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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

23
Ago18

Cidade de Chaves - Terreiro da Madalena

1600-(40511)

 

Em geral, quando estamos na cidade e atravessamos a ponte romana para o outro lado, dizemos que vamos à Madalena, e de facto assim é, vamos até à freguesia da Madalena, mas também lá as ruas e largos, cantos e becos, têm nome. Nem todos são vulgarmente conhecidos, mas há alguns que até o são, como por exemplo o Largo de S. Roque ou o Terreiro da Madalena, que hoje vos deixo em imagem. A História da Madalena anda a par da História da cidade de Chaves, pelo menos desde que há cerca de 2000 anos a ponte romana uniu as duas margens do Rio Tâmega. História da cidade que graças à sua localização geográfica sempre teve uma forte componente militar, à qual a Madalena também não foi alheia, inclusive chegou a ter muralhas, as seiscentistas, das quais ainda lá existem alguns pequenos troços. Este topónimo de Terreiro da Madalena assume ou é, em parte, uma herança militar, pois reza a história que os terreiros eram locais onde antigamente os besteiros se exercitava e praticavam, mas não só, pois é, ou melhor – foi e é, um autêntico terreiro, olhando literalmente ao significado da palavra: espaço amplo, plano e despejado; praça ou largo dentro da povoação; eirado. Em suma, o topónimo fica-lhe bem.

 

Na Toponímia Flaviense existem por lá mais uns apartes que têm a ver com a História da Madalena, mas no final há um que me chamou a atenção e que diz respeito a um pedido do Conde de Barcelos, D.Afonso, ou seja, o nosso Duque que tem estátua em frente à Câmara Municipal. Passo a citar:

 

É interessante referir que a pedido do Conde de Barcelos D. Afonso, filho de D. João I, foi criada a feira franca em Chaves, por carta régia de 10 de Setembro de 1410, a realizar-se anualmente em 22 de Julho, dia de Santa Maria Madalena.

 

Pois sempre gostei deste duque e ainda por cima tinha ideias, e felizes, que contrasta um pouco com a falta delas nos tempos atuais… Pois cá para mim, era bem interessante que esta feira franca se retomasse, na mesma data que é também bem interessante e se prolongasse por uns dias até meados de agosto, a realizar na Madalena (no terreiro da foto, Largo da Madalena, de S. Roque, Jardim Público e Alameda junto ao Rio, etc. recriando a época (que o povo gosta de folclore) mas com sentido, fazendo a História da cidade, com as personagens da época (onde até o Beto se poderia vestir de Duque, pois já deve andar cansado de esticar o braço de saudar à Cezar) mas fazendo uma autêntica feira atual (incluindo barracas e divertimentos, comes e bebes, etc.), onde pelo meio poderiam acontecer outros eventos e momentos, culturais, musicais e recreativos, onde até as bandas poderia ocupar o seu espaço no coreto e fazer umas verbenas. AH! E como o pessoal gosta de teatro e encenações, para os satisfazer, poder-se-ia encenar o Cerco a Chaves do Mestre de Avis, Rei que tantas ligações teve a Chaves e onde se casou e viveu o seu filho e nasceram os seus netos, que eram também netos de D.Nuno Alvares Pereira (tanta História que tem Chaves para contar): Claro que haveria quem tivesse de vender o seu fato de romano, ou então trocá-lo por um de bobo da corte, por exemplo, coisas da época…

 

E com esta me bou!

 

 

28
Jul17

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

GIL

 

Nota Prévia

Passando os olhos por um pequeno livro, esquecido, na estante de uma biblioteca pouco frequentada, dei com os olhos em dois textos que falam da nossa terra.

 

Trata-se de um livro da autoria de Fernando António Almeida, intitulado “Estórias de Portugal” editado pela Âncora em 2001.

 

A páginas 53 e seguintes, o primeiro texto fala-nos de um cerco à nossa cidade, no longínquo século XIV. O segundo dos sete filhos de Maria Mantela.

 

Por se tratar de duas “estórias” da nossa cidade e porque isto das estórias me é particularmente caro, reproduzo o primeiro texto, na íntegra, neste espaço privilegiado dos “discursos”.

 

O segundo fica para depois.

 

A RENDIÇÃO DO ALCAIDE

(O Cerco de Chaves)

 

Em 14 de Agosto de 1385 travam-se de razões em Aljubarrota os exércitos português e castelhano. Vitorioso no confronto, D. João I dirige-se ao Norte do país, a Guimarães, em romaria a Santa Maria da Oliveira, por cumprimento da promessa que fizera antes que entrasse em batalha. Aqui, prepara uma incursão a Trás-os-Montes, para ocupar alguns castelos que se mantinham fieis a D. Beatriz, a filha de D. Fernando e mulher de D. João I de Castela. Era o começo do Inverno.

