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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

26
Mar20

Flavienses por outras terras

HERCULANO POMBO

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Herculano Pombo

 

Nesta crónica do espaço “Flavienses por outras terras” vamos até Sintra, nos arredores de Lisboa.

 

É lá que vamos encontrar o Herculano Pombo, um natural de Torres Novas que adotou Chaves como a sua cidade.

 

Cabeçalho - Herculano Pombo - 1024 x 380.jpg

 

Nos tempos de estudante, em Chaves, que escolas frequentou?

Frequentei o Liceu Fernão de Magalhães e a Escola do Magistério Primário.

 

Em que locais já viveu ou trabalhou?

Vivi em Torres Novas até aos dez anos e depois fui estudar para Santarém até aos quinze.

 

Cheguei a Chaves, a nova residência da família, no início da Primavera de 1969, viajando no “Texas” e deslumbrado pela primeira nevada da minha vida, mas continuei a estudar em Santarém, de onde só regressava nas férias.

 

Em 1970 mudei para o Liceu Fernão de Magalhães, onde concluí o antigo sétimo ano, em 1972.

 

Viajei depois para a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, um curso que não concluí.

 

Em 1975 ingressei no Magistério Primário de Chaves. Mais tarde, fiz a licenciatura no ISCE, em Lisboa, e o Mestrado e Doutoramento em Didática, na Universidade de Sevilha.

 

Fui deputado na Assembleia da República, entre 1987 e 1991, regressando à casa de Chaves aos fins de semana. Depois, fui vereador e Vice-Presidente da Câmara de Sintra, de 1994 a 2001, vila onde passei a viver desde então.

 

Diga-nos duas recordações dos tempos passados em Chaves:

Os banhos na Galinheira e no Açude, os namoros no Tabulado e no Jardim Público, as tertúlias peripatéticas no Largo das Freiras.

 

Proponha duas sugestões para um turista de visita a Chaves:

Os verdadeiros valores identitários de Chaves estão ainda por revelar, resgatar ou afirmar, como as ligações de Camões à terra das suas origens, ou a origem e evolução do nome da cidade e as distintas culturas que a foram moldando, o seu património arqueológico diverso, onde há-de avultar futuramente o balneário romano que já lhe deveria justificar a importância universal; as autênticas e diferenciadoras valias gastronómicas, como o caldo de chicharros ou os cabaçotes com carne, que estão ofuscados pelos clichés do presunto que já não há - em quantos povos madrugam ainda as mulheres para cozerem o pote das viandas com que cebar a preceito os recos, com vossa licença?; ou os banalizados pastéis de carne, embora os da Maria sejam ainda capazes de avivar a memória dos originais; ou as deprimentes e vulgarizadas feiras de fumeiro, onde a desvergonha chega a exibir sacrilégios, como a alheira de bacalhau, a linguiça vegan e outras desrespeitosas modernices...

 

Estando longe de Chaves, do que é que sente mais saudades?

Muitas saudades, mas vou-as matando... Dos amigos, das geadas e carambinas, das águas limpas dos rios e das trutas, das únicas batatas que consigo comer com gosto...

 

Com que frequência regressa a Chaves?

Cinco a seis vezes por ano. Nos Santos, para lembrar os que morreram e para abraçar os que, como eu, ainda fazem vida por outras terras e sempre cá voltam para darem de beber às raízes, com uma indisfarçável motivação relacional; na primavera, para tentar caçar umas trutas; nas férias de cada Agosto, como todos os que migrámos; ou quando me convidam para eventos de cultura local, e, mais recentemente, para voltar a dar aulas no Centro Internacional de Ensino e Investigação Fernão de Magalhães,... mas sempre, sempre, a alimentar a ilusão do regresso definitivo.

 

O que gostaria de encontrar de diferente na cidade?

Chaves tem um potencial de desenvolvimento único, com recursos naturais diferenciadores, com uma localização estratégica, servida por uma rede viária suficiente e, sendo que já foi a mais movimentada e desenvolvida cidade de Trás os Montes, dela se espera que volte a afirmar as suas mais-valias para tornar a ser “bom lugar de viver”. Como sempre, vai depender da visão e arrojo das pessoas que têm responsabilidades de decisão.

 

Gostaria de voltar para Chaves para viver?

Não conheço Flaviense, ainda que adotivo, que não acalente esse sonho!

 

Mapa - 1024 x 510 (16).png

 

O espaço “Flavienses por outras terras” é feito por todos aqueles que um dia deixaram a sua cidade para prosseguir vida noutras terras, mas que não esqueceram as suas raízes.

 

Se está interessado em apresentar o seu testemunho ou contar a sua história envie um e-mail para flavienses@outlook.pt e será contactado.

 

Rostos até Herculano Pombo.jpg

 

 

21
Dez13

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

Palavras do rio invisível

 

Por entre as margens recebemos da fonte e damos esta água que nos criou

E por nos criar assim nos separou…

 

Aqui, outrora, pé ante pé, encurtaram-se os lados,

Saltitando entre as pedras duras adormecidas sobre as águas

Além, depois, uniram-se as margens e o rio desapareceu…

 

Por entre as margens recebemos da fonte e damos esta água que nos criou

E por nos criar assim nos separou…

 

Agora, aqui, sentado, vejo o rio e o tempo passar

Vejo da fonte as memórias e o sonho da foz

Onde a água nasce e depois se perde na imensidão

E pelo meio nos criou e por nos criar assim nos separou

 

Depois, trouxe comigo esta memória e o sonho

E também um pedaço do rio neste pedaço de papel

Tornando sempre visível a quem um dia

Um dia do rio se separou…

 

Paulo Chaves

 

 

 

Ulmus procera, in memoriam

 

 

