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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Fev15

Estratos

800-rita

 

A Rapariga das Laranjas

 

Regressou sem que alguma vez tivesse sido meu. Trazia roupa nova, mas guardava a mesma voz. Os livros são um passado onde se pode voltar. Sem contingências de orçamento não têm elementos que passem de moda.

 

Voltei a ver o anorak amarelo da rapariga das laranjas. E também o casaco preto e o travesseiro de prata que usou na missa de Natal. Não sei se eram iguais aos que vi há uns 10 anos. Mas podiam ser os que enfeitavam a rapariga com que me cruzei ontem.

 

O livro que guardava a história não era o mesmo. A dona do livro não era a mesma. A vida não é a mesma.

 

A rapariga das laranjas continua a morar em Oslo. Voltei a vê-la no eléctrico, onde reencontrou o Jan Olav. Tinha a visto passar da minha cama azul. Reencontrei-a enquanto me sentava no sofá castanho.

 

Não a quis deixar ir embora. Gostava de voltar a vê-la da minha cama azul. Do tempo em que vivia entre a cama azul, os livros que a mãe trazia da biblioteca e o leite com chocolate que me preparava todas as manhãs.

 

E as letras voltaram a ser puzzle. Um novo puzzle. Um puzzle sem fim, pelas respostas que não chegarão. Pelas muitas perguntas que tenho por aprender.

Rita

 

10
Fev15

Estratos

800-rita

 

Pão, pão; queijo, queijo

 

Comia o pão já depois de ter comido o queijo. Foi queijo, queijo; pão, pão.

 

Atrás dos montes é: mãos, mãos; olhos, olhos. É sempre assim que me apareceis.

 

Olho no olho, mão na mão. Garante de verdade e ajuda sem pena.

 

A bezerra, enquanto pensava na (sua) morte, levou-me numa vida assim. Tudo pão, pão; queijo, queijo. Sem margem.

 

Só à margem.

 

Rita

 

 

 

27
Jan15

Estratos

800-rita

 

Na palma da mão

 

Gosto de viver aqui, neste lugar que o agora.

 

Antes de adormecer penso no além, para que o sono e  os sonhos me encontrem mais rápido.

 

Acordo, mais das vezes, a pensar no ali. As manhãs que coneçam antes do Sol trazem-me pessoas que deixei ali. Perseguem-me.

 

Entre o leite e as torradas, o agora chega. Mas há dias em que queria estar ali. Quando o além dá medo, o agora não apetece.

 

Há pedidos que não podem pedir-se. Volto à Escola da Estação onde tudo se pede. Tudo se perde.

 

Ainda bem que já não és Escola. Trazes-me mais depressa aqui.

 

Quando não há pedidos, há fé. Quando há nada, há mãos. Não pedem mas podem. Podem tudo.

 

Rita

 

 

13
Jan15

Estratos

800-rita

 

Terra à vista

 

Querida Maria,

 

 Perguntavas-me sobre o que escrevo. Falei-te de Chaves e de Trás-os-Montes. Não te entusiasmaste. Quis dizer-te, sem conseguir, que vivem em mim. Como tu.

 

Tens treze anos. Deste-me um tecto quando mo tiraram. Durmo na cama que é tua. No teu quarto com papel de parede azul céu bonito que indica o norte. Ainda há cor-de-rosa, aqui. Aquele que não levas para a escola, mas que ainda te vejo em casa. Tu não sabes, mas vejo-te capaz de tudo. Assim uma espécie de super-heroína em potência.

 

Sexta-feira, tens ficha de língua portuguesa sobre «O conto da ilha desconhecida». Aquela que foi à descoberta de si própria. Também eu, Maria, ando nessa descoberta. E, em ti, vejo um mapa.

 

Gosto do sabor que as brasas lhes dão. Cogumelos, costelinhas, pernas de frango, chouriças e alheiras. À lareira de uma cozinha com frio espreitando por baixo da porta. Um escano, pés ao lume e o à vontade de pegar no osso com as mãos. Licença para ser feliz.

 

Oiço o Pai dizer que deixou de comer pernas de frango. Perdeu-lhes o direito. Usurpei-lho por tanto tempo que recusa a oferta, se lha faço.

 

O Pai guarda aquele olhar que à Mãe não conheci. Um desejo mal escondido que recusa satisfazer.

 

Contigo, Maria, avistei aqui terra nova. Sítio de afectos de onde e onde os desejos se satisfazem e as fomes se saciam ao ver-tos comer.

Rita

 

02
Dez14

Estratos

800-rita

 

Ao senhor do brinco

 

Pedi à mãe para furar as orelhas. Não sei bem se antes ou depois de ver o senhor do brinco. Foi ali, no Café Sport, quando por lá havia uma parede mais bonita do que as outras.

 

«Mãe, aquele senhor tem um brinco!»

 

Era hora de jantar. Mãe sem mãos que chegassem para os filhos, sem dinheiro, sem chave de casa.

 

«Um homem sem dinheiro é um homem sem palavra.»

 

E a mãe sem mãos para tantos filhos. Trazia comigo mãos, dinheiro e a frase de que não gosto por, talvez, guardar verdade.

 

Dei dinheiro e mostrei mãos. Ninguém as segurou.

 

«Mãe, aquela senhora deu-nos dinheiro!»

 

Desculpe, senhor do brinco. Não há raios que partam o preconceito.

Rita

 

 

09
Set14

Estratos

 

A respeito dos figos

 

Os cheiros e as cores são diferentes. Foi no que primeiro reparei.

 

Agora, olho conceitos.

