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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Out18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

Mutatis mutandis

 

Certo dia de manhã, depois de ser olhado, como num cortejo fálico ateniense, por gente que nem sequer lembra ao diabo, deu por si, algures entre Andrães e Mondrões, transformado num pedaço de penedo monstruoso lembrando-me o quadro de Magritte: “The Castle of the Pyrenees”. Estava deitado como se estivesse a enganar o sono enquanto imaginava, de olhos semicerrados para baixo e o uniforme falo para cima, Madame Bovary despida até aos joelhos e com todas as suas potencialidades aparentes de mestria adúltera.  

 

Dizia-se algures que tinha sido um homem viajado. Visitando inúmeros lugares. Vários países na Europa, alguns de África e da América, dois ou três da Ásia e, conta-se, que tenha chegado a ir à Sertã.

 

Mas ele não era agora senão aquilo. Parecido ao vertiginoso Gulliver. Parecido a qualquer coisa e a coisa nenhuma. O rosto era poesia épica de Miguel Ângelo, escultura de Homero e musica de Péricles. Do pescoço para baixo vestia-se da nossa imaginação.

 

A gente que o olhava nutria varizes no lombo que, de tanto enrabar fichas de três pinos, inevitavelmente, a pouco e pouco, lhes concediam queimaduras de diferentes graus matemáticos.

 

Mas ele era apenas aquilo.

 

Nome era coisa que não tinha. Para quê? Se alguma vez o Homem se valesse pelo nome. Se alguma vez o Homem se valesse por coisa alguma.

 

Somos todos Ivan Ilitch – dizia ele, manifestando o seu desagrado às hemorroidas que contraia.

 

Mas ele era apenas aquilo.

 

Professor reformado, conta-se, do primeiro ciclo. Fazia sempre questão de, com a sua voz coloquial à Padre António Vieira, narrar aos seus alunos, por palavras próprias, um enxerto da Alegoria da Caverna, que mais tarde, por razões obvias de grande intelecto, imaginando sempre que pudesse vir a ser a Anne Frank do Ribatejo, resolveu escrevê-lo num diário. Passo a citar: “Há uma caverna onde, no seu interior, vários prisioneiros estão fechados desde que nasceram e por isso exercem compulsivamente uma masturbação impiedosa. Os pescoços e as pernas estão acorrentados de modo que os impossibilita de se espernearem no último esguicho. De fronte, uma parede de pedra. Por trás e por cima deles há um fogo, e entre o fogo e os prisioneiros há uma parede baixa onde as pessoas andam transportando objetos na boca. Mais tarde, descobriram que não eram objetos. A luz do fogo projeta sombras dos objetos na parede diante dos prisioneiros. Acontece tudo em dimensão tão reduzida que parece um filme pornográfico para anões. Essas sombras são tudo o que os prisioneiros conseguem ver. Os únicos sons que ouvem são os ecos do latejar dos seus falos aquando à masturbação: Chlap Chlap Chalp (...)”. No final, e em jeito de concluir a alegoria, dizia: “Os masturbadores somos nós. Masturbamos a nossa vida atingindo um repleto e continuo esguicho de futilidades e ignorância. Vivemos todos na caverna da masturbação. A luz está entre os seios da Serenella Andrade e o meu corpo de Adónis.”

 

Um senhor de uma existência dedicada à arte do chavascal. Aconselhando sempre a não seguir o caminho da rotice. Aconselhando sempre a sermos uma Joana Vasconcelos na construção de uma miríade de badalhoquismo. Porque para ele, a vida é uma continuação de bombadas inéditas.

 

Sentia-se Darwin ao assistir à evolução da espécie em direto, diante dos seus próprios olhos, quando comparava a frondosa púncia da Maria Indignada com a imberbe racha da Manuela Puritana.

 

Era um senhor ativo na liberdade dos tarolos. Indignar-se-ia com a gentinha puritana que se incomodou com as macro pilas Mapplethorpianas. Como se as pilas fossem um atentado à humanidade. “As pilas já fizeram mais pela humanidade do que a religião”, dizia ele. Seguido de: “Pelo menos nunca li nem ouvi em lado nenhum que a razão pela qual aconteceu a atrocidade da Guerra dos Trinta Anos era que os católicos possuíam falos de um tamanho repreensível e que os protestantes padeciam de terrível inveja”.

 

            Mas ele era apenas aquilo.

 

Tal como Platão considerava os Atenienses corruptos, ele considerava a nossa sociedade uma mistela de pessoas sensíveis ao cavalo de Turim e pessoas que têm o nabo em carne viva devido a fortes e acutilantes comichões.