Já foi mais acolhedora de gentes, esta praça – também as outras, direis vós, pois sim, vos asseguro eu, que as recordo a todas sombreadas de frescura e alegradas de passaredo, mas é nesta que fixo agora a teia dos pensamentos… – nem todos podeis lembrar-vos, pela idade, já se vê, de quando o velho negrilho punha una altiva nota de nobreza e eternidade em frente do Hospital, onde sarandeavam atarefadas batas brancas, que tanto botavam ao mundo a muita canalha que as mulheres então pariam como fechavam os olhos aos que a vida resolvera substituir neste vale de lágrimas e trabalhos. Tinha até uma cercadura em ferro forjado, aquela velha árvore, como é costume fazer de roda dos monumentos, para que se soubesse que a sua sombra, grande como só a das árvores grandes, costumava resgatar dos séculos as lembranças, que depois sussurrava aos ouvidos atentos dos muitos passantes que nela se acolhiam. Porém, o tempo, que é coisa que não existe, mas que nós persistimos em medir e adorar como deus inexorável e impiedoso, resolveu pôr fim à vida longa daquele ulmeiro que já não sabia a idade. E vieram os machados e as picaretas, ao abrigo de um despacho autárquico, fórmula menos digna de sentenciar à morte quem apenas cometia o crime de estorvar o devaneio urbanístico de um decisor mais afeiçoado à aridez estéril das pedras picadas. Sabemos todos que, quem é grande em vida, também costuma mostrar grandeza na morte, mesmo a que é feita de cruel impiedade – assim que as suas raízes começaram a ser desentranhadas da terra que lhe dera vida toda a vida, jorraram delas moedas às centenas, cunhadas com as efígies desgastadas dos romanos cruéis que as tinham feito extrair das escuras minas de Jales ou das Freitas, ensopadas em suor lamentoso de escravos, para que depois fossem acumuladas avaramente durante milénios e acabassem a despertar a cobiça basbaque de um grupo excursionista que por ali passava, talvez em busca de memórias de um tal Luís que escrevera versos para uma aventura e que agora dava nome àquela praça, sem que ninguém arriscasse garantir que também ele poderia ter brincado aos soldados, à sombra daquele negrilho, ou, quem sabe, para confirmarem bisbilhotices velhas sobre a verdadeira paternidade dos sete filhos da Maria Mantela, que aquelas paredes mostram de redor dela, ou apenas seguindo um roteiro singelo e óbvio, de cicerone local, entre os restos de um castelo e as fontes fervilhantes das caldas, onde se curavam reumáticos e se depenavam galinhas…

 

 

Pouco tempo depois, outra vez o tempo que tudo resolve, veio a Ophiostoma novo-ulmi, grafiose dos olmos,e acabou por matá-los a todos, oferecendo uma oportunidade desculpante ao malfadado despacho autárquico – ‘se não tivesse sido cortado e arrancado, teria morrido da doença…’ É assim a pequena história dos povos, sempre a justificar os erros e a reconstruir os factos.

 

Herculano Pombo

 

 

26
Fev12

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO - Letras U, V, X e Z

 

GLOSSÁRIO TRANSMONTANO

 

Registo, significado padrão e referência em uso dos falares diversos

dos povos da VEIGA do TÂMEGA e zonas limítrofes da

TERRA-QUENTE e do BARROSO

 

 

U

 

 

ulear - uivar “senti os lobos a ulear lá para a serra”

unhas de fome - sovina

unheiro - miserável, sovina

unto - pingo, gordura do porco para cozinhar

 

 

 

V

 

 

varrer da feira - pancadaria no fim da feira “o valentão, com um pau na mão, é capaz de varrer uma feira sem gente”

vencilho (vincelho,bancelho) - atilho de palhas para amarrar os molhos de centeio acabados de segar

ventana - janela

ventas - cara, focinho

verter - entornar “não deixes verter o vinho sobre a toalha”, despejar líquidos

verter águas - urinar, mijar

vezeira - rebanho conjunto de cabras e ovelhas, levado à vez por cada proprietário

vianda - comida de reco

vido - vidoeiro

vindimo - cesto de verga, próprio para a vindima

virgo sereno - mulher tímida, pouco sensual

volta - movimentação anual de populações de certas aldeias do Barroso, que percorriam a Província a pedir “para a casa queimada”, “cuidado, que o gajo é da volta”

 

 

 

 

X

 

 

xaragão - enxerga

xastre – alfaiate

xis e mis - timidez

xitos - marcas de pau ou ramos de giesta espetadas na terra “andou a marcar as embelgas com xitos”

- chega, alto!, “Xó, que me trepas!”, já estás a abusar!

xotar - enxotar (as pitas)

 

 


Z

 

 

zanguizarra-barulheira monótona

zervada (b) – chuvada forte, granizo

zernideira - espécie de peneira

zicho - esguicho

zilro - andorinhão (apus melba)

zorro - filho bastardo “é zorro do tio João Landainas”

zupar - bater, agredir

zurca - bebedeira “está com a zurca”

 


Para melhor entender o porquê deste LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO, ficou tudo explicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/710026.html

 

 

 

19
Fev12

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO - Letra T

 

GLOSSÁRIO TRANSMONTANO

 

Registo, significado padrão e referência

em uso dos falares diversos dos povos da

VEIGA do TÂMEGA e zonas limítrofes

da TERRA-QUENTE e do BARROSO

 

 

T

 

 

talho  - quantidade suficiente para se ir consumindo “tens aqui um bô talho delas” (ex: couves)

talha – vasilha de barro, bojuda, para guardar azeite ou pimentos do vinagre

talocha - ferramenta de trolha

taludo - grosso, grande, robusto, “vi um rato taludo como um coelho”

tamaninho-bocadinho,pouquinho

tamãozela - pega do arado

tânjaro - pássaro migrador(tange-asno) “onde ides, tânjaros loucos, que vindes tantos e ides tão poucos”

tantinho - bocadinho, um pouco,“bota-me tantinhas nozes pr’a dentro dessa saca”

tarabelo (taramela) - peça de madeira que, agitada pela rugosidade da mó, faz cair o grão devagar

taralhouco - trapalhão “o velho já está um cibo taralhouco”

tarandeira - espécie de estante raiada em madeira, onde se colocam os pães acabados de cozer e onde os ratos não chegam

