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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

27
Jan19

O Barroso aqui tão perto - Montalegre e a Feira do Fumeiro

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Vamos lá até ao Barroso aqui tão perto, num dos dias em que todos os caminhos vão dar a Montalegre, desta vez para a Feira do Fumeiro, a 27ª edição. Assim sendo, hoje não há aldeias, pois também elas estão em Montalegre, e também não há itinerários recomendados, pois qualquer um serve desde que se chegue até à Vila de Montalegre e à feira do fumeiro.

 

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Embora o nosso destino seja a feira, há tempo ainda para umas recomendações, pois a feira hoje no seu 4º dia, abrirá as portas pelas 10h da manhã e só encerrará às 20h. Há, portanto, muito tempo para feirar e para muito mais. Assim não vale a pena irmos cegos pela feira e até à feira, quero eu dizer, que pelo caminho também podemos ir em maré de apreciação, se lhes apetecer, têm tempo para passar e até parar algumas aldeias que nos vão ficar pelo caminho. Digo passar pelas aldeias, pois se formos simplesmente pela estrada que dá acesso a Montalegre, e suponho que desta vez todos irão via São Caetano, a estrada passa ao lado das aldeias. Se as quiser visitar, terá mesmo de sair da estrada principal, depois é só passar e parar se assim o entenderem, sem ser necessário voltar para trás, pois todas elas têm entrada e saída para a estrada principal.

 

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Chegados a Montalegre há também algumas visitas obrigatórias, que tanto poderão ser feitas de manhã como de tarde. Claro que o castelo é uma dessas visitas obrigatórias e a caminho dele o Espaço Padre Fontes do Eco-Museu do Barroso. Castelo que na sua intimidade tem uma leitura, mas à distância tem outro encanto, nem melhor nem pior, simplesmente diferente. Um dos pontos de apreciação obrigatória é logo imediatamente antes de entrarmos em Montalegre, após passarmos Meixedo. Vale a pena parar para uma foto, que esteja sol ou chuva, com neve ou sem ela, pois, a não ser que esteja nevoeiro cerrado, dá sempre uma boa foto. Tal como desde o miradouro da Corujeira, se não souber onde é, pergunte, pois também é um dos locais de visita obrigatória e desde onde se podem lançar olhares para muito mais além de Montalegre.

 

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Com isto tudo já devemos estar na hora do almoço, onde neste dia é obrigatório comer o cozido à barrosã, que até poderá ser parecido ao cozido à portuguesa, mas que fica a léguas de distância. E perguntarão em que é o cozido à barrosã é diferente do cozido à portuguesa? - Pois em nada, mas em tudo. Começando pela qualidade do fumeiro, das batatas e das couves, e porque não, da água que vai cozer tudo. É que há fumeiro e fumeiro, batatas e batatas, e couve e couves. E no Barroso não se brinca com os sabores, têm de ser genuínos, com batata barrosã, couve barrosã e fumeiro barrosão. E nisto do fumeiro, quem é apreciador, sabe que de terra para terra (local para local ou região para região) o fumeiro é diferente, é assim um bocado como o vinho, é todo bom, mas diferente. Por falar em vinho, o Barroso não produz vinho, mas nos restaurantes e nas casas dos barrosões, em geral, bebe-se do melhor vinho que vai à mesa. Eles sabem sempre onde há para se abastecerem.

 

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Mas mesmo sendo parecido, o fumeiro é sempre diferente e de terra para terra os gostos também diferem. Claro que os produtos alimentares de cada região vão fazendo parte da nossa dieta alimentar desde que nascemos, pois começámo-los logo a comer, ou melhor, a mamá-los da teta das nossas mães. Eles irão ser responsáveis pelos nossos sabores e gostos.