 

Mas ele continuava ali estendido. Num desespero imundo de sair dali. Em volta, parecia o jardim de Éden enjaulado num bairro da lata. Frigoríficos causando grande impacto nas testosteronas de quem os olhava. Objetos abjetos de propriedade privada faziam-se coro perante o prólogo da sua existência.

 

Mas ele era apenas aquilo.

 

Por fim, escreveu um epitáfio grandíloquo, prevendo uma existência prévia, como se quisesse dizer-nos alguma coisa quando fossemos visitar outros mortos e passássemos por ele: “Como em tudo na vida – menos na masculinidade exuberante de quem aqui jaz – há um destino fatídico e irónico, deixo-vos aqui uma mensagem: a morte é uma mer

 

Ele rejeitou concluir o seu epitáfio.

 

Eu rejeito-me a concluir esta narrativa biográfica.

 

Ele será sempre apenas aqu

 

Herman JC

 

 

14
Out18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

Os falos têm o poder de deflagrar puritanos.

 

Na vida existe muita coisa que me aborrece, mas pelo menos três têm uma particularidade de me chatear ao ponto de me espernear no chão enquanto grito: “Brasil, Bolsonaro não, por favor!”. Essas três coisas são: o jornal e canal Correio da Manhã, sopa de canja e pessoas que se levam demasiado a sério, de uma circunspeção tal que chegam ao ponto de criar um certo tipo de rigidez nas falangetas dos seus interlocutores.

 

A primeira é muito parecida a problemas intestinais. A segunda é de facto pérfida aos meus anseios culinários na medida em que me consegue oprimir de tal maneira que dou por mim, por vezes, a saciar-me com três bolachas Maria barradas a manteiga só para não desgostar aquelas pevides manhosas. Em relação à terceira tenho muita coisa a dizer. A pletora de sentimentos que provoca é insofismável e abarca toda a paleta de emoções. Estarão vocês a pensar: “não percebi patavina!”. Calma! Já estão a fervilhar. Parecem coelhinhos com vontade de regabofe.

 

É o seguinte: abomino gentinha com falta de sentido de humor, mas se elas manifestassem o seu desagrado enquanto estão em casa sozinhas a espremer borbulhas e a masturbarem-se de vergonha de serem como são, isso não me incomodava. Agora, querer calar o outro só porque o menino ou a menina não aprecia. Epá, besuntem-se de esperma de escaravelho até criarem uma camuflagem perfeita e depois atirem-se ao poço da seriedade, por favor.

 

Mudando de assunto, mas, se formos a ver, continuando no mesmo: não é que a Fundação de Serralves, na famosa exposição de Robert Mapplethorpe, decidiu retirar um conjunto de obras do artista norte-americano por esta apresentar, na sua maioria, muitos falos e coisas enfiadas, digamos, no rabo. Obviamente, e como devem prever, ninguém está preparado para ver isso. As pessoas estão tão habituadas a outros tipos de chavascal – telenovelas portuguesas e os programas nos canais generalistas de domingo à tarde – que dão por elas a indignar-se com pilas.

 

Num primeiro momento, a administração da Fundação proibiu certas fotos a menores de 18 anos, reservando um espaço para os mais sensíveis. Posteriormente, permitiu-se a entrada a menores de 18 anos quando acompanhados pelos “respetivos representantes legais”. Coisa, claro, que nenhum menor está habituado a assistir ao monte. No máximo, uma turma de vinte e quatro alunos numa aula de TIC. Que infâmia! Parece que estou a ouvir os titios puritanos: “Ó Amaral, cerre os olhos. Vamos entrar numa sala de nabos”. Coisa que, para o Amaral, sem os papás saberem, é só uma sexta-feira no Lux.

 

Não é tudo isto uma chafurdice de moralismo puritano? Duvido, sinceramente, que um jovem menor se surpreenda com as imagens em exposição, exprimindo: “Calma, isto não é tão diferente como o RedTube. É apenas mais requintado, mais bonito e despoleta em mim uma vontade exacerbada de prática de deboche”.

 

É chato para mim ter o conhecimento de censura neste admirável – acatem o sarcasmo – mundo moderno, democrático e livre. Não vivi sequer nenhum dia em ditadura pelo que agradeço isso ao povo que mais ordena. Mas também não é agora que, vá lá, me apeteça saborear os tempos louros em que o meu pai dizia “era à reguada, se te portasses mal” ou “até um irmão teu podia denunciar-te” ou “não digas isso que vais preso”. Prezo tanto a liberdade que para mim é intolerável sequer pensar em qualquer tipo de censura. Mesmo assim, vivemos tempos muito difíceis e perigosos, e é preciso o regozijo de todos para que as almas puritanas se vergam perante a sequência de tarolos disformes da obra de Robert Mappletorpe e de qualquer outro que a, com a sua arte, consiga quebrar preconceito. Porque a Arte é isso: romper com o cânone, romper com a idealização do que achamos mais correto. E o mais estranho de tudo, entrando em concordância com o Ricardo Araújo Pereira, é a igreja estar sossegadinha. Não estou habituado a isto, confesso. Os tempos modernos... a modernidade.