 

Tocador de Concertina

tartaranhar - pairar de ave de rapina, atrapalhar-se

tartaranho - ave de rapina

tasquinhar - comer pequenos pedaços

tato - gago, “ele é um cibo tato bitato”

teixugo - texugo

tem-te roda, não desandes - expressão/desejo ditada pelo receio supersticioso de que a vida comece a correr mal

tendal - lugar onde se coloca o pão a levedar

tenda - loja, comércio “A tenda quere-se com quem na entenda”

tendeiro - comerciante de loja

 

 Em algumas das nossas aldeias ainda faz parte da rotina dos dias o tocar as vacas para o monte ou lameiro

termo (ê)- limite territorial, monte baldio

testinho - cheinho, “este almude está testinho até à croa”

testo (ê) - tampa de panela “para cada panela há sempre um testo”, cheio “este balseiro está testo de batatas”

tinhoso - demónio, mafarrico “tem pata (pacto)com tinhoso”

tirar nabos da púcara - tentar obter informações

tó!- interjeição, ora essa! “Tó, caralho, tó!”

toar - trovejar “Só te lembras de Stª Bárbara quando toa”

tocador - músico de concertina “o tocador de Travassos enganou uma menina, trazia o retrato dela nas costas da concertina”

tocar as vacas - conduzir as vacas “toca as vacas para o lameiro”

toco (ô)- buraco em tronco ou raiz de árvore “o coelho sumiu-se pr’a dentro de um toco”

toleima - patetice

tolheito - aleijado, entrevado “ficou tolheito com o reumático”

tomar-se-lhe o sangue - sangria deficiente do porco por ter ouvido berrar outro que morreu antes dele

tomatas - tomates

tombo - queda, “dei um tombo abaixo da burra”

topar - ver, achar, encontrar “Não há coisa mais bonita que chegar à missa e topá-la dita”

tora - pedaço grosso de carne

torga - urze

torgueiro - estúpido, boçal

 

 Também é na tranqueira das portas que se mete a tranca

 

torna jeira - permuta gratuita de serviço prestado nos trabalhos agrícolas

tornar o pão - devolver o pão que se pediu emprestado, depois de cozer

tortulho - cogumelo comestível (tricholoma equestre)

touça - terreno com moitas rodeado por muro

toucinheira - espécie de cabide onde se penduram os presuntos e as peças do porco para afumar

trabuco - pistola

traçar - cortar, serrar “foi à floresta traçar uns pinheiros”

tralha - objectos inúteis

tralhão - pássaro, ave migradora “estás gordo como um tralhão”

tralhar - coagular (sangue do porco) “bota-se-lhe um cibo de vinagre para não tralhar”

trambolho - mal ajeitado, “tem umas pernas como um trambolho”

tranqueiros - pedras verticais onde apoiam as portas e portões

trasgo - bruxo, feiticeiro

 

Os trigos de três e quatro cantos, de Faiões ou Vila Verde faziam muitos pequenos almoços na cidade

 

travadoura - corda fina para travar a carga do carro de bois

trazer a esquerda em frente - andar mal humorado

trazer a foice picada - vir com fome

trazer na ideia - lembrar-se

trazer um grão na asa - estar meio embriagado

treitouras - peças, em madeira de castanho, entre as quais roda o eixo do carro de bois

trela - conversa fiada

trelo - carga, fardo de contrabando “em novo, andei ao trelo na raia de Soutelinho”

tremonha (moega,mojega) - recipiente de madeira, em pirâmide invertida, de onde o grão passa para a mó do moinho

trepar - calcar a pés, subir, abusar

trigo de cantos - pão de trigo de três ou quatro cantos arredondados

trilhar - entalar, esmagar, magoar

trinca-cevada - jogo infantil

troar - trovejar

trolha - operário da construção

troncha - espécie de couve

trouchadas - pauladas

troucho, trocho (ô) - talo da couve “fui apanhar uns trouchos para botar às pitas”, pau, caule da couve

troviscar - trovejar

trovisco - planta venenosa com que se apanham peixes

tunda - tareia

turrão - teimoso, marrão

 


 

Para melhor entender o porquê deste LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO, ficou tudo explicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/710026.html

 

 

 

12
Fev12

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO - Letra S

 

GLOSSÁRIO TRANSMONTANO

 

Registo, significado padrão e referência em uso dos falares diversos

dos povos da VEIGA do TÂMEGA e

zonas limítrofes da TERRA-QUENTE e do BARROSO

 

 

S

 

 

sã – verme do presunto

saba - lençol de linho

sábado filhoeiro - último sábado antes do Entrudo

sabainha - pano de cobrir o pão antes de cozer

sabanhões - feridas nos pés, frieiras “trazia os pés cobertos de sabanhões”

saber onde pendura o pote - ter posses, conhecer os bens “ele coitado nem sabe onde pendura o pote”

sabido - esperto

sacada - varanda “botam-se colchas nas sacadas por onde passa a procissão”

 

Sacadas com colchas à espera da procissão

sachola - enxada ligeira

sacholada - agressão com sachola “mandou-lhe uma sacholada aos cornos que lhe abriu logo ao verde”

safadeza - pouca vergonha

safado - desavergonhado

safanão - abanar com violência

safardana - indivíduo pouco recomendável

saias - indivíduo bisbilhoteiro

salafrário - vigarista, mal comportado

salamantiga - salamandra

salamurdo - de poucas falas

salgadeira - recipiente em madeira onde de salgam as carnes de porco

salpicão da língua - espécie de fumeiro, feito com a língua do porco

 