 

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Pessoalmente, na minha dieta, sempre esteve o fumeiro de Chaves e o do Barroso, ambos de excelência, mas com pormenores que faziam toda a diferença e que só mais tarde comecei a entender. Um deles, são por exemplo as filhoses de sangue, que no Barroso fazem a delícia dos pequenos almoços e vão enganando o estomago durante todo o dia, e que em Chaves não se fazem e, a grande maioria do pessoal, nem sequer sabem que existem ou como são. Sorte a minha, que com mãe de Montalegre, pai de Vila Pouca e descobertos os sabores de Chaves, lá em casa fazia-se uma mistura de fumeiro com os sabores que mais gostávamos, onde as filhoses de sangue nunca faltavam. Quanto à batata e a couve, nestas três regiões aqui faladas (Barroso, Chaves e Vila Pouca) são de qualidade, e são estes produtos, em geral, que também fazem a diferença à mesa.

 

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Há ainda outras iguarias que fazem a diferença nestas coisas do fumeiro da região, algumas delas ligadas e nascidas nas necessidades das barriguinhas de tempos felizmente passados, em que era preciso inventar um pouco para levar comida com sabor à mesa, com o pouco que havia para comer. Hoje, algumas delas,  são consideradas iguarias, como por exemplo os milhos, mas outros há, que ainda hoje fazem parte da dieta, sabores e gostos de alguns, que ainda não chegaram às mesas dos restaurantes…  

 

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E ficamos por aqui, já com água na boca. Fica também o destaque do programa da feira para hoje, pois a qualquer hora, estando cá na terrinha ou na proximidade do Barroso, ainda lá podem dar um pulo.

 

 

 

 

16
Jan18

Chaves, cidade, concelho e região - Uma foto por dia com coisas do frio

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Eu sei que está frio, que muita gente não gosta, que andam por cá todos encolhidinhos e até há quem proteste, aliás eu sou um deles, não protesto com o frio que até o prefiro aos dias de inferno do verão, é mais um protesto de reivindicação, o de que deveríamos ter um subsídio (ou subsílio) do frio, e era mais que justo (digo era porque já sei que não o vamos avezar), pois além de estarmos para aqui longe de tudo (saúde, educação superior, cultura, etc.) e de contribuirmos como os restantes portugueses com os nossos impostos, ainda temos de mamar com 9 meses de inverno, frio, gelado. Antigamente ainda davam qualquer coisinha para o combustível de aquecimento, agora, nem isso. Havíeis de ver como era se Lisboa mamasse com o nosso frio… mas hoje não quero falar disto, mas antes das coisas boas que o frio também nos dá, ou ajuda a fazer.

 

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Com a variedade de coisas que vos deixo nas imagens de hoje dão para esquecer e aquecer durante umas horas ou uns dias, depende do tempo que durarem. E o que se pode fazer com elas? Ui! Uma variedade de iguarias, não sei qual a melhor. Tudo junto, peça a peça, cozidas, assadas, cruas, às rodelas, aos pedaços, misturadas, etc. Desde a simples rodela crua de uma linguiça ou salpicão ou mesmo em omeleta com ovos caseiros das galinhas poedeiras, pés, orelhas e pernil cortadinhos em saladas ou entradas, bem isto e muito mais, que  marcha sempre, a qualquer hora e sem ser necessário irmos à mesa, que essa, fica reservada para iguarias que demoram muito mais a comer, pois comem-se com calma e sem medo de acabar, pois estas coisas é sempre à fartazana.

 

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Pois vamos então à coisas que vão à mesa, começando talvez pelas mais simples como uns ossinhos da assuã, umas couvinhas, uma batatinha, um pouco de azeite e mais nada, coisa simples, para desenjoar. Ou então podemos ir para uns milhos, nas duas versões, a versão pobre, com milhos, couve e umas coisinhas das que estamos a falar lá pelo meio, os mais gostosos, ou então os mais ricos, com os milhos e um bocadinho de tudo das coisas que estamos a falar. Para mim tanto faz… desde que o vinho seja do bô, venham eles quentinhos para a mesa. Depois há o tradicional cozido ou variantes como a palhada, onde leva de tudo um pouco, que é sempre muito: linguiça, salpicão, pé, orelha e orelheira, uns ossinhos da assuã, pernil, presunto, barriga, sangueira, chouriços de sangue, de cabaça, etc, etc, etc, pois isto varia um pouquinho de casa para casa e de terra para terra, que eu nunca sei bem como é, pois como cresci com cozidos feitos com influências de Chaves, Montalegre e Vila Pouca de Aguiar  tudo no mesmo pote, nunca cheguei a perceber à moda de quem era, mas era à moda de cá, da região… Claro que isto são só as carnes e enchidos, pois há a acrescentar as couves, grelos também marcham, uma batatinha cá da terra que das outras nem os recos gostam delas, azeite também cá da região, incluindo o vinho do bô, aliás, tudo isto tem de ser cá da terra ou da região, pois o tal frio que nos tolhe, tempera estas coisas todas q.b. para nos arregalar os olhos à mesa.