 

E partiu El-Rei dali com suas gentes e muitos carros com engenhos e mantimentos e com outras coisas pertencentes à guerra. E entrou em Vila Real. E ali juntou a sua hoste e levou caminho de Chaves com intenção de cercá-la. E a festa de Natal teve-a El-Rei numa aldeia chamada São Pedro de Agostém, que é uma légua de Chaves.

 

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E dali iam alguns escaramuçar a vila, nas quais escaramuças morreu um cavaleiro que chamavam Álvaro Dias de Oliveira que atolou o cavalo com ele e, não podendo sair, ali o mataram. Mas neste mesmo dia, um João Gil Sapo matou por sua mão três da vila na ponte do lugar, pelo que foi muito louvado.

 

Este lugar de Chaves é uma vila de Portugal na qual estava um bom e honrado fidalgo português chamado pelo nome de Martim Gonçalves de Ataíde. À sua mulher chamavam Mecia Vasques Coutinha, irmã de Gonçalo Vasques Coutinho que esteve na batalha de Trancoso. No lugar estavam cerca de oitenta lanças de bons escudeiros e um número razoável de besteiros e de homens de pé. E tinha vindo também para a vila um cavaleiro galego da terra de Ourense que chamavam Vasco Gómez de Seixas, com trinta lanças e homens de pé e bons besteiros, de jeito que havia assaz de gente para a defesa do lugar. E tinham um trom pequeno e uma cabrita de lançar pedras. Tinham mantimentos em razoável quantidade. Já a água que nascia na vila era enxofrada, como água de caldas, mal-azada para beber, que a boa era a do rio que vai por fora dos muros.

 

Ponte_romana.jpg

 

Como Martim Gonçalves recusou entregar a vila, El-Rei cercou-a e pôs arraial sobre ela. E mandou armar os engenhos e atirar aos muros da vila e ao castelo e quebraram grande parte de duas torres que estavam perto do rio Tâmega. E El-Rei mandou fazer uma bastida, junto da ponte, para defender aquela água e combater a vila, bastida que tinha três sobrados e a que antigamente chamavam castelos de madeira. E a bastida estava forrada de caniços e carqueja, para guardar-se das pedras, e havia nela homens armados e besteiros, de tal maneira que os da vila não podiam tomar água do rio. E por isso El-Rei mandava dar cada dia um cântaro de água a Mécia Vasques, mulher do alcaide do lugar, por amor de seu irmão Gonçalo Vasques.

 

Sendo a bastida guardada daqueles que dela tinham cargo, acertou um dia que era à guarda de Vasco Pires de Sampaio. E estando ele ao serão ceando descansado no arraial, que era um bom pedaço dali, saiu do lugar muita força de gente, muitos com fogo, cada um fazendo o melhor que podia, e apesar dos que a guardavam, antes que os do arraial pudessem acorrer, que era longe dali, puseram-lhe o fogo e a bastida ardeu toda. E dali em diante tomaram os da vila livremente quanta água podiam e queriam.

 

E, vendo como seria má de guardar uma bastida que ali pusesse, mandou El-Rei fazer outra, mais perto do arraial, cerca duma das portas da vila onde estava uma boa torre, mas não tão chegada a ela que lhe pudesse fazer dano. E a bastida era tão forte, assim forrada de traves e caniços e coiros crus, que ainda que um engenho que tinham os de dentro lhe tenha atirado numa noite trinta pedras, de que vinte e sete deram nela, nenhuma lhe pôde fazer dano. Desta bastida, que era mais alta que o muro, não cessavam de atirar com bestas e pedradas àqueles que queriam andar por ele, de maneira que ninguém ousava por aí andar, nem nele estar. Enquanto isso, os engenhos de dentro da bastida atiravam amiúde, de dia e de noite, e derribavam no castelo e na vila muitas casas, e matavam gente e faziam muito dano. Os da vila atiravam com as bestas e com aquele trom e engenho que tinham, mas não era coisa que aos do arraial fizesse dano, ainda que muitas vezes houvesse feridos de uma parte e da outra.

