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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Abr15

Factor Humano, por Manuel Cunha (Pité)

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O meu Serrat

 

Juan Manuel Serrat vem fazer um espectáculo em Lisboa no próximo dia 4 de Junho. Para a maioria dos leitores deste blogue, Serrat é um catalão desconhecido. Não sabem sequer que embora tenha muitas obras em catalão, a maioria das suas canções é em castelhano (espanhol).

 

A minha vida teria sido diferente se não existisse Serrat. Comecei a ouvi-lo ainda antes do 25 de Abril e fui crescendo com ele. Disfrutei milhares de horas a escutá-lo, com a aparelhagem ligada ou desligada.

 

Para os que não conhecem a sua obra, uma aproximação poderá ser o nosso Sérgio Godinho. Espero que um dia alguém faça um trabalho profundo de comparação (e sonho que um dia serei eu capaz de o fazer…).

 

Serrat ensinou-me a gostar da poesia com a ajuda da música. Os seus álbuns iniciais com poemas de António Machado e de Miguel Hernandez, eram suficientes para ele se tornar incontornável na canção ibérica.

 

Cresci a pescar nos nossos rios com as suas músicas na minha cabeça, escapando-se-me às vezes pela boca. Cada caminho para a pesca, cada corrente do rio Mente, cada presa do rio Mousse têm um verso cantado por ele. Podia não pescar muito bem, mas ao ouvir em casa as suas canções, revia cada lançamento, cada paisagem, cada truta. Assim, ultrapassava o deserto que a época do defeso da pesca impunha aos outros pescadores.

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E depois assisti ao aparecimento regular de novas canções e de novos álbuns. Aprendi a disfrutar com requinte, mas mantendo o entusiasmo juvenil da infância. Atrevi-me a reconstruir alguns versos, a completar outros.

 

Não há tema da vida que ele não tenha abordado nas suas canções. Do amor de filho ao amor abandonado, da balada de outono à matrioska. Da miséria dos campos espanhóis à tragédia de Africa. Da viagem de metro à areia deserta da praia. Da festa da aldeia ao amor de adolescente. Talvez tenha sido decisiva a sua divulgação do verso mais famoso de António Machado:

 

“Caminante, no hay camino, se hace camino al andar,

Golpe a golpe, verso a verso…

…Y al volver la vista atras, se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar”…

 

Não sei se todos, em especial os menos antigos, conseguem entender este mundo de Serrat, do qual quis deixar aqui algumas pistas. Nem se conseguem perceber o meu entusiasmo de mais de quarenta anos.

 

O meu mundo é aqui, nas nossas paisagens, com as nossas gentes, mas está impregnado de Serrat, das suas músicas e das de outros, que aqui não fiz referência. Por isso quis deixar este registo assim, neste blogue, que é sobre nós e sobre a forma como nos vamos construindo.

Manuel Cunha (Pité)

 

 

19
Mar15

O Factor Humano

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Um mundo que está a acabar

 

À medida que a população da nossa região vai envelhecendo, a minha consulta vai-se povoando de gente com cada vez mais anos.

 

Ainda me lembro nos anos 90, do século passado, de eu não ter um único nonagenário na consulta. Agora tenho várias dezenas e cada vez mais gosto de os ter comigo.

 

Outro dia houve até um desabafo de uma senhora: “Estou muito triste Sr. doutor, o meu filho está com Alzheimer”. E era verdade.

 

A formação médica no meu tempo ensinou-me pouco a lidar com a delicadeza das questões de saúde dos muito idosos. Ao contrário do pensamento clássico de interpretar todos os dados clínicos, enquadrando-os numa só doença, a questão nos muito idosos é a de integrar todos as pequenas ou grandes alterações inerentes à idade, de forma a uma interpretação global do ser humano que estamos a tentar ajudar.

 

Mas não é de questões médicas, geralmente técnicas e maçadoras, que quero aqui falar. Gostava de salientar que é muito mais comum encontrar naturalidade perante a morte nos muito idosos do que nos outros. Dir-me-ão que é óbvio, mas eu tenho a sensação de que quando a minha geração chegar a essas idades, não vai ter a mesma naturalidade perante a morte. É que o seu convívio com esta vem de longa data. Quase sempre viram morrer irmãos, amigos ou filhos. Sempre conviveram com os ritmos naturais da vida. Dos homens, dos bichos, das plantas.

