecia ao borralho, na pitxorra preta de Nantes.

 

Entrementes, o Delmino, em resposta a um atrevimento do gémeo, botou a rima seguinte:

 

Boa noite meus senhores

No fundo d’um alguidar meu

O meu pai é serrador

Serrou os cornos ao teu!

 

Não havia ainda terminado e já a Caçolina, sua mãe, puxara a culatra atrás pespegando tamanho bofetão nas trombas do cantador que lhe afocinhou os queixos na cinza da lareira! O rapaz ficou tão atromelizado que precisou de muitos anos para perceber o que justificara aquela atitude marada de sua mãe!

 

Uma coisa é certa, nunca mais, a partir daí, houve noutro serão cantigas à desgarrada. Pudera, é que a Joana Caçolina tinha imenso empenho na sua fidelidade matrimonial!..

 

O Ti Antero inchou de empáfia por ter sido considerado, simultaneamente, o protagonista e a vítima.

 

Também ele precisou de muito tempo para perceber aquela atitude inesperada da sua querida esposa!...

 

Gil Santos

 

 

 

20
Ago18

De regresso à cidade, com uma estória

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Hoje fazemos o regresso à cidade com passagem pela Travessa do Município que inicia no Largo do Município, ou seja, nas traseiras do edifício da Câmara Municipal onde estão os pastéis de Chaves da Maria e a fruta da Amélia. Inicia lá e termina na Rua do Bispo Idácio, sendo atravessada a meio pela Rua Direita. A foto é do segundo troço desta travessa, a parte que vai desde a Rua Direita até à rua do bispo que os mais antigos também conhecem por Rua da Cadeia, por aí ter existido a cadeia e depois o posto da polícia. Da cadeia já não me lembro, da polícia, sim, recordo bem e ainda me lembro da primeira vez, e única, que lá entrei, pois desse dia guardo e recordo uma estória caricata rematada por uns lambefes do meu pai, tudo por causa de um guarda-chuva. A estória começa á saída da escola primária do Caneiro, andaria eu na terceira classe, tinha oito anos de idade. À saída, era obrigatório ir beber umas goladas de água no chafariz que por lá existia. Encostei o guarda-chuva ao chafariz e fiz concha com as mãos para receber e beber a água que ia caindo da torneira. Limpei a boca com as costas da mão e alá para casa, para a Casa Azul. Na altura não havia papás à nossa espera à saída da escola. As ida e regressos da escola eram por nossa conta. Era-nos permitido fazer o trajeto nas calmas e até com algumas paragens curtas, mas a partir de aí tudo era proibido, pois tínhamos de estar em casa a tempo e horas. Pois viria eu pelo Campo a Fonte quando me dei conta que me tinha esquecido do guarda-chuva. Aparecer em casa sem ele, nem pensar, dava direito a sermão, missa cantada e uns lambefes bem dados. Toca a ir para trás à procura do guarda-chuva. Pelo caminho fui perguntando aos colegas mais atrasados se o tinham visto – que não!, disseram-me os primeiros, mas lá por alturas do portão do Jardim Público um colega disse-me que o Marinheiro o tinha levado. Onde está? para onde foi? Onde é a casa dele? Codessais, disseram-me. Bota para os Codessais, pergunta aqui, pergunta ali até que cheguei a casa dele. O raio do Marinheiro tinha de viver mesmo no fim dos Codessais. Chegado lá, perguntei à mãe por ele. Que não estava, disse-me, mas um colega tinha passado por lá a avisar a mãe que ele tinha ido à polícia entregar um guarda-chuva que tinha encontrado. Obrigado, muito obrigado! Boas notícias. Bota para a Polícia, onde é, onde fica, até que lá cheguei. E sim, o guarda-chuva tinha sido lá entregue, mas que não mo podiam dar porque estava não sei aonde e o agende encarregue da coisa tinha saído. Tinha de esperar que voltasse. E esperei, não sei quanto, mas foi uma eternidade até que o dito cujo chegou, fez-me meia-dúzia de perguntas para atestar se o guarda-chuva era mesmo meu e lá acabou por entregar-mo. Carregado de felicidade pela grande aventura, já de noite, regresso a casa ansioso por contá-la aos meus pais. Chegado a casa, mal entro, recebo a primeira pergunta — Onde estiveste? Pergunta acompanhada de uma boa lambada. Sem tempo para responder vem a segunda pergunta —  o que andaste a fazer? Segunda lambada, e por aí fora. Quando depois de acabar de soluçar pude contar a minha estória, ainda levei outra lambada, esta, por estar a mentir. Mas não doeram, o que importava mesmo é que cheguei com o guarda-chuva a casa. Não sei porque, mas a coisa mexeu comigo, talvez por isso, ainda hoje continuo a deixar esquecidos os meus guarda-chuvas em todas as esquinas, mas nunca volto atrás para os recuperar…

 

Moral da estória!? Algumas, mas aos olhos de hoje difíceis de entender.