 

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Claro que isto não é manjar para todos os dias, duas a três vezes por semana está bem, nos outros dias podem ser coisas mais simples, como uma alheira com uns grelinhos, uma batatinha, azeite, vinho do bô e chega. Outras vezes pode ser apenas um petisco com linguiça e salpicão assado na brasa, uns grelinhos, se houver um butelo também pode marchar, uma batatinha, azeite e vinho do bô. Ou então um pernilzinho fumado assado no forno, com umas batatinhas ao lado, uns grelinhos e vinho do bô. Aqui pode-se dispensar o azeite, mesmo os grelos marcham bem sem ele e depois o prato tem de estar equilibrado, daí a importância das verduras e do vinho do bô que são para quando estas coisas entrarem todas em reboliço no estomago, o vinho do bô e as verduras estão lá ao lado e cortam as gorduras e outras coisas que fazem mal. Tudo isto só com as coisas das fotografias, pois o resto do requinho, ui, dá para milhentos pratos variados para todas as refeições, como por exemplo um rojões ao pequeno almoço com café e leite ou então umas filhoses de sangue… já sei que estas últimas na maioria não as conhece, só os barrosões, mas era a minha vantagem de ter uma cozinha mista de Chaves, Vila Pouca e Montalegre, pois essas filhoses de sangue eram receita de Montalegre, uma delícia que já há muito não avezo… Acho que vou ficar por aqui e ainda bem que o meu médico não acompanha o blog!

 

Até amanhã!

 

 

 

18
Jan17

Crónicas Estrambólicas - Champanhe e Rojões

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Champanhe e Rojões

 


Já ouviu dizer que os rojões do soventre só acompanham bem um bom champanhe? Não? Eu também não mas apetece-me pensar que sim, que seria um hábito que ajudaria a dar estatuto a uma iguaria que é incrivelmente boa.

 

Porque não começar com a tradição?

 

Vêm-me estas ideias à cabeça porque estamos na altura das feiras dos fumeiros. Sempre achei que essas feiras deveriam tentar atrair clientela da alta classe, endinheirada. Uma feira dirigida só para o povo, que aparece na feira de boina e a tocar concertina, parece-me uma feira com pouca ambição. Claro que o povo é essencial para se fazerem as feiras, mas nos dias que correm, com as modas da gastronomia gourmet, dos wine bars e dos tapas bars, frequentados pelas classes média e alta das grandes cidades, é uma asneira não tentar atrair esse tipo de clientes com muito poder de compra e influência nas modas. Uma apresentação mais cuidada, com boa música (uma boa orquestra ou um bom grupo de música tradicional), uma zona VIP, ou outras coisas no género, iriam aumentar o interesse pelas feiras dos fumeiros e por outro tipo de freguesia. Também me parece que os anúncios publicitários deveriam ser mais variados, até porque a imagem do aldeão e do porco está sempre a ser repetida e é redutora.

 

Sugiro exemplos de anúncios publicitários que julgo poderem vir a ajudar bastante o afamar dos fumeiros da nossa região.

 

1- [A ser filmado no Palace de Vidago, por exemplo] Entra o chefe Rui Paula (o do Masterchef) a alombar com um cesto enorme de rachas de carvalho para a lareira. Depois vê-se o chefe a mexer os rojões que rojem dentro dum pote ao lume duma lareira imponente. À mesa, um cliente, um senhor muito bem vestido, com classe (Pode ser o Maestro Vitorino de Almeida, por exemplo) recebe os rojões, dá uma trinca, apanha um copo e diz “Estes fabulosos rojões do soventre, de Barroso, só mesmo com um esplêndido Moët et Chandon!”.

