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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

02
Out15

O Barroso aqui tão perto... Hsitórias da Vermelhinha de Bento da Cruz

montalegre (549)

 

OS DOIS COMPADRES

 

Era uma vez dois compadres: um barrosão, outro galego.

Um domingo à tarde, o espanhol veio visitar o português. Após os cumprimentos da praxe, efusivos de parte a parte, o barrosão convidou o compadre para a merenda. Eram chouriças, pão e vinho. O galego deu um estalo com a língua:

— Que ricas chouriças!

— Gosta?

— Nunca na minha vida comi algo que tanto me soubesse.

— Pois bote-lhe para baixo.

— Como é que faz para as chouriças ficarem tão saborosas?

— É um segredo que nunca revelei a ninguém, embora muita gente mo tenha pedido. Mas ao compadre, eu daria a própria vida, quanto mais o segredo das chouriças. É o seguinte: antes de matar os porcos, encho-lhe a barriga de pão-de-ló, vitela, marmelada, letria, figos, vinho do Porto, tudo coisinhas boas. Depois é só espetar-lhes a faca, tira-lhes as tripas e pô-Ias ao fumo.

— Obrigado, compadre. Vou fazer o mesmo.

O galego foi para a terra comprou um cochino e cevou-o a doces, caramelos, ternera, compotas, anis e outros manjares finos. Depois sacou-lhe as tripas e pô-Ias assim mesmo ao fumo.

Quando as chouriças lhe pareceram maduras, meteu duas ao pote para provar o fumeiro. Comeu a primeira duma assentada, arrotou e torceu o nariz:

- Pero, se não soubesse o que o porco tinha comido, havia de jurar que isto era merda, coño!

1600-p-fontes-mouri (257)

 

Doutra feita, o português foi visitar o espanhol. Este fez uma grande fogueira e sentou-se no escano, de mãos estendidas para as chamas e a dizer para o hóspede:

— Chegue-se para o lume, compadre. Que uma boa fogueira é meia mantença...

— E a outra meia? — perguntou o barrosão, que já tinha a barriga a dar horas.

— Não se preocupe usted. Tenho aqui duas peruas no pote que valem duas galinhas. Com uma areia de sal e um naco de pão, quedamos que nem dois curas.

— Venham de lá essas peruas, compadre.

Então o galego, todo radiante, sacou duas cebolas do pote...

Tempos depois, o espanhol veio pagar a visita. O barrosão acendeu duas fogueiras, pôs um banco ao meio e disse ao hóspede:

— Sente-se aqui, compadre. Que duas boas fogueiras são mantença inteira...

1600-p-fontes-mouri (274)

 

Doutra ocasião, o espanhol convidou o português para ir merendar com ele à Senhora da Saúde, no sopé do Larouco.

O barrosão lá estava, à hora e dia combinados. O galego chegou pouco depois, com um saquitel a tiracolo. Fazia calor. Sentaram-§e na relva, à sombra dum carvalho. Enquanto conversavam, o barrosão reparou que o galego não largava o saquitel.

— Que traz aí, compadre?

— Frango assado, metade dum queijo, duas panochas e uma botelha de vinho.

— Quer fazer uma aposta comigo?

— Diga, compadre.

— Vamos dormir a sesta. O que tiver sonhos mais bonitos, come o farnel; o outro, chucha no dedo.

— Apostado!

Estenderam-se na relva, à sombra do carvalho, e adormeceram.

O galego dormiu, roncou e esfueirou-se até mais não. Só acordou quando uma vespa lhe entrou para uma venta, julgando por aí que era um favo.

— Então que sonhou usted, compadre? — disse o português.

— Ai compadre, que sonho mais lindo! Sonhei que era um anjinho e que tinha voado para o céu... Vi Jesus Cristo, a Virgem Maria, o apóstolo Santiago, meu padrinho, e todas as

Belezas e delícias que a Santa Madre Igreja nos promete na outra vida... Que sonho mais lindo! E o compadre? Que sonhou usted?

— Eu, para dizer a verdade, nem cheguei a fechar os olhos. E quando vi o compadre no paraíso, convenci-me de que nunca mais cá voltava e comi a merenda...

1600-p-fontes-mouri (35)

 

Numa e noutra, entraram na guerrilha patriótica: ambos queriam ser mais um do que o outro.

Um dia o espanhol mandou recado ao português para o ir ver, que tinha uma novidade para lhe mostrar.

O barrosão foi. Encontrou o galego feliz da vida.

— Então essa novidade?

— Depois. Primeiro o almocinho.

A mesa já estava posta. Pulpo à la féria com batatas cozidas. Estava o português no postre, sente a barriga aos pulos. O galego parece que já estava a contar com aquilo.

— Se passa algo, compadre?

— Tenho de ir à horta...

— Qual horta? Em minha casa não se vai à horta, compadre! Em minha casa...

E o galego saboreava o triunfo. Era a novidade: um quarto de banho moderno, todo automático... O português nem se atrevia a baixar as calças, para não borrar a baixela. Mas o sacana do galego devia ter-lhe ministrado qualquer substância purgativa na sobremesa... Teve de correr para a sanita, se não queria desfeitear as ceroulas...

Enquanto cagava, o portuguezito soltou mais ahs! do que traques. Mais admirado ficou quando, findo o parto, aliás fluente, avança de lá um braço automático, munido de algodão em rama, e lhe limpa o cu...

O galego esperava-o à porta, ar de triunfo.

— Então?

— Coisa rica, sim, senhor!

— Disto é que não há em Portugal...

— Alto aí. O meu quarto de banho não é tão rico... está mesmo a cair de podre... mas sempre foi automático!

— Que vá?

— Não acredita? Venha comigo.

Vieram para o Barroso. A meio caminho, diz o galego:

— Parece que me estão a chegar as de parir...

— Já agora, aguente um bocado, que estamos perto.

Estugaram o passo, não fosse por lá o galego borrar as bragas.

À entrada do povo, diz o português:

— Eu vou indo à frente, compadre, para ver se o quarto de banho está livre.

Ora o quarto de banho do barrosão era um buraco redondo, à medida do cu, donde, da varanda, se cagava directamente para o pátio.