 

Herman JC

 

 

07
Out18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

Os falos têm o poder de deflagrar puritanos.

 

Na vida existe muita coisa que me incomoda, mas pelo menos três têm uma particularidade de me chatear ao ponto de me espernear no chão enquanto grito: “Foda-se a Maria Leal”. Essas três coisas são: a CMTV, sopa de canja e pessoas que se levam demasiado a sério, de uma circunspeção tal que chegam ao ponto de criar um certo tipo de rigidez nas falangetas dos seus semelhantes.

 

A primeira é muito parecida a problemas intestinais. A segunda é de facto pérfida aos meus anseios culinários na medida em que me consegue oprimir de tal maneira que dou por mim, por vezes, a saciar-me com três bolachas Maria barradas a manteiga só para não desgostar aquelas pevides manhosas. Em relação à terceira tenho muita coisa a dizer. A pletora de sentimentos que provoca é insofismável e abarca toda a paleta de emoções. Estarão vocês a pensar “o que é que está para aqui a dizer este gajo”. Calma! Já estão a fervilhar. Parecem coelhos com vontade de regabofe.

 

É o seguinte: abomino gentinha com falta de sentido de humor, mas se elas manifestassem o seu desagrado enquanto estão em casa sozinhas a espremer borbulhas e a masturbarem-se de vergonha de serem como são, isso não me incomodava. Agora quererem calar o outro só porque o menino ou a menina não aprecia. Epá, besuntem-se de esperma de escaravelho até criarem uma camuflagem perfeita e depois atirem-se ao poço da seriedade, por favor.

 

Mudando de assunto, mas continuando no mesmo, não é que a Fundação de Serralves, na famosa exposição de Robert Mapplethorpe: Pictures, decidiu retirar um conjunto de obras do artista norte-americano por esta apresentar, na sua maioria, muitos falos e coisas enfiadas, digamos, no rabo. Obviamente, e como devem prever, ninguém está preparado para ver isso. As pessoas estão tão habituadas a outros tipos de chavascal – telenovelas portuguesas e os programas nos canais generalistas de domingo à tarde.

 

Num primeiro momento, a administração da Fundação proibiu certas fotos a menores de 18 anos, reservando um espaço para os mais sensíveis. Posteriormente, permitiu-se a entrada a menores de 18 anos quando acompanhados pelos “respetivos representantes legais”. Coisa, claro, que nenhum menor está habituado a assistir ao monte. No máximo, uma turma de vinte e quatro alunos numa aula de TIC.

 

Não é tudo isto uma chafurdice de moralismo puritano? Duvido, sinceramente, que um jovem menor se surpreenda com as imagens em exposição, exprimindo: “Calma, isto não é tão diferente como o RedTube. É apenas mais requintado, mais bonito e despoleta em mim uma vontade exacerbada de prática de deboche”.

 

É chato para mim ter o conhecimento de censura neste admirável – acatem o sarcasmo – mundo moderno e democrático. Não vivi sequer nenhum dia em ditadura, e agradeço isso ao povo que mais ordena. Mas também não é agora que, vá lá, me apeteça saborear os tempos louros em que o meu pai dizia “Era à reguada, se te portasses mal” ou “Até um irmão teu podia denunciar-te”. Prezo tanto a liberdade que é intolerável sequer pensar em censura. Mesmo assim, vivemos tempos muito difíceis e é preciso o regozijo de todos para que as almas puritanas se vergam perante a sequência de tarolos disformes da obra de Robert Mappletorpe.  

 

Herman JC

 

 

 

30
Set18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

 

Chaves, eu volto.

 

Já estava com saudades de me galantear perante vós, flavienses grandinhos do pai. Como já devem calcular a crónica que se segue não tem grande coisa a dizer embora diga alguma coisa. Fica ao vosso critério avaliar o que foi dito e podem, se entrarmos em desacordo, lançarem-me impropérios grotescos por telegrama. No entanto, a experiência de voltar a ser estudante está a ser agradável, obrigado.