 

2 - [Tentar usar o truque simples e eficaz da Ferrero Rocher] Aparece uma senhora muito chique, dentro dum rolls royce, a dizer ao condutor "Ambrósio, apetecia-me tomar algo... Salgado!". O condutor responde "Tomei a liberdade de pensar nisso, senhora" e carrega num botão que faz abrir uma prateleira, no banco traseiro do rolls, onde aparece uma alheira grelhada, ainda a fumegar, em cima duma fatia de pão centeio (Vocês não sabiam que os rolls já têm grelhas que cozinham alheiras ao toque dum botão?). A senhora exclama “Que maravilhosa alheira de Boticas! Obrigado, Ambrósio!”, ao que o Ambrósio replica “Senhora, uma sopinha de feijão no pote para assentar? Também se arranja!" e pisca o olho malandro aos espectadores.

 

3 - [Filmado em NY] Um personagem ao estilo dos grandes chefes de negócios da bolsa de NY (na onda do chefe mau do filme Wall Street), com um daqueles fatos de 10 mil euros, aspira fortemente 4 ou 5 linhas de coca sobre uma mesa, beija uma loiraça em topless e dá um berro ao criado "Traz-me o meu antepasto e uma garrafa de Château Lafite de 59!". Aparece o criado com a garrafa e uma pratada de salpicão, presunto e pão centeio. O chefão dá umas trincas e diz qualquer coisa do estilo "I love the antipasto from Barroso, the best around the world! Greed is good, get’s you the best grease!".


Já se sabe que os lesvoetas ao verem isto mandavam-se por aí acima como flechas. Com um bocado de jeito e paciência ainda transformamos os rojões no caviar do Séc. XXI.

 

Luís de Boticas

16
Out09

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

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Texto de Gil Santos

 

A RAÇÃO NÃO É PARA QUEM SE TALHA…

mas para quem na come!...

 

Diz o povo que dos “Santos ao Natal é Inverno natural” e é bem verdade! A bem dezer eu não sei se ainda é ou se já era! É que hoje está tudo tão mudado que até os adágios começam a mentir!... Mas, seja lá como for, há muitos anos… não tantos que encontremos os animais a falar, os Invernos no Planalto do Brunheiro davam pelos peitos a uma mula! O mesmo é dizer que eram duros como o granito porfiróide do Alto da Cunha. Começava a gear ali por meados de Outubro e até Maio eram dias infindáveis de carambelo. Não passava um Inverno sem meia dúzia de fortes nevões. Nessas ocasiões o que valia ao povo e ao gado era o que se guardava nas adegas e nos palheiros. Os bichos comiam o feno ripado, quando o havia, o povo as baijes de palheiro regadas com um fiozito de azeite, para quem o tinha e acompanhadas de um cibo de carne da pá, rijada, ou uma malga de caldo engodado com pingue e viva o velho! E quem avezasse uma ceva para matar pelo Ano Novo era rico! Devidamente poupado o reco e os seus derivados haviam de dar até ao próximo Natal. Para curar as carnes os Invernos queriam-se frios e secos para que ficassem bem curtidas. Da ceva faziam os planálticos uma espécie de multiplicação dos pães: milagres autênticos que reproduziam, por mais de mil, as potencialidades gastronómicas do animal.

 

Para a engorda os porcos tinham de ser capados. O macho para não ficar borrão e a fêmea para não se levantar à cria. O borrão destinava-se à cobrição e normalmente por cada aldeia havia apenas um para cobrir todas as recas que carecessem de ficar ao ganho. Ao ritual da capagem assisti muitas vezes e impressionava-me sempre mais que a própria matança. O capador, especialista desta operação, andava pelas aldeias com um assobio próprio anunciando a sua chegada. Quem precisasse de capar animais contratava-o e o serviço era rápido e eficiente. O primeiro acto da operação consistia em dispor a ferramenta cirúrgica sobre uma toalha de linho estendida num qualquer carro de bois que estivesse estacionado no pátio. De seguida procedia à desinfecção do material com um líquido de um rosa choc que tingia tudo. Se o animal fosse macho o cirurgião fazia um rasgo em cada uma das bolsas dos testículos e retirava-os agilmente. Desinfectava a ferida com o mesmo líquido, dava quatro pontos na sutura e estava como novo. No final e já depois de tudo devidamente arrumado era oferecido ao cirurgião a iguaria frita e um copo de tinto. Em sendo reca, deitava-a de lado no chão, fazia uma pequena incisão no ventre e metendo dois dedos nas entranhas retirava aquilo que parecia ser uma pequena tripa. Desinfectava, cozia a ferida e o trabalho estava pronto. Os requinhos durante dois dias andavam abatidos mas logo arrebitavam para cevas.