 

chaves-med.jpg

 

E sabei como este cerco que El-Rei ordenou de pôr a Chaves foi bem proveitoso a muita gente desta comarca porque os mais deles estavam à míngua de mantimentos, por causa da guerra passada no tempo d'El-Rei D. Fernando e da vinda de D. Henrique de Castela ao reino. Assim que muitos, por sua vontade, se iam para El-Rei naquele cerco para haverem mantimento. E El-Rei mandava muito amiúde a forragem e entravam pela Galiza oito e dez léguas, à terra de Porqueira e de Sandiães e de Alhariz e outros lugares daquela comarca, com bons capitães à guarda das azêmolas, que sempre iam bem duas mil e às vezes mais. E vinham carregadas de pão e de carne e de castanhas e de nozes e doutros mantimentos e algum pouco de vinho, porque não é terra em que haja muito. E uma vez foram à forragem à terra de Viana de Bolo e quando vinham para o arraial caiu muita neve na serra e tanta que matou muitos homens e moços com frio.

 

Com tantas contrariedades, D. João I teme não conseguir fazer subjugar Chaves, ficando-lhe hostis outros castelos de Trás-os-Montes, como Bragança, Vinhais, Outeiro de Miranda, e outros ainda. Teme-se também que, estando tão perto da fronteira, o rei de Castela decida tentar vir, descercar Chaves. Considera D. João I que deve reforçar o seu exército. Apela então aos principais concelhos do país para que o auxiliem. De Lisboa e Sintra chegam reforços. Pede também auxílio a Nuno Álvares Pereira que se lhe junta em Chaves.

 

Enquanto estas coisas se passavam e algumas outras que não vale a pena dizer, os engenhos não paravam de atirar, de noite e de dia, fazendo muito dano ao lugar. E os da bastida também já começavam a derribar a barbacã desde abaixo e queriam picar o muro. E além disso ordenou El-Rei uma escada de tal maneira como na Espanha nunca antes tinha sido vista para pôr no muro da vila, de que todos se espantavam.

 

Martim Gonçalves, vendo todas estas coisas e receando ser entrado pela força, pois não se podia bem defender, ajustou então que lhe fosse dado o prazo de quarenta dias para que comunicasse com El-Rei de Castela. E, não lhe vindo resposta até esse tempo, lhe entregaria a vila e o castelo e eles sairiam com suas bestas e armas e haveres. E pôs-lhe Martim Gonçalves um seu filho por refém, em como se até aquele dia não fosse socorrido que lhe entregasse o lugar. E mandou à pressa recado a El-Rei de Castela de tudo o que se passava e em como se tinha ajustado.

 

Chaves Medieval.jpg

 

O escudeiro de Martim Gonçalves chegou a Zamora onde El-Rei de Castela estava e chegou tão alta noite que El-Rei repousava já na cama com a rainha sua mulher. El-Rei, como lho disseram, sem embargo de que já repousasse, levantou-se da cama. E, entrou o escudeiro na câmara e contou a El-Rei o cerco e o que acontecera e quanto havia passado Martim Gonçalves até que se ajustara. E El-Rei respondeu que não estava em tal ponto que lhe pudesse acudir como cumpria e que lhe quitava a menagem uma e duas e três vezes. E no outro dia escreveu El-Rei suas cartas a Martim Gonçalves, como lhe quitava a menagem e que se fosse para seu reino, onde lhe faria mercês e daria terras para que vivesse honradamente.

 

Tendo chegado o escudeiro com o recado, Martim Gonçalves, naquele dia em que se acabou o prazo, mandou dizer a El-Rei de Portugal que lhe queria dar a vila e o castelo, havendo já cerca de quatro meses que El-Rei o tinha cercado. Mas, antes disto, tinha ele já mandado sua mulher e filhos para um lugar que chamam Monterrey, que era dali a três léguas. Vasco Gómez de Seixas, que estava com Martim Gonçalves, veio falar a El-Rei à tenda onde estava e despedir-se dele. Martim Gonçalves não lhe quis falar. E no dia seguinte depois do prazo partiram ambos armados e os seus a pé, pois que alguns que tinham bestas tinham-nas fora do lugar. E os homens de pé e os moços davam vozes e apupos, escarnecendo deles, segundo é costume fazerem aos que saem de lugar cercado.

 

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Entrou depois D. João na vila de Chaves e no seu castelo, de que tomou posse. Ouviu missa. Armou cavaleiros. Deu a vila a Nuno Álvares Pereira, que com ele estava. O objectivo era agora Bragança e a ocupação dos outros castelos que ainda tinham voz por D. Beatriz e pelo seu marido, o rei de Castela.