 

Lá importa a educação. Aqui importa o respeito. E, num lado e noutro, por mais que se tente, não se confundem.

 

Lá a educação é prima da etiqueta. Mora nas palavras. Deve também à pronúncia. Na receita para uma educação esmerada até o nome da rua pesa.

 

Aqui, conta menos a beleza das palavras. O valor está no significado. O respeito, que se enxerga melhor nas atitudes (e não na atitude), é quanto basta. E vale o tom mais do que a voz.

 

Com os pés sujos pela terra que deixou nascer os figos, o Tio explicou-me como não valia a pena ter muito dinheiro. “Traz muitas chatices e no fim, olha para lá iremos.”

 

Os figos darão maior felicidade. Mais fáceis de colher. De dar. De receber. De comer!

 

O respeito também.

 

Rita

26
Ago14

Estratos

 

Bem-haja

 

Grande Avô,

 

Tenho ido à casa que será para sempre tua. Virou corpo desalmado.

 

Abro janelas. Fecho janelas. E nem Chaves a salva.

 

Depois, Grande Avô, não vou querer passar mais naquela rua. Na tua rua que tem nome de outra pessoa. Ainda não te contei, Grande Avô, o Padre enganou-se e chamou-te pelo nome da tua rua. Foi quase um engano acertado, aquele.

 

Cheguei cedo, Grande Avô. Vi tocar o sino. E da sombra da árvore ouvi um “quem terá sido?” que deixei sem resposta. Não te zangas, ora não? Grande Avô! Então? Tu és o maior poupador de palavras que conheço. Com duas dás um sermão. (Não servirias para Padre, Grande Avô. Olha, e ainda bem!)

 

Agora Grande Avô, tenho de ir tratar de cousas, como diria o Tio Lelo. Logo mais te darei notícias. Alguém tem de o fazer! Não lhes leves a mal, Grande Avô. Eles não acreditam muito nisto. Mas fizeste um bom trabalho. Só não lhes podias deixar a fé que não tens.

 

Grande Avô, um bem-haja, que sei que sabes ser de nós todos.

 

Beijinhos muitos e um chi forte,

 

Tua Rita

 

P.S: O Tio João ensinou-me esta palavra, Grande Avô. Até já a tinha ouvido, mas foi o Tio João que ma ensinou. 

 

 

12
Ago14

Estratos

 

Gabriel

 

Trazes as mãos calejadas pela rudeza do campo e uma aliança no dedo. Estás mais gordo. Mais careca. E mais velho.

 

Eras o mais rápido nas aulas de Educação Física, tinhas mau perder e acompanhavas-te do Chris. Acordavam cedo, na mesma aldeia, todas as manhãs. Iam e vinham na carreira. Quase sempre de noite.

 

Os olhos da cor do castanho escuro, com que olhavas tua mulher, não me reconheceram. Eles, que me mostraram que estavas ali, não me reconheceram. Neles me vi mais velha. Não sei se mais gorda. Talvez mais magra. Mais cabelo. Ou será menos? Mais velha.

 

Desde o dia em que te revi, Gabriel, tornei-me menos crédula nas palavras. Se eu estivesse na mesma, ter-me-ias visto, Gabriel. Ter-me-ias visto.

 

Rita

 

 

27
Mai14

Estratos

 

Histórias da memória

 

Ouvir histórias constrói histórias. Muda histórias.

 

Traz da memória dos outros memórias para a nossa. É das histórias da vossa memória que ganhei memórias dos garfos de ferro, da varanda casa da avó, dos rebuçados da mercearia da outra avó e das moedas de 25 tostões.

 

Ouvir histórias é viajar sem preguiça. Ser engenheiro, arquitecto e decorador. De naturezas e pessoas.

 

As matinées de domingo são melhores com as histórias do avô. As viagens de carro são melhores com as histórias do pai. As idas ao supermercado são melhores com a histórias da tia que é nossa, por ser avó também. E os pequenos-almoços enquanto o pão coze e a fruta se mistura são melhores com as histórias da mãe.

 

É das memórias da vossa história que conheço os alicerces da minha.

 

Rita

 

 

13
Mai14

Estratos

 

À janela do sol posto

 

De manhã começo pela rua. Meço a temperatura pelos vestires o nebulosidade pelos olhares. Depois, acordo as plantas e só no fim partilho o pequeno-almoço com os vizinhos. Pelo som, descubro pão quente na padaria e fruta fresca na mercearia que anuncia produtos nacionais, internacionais e económicos. É quase como os três bês do avô que serão, já o sei, os três bês da avó dos filhos que terei: bom, bonito e barato.

 

Ao entardecer tudo se mantém.

 

Ao anoitecer começo pela rua. Despeço-me do vizinho que fuma o último cigarro à sua varanda, sem para ele falar.Olho as plantas da minha e tomo a nota mental que se apagará de as regar na manhã seguinte. Sigo até à cozinha e vejo ao fundo o prédio arco-íris, sem saber bem em que rua é. Digo-lhe um adeus que gosto demorado, mas que raramente o é.

 

Para o fim, deixo a janela onde o sol se põe todos os dias, sem que em muitos me dê conta. Janela do sol posto. Janela das estrelas. Janela do dia. Janela da noite. Quando a fecho, mais um dia passou. Amanhã a vizinha recolhe os tapetes que têm ar de já estar secos. O senhor desce as escadas para fazer exercício e o miúdo leva o almoço para a escola que a mãe, a única ainda em movimento no prédio da frente, prepara.

 

Há janelas que mostram mundos. Há janelas que são mundos. 

 

Rita

 

 

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