Os animais, capados, no Verão anterior à matança alimentava-se como príncipes para que botassem devido corpo. Batata, farelo, e castanha eram as principais iguarias para a engorda. Comiam quanto o buxo levasse. O importante era que por Dezembro já quase não se levantassem por tão gordos estarem. Depois, antes do Natal ou perto do Ano Novo, conforme o tempo desse, o animal ia à faca. Era um ritual interessante actualmente com tendência a ser engolido pela fatalidade da globalização e pelas exigências estúpidas de uma instituição que dá pela sigla de ASAE. Marcava-se o dia com o matador, convidavam-se alguns vizinhos para o botar ao banco e acontecia mais ou menos assim:

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Nos pátios das casas ou noutros lugares que se achassem azados, punha-se um banco corrido, tosco, de quatro patas canejas para que tivesse mais estabilidade. O matador dava os últimos retoques no facalhão de lâmina dupla com uma pedra de afiar. Os homens arregaçavam as mangas e à sua ordem abriam a porta da loge onde estava a infeliz vitima. O requinho parece que até adivinhava o desenlace pois quando a porta se abria começava numa agitação e numa gritaria como se dum humano se tratasse. Botava-se a ceva para o pátio e quatro homens dos mais fortes cravavam-lhes as unhas nas orelhas no rabo e nas patas e estendiam-no de cangalhas sobre o banco da morte. Passavam-lhe uma corda pela queixada e prendiam-no ao banco. Bem seguro grunhia quanto podia, mas nem mesmo assim comovia os seus carrascos! Quando lhe aprouvesse o matador metia a faca na garganta do infeliz e numa estocada de mestre fazia-lha chegar a faca ao coração. A morte era rápida se o matador fosse experimentado, caso contrário o animal tinha muitos minutos de sofrimento até que a estocada certa o ferisse de morte.

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O sangue jorrava em golfadas pelo boeiro que a faca abriu e com a orientação desta caia num alguidar de barro aparado quase sempre por uma mulher, que após a colheita passava minutos infindos a batê-lo com uma cebola descascada para que não tralhásse. Depois de bem morto retirava-se do banco para uma cama de colmo limpo preparada sobre o estrume do pátio. Era a hora da chamusca. Com fachucos de palha a arder dois dos mais experimentados vizinhos queimavam a pelagem do animal sem deixar que o couro se tisnasse muito. A seguir era a hora de o lavar. Três ou quatro homens de pedras na mão fazendo de esfregão raspavam quanto podiam para por o defunto limpinho. Era a vez dos mais miúdos se tornarem úteis pois cabia-lhe bota a água sobre as mãos dos lavadores. Não era um trabalho fácil porque aqueles exigiam que o fio de água fosse constante, não muito caudaloso e caísse no sítio certo. O campeão haveria de ganhar o rojão das palhas! A esta fase punha-se termo com o ritual d a confecção do tal rojão das palhas. Um dos homens torcia um punhado de palha de colmo e introduzia-o no cu do reco para lhe limpar a parte terminal do intestino grosso que ficara sujo nas ânsias da morte. A este fachuco chamavam então o rojão das palhas e era oferecido a quem tivesse demonstrado melhor desempenho.

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Depois punha-se de novo o reco, já limpinho, em cima do banco onde morreu, mas agora de barriga para cima. Era a fase da abertura. O matador afiava agora as facas da especialidade que cortavam como lâminas e desenhava o corte com a ponta da uma delas através de um rasgo superficial. Então passava a retirar a couracha que era a parte externa da pele da barriga que havia de servir para fazer as alheiras. Depois retirava a gordura do soventre e o redanho para os rojões que eram entregues à mulheres para irem para os potes  ferver.