 Serrabulho, uma verdadeira iguaria associada à matança do reco

saltão - gafanhoto

salvar - saltar por cima, “salvou o rigueiro com um pulo”, saudar, “salve-o Deus, senhor Manuel!”

sambreia - tareia

sampa - tampa

sanchas(pinheiras,cardielas)-cogumelo comestível alaranjado (lactarius deliciosus)

sangueira - peça de fumeiro à base de sangue

sapeira - mulher baixa e gorda

saraboleiro – indivíduo com uma má dicção, de difícil compreensão, troca-tintas

sarandar - andar de um lado para o outro, dar voltas, vadiar “andou toda a tarde a sarandar de roda da casa”

sardanisca - lagartixa

sardão - lagarto grande

sargaço - arbusto bravio de pequeno porte

saroto - que tem parte do braço ou da mão amputado

sarrafada - golpe desferido com um sarrafo, canelada

sarrafo - pedaço de madeira

sarrazinar - aborrecer, moer

sarro - sujidade residual do interior das pipas “se não lhe tiras bem o sarro, põe gosto ao vinho”

sarroeira - caminho estreito (canelho) entre casas, usado como retrete ou lugar de despejos “foi baixar calças na sarroeira detrás da casa”

 

Sicelo, carambelo ou gelo, vai dar ao mesmo frio - este é da croa do Brunheiro, em Carvela

 

sarronco - papão, homem do saco “se não engoles depressa o caldo, vem o sarronco”

sassamelo - que tem dificuldade na pronúncia dos ss

sastifeito - satisfeito

saúde e coza o forno! - expressão que revela despreocupação

sedeiro - objecto em madeira de castanho com pregos de aço afiados para assedar o linho

sedenho - corda que se usa para atar

as cargas

sediço (é) - metediço, inoportuno, irrequieto, agitador, sedicioso

sediela - fio de pesca

segar - ceifar

segurança - alfinete de ama “caíu-me o botão, tive que lhe apertar uma segurança”

seibe - terreno livre para pastagem

seitoira - foice

sementar - semear

senhor fora - o padre leva a comunhão a casa de um doente

 

Socos - Estes têm um design moderno. Também os há de "gola alta"

 senisga - órgão genital feminino

sentir - ouvir, pressentir “sentiste barulho?”

serigaita - rapariga atrevida, espevitada

serrabulho (sarrabulho) - sangue de porco cozido, com azeite, alho e loureiro

serrada da velha - brincadeira /ritual a meio da quaresma

serrim - serradura de madeira

serrinar - moer, desfazer

sertã - frigideira

servidor - bacio, penico

sessão - humidade dos terrenos “não afundes muito o rego, para não perder a sessão”

sincelo - gelo pendurado, carambelo

sobela – ferramenta aguçada de sapateiro

sobornais - alimento que se dá às crias quando ficam retidas em casa pelas nevadas

sobradar - aplicar tábuas de sobrado ou soalho

sobrecarga - correia de cabedal, usada para segurar a carga dos burros, cilha

sobreceia - pequena refeição, depois da ceia, quando o serão se prolonga

socas - tamancas de mulher

 

Um souto em Agrações - Chaves

 

socos - espécie de calçado em madeira de vidoeiro ou amieiro “ouvia-se o matraquear dos socos pelo empedrado acima”

socrar - apertar a corda com voltas

sogas - grossas tiras de cabedal dos arreios dos bois

sôlho - soalho

sombreiro - guarda sol, guarda chuva

somítico - avarento, mesquinho

sopeira - criada de servir “anda metido com a sopeira”

sorça - vinha de alhos “depois da desmancha, bota-se a carne de sorça”

souto - terra de castanheiros “Cada mocho no seu souto”

soventre - parte inferior da barriga do porco

sumido - encolhido, minguado, desaparecido, retraído, “de há uns tempos para cá tem-se sumido”

surra - tareia, coça “deu-lhe tamanha surra que o fodeu”

surro - sujidade acumulada sobre a pele “o surro era tanto que se podia raspar com uma faca”

 

Para melhor entender o porquê deste LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO, ficou tudo explicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/710026.html

05
Fev12

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO - Letra Q e R

 

GLOSSÁRIO TRANSMONTANO

 

Registo, significado padrão e referência em uso dos falares diversos

dos povos da VEIGA do TÂMEGA e zonas limítrofes

da TERRA-QUENTE e do BARROSO

 

Q

 

 

quartilho - medida correspondente a meio litro, um quarto de uma canada

quarto - perna (de frango, cordeiro, coelho…) “os lobos comeram-lhe os quartos traseiros”

quando tal - entretanto, logo que, nessa altura

quebranto - desfalecimento “está-me a dar um quebranto, que ainda hoje não descerrei os dentes”

quebrar da friura - aquecer até ficar morno (água, vinho)

que cabras guardas? – não prestas  atenção?

quem dá o que tem antes que morra, merece com uma cachaporra! - não se deve fazer partilhas antes de morrer

quentar - aquecer (o forno)

quentadeiro - homem que aquece o forno

querias trutas de barbas enxutas? - esperar facilidades, aproveitar-se do trabalho alheio

 

 

R

 

 

rabisco - rebusco (uvas, batatas, azeitona…)

rabo-russo (rabisco) - pisco ferreiro (phoenicurus)

raboto - que tem a cauda amputada

racha - pedaço de lenha rachada “bota-lhe mais uma racha ao fogo, que a noite é grande”

 