07
Mar14

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

Os banhos de Aquæ Flaviæ

 

 

Brotam das parafundas da nossa Veiga águas enxofradas e mui cálidas, desde que o mundo é mundo e o Tâmega corre ó p’ra baixo.

 

Uns dizem que as esquentam as paredes do inferno, outros um vulcão (!) que um dia nos há-de engolir e outros uma caldeira a que ninguém sabe o poiso. Seja como for, o certo é que desde tempos imemoriais que esta fonte geotérmica vem sendo o ex libris da região. A ela se deve o lugar e o nome da nossa excelsa cidade.

 

Nas margens do curso de água que, preguiçosamente, atravessa o povoado, aproveitando o atalho cavado pela falha geológica que originou a Veiga, aflora aquela água, no epicentro da urbe a que os romanos quiseram chamar Aquæ Flaviæ. À principal fonte, sita no Tabolado, os flavienses puseram o nome de Caldas.

 

Foram os romanos, povo conquistador, que no século I delas se apossou à força da Sétima Legião Gémina de Titus Flávius Vaspasianus. Os de Roma depressa lhes encontraram proveito. E tanto as usaram para sarar as maleitas do corpo, como as do espírito. Para o efeito construíram balneários, dando assim o corpo a banhos e a alma à prodigalidade ao ócio e quiçá à intriga.

 

 

Sempre houve dúvidas sobre a verdadeira localização destes banhos. Uns afirmavam que estariam soterrados nos caboucos do Convento dos Anjos, outros na foz do Ribelas, na sua margem esquerda. Afinal, nem estavam num sítio nem no outro. Descobriu-se, em 2008, estarem no Arrabalde sob o terreiro do antigo mercado municipal. Ali se mantiveram, provavelmente, até ao século V, altura em que os Suevos invadiram a cidade e os teriam destruído. Sabe-se que deveriam ter sido reconstruídos, uma vez que foram de novo demolidos, por razões estratégicas, no período da Guerra da Restauração, entre 1640 e 1668.

 

O Dr. Francisco da Fonseca Henriques, natural de Mirandela, médico de D. João V, rei de Portugal, dedica aos banhos de Chaves[1] algumas páginas da sua obra Arquilégio Medicinal. É muito interessante o relato e talvez um dos mais antigos que se conhece. Pelo interesse, convoco algumas das mais curiosas passagens. Respeitarei a forma original da letra para maior proveito do leitor. O Dr. Mirandela, como era conhecido, começa por nos dizer que:

 

“Estas são as melhores Caldas que há neste Reyno para achaques frios de nervos, de juntas, e mays partes do corpo, a que se devaõ aplicar banhos de Caldas. Nascem ellas entre a muralha da fortificação da Praça de Chaves e o rio Tamega, em huma grande planície, a que os naturaes da terra chamaõ Tabolado, por ser lugar em que fazem os seus festejos de cavallo, e os exercícios militares; e alli abrindo huma cova, com a mão que seja, em qualquer parte deste território, sahe em muyta copia ágoa calidissima, que tirada das Caldas, se conserva quente nas quartas todo hum dia.”

(Henriques, Francisco da Fonseca, Arquilégio Medicinal, pp. 26-27)

 

 

 

De seguida relata alguns episódios de cura, quase milagrosos:

 

“São estas ágoas tão eficazes em curar os achaques frios de nervos, que excedem a quantas Caldas temos em Portugal, e às de Ledeima em Castella. Em algum tempo houve casa de banhos no mesmo sítio das Caldas; mas na guerra da feliz acclamaçaõ delRey D. João IV as mandou desnecessariamente demolir o conde de Mesquitella, que governava as armas daquela Província; deyxando privados os doentes do benefício das Caldas; de tal maneyra que da mesma província, e da mesma terra das Caldas, estavaõ indo às de Ledeima buscando o remedio que deyxavam em suas casas, ou às suas portas, pelo esquecimento em que ficaraõ depoys que naõ houve casa de banho em que se usassem; até que nós as lembramos, porque vendo a qualidade, e copia das agoas, que nos pareceraõ excelentes para os ditos achaques, aconselhàmos a alguns doentes que tomassem banhos em tinas, com que se curavaõ felizmente. A primeyra pessoa que de distancia de sete legoas fizemos ir a estas Caldas, foy huma mulher nobre, já quadragenária, que havia anos estava com huma parlisia universal, de forte lesa, que só a língua movia, e falava.Entrou a tomar banhos de tina; e no terceyro se restituio o movimento de maneyra que andou pela casa, e continuando com elles, sarou perfeytamente. Este caso fez resucitar estas Caldas por ser esta pessoa conhecida em toda a Provincia e assim foy havendo concurso a ellas com admiraveys sucessos.