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Depois de horas de lume com uma escumadeira tiravam-se os rojões e com a gordura fervente enchiam-se potas de barro de Izei com  a gordura líquida, a que mais tarde tralhada se haveria de chamar pingue ou adubo e serviria, ao longo do ano, para temperar o caldo. Depois disto, passava-se uma corda pelo osso que une os ilíacos e à força de braços pendurava-se o morto numa trave da adega de focinho para baixo. Era a fase de retirar as entranhas. Com a ponta da faca aguçadinha fazia o matador um corte longitudinal e a tripalhada caia sobre um lençol branco que duas mulheres seguravam e a que se chamava panal. Dali as tripas iam para lavar. Era um trabalho árduo que cabia igualmente às mulheres. Árduo por várias razões. Primeiro porque era preciso limpar a parte mais desprezível do animal, segundo porque a água estava muito fria e terceiro porque, por vezes, era preciso calcorrear grandes distâncias à procura de água corrente que no planalto é rara. Depois de limpo das vísceras a carcaça haveria de estar três a quatro dias à espera da desfeita. No final deste trabalho o pessoal que participou era convidado para almoçar e do repasto faria parte o verde – sangue cozido - e rojões, tudo regado com um bom maduro tinto de Cova do Ladrão. De tarde os homens normalmente não faziam nada por culpa do tintol!

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Passados dias o matador era de novo chamado, agora para a desfeita. Consistia em separar a carne do porco por categorias para posterior tratamento. Descia-se o porco, agora hirto e rosado, da trave onde esteve pendurado para o colocar, de barriga para cima, na adega, numa cama de colmo centeio. Começava então por lhe cortar as patas e retirar a cabeça da qual retirava a focinheira e a orelheira. Depois colocava-o de costas e com um fio desenhava dois traços paralelos e longitudinais do lombo ao rabo marcando uma faixa a cortar a que se dava o nome de enguião. Seguidamente retirava o lombo e os lombelos assim como as costelas e a espinha. Os presuntos agarrados ainda às pás iam para a salgadeira onde, envoltos em sal, repousariam cerca de um mês. Passado esse tempo eram cortados os presuntos e os cimos das pás e eram colocados ao fumo para acabar uma cura de cerca de outro mês. Finda esta curtição colocam-se na adega para consumo.

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Cabeça, enguião costelas e espinha destinam-se ao fumeiro, A carne magra e alguma entremeada ia para a sorça, um caldo de vinho e alhos, e que dava origem aos salpicões e às linguiças. O resto era cozido e os ossos da soã descarnados para os chouriços e as alheiras. Um trabalho pesado que cabia às mulheres e que elas orgulhavam a casa quando exibiam, vaidosas, dúzias de lareiros com o fumeiro alinhado sobre a lareira.

 

Na maior parte das casas a matança do porco e os produtos daí resultantes destinavam-se ao consumo próprio durante o ano. E feliz de quem matava pelo menos uma ceva!... As casas mais fortes chegavam a matar meia dúzia delas. E havia até quem matasse para vender os presuntos e o fumeiro. Afinal a parte mais nobre do animal, resultando, muitas vezes, no único rendimento da casa.

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Ora a casa do Ti Zé Paranhos era uma destas. A Paranhas quanta chouriça pudesse fazer quanta vendia na feira de Chaves. Nos primeiros meses do ano não falhava numa feira. Madrugava, juntava-se com as parceiras de outros lugares e Brunheiro abaixo lá iam cada uma com sua jiga vender o que a terra e o produto do seu trabalho dava. Umas levavam fumeiro, outras níscaros, castanhas, coelhos, pitas, perus e sei lá o que mais. E raramente regressavam carregadas que não fosse com o produto das vendas. As coisas do Brunheiro eram bem tidas pelos flavienses, ávidos da qualidade dos produtos genuínos da terra. Compravam quase tudo. E Que mais houvesse!