 

Mudei-me definitivamente – e não quero dizer que não regresse – para Vila Real. Até é giro ser de todo o lado. É bom morrer e nascer várias vezes ao ano. Um bocadinho dali outro de acolá. Rejuvenesce a mente e alinha os chakras. Até vou mais longe, reparem no meu latim: “mens sana in corpore sano”. Mas vou continuar por aqui, até porque agora posso escrever verdadeiramente sobre Chaves, com outro olhar, quase todo de admiração, respeito e saudade.

 

Como é lindo sentir falta de um amor que me deu quase tudo. Deu-me o sol pela manhã – o sol é o mesmo para todos, mas venham vê-lo da minha antiga janela – a olhar-me de soslaio como se eu fosse o Zé Zé Camarinha de Argemil. Ou o silêncio que o rio Tâmega me propunha que parecia que estava perante um guru marítimo. As Caldas, aquela água quentinha que todos teimam em não querer chamar-lhe chá: tem aroma, por mais refinado que seja, e está quente. Água quente com sabor é chá, desculpem. E o amor, claro. Deu-me o amor, ou seja, deu-me o suficiente para ter uma existência agradável.

 

 Alinhem-se comigo: nunca conseguimos falar realmente de alguém que amamos até que ela ou nós desapareça, não é? Tem que haver uma distância entre nós e o outro. Na arte, algumas vezes, temos que nos distanciar para apreciarmos a beleza de uma, por exemplo, Mona Lisa do Da Vinci.

 

 A minha relação com Chaves é muito especial e pessoal. Ou seja, Chaves está para mim como Clarice Lispector está para a literatura brasileira. Lembrou-se-me agora de uma frase, da Clarice, que resume tudo aquilo que quero dizer. Clarice Lispector dizia, e bem, note-se, que a saudade é um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. E eu vou tentando comê-la, aos poucos, até porque o meu carro a gasolina não me permite essa extravagância de andar para lá e para cá. O meu carro é mais velho do que a filosofia –  é mais ou menos isso.

 

Eu preciso da saudade, porque a saudade traz-nos o silêncio e o silêncio é importante para mim. É com ele que trabalho. Preciso de pensar em silêncio no silêncio. Há muito ruído no mundo, o que dificulta. Mas depois desliga-se a internet e parece que estás no campo de meditação do Osho. Também preciso da saudade como experiência catártica, terapêutica e como motivo de inspiração. Como o Fernando Pessoa usava o ópio ou o Bukowski usava o vinho e a cigarrilha ou como o mundo da moda usa o pó. Talvez haja alguma droga na saudade que nos faz parecer que o passado foi realmente bom. Não foi. Não há saudade do que correu mal. Exceção aos sadomasoquistas. Uma pessoa sentindo saudade está de facto a recriar bons momentos passados na mente que nunca existiram de todo como os vivenciamos e a isso chama-se nostalgia. Percebo que posso destruir alguns sonhos, mas, na verdade, a Rita do 7ºC era apenas uma criança e não a porca como a costumamos apelidar. Tinha 13 anos e apaixonava-se facilmente por baixo das mesas. E isso é razão para que depois de trinta anos ainda a chamem de “porquinha” enquanto passeia os seus seis filhos na rua?

 

Nunca se esqueçam de uma frase de um grande pensador português do século XXI, Gustavo Santos: “A mente chama-se mente porque nos mente todos os dias”. Embora só ajude os portugueses, é sempre bom lançar cultura para o ar. Por exemplo: em Inglaterra é mind, na República Checa é mysli, na Albânia é mendje. São países que não se podem dar ao luxo desta bela e filosófica frase. Não sejam arrogantes e deem graças ao vosso deus por terem nascido portugueses e permitirem-se a este tipo de pensadores.

 

Isto, é tudo ilusão. E por falar em ilusão: está a ser giro ser estudante, obrigado.

 

Herman JC

 

 

23
Set18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

Fui muito feliz em Chaves, tal como fui no Porto ou em Lisboa. Mas está na hora de partir.

 

Depois de ter nascido no Porto e por lá ter vivido onze anos, depois de uma passagem por Lisboa de sete anos, seguido de quatro anos por Chaves, soma-se agora, com grande entusiasmo a quarta cidade – Vila Real. E eu acredito que muitas mais cidades se seguem e outras tantas novidades virão.

 

Estou em Vila Real já faz uma semana. Já queria mudar-me fazia algum tempo. A minha colocação na Universidade ajudou o processo a ser mais rápido. Eu sabia também que já estava na minha hora. Não tenho nada contra as cidades em que vivi, aliás, são todas minhas e eu sou louco por elas como Pessoa era louco por Lisboa, Hemingway por Paris ou Hitler pela Alemanha (Ó Herman, agora lixaste tudo com essa última comparação). É disso que falo. Cada pedaço de mim é de cada canto do mundo. Mas Chaves... Chaves vai ser sempre a minha terra pela simples razão que encontrei o amor da minha vida lá. Estarei sempre ligado às termas romanas, à ponte romana, ao café Abade e ao “Sala de estar”, às Caldas, ao rio Tâmega e por aí adiante. Para não falar das pessoas. Poucas, mas suficientes para ansiar descobrir outras como elas.