 

E com esta me bou!

 

P.S. – A foto é de arquivo, datada de 29 de outubro de 2016

 

 

 

28
Dez12

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

O Tibúrcio

 

Rais te parta o peixe que está cheio de arganas – queixava-se o pequeno Tibério muito zangado.


– Come d’amodinho mou filho, não se te entrasgue algua e te afogue! – aconselhava a mãe com o mesmo carinho com que tratava o Pécora, o outro mais velho, depois que ficou manquinho de uma perna.


Comiam barbos de escabeche. Foram apanhados nas cordas que o Tibúrcio estendera à socapa no Tâmega. Ele bem sabia que era proibido e que se fosse apanhado no trabalhinho iria parar à choldra do Forte de S. Neutel a ver o sol aos quadradinhos e com umas arrochadas no lombo. Mas que fosse por Deus Nosso Senhor e pelos filhos da amásia. A lazeira superava o medo e valia a pena prevaricar só para ter os enteados de tripa forra.


Não havia pai para o Tibúrcio nesta arte de apanhar peixe do rio à corda. Mas só no inverno, porque no verão praticava outra das suas especialidades o peixe do rio ao buraco! Madrugada, ainda o sol se espreguiçava para lá das encostas do Brunheiro e já ele metia pés a caminho para a primeira presa. Chegava, lia a corrente que quase sempre corria fraca por estre penedos e ougas floridas. Despia-se até ao pescoço, atava uma saca de rede à cinta com uma baraça de sisal, pegava numa vergasta de amieiro e rio acima fustigava a tona da água. Os peixes, ainda endorminhados, estou que com o medo, encafuavam-se nas luras por baixo das pedras. O Tibúrcio mergulhava, metia a mão no toco, e quase sempre apanhava peixe graúdo. Por vezes lá lhe calhava uma cobra de água taluda cuja cabeça esmagava contra um penedo. Outras, algum leiranco de água, perdurado pelas cavilhas no polegar. Mas, Tirando isso, era peixe à farta.


A arte da pesca à corda, mais usada no inverno e de preferência quando o rio fosse grosso, era mais cómoda. Ajeitava um decâmetro de corda fina, da que prende a chiba à estaca. De braçada em braçada atava-lhe umas pontas de metro de sediela 0,60 mm. Em cada uma dessas extensões empatava um anzol bico de papagaio. Iscava com minhocas que apanhava na estrumeira do Maneta, ali para o Raio X. Pela noitinha levava o arcanho para o Poço do Leite, um fundão que havia onde a Ponte Nova tomou alicerces sobre estacas de pinho e onde o filho do Tero Bandeira mergulhava desde o tabuleiro. Atava um calhau na ponta da corda, arrimava-o para a outra margem em diagonal com a corda a reboque. Esperava que a corrente a esticasse e quando a topasse tensa, atava a outra ponta nas raízes de uma figueira que abraçava a parede sobranceira ao dito poço. Despois, era só esperar que a noite e a voracidade dos ciprinídeos fizesse o resto. Pela matina, antes mesmo que o galo da Pônas acordasse, ia recolher o aparelho. Rara era a vez que não tirasse pelo menos meia dúzia dos tais barbos. Uma farturinha preciosa no tempo do racionamento!


O Tibúrcio era viúvo e sem descendência. Uma tuberculose galopante tirou-lhe a Carminda aos trinta anos, antes mesmo que pudesse conceber. Como soi dizer-se, rei morto rei posto. Não perdeu tempo, aos trinta e um aputou-se com a Chambra, mãe solteira, com dois filhos já espigadotes, o Tibério e o Pécora.


A relação alimentava-se de uma paixão forte, quotidiana. Contudo, a coisa começou a afrouxar e veio um tempo em que o Tibúrcio ralas vezes visitava a sua amante. A Chambra estava cada vez menos disponível para o amante no tugúrio onde vivia, após a desgraça de que foi vítima o seu filho mais velho. A infelicidade do Pécora conta-se em duas penadas.