 

[mais à frente continua]

 

A Condessa de S. João Dona Anna de Lorena, hoje Religiosa no Convento da Madre de Deos dessa cidade, tomou banhos destas agoas em Nantes, lugar distante meya legoa de Chaves, e sempre se batiaõ muyto, para ficar em calor moderado, capaz de tomar banhos, com que melhorou das queyxas que padecia.

 

Luis Vahia Monteyro, hoje Governador do Rio de Janeyro fez ir agoa destas Caldas a Villasboas, distante de Chaves dez legoas, onde sua mulher tomou banhos, para se curar de alguns achaques, de que se temia huma esterilidade; e ainda que a agoa chegava fria, e se aquentava para entrar no banho, eh tal a sua virtude, que a curou dos achaques que padecia e pouco depoys da cura se fez fecunda. As pessoas, que por pobresa naõ podem tomar os banhos em tinas, fazem uma cova em que caybaõ no mesmo lugar das Caldas, e alli se enterraõ para não morrerem; porque assim se curaõ.” (ib. ibid.: pp. 28-29)

 

 

Ainda um caso que considera prodigioso:

 

“Entrando hum pobre muyto hidropico no pátio das Casas de Duarte Teyxeyra Chaves, que nesta Corte foi Conselheyro do Ultramarino e Tenente general de Artilharia da Corte, e Reyno, o mandou recolher sua mulher em huma casa terrea no mesmo pátio fazendo-lhe chamar Medicos, e Cirurgiões, que o curassem. Prohibiaõlhe eles agoa; mas o pobre apertado de sede, la se arrastava como podia, e foi bebendo daquella agoa de que usavaõ os porcos, cujas viandas se fazem com agoa das caldas; e em breve tempo estava saõ o hydropico, sem saberem os Medicos a que atribuir a melhoria, até que o doente confessou o delito, que foy todo o seu remedio.” (ib. ibid.: p. 31)

 

Depois diz-nos que:

 

“Nos gallicados as usamos também algumas vezes; naõ para os curar de gallico, que isto faz melhor o Mercurio, mas para os achaques de nervos que necessitavaõ de Caldas. E doente houve, que sendo toda a sua vida valetudinario, e morboso, o que se attribuía a ser filho de pays gallicados, e a ter elle, adquirido também este contagio, dando-lhe hum estupor legitimo no rosto, lhe aconselhamos banhos destas Caldas, de que usou tomando ao entrar no banho hum xarope de salsa parrilha, como se costuma fazer nos suores de estufas, e tendo depoys regimento da mesma salsa, naõ só se curou do estupor, mas ficou com muyta boa saúde remediado de todos os mays danos, que se imputavaõ ao contagio gallico.” (ib. ibid.: p. 32)

 

E ainda que:

 

“Nós sabemos de huma menina de seis meses, que tomou no mês de Agosto dezoyto banhos, em nove dias, para se curar da debilidade, ou laxaçaõ de huma perna, que não podia mover, de que houve o bom sucesso que se dezejava.” (ib. ibid.: p. 33)

 

Numa breve fussadela pela história das Caldas de Chaves, e seguindo de perto o relato doNovo Aquilégio[2], percebemos que, em 1807, dois anos antes da visita indesejada dos franceses do duque da Dalmácia, houve um primeiro projeto de construção de um balneário para banhos. Porém, a montanha pariu um rato e o projeto quedou-se tão simplesmente por uma singela proteção a uma das muitas nascentes, mandada erigir pelo futuro rei João VI. Dela ainda se conserva a lápide exposta junto da atual buvette: MILIT. XENODOCH.UTILIT. O.PUBLIC. JOAN.PRINC:REG:O:P:P:= A N MDCCCVII

 

 

Mais tarde, já em 1892, Alfredo Luís Lopes relatou desta forma um outro projeto de construção do balneário, que se haveria de quedar pela intenção:

 

“Consta-me que ultimamente por iniciativa do visconde de Alentem, do Porto, se projecta a construção de um grande estabelecimento hidroterápico, em que convenientemente se explorem as especiais águas da municipalidade de Chaves. É para desejar que tão louvável projecto se realize e que, no futuro balneário, se instalem os banhos de vapor mineral, a que estas termas tanto se prestam e que poderiam, perfeitamente, rivalizar com as de Baden-Baden. Os banhos davam-se então em pensões ou casas particulares para onde a água mineral era transportada sem perder o calor: É tão elevada a termalidade das águas que para quase todas as casas de Chaves elas são transportadas, a fim de ainda quentes se aproveitarem em usos medicinais e caseiros.”