 

Há amores na vida que têm que chegar ao fim para fazerem parte de nós para sempre. A mudança, a vida mais ou menos nómada é para mim uma maneira de viver. Precisamos de dar oportunidades a nós mesmos de sermos livres, entregar o coração a paisagens diferentes, mergulhar em novos rios, conhecer os mais bonitos vales e admirá-los como se fosse a paisagem de Giotto.

 

O mundo é a minha casa e eu preciso de andar, de explorar, de conhecer, de viver para me sentir vivo, preciso de ter sempre uma resposta consciente à pergunta que me assombra: se eu não existisse que falta faria? Todas as minhas ações, valores assentam nessa pergunta simples. Preciso mesmo disto. Cervantes dizia que se andarmos por terras distantes e conversarmos com diversas pessoas torna-nos homens ponderados, e é disso que falo. É preciso ver para além do que foi visto. É uma busca incessante ao fundo do meu ser. Tudo muda, tudo é fluxo e nós devemos apanhar o barco e ir. Eu apanho sempre que posso e vou continuar assim. Agora, não posso explicar como é isto de morrer e nascer várias vezes. Aventurem-se.

 

Herman JC

 

 

 

16
Set18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

 

Grande Festim.

 

Imagino sempre – mais quando estou de cuecas a escrever crónicas para mim e para o jornal –  da minha janela, Shakespeare a gritar, lá para as três da madrugada ajeitando de esguelha o seu colarinho felpudo tão másculo para que ninguém o reconheça e faça bullying:

 

- Puto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga um raminho de flores, aquelas que até fazem chorar os paralelepípedos da calçada.

 

Isto acontece-me sempre quando reflito na azeda e rápida vida que temos e o quanto somos tão vulneráveis e impotentes perante ela, ou todas as vezes que recebo notícias que sobreaquecem o coração, algo do género: “Resultado: Colocado”. Então aí, nesses pequenos momentos, não precisamos de mais nada do que ler Shakespeare às escuras ou de celebrar que nem um asno, nunca, claro, descorando a sábia frase da minha avó, “vamos todos morrer, não te estejas para aí a gabar”. É verdade vó, é preciso ter cautela.

 

Isto tudo só para vos dizer – a berrar, mas se me virem na rua lembrem-se que foi baixinho – que entrei na Universidade – Teatro e Artes Performativas –, primeiro, porque se não for pela Arte ainda fico como toda a gente. Segundo, como sou jovem ainda tenho muita energia para me masturbar de criatividade. Terceiro, para que um dia possa fazer pouco dos meus colegas bem-sucedidos – engenheiros aeroespaciais, engenheiros físicos, dealers e bloggers de Instagram – enquanto exponho com toda a criatividade e dedicação, que aliás, note-se, emprego em tudo o que faço, a minha apetência em fazer de Rei Lear enquanto tiro uns finos na festa do Avante. Vida de artista, é o que é. Tenho é um pesar grotesco relativamente à nossa cultura que consegue ser mais pequena do que um tarolozinho oriental.

 

            Os meus pais ficaram muito contentes, viram no filho uma vontade exacerbada de nunca mais desejarem outro. “Este chega”, diziam eles e agora percebo o porquê. Há que ter orgulho naquilo que o filho poderia ter sido. Agora estão na fase de adaptação, parece que têm um chacal em casa a recitar teatros de Bretch. Tenho que entrar no drama e nos recitais agora que isto está a ficar sério. Estou tão feliz que parece que vou fazer de Alladin num musical da Broadway.

 

Nunca me imaginei numa Universidade, e agora dispo-me perante vós, leitores: se tudo corresse como planeado estava agora num cabaret a domar umas cinco fêmeas como se tivesse no circo du soleil do chavascal.

 

             A minha mulher ainda se encontra hirta e cheia de dúvidas. Muito tensa, até. A pensar que me podem chamar para fazer de Pipo num possível regresso dos Morangos. Já lhe chegou aos ouvidos também que – dizem – me meti nisto do teatro e assim porque era a via mais segura de conhecer mulheres – qualquer coisa, sou palhaço – e obviamente tranquilizei-a. Disse-lhe que o que mais ambiciono neste curso é fazer teatro de títeres ou escalar berbequins Dexter ou bordar torradeiras num cantinho da rua Augusta.