O português enfiou uma estriga de linho na ponta duma cana e disse a um criadito que lá tinha:

— Pões-te aqui debaixo da varanda e, quando o meu compadre acabar, percebeste? limpas-lhe o cu.

Nisto chega o galego, muito atrapalhado:

— O quarto de banho, que estou aflito?

— Ali, compadre! - respondeu o português, indicando-lhe o buraco, ao fundo da varanda. — Cague à sua vontade e que lhe preste.

De aflito que estava, o galego pôs-se logo de cócoras, sem tempo para qualquer comentário.

Quando, já aliviado, se preparava para gozar o português, o rapaz passou-lhe duas vezes a estriga no cu. Intrigado, o galego meteu o nariz no buraco, para ver o que era que lhe estava a fazer cócegas no rego. Não se apercebendo do câmbio, o rapaz passou-lhe a estriga nas ventas...

— Pero, este, ademáis de automático, é de repeticion, coño! — repetia o galego limpando as fúcias ao canhão da véstia.

 

Bento da Cruz, in «Histórias da Vermelhinha»

25
Ago15

O Barroso aqui tão perto... Histórias da Vermelhinha

montalegre (549)

 

Pelo Tribunal

 

O Regedor de Donões

 

Um dia o Regedor de Donões andava com as vacas num prado ribeirinho ao Cávado. Era Janeiro e os montes cobertos de neve. Nisto, vê chegar um figuro junto do rio e começa a despir-se.

 

O Regedor, que andava a limpar uns regos, recostou-se ao cabo da sachola.

 

— Ó alma perdida! Tu que vais fazer?

 

O desconhecido fez que não ouviu.

 

— Não me digas que te queres deitar à água com um frio destes…

 

O promitente banhista acabou de se despir e foi colocar a roupa em cima de uma pedra.

 

— Não, catano! — disse o Regedor, virando o rabo à sachola.

 

Ia já o figurão a correr para formar o mergulho, cai-lhe o Regedor em cima de sachola em riste.

 

— Ó filho da puta! Que apanhas alguma pneumonia que te leva o diabo…

 

Só então o banhista se apercebeu do perigo e fugiu, direito à roupa. Mas não tão lesto que não apanhasse duas derrabadas testes pelas nádegas.

 

— Eu é que te dou o banho, maluco dos infernos… — gritava o Regedor , correndo e brandindo a sachola atrás do tipo.

 

763-montalegre (763)

Quando o viu longe do rio, regressou para junto das vacas, monologando, com voz incrédula:

 

— Um homem vê cada um neste mundo…

 

Dias depois, tinha o citote à porta:

 

— Assine aqui.

 

— Que é isto?

 

— Uma contra-fé.

 

— Para quê?

 

— Comparecer no tribunal no dia e hora aí indicados.

 

— Mas para quê?

 

— Você lá sabe.

 

— Se soubesse não perguntava.

 

— Não fez nada ao juiz?

 

— Quem?...

 

O Regedor tirou-se dos seus cuidados e foi ter com o advogado. Afinal, já toda a vila sabia da história: o banhista era o novo juiz da comarca, um morenaço com a mania do desporto ao ar livre. O advogado muito se ria.

 

— Ora conta lá, João: ele estava mesmo em pelote?

 

O Regedor coçava a cabeça.

 

— E agora, doutor?

 

— Não te aflijas. Eu trato do caso.

 

Chega o dia do julgamento, estava o meritíssimo no seu trono, o delegado na sua poltrona, o Regedor de Donões no banco dos réus, a sala cheia de gente.

 

Pergunta o juiz:

 

— Sabe do que vem acusado?

 

— Eu não.

 

— Lembra-se de, no dia 13 de Janeiro, pelas 11 horas, quando eu me preparava para tomar banho na represa do Moinho Velho, o senhor me ter insultado e agredido?

 

— Ó raio! Ai ele eras tu? Olha que te não reconheci, catano…

 

O juiz olhou para o escrivão. O escrivão, que também estava por dentro da marosca, fez o gesto de furar a testa com o indicador, como quem diz: « É maluquinho…»

 

— Mande lá o homem embora — remata o juiz, após breve hesitação.

 

1600-montalegre (233)

 

A Rosária

 

Esta do Regedor de Donões fez-me lembrar uma da Rosária.

 

A Rosária foi a última recoveira a muar a carroça entre Montalegre e Chaves. Mulher de estrada que era, tinha uma língua de fazer corar um almocreve.

 

Um dia, estando a Rosária a despejar água na valeta da Rua Direita, apareceu a guarda republicana.

 

— A senhora não sabe que é proibido fazer despejos na via pública?

 

— Oh, almas do diabo! Não vistes vós a puta da Cândida ainda agora a fazer o mesmo… Só tendes olhos para a desgraçada da Rosária…

 

— Tento na língua, senão…

 

— Se não, o quê?, «carvalho»?

 

— Apanha duas multas. Uma, por infracção às posturas da Câmara; outra, por ofensas à autoridade e à moral pública.

 

— Oh! «Carvalho»!...

 

A Rosário nunca mais se calou e os guardas carregaram-lhe nos calos.

 

Foi a multa para tribunal.

 

No dia do julgamento, o juiz pega no atestado de pobreza que a Rosário juntara ao processo, olha para a ré sentada muito compostinha no mocho e pergunta-lhe:

 

— Então a senhora é assim tão pobre como diz?

 

— Oh senhor doutor, tenho o dia e a noite…

 

— Mas traz uma saia nova?...

 

— Oh! «Carvalho»! Ainda agora a fui pedir emprestada à puta da Maria Pinheira, para não vir para aqui com o cu ao léu, e já me está a olhar para o «carvalho» da saia… Mas que porra de…

 

Ainda a Rosária não acabara, já o meritíssimo ordenava ao meirinho:

 

— Ponha a mulherzinha lá fora! Ponha a mulherzinha lá fora…

 

1600-n103 (1)

 

A Quininha do Relvas

 

À cadeia devia ir parar a Joaquina do Rilvas, não pelo que fez entre o feno, mas pelo jeito com que falou ao pai. Se não, vejamos:

 

Contava a Joaquina uns 15 anos incompletos, começou a circular entre as más línguas que o Zé da Poça a tinha enganado. Sabedor do que rosnava a respeito da filha, o pai da moça levou-a à examina. Se a rapariga estivesse virgem, calava as bocas do mundo; se desonrada, obrigaria o sedutor a casar ou dotá-la.