Rachas - Por cá as mais populares são as de carvalho no entanto dizem que as de freixo só não ardem debaixo de água por vergonha


ralo - raro, pouco espesso, “tens os dentes ralos, és mentiroso”

ramo – auto de Natal

ranchada - grupo numeroso, rancho, ajuntamento, “Teve uma ranchada de filhos, todos vivos”

ranhar - arranhar, coçar, esgravatar “ranha-me as costas, que estou cheio de coceira”

ranheira - coceira, comichão

ranhoso - antipático, quezilento, de mau aspecto

raparigo - rapaz pequeno

rapioqueira - amiga da borga, divertida

rasa - medida em madeira para os cereais ( + /- 12 Kilos)

rasca - de má qualidade

rascalho - ramagem seca para queimar

rascanhar - arranhar, riscar “o cão pôs-se a rascanhar a porta com as patas”

rascar (ranhar) - arranhar, coçar rata(cega,escava-terra)- toupeira “as ratas trazem-me o lameiro todo revirado”

 

Uma rela à espreita de um pouco de sol

 

ratar - roer, perdiz que se escapa a pés por baixo do mato “as perdizes rataram-se para debaixo do mato”

rebenta-bois  - cogumelo venenoso

rebida - comida já passada “as batatas estão rebidas”, atrevida “a garota é rebida, sai à mãe”

rebolo (ô) - pedra areedondada, pessoa gorda,   “a comer assim, vais-te pôr como um rebolo”

reca (o) - porca

recambiar - enviar de volta

rechinar - o chiar da faca ao cortar a côdea dura do pão centeio

redanho (redenho) - gorduras que envolvem as tripas

refastelado - bem instalado, satisfeito, à vontade

regalar – presentear, oferecer

regota - terreno fundo onde passa um rigueiro

rela - pequena rã verde

relentar - humedecer, orvalhar, regar

remanso - zona calma do rio, depois da corrente

remeia (romeia) – medida equivalente a meio cântaro

remisga - larva em casulo que se encontra nos rios, bicho da croça

remoncar - responder sem educação, refilar

renovo - plantas jovens para replantar “esta noite a geada queimou o renovo”

 

A plantar o renovo na veiga de Vila Verde de Oura

 

rêpas - cabelos dispersos

repeso - arrependido “já estou repeso de não ter ido à feira”

rês - gado ovino ou caprino “anda no monte c’o  a rês”

resoluto - decidido “ele pôs um ar resoluto”

respingão - refilão

responsar - rezar o responso “reza o responso ao Santo Antoninho para que te apareça o que está perdido”

ressabiado - desconfiado

restrolhar - lavrar para enterrar o restrolho da ceifa anterior

revoada - bando ruidoso de aves “O cão fez saltar uma revoada de perdizes”,”uma revoada de estorninhos caíu sobre a cerdeira”

rexelo (reixelo)- cabritinho

rezingão - refilão

rigueiro - pequeno rio “Eu te batizo neste rigueiro, para que tenhas olho vivo e pé ligeiro”

rilhar - roer alimentos duros “os meus dentes já não se astrevem a rilhar as castanhas”

 

Pastor de regresso a casa com a rês - Póvoa de Agrações

 

 

ripar - retirar palha de um palheiro

risa - riso, “vai lá tu, que a mim dá-me a risa” “guarda da risa para a chora”

risota - divertimento, risada “estavam todos na risota”

rocas - cogumelos, fradelhos (macrolepiota procera)

rodados - marcas das rodas do carro

rodeira - caminho de carro “meteu pela rodeira fora, direito ao lameiro”

rodízio - roda de penas de ferro que, animada pela água, faz girar as mós do moinho

rodo - molhos de centeio acabado de segar, dispostos no chão em espiral; vara de madeira com ponta de ferro para afastar as brasas no forno

rogir – fazer barulho, “aquela janela roge toda a noite com o vento”

rojão (rijão) - especialidade culinária de carne gorda

rojão da palha - rolo de palha de centeio com que se limpa o cú do porco acabado de matar

romeia - medida de seis litros

ronca - goela do porco “a canalha andava de roda do matador para que lhe desse a ronca”

rosca - larva subterrânea que rói as batatas

rou-rou - jogo infantil

ruim - fraco, com pouco préstimo “Ruim é o sangue que não corre pelas veias” “Ruim é o Maio que não rompe uma croça”

ruivaco (reibaco) - pequeno peixe do rio

rujir - fazer ruído, rumorejar, “A folha quando roije é que lhe dá o vento”

 


Para melhor entender o porquê deste LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO, ficou tudo explicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/710026.html

 

 

29
Jan12

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO - Letra P

 

GLOSSÁRIO TRANSMONTANO

Registo, significado padrão e referência em uso

dos falares diversos dos povos da VEIGA do TÂMEGA e

zonas limítrofes da TERRA-QUENTE e do BARROSO

P


pachouchadas - histórias e ditos
pães - searas de centeio “Em Março, tanto durmo como faço, iguala a noite com o dia e os pães com o sargaço”
padecer - sofrer
padecimento - sofrimento
palhas-alhas - palha do alho para curar a sarna
palmeiro - do tamanho de um palmo “caçou um cesto de trutas, todas palmeiras”
palóio - espécie de fumeiro tradicional feito de tripa grossa

 

 

Pães no Planalto de Travancas

palouço - tolo, parvo
pamonha - indivíduo pouco expedito
panasca - homosexual, paneleiro
paranheira - pedra da porta do forno
parecenças – semelhanças
parede - muro de pedra solta “as crias esbarrondaram as paredes do lameiro”

 

A poula pode ser pequena ou no meio do monte, mas tem de ficar entre paredes.