 

            Por fim, isto é tudo muito bonito, mas agora é um gajo aplicar-se e ser o Filipe La Féria da caloirada.

 

            Calma. Giro giro são as filas intermináveis para se fazer a matrícula. Mas há males que vêm por bem. Por exemplo: tempo para vos escrever, meu prestigiado público que me lê.

 

            Bem, meus caros leitores. Tenho a senha 56 e está no 53. Está quase. 54. 55. 56, finalmente!

 

Até daqui a quinze dias.

 

Herman JC

 

 

09
Set18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

Uma crónica de felicidade e cautela

 

Da minha janela, imagino Shakespeare a gritar, lá para as três da madrugada ajeitando de esguelha o seu colarinho felpudo tão másculo: - Puto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga um raminho de flores, aquelas que até fazem chorar os paralelepípedos da calçada. Isto acontece-me sempre quando reflito na insipida e rápida vida que temos e o quanto somos tão vulneráveis e impotentes perante ela, ou todas as vezes que recebo notícias que sobreaquecem o coração, algo do género: “Resultado: Colocado”. Então aí, nestes pequenos momentos, não precisamos de mais nada do que ler Shakespeare às escuras ou de tomar um banho de humildade, nunca descorando a sábia frase do meu tio, “vamos todos morrer, não te estejas para aí a gabar”. É verdade tio, é preciso ter cautela.

 

Entrei em Teatro e Artes Performativas, primeiro porque se não for pela Arte ainda fico como toda a gente. Segundo, como sou jovem ainda tenho muita energia para me masturbar de criatividade. Terceiro, para um dia fazer pouco dos meus colegas bem-sucedidos enquanto exponho com toda a criatividade a minha apetência em fazer de Rei Lear enquanto tiro uns finos no Avante. Vida de artista, é o que é.

 

Os meus pais ficaram muito contentes, viram no filho uma vontade exacerbada de nunca mais desejarem outro. “Este chega”, diziam eles e agora percebo o porquê. Há que ter um orgulho naquilo que o filho poderia ter sido. Agora estão na fase de adaptação, parece que têm um chacal em casa a recitar teatros de Bretch. Tenho que entrar no drama e nos recitais agora. Estou tão feliz que parece que vou fazer de Alladin num musical da Broadway.

 

A minha mulher permanece hirta e cheia de dúvidas num futuro próximo. Já lhe chegou aos ouvidos que – dizem –  me meti nisto do teatro e assim porque era a via mais infalível de adormecer nos lábios da madrinha de praxe. Tudo mentira, é claro. Vão dizer isso a ela. Para não dizer que – segundo ela – já era tempo de parar de me coçar e fazer-me à vida.

 

Em suma, é tudo muito divertido isto de ser universitário, eu que tinha uma opinião tão própria acerca dos transeuntes que lá estudavam. Bem, agora é matricular-me o mais rápido possível e começar o bem-bom. Espero é que esse bem-bom não venha com muito álcool, senão já estou a prever o desfecho. Mas como sou um rapaz equilibrado misturo sumo e bebe-se que nem ginja.

 

Estou a brincar, achavam mesmo que imaginava Shakespeare de colarinho felpudo?

 

Herman JC

 

 

 

02
Set18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

Pão e Circo

 

Tudo ou quase tudo o que aprendi, foram os mestres que me ensinaram

 

Estou numa cilada que não desejaria a ninguém. Hoje é sexta e tenho que escrever uma crónica que só vai ser publicada no domingo, falando sobre alguma situação que aconteceu no sábado. Estou num paradoxo temporal: tenho que falar no passado para leitores do futuro sobre algo que é passado para eles, mas futuro para mim. Não sei exatamente se tenho que prever o passado ou lembrar do futuro. É melhor escrever qualquer coisa que seja intemporal. Mas também não quero arriscar na pedofilia perpetrada por padres ou bispos ou sacerdotes ou qualquer tipo de entidade religiosa que tenha como centro das suas taras a vontade de exercer uma santa copulação a crianças que – segundo um sacerdote italiano a uma entrevista ao jornal, à La 7, em 2015 – estão a pedi-las. É engraçado como alguns padres se assemelham a alguns taxistas. Aqueles que têm a opinião que “as leis são como as meninas virgens, são para ser violadas” ou “se estava de mini saia estava a pedi-las”.

 

Com isto tudo já preenchi meia-dúzia de linhas, vomitei algumas ideias e o leitor, neste preciso momento, está a cuspir o dedo indicador e a virar a página. É legítimo. Os mais grosseiros dirão “se não tens nada para dizer, não digas” seguido de um impropério grotesco que o católico tanto repudia, os outros, os poucos que ainda mantêm alguma esperança que venha a dizer alguma coisa que os faça continuar a ler as minhas crónicas, continuam e continuam e é para eles que no fim entrego de borla um nome de um filósofo pré-socrático para que a leitura desta crónica e o tempo que disponibilizaram a lê-la não seja vã ou inútil.