Teria uns seis anitos quando numa manhã de janeiro o Chico da Soutília, seu padrinho de batismo, aricava uma campina de centeio, contígua à linha do comboio, ali para a Fonte Nova. Fazia-o com um arado de relha de ferro que uma mula, assustadiça, puxava aos repelões. O rapazeco, que fosse com o cheiro na merenda do padrinho ou em andar emplouricado no arado, foi atrás dele para a lavra. Gostava que o sentasse abaixo da rabiça, com os pés sobre o timón para andar de landó rego fora. Assim estava a acontecer quando o comboio, na aproximação ao apeadeiro da Fonte Nova, abriu a goelas num estridente silvo. A mula, apavorada, desinvestiu campo afora. O Chico não teve mão nela e o mocinho caiu entalando a perna esquerda entre a abieca e a lavrada. No movimento tresloucado, um rebo mais aguçado apanhou-lhe a pernita e amputou-a redondinha pelo tornozelo. O Pécora ficou manco para o resto da vida.


O que haveria de ser da vida desse rapaz sem uma gâmbia, num tempo em que mesmo com as duas sabe Deus?


Em ordem ao futuro do filho manco, a Chambra, precisava de trocar a paixão do Tibúrcio por alguma outra coisa que desse mais do que barbos de escabeche!


Ora, um amanhado dia do mês dos cucos, quando atravessava a linha do caminho-de-ferro com um jiga de labrestos à cabeça, colhidos na mesma leira onde o seu Pécora perdera o pé, a Chambra ia sendo apanhada pelo comboio que passava. Não fora a mão amiga de um guarda-linha a tê-la salvo e seria morte certa. Ficou-lhe tão reconhecida que no dia seguinte, o tal, já merendava em sua casa. Dali avezaria um dinheirinho certo. Com ele poderia atenuar as dores da família, particularmente assegurar um futuro para o filho manco.


Não esteve com meias medidas, comassim! Deu-lhe a provar o licor de Vénus e fisgou-o pelo beicinho como o outro fazia aos barbos!


Tratava-se de um homem de meia-idade, solteirão, vindo do Douro. Por desgosto, quiçá de amor, pediu para vir trabalhar na linha do Tâmega, aqui para Chaves. Roupa lavada e cama quente levaram-no a viver de porta cerrada com a Chambra e os seus dois filhos.


Com aquele desgosto não pôde o Tibúrcio. Na primeira oportunidade contratou os serviços do Neves e Passador e emigrou a salto para a França. Teve tanta sorte que em pouco mais de cinco anos fez fortuna capaz de lhe alimentar uma velhice sem sobressaltos.


Durante esse tempo a Chambra vivia na fresca ribeira com o duriense e não mais se lembrou do Tibúrcio. Contudo, uma bela manhã do primeiro de agosto, o guarda-linha avisou que ia de férias no dia seguinte, tomaria o comboio para a sua terra. Visita aos familiares. Assim foi. Evidentemente que se esqueceu de voltar no final das ditas.


Adivinhando a mandingança e achando-se de novo desamparada a Chambra não perdeu tempo, foi pedir ao Beiças que lhe redigisse uma carta para a França.


Rezaria mais ou menos nestes termos:

 

Crido Tibúrcio:


Espero qestas duas letras te bão topar de boa saúde. Nós por cá estemos bem graças a Nosso Senhor.


Escrebo-te esta p’ra te dezer que não me astrebo a aturar o Tibério e o Pécora. Desde que fostes p’rá França que me relam os dias a pedir barbinhos de escabeche. Eu bem los fazia mas num tenho quem nos pesque. Faltasme tu qeras o pitroil da minha candeia e o luzeiro dos meu olhos. Nunca na bida heide ter home tão asado qemo tu. Dabasme carinho, açaramoabasme os rapazes quando mijavam fora do penico, afagabasme a palha do xaragão quando oupava e olhabasme a pita todos os santos dias para que não pusesse fora. Fostes e hades ser sempre o home da minha bida e o pai que os meus filhos nunca tiberam.


Bolta Tibúrcio da minha peituga, serei o teu aconchego na belhice.


Sem mais que te diga, recebe o afago deste coração empedernido e a promessa de um cibo ardente que te deseja!


Por ti anseio.


Desta que muito to quer!


Chambra

 

A missiva lá seguiu para terras de Bonaparte.


Ainda não era Natal e já à sua porta, na canelha das Caldas, parava um carro de praça a descarregar duas malas de cartão anchas e um pimpão de fato e gravata. Era o Tibúrcio que retornava, agora carregadinho de francos, aos braços da sua amada.


Daí em diante nunca mais faltou o escabeche de barbos naquela mesa. Bem entendido que já não era acompanhado apenas com carolos recessos de centeio escuro, mas com cantos de trigo e outras iguarias que a Chambra trazia, vaidosa, da praça todas os dias de feira.