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Às vezes tenho pena de não ter mais tempo disponível na consulta para poder falar com eles. Ouvir as suas histórias, contadas quase sempre com mais vagar e fazê-los sentir o prazer que dá poder conhecê-las. É especialmente interessante ouvir muitos deles, referirem-se aos trabalhos agrícolas, ou relacionados com os animais, com carinho e quase como se houvesse uma comunhão entre todos eles. Podem falar com ternura de uma galinha que acabaram de matar. Que abismo com os ritmos tecnológicos de hoje. Que profundidade em comparação com tanta superficialidade. Que atenção ao pormenor, à mudança subtil, da árvore ao longo dos anos, ou no mesmo ano, ao longo das estações. E como me ajuda a equilibrar poder ouvi-los. E como eles gostam de ser observados, palpados, auscultados. Para eles é essa a visão que ainda têm de um médico. Aquele que ouve, observa, examina, aconselha e trata.

 

Eles não se espantam, como nos telejornais, em que sempre se fala do “inverno mais frio dos últimos cinco anos” ou da “maior chuvada do último mês”. Acham que é natural, no inverno, estar frio e chuva e no verão estar calor. E têm sempre naturalidade e um ditado, para quando o clima se confunde no calendário. É que já viveram tantas estações, que não é fácil espantarem-se.

 

A sua tragédia actual é a solidão e o empobrecimento. Esta crise veio interromper-lhes um longo processo de melhoria no seu nível de vida, que talvez já não esperassem sofrer. Aqui sim, podem ter ficado surpreendidos por esta quebra. Verem filhos e netos emigrar, ou no desemprego, ou em trabalhos mal remunerados. Quantas vezes sem correspondência com o seu nível de formação. Eles que tanto se esforçaram por terem um filho ou um neto “doutor”, tão confundidos ficam, por esse “doutor” não encontrar um trabalho digno, como eles tinham sonhado.

 

É sobre isso, que os oiço falar, alguns há quase vinte anos.

 

Infelizmente, a nossa sociedade perdeu essa capacidade de os ouvir, de os respeitar, de os acarinhar. E vamos pagar bem caro por esse desperdício.

Manuel Cunha (Pité)

 

 

18
Set14

Factor Humano, por Manuel Cunha (Pité)

 

Como já alguém disse de forma parecida: “Não é para me gabar, mas a cabana do meu compadre Zé Pires é um sítio maravilhoso”.

 

Já demasiada gente sabe onde é, mas por puro egoísmo, não vou precisar aqui a sua localização.

 

Posso garantir que lá vivi dos momentos mais felizes da minha vida. Talvez um dia vos faça aqui uma descrição da sua arquitectura, simples mas bem enquadrada; da sua exposição aos movimentos solares e lunares, ou de como lá se ouvem as águas do rio a correr.

 

Eu gosto muito, mas admito que possa haver outras cabanas, noutras paisagens, que se aproximem desta, do meu compadre Zé Pires.

 

O que tenho mais dúvidas é que exista outro local onde tanta gente tenha sido tão feliz em tão poucos metros quadrados.

 

Esta cabana será, seguramente um dia, classificada como património da Amizade.

 

Hoje queria aqui falar apenas de um grupo fundado na Pascoela de Abril de 1987 por quatro amigos, que ainda hoje vivem, são amigos e se encontram regularmente nesta cabana.

 

O grupo não começou na cabana, mas sim no rio que à beira dela passa. Com o passar dos anos, alargou-se e adoptou a cabana como a sua casa.

 

Falo desse grupo, porque acho que o seu nascimento e o seu desenvolvimento ao longo destes 27 anos, poderia ser objecto de um estudo sobre a amizade, sobre a dinâmica dos grupos humanos, de como eles crescem incorporando novos e diversos elementos, numa matriz inicial imutável de respeito pelas diferenças, de equilíbrio entre prazer e discussão, entre pesca e cartas, entre cozinhados e comezainas.

 

É espantoso que um grupo tão heterogéneo na idade, na profissão, na forma de pensar, se desenvolva e estruture ao longo de um período tão longo e que seja sempre tão grande o prazer com que, de diversos pontos do país, se converge para a cabana do meu compadre Zé Pires.