 

Em 1899, a Câmara Municipal de Chaves adquiriu o alvará de exploração das águas. Nesse mesmo ano, confiou a Terra Viana a missão de elaborar um estudo para uma edificação balnear.

 

A Crónica da Vila Velha de Chaves, em 1912, relata que a primeira câmara republicana da cidade adjudicou as Caldas ao banqueiro flaviense Cândido Sotto Maior, com o compromisso da construção de um balneário. Contudo, a Grande Guerra e as dificuldades de transferência de fundos do Brasil para Portugal, onde este capitalista tinha a sua riqueza, inviabilizaram os seus planos, abortando o desiderato em 1919. Em 1920, o coronel Aníbal Montalvão planificou um novo projeto, interrompido pela sua morte em 1923.

 

 

Em 1934, a Câmara Municipal mandou construir uma buvette, ao tempo muito criticada. Sobre essa captação escreveu Joyce Diniz, em 1940:

 

“A captagem não oferece garantia hidrológica nem higiénica e sobre ela mandou construir a Câmara daquele Concelho uma buvette, que não foi autorizada pela direcção Geral, a água é levada para várias pensões vizinhas, nem só modestas mas mesmo sórdidas, onde são dados banhos. A água termal anda perdida entre as areias, nas margens do Tâmega, rebentando à superfície, em diferentes pontos. No vasto areal da margem do rio e junto à buvette, têm lugar periodicamente grandes feiras de gado de que resulta, forçosamente, a impregnação das areias pelas urinas de milhares de cabeças de gado vacum, suíno, caprino, etc. E é através dessas areias que corre a água medicinal, para chegar à buvette, aonde é distribuída ao público gratuitamente, por uma empregada vestida de bata branca, paga pela Câmara Municipal, consequentemente com chancela oficial.”

 

 

 

Na Hidrologia Portuguesa de 1946, o engenheiro Acciaiouli também fez menção, aliás muito pouco abonatória, àquela exploração que não contava ainda com qualquer balneário. Em 1945, tinha sido nomeado um diretor clínico, que, segundo aquele engenheiro, tivera de “vencer grande resistência para a inscrição dos doentes, desde sempre habituados a fazer o tratamento como queriam. Somente a empregada da Buvette dava as suas indicações sobre a quantidade de água a beber.” Acciaiouli termina o seu escrito referindo que se guardava a resolução do governo sobre as medidas a tomar a fim de terminar esta irregular situação.

 

Aquele diretor clínico era o flaviense Mário Gonçalves Carneiro, que, em 1945, tinha defendido em Coimbra a sua dissertação ao doutoramento, sob o tema dasCaldas de Chaves.

 

Contudo, o Tabulado estava quase na mesma e a buvette, tão criticada em 1940, continuava firme e hirta. Tratava-se de uma construção semicircular, aberta em colunas para o exterior, ao gosto da primária arquitetura do Estado Novo.

 

O local foi assim descrito por Mário Carneiro:

 

“Apenas existia uma Buvette com colunas ao gosto romano, de água não captada, e junto algumas Pensões e Hospedarias, uma delas a Pensão Jaime construída mesmo junto das nascentes, todas rodeadas de terrenos onde eram lançados os estrumes de lojas de animais e feitas várias plantações hortícolas. […] Numa enorme extensão de terreno plano, chamado Tabolado, realizava-se semanalmente a feira do gado e no ribeiro Rivelas lavava-se roupa doméstica e num poço de água quente ao lado da Buvette depenavam-se galinhas. Na cidade havia o chamado Grande Hotel (com vinte e três quartos de dormir e sete quartos de banho), e várias Pensões.”

 

O médico montou o gabinete de consultas na sua residência da Rua Direita. Aí recebia os pacientes e prescrevia o tratamento, constando, geralmente, da ingestão de água, de banhos e de dieta. A prescrição era entregue pelo aquista no Hotel de Chaves ou nas pensões que possuíam quartos de banho ou que tinham prática balnear com tinas portáteis.

 

 

 

Em 1948, o direito de exploração das águas foi vendido, por cento e vinte contos, à empresa Termas de Portugal. Curiosamente, esta empresa tinha sede em Lisboa, no endereço do palácio do banqueiro Sotto Mayor. Este comprometeu-se a executar as captagens e a construção de um balneário e de uma nova e mais moderna buvette.