 

É incrível como as palavras desapareceram sem avisar a hora de regresso, e vocês continuam com um invejável entusiamo como se estivessem a ver pornografia às escuras.

 

Já que eu não tenho assim grande coisa para vos oferecer a nível de aforismos, citações ou “bocas” que vos ajude a levar uma vida mais calma, mais serena, feliz e recheada de narcisismo, porque são quase quatro horas da manhã e o sono devia de ser o ópio para a inspiração e não o é, deixo-vos aqui algumas coisas que eu aprendi com inúmeros sábios, desde de Péricles à minha avó. Como estão a ver, tudo de grande qualidade. Cá vai:

 

Não há homem que não elogie a virtude e o esforço dos que morreram. Obrigado, Péricles.

 

Conhece-te a ti mesmo. Obrigado Sócrates.

 

Cada um de vós dará o seu melhor para um país mais justo, para um país mais pobre. Obrigado Sócrates.

 

            As mulheres são como as sardinhas, o avô come-as a todas. Obrigado avô.

 

            A vida é bela se a souberes viver. Obrigado mãe.

 

Não tenho invejo da juventude, mais cedo ou mais tarde morrerão como eu. Obrigado avó.

 

Para trás nem para pegar impulso, seu bosta. Obrigado Professor Clóvis.

 

Tens que perceber o seguinte: sabes se a gaja está interessada em ti quando ela ao olhar para ti mexe nos cabelos. Obrigado primo Zé.

 

O casamento é uma tragédia em dois atos: civil e religioso. Obrigado Barão de Itarare

 

Se trabalho em grupo fosse bom, os Beatles não tinham acabado. Obrigado Danilo Gentili.

 

O amor da minha vida sou eu. Ponto final, parágrafo. Obrigado G. Santos.

 

Se for para consumir é sempre mais barato porque são doses pequenas. Obrigado rapaz que não posso dizer o nome.

 

Em suma, queria só referir que as palavras já estão a começar a chegar, mas agora já tenho tudo escrito e seria de uma imbecilidade deletar isto tudo. Fica para a próxima, maltinha.

 

Como prometido o nome de um filósofo pré-socrático: Tales de Mileto.

 

De nada.

 

Herman JC

 

 

26
Ago18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

 

Peço desculpa. Voltei e prometo nunca mais ir.

 

 

Eu escrevo, não porque gosto, não por vaidade – seria embaraçoso escrever por vaidade – mas sim por irremediavelmente não me sentir bem se não o fizer.   

 

Sempre fui muito dado a todo o tipo de arte. Comecei desde novo a jogar futebol. Aprendi a tocar guitarra desde muito cedo. Estudei artes visuais quando percebi que só havia um caminho para a minha formação, contrariando toda a psicologia dos orientadores. Sempre gostei de ler e de escrever. Só comecei a dar a conhecer o que escrevia há muito pouco tempo. Eu escrevia para estar sozinho, para saber estar sozinho. Para me encontrar. Escrevia e desfazia o que escrevia logo que acabava de escrever. Eu vivia afastado de mim, até à hora que me sentava e olhava para o papel em branco que suplicava tinta. Matava saudades de mim mesmo num papel que estivesse à mão.

 

Desde muito cedo que me fazia acompanhar de velhos e de mortos. Saramago, na altura, por exemplo e Oscar Wilde ocupavam os meus dias mais lúgubres. Mas nunca deixei de viver, de me sujar na terra moída depois de um grande jogo de berlindes, de me apaixonar, de brincar, de foder, de chorar, de aproveitar tudo o que tinha direito. O que fiz, e o que faço é na ausência de mim. Só a escrever e quando estou na presença da pessoa mais importante da minha vida, a minha mulher, é que me sinto capaz, é aí que me encontro.

 

Fui bom em tudo o que fiz. Pode-se ser muito bom a fazer uma coisa, mas é legitimo procurar outras coisas que te completem ou que te deixem inconfortável. Escrever foi uma delas. Engraçado que só percebi isso quando me deparei que o que procurava estava mesmo de frente dos meus olhos. Eu procurava o que já estava encontrado. Uma busca sem sentido. De facto, escrever sempre me foi difícil, mas só tomei atenção depois de muito procurar. E agora escrevo porque encontrei a coisa que me faz perder o sentido na vida quando a deixo de fazer por um dia.