 

De uma forma pouco organizada, pontualmente conflituosa, mas sempre eficaz, distribuem-se tarefas, organizam-se refeições e resolvem-se as inevitáveis necessidades de limpeza que elas desencadeiam.

 

Embora a descrição detalhada das comidas e das bebidas, nos seus múltiplos componentes pudesse ser matéria para um tratado de gastronomia, esta não é a questão essencial.

 

Nem sequer a questão essencial passa por saber qual é o melhor pescador, sempre o mano velho, nem quem são os verdadeiros campeões das cartas, que todos sabemos são o Tora e o Fernando (do PC). Todos sabemos que o campeão dos contos, dos poemas e das minis é sempre o Zé Carlos, que a guitarra é com o Zé Pires e que quem manda é o Sbou, embora o presidente seja mesmo o Luís Filipe, actor principal das histórias que ficam para memória futura. Mas que sempre os “Maneis” serão o núcleo duro e irredutível que tudo iniciou.

 

A questão essencial é a da importância de ter amigos de sempre e para sempre, amigos no mundo real, que comem, bebem, riem, discutem, sabem ouvir, respeitar, mas também roncam, dão peidos e conseguem jogar às cartas há tantos anos sem nunca se zangarem. Tudo isto, sem normas escritas e sem estarmos certificados por nenhuma “ISO”.

 

É só saber para os que estão (e de alguns não falei aqui) e para os que cheguem de novo, que só há intolerância completa para a falta de respeito pelo outro, para a tentativa de pensarmos que somos mais do que os outros. Foi sentindo isto, que cada um de nós se foi incorporando e retorna com um prazer infinito aos muitos encontros que vamos continuar a fazer, mesmo quando o rol de remédios para as maleitas vai ganhando terreno a uma lista de garrafas cada vez mais comedida e com menos graduação.

Manuel Cunha (Pité)

 

21
Ago14

Factor Humano, por Manuel Cunha (Pité)

 

Factor Humano

 

Este título roubado a um romance de Graham Greene define bem os princípios humanistas que me guiam na minha vida e que me atrevo a dizer, nos deviam guiar a todos.

 

Curiosamente é esta uma das obras de Graham Greene que eu não li, apesar do seu título fortemente atraente.

 

Talvez para nós, que vivemos no interior, esta importância do factor humano seja mais fácil de reconhecer e como tal de implementar na nossa actividade.

 

Infelizmente, nos últimos vinte ou trinta anos, temos vindo a afastar-nos uns dos outros. O egoísmo foi cavando trincheiras aonde nos fomos isolando, socorrendo nos sempre das mais modernas tecnologias. Assim, chegamos à actualidade e percebemos que talvez George Orwell quisesse reescrever o seu “triunfo dos porcos”, adaptado aos tempos actuais e, com o devido respeito, aos porcos actuais.

 

Agora, em Agosto 2014 chego até vocês com a promessa de uma regularidade mensal, curiosamente comparada ao período fértil feminino e que gostava que representasse uma fecunda experiência, para mim como aprendiz de escritor e para vocês, leitores tão diversos que não são passíveis de uma classificação qualitativa.

 

Acabou a pesca à truta e começou um longo período de jejum que só será saciado a 1 de Março de 2015.

 

Na nossa zona continuamos a desperdiçar o enorme potencial de riqueza dos nossos rios e ribeiros. Falta aos nossos autarcas profundidade para o perceber. Infelizmente, não é esta a única falha dos nossos autarcas ao longo das últimas dezenas de anos. Na realidade, eles têm-se esquecido, com demasiada frequência, do tal factor humano que devia ser a sua e a nossa estrela polar. Mas não uma orientação distante e fria, antes uma fonte de energia que nos guiasse e fosse, ao mesmo tempo, o nosso motor de desenvolvimento. Não podemos é medir esse desenvolvimento por aqueles índices múltiplos que os nossos governantes e os nossos financeiros nos trouxeram para o abismo actual.

 

Fica assim feita a apresentação primordial deste factor humano.

 

Vejamos se ao longo do tempo não perco a tal estrela do norte.

 

Manuel Cunha (Pité)

 

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