 

pariu a galega! - faz um frio de rachar; diz-se também quando se junta muita gente “O que há? Parece que pariu a galega!”
parolice – coisa própria de parolo, “essa roupa é uma parolice”
parolo – rústico, grosseiro
parpalhaça - codorniz (coturnix)
parrana - baixote
parreco - pato

 

Parrecos do Tâmega (do tempo em que os havia)

 

parrogueira - local da cozinha onde se guarda a cinza
parva - pequena refeição no intervalo dos trabalhos
passar ao estreito - engolir, comer “trazia uma larica tão grande, que depressa passou tudo ao estreito”
passar pelas brasas - dormitar “deitei-me no escano, depois de merendar, e passei um cibo pelas brasas”
patamal - patamar, soleira
patorra - cotovia
pau de virar tripas - magricela, franzino
pavia – pêssego duro no tempo das vindimas
peçonha - veneno
pede - merendas (despede-merendas) - flor roxa sem folhas (primavera e outono), (pulsatilla vulgaris) (os trabalhadores agrícolas tinham direito a merenda só na primavera e verão)
pelar – escaldar para retirar pelos ou penas
peles (péis) - emigrantes passados clandestinamente “a salto”
peliqueiro - careto do entrudo, ambulante que compra e vende peles de coelho e outras, passador de emigrantes clandestinos
penca - couve
pensar - alimentar os animais
permisso - consentimento, licença
pernada - tronco lateral de uma árvore “tive que deitar abaixo uma pernada do castanheiro, que me estorvava a passagem”
perpianho - pedra de granito aparelhado

 

 

Um molho de lenha pitada

 

perseguida - órgão genital feminino
pestina (peste) - cheirete, mau cheiro
peto (ê) - mealheiro, caixa das esmolas
pia (dos recos) - recipiente de pedra ou madeira de onde os porcos comem
píbeda - pevide
piça - órgão genital masculino, picha, pénis, (do latim spissa ?)
pica-peixe - guarda rios, (alcedo attis)
picheleiro - canalizador
picho - carrapito no cabelo
pichorra - púcaro de barro com bico
pico - espécie de martelo de ferro, afiado nas duas pontas, com que se picam as pedras das mós
pieira (peeira) - doença dos pés nos animais “as ovelhas, o mais delas anda a mancar à conta da pieira”
pingo - unto, gordura do porco para cozinhar
pincha-carneira - salto com agilidade, jogo infantil
pinchar - dar saltos, dar pinchos
pinheira – espécie de cogumelo, sancha (lactarius)
piorno - tronco grosso da giesta
pirraça - birra “está a fazer pirraça, que não gosta da comida”
pírtigo - peça móvel, de madeira de carvalho, do malho que se usa nas malhadas de centeio
pisadura - hematoma, nódoa negra
pisão - engenho mecânico, movido a água, onde se amaciava e tornava resistente o tecido, mediante batimentos constantes e aquecimento a água
pisoar (apisoar)- bater no pisão “mandei apisoar uns quantos panos de burel”

 

Pitas carecas

 

pita - galinha
pitalho - bocado que os pássaros levam aos filhos, cibo
pitar - partir lenha, partir pedaços miúdos de pão
piteiro - negociante de galinhas, guarda redes pouco seguro, frangueiro
pitilho - cigarro “tens um pitilho que me dês?”
pitos - frangos “Quem olha a milho não bota pitos”
pito verdeal - pica-pau verde (picus viridis)
poalha - poeira fina
pobre de quem nas ouve, quem nas diz fica aliviado! - alusão a pessoa mentirosa ou caliniadora
pocho (ô) - cão
poio - monte de fezes, cagalhão, cagada de pássaro
poldras (pondras) - pedras alinhadas sobre as quais se atravessa o rio
pondoar - floração do centeio, “os pães já começam a pondoar”
porretas(porrelas)-despido “andava no rio em porretas”
por-se nas putas - fugir, desandar, desaparecer

 

 

Dois portelos, um para pessoas outro para animais e viaturas rurais

 

portelo (ê)- entrada de um campo, cancela
por via disso - por causa disso “por via disso é que eu fiquei assim”
porvorinho - remoinho
pôr tento - dar atenção
porto - lugar fundo do rio que se passa a pulo
pote - utensílio de cozinha, em ferro, com três pés, tampa e asa redonda “vê se já fervem as batatas no pote”
poula - terreno em pousio
pousada - conjunto de cinco molhos de centeio
povo - povoação, aldeia “atravessou o povo todo com ela pela mão”
praino - planície
prática - homília do padre na missa
pregar uma partida - ter uma atitude ou comportamento inesperado
prenhada - grávida
prenóstica - presunçosa

 

 

Pucaros de barro preto - Vilar de Nantes


presa - açude, represa
proa - vaidade
prosmeirice - impostorice
prosmeiro - impostor amável “tu não vás na conversa dele, que é um prosmeiro”
puado - com puas, com picos
púcaro – espécie de copo com asa, em barro preto de Vilar
puche - restos de palha moída que a máquina limpadora separa do grão
pular - saltar “os lobos não se astrevem a pular a cerca”

 



Para melhor entender o porquê deste LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO, ficou tudo explicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/710026.html


22
Jan12

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO - Letra N e O

 

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO



Registo, significado padrão e referência em uso dos falares diversos dos povos da
VEIGA do TÂMEGA e zonas limítrofes da TERRA-QUENTE e do BARROSO



N


nacho - nariz achatado
naifa - faca, navalha
nainho (anainho) - anão
nanja - não, negação “nanja que o tivesse sabido por mim”
não achar pão cozido - não encontar o que se esperava, sair desiludido “esteve uns tempos para o Brasil, mas não achou por lá pão cozido”
não cagas sem mecha - mesmo para fazer coisas simples é preciso reforço “se não te dou um doce, não me fazias o recado; tu não cagas sem mecha!”
não dar a ida pela vinda - não ter sossego, não descansar
não dá pelo pau nem pela pedra - não dá qualquer resposta, fica absolutamente calado
não disse nem xis nem mis - ficou calado, não deu resposta
não é bom de assoar - não é fácil de levar
não estou crente - nem quero acreditar, desconfio “não estou crente que isso seja como dizes”
não lhe cabia um chícharro no cu - estava todo inchado de contente, estava orgulhoso, vaidoso
não meteu prego nem estopa - manteve-se alheado, não quis entrar na conversa
não tardou um credo - não demorou nada
não te caem os parentes na lama - não é vergonha nenhuma
não tinha outra coisa na ideia! - não sei como me esqueci, não me lembrei
não tinhas tu a culpa! - não querias mais nada! Nem penses nisso!
não vás no engodo! - não te eixes enganar
nassa - aparelho de pesca feito de vime, bebedeira
negacear - provocar
negra - pisadura, hematoma “fiquei com duas negras de roda dos olhos”
negrilho - ôlmo, ulmeiro (ulmus procera)
nem por uma nota de sete c’roas! - não o vendo nem o dou
nem que o digas, não mentes - é verdade, é indesmentível
nevasqueira - neve e vento