Viveram felizes. Tão felizes, que até o Pécora teve direito a um pé novo, suponho que de pau de amieiro, que o doutor Fernandes mandou vir de Barcelona. Mancava um pouquinho, mas foi apenas enquanto não se habituou.


O Pécora passou o resto dos seus dias rua Direita acima, rua de Santo António abaixo, a vender cautelas para seu sustento. Não sei se algum dia teria vendido a sorte grande, mas merecia que isso tivesse acontecido.


O Tibério foi chauffer de praça no Arrabalde.


A Chambra e o seu Tibúrcio morreram velhinhos.


Do guarda-linha nunca mais ninguém ouviu falar.

 

Gil Santos

06
Jul12

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

O CABUGUEIRO

 

O Cabugueiro, homem para meio século, morava no Carregal. Era maroto e temido por todos. Vivia à margem da aldeia, numa casa térrea de perpianho e fazia a sua lavoura unicamente com a ajuda da mulher Luísa. Seca, como um pau de virar tripas, era levada do diabo para trabalhar. Apesar disso, as dívidas acumulavam-se e o casal não saía da cepa torta. A colheita nunca chegava para pagar a sementeira. Recusou a França muitas vezes temendo deixar a mulher de poulo! Vivia mal a família do Cabugueiro! No tempo da caça, os seis filhos andavam mais nutridos, porque coelho ou perdiz que lhe atravessasse a mira da caçadeira morria. E, honra lhe seja feita, a criação comia como os progenitores. Era um homem simples e honesto que, apesar dos maus fígados, só se metia com quem o provocasse. Ai isso quem lhas fizesse pagava-as e com língua de palmo, isso era certinho!


O Amadeu, primogénito de uma ninhada de cinco, era filho do Ti Zé Porto fulminado a meia idade por uma tuberculose galopante. Este melro era falso, áspero, vingativo, cruelmente vingativo!... Fazia-as pela calada e com cobardia ferrava o mais incauto. Aparentemente dava-se bem com toda a gente, porém, a aldeia sabia que não era de fiar! Assemelhava-se a um cão que não conhece o dono.


Uma madrugada de um dia quente de junho, o Cabugueiro tornou a água do povo, como lhe cabia naquele dia, para o seu lameiro de pasto. A torna findava ao meio dia a favor do Amadeu. Porém, ainda não eram onze e já o farsola secara o rego ao Cabugueiro virando a água para o seu batatal. Este, que sachava o milho numa leira próxima, passou-se, quando se apercebeu do sucedido! Chamou o Amadeu à pedra do cimo de uma borda alta. O arrufo não passou, naquele dia, de algumas palavras mais azedas. Entre carvalhos e outros impropérios que tais, prometeram o acerto da fatura para mais tarde.


Passados dois ou três dias o Cabugueiro reparou que o Amadeu ao alvorecer se dirigiu para leira do Corgo, acompanhado pelo cão Tirone e de uma mula coxa que comprara a uns ciganos na feira dos Santos e que era objeto de gozo por todo o Carregal. O Cabugueiro ruminou a vingança para aquele dia e entre dentes resmungou para os seus botões:


— Vai ser hoje! No regresso passas em frente à minha casa e vais pagá-las!


Seria meio-dia quando a mula, o cão e o Amadeu regressavam da jorna. Descontraído, de sachola ao ombro, assobiava uma moda de cotovia enquanto os socos abertos, ferrados, marcavam o ritmo nas pedras soltas do caminho. Perto da cabana do Cabugueiro o Tirone bem o avisou mas ele não quis saber. Esperava-o uma caçadeira aperrada. O caminho não tinha volta!


Atão fidalgo foi com esse satcho que me roubastes a água outordia?


Enquanto o abordava, apontava-lhe o trabuco à laia de combatente da guerra dos catorze. O Amadeu, lívido por saber dos fígados do Cabugueiro, media mentalmente o tempo e os passos que o separavam do chumbo da espingarda. As suas mãos calejadas seguravam, como pinças de aço, o rabo da enxada. Os músculos, contraídos pelo medo e pela raiva, preparavam-se para arremessar o sacholo, desviando o tiro e facilitando a fuga. A coisa estava feia e para ganhar algum tempo respondeu:


— Não tinha horas Cabugueiro, mas vira para lá essa merda senão ainda te parto os cornos!


