Estratos

A Rapariga das Laranjas
Regressou sem que alguma vez tivesse sido meu. Trazia roupa nova, mas guardava a mesma voz. Os livros são um passado onde se pode voltar. Sem contingências de orçamento não têm elementos que passem de moda.
Voltei a ver o anorak amarelo da rapariga das laranjas. E também o casaco preto e o travesseiro de prata que usou na missa de Natal. Não sei se eram iguais aos que vi há uns 10 anos. Mas podiam ser os que enfeitavam a rapariga com que me cruzei ontem.
O livro que guardava a história não era o mesmo. A dona do livro não era a mesma. A vida não é a mesma.
A rapariga das laranjas continua a morar em Oslo. Voltei a vê-la no eléctrico, onde reencontrou o Jan Olav. Tinha a visto passar da minha cama azul. Reencontrei-a enquanto me sentava no sofá castanho.
Não a quis deixar ir embora. Gostava de voltar a vê-la da minha cama azul. Do tempo em que vivia entre a cama azul, os livros que a mãe trazia da biblioteca e o leite com chocolate que me preparava todas as manhãs.
E as letras voltaram a ser puzzle. Um novo puzzle. Um puzzle sem fim, pelas respostas que não chegarão. Pelas muitas perguntas que tenho por aprender.
Rita