 

Em Fevereiro num belo dia, como soi dizer-se, pois de belo pouco tinha, descia, noite ainda, a serra em direcção à praça do Arrabalde um rancho de mulheres carregadas daqueles belos produtos. A Paranhas levava uma giga à cabeça com linguiças e uma seira no braço com salpicões. Não chovia mas a manhã demorava a despontar por mor de um céu plúmbeo que fazia adivinhar por’i um forte nevão. Mas por graça do Senhor na ida nem nevou nem choveu. Atravessaram a Ponte de Trajano, quando os sinos da Madalena badalavam as sete horas. Chegadas ao Arrabalde pousaram sobre o lajedo do mercado expondo a mercadoria. Lá foram vendendo mas nada que se parecesse ao desempenho de outros dias. As dos coelhos e das pitas ainda se safaram mas no final do dia à Paranhas ainda restava metade daquilo que levara para venda. A tarde estava a ficar feia e as léguas que tinha de percorrer até casa ainda consumiam umas boas três horas, era tempo de dar de frosques! Arrumaram e quando se preparavam para a partida começou a cair uma folecra que fazia adivinhar o pior. Como de facto! Ainda mal tinham chegado ao Raio X e já nevava a bom nevar. Subir a serra naquelas condições ia ser tarefa muito difícil se bem que ainda havia umas quatro horas com de dia e isso sossegava-as.

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Ao Chegarem a Lagarelhos e com medo do isolamento das voltas das Cabeceiras, onde era hábito o Pita fazer das dele, deu-lhes o diabo para deixarem a estrada de Carrazedo e subirem a Nogueira da Montanha por Maços, para depois chegarem mais facilmente aos seus lugares. Contudo, às vezes o diabo tece-as! A neve já mal deixava divisar os caminhos e entre calçada e carreiro acabaram por se perder e não saberem aonde estavam. Não se via viv’alma por aqueles ermos a quem se pudesse pedir uma informação. O medo da noite escura começava a instalar-se entre aquelas infelizes criaturas, eis senão quando ouviram um tropel do galope de um cavalo, abafado pela neve do caminho. Era certamente a salvação, ou seria Belzebu em forma de alazão para as atazanar ainda mais?...

 

Um homem a cavalo, por sinal bastante gerigoto e apresentando uma montada bem arreada, estancou o fogoso perto delas perguntando:

 

- Boa tarde senhoras, antão vocemecês que fazem a estas horas e por estes caminhos da fim do mundo?

 

- Oh mou senhor estemos perdidas! Para fugir às voltas das Cabeceiras, com o medo do Pita, metemos por aqui mas a neve toldou os caminhos e não sabemos ir para a Amoinha Velha.

 

- Antão e d’onde bêm?

 

- De Chaves do mercado onde fomos vender uma coisitas.

 

- Antão e venderam tudo o que levavam?

 

- Não – respondeu a Paranhas – ou a modos qu’inda levo aqui meia jiga de linguiças.

 

- Pois atão vai pesada coitada. Deixe cá ver a jiga que eu la levo à garupa. Venham atrás de mim que les inxino o caminho.

 

E lá foram as vendedeiras enregeladas atrás daquela esperança desconhecida.

 

Chegadas a uma encruzilhada, o cavaleiro parou e indicou o caminho da direita como sendo aquele que deveriam seguir. Puxou as rédea esquerda do freio do alazão para a esquerda, espetou as esporas na barriga do bicho e galopando desapareceu pelo caminho da esquerda para nunca mais ser visto.

 

- O alma do diabo fodeu-me as chouriças. Filho de uma puta, havia de o levar o diabo.  Em nas comendo que tenha uma esfoura que o leve o catano!

 

- Do mal o menos Paranhas, ainda nos deixou os trocos da venda, vamos indo!... – disse resignada a Aida Pataloa.

 

- Bem falaides mas quem se fodeu fui eu… rais te parta, alma do diabo!...

 

Passado uns meses souberam que quem as tinha roubado tinha sido o malvado do Pita. Deram graças a Deus por não ter sido pior. À fama que tem por aquelas serranias podia ter ido o dinheiro, a roupa e sabe-se lá que mais!... A sorte é que a neve deve ter refreado a cleptomania do gatuno, que à laia do Zé do Telhado trazia o Planalto sempre em sobressalto.

 

Que se fonham as chouriças!... Arre!

 

Gil Santos

 

 

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