Não deu tempo para mais nada, o indicador da mão direita premia o gatilho quase no limiar do fogo. O Amadeu, adivinhando-lhe o gesto, arrimou com a sachola acertando-lhe com o olho na cabeça, um pouco acima da fonte esquerda. O Cabugueiro caiu redondinho! — Morto, pensou o Amadeu!


De socos na mão e em carpins, saltou a fugir ele e o Tirone. A mula coxa ficou a pastar calmamente numa borda do caminho.


A senhora Luísa, gritando a bandeiras despregadas, mandou o Adérito, filho mais velho, chamar o senhor Fernando, meu falecido pai, que era proprietário do único automóvel das redondezas, para levar o infeliz ao hospital de Chaves. Nessa altura eu, pequenote, tive oportunidade de lhe ver os miolos. Impressionava!


O Cabugueiro foi operado de urgência. Ficou internado uns meses. Graças a Deus e à sua rija têmpera escapou. Da ferida ficou somente uma pronunciada concavidade no caco.


O Amadeu, nessa mesma noite, desapareceu como por mistério. Havia quem dissesse, à boca pequena, que andava fugido por terras de Angola.


Passaram-se alguns anos até que o paradeiro do freguês chegou aos ouvidos do Cabugueiro. Não perdeu tempo, montou na burra e foi dar parte ao posto da guarda de Vidago, mandando prendê-lo. De facto foi apanhado e condenado pelo juiz da cidade de Trajano a cinco anos de prisão que cumpriu integralmente.


O Amadeu, um pouco mais novo que o Cabugueiro, ainda é vivo, e desde aí não consta que se voltassem a desentender!

 

Gil Santos

18
Mai12

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

NEVES O PASSADOR

 

Estava um fim de tarde gelado de um qualquer dia de Janeiro. O céu plúmbeo fazia adivinhar grande nevão. A noite caía célere, era preciso ir cá botar o gado que pastava no lameiro do Belão. O criado encarregava-se disso. O Ti Moreiras enchia o eido de lenha de carvalho. Os potes fervilhavam ao lume na promessa de que o cozido de palheiro afagasse o corpo e a alma.


Tudo, enfim, decorria na santa paz dos dias do Senhor.


Ceava-se já quando alguém bateu, com os punhos, na porta carral de zinco do pátio. Estava escuro como breu.


— Quem poderia ser àquela hora? — Pensava o Ti Moreiras.


O afitrião, envolvendo os pés nuns carpins de merino, aconchegava-os à beira do borralho, sobre umas placas de cortiça, por causa da cinza que o braseiro espargia. Calçou os socos abertos de pau de amieiro e apressou-se escaleiras abaixo para o pátio.


— Quem bate à porta? — Perguntou com voz de sarronco!


— É o Neves, Ti Moreiras. Abra!


O Neves era um moço dos seus trinta anos, filho de um grande amigo de Carrazedo, e que andava permanentemente fugido à pide. Havia alturas em que não aquecia lugar algum. Era passador. Angariava homens lá para a Terra Quente que passava a salto para a França por Vila Verde da Raia e a quem cobrava boa maquia. O Neves tinha a teia bem montada, fazia-os chegar à fronteira, onde, a coberto da noite passavam a salto pelo ribeiro. De seguida, em Feces de Abaixo, entregava-os a um galego que os fazia chegar aos Pirinéus. Tratava-se de um homem sério, ao contrário de alguns seus companheiros de profissão que eram uns salafrários. Uma das formas mais usuais de enganarem os desgraçados emigrantes e que o retrato rasgado veio resolver, consistia mais ou menos no seguinte: os homens vindos dos lados de Mirandela, chegavam ao Planalto estafados das longas horas que, propositadamente, sofriam em cima de apinhadas camionetas de carga que percorriam lenta e penosamente as estradas esburacadas de terra batida. Na borda do Brunheiro, à vista da iluminação da cidade de Chaves, fica uma povoação chamada France. Chegados aí, com a placa da aldeia à vista, mandavam-nos apear. Que haviam chegado a França, que lessem na placa, que lá em baixo era já a cidade de Paris, que dali para a frente teriam de seguir a pé por causa da polícia! Só na manhã seguinte se apercebiam da marosca. Sem dinheiro e sem transporte, muitos deles suicidavam-se, por mor da dívida contraída para emigrarem e que agora não viam jeitos de poder pagar. Outros faziam-se à vida como podiam, angustiados.


Continuando.


Ao entrar no pátio o Neves tiritava, não sei se do frio se do medo!


— Ó Ti Moreiras, vossemecê tem de me safar. A pide anda atrás de mim!


