5 - Chaves, era uma vez um comboio…

Memórias
Em boa verdade, apenas no início da década de oitenta, altura em que completei dezoito anos e fui continuar os meus estudos para Coimbra é que, conscientemente, me apercebi da existência de comboios regionais, rápidos, foguete, intercidades, de linha férrea larga, etc., tendo então inferido que o comboio liderado pela sua máquina a vapor, e que servia a minha cidade natal, era uma autêntica relíquia.
CP0185 – Locomotiva: CP E207, Data: 1973, Local: Pedras Salgadas, Portugal, Slide 35 mm
1 - A primeira, e única vez, em que tive o privilégio de nele viajar, e da qual me lembro perfeitamente, tinha apenas cinco anos. Foi um dos dias da minha existência em que mais madruguei. Embora não possa precisar a hora exata, estimo-a entre as 4 e as 5 horas da madrugada.
Acompanhando a minha mãe, com o entusiasmo e excitação de menino pequeno que ia fazer uma longa viagem, para conhecer novas terras e novas gentes, apanhei o comboio na belíssima estação de caminhos-de-ferro de Chaves, ainda noite cerrada, rumo a Coimbra e à sua universidade, onde iria assistir à cerimónia (vulgo, rasganço) da formatura do meu pai na faculdade de direito.
Daquela viagem, desde Chaves até Peso da Régua (primeiro local de transbordo do comboio, sendo o segundo no Porto), recordo o cheiro a carvão, o apito estridente e o fumo lançado pela locomotiva, bem como o característico barulho que fazia de cada vez que, em qualquer estação ou apeadeiro, parava e arrancava, nalguns troços a velocidade muito lenta, e a beleza das paisagens que ia vislumbrando à medida que o dia clareava.
Da Régua em diante, lembro-me apenas que os comboios melhoravam gradualmente em rapidez e conforto, mas já não havia apito, cheiro a carvão, fumo, nem os lamentos de pouca-terra... pouca-terra...
Face à “idade dos porquês” que atravessava, comecei a disparar perguntas, tendo-me a minha mãe explicado que o comboio que partia de Chaves funcionava a carvão e a automotora que saía da Régua, e o comboio do Porto, funcionavam a eletricidade. Questão após questão, e respetivas respostas, com uma certeza fiquei: o comboio de Chaves era diferente dos outros.
Apreendi mais tarde, quando cheguei à idade de ver filmes de índios e cowboys no cineteatro, que o nosso comboio, por muitos apelidado de Texas, era um verdadeiro cavalo-de-ferro.
CP0032 – Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35 mm
2 - No ano de 1984, convidei dois condiscípulos, um natural de Coimbra e outro de Paços de Ferreira, para virem passar comigo uns dias de verão a Chaves, cidade que não conheciam. Optaram pelo comboio, meio de transporte que usavam habitualmente para se deslocarem, sem nunca suspeitarem que da Régua até Chaves iriam circular num com máquina a vapor.
Quando os fui esperar ao apeadeiro da Fonte Nova, perto da casa onde na altura habitava, apesar de cobertos de gotículas de suor vinham a rir-se a bandeiras despregadas. Contaram-me que tinham, inocentemente, perguntado ao revisor onde ficava o bar do comboio, e que este, julgando que estavam a mangar com ele, lhes terá respondido em tom azedo: “Bar? Deem-se por felizes se o comboio não empanar até Chaves, que ontem estivemos parados duas horas na linha devido a uma avaria”.
Confessaram-me que apreciaram a beleza da paisagem, que se sentiram noutro mundo ao viajarem naquele comboio e que não estavam arrependidos da opção que tomaram mas, dado o desconforto e morosidade da viagem, o regresso iria ser feito de autocarro.
Ainda hoje, quando esporadicamente nos encontramos, aqueles amigos relembram com saudade a viagem no comboio até Chaves que, com toda a certeza, não deixarão de contar aos seus netos.
CP0071 – Locomotiva: CP E211, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35 mm
3 - Mas a lembrança que imediatamente me assalta quando se fala na extinta linha e comboio a vapor que serviram Chaves até 1990, que julgo ser a primeira recordação da qual tenho ainda uma ténue memória, e que pelo significado que tem para mim guardei deliberadamente para o fim, reporta-se ao momento em que, perto dos meus três anos de idade, conheci o meu pai.
Por imposição do regime fascista do Estado Novo, quase logo de seguida ao meu nascimento nesta cidade de Chaves, o meu pai, após ter aqui concluído o cumprimento do serviço militar, foi chamado, e obrigado, a partir para Moçambique, dizia-se que para defender as nossas colónias no ultramar.
Assim fui crescendo, aprendendo a caminhar e a falar, com a noção de que o meu pai estaria lá para um lugar chamado “tropa”.
Próximo dos meus três anos, recebi a notícia, dada pela minha mãe e pelos meus avós maternos, com quem vivia, que o meu pai ia, finalmente, chegar da tropa.
Chegou. Fomos todos esperá-lo às Pedras Salgadas.
Foi a primeira vez que vi o meu pai.
E o comboio.
Durante os vários anos da minha meninice, vá lá saber-se porquê, repetia a cada passo: “A tropa é má... o comboio é bom”.
Francisco Preto
In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014
Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura
Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http:outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)
Gentilmente cedidas para publicação neste post.