 

 

Em 1949, iniciaram-se, por conta do Estado, as obras de desvio do Ribelas e a demolição da antiga buvette. No ano seguinte, finalmente, abria o edifício provisório dos balneários. Em 1952, foi inaugurada uma nova buvette. De arquitetura arrojada, contrastante com a da cidade, esta nova estrutura em cimento armado tem a forma circular, com cobertura em cogumelo, assente em colunas. A nova edificação, contemporânea da ponte Engenheiro Barbosa Carmona, que, finalmente, aliviava as costas à velhinha Ponte Romana, emprestava uma cara nova a uma cidade velha. Esta buvette aparece descrita no Anuário de 1963 nestes termos: ”Pelas suas proporções e traça arquitectónica deve ser considerado como um dos mais belos exemplares das estâncias crenoterápicas portuguesas.”

 

 

Em 1962, as termas regressaram à edilidade, a qual, com auxílio do Estado, as reaveria por mil e duzentos contos de réis. Desde logo se haveria de providenciar à construção de um novo e mais amplo balneário, concretizado dez anos depois e inaugurado em 1973. Um dos melhores da Europa termal.

 

Numa obra publicada em 1964, sob o título As Caldas de Chaves no Passado, no Presente e no Futuro, Mário Carneiro dedicou o último capítulo a este novo balneário. Propôs a construção de um hotel próximo que pudesse acolher os aquistas que crescentemente procuravam as curas destas águas. Curiosamente, mencionou também aquilo a que chamava nascentes bastardas. Identificou algumas delas, arredias da concessão camarária: a de água férrea, a meia distância entre a buvette e a ponte do Ribelas; a das poldras do Tâmega, um pouco a jusante destas pedras salteadas que atravessam o rio; a da pensão Rito, no seu quintal da rua das Longras; as da rua do Tabolado, uma na pensão das Caldas, e outra no quintal do Dr. João Baptista de Morais e, ainda, a do Grande Hotel de Chaves, cavada em poço fundo.

 

 

 

O dedicado diretor clínico, que emprestou quase toda a sua vida profissional a estas águas, esclarece-nos que, em 1982, se tinha procedido a uma perfuração da rocha aquífera e a obras de recuperação de toda a área envolvente do parque termal. Algumas unidades hoteleiras foram renovadas e construído o Hotel Aquae Flaviae, com ligação interior ao balneário, que haveria de ser ampliado, em 1992, para uma melhor resposta aos utentes aquistas.

 

 

O Dr. Mário Carneiro, Carneirinho, como carinhosamente era conhecido por todos, continuou como diretor clínico das Caldas de Chaves até 1 de Janeiro de 2004. Aposentou-se após 58 anos de dedicação às Caldas de Chaves. Antes, a 22 de Setembro de 1996, após cinquenta anos da sua tomada de posse como diretor clínico, a Câmara de Chaves, muito justamente, prestou-lhe homenagem, atribuindo-lhe a Medalha de Ouro da cidade e construindo-lhe um busto no espaço das Caldas. Faleceu em 5 de Julho de 2008. Muito lhe deve a cidade e os flavienses.

 

 

 

Em 2005, iniciaram-se as obras de renovação das margens do Tâmega no âmbito do Programa Polis. Esta obra, há muito concluída, é a menina dos olhos dos flavienses, por proporcionar espaços idílicos para ocupação das horas de ócio. Com estas obras de requalificação, finalmente, as Caldas e o espaço envolvente ganharam a dignidade que se impunha há séculos.

 

Para terminar, umas notas curtas, saudosas, sobre as nossas Caldas:

 

Sabiam que a água quente, durante anos, foi acarretada à cabeça em cântaros de barro até às pensões onde os aquistas tomavam banhos e até às casas particulares para os usos mais diversos? Mais tarde, usaram-se os de folha da Flandres. Anos depois, apareceram os aguadeiros que transportavam os cântaros em estruturas montadas em mulas, machos e burros, o que permitia menos viagens, menos esforço e menos tempo. Depois, em carroças próprias e, mais tarde, até em automóveis. Era um negócio a que alguns se dedicavam.

 

 

E dos hóspedes do saco, ouviram falar? Pois, eram os hóspedes pobres que vinham a tratamentos mas que não podiam pagar a pensão completa. Por isso, arrendavam um quarto numa pensão ou numa casa particular, com contrato do uso da cozinha. Aí cozinhavam o que traziam no saco. A Pensão Jaime era das que tinha mais destes hóspedes.