 

 

A cidade de Chaves mergulhada na névoa

 

 

 

névoa - cataratas dos olhos, nevoeiro
nico - pedacinho, pequena porção
niquento - miudinho, quezilento
níscaro (míscaro) - cogumelo comestível (boletus edulis)
nomeada - alcunha, nome
núbio - nublado “amanheceu bonito, mas ficou núbio de repente”


O


odrada - pancada com o corpo no chão “conforme caíu abaixo da burra, deu uma odrada no chão e ofenderam-se-lhe duas costelas”
odre - vasilha de pele de cabra para vinho ou azeite “Quem troca odre por odre,algum deles está podre”, indivíduo gordo ou inchado “a comer assim, vais-te pôr como um odre”
olvidar - esquecer “o que tu sabes, já a mim há muito que se me olvidou”
o melhor estrume é o que vai agarrado às botas do dono - clara alusão à necessidade de ser o proprietário a tratar das suas próprias terras
onde a mim - ao pé de mim “chega-te aqui onde a mim”
onde quer - em qualquer lugar

A orelheira de porco

 

orelheira - orelha do porco afumada
ougado - babado de desejo
ougar - apetecer, desejar
ougas - limos do rio, algas “estas maçãs estão verdes como as ougas do rio”

 

 



Para melhor entender o porquê deste LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO, ficou tudo explicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/710026.html


15
Jan12

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO - Letra M

 



LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO

Registo, significado padrão e referência em uso dos falares diversos dos povos da
VEIGA do TÂMEGA e zonas limítrofes da TERRA-QUENTE e do BARROSO


M


maçarocas - espigas de milho
macho de cem moedas - coisa de valor, pessoa que se julga importante
maias - flores de giesta, canções próprias para serem entoadas no primeiro de Maio
malápias - maçãs pequenas, temporãs
maleita - doença, achaque “é muito atreita às maleitas”
mal enjambrado- desengonçado
malga - tigela
malhar (malhar abaixo) - cair, “malhou do cavalo abaixo”
malheiro (dar um …) - bater violentamente, agredir

 

Maçarocas de milho marelo a secar no canastro

 

malho rodeiro - ferramenta usada na feitura das rodas de madeira dos carros de bois
malhuço (manhuço) - molhada, mão-cheia, gabela
mamões - rebentos bravos abaixo da enxertia
mandaletes (mandilete) - recados
mandar dinheiro - oferecer certa quantia em negócio “quanto lhe mandaste pelo reco?”
mandil - pano grosseiro, avental “em Abril, águas mil, coadinhas por um mandil, quantas mais puderem vir”
mancar - coxear, aleijar
manco - coxo
maneirinho - pequenino e ajeitado
manganão - preguiçoso, esperto
manguito - gesto obsceno identificável com o ‘Zé Povinho’

 

Maias marelas. Também as há brancas

manqueira - aleijão
mantença – sustento, “Um bom fogo é meia mantença”
mantrasteira - amante
maquia - parte da farinha dada ao moleiro em pagamento da moagem, “moleiro que muito maquia, não ganha freguesia”
marchante - talhante, vendedor de carne
marelante (marantéu)- papa-figos (oriolus oriolus)
marelo - amarelo, nome próprio frequentemente dado aos bois
marranica (marrenica) - marreco, corcunda
mascotar - malhar com pau cereais ou rama de chícharros
masseira - recipiente de madeira onde se amassa o pão

 

Amassar de folares na masseira da aldeia - Vilar de Nantes

 

matabichar - comer pela manhã em jejum, tomar o pequeno almoço
matibó - noitibó (caprimulgus)
maticar - (cão) emitir pequenos ladridos quando dentro do mato em perseguição do coelho
matinar - magicar, meditar “fiquei pr’aqui a matinar na questã”
matões - vasculhos de urze para varrer o forno
meão - peça do meio da roda do carro de bois, em madeira de freixo
meado - que está a meio “deixei o trabalho meado”
meda (ê)- pilha arredondada, formada pelos molhos de centeio
medalha (colher) - isco artificial giratório para as trutas, amostra metálica
medrar - crescer a olhos vistos
melar - enfraquecer, tornar chôcho “se continua a chover assim, os pães ficam melados”
meleigada - merdice, fezes de criança nas fraldas
melenas - cabelos compridos
meninho - menino “ao meninho e ao borracho, põe-lhe Deus a mão por baixo”
menos dá uma fraga - contentar-se com o que se recebe “muito agradecido; é pouco, mas menos dá uma fraga”
mera - parcela de tojo que cabe a cada vizinho, para roçar
mercancia - mercadoria
mercar - comprar
merenda - comida entre refeições, ou a que se leva para o campo, “roubaram-lhe a saca da merenda”, lanche, farnel, “merenda comida, companhia desfeita”
meringalha - pilinha de menino
merogo - medronho “emborrachou-se com os merogos que comeu”