— Sou muito amigo do teu pai, mas sabes que não quero problemas com a polícia. Ficas cá esta noite mas amanhã cedo pões-te a milhas! Sobe. Vem sentar-te e comer qualquera coisa.


Ainda mal se tinham alapado e já voltavam a bater à porta, agora com mais ferocidade.


— São os filhos da puta! — Disse o Neves assustado.


— Não há que saber, ó Carolina, leva o rapaz para a adega e mete-o no tonel grande que está vazio. Eu demoro a abrir.


Chegados à adega, retiraram a portinhola da vasilha e o Neves meteu a cabeça e passou-se para dentro do tonel. O dito cujo havia sido lavado há pouco tempo, no entanto o sarro ainda libertava vapores abafadiços. O Neves, depois de dominar a custo a claustrofobia, encostou os queixos ao bueiro da rolha para respirar ar fresco.


— Quem bate? — Perguntou o Ti Moreiras, com uma voz segura.


— Polícia, abra!


Abriu.


Assomaram à soleira dois pimpões que, mesmo à paisana, não enganavam ninguém. Eram mesmo da secreta.


— Boas noites, meus senhores! A que devo a honra da vossa visita a estas horas da noite? — Perguntou o dono da casa num tom irónico de disfarce. É que o Ti Moreiras foi calejado pela Grande Guerra e só temia a Deus.


— Temos a informação de que vossemecê alberga um criminoso em sua casa. Queremos passar uma busca.

Claro que o Ti Moreiras nem ousou perguntar pelo respectivo mandato. Pudera!...


— Albergo, sim senhor! Eu próprio! Sou criminoso de guerra por ter passado alguns boches à baioneta lá por terras de França! Mas façam favor de entrar e estar à vontade. A casa é vossa!...

Entraram.


Viraram tudo do avesso. Nada.


Contudo, quando revistaram a adega, temeu-se o pior. É que quase dava para ouvir a respiração ofegante do desgraçado do Neves. Porém, o Ti Moreiras não perdeu o sangue frio – olha quem! – Disparou em tom de gozo:


— Vai um copinho meus senhores? Tenho neste tonel uma pinga de arrebimb’ó malho!


— Não senhor, obrigado. Não bebemos em serviço.


Foi a sorte do Neves e provavelmente a do Ti Moreiras!...


Os polícias saíram a espumar de raiva. Pareciam cães com o rabo entre as pernas! Descorçoados!


No dia seguinte, manhã cedo, o Neves foi despachado, já devidamente pensado e recuperado do cagaço da noite anterior.

 

Gil Santos

03
Fev12

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

O ARNALDO E O VICENTE



O Vicente nasceu a ferros no hospital de Chaves. Andou para morrer, porque não conseguia respirar.


— Salve-se a mãe, disse o doutor Fernandes.


O Vicente, roxo, foi atirado para uma marquesa para morrer. Porém, era forte como um cabrito montês e resistiu. Arfando, como o fole da concertina do Malheiro, o seu peitito de recém-nascido foi alcançando ar devagarinho. Perdeu o arroxeado da pele e pôs-se fino mais cedo do que a própria mãe. Quando a enfermeira se preparava para o amortalhar, deu sinais de vida desatando num berreiro desalmado pela teta. Após a primeira mamada e embalado pelo carinho maternal, adormeceu na paz dos anjos. Cresceu tão robusto que a cada ano que passava parecia ter mais dois. Ainda rapazote e já apresentava um capado que envergonhava qualquer adulto. Servia até de exemplo quando as mães queriam convencer os filhos a comer o caldo:

 

— Come meu filho, para ficares forte como o Vicente!

 

O Arnaldo nasceu em casa. Era filho de uma cabaneira e nunca conheceu o pai. Foi parido e criado na mais triste pobreza. Passou tanta fome que, sem substrato para engrossar, cresceu fino como a vara da mimosa. Mas era cómico o Arnaldo. Aprendeu a rir da miséria da própria vida e da dos outros e tinha tiradas de mestre. Qualquer estória que se contasse na aldeia tinha o Arnaldo como ator principal. E, se algum dia o lugar tivesse interesse turístico, a figura do Arnaldo faria, de certezinha, parte dos seus postais ilustrados! Tal como acontecia com o Vicente, também por vezes as mães, na árdua tarefa de vencer o fastio das crias, recorriam ao exemplo do Arnaldo:


— Come, meu filho, para seres grande como o Arnaldo! Claro está que jamais corriam o risco de invocar os dois nomes ao mesmo tempo sob pena de os rebentos saírem umas abantesmas com a grossura do Vicente e a estatura do Arnaldo!