 

E quem se lembra dos esgotos que conspurcavam o rio a montante da Ponte Nova? Aí desaguava também um ancho cano de água quente das Caldas. No inverno, com o frio das geadas, parecia a chaminé do Texas. Lá se depenavam as galinhas e se pelavam os leitões. Também nesse espaço, entre a maior imundice, alguns se fartavam de pescar barbos, bogas, escalos e reibacos que vinham à babuja do esgoto. Depois, percorriam as ruas da cidade vendendo o peixe porta a porta!..

 

Quem de nós, depois das tainadas e dos copos, não foi cuidar da digestão, difícil, à bica das Caldas?

 

Quem de nós não foi aquecer o traseiro e desengaranhar as mãos e a língua, nas noitadas de geada, à chapa inox dos poços das Caldas?

 

Quem de nós não foi para os recantos da buvette, pró roço, com as moças catrapiscadas nas tardes soalheiras de primavera no Jardim das Freiras?

 

Tempos de outras caldas!

 

As Caldas de Chaves fizeram e continuam a fazer a cidade grande e bela. Hoje constituem-se num espaço que enche de inveja qualquer forasteiro que nos visite. Nós, muitas vezes, não lhe damos o verdadeiro valor porque os santos de casa continuam a não fazer verdadeiros milagres!..

 

Fazemos mal, porque águas destas não correm em qualquer cano!



[1] Cap. I Título XV pp. 26-33

15
Mar10

Chaves de Ontem de de Hoje - A Ponte Romana de 1900 até hoje

Vamos a mais três imagens do mesmo motivo, que no tempo, são separadas apenas por pouco mais de 100 anos.

 

Trata-se da Ponte Romana ou de Trajano, a nossa Top Model  e ex-líbris da cidade de Chaves, construída pelos Romanos nos anos 70 D.C.

.

 

Imagem de 1900 (aprox.)

Se houve povo que sabia o que fazia em termos de construção, esse, sem dúvida que foi o povo romano. Há 2000 anos construíram estradas, edifícios, pontes barragens, condutas de águas e saneamento, etc,  tudo com técnicas apuradas de engenharia e da arte de bem construir às quais ainda hoje se lhes tira o chapéu. Sabiam o que faziam com arte e a resistência necessária para naturalmente chegar até aos nossos dias, principalmente em pontes que ainda hoje estão de pé para testemunhar isso mesmo, tal como a nossa, que até aos anos 50 do século passado, era a única ponte que Chaves tinha.

 

Gosto de vez em quando de fazer o exercício mental de a imaginar na integra, tal qual os romanos a construíram, com todos os seus arcos à vista e sem as casas adossadas a ela, ou seja, ainda antes da ganância do homem entrar pelo leito do rio adentro.

.

 

Imagem de 1936

Há quem defenda que a ponte teria inicialmente 16, 18 ou até 22 arcos. Embora a hipótese dos 22 arcos pareça exagerada, não o é assim tanto e poderá ser até possível para cobrir o leito de cheias da cidade romana que todos sabemos estaria a uma cota de 2 a 3 metros (no mínimo) inferior à cota atual da cidade, assim o indicam os achados arqueológicos. Partindo também do princípio que a ponte seria simétrica em relação aos padrões da ponte, teríamos no mínimo 18 arcos, a julgar pelos 9 arcos ainda visíveis na margem direita do rio. Se partirmos como verdadeiro a cota de então ser inferior à atual em 2 ou 3 metros, possivelmente existiriam mais dois arcos para cada lado da ponte. A ser assim, com 18 arcos a ponte teria um tabuleiro com cerca de 200 metros de extensão e a ter 22 arcos, a extensão do tabuleiro atingiria os 250 metros.

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Imagem atual

Enfim, a conclusão primeira que se tira de tudo isto, é que os crimes urbanísticos em Chaves, já não são coisa recente e pelo menos já vêm desde há 300 ou 400 anos. O último, cometeu-se nos anos 30 do século passado, com um aterro que roubou cerca de 30m ao leito do rio, deixando sobre este apenas 8 arcos desimpedidos. Posteriormente, em 1980/81, recuperou-se mais um arco para o rio, ficando com os atuais 9 arcos desimpedidos. Pena que não se tivesse recuperado pelo menos os outros 3, que hoje, com o espelho de água, dava um ar bem mais interessante à envolvente da ponte. Pena, também, que quem hoje projeta para a cidade, não conheça a sua história e a sua alma.

 

As imagens dizem tudo, mas claro, haverá sempre quem não queira ver!

Só a título de curiosidade, entre o 2º e o 3º arco da margem esquerda, falta um arco.

 

 

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