 

Os médico deram a Joaquina como desflorada e com sinais de comércio sexual antigo e frequente.

 

O Zé da Poça negou que tivesse sido o primeiro.

 

Foram para tribunal.

 

No dia do julgamento, iam pai e filha a caminho de Montalegre, diz o velho:

 

— Ó rapariga? Agora vê lá como falas com o doutor juiz, ouviste?

 

— Esteja praí calado! Eu sei bem como é que se deve falar a um doutor juiz, ou o que é que vomecê julga?

 

Chegaram à sala de audiências, o aparato do costume, as bancadas cheias de curiosos, diz o juiz:

 

— Levante-se a queixosa.

 

A Joaquina levantou-se, toda lampeira e coradinha.

 

— Então a menina jura que este senhor a desflorou?

 

— Pela minha salvação.

 

— Ora conte lá como é que as coisas se passaram.

 

— Olhe, senhor doutor juiz: eu e aqui o Zé da Poça andávamos com as vacas nos lameiros da Corga. Eu no meu e ele no dele, que são pegados. Então ele veio para junto de mim e meteu conversa. Ele disse que eu estava uma rapariga pimpona. Eu respondi que ele estava um rapaz pimpão. Ele puxou-me pelos úberes. Eu puxei-lhe pelos tomates. Ele filou-se em mim. Eu catrafilei-me nele. Começámos a estarroiçar no feno, aos rebolões. Eu mordi-o. Ele beijou-me. Eu atriguei-me. Ele encanzinou-se. Eu aluei-me. Ele aleivou-se…

 

— E depois menina?

 

— Só me largou depois de me ter cuspido no nascedoiro…

 

Bento da Cruz, In Histórias da Vermelhinha

 

 

30
Jun15

O Barroso aqui tão perto...

montalegre (549)

 

PALAVRAS LOUCAS, OUVIDOS MOUCOS…

 

O bispo ficou elucidado. Transferiu o P.e Cosme para Parvalheira da Serra, com ordens expressas de ser mais prudente, quando não, ficaria sem missa.

 

Remédio santo. Com medo de perder o ganha-pão, P.e Cosme não quis mais criadas novas de portas adentro. Lá se ia remediando de portas afora. E bem, segundo reza a crónica. A prova-lo, está o seguinte passo:

 

Uma vez estava a confessar um sacristão. Pergunta o confessor:

 

— Quem anda a roubar a lâmpada do Santíssimo e a caixa de esmolas?

 

— O quê, senhor abade?

 

— Quem anda a roubar o azeite da lâmpada e o dinheiro das almas?

 

— Não se ouve nada, senhor abade…

 

— Não se ouve ou não te convém?

 

— Não se ouve nada deste lado, P.e Cosme. Não Acredita? Passe Vossa Reverência para aqui.

 

Trocaram de poiso. Pergunta o sacristão:

 

— Quem anda a pôr-se na minha mulher?

 

— Que dizes?

 

— Quem anda a pôr-me os cornos?

 

— Tens razão, rapaz! Não se ouve mesmo nada…

 

Bento da Cruz, in “Histórias da Vermelhinha”

 

1600-sendim (25)

 

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21
Abr15

O Barroso aqui tão perto... Histórias da Vermelhinha

montalegre (549)

 

Freguês Antigo

 

Mas nem sempre o P.e Cosme bebia de graça.

 

Uma vez um de Parvalheira da Serra ia por um caminho adiante e encontrou vinte escudos.

 

— Já tenho para tabaco…—exclamou ele, todo contente.

 

E gastou o dinheiro em cigarros.

 

Mas depois teve um rebate de consciência e foi-se confessar.

 

P.e Cosme, que estava de bons azeites, disse-lhe:

 

— Pegas em vinte escudos, entrega-los à primeira pessoa que encontrares e estás redimido.

 

O homem saiu da igreja com vinte escudos na mão e a primeira pessoa que avistou foi uma rapariga que andava às leitugas num lameiro, à berma do caminho. Dirigiu-se a ela e disse:

 

— Toma vinte escudos.

 

— Não são vinte, são cinquenta — emendou ela.

 

— Mas o P.e Cosme disse-me que eram vinte… — contestou ele, meio intrigado.

 

— Ah, sim? Mas o padre é freguês antigo…

 

Bento da Cruz  in "Histórias da Vermelhinha"

 

1600-barroso XXI (198)

 

 

20
Fev15

O Barroso aqui tão perto... Histórias da Vermelhinha

montalegre (549)

 

Bela Parelha

 

P.e Cosme hoje anda de automóvel. Mas lá nos princípios dele andava de mula.

Mudou várias vezes de marca, até encontrar uma marca maior: besta de bons cascos e melhor dente, andarilha e possante como não havia outra. Só tinha um defeito: ainda era mais teimosa que o dono. Era ele a puxar para um lado e ela para o outro. Até que um dia o padre lhe deitou as unhas, a suspendeu do chão e lhe disse:

— Eh! Mula! Tu podes ser mais inteligente do que eu. Mais valente é que tu não és! Portanto, faz o que te mando.

Daí em diante, o abade e a mula deram-se como Deus com os anjos.

 

1600-bessa (66)

 

Ora acontece que um rapaz se veio confessar e o padre lhe perguntou:

— Já namoras?

— Não senhor.

— Mas já olhas para as raparigas?

— Lá isso…

— Com maus pensamentos?

— Às vezes… Mas não queria falar nisso agora.

— Porquê?

— Tenho medo que Vossa Reverência me ralhe.

— Meu filho: tens de te abrir comigo, para eu te ajudar a vencer as ciladas do inferno. Sou o teu director espiritual. Como é que te posso dirigir, se não souber o que se passa no teu íntimo? Abre-te, meu filho!