O Arnaldo vivia do expediente que a sua esperteza lhe proporcionava e do rendimento duma pequena horta legada por herança lá para os lados dos Cáximos. O Vicente, do que davam meia dúzia de leiras à volta do povo.

Contígua à horta do Arnaldo, tinha o Vicente uma vasta propriedade constituída por campo e bouça. Um primor cujo renovo, temporão, enchia de inveja os melhores lavradores. Havia aí um poço de rega que mesmo no pico do Verão tinha água farta. Num rincão dessa propriedade havia um imenso pinheiro inclinado sobre a horta do vizinho. Há muito que o Arnaldo olhava de esguelha para o dito cujo, por lhe ensombrar a hortaliça e não a deixar medrar como devia. Várias vezes pediu a Vicente que o cortasse, mas ele sempre fez ouvidos de marcador!

Um dia, o Arnaldo encheu-se. De manhã cedo, aproveitando o facto de o Vicente ter ido à missa de domingo, pegou num machado e decepou o pinheiro pelo trepo. Atrelando-o à mula, arrastou-o inteirinho para o eido.

Passado uns dias, em ronda ao que era seu, o Vicente deu conta do feito. Não precisou de levantar muita pedra para descobrir o autor. Abordou-o na tasca do Malgudo:


— Ó menino, quem é que cortou o pinheiro da minha bouça dos Cáximos?


A princípio o Arnaldo fez-se desentendido, mas, perante a persistência do inquiridor, lá reconheceu ter sido por causa da sombra lhe tolher a hortaliça.

Porém, tal foi a forma despreocupada e simpática como se desculpou que, perante o Vicente e as testemunhas, nem parecia crime de lesa-pátria!

 

— Pois meu amigo, tens três dias para colocar de novo o pinheiro em pé na minha propriedade!

 

O Arnaldo demorou dois a pensar a solução. Ao terceiro, atrelou outra vez a mula ao tronco e arrastou-o até aos Cáximos.

Pelo caminho ruminava:


— Ai tu queres o pinheiro de pé? Pois vais tê-lo!..


Espetou com ele no poço!

De facto a árvore ficou de pé como sempre esteve, mas agora com os ramos mais pertinho do chão.


O Vicente, perante manifestação de tanta inteligência, perdoou-lhe, limitando-se a contar a estória pelo lugar.

Era mais uma façanha pitoresca que fazia a história daquela aldeia.


19
Nov10

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

.

 

 

TALHAR O COXO

 

 

 

Nove meses de Inverno e três de inferno, é o lema ancestral do Planalto!

 

O Verão, naquele ano, apresentava-se estupidamente quente. Não havia sítio nenhum onde se estivesse sossegado. Só a madrugada ou a noite escura proporcionavam algum conforto. Então a mosca atazanava de tal modo a cria que só no meio das giestas se sentia acomodada. Ainda se corresse um ribeirinho que fizesse alguma presa! Mas não, no Planalto, água corrente só mesmo nos regos dos lameiros e nas nascentes. Mas, naquele ano, não corria peta de água. Porém, para os lados da Lamalonga, tinha o Ti Balele de Fornelos uma poça funda e lodosa, sem memória de que secasse. Ora, era hábito a rapaziada ir a banhos à Lamalonga nas sestas de canícula. Assim aconteceu daquela vez. Um rancho de rapazotes combinou uma espolinhada na dita poça, nessa tarde de Sábado.

 

Chegados, despiram-se até ao pescoço e chapinharam no lodo, na santa paz do Senhor, até à noitinha. Era um alívio para o corpo e, tirando uma ou outra rara vez que eram corridos pelas labrestadas do rabo do sacho do Ti Balele, quase nunca havia azar.

 

No Domingo seguinte, quando se levantou e se debruçou do balaústre de madeira da varanda para urinar para o pátio, o Berto da Senhora Clotilde, sentiu um ardor estranho no respectivo. Examinando-o, reparou que se apresentava crivado de borbulhas de cabeça branca. Envergonhado, o rapaz pediu ajuda à sua mãe. A senhora Clotilde mirou, remirou e depois de pormenorizado exame perguntou:

 

— Para onde foste ontem, Bertinho?


— Fui com os outros para a poça da Lamalonga.


— Claro, atão não há dúvida, apanhastes coxo na pilinha! — Diagnosticou!

 

De pilinha, tinha o órgão muito pouco. Apresentava já uma penugem parecida com aquela que os pássaros mostram quando querem desaninhar!

 

— Temos de ir à Ti Mercedes, à Amoinha, para que te talhe o coxo.