Merogos

Merogos de um merogueiro da Serra do  Brunheiro, ou quase, mas lá ha muitos

 

merogueiro - medronheiro
merouço - montinho, pequena porção amontoada
meruja (meruge) - planta de folha miúda das poças de água, merugem, chuva miudinha
merujar - cair chuva miudinha, chuva molha tolos
meter-se numa camisa de sete varas - meter-se em problemas
metido a besta - parvo
mézinha - beberagem mágica, xaropada
mico - gato
mijeira - sorte “o gajo teve uma mijeira do caralho!”
milheira - pássaro miúdo, chamariz (serinus)
mimosas - acácias, arbusto infestante de flor amarela e odorosa
mindinho - dedo mais pequeno “dedo mindinho, seu vizinho (anelar), pai de todos (dedo do meio), fura bolos (indicador), mata piolhos (polegar)”
mingar - diminuir, baixar “já mingou a água nos poços”
místigos - povos dos antigos coutos mistos, antes da derradeira definição da fronteira com a Galiza
moenda - conjunto mecânico (mós) de um moinho
moina - brincadeira, borga
moinante - vadio
moinha – dor pequena e persistente, dor de dentes, brasas de lume quase em cinza
moinheira - chuva miudinha
molanchim - amola tesouras, capador
moléstia - doença, aborrecimento “está de orelha murcha por causa da moléstia”
molete – carcaça de trigo
molidas (molhelhas) - arreios em cabedal sobre as cabeças dos bois quando atrelados ao jugo
moncas (moncos) - ranho
moras - amoras

Gostas de (a)moras? - Vou dizer ao teu pai que já namoras.

 

morrinha - saudade, mixomatose dos coelhos “matei dois coelhos, mas um deles estava com a morrinha”
mosca branca - neve
mostrar chibança - valentia
moxete (u) - beliscão,mosquete
murar - acção minuciosa dos gatos a procurar ratos ou pássaros
mureia (moreia, mureira)- monte de estrume
murras - frieiras,cabras
murrinhar (morrinhar) - chover pouco, chover miudinho
murrinhoso (morrinhoso) - melancólico, saudoso “está um tempo tão murrinhoso”

 

 

 Herculano Pombo

 



Para melhor entender o porquê deste LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO, ficou tudo explicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/710026.html


08
Jan12

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO - Letras H, I, J e L

 

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO

 

 

H

 

 

há-dem  -  hão-de

harpejo - engenhoca, artilúgio

herdança -   herança

honrado como a Porca de Murça – diz-se da pessoa pouco honrada, vira-casacas

hortejo - pequena horta

 

 

I

 

impontar – mandar embora, despedir, “mal se chega à minha beira imponto-a logo”

incertar - encetar, cortar, abrir “o pão é fresco, que só o incertei hoje”

incerto (encerto) - primeiro pedaço que se corta do pão

inculcas - informações

indrominar - enganar

indróminas - enganos, lérias “vê se te não deixas indrominar pelo cigano”

infruídos - entusiasmados

intaloado - mal cozido “comi pão com um cibo de carne gorda meia intaloada”

inté - até, “Inté Janeiro, qualquer cão passa o rigueiro.”

inteiro - animal não capado

intrudo (entrudo) - carnaval

ir num pulo - ir depressa, “vou ali num pulo e já volto”

isco - alimento que se come com o pão, conduto “é fino, só come o isco e deixa o pão!”

 

Por cá é intrudo, aqui ao lado, en Verin, é Intróido

 

J

 

 

jeira - trabalho pago ao dia

jerimum - abóbora boa para filhoses

jinêlo - janela pequena

joga - pedra lisa e arredondada, seixo

juliana - bebida fresca de vinho aguado, da lavagem do bagaço

jungo - junco “mandei apanhar uns braçados de jungo para fazer uma croça”

junguir - pôr os bois ao jugo

 

 

Jirimuns para filhoses, hummmmmmmmmmmmmm! uma iguaria que nunca falta no Natal


L

 

 

lábia - conversa fiada “não me finto na tua lábia”

labrestos - ervas de seiva leitosa que servem como forragem para os coelhos

lacrário - lacrau, escorpião

ladranhos - tábuas que se usam sobre os carros de bois, entre os estadulhos, a amparar a carga

lambareiro - guloso

lambão - guloso, preguiçoso

lambiscos - guloseimas

lamiça - lamas

lançador - recipiente de madeira onde se lava a loiça

lançar a sopa - deitar a sopa no prato

landum – borga, divertimento

landainas - tretas, histórias sem

nexo “landainas, pobre de quem as ouve, que quem n’as diz fica aliviado”

lanho (lenho) - ferida, golpe, corte

lanzoar - falar sem tino, dizer asneiras

 

Os ladranos não dão muito jeito para uma coisa que eu cá sei, agora os estadulhos, ai-ai!

 

láparo - coelho

laparoto - palerma

lapantim - maroto, mal comportado

lapouço - estúpido

lareiro - pau comprido para pendurar fumeiro sobre a lareira

laréu – borga, vadiagem

largato - sardão

larica - fome

larota - fome

larpar - comer muito “conforme se sentou à mesa, larpou tudo quanto lhe puseram diante”

lastro - chão do forno

lateiro - comilão, alarve

laudácia - descaramento

laurear - passear, divagar “em vez de trabalhar, passa os dias a laurear pela cidade”

lavagem - restos da comida que se dá aos porcos, lavadura

lavandeira (lavandisca) - arvéola (motacilla)

laverca - cotovia (alauda arvensis)

lazarina - espingarda

lebroto - macho da lebre

leiranco - ratazana “saíu de lá um leiranco, tamanho como um coelho”

leituga - planta comestível com seiva esbranquiçada

lenhas - mato denso “os lobos metem-se às lenhas, e não há quem lhes torne a pôr a vista”

lenteiro -  terra  sempre húmida

lento - humidade da noite “deixa as couves descobertas para apanharem o lento da noite”

lérias - conversa fiada, tretas, “lérias tuas, trinta e duas”

lerpar - perder

levar a cesta - dar a prenda à vizinha que acabou de parir

linguareiro - fala-barato

linhar - terra onde se cultivava o linho

loja (loija) - pocilga dos porcos

lombelos - lombinhos do porco

luze-cu   - pirilampo

 

Herculano Pombo


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