— Outro dia olhei para as pernas da sua criada…

— Ah! grande malandro! Então isso faz-se? Não sabes que tudo que pertence ao padre é sagrado? Para tamanho sacrilégio, só uma grande penitência. Vou pôr-te três dias e três noites a jejum absoluto. Escolhe: ou arrependimento, ou fogo eterno…

Naquela tarde, desapareceu a mula do P.e Cosme. O abade saiu a perguntar pela mula a toda a gente. Mas ninguém a vira.

Ao cabo de três dias, encontrou o rapaz do confesso:

— Viste por aí a minha mula?

— Está presa no moinho velho.

— E quem a levou para lá?

— Eu.

— Porquê?

— Encontrei-a a olhar para a erva da minha lameira.

— E depois? Por te olhar para a erva comia-ta?

— E eu? Por lhe olhar para as penas da criada, comia-lha, senhor abade?

 

Bento da Cruz, in Histórias da Vermelhinha

 

 

06
Nov14

O Barroso aqui tão perto... Histórias da Vermelhinha

montalegre (549)

 

AI, MINHA FALECIDA!

QUE MO TRAZIA QUENTINHO À CAMA…

 

Um viúvo de Paspalhó mandou falar em casamento a uma rapariga de Parvalheira da Serra. A mãe da cachopa ainda lhe disse:

 

«Rapariga não cases,/Com homem que enviuvou./Pois sempre está dizendo:/ — Mulher que Deus me levou…»

 

Mas como o pretendente era rico, a moça mandou a mãe à fava e casou-se.

 

Ao princípio, tudo foram tagatés e falinhas doces. Mas acabada a lua-de-mel, aliás curta, o velho ia para a cama e suspirava:

 

— Ai, minha falecida! Que mo trazia quentinho à cama…

 

A rapariga tantas vezes ouviu aquilo que um dia fez uma grande fogueira, levantou as saias e escachapernou-se sobre o lume até sentir a peida em brasa. Depois correu para a cama do velho.

 

— Ó homem? Prepare-se lá, que hoje trago-lho quentinho…

 

O velho, que o que suspirava era pela chícara de café que a falecida todas as noites lhe trazia à cama, deitou a mão de fora das mantas.

 

— Está bem. Obrigado. Vira-me para cá a asa.

 

— Oh, rais o partiram! Então a crica tem asas?

 

Bento da Cruz, in Histórias da Vermelhinha

 

 

17
Out14

O Barroso aqui tão perto... Histórias da Vermelhinha

 

GAITA-DE-FOLES COM OLHOS E BOLSA ROTA…

 

Um dia o Prica foi à feira da Venda Nova. Andava ele a ver o toural do gado, esbarra com o Lobete da Coimbró e o Raposo do Salto a marralharem o preço duma vaca.

 

Chamam-no para fechar o negócio.

 

Ora o Prica ficou, por assim dizer, entre o diabo e a mãe. O Lobete era primo; o Raposo, vizinho de porta.

Pergunta o Raposo, que, no caso, era quem vendia:

 

- Ó Prica, diz lá: a vaca é boa ou não é?

 

- É boa é! – responde o Prica em voz alta. E depois, cosendo-se com o primo em surdina: - Mas abortou há quinze dias…

 

Mas o Lobete ouvia mal…

 

- Que dizes?

 

- Que a vaca é boa! – Repete o Prica, arredondando a voz. E, entre dentes: - Mas abortou há quinze dias…

 

- O quê? – Volta o Lobete, pondo a mão em concha atrás da orelha.

 

- Que a vaca é boa! – Grita o Prica. E, voltando costas: - Vai-ta-foder…

 

Mas meia hora depois, o Raposo estava direito com ele.

 

- Vamos beber um copo.

 

- Obrigado, mas por agora não me apetece – responde o Prica, ainda com a má consciência de ter enfiado o barrete ao primo.

 

- Não me faças uma desfeita dessas! – Insiste o Raposo. – Com um sol destes, quem não há-de ter sede? Cá por mim, estou com um secão que nem me tenho nas pernas. Vamos ali ao Machado, que tem lá um verdinho detrás da orelha.

 

Realmente estava calor e o Prica sentia a garganta seca.

 

Aceitou o convite.

Estavam eles no balcão, aparece o Lobete. Atrás do Lobete, vieram outros. Agora pago eu, depois pagas tu, pelo varrer da feira o Prica estava com uma zurca de todo o tamanho. Comprou um quarteirão de sardinhas para levar à patroa, meteu-as entre a camisa e a coirata e juntou-se aos vizinhos que regressavam a casa. Lá veio vindo, monte arriba, de canto em esquina. À entrada do povo, apeteceu-lhe mijar. Desabotoou a carcela, puxou da cabeça duma sardinha para fora e pôs-se a mijar pelas pernas abaixo.

 

Sentido o mijo nas coxas, começou a gritar:

 

- Ó rapazes? Quereis lá ver que se me rompeu a veia da urina? Ai a minha desgraça…

 

E, olhando para a sardinha na mão direita, à luz do luar, benzeu-se com a esquerda:

 

- Tó, diabo! Há sessenta anos que te tenho, e só agora reparo que tens olhos…

 

Bento da Cruz, In Histórias da Vermelhinha

 

17
Abr14

O Barroso aqui tão perto... Histórias da Vermelhinha

 

HISTÓRIAS DE PADRES

 

História de Gatos

 

Menos prudente foi o outro a quem o P.e Cosme inquiriu:

 

- Facadas na castidade?

 

- Facadas em quem?

 

- Se já tiraste o virgo a alguma rapariga?

 

- À minha namorada.

 

- Quando?

 

- Pelo tempo das castanhas.

 

- E continuas a dar nele?

 

- Todas as noites.

 

- Aonde?

 

- Na cama.

 

- Na tua?

 

- Na dela.

 

- Quem é?

 

- A Zulmira Toutinegra.