 

Era Domingo, um dia azado para estas coisas. Calhava bem!

 

A senhora Clotilde foi à capoeira, escolheu uma galinha careca, das que não punham, e meteu-a no cabaz para a paga. Montou na burrita e lá foi com o rapaz à barbela até a Amoinha. Passava pouco das onze quando chegaram. O calor apertava. A burra suava em bica, não sei se por mor da canícula se pelo peso da dona. É que a senhora Clotilde era mulher para mais de cem quilos!

 

— Vá lá não se ter lembrado de meter o filho à garupa — cismava a burrita em linguagem de asno!

 

Passando pela capela do lugar, a missa do padre Luís ainda decorria. No adro, muitas bestas presas à argola esperavam os seus donos no inferno das moscas. Quando a burrita passou, ou porque tivesse exalado um cheiro a cio, que talvez pela tenra idade estendeu para Agosto, ou por outra razão qualquer, um burro experiente e amante de carne fresca sentiu o aroma e vai de armar tal estardalhaço de zurros e piparotes que o padre Luís teve mesmo de interromper a celebração. O Ti Zé Paranhos, dono do asno, quando se apercebeu que lhe tocava, sacou de um estadulho de um carro de bois e estendeu quatro sardinhas de respeito no lombo do animal, enquanto resmungava envergonhado:

 

Rais te parta no burro a pecar no adro da capela! Eu dou-te a burra, meu filho da puta!

 

A burrita, não renegando aos arranques do corpo e igualmente entusiasmada, ia arrimando a dona de cangalhas. Valeu-lhe a mão amiga do Ti Fagundes que amaciou, com uma vara de marmeleiro, as orelhas da desavergonhada!

 

Chegados à casa da curandeira, duas palmadas bem dadas na porta carral de pátio fizeram-nos anunciar. A Ti Mercedes, mulher para setenta anos, viera há tempos fugida da guerra civil de Espanha. O sotaque galego em nada prejudicava o seu respeitado desempenho. Dava-lhe até um certo ar de mistério como convém a estas artes!

 

Que pasa Clotilde?


— É o meu Bertinho que está com o coxo. Vinha ver se vossemecê lho talhava.


Antonces não talho mujer, entra!

 

Presa a burrita ao pinalho do carro de bois, a senhora Clotilde mailo rebento subiram as escaleiras de perpianho até à varanda de soalho corrido, sobranceira ao pátio.

 

— Deixa que te mire rapaz!


O Berto, envergonhado, lá abriu a custo a braguilha e mostrou o instrumento à doutora. Parecia um bicho. Estava pior!

 

Ai mocito como vás! O bitcho era bravito. Isto non vá num solo dia. Tenes que benir unos cinco. Hoy te faremos la primera benzedura.

 

Foi à cozinha e voltou com um facalhão de aço, pouco mais pequeno do que aquele que se usa para sangrar os recos. O rapaz, quando o viu, tralhou-se de medo, pensando servir para o amputar o apêndice. Sossegou quando viu que não. Afinal era só para desenhar cruzes enquanto rezava a seguinte oração:

 

Yo te talho bitcho bitchão, sapo sapão, aranha aranhão, bitcho de toda a nação. Em louvor de S. Silvestre quanto assa tudo preste, com a ayuda de Nuestro Senhor que é el verdadero mestre. Em louvor de Deus e da Virgem Maria um Padre Nuestro com una Avé Maria.

 

Depois de se ter benzido três vezes, deu a consulta por terminada. Recebeu a galinha, agradeceu e marcou para o dia seguinte nova consulta.

 

À hora, lá estava mãe e filho, como nos quatro dias seguintes.

 

Ao quinto, não sei se das rezas ou se da evolução normal da doença, o rapaz apresentava melhoras significativas, a avaliar pela análise feita pela curandeira:

 

— Mira, já está melhorcita, que já se le endireita a cabecita!


Declarado curado o mal do coxo, mãe e filho regressaram todos contentes. Bem sei que a capoeira da Ti Clotilde foi subtraída das melhores pitas, mas valeu a pena, não fosse o Bertinho perder a oportunidade de tocar umas flautadas às moças da sua idade no tempo certo!..

 

Além do mais, poderia continuar, por agora, a matar o calor na poça da Lamalonga.

 

Gil Santos

 


………………………………………………………………………………………

 

 

 

À margem da estória de Gil Santos, fica a título de curiosidade um vídeo com a reza do coxo, gravado por Gonçalo Mota e produzido por Terra de Miranda Museum:

 

 

 

REZA DO COXO from ETNOmedia on Vimeo.

 

 

 

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