 

E agora escrevo. Escrevo porque quando escrevo ninguém me ouve, ninguém me vê. Fixo o olhar perante o abismo e tento me libertar das amarras da vida. Escrever é dançar o tango com a nossa própria consciência numa sintonia binária e compasso de dois por quatro. Escrevo porque a minha relação com as palavras é de um ódio tão particular que se transforma em amor quando as mesmas se debruçam no papel deixando-me completamente derretido de tanta beleza que nelas contém.

 

Eu vou continuar a escrever, a viver, e a aprender. Já deixei de procurar a razão pela qual me sinto útil. Agora é escrever e viver o resto do tempo com a mulher da minha vida.

 

Herman JC

 

 

 

05
Ago18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

Pão e Circo

 

Um pequeno latejar em nome dos melhores amigos do Homem

 

Tenho dois sonhos: um é instituir a paz no mundo. O outro é tocar pandeiro com o meu gigantesco falo no Marés Vivas – a solo. Nada disso interessa porque a paz no mundo é uma utopia e o tocar pandeiro com o falo é uma paródia grotesca de chavascal imundo só para entreter as mentes femininas que leem esta repelente crónica.

 

            Fora isso, confesso que entendo o exuberante entusiasmo do povo em geral quando em determinada altura começa a tocar a nova música do Toy. É perturbador esse êxtase, mas consegue-se compreender dado ao enorme bom gosto que normalmente a massa tem. Por exemplo, sabemos bem que as Variações de Goldberg de Bach está muito aquém da mestria e erudição do Coração Não Tem Idade do Toy, e reparem na fortíssima comparação que uso, vê-se que o autor, erudito como só ele sabe ser, domina tranquilamente cada género musical.

 

Agora: instituições de animais – os chamados canis – que continuam a não encontrar soluções para recolher animais abandonados deixando-os à deriva numa terra pecaminosa desde do inicio dos tempos, é que é de lamentar. Quem tem a possibilidade de ajudar estes pobres animais que chegam a ser mais humanos que os próprios humanos e mesmo assim não o faz é tão asqueroso e nojento (usei sinónimos propositadamente) como imaginar a Cicciolina com os seus sessenta e cinco anos a conceder uma copulação a um Equídeo.

 

Primeiro, os animais não têm culpa que os humanos sejam uma mixórdia de vários tipos de caca; segundo, se eu fosse um cão preferia ser capado três vezes sem anestesia do que alojar-me em alguns canis que por aí andam, canis esses que a única condição que eles têm é não ter condições. Aquilo não são canis, são barracões pré-fabricados de calhaus e arame farpado para dar a ilusão que os animais estão protegidíssimos e com um terreno de três metros por cinco para trezentos cães. Uma pessoa dirige-se ao canil para adotar um cão e aproveita e assiste a um tetris de matilha. Se observarmos bem percebemos que aquilo não são cães, são legos que ladram. Há mais cães abandonados do que vergonha na cara de quem tem a responsabilidade de mudar esta realidade.

 

Eu desfaço-me em risos com tanta instituição que proclama a boa ética da mesma nas redes sociais. Exerce em mim uma vontade imensa de tocar uma sarapitola enquanto reflito e chego à conclusão que, essas instituições percebem tanto de ética como eu de bijutaria. O problema de alguns canis é serem geridos por pessoas que gostam tanto de animais como eu gosto de escalar o Monte Evereste descalço.

 

Mas tudo isto, reparem, tem origem, direta ou indiretamente, numa coisa que se chama capitalismo. A miséria, a pobreza mental e financeira, a deficiência das instituições são o viagra de cada capitalista. Como a religião é o ópio do povo. Como a democracia é essencial na boa gestão do mundo. Como o feche éclair da braguilha é de uma extrema inutilidade, que devia acabar porque aleija, por vezes parece que morde aquando acabado de mictar.

 

 Observem, já que agora uma pessoa está tão entusiasmada neste assunto, também o descalabre que subsiste neste momento na sociedade, onde o capitalismo se ergue mais do que o meu pífaro em dias de orgia. Entrego-vos uma solução: uma suruba com todos os operários indignados tendo o prazer mais jucundo na aberta greta da burguesia. E assim poderia começar a despoletar um momento histórico na luta de classes. Confessem lá se não gostavam de enraber les burgeois como se fossem o Karl Marx da festa rija.

 

Em suma, o que realmente me preocupa a sério são aquelas pessoas que em determinado local fechado ainda continuam a usar os seus óculos escuros como se fossem o Pedro Abrunhosa no hipermercado de Mafamude.

 

Compreenderão agora a razão pela qual os animais são a única coisa que prevalece de bom na nossa humanidade?

 

Herman JC

 

 

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