 

P.e Cosme deu um pulo no assento. A Zulmira era o melhor virgo da freguesia. P.e Cosme fizera dela catequista das crianças e zeladora do altar-mor, na mira de a apanhar a sós na igreja e iniciá-la, a bem ou a mal, no culto de Vénus. Fizera já uma tentativa séria, mas fora repelido a unha e dente. Dente na beiçola, quando tentava beijá-la; unha no pau, quando, levantando de repelão a batina, lhe mostrava o aríete de cabeça ameaçadora apontada ao alvo… Atribuíra tamanha ferocidade à inexperiência da cachopa… E vinha agora este labroste dizer-lhe que a montava todas as noites… P.e Cosme sentiu ganas de lhe apertar o gasganete. Mas dissimulou  a raiva numa voz melíflua:

 

- E como é que tu fazes para ir ter com ela, meu filho?

 

- Vou pela eira, finjo que sou um gato: Miau! Miau!, e ela abre-me a porta.

 

- Ai, que grande pecado meu filho! Duplo e imperdoável pecado! Violação de domicílio alheio e da pureza de menina tão prendada! Só vejo um castigo digno de tal pecado: o inferno! Nem te posso absolver…

 

 

O rapaz ficou apavorado.

 

- A não ser – volveu o confessor – que me prometas uma coisa.

 

- O que Vossa reverência quiser.

 

- Me prometas solenemente que nunca mais lá voltas.

 

O rapaz hesitava.

 

- Lembra-te do fogo do inferno! – insistia o padre. – Prometes ou não?

 

- Prometo.

 

- Eu te absolvo. Vai em paz e não voltes a pecar.

 

O rapaz deixou a igreja e pau murcho.

 

Nos primeiros oito dias fugia da namorada como o diabo da cruz. Ao fim de quinze, espicaçado pela carne e pelas saudades, atirou o cinto às malvas: « Se tiver de ir para o inferno, paciência…»

 

Horas mortas, foi pela soleira da jovem amante fingir de gato: Miau! Miau! Miau!

 

Começaram de dentro: Buf! Buuf! Fff!

 

- Ah! Filho da puta! Que se eu te não tivesse ensinado a miar, já agora tu não me bufavas…

 

Bento da Cruz, In Histórias da Vermelhinha

 

 

27
Mar14

O Barroso aqui tão perto...

 

 

Quinhas? Tu Fechaste as Galinhas?

 

Estreia tão auspiciosa valeu ao P.e Cosme a nomeação para cura de Paspalhó, uma das paróquias mais pobres da diocese. Terra pobre, residência pobre. Apenas cozinha e sobrado, ligdos por uma varanda.

 

P.e Cosme instalou-se como pode e admitiu para governanta uma rapariga nova, forte e ingénua.

 

Fatal como o destino, oito dias depois, P.e Cosme e a governanta estavam, como se costuma dizer, de cama e pucarinho.

 

O escândalo chegou aos ouvidos do bispo, que subiu a paspalhó disposto a reconduzir a ovelha tresmalhada ao aprisco do Bom Pastor.

 

Ao vê-lo, P.e Cosme caiu das estrelas.

 

- Vossa Eminência Reverendíssima por aqui?

 

- Chiu!, Não façais alarido, P.e Cosme. Vou a Santiago de Compustela incógnito e não quero que a imprensa me descubra. Por isso, escolhi estas veredas. Dais-me guarida, por esta noite?

 

- Entrai, Eminência, entrai!

 

P.e Cosme introduziu o bispo na cozinha e correu ao sobrado a esconder uma das almofadas que enfeitavam a cama do casal. Depois chamou uma vizinha, cozinheira reformada dum hotel de Braga, para ajudar a fazer a ceia.

 

 

Enquanto ceavam, P.e Cosme foi adiantando que, atendendo ao desconforto da residência, onde, até, por desgraça, havia só um leito, uma vez que  a criada ia dormir com a vizinha (e aqui o P.e Cosme, à surrelfa, empiscou um olhito cúmplice à cozinheira reformada), Sua Eminência iria dormir a casa do morgado, a quem já mandar aviso, e cujo solar dispunha de aposentos dignos de Sua Reverendíssima.

 

Mas o bispo cortou-lhe a vazada. Que não, senhor. Que dormiriam juntos. Que aproveitariam parte da noite para praticarem sobre os mandamentos da Santa Madre Igreja.

 

Finda a ceia, a governanta acompanhou a vizinha, e cura e prelado foram para a cama. Já reclinados no leito, diz o bispo:

 

- P.e Cosme, agora que ninguém nos ouve, a sós perante Deus, quero que me diga o que há de verdade acerca duns rumores que por aí correm a seu respeito.

 

- Que rumores, Eminência?

 

- De mancebia com a governanta.

 

- Oh! Eminência, que grande calúnia! Como Vossa Reverendíssima pode testemunhar, nesta pobre casa só há um leito e a governanta vai todas as noites dormir com a vizinha.

 

- Então é mentira?

 

- Juro, por Deus, que me há-de julgar!

 

O bispo bateu-lhe paternalmente nas costas.

 

- Acredito, meu filho! Ainda bem que é mentira. Vamos então dormir.

 

Apagaram a candeia e estenderam-se, um ao lado do outro.

 

Dali por um bocado, P.e Cosme, meio tolo do sono, espeta uma palmada no cu do bispo e exclama:

 

- Quinhas? Tu fechaste as galinhas?

 

Bento da Cruz, in Histórias da Vermelhinha

 

 

07
Mar14

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

Os banhos de Aquæ Flaviæ

 

 

Brotam das parafundas da nossa Veiga águas enxofradas e mui cálidas, desde que o mundo é mundo e o Tâmega corre ó p’ra baixo.

 

Uns dizem que as esquentam as paredes do inferno, outros um vulcão (!) que um dia nos há-de engolir e outros uma caldeira a que ninguém sabe o poiso. Seja como for, o certo é que desde tempos imemoriais que esta fonte geotérmica vem sendo o ex libris da região. A ela se deve o lugar e o nome da nossa excelsa cidade.

 

Nas margens do curso de água que, preguiçosamente, atravessa o povoado, aproveitando o atalho cavado pela falha geológica que originou a Veiga, aflora aquela água, no epicentro da urbe a que os romanos quiseram chamar Aquæ Flaviæ. À principal fonte, sita no Tabolado, os flavienses puseram o nome de Caldas.

 

Foram os romanos, povo conquistador, que no século I delas se apossou à força da Sétima Legião Gémina de Titus Flávius Vaspasianus. Os de Roma depressa lhes encontraram proveito. E tanto as usaram para sarar as maleitas do corpo, como as do espírito. Para o efeito construíram balneários, dando assim o corpo a banhos e a alma à prodigalidade ao ócio e quiçá à intriga.

 

 

Sempre houve dúvidas sobre a verdadeira localização destes banhos. Uns afirmavam que estariam soterrados nos caboucos do Convento dos Anjos, outros na foz do Ribelas, na sua margem esquerda. Afinal, nem estavam num sítio nem no outro. Descobriu-se, em 2008, estarem no Arrabalde sob o terreiro do antigo mercado municipal. Ali se mantiveram, provavelmente, até ao século V, altura em que os Suevos invadiram a cidade e os teriam destruído. Sabe-se que deveriam ter sido reconstruídos, uma vez que foram de novo demolidos, por razões estratégicas, no período da Guerra da Restauração, entre 1640 e 1668.

 

O Dr. Francisco da Fonseca Henriques, natural de Mirandela, médico de D. João V, rei de Portugal, dedica aos banhos de Chaves[1] algumas páginas da sua obra Arquilégio Medicinal. É muito interessante o relato e talvez um dos mais antigos que se conhece. Pelo interesse, convoco algumas das mais curiosas passagens. Respeitarei a forma original da letra para maior proveito do leitor. O Dr. Mirandela, como era conhecido, começa por nos dizer que:

 

“Estas são as melhores Caldas que há neste Reyno para achaques frios de nervos, de juntas, e mays partes do corpo, a que se devaõ aplicar banhos de Caldas. Nascem ellas entre a muralha da fortificação da Praça de Chaves e o rio Tamega, em huma grande planície, a que os naturaes da terra chamaõ Tabolado, por ser lugar em que fazem os seus festejos de cavallo, e os exercícios militares; e alli abrindo huma cova, com a mão que seja, em qualquer parte deste território, sahe em muyta copia ágoa calidissima, que tirada das Caldas, se conserva quente nas quartas todo hum dia.”

(Henriques, Francisco da Fonseca, Arquilégio Medicinal, pp. 26-27)

 

 

 

De seguida relata alguns episódios de cura, quase milagrosos:

 

“São estas ágoas tão eficazes em curar os achaques frios de nervos, que excedem a quantas Caldas temos em Portugal, e às de Ledeima em Castella. Em algum tempo houve casa de banhos no mesmo sítio das Caldas; mas na guerra da feliz acclamaçaõ delRey D. João IV as mandou desnecessariamente demolir o conde de Mesquitella, que governava as armas daquela Província; deyxando privados os doentes do benefício das Caldas; de tal maneyra que da mesma província, e da mesma terra das Caldas, estavaõ indo às de Ledeima buscando o remedio que deyxavam em suas casas, ou às suas portas, pelo esquecimento em que ficaraõ depoys que naõ houve casa de banho em que se usassem; até que nós as lembramos, porque vendo a qualidade, e copia das agoas, que nos pareceraõ excelentes para os ditos achaques, aconselhàmos a alguns doentes que tomassem banhos em tinas, com que se curavaõ felizmente. A primeyra pessoa que de distancia de sete legoas fizemos ir a estas Caldas, foy huma mulher nobre, já quadragenária, que havia anos estava com huma parlisia universal, de forte lesa, que só a língua movia, e falava.Entrou a tomar banhos de tina; e no terceyro se restituio o movimento de maneyra que andou pela casa, e continuando com elles, sarou perfeytamente. Este caso fez resucitar estas Caldas por ser esta pessoa conhecida em toda a Provincia e assim foy havendo concurso a ellas com admiraveys sucessos.

 

[mais à frente continua]

 

A Condessa de S. João Dona Anna de Lorena, hoje Religiosa no Convento da Madre de Deos dessa cidade, tomou banhos destas agoas em Nantes, lugar distante meya legoa de Chaves, e sempre se batiaõ muyto, para ficar em calor moderado, capaz de tomar banhos, com que melhorou das queyxas que padecia.

 

Luis Vahia Monteyro, hoje Governador do Rio de Janeyro fez ir agoa destas Caldas a Villasboas, distante de Chaves dez legoas, onde sua mulher tomou banhos, para se curar de alguns achaques, de que se temia huma esterilidade; e ainda que a agoa chegava fria, e se aquentava para entrar no banho, eh tal a sua virtude, que a curou dos achaques que padecia e pouco depoys da cura se fez fecunda. As pessoas, que por pobresa naõ podem tomar os banhos em tinas, fazem uma cova em que caybaõ no mesmo lugar das Caldas, e alli se enterraõ para não morrerem; porque assim se curaõ.” (ib. ibid.: pp. 28-29)

 

 

Ainda um caso que considera prodigioso:

 

“Entrando hum pobre muyto hidropico no pátio das Casas de Duarte Teyxeyra Chaves, que nesta Corte foi Conselheyro do Ultramarino e Tenente general de Artilharia da Corte, e Reyno, o mandou recolher sua mulher em huma casa terrea no mesmo pátio fazendo-lhe chamar Medicos, e Cirurgiões, que o curassem. Prohibiaõlhe eles agoa; mas o pobre apertado de sede, la se arrastava como podia, e foi bebendo daquella agoa de que usavaõ os porcos, cujas viandas se fazem com agoa das caldas; e em breve tempo estava saõ o hydropico, sem saberem os Medicos a que atribuir a melhoria, até que o doente confessou o delito, que foy todo o seu remedio.” (ib. ibid.: p. 31)

 

Depois diz-nos que:

 

“Nos gallicados as usamos também algumas vezes; naõ para os curar de gallico, que isto faz melhor o Mercurio, mas para os achaques de nervos que necessitavaõ de Caldas. E doente houve, que sendo toda a sua vida valetudinario, e morboso, o que se attribuía a ser filho de pays gallicados, e a ter elle, adquirido também este contagio, dando-lhe hum estupor legitimo no rosto, lhe aconselhamos banhos destas Caldas, de que usou tomando ao entrar no banho hum xarope de salsa parrilha, como se costuma fazer nos suores de estufas, e tendo depoys regimento da mesma salsa, naõ só se curou do estupor, mas ficou com muyta boa saúde remediado de todos os mays danos, que se imputavaõ ao contagio gallico.” (ib. ibid.: p. 32)

 

E ainda que:

 

“Nós sabemos de huma menina de seis meses, que tomou no mês de Agosto dezoyto banhos, em nove dias, para se curar da debilidade, ou laxaçaõ de huma perna, que não podia mover, de que houve o bom sucesso que se dezejava.” (ib. ibid.: p. 33)

 

Numa breve fussadela pela história das Caldas de Chaves, e seguindo de perto o relato doNovo Aquilégio[2], percebemos que, em 1807, dois anos antes da visita indesejada dos franceses do duque da Dalmácia, houve um primeiro projeto de construção de um balneário para banhos. Porém, a montanha pariu um rato e o projeto quedou-se tão simplesmente por uma singela proteção a uma das muitas nascentes, mandada erigir pelo futuro rei João VI. Dela ainda se conserva a lápide exposta junto da atual buvette: MILIT. XENODOCH.UTILIT. O.PUBLIC. JOAN.PRINC:REG:O:P:P:= A N MDCCCVII

 

 

Mais tarde, já em 1892, Alfredo Luís Lopes relatou desta forma um outro projeto de construção do balneário, que se haveria de quedar pela intenção:

 

“Consta-me que ultimamente por iniciativa do visconde de Alentem, do Porto, se projecta a construção de um grande estabelecimento hidroterápico, em que convenientemente se explorem as especiais águas da municipalidade de Chaves. É para desejar que tão louvável projecto se realize e que, no futuro balneário, se instalem os banhos de vapor mineral, a que estas termas tanto se prestam e que poderiam, perfeitamente, rivalizar com as de Baden-Baden. Os banhos davam-se então em pensões ou casas particulares para onde a água mineral era transportada sem perder o calor: É tão elevada a termalidade das águas que para quase todas as casas de Chaves elas são transportadas, a fim de ainda quentes se aproveitarem em usos medicinais e caseiros.”

 

Em 1899, a Câmara Municipal de Chaves adquiriu o alvará de exploração das águas. Nesse mesmo ano, confiou a Terra Viana a missão de elaborar um estudo para uma edificação balnear.

 

A Crónica da Vila Velha de Chaves, em 1912, relata que a primeira câmara republicana da cidade adjudicou as Caldas ao banqueiro flaviense Cândido Sotto Maior, com o compromisso da construção de um balneário. Contudo, a Grande Guerra e as dificuldades de transferência de fundos do Brasil para Portugal, onde este capitalista tinha a sua riqueza, inviabilizaram os seus planos, abortando o desiderato em 1919. Em 1920, o coronel Aníbal Montalvão planificou um novo projeto, interrompido pela sua morte em 1923.

 

 

Em 1934, a Câmara Municipal mandou construir uma buvette, ao tempo muito criticada. Sobre essa captação escreveu Joyce Diniz, em 1940:

 

“A captagem não oferece garantia hidrológica nem higiénica e sobre ela mandou construir a Câmara daquele Concelho uma buvette, que não foi autorizada pela direcção Geral, a água é levada para várias pensões vizinhas, nem só modestas mas mesmo sórdidas, onde são dados banhos. A água termal anda perdida entre as areias, nas margens do Tâmega, rebentando à superfície, em diferentes pontos. No vasto areal da margem do rio e junto à buvette, têm lugar periodicamente grandes feiras de gado de que resulta, forçosamente, a impregnação das areias pelas urinas de milhares de cabeças de gado vacum, suíno, caprino, etc. E é através dessas areias que corre a água medicinal, para chegar à buvette, aonde é distribuída ao público gratuitamente, por uma empregada vestida de bata branca, paga pela Câmara Municipal, consequentemente com chancela oficial.”

 

 

 

Na Hidrologia Portuguesa de 1946, o engenheiro Acciaiouli também fez menção, aliás muito pouco abonatória, àquela exploração que não contava ainda com qualquer balneário. Em 1945, tinha sido nomeado um diretor clínico, que, segundo aquele engenheiro, tivera de “vencer grande resistência para a inscrição dos doentes, desde sempre habituados a fazer o tratamento como queriam. Somente a empregada da Buvette dava as suas indicações sobre a quantidade de água a beber.” Acciaiouli termina o seu escrito referindo que se guardava a resolução do governo sobre as medidas a tomar a fim de terminar esta irregular situação.

 

Aquele diretor clínico era o flaviense Mário Gonçalves Carneiro, que, em 1945, tinha defendido em Coimbra a sua dissertação ao doutoramento, sob o tema dasCaldas de Chaves.

 

Contudo, o Tabulado estava quase na mesma e a buvette, tão criticada em 1940, continuava firme e hirta. Tratava-se de uma construção semicircular, aberta em colunas para o exterior, ao gosto da primária arquitetura do Estado Novo.

 

O local foi assim descrito por Mário Carneiro:

 

“Apenas existia uma Buvette com colunas ao gosto romano, de água não captada, e junto algumas Pensões e Hospedarias, uma delas a Pensão Jaime construída mesmo junto das nascentes, todas rodeadas de terrenos onde eram lançados os estrumes de lojas de animais e feitas várias plantações hortícolas. […] Numa enorme extensão de terreno plano, chamado Tabolado, realizava-se semanalmente a feira do gado e no ribeiro Rivelas lavava-se roupa doméstica e num poço de água quente ao lado da Buvette depenavam-se galinhas. Na cidade havia o chamado Grande Hotel (com vinte e três quartos de dormir e sete quartos de banho), e várias Pensões.”

 

O médico montou o gabinete de consultas na sua residência da Rua Direita. Aí recebia os pacientes e prescrevia o tratamento, constando, geralmente, da ingestão de água, de banhos e de dieta. A prescrição era entregue pelo aquista no Hotel de Chaves ou nas pensões que possuíam quartos de banho ou que tinham prática balnear com tinas portáteis.

 

 

 

Em 1948, o direito de exploração das águas foi vendido, por cento e vinte contos, à empresa Termas de Portugal. Curiosamente, esta empresa tinha sede em Lisboa, no endereço do palácio do banqueiro Sotto Mayor. Este comprometeu-se a executar as captagens e a construção de um balneário e de uma nova e mais moderna buvette.

 

 

Em 1949, iniciaram-se, por conta do Estado, as obras de desvio do Ribelas e a demolição da antiga buvette. No ano seguinte, finalmente, abria o edifício provisório dos balneários. Em 1952, foi inaugurada uma nova buvette. De arquitetura arrojada, contrastante com a da cidade, esta nova estrutura em cimento armado tem a forma circular, com cobertura em cogumelo, assente em colunas. A nova edificação, contemporânea da ponte Engenheiro Barbosa Carmona, que, finalmente, aliviava as costas à velhinha Ponte Romana, emprestava uma cara nova a uma cidade velha. Esta buvette aparece descrita no Anuário de 1963 nestes termos: ”Pelas suas proporções e traça arquitectónica deve ser considerado como um dos mais belos exemplares das estâncias crenoterápicas portuguesas.”

 

 

Em 1962, as termas regressaram à edilidade, a qual, com auxílio do Estado, as reaveria por mil e duzentos contos de réis. Desde logo se haveria de providenciar à construção de um novo e mais amplo balneário, concretizado dez anos depois e inaugurado em 1973. Um dos melhores da Europa termal.

 

Numa obra publicada em 1964, sob o título As Caldas de Chaves no Passado, no Presente e no Futuro, Mário Carneiro dedicou o último capítulo a este novo balneário. Propôs a construção de um hotel próximo que pudesse acolher os aquistas que crescentemente procuravam as curas destas águas. Curiosamente, mencionou também aquilo a que chamava nascentes bastardas. Identificou algumas delas, arredias da concessão camarária: a de água férrea, a meia distância entre a buvette e a ponte do Ribelas; a das poldras do Tâmega, um pouco a jusante destas pedras salteadas que atravessam o rio; a da pensão Rito, no seu quintal da rua das Longras; as da rua do Tabolado, uma na pensão das Caldas, e outra no quintal do Dr. João Baptista de Morais e, ainda, a do Grande Hotel de Chaves, cavada em poço fundo.

 

 

 

O dedicado diretor clínico, que emprestou quase toda a sua vida profissional a estas águas, esclarece-nos que, em 1982, se tinha procedido a uma perfuração da rocha aquífera e a obras de recuperação de toda a área envolvente do parque termal. Algumas unidades hoteleiras foram renovadas e construído o Hotel Aquae Flaviae, com ligação interior ao balneário, que haveria de ser ampliado, em 1992, para uma melhor resposta aos utentes aquistas.

 

 

O Dr. Mário Carneiro, Carneirinho, como carinhosamente era conhecido por todos, continuou como diretor clínico das Caldas de Chaves até 1 de Janeiro de 2004. Aposentou-se após 58 anos de dedicação às Caldas de Chaves. Antes, a 22 de Setembro de 1996, após cinquenta anos da sua tomada de posse como diretor clínico, a Câmara de Chaves, muito justamente, prestou-lhe homenagem, atribuindo-lhe a Medalha de Ouro da cidade e construindo-lhe um busto no espaço das Caldas. Faleceu em 5 de Julho de 2008. Muito lhe deve a cidade e os flavienses.

 

 

 

Em 2005, iniciaram-se as obras de renovação das margens do Tâmega no âmbito do Programa Polis. Esta obra, há muito concluída, é a menina dos olhos dos flavienses, por proporcionar espaços idílicos para ocupação das horas de ócio. Com estas obras de requalificação, finalmente, as Caldas e o espaço envolvente ganharam a dignidade que se impunha há séculos.

 

Para terminar, umas notas curtas, saudosas, sobre as nossas Caldas:

 

Sabiam que a água quente, durante anos, foi acarretada à cabeça em cântaros de barro até às pensões onde os aquistas tomavam banhos e até às casas particulares para os usos mais diversos? Mais tarde, usaram-se os de folha da Flandres. Anos depois, apareceram os aguadeiros que transportavam os cântaros em estruturas montadas em mulas, machos e burros, o que permitia menos viagens, menos esforço e menos tempo. Depois, em carroças próprias e, mais tarde, até em automóveis. Era um negócio a que alguns se dedicavam.

 

 

E dos hóspedes do saco, ouviram falar? Pois, eram os hóspedes pobres que vinham a tratamentos mas que não podiam pagar a pensão completa. Por isso, arrendavam um quarto numa pensão ou numa casa particular, com contrato do uso da cozinha. Aí cozinhavam o que traziam no saco. A Pensão Jaime era das que tinha mais destes hóspedes.

 

E quem se lembra dos esgotos que conspurcavam o rio a montante da Ponte Nova? Aí desaguava também um ancho cano de água quente das Caldas. No inverno, com o frio das geadas, parecia a chaminé do Texas. Lá se depenavam as galinhas e se pelavam os leitões. Também nesse espaço, entre a maior imundice, alguns se fartavam de pescar barbos, bogas, escalos e reibacos que vinham à babuja do esgoto. Depois, percorriam as ruas da cidade vendendo o peixe porta a porta!..

 

Quem de nós, depois das tainadas e dos copos, não foi cuidar da digestão, difícil, à bica das Caldas?

 

Quem de nós não foi aquecer o traseiro e desengaranhar as mãos e a língua, nas noitadas de geada, à chapa inox dos poços das Caldas?

 

Quem de nós não foi para os recantos da buvette, pró roço, com as moças catrapiscadas nas tardes soalheiras de primavera no Jardim das Freiras?

 

Tempos de outras caldas!

 

As Caldas de Chaves fizeram e continuam a fazer a cidade grande e bela. Hoje constituem-se num espaço que enche de inveja qualquer forasteiro que nos visite. Nós, muitas vezes, não lhe damos o verdadeiro valor porque os santos de casa continuam a não fazer verdadeiros milagres!..

 

Fazemos mal, porque águas destas não correm em qualquer cano!



[1] Cap. I Título XV pp